História Sold My Soul. - Capítulo 4


Escrita por: ~

Postado
Categorias My Chemical Romance, The Used
Personagens Bert McCracken, Bob Bryar, Dan Whitesides, Frank Iero, Gerard Way, Jepha Howard, Mikey Way, Quinn Allman, Ray Toro
Exibições 48
Palavras 6.810
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Drama (Tragédia), Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Slash, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Necrofilia, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Oizinho, pessoas!

Antes de mais nada, queria agradecer imensamente pelo feedback dessa história e todos os comentários e surtinhos anteriores, cs são incríveis demais e tão me ajudando muito a construir esse mundinho aqui.
A demora da postagem foi por motivos pessoais mesmo, to adiantadinha na história, e a próxima demora vai ser pelo mesmo motivo. Vou viajar essa semana/na outra também e estou terminando o período letivo também na semana que vem, então vou ficar ausente nos próximos quase dez dias, ou seja, provável que Sold My Soul (e as demais fics que estou postando por aqui) só venha ser atualizada lá pro dia 10 de dezembro, mas vou tentar adiantar um tantinho isso, não se preocupem!

Sobre o capítulo de hoje: é bem diferente dos dois primeiros e vocês vão entender que isso aqui não é só exorcismo trevoso rolando toda hora. A linha de acontecimentos dessa história é complexa e diferente de tudo o que eu já fiz, então ela é bem imprevisível. E, como eu tanto gosto de reforçar, é bom ver esses capítulos grandes com bastante coisa acontecendo, sem necessariamente ser "enrolação", a construção de Sold My Soul é mais profunda, porém substancial e com ação ocorrendo o tempo todo, até mesmo nos "fillers", o que não é esse caso (não ainda, mas a gente sempre acaba fazendo uns fillers de leve).
Como vocês viram no episódio (risos) de Supernatural Emo, aka Sold My Soul, o Michael desapareceu e esse capítulo é um pouco sobre o desenrolar disso. A primeira parte, inclusive, é sobre esse momento, o que isso vai desencadear, então é importante prestar atenção. PRINCIPALMENTE NO PRÓXIMO CAPÍTULO. Por isso vou postá-lo com calma, assim que me desocupar, pois ele querer uma leitura extensa e é o maior desses seis primeiros
Capítulo do Gerard, interação do OTP, Bert sendo fofinho e paranoico, coisinhas acontecendo e, como sempre, aquele final bem estilo Maria, pra destruir vida mesmo e psicológico lá no chão, pois me divirto muito com isso.

Boa leitura, demoninhos. ♥

Capítulo 4 - Gerard


Fanfic / Fanfiction Sold My Soul. - Capítulo 4 - Gerard

Capítulo Três – Gerard

 

“God judged it better to bring good out of evil, than to suffer no evil to exist.”

– Saint Augustine

 

 

- Eu vou ter que repetir quantas vezes mais que eu não matei o seu irmão?! – Frank desceu as escadas da entrada principal da casa dos Oswald e eu era sua sombra constante, desde que ele havia despertado daquele desmaio ridículo e cujo eu julgava ter sido forçado. – Você sabe muito bem que ele está vivo. – Ele continuou a retrucar, ao que eu podia escutar Robert conversar com Sr. Oswald, o que eu deveria ter me proposto a fazer, ao invés de escoltar Frank Iero feito um desesperado inexperiente.

 

 Mas era meu irmão. Era Michael que estava em jogo e eu era egoísta, um belo espécime de alguém que sabia muito bem virar as costas para os problemas dos outros assim que uma pedra surgisse em meu caminho. A resposta para o meu comportamento era até muito simples, até compreensiva: Mikey era a minha única família e a ideia de perdê-lo no mundo era inadmissível para mim.

 A última imagem que tinha era de seu rosto retorcido, sob a sombra do que quer que estava dentro de si. Olhos negros, a boca ensanguentada, ao que as palavras cantadas de Frank pareciam surtir algum efeito, e eu estava perdido ao saber se era positivo ou não. O rastro de sangue pela sala havia sido deixado, quando Mikey correu, saltou da mesa e, na mesma velocidade inumana, lançou-se para fora da janela. Sequer calculei a altura do segundo andar da casa para o gramado logo abaixo daquela janela, mas a ausência do corpo, assim que me atentei a fazer algo que não fosse xingar Iero, era a resposta de que o mal o havia levado. Por segundos, me culpei, desde os primórdios de tudo aquilo, quando permiti que Mikey se envolvesse demais na arte obscura e dubitável do exorcismo… Eu sabia os riscos, deveria ter negado, gritado… Mandado que estudasse a tão amada medicina legista que queria fazer, mas não… Permiti que o meu irmão mais novo enfrentasse todos os riscos ao meu lado. E era bom ter uma companhia, até que alguma desgraça acontecesse.

 Minha opção era culpar Frank, fruto de toda a minha raiva parcialmente infundada e minha ignorância causada pelo súbito pânico que me tomou. Em partes, eu não sabia o poder que ele possuía, até os últimos dias e, precisamente, até aquela noite. E eu morria de medo… Não um tipo de medo que me fazia ficar escondido ou ver Frank como superior a mim. Era um tipo diferente, que me fazia correr atrás dele e buscar entender, ler mais além da fachada quase introvertida e endiabrada dele.

 Vê-lo caído no chão, com Robert desesperado e a trilha sonora de exclamações e uma conversa emocionada da família da jovem Jessica, agora completamente a salvo, era presenciar o oposto de sua versão atual. Frank era sereno, respirava pausadamente e pouco parecia pernicioso em um primeiro olhar. Era até bonito, com as sobrancelhas mais relaxadas e nem sempre arqueadas, parecendo sempre estar comedido a respeito de tudo. Então, Robert, seu inseparável amigo ou o que quer que seja, o acordou em poucos segundos e pude vê-lo fechar-se novamente, inteirando-se do que havia acontecido.

 Perdido, um ímpeto me fazia ficar ao lado de Frank, desde que despediu-se da família, permitindo Robert fazer o inquérito final e todo o resto. A ideia era sair, pegar meu Dodge e me lançar pelas estradas de terra do interior de Bordeaux, traçando uma rota imprecisa do caminho que meu irmão havia feito. Se é que ele ainda estava na França, afinal, eu havia aprendido na pele, principalmente nas duas últimas horas, a não subestimar um demônio repleto de instintos e inteligência.

 

- Ás vezes acho que você é burro demais para o que se propõe a fazer. Quer salvar o mundo de todas as pragas maléficas, blá, blá, blá… - Frank gesticulou de forma exagerada conforme falava, grosseiramente, carregando uma espécie de sacola antiga de couro, onde todos os apetrechos pertencentes a ele e Robert estavam, antes de deixá-la sobre o capô de seu tão chamativo carro vermelho e virar-se dramaticamente em minha direção. Os cabelos castanhos bagunçaram-se naquele mover e seus olhos se estreitaram, ao que eu parei, a poucos metros de distância de onde estava, longe o suficiente da casa para não mais escutar a conversa de Robert e os Oswald. – E não sabe nem ao menos distinguir quando um demônio fodido decide propositalmente fugir com o seu irmão ao tentar ser exorcizado. – Iero era uma desgraça em miniatura, me desarmando tão facilmente, nem mesmo quando o olhava com toda aquela intensidade. O cenário era até bonito naquele início de noite, estávamos cercados de árvores, arbustos e mais nada, nenhum limite dividindo a casa dos Oswald daquela floresta ao nosso redor, mas ainda sim… Ele tinha minha total atenção. – Isso é nitidamente uma armadilha!

 

- Quem me garante que não é um truque seu?! – Minha teimosia era um inferno, eu sei, mas ainda havia alguma coisa em Frank, imprecisa sob meu olhar, que desencadeava o pior da minha versão já naturalmente prejudicada em seu emocional. “Bom saber que confia mais em um demônio do que em um Iero… Sabe, o conhecimento da minha família é milenar!”, sua arrogância era quase divertida, ao perceber que deveria se segurar para não rir do meu desespero, ao que quase arremessei minha maleta em sua direção, precisando me focar para respondê-lo. –Mais alguma coisa que precisa jogar na minha cara além de eu ter sido incapaz de salvar Michael? Ainda acho que nada disso teria acontecido se vocês…

 

- Se não estivéssemos lá, Michael teria matado toda aquela família inteira, talvez até você seria empacotado e estaria prestes a ficar bem acomodado a sete palmos do chão! – Frank e aquela mania de arquear as sobrancelhas, tão pseudo superior, ainda me fariam cometer atrocidades. E tudo piorava quando ele continuava a falar, opondo-se ao ser ar sempre tão quieto. Talvez a minha presença também lhe causasse algum efeito iminente. – Você precisa aceitar essa merda e seguir em frente… Achar seu irmão, matar demônios com arminhas elétricas por aí ou o que quer que vocês façam.

 

- Nós não vamos deixar ele fazer isso sozinho? Achei que ao menos a gente fosse ajudar, sabe… Moramos aqui há tanto tempo, é basicamente território nosso e… Oh, okay. – Robert, antes tão tagarela e quase me dando uma pontada de esperança, surgiu passando por mim, ao que escutava a porta ser trancada logo atrás de mim, assinalando o final de mais um capítulo doloroso na vida de alguém. Frank encarou o amigo com a pior versão do seu olhar já naturalmente irritado, sempre direcionado a mim, calando-o a respeito daquela questão. Bem, talvez eu estivesse um pouco enganado sobre a índole de uma parte daquela equipe. –Okay… Eu vou pro carro esperar essa discussão inútil acabar. Não se matem, o mundo ainda precisa de exorcistas e eu não quero me meter com a polícia pra testemunhar a burrice de vocês… - Da mesma forma que passou por mim, ele parou por Frank, acertando um tapinha no ombro do amigo, que não se moveu um centímetro sequer, enquanto Robert seguia para o automóvel, ainda resmungando consigo. – Eu odeio a polícia, aqueles uniformes e…

 

 A verdade era que Robert parecia ter batido a cabeça em alguma sessão de exorcismo e nunca havia realmente voltado ao normal. Porém, se Frank o tinha como única pessoa confiável no mundo, quem era eu para julgar os fundamentos de uma pessoa tão irritante como ele?!

 

- Eu preciso de ajuda… – Ser direto nem sempre era o meu forte, mas eu vi, em um relance, que Frank estava prestes a me dar as costas e se unir a Robert naquele carro, então eu precisava ser extremista. Em tese, eu era a última pessoa do mundo a pronunciar aquelas palavras diretamente para ele, a certeza era tão clara quanto a de que ele iria rir da minha cara ou continuar com sua enxurrada de comentários venenosos ao meu respeito, mas, por Michael, eu ainda sim prossegui. – Não tenho nenhum problema em pedir isso, aliás… Você parece saber mais do que eu e meu irmão sobre o que quer que esteja acontecendo aqui. – Da mesma forma que eu era direto em querer alguma coisa, ainda mais salvar meu irmão, eu era em deixar Frank Iero cada vez mais impaciente. “Eu vou ter que desenhar pra você um gráfico mostrando a probabilidade quase nula de eu e Robert não termos nada a ver com essa merda?!”, ele franziu o cenho, levando uma das mãos para os cabelos, bagunçando-os quase atrativamente para o meu ver, ao que eu não deixei a implicância totalmente de lado. – Você disse quase nula, não impossível e… Ei, venha aqui! – Tão rápido quanto falei, ele me deu as costas, prestes a avançar sobre a sacola de couro com suas coisas, quando, um pouco mais autoritário e nada persuasivo, eu exclamei. – Não me dê as costas! Eu não terminei de falar com você, garoto!

 

 Ali, eu despertei o demônio que habitava Frank Iero desde o primeiro momento em que nos vimos.

 Voltou-se para mim, completamente fora de si. Eu sabia muito bem que dar ordens à Frank Iero era um atestado de óbito bem adornado, cheio de floreios e tudo mais… Pelo seu olhar fulminante, eu não duraria mais do que alguns segundos. E quando ergueu a sua voz, ele, mais uma vez, cresceu bem diante de mim. Poderia ter um rosto angelical, angular e quase um tanto feminino, mas quando se tratava de Gerard Way, Frank se deixava consumir por inteiro… E eu até gostava disso. Um tanto até demais ás vezes.

 Que Deus me perdoe.

 

- Eu não aceito suas ordens!Quem você pensa que é?! – Frank não só estava alterado, estava próximo, caminhando em minha direção, com a leveza de um pequeno gato adorável… A não ser pela intensidade de seu olhar e por inflamar-me diretamente com as chamas que emergiam dele. Iero, por alguns segundos, me pareceu muito mais aterrorizante do que qualquer ser mítico que eu havia enfrentado. Era isso: Frank era intimidante e isso desnorteava cada fragmento da minha alma de uma só vez. Não era exagero, eu podia sentir aquilo na potência com que descarregava suas palavras sobre mim. – Você chega cheio de pose, vestindo essas roupas caras e se achando no direito de meter nos meus métodos e no que devo fazer! Há tempos eu venho sustentando essa situação da forma mais pacífica possível, mas eu não vou permitir que venha cheio de narcisismo para cima de mim, só porque acha que pode. Eu não vou te ajudar, se vire sozinho! – E um dos seus dedos finalmente encostou em mim, cutucando um dos meus ombros, enquanto eu jurava que Frank estava quase ficando na ponta dos pés para me alcançar. Ele poderia ter o tamanho de um adolescente de quinze anos de idade, mas seu olhar e toda sua intrepidez eram de alguém que tinha muito mais do que vinte e tantos anos. Ele estava exausto por tanta coisa, que eu só queria entender e… - Aliás, você e o seu tão aclamado Deus que deem um jeito nessa merda! – Digamos que eu subitamente entendi, era tão claro, que me senti mais idiota do que quando achei uma ótima ideia ingressar no monastério: Frank não só tinha aversão à mim, ele tinha aversão ao que fazia.

 

- Para alguém que entoa enoquiano tão bem, é muito estranho mencionar uma atrocidade dessas… Ele é o mesmo Deus que as suas palavras pregam, sabe disso. – Não aumentei meu tom de voz, imitando-o ao arquear minhas sobrancelhas e, com a mão livre, delicadamente tomar Frank por seu pulso. Nossos olhares recaíram dramaticamente sobre o contraste de sua pele repleta de desenhos, cujos ainda eram uma incógnita para mim, e a minha tão pálida, ao mesmo tempo em que senti um calor por todo meu corpo. Era como se eu houvesse me transformado nas chamas do olhar de Frank de uma só vez, intrépido, pronto para intensificar aquela discussão. Até, claro, Frank continuar a falar e, obviamente, se livrar do contato de nossas peles e do que quer que estivesse ocorrendo tão inesperadamente.

 

- O mesmo Deus que assistiu ao seu irmão ser possuído de olhos fechados e não enviou sinal algum? Eu acredito nele, Gerard, mas minhas atitudes deixam muito claro que eu não concordo com toda essa cegueira religiosa e com tudo o que esse mesmo Deus faz por aí… Ou melhor, não faz. – Frank não apenas puxou sua mão, mas como também quase me empurrou, tocando-me rapidamente para tal, no início de algo que tinha tudo para ser um conflito cada vez menos ideológico. – Se ele é tão poderoso, que fizesse alguma coisa pra nos livrar de todos esses demônios e salvasse essas jovens de todo mal! Ele fez algo?! Não! Nunca faz! – Ali estava toda a amargura e um sentimento ainda inominável sob o meu olhar, mas que deixava Frank raivosamente enfurecido. Minha teoria a respeito de odiar suas próprias atitudes, o trabalho que havia sido deixado por sua família, só se concretizava a cada segundo daquela conversa. Frank não queria nada daquilo… Mas porque fazia? O nome de sua família não era argumento convincente para mim, ainda mais quando apresentava provas que quase o faziam parecer cético demais para um exorcista. – Ele deixou tudo em nossas mãos… Essas fodidas palavras angelicais, esses símbolos, as loucuras que colocaram em nossas cabeças ao longo de todos esses anos… Não percebe que isso não é uma bênção? Isso é uma porra de uma maldição!

 

 Pela primeira vez, desde que o havia conhecido e quase o matado por achar que era um charlatão, Frank se fez um pouco compreensível a mim. Despertou uma curiosidade a seu respeito que talvez eu já possuísse, mas mascarava com pitadas de inveja e implicação, fazendo-me olhá-lo diretamente em seus olhos, duas orbes carameladas tempestuosas. E com a mesma rapidez com que livrou-se dos meus toques e do que quer que assombrasse nós dois com sensações e desencadear de quereres dos quais ambos nitidamente fugiam, ele me deu as costas e preparou-se para adentrar o carro, designado por um dogma tão diferente do meu.

 E eu não dizia apenas em questão espiritual, mas em seus próprios e questionadores princípios. Como os meus eram tão diferentes dos dele, ainda enraizado exacerbadamente pela doutrina que por tantos anos segui, eu carregava uma sobriedade dentro de mim, acompanhada de toda a determinação que eu tinha em encontrar meu irmão. Eu sabia despir minhas máscaras, falar com a transparência de alguém que temia o pior e faria tudo o que estava ao meu alcance para trazer Michael de volta, mesmo que requisitasse um sacrifício: pedir ajuda ao meu maior desafeto ainda vivo.

 

- Por favor, Frank! – Bradei, não com uma irritação direta, mas com um pequeno desespero de alguém que via Frank me dar as costas, pegando a sacola de cima do carro e jogando-a para McCracken, já sentado no banco de motorista, que parecia resmungar alguma coisa para o amigo, em completo desespero. Eu sabia bem que Iero era um egoísta de mão cheia, mais ainda do que eu, quando abandonei toda a minha família e me despi indiretamente de Deus... Porém, uma coisa eu havia aprendido em anos de orações, anos observando falsos eclesiásticos e religiosos: eu sabia ver a bondade nas pessoas. E, por trás de um homem tão intolerante, eu podia ver fé. Não a mesma que a minha, mas a dele… Algo em que Frank acreditava e que havia feito com que eu continuasse tudo aquilo, abaixasse as armas e me entregasse em toda a minha humildade. – Eu estou falando sério! Eu preciso que me ajude. Michael é a única família de verdade que eu tenho… Eu seria capaz de morrer para vê-lo sendo ele mesmo novamente… Capaz de pedir ajuda a você, que basicamente representa tudo o que eu mais abomino no mundo, para tentar trazê-lo de volta ou ao menos encontrá-lo. Eu seria capaz de qualquer coisa, Iero. Qualquer coisa.

 

 Frank parou, uma das mãos espalmando a porta do carro, enquanto eu fitava as cicatrizes em sua pele, misturadas às suas inúmeras tatuagens, percebendo-o viajar para longe dali em seus pensamentos. Eu nunca havia sido averso a tal tipo de “arte” feita sob a pele, mas havia certo ar em Iero que causava uma maior atenção de minha parte… Eu me via parado, talvez mais descaradamente do que imaginava, encarando seus dedos, parte dos braços expostos, até me dar conta de que ele estava ponderando a respeito do meu quase implorar. Dentro de mim, eu orava para que eu não estivesse errado a respeito de duvidar de Frank e sua tão questionável índole.

 Partir sozinho em uma missão como aquela era quase suicídio. Eu poderia sim ser bom, viver enfiado em textos, cigarros, orações e um meio termo entre paraíso e inferno reais, mas eu não era um completo idiota em perceber que, com Frank e Robert inseridos naquela busca, Michael seria encontrado com o triplo de facilidade. Eu só esperava que Frank tivesse a mesma quantidade de compaixão que tinha ao esforçar-se tanto como o fez com Jessica ou a jovem de alguns dias atrás.

 Compaixão, piedade, empatia… E eu estava redondamente enganado em acreditar que Frank Iero não carregava tudo aquilo dentro de si.

 

- Vá para o seu carro e nos siga. – As palavras eram frias e nebulosas, como se fizesse um exacerbado esforço para falá-las, mas o seu olhar não. Frank fitou-me de soslaio, abrindo grosseiramente a porta do seu mini-cooper vermelho, enquanto o amendoado do seu olhar clamava um emoção que eu jamais havia visto. E, estagnado, maleta em uma das mãos, respiração ofegante e a mente indo e vindo em peças de um quebra cabeça chamado Frank, que eu não fazia ideia de como resolver, ele exclamou, um pouco mais alto, despertando-me. – Vai me fazer mudar de ideia?!

 

 Silenciosamente, eu segui até meu Dodge, ainda que a vontade fosse de profanar Frank e todos os seus acestrais por conta de tal comportamento tão seco vindo dele. Parar de pensar era uma boa escolha, então, pela primeira vez notando-me trêmulo e inquieto, adentrei meu carro, largando a maleta sobre o banco de Michael logo ao meu lado. Encarei aquele ponto por reles segundos, tempo o suficiente para que conseguisse me focar precisamente naquilo: em trazer aquele que deveria estar ao meu lado naquele momento, me dando ordens e fitando-me com seu ar jocoso, pronto para fazer alguma piadinha a respeito de minha súbita confiabilidade em Frank Iero.

 E antes mesmo que eu mergulhasse em mais uma boa dose de drama e sentimentalidade de minha parte, não tardei em acionar a ignição do meu carro e manobrá-lo, já seguindo aquele carrinho vermelho apressado pela pequena estrada que antecedia a casa dos Oswald. Por dentro, eu não só estava derrotado por precisar manter a calma e não me tornar um completamente alienado, mas dirigir incansavelmente de Londres até aquela cidadezinha no interior, havia esgotado parcialmente as minhas energias. Se eu não me privasse naturalmente de deitar em uma cama confortável e dormir por horas, eu já estaria cochilando com a cara no volante, quando precisei acelerar um tanto mais e guiar meu carro por um caminho mais escuro do que o ideal. O único foco de luz eram os faróis dos dois únicos carros que havia por aquele caminho tortuoso e arriscado. Toda a minha vontade de parar e vasculhar cada centímetro daquela floresta era mascarada por todo o meu senso de proteção. Tudo o que eu deveria ter feito para Michael e havia falhado.

 Era herança dos Way todo o espírito de culpa e inquietude quando algo saía do que planejávamos. A sensação de que um pesadelo estava caminhando para descarrilhar minhas atitudes era intensa, mas eu não permitiria que me afetasse tão diretamente. Estar sozinho, no desconhecido, era quase a minha especialidade, desde que havia enfrentado monastérios e os piores episódios que poderia imaginar a respeito de um jovem homossexual tentando se encontrar no lugar mais improvável de todo o universo. Foquei-me em uma oração que havia aprendido no seminário, destinada ao Arcanjo Miguel, uma intercessão utilizada em casos como aquele, em um desaparecimento ou a perdição de um ente querido.

 Deixei cada pensamento negativo de lado, estreitando meus olhos e me concentrando no caminho que tinha pela frente, ao resmungar a oração para mim mesmo. Assim, tratei de imaginar Michael ao meu lado, dormindo e finalmente quieto, acreditando ser uma boa opção para manter-me firme e não prestes a lançar-me em um penhasco, em total desistência. Então, o fiz durante os vinte minutos que se seguiram banhados de incertezas e desesperanças cada vez mais difíceis de serem cegadas.

 Assim que Frank e Robert diminuíram a velocidade do carro, percebi que já havíamos chegado a uma parte mais movimentada e pavimentada da cidade, ainda que bastante próxima de toda aquela extensão sombria de florestas, mato e probabilidades de encontrarmos serial killers espalhados na escuridão. O nosso destino final era uma rua deserta, estreita demais, uma espécie de pequeno beco escondido de todos os demais habitantes da cidade, sendo bastante compreensível o motivo pelo qual Frank e Robert haviam escolhido se refugiar ali. E, claro, eu não era burro em não ter certeza de que era para a “casa” deles que estavam me levando, muito menos tinha opção para impugná-los. Ainda que o ambiente fosse bastante hostil e eu imaginasse, de cinco em cinco segundos, que aqueles prédios iriam desabar a qualquer momento sobre o teto do meu adorável Dodge.

Fui obrigado a estacionar atrás daquela coisinha vermelha e me vi imaginando que, quem sabe, naquele momento eu poderia ser morto por aqueles dois, quando observei Frank ser o primeiro a sair do carro, parando diante da entrada decadente de um dos mais estreitos prédios daquela rua. Agarrando minha maleta, eu não demorei a sair do meu Dodge, checando se  fechei todas as portas, para então verificar a rua deserta mais algumas boas vezes, enquanto escutava gargalhadas agudas e uma música pesada ecoar de alguma daquelas construções antigas. Preocupações de lado, segui um Robert sorridente demais, desviando seu olhar ora para mim, ora para Frank, que educadamente parecia nos esperar diante da porta escura e enferrujada que deveria pertencer ao “esconderijo” dos dois.

 Iero lançou-me um de seus olhares enigmáticos, antes de abrir a porta e sumir por tal, quase arrastando a sacola com suas tralhas místicas pelo chão. Revirando meus olhos, tratei de seguir Robert, que fez um gesto drástico e exagerado para que eu seguisse em frente, e respirei fundo, me dando conta no tipo de enrascada que eu estava me metendo para salvar meu irmão. Mas valia à pena… Cada segundo em que eu achava que Robert e Frank iriam me matar, eu percebia que o mentalmente instável era, na verdade, Gerard Way e sua constante mania de apontar o dedo, julgar, esbravejar, antes de perceber a verdade.

 E a verdade era que os dois estavam em uma situação muito pior do que eu imaginava… E talvez eu me arrependesse de todas as piadas e comentários inapropriados sobre serem dois “pobres coitados sem um teto para morar”.Assim que subi um lance ruidoso de escadas, a fim de chegar no último apartamento daquele pequeno prédio, escondido por uma porta de madeira que rangia assustadora, me deparei com um amontoado de livros, móveis quebrados e uma bagunça que deixaria Michael de cabelos em pé, quando Frank praticamente socou o interruptor e me fez perceber que mudar de país, possivelmente por causa dos Way, havia sido árduo para os dois.

O local era um caos, pequeno demais para a quantidade de coisas que possuíam, a sala e a cozinha eram uma coisa só e eu não sabia muito bem quando se dividiam, pois as paredes amareladas eram cobertas de colagens, jornais, anotações, desenhos… Símbolos conhecidos e estranhos, fotos… Uma quantidade absurda de informações, que eu decidi não muito me focar, a fim de não ficar tonto. Notei um taco de baseball largado no chão, juntamente ao lado de um crucifixo antigo, quase milenar, o que quase me fez correr até este e colocá-lo em um lugar mais digno do que o carpete esverdeado e empoeirado daquele local.

O sofá vermelho era o único móvel livre de papéis e livros, me fazendo acreditar que alguém deveria dormir ali ou era um lugar sagrado para os dois… E, respondendo indiretamente à minha pergunta, Robert lançou-se sobre este, após fechar a porta logo atrás de mim, fazendo com que o móvel se arrastasse alguns centímetros no chão (aquilo, para mim, era capaz de causar um terremoto naquele velho prédio) e me obrigasse a procurar Frank com o olhar. O que já não era mais um martírio para mim há certo tempo.

 Três estantes com livros, pastas, objetos estranhos e enferrujados, cercavam as partes das paredes que estavam livres do caos Iero-McCracken, e, próximo a uma destas, uma geladeira antiga, da década de 60, estalava, assustando-me três vezes, desde o primeiro momento em que coloquei meus pés naquele apartamento. Um pequeno fogão e um microondas sobre a bancada empilhada de mais livros, copos e garrafas de cerveja, me fizeram ter certeza de que aquilo ainda era um lar para os dois, conforme segui Frank com os olhos e o vi revirar aquele ponto por segundos, até chegar a geladeira (também repleta de imãs prendendo imagens, textos e sabe-se lá o que mais) e ali servir-se de uma garrafa de cerveja já aberta. Antes que fosse pego o encarando, verifiquei mais alguns pontos atípicos daquele local.

 Uma janela enorme ficava aos fundos da sala, devidamente trancada, ao que, em seu exterior, notei um pequeno lance de escadas que deveria resultar em uma passagem para o possível terraço que possuíam, talvez tão pequeno quanto aqueles poucos metros quadrados de sala. Havia, por fim, um corredor, entre o fogão e uma pequena mesa com diversos exemplates de Bíblias novas e antigas empilhadas, que possivelmente escondia um banheiro e os quartos dos dois seres esquisitos que me encaravam como se eu fosse o mesmo objeto de estudo que seu exótico apartamento era para mim.

 Antes mesmo que eu justificasse a possível expressão enojada em meu rosto, conforme matatuva comigo mesmo a quantidade de insetos e ácaros que aquele local deveria colecionar, fui interrompido pela voz sempre divertida de Robert, ainda estirado em seu sofá. Não era como se eu imaginasse que ele fosse me ceder o lugar para descansar, longe de mim.

 Criaturas mal educadas.

 

- Não se preocupe, esse lugar é temporário… Frank diz que precisamos de mais espaço toda vez que traz mais merda pra cá. E eu só tenho que concordar. – Robert apoiava as pernas sobre o braço do sofá, os pés balançando no ar, como uma grande criança que Frank precisava cuidar. E eu acreditava infamemente nisso, quando, segundos após, Robert retirou o controle da TV debaixo de si, para ligar o aparelho, logo atrás de mim, sintonizando no primeiro canal infantil que encontrou.

 

 Era bizarramente engraçado ver o paralelo entre aquela normalidade de desenhos e pura preguiça e o atual Robert tão concentrado, atando cordas em uma jovem possuída há algumas horas.

 

- Bert e eu concordamos em ajudar, ainda que eu não esteja muito confortável com isso. Acredito que seja naturalmente óbvio a minha vontade de desistir dessa ideia inteiramente insana. – Frank começou, enquanto eu deixava minha maleta sobre a única prateleira vazia da estante ao meu lado sem deixá-la cair, com extremo cuidado (o óculos de Michael estava dentro desta e, desde que o havia guardado ali, a tratava como o meu bem mais precioso). Eu não desprendi meu olhar de Iero, enquanto, caminhando da “cozinha” até o ponto em que eu estava, ele tratou de se direcionar exclusivamente a mim, como se Robert não estivesse logo ao lado fingindo não prestar atenção em cada fragmento daquela conversa. – Já comuniquei um conhecido, enquanto dirigíamos para cá. Ele mora na região e acionou o pequeno grupo de "investigadores sobrenaturais” que mora pelos arredores. O que quer que tenha levado o seu irmão ainda não deve ter saído da França, provavelmente está arquitetando algo mais profundo do que conseguimos imaginar, levá-lo pode ter sido uma questão de distração… Então, pode ficar por aqui por um tempo. – No fundo, eu queria rir da expressão que carregava em seu rosto, como se eu fosse o mal do século, uma das milhares possíveis pragas que deveriam morar naquele apartamento, ao que franzia o nariz e tentava soar assustadoramente mais calmo do que o rapaz que quase avançou sobre mim na casa dos Oswald. – E espero que esse tempo seja o mais breve possível.

 

- Vou sair daqui o quanto antes, só preciso do meu irmão de volta. – A convicção em minha voz era típica de alguém que tentava firmar-se, quando precisava isolar-se em um canto e se deixar levar por todo um sentimentalismo que eu precisava sentir, mas que propositalmente me privava. Quanto mais eu fugisse do assunto “Michael”, mais me julgava apto a achar respostas. Só que não era assim… Afinal, eu sabia, em meu átimo, que eu estava à flor da pele e tudo refletia substancialmente em como eu lidava com Frank. – Eu só… Eu só preciso colocar a minha cabeça no lugar por alguns instantes… Então pode ter certeza de que não vou ficar muito tempo nesse buraco. 

 

- Gerard, assim que você achar o seu irmão, vocês dois podem voltar pro escritório altamente tecnológico de vocês em Londres e desaparecer daqui. – Iero era total impassibilidade em seu olhar, fala, até mesmo no modo como se interrompia para beber a sua cerveja e largava a sacola, que ainda segurava, em cima de um Robert que nada fez, a não ser jogar o objeto de couro no chão e continuar a ver desenhos animados. – Já estou tendo o bastante de você e não sei mais por quanto tempo posso aguentar a sua presença sem a vontade de te mandar de volta para o monastério de onde saiu e garantir que nunca mais me perturbe. – Assim, era até divertido de escutar, por alguns segundos, a diferença entre nossas vozes… Os sotaques distintos e a veemência com que insistíamos em discutir.

 

- Porquê você é tão repulsivo?! – A pergunta escapou, com a mesma facilidade que Frank tinha em ser indelicado sem limite algum, em uma hipocrisia de minha parte. Ele tinha um bom pretexto para continuar me tratando daquela forma e nosso atribulado histórico de desavenças era um bom espelho para tudo aquilo, porém, eu também tinha as minhas desculpas para que a minha paciência fosse nula perante Frank.

 

 Principalmente quanto as sobrancelhas se arqueavam, os olhos cravavam-se em mim como punhais afiadíssimos e, todo marrento, Iero deixava sua garrafa apoiada sobre uma pilha de livros, em um tremendo descuidado, para cruzar seus braços e caminhar até mim. Alguns pequenos centímetros nos separando, quando precisei ser forçadamente lembrado de que não estávamos sozinhos naquele buraco que chamavam de apartamento. E que eu deveria limitar o que quer que estava ponderando em minha cabeça, quando me vi descendo o olhar para o maxilar bem definido de Frank, seu pescoço tatuado e…

 Pelo amor de Deus, Gerard! Recomponha-se!

 

- Cara, essa é uma péssima escolha de palavras… Uma péssima escolha de palavras. – Robert resmungou, não nos interompendo diretamente, mas fazendo com que Frank e eu o olhássemos de soslaio por segundos. Olhares quase semelhantes, vindos de duas pessoas que não eram capazes de manter um momento ameno sequer e que perdiam inteiramente o controle quando estavam perto um do outro. – Acho que deveríamos pensar em táticas pra trazer o seu irmão nerd de volta e…

 

- Uma péssima escolha de palavras dele! Eu não sei onde diabos meu irmão está, se é que ainda está vivo e seu companheiro não sabe a diferença entre ser educado e intolerante. – Havia desespero em minha voz, não mais camuflado por raiva ou falta de paciência. Aliás, esta era nula, havia desaparecido de mim, quando me vi sozinho e desesperado o bastante para recorrer às duas pessoas que só se beneficiariam se Michael desaparecesse. Sem ele, eu não conseguiria seguir em frente… Sem ele, Frank e Robert tinham um mundo inteiro só para eles e eu havia perdido o meu. – Sei que nosso histórico não é muito bom, mas achei que tivesse ao menos um pouco de sensibilidade e que talvez pudessemos parar com isso, afinal… É a disputa mais idiota que eu já vi em toda a minha vida. – Claro que já havia pensado naquilo inúmeras vezes, a grande maioria quando ancitosamente deixava Frank fora de controle e quase despertava o pior lado daquele rapaz de baixa estatura. Sempre me perguntava até quando continuaríamos com atitudes tão incoerentes, quando, no fundo, não importava o que Frank pensasse: tínhamos o mesmo intuito de trazer esperança para a vida das pessoas, cada um ao seu modo. – Sabe, isso foi a pior ideia que eu poderia ter em toda a minha vida. Vou dar meu jeito, acho melhor… - A intenção era sair daquele apartamento e fazer as coisas do meu jeito… Não sei em que segundo exato achei que seria uma boa ideia fazê-lo, porém, uma força maior parecia trabalhar para que, daquela vez, eu não me afastasse de Frank Iero e não concluísse qualquer impulsividade condenável vinda de um Gerard descomedido pela única pessoa no mundo que era capaz de colocá-lo em seu lugar.

 

- Você não vai sair daqui. – Mais uma vez gélida, a voz de Frank ecoou e eu nem ao menos tive tempo de me mover, assustado com a última resposta que eu esperaria vindo de Iero e seu tão aclamado fascínio em me humilhar (este ligeiramente mútuo). Frank mantinha seus braços cruzados, porém a expressão era mais suave, enquanto eu levava uma das mãos para a gravata em meu pescoço, alargando-a, ao sentir-me sufocado sem nenhum motivo aparente. Tudo aquilo, a ardência percorrendo meu corpo e a inquietação dentro de mim, apenas por olhá-lo mais de perto, confrontando aqueles olhos dignos de um sortilégio, eram frutos de um descarrilhar dos meus trilhos que parecia não ter fim assim sempre que eu me deparava com Frank. – Eu disse que iria te ajudar, não que iria ser seu melhor amigo para todo o sempre e fingir que não tentou me atrapalhar inúmeras vezes, que me fez perder diversos trabalhos por toda a sua intromissão. Essa ideia toda pode me causar repulsa, mas eu sou um homem de palavra, por mais que você represente tudo o que os meus pais quiseram evitar durante todo esse tempo de trabalho. – Revirei meus olhos, em toda a minha falsa insolência, tentando ocultar o que quer que estivesse acontecendo comigo, ao respondê-lo com um “Não é como se você gostasse do que faz e se importasse de verdade com isso, não é?!” ácido demais para alguém que sabia quase a Bíblia inteira de cor. – Você não sabe de nada! Cale a porra da boca!

 

 Frank Iero tornou-se, então, todo o mal da Terra.

 Não propriamente dito, mas foi basicamente no que aquele ser quase adorável e de olhos grandes e brilhantes se transformou sob o meu desmazelo naquela provocação. Mas eu precisava… Aquele apartamento e toda a dedicação de Frank e Robert em seu trabalho não equivaliam ao ódio de suas palavras ou sua inquietação ao que eu o questionava. Havia mais, muito mais e, além de Michael e seu desaparecimento me motivando a ficar ao seu lado, eu queria compreender porquê Frank Iero odiava ser um exorcista.

 Okay, pensando profundamente nisso, era mais fácil listar motivos para abominar aquela “profissão” e eu quase me senti um idiota por querer impor a Frank a noção de que não deveria repudiar cada dia convivendo com demônios e entidades que testavam nosso psicológico. Afinal… Quem, em sã consciência, iria entrar para um mundo repleto de sombras e perigos, com a eterna sensação de pisar em um campo minado em toda casa amaldiçoada que entrávamos, em cada olhar profundo nas orbes enegrecidas e possuídas de uma alma inocente?! Quem iria fazer aquilo tudo por livre e espontânea vontade?! E eu iria fingir que todas as respostas para aquelas perguntas não começavam com Gerard e terminava em Way. 

 Frank e eu éramos opostos até mesmo na forma com a qual nos dedicávamos ao nosso mundo. Ele poderia ter a arte milenar em suas mãos, o histórico de uma família que respirava aquilo, mas… E se a linhagem terminasse bem ali? Com alguém que não suportava cada segundo de orações e entoações a um Deus que Frank aparentemente havia culpado e nunca iria perdoar?!

 Minha aptidão para aquilo veio também de um sentimento ruim, do ódio por ser negligenciado pela Igreja, por ver a hipocrisia que plantavam e entender que eu não deveria fazer parte daquilo, mas perceber que eu tinha uma escolha. Que eu poderia utilizar dos anos de estudos religiosos, do dinheiro abundante da minha família e de um irmão tão louco quanto eu, para trazer uma segunda, terceira ou até quarta chance para a vida de pessoas aflingidas por uma criatura que não sabia controlar e que, muitas vezes, sequer acreditavam. Enquanto o Diabo covardemente atacava os descrentes, eu, corajosamente, os instruía à fé… Não forçá-los, mas fazê-los entender que havia bondade no mundo e que ela era muito maior do que a humanidade pregava acreditar. E era por isso que as palavras recentes de Frank, a desistência da bondade expressa nestas, me deixavam inquieto.

 Então… No que ele acreditava?

 

- Ei, calem a boca os dois! – Robert gritou, saltando do sofá, arrancando o celular (que fazia uma música ridícula e cantada em uma língua oriental que eu desconhecia ecoar por todo o pequeno apartamento) de um dos bolsos da calça, utilizando as palavras mágicas para quebrar o contato visual de longos segundos que eu e Frank nos desafiávamos a manter. Ele, cheio de raiva, e eu cheio de… Eu não fazia a menor ideia de como eu me sentia quando estava por perto dele. Era essa a realidade.

 

 Angustiado e internamente pedindo para que aquilo se tratasse de notícias de Mikey, cravei meu olhar em Robert e o caminho atrapalhado que fazia entre livros, objetos estranhos e embalagens de comida espalhadas pelo chão, até aproximar-se da janela. McCracken era monossilábico, enquanto eu tentava desvendar aquela ligação à todo custo e, pelo silêncio de Iero, petrificado diante de mim, ele também fazia o mesmo. Afobado, Robert finalizou a ligação, sob meu olhar ansioso e o questionador de Frank, sempre incapaz de plantar uma expressão otimista em seu rosto, até afastar-se da janela. E eu tentava lê-lo, sem muito sucesso, apenas compreendendo uma preocupação em seu olhar, ao direcioná-lo diretamente para mim.

 Minha intuição nunca falhava, principalmente quando dizia a respeito da minha família.

 Era Michael, sem sombra de dúvidas era ele e Robert não se prolongou muito em despejar aquela tão esperada informação. E, sinceramente, eu preferia que ele tivesse ficado de boca fechada.

 

- Quinn disse que encontraram Michael há pouco tempo. – Enquanto Frank pareceu relaxar e descruzar seus braços sob aquela informação, quem sabe bastante satisfeito em saber que eu iria embora dali de uma vez, eu me retraí e prendi minha respiração. Os olhos azuis de McCracken não eram nada bondosos, animados ou remetiam a tranquilidade que eu buscava. Então, ele comprovou meus instintos cada vez mais infalíveis. – Mas, olha, temos um probleminha talvez um pouco preocupante… Bastante. Aliás, muito… Não sei se nossas habilidades sobrenaturais serão capazes de lidar com uma merda dessas. Bem que meu tio Godric me falou que era para correr dessa vida maldita, antes que a polícia chegasse muito perto e…

 

- Fala logo! – Frank e eu gritamos, em unissono. Eu, impaciente demais, sentindo meu corpo inteiramente entrar em uma série de tremores, ainda que um terremoto ainda mais cruel e de grandes proporções fosse me atingir logo em seguida, e Frank, sempre tão insensível e explosivo, como sempre. Robert ignorou nossa intolerância e prosseguiu, um pouco mais sério e menos naturalmente sorridente e feliz com a vida. Mais direto e pesaroso…Impossível.

 

- Ele foi encontrado após assassinar uma criança em uma fazenda no interior. Michael está preso e fodido. Bastante fodido.– Não havia oração forte o suficiente para tirar Michael daquele impasse, não havia como apelar para terços, versículos, cânticos antigos ou um latim gritado, preparado para livrar-nos de todo o mal. Pois aquele mal já havia criado raízes e eu tinha plena consciência de que, nem com todo o dinheiro que possuíamos e eu raramente recorria como uma saída direta, eu seria incapaz de cortá-las.

 

 Eu disse que preferia que Robert tivesse ficado de boca fechada, não disse? 


Notas Finais




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