História Sombras do Rio Antigo - Capítulo 1


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Categorias Originais
Tags Bruxa Do Rio Antigo, Bruxos, Cariocas, Espíritos, Malandragem, Vampiros, Zé Rubro
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Palavras 2.151
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Magia, Mistério, Misticismo, Terror e Horror
Avisos: Bissexualidade, Canibalismo, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - A Feiticeira do Rio Antigo


Fanfic / Fanfiction Sombras do Rio Antigo - Capítulo 1 - A Feiticeira do Rio Antigo

Rio de Janeiro, 1910.

 

  A Travessa do Mercado era um verdadeiro antro de prostituição, variando do médio ao mais baixo nível. A polícia não entrava ali por nada. Imaginava-se que mais de uma centena de mulheres faziam ponto na área, o lugar era escuro e favorecia os "negócios" feitos em plena rua para quem quisesse ver. Muitas prostitutas viviam agregadas a violentos gigolôs que assaltavam e em certos casos surravam os clientes.  Em pelo menos quatro casos, teriam ocorrido assassinatos famosos por sua obscenidade.

 Situações de derramamento de sangue eram frequentes e logo se tornaram ordinárias para seus frequentadores. Ainda que a fama do lugar houvesse se tornado muito negativa, não fora o suficiente para repelir jovens e trabalhadores que buscavam gastar o pouco de dinheiro que lhes cabia, em meia hora de prazer carnal, como alento para suas vidas desgraçadas.

 José se encontrava no auge de seus 18 anos, era um rapaz forte de origem mestiça e humilde, que encontrara na esperteza ligeira a sua única forma de viver. Após mais uma noite de farra e bebedeira, estava decidido a desbravar as entranhas de tal lugar na busca por diversão e uma boa história para se gabar entre seus confrades do morro onde morava.

 A entrada do lugar transparecia sua antiguidade e o propósito ao qual era utilizado, tratava-se de um arco de quatro metros de largura e arquitetura do período real. As paredes se tornaram escurecidas pelo fumo e descascadas pela urina, o chão de paralelepípedos tornara-se lama dos mais diversos líquidos derramados. Das janelas do segundo andar e das portas enfileiradas que se encontravam arco adentro, mulheres das mais diversas idades, tamanhos e aparências exibiam seus seios e pernas em roupas apertadas e de extrema vulgaridade, tal quais peças de uma vitrine a espera do momento de serem compradas.

 Em meio ao entra e sai de clientes, algumas meretrizes caminhavam anunciando seus preços e dotes, as mais pobres e desgrenhadas se ofereciam por valores tão baixos que mal podiam se alimentar, enquanto as mais belas e procuradas, cobravam o valor equivalente a dois terços do salário de um operário. O cheiro de algumas mulheres era inebriante fosse pelo seu estado decadente ou por seu perfume de sensualidade. José se sentiu atordoado ao adentrar. Sentia como se uma cortina houvesse se fechado ás suas costas, deixando para trás o mundo de onde viera e incentivando um novo e misterioso mundo, pleno de prazeres a serem desvendados.

 Ao caminhar avistou um trio de jovens amigos saírem de uma das portas, sorridentes e cambaleantes, um deles atirou um copo de cachaça ao chão, enquanto outro, descuidosamente colocou algumas notas enroladas em um bolso imaginário e deixou que caíssem. José se apressara para recolhê-las, mas uma jovem de seios fartos e feições atraentes foi mais rápidas e as introduziu em uma de suas meias. A moça voltou seu olhar ao rapaz com um sorriso atraente e seguiu seu caminho e assim ele também o fez. De uma das janelas ouviu os gritos de prazer de um dos clientes, e na porta abaixo, viu um maltrapilho ser erguido pelo pescoço por um homem alto e negro enquanto uma mulher com os seios desnudos cuspia xingamentos em seu rosto.

 Quanto mais adentrava aquele lugar, mais se sentia imerso em sua atmosfera, foi quando de uma das janelas viu uma linda moça de cabelos negros e pele alva lhe lançar um olhar cintilante o fazendo se sentir desejado. José não perdeu tempo, seguiu caminho rumo ao edifício no qual ela se encontrava, subindo direto o lance de escadas e ignorando toda e qualquer pessoa no caminho. O lugar era escuro, mas não fedia como se imaginava, ao invés disso, era envolto pela forte mistura dos perfumes que as mulheres se banhavam. Após vislumbrar por dois ou três apertados cômodos, finalmente chegou onde queria. Entrando silenciosamente e fechando a porta, iria fazer uma entrada ousada e charmosa quando foi interrompido pela dama que avistara.

- E então, o que vai ser? Trabalho completo ou só a metade?        

A jovem o deixou um tanto quanto desconcertado, em seu coração, ainda que já houvesse se formado a dura realidade das paixões e relações humanas, José conservava um aspecto romântico em sua personalidade.

- Eu prefiro começar com “como se chama”.

  Respondeu.

- Do que importa? Você não vai me ver de novo a não ser que se torne um cliente de confiança. - Apresentava um tom sínico teatralizado. - Vamos fazer assim, eu te dou o que você quer e você me dá o que eu preciso. Fim de conversa.

- Tudo bem, eu aceito, mas... Se você gostar do que eu te der, você me conta o seu nome.

- O que seria?  

- Eu posso fazer você sentir o que outros aqui não irão... E... – Uma insegurança leve o tomou. – Também posso pagar.

- Pode mesmo?

 José não sabia se ela se referia a sua capacidade ou a quantos réis tinha no bolso, mas sabia que as duas coisas lhe custariam tudo que tinha.

- De acordo, seja como for. – A moça falou conforme se despia. – Vem me mostrar do que você é feito.

 A dama disse em um tom singelo de desejo, e por fim revelou suas intimidades. As próximas horas se seguiram entre duradouros gemidos de prazer e o calor atordoante do sexo voraz, no final, ambos estavam deitados e exauridos um pelo outro. Nem em seus anos como puta, nem nos anos pregressos desde que perdera sua virgindade, aquela mulher jamais havia sentido tanto prazer em sua vida, José saia disso e estava satisfeito, tinha virado o jogo a seu favor, tendo a mulher que até aquele momento não sabia o nome, derretida de prazer por si.

- E então? Qual é o nome?

- Maricelha, mas você pode me chamar de mari.

José entendeu o porquê de a moça ter evitado dizer o nome. Ao ponto em que chegaram de suor e exaustão, o romantismo já havia se escoado pelos lençóis e agora só restavam as doses de água ardente e o prazer carnal.

 Levantou-se para pegar um copo, quando foi surpreendido ao ouvir um tenebroso e misterioso som semelhante ao de uma gargalhada feminina. Intrigado, estranhou ainda mais ao perceber que a mulher com quem se deitara, prontamente levantou da cama para trancar a porta e a janela em um rompante de medo irracional.

- O que foi isso?

- Faz silêncio droga!

A mulher sussurrou nervosa como se tivessem que ocultar suas presenças ali, e continuou em um tom mais baixo.

- Você nunca ouviu falar da Feiticeira do Rio Antigo?

- O que?

- Bárbara dos prazeres, a devoradora de crianças, a bruxa que assombra o Arco do Telles.

- Nunca tive o prazer.

- Não seja cínico. Dizem que ela já matou dezenas de pessoas por aqui entre putas e clientes, e que tem mais de duzentos anos, ela espreita os cantos mais escuros desse lugar em noites de lua cheia como essa e mata as pessoas mais jovens e belas que encontrar para se banhar em seu sangue.

- Me desculpa, mas não acredito em contos de bruxas e cucas.

- Mas nesse você deveria! Eu mesma já a vi. Uma noite eu estava encerrando o trabalho e voltando pra casa, quando de repente do escuro de um beco eu ouvi o grito de uma mulher, quando me aproximei. – Sua expressão mudou de uma euforia para um olhar distante, como o de alguém que viu coisas que não conseguem ser esquecidas. - Lá estava ela, vermelha em sangue, com uma cara de velha moribunda e as garras enfiadas no coração da coitada... Coisa mais horrível que já vi. Ainda tenho pesadelos a noite. Por pouco não fui eu.

 - Você deve ter ficado muito alta nesse dia.

  José debochou do conto de terror e quis seguir rumo ao lar. A moça insistiu que ele deveria esperar por mais algum tempo no quarto para que ficasse a salvo do horror de encontrar a bruxa.  José aceitou, contanto que pudessem se atirar um no braço do outro por mais alguns minutos. Por fim, ele se despediu com um romântico e charmoso galanteio, colocando o dinheiro do serviço dentro da meia calça da moça, que por sua satisfação, aceitou cobrar menos do que o de costume, uma vez que José não teria mesmo como pagar o valor total, e Maricelha não iria querer ver seu mais novo amante ser surrado por um dos gigolôs da casa.

  Satisfeito e confiante, José rumou para fora da região do Arco do Telles, que começava a se esvaziar e adquirir uma aparência cada vez mais decadente. Atravessou a Praça XV, avistou o Cais das barcas, onde percebeu que o lugar havia sido tomado por uma densa neblina do fim de outono e não se conseguia enxergar além dos barcos ancorados. Sentiu um frio gelar a espinha e apressou o passo para fora dali. Caminhando por entre as ruas fétidas e mal iluminadas do centro do Rio de Janeiro, percebeu quão tarde se encontrava. Tal hora da madrugada, apenas mendigos, e animais de rua se achavam vagando pelos becos e ruelas, nem mesmo os ladrões e malfeitores se esgueiravam por perto para se aproveitar do descuido de um ou do azar de outro. – Melhor assim.  Disse a si mesmo.

 Ao passar por um grande cortiço, que findava na esquina de uma encruzilhada, José ouviu o som do que parecia ser um caminhar ressonar logo atrás de si, olhou para trás duas vezes, mas não notou nada além da neblina, que se condensava mais e mais com o sumir do luar. Pensou na história da bruxa que ouvira mais cedo e fez um sinal de recusa com a cabeça. – Besteira de puta. Deu mais uma dezena de passos até ser surpreendido pela voz roca de uma mulher.

- Tem fogo?

José sentiu seu coração acelerar, ficou um tanto quanto desconcertado e tirou uma binga do bolso, uma espécie de isqueiro rudimentar movido a querosene. Acendeu o cigarro da moça e respondeu.

- Que susto, eu não tinha percebido ninguém, que mal lhe pergunte, o que uma dama como a senhora faz sozinha essa hora da noite? Ainda mais em um lugar assim?

A mulher com quem conversava aparentava estar no auge dos seus trinta e tantos anos, mas conservava uma genuína beleza de moça jovem, apesar da palidez e de algumas leves rugas escondidas pela maquiagem. Trajava um longo e elegante casaco de pele escuro e um chapéu de vinho adornado em plumas negras.

- Aquilo que uma dama como eu pode fazer para existir em um lugar como esse aqui.

Respondeu com um leve sotaque português, José olhou nos olhos da dama, quão profundos e negros eram aqueles olhos que o fizeram sentir como se atirasse seu corpo ao abismo negro e instigante. Sentia tempestades de emoções correrem por suas veias: Atração, receio, encantamento, perigo, envolvimento, medo. Mulher alguma jamais o fizera se sentir assim, e já havia estado com muitas mulheres a pesar da idade. Suando frio e inseguro, respondeu em gagueira.

- Se, se hoje... Se hoje fosse outra noit...

- Caminhe comigo. – Ela o interrompeu estendendo o braço. Sem pensar e rapidamente, José se viu andando com tal figura de mistério e desejo. Em uma rápida virada de cabeça, pensou ter visto um homem de calça, terno e chapéu branco encostado no poste da esquina da encruzilhada, mas ao olhar de novo só enxergou a neblina e a luz do poste a se apagar.

- Você é bom José, não tão bom quanto pensa que é. Isso você jamais vai ser, mas ainda assim bom.

- Como sabe o meu nome?

- Eu estive observando você, suas aventuras noturnas, seu jogo de malandragem, a ginga de conquistador, você acaba atraindo mais atenção do que gostaria de atrair.

- Eu faço o que posso, mas me diz uma coisa, por acaso eu peguei algo que pertencia á senhora?

- Não, você não teria como, não mesmo. Você não tem nada que já me pertenceu, apenas, o que vai me pertencer.

- E o que seria?

- Um convite, uma introdução a esse novo e belo século a qual ambos pertencemos.

- Acho que não consigo entender.

- Ah mas, você vai, não se preocupe, tudo que você precisa agora é de uma prova do que tenho a lhe oferecer, apenas um beijo e tudo se esclarecerá pra você como o raiar do luar.

José provou os doces e frios lábios da mulher que encontrara e sentiu seus braços o envolverem como uma manta. Sentia-se entregue. Notou o nariz da mulher descendo pela sua bochecha e arqueando em torno de seu pescoço, uma aguda dor se seguiu e logo se sentiu sem forças e extasiado. Foi então que José percebeu. A Feiticeira do Rio Antigo não apenas se banhava em sangue, ela o bebia. 



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