História Something Entirely New - Capítulo 9


Escrita por: ~

Postado
Categorias Undertale
Personagens Alphys, Asgore Dreemurr, Asriel Dreemurr, Chara, Frisk, Gerson, Mettaton, Papyrus, Sans, Toriel, Undyne, W. D. Gaster
Tags Asriel, Chara, Chariel, Chasriel, Romance, Undertale
Exibições 225
Palavras 4.132
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Fluffy, Hentai, Magia, Mistério, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Sim gente, o capítulo tá grande. Surpresa pra quem gosta! Os motivos para isso estão nas notas finais.
Boa leitura :3

Capítulo 9 - Don't You Leave Me


Fanfic / Fanfiction Something Entirely New - Capítulo 9 - Don't You Leave Me

 Asriel POV 

 Era impressionante a velocidade com que o veneno agiu no corpo de Chara, e mesmo que eu já esperasse por algo assim a julgar pela quantidade de flores douradas que ela comeu, vê-la ir dormir saudável e acordar naquele estado me causava uma dor tão grande que eu sentia como se a qualquer momento minha alma fosse se romper dentro de mim.

  Era o segundo dia desde que ela havia se envenenado, e seu estado ia ficando cada vez pior. Se no dia anterior mamãe havia dado um banho gelado nela para espantar a febre, ela havia voltado algumas horas depois com uma força ainda maior. Tentamos dar sopa a ela de madrugada, mas seu estômago rejeitou, e a falta de alimentação só a deixava ainda mais fraca. Todos nos mantínhamos em claro, com medo de que ela piorasse enquanto dormíamos.

  Ela estava num estado tão ruim, que qualquer um que olhasse para ela saberia que ela ia morrer. Sua pele, antes sempre corada, estava num pálido tão intenso que quase era possível ver seus ossos. Seus olhos que tinham a cor mais bonita que já tinha visto estavam cada vez mais enevoados e distantes, e ao redor deles grandes olheiras estavam estampadas. Não havia cor em seus lábios, e eles estavam completamente secos e rachados. Ela suava frio a ponto de ter encharcado os lençóis de sua cama, e a febre provocava espasmos no seu corpo que iam e vinham, piorando de intensidade com o passar das horas. 

  Em breve eu estaria sozinho, e com uma enorme responsabilidade nas costas. Pensar nisso me deixava quase tonto. 

  - Asriel. - Mamãe me chamou, me puxando de meus devaneios. - Eu quero que você saiba que faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para salvar a Chara. Mas quero que esteja preparado para... Caso ela não aguente. Ela está num estado realmente grave, e eu receio que nós não tenhamos o conhecimento necessário para salvá-la. Humanos são diferentes de nós, eles ficam doentes, eles precisam de cuidados que nós talvez não sejamos capazes de oferecer... - Eu podia sentir a dor na voz dela também, sentada na mesa da sala esperando papai chegar com o olhar perdido, como que sem acreditar no que havia acontecido, tão de repente a alegria da nossa família estava destruída. 

  E eu me sentia culpado por isso também. Eu sabia que Chara estava daquele jeito porque ela tinha planejado tudo, e o plano que tínhamos não podia ser compartilhado com ninguém... Me encolhi ainda mais, abraçando minhas pernas e escondendo a cabeça nelas.  

  Se todos soubessem que era o veneno da flor dourada que estava deixando Chara naquele estado, algo poderia ser feito. Certamente o Dr. Gaster poderia trabalhar rapidamente em um antídoto e Chara ficaria curada. Uma parte de mim queria contar, queria salvar Chara mais do que tudo. Mas como salvar alguém que não quer ser salvo? 

  Queria respeitar o desejo de Chara e acima de tudo queria que ela fizesse o que a deixasse feliz. Por conta disso, me detive a observar tudo em silêncio, suportando a dor em minha alma. 

   - Chegaram. - Mamãe exclamou de repente, ao ouvir o barulho da chave destrancando a porta e a maçaneta girando.

  Papai entrou em casa apressado, seguido por um homem alto que eu rapidamente reconheci como o Dr. Gaster. Normalmente ele me assustava por causa do seu aspecto misterioso e reservado, mas naquele momento eu me senti aliviado em vê-lo, ele talvez pudesse fazer algo para pelo menos aliviar a dor de Chara.

  - Ele disse que vai dar uma olhada nela, Tori. Ver se tem algo que ele possa fazer. - Papai parecia mais abalado do que eu nunca tinha visto, a voz tremia e seu olhar parecia perdido. 

  - Muito obrigada pelo seu tempo, Dr. Gaster - Minha mãe disse depressa se levantando, e ele acenou com a cabeça. - Venham, eu vou levá-los até minha filha. 

  Eles saíram apressados em direção ao nosso quarto, e sabendo que muitas pessoas no quarto poderiam atrapalhar, fiquei onde estava, os acompanhando com os olhos. 

  - Hey, Dreemurr. - Olhei surpreso para a porta e vi Sans parado junto a ela, segurando seu irmãozinho pela mão. - Não vai me convidar para entrar ou algo assim? 

  - S-Sans?! Me desculpe, eu não vi que você estava aí... Por favor, entrem. - Continuei no meu lugar, ainda abraçando minhas pernas. 

  - Obrigado. Venha, Pap, vamos entrar. - O esqueletinho usava um grande gorro vermelho que chegava a ser maior que ele, e segurava com força a mão do irmão mais velho, parecendo confuso com o que estava acontecendo. Já Sans usava uma jaqueta preta surrada, largos calções azuis e as costumeiras pantufas. Parecia ter vestido qualquer coisa na pressa. 

  - Assim que soube o que tinha acontecido eu pedi licença do trabalho para poder vir. Como meu pai veio também para examiná-la, eu trouxe Pap comigo para que ele não ficasse sozinho em casa. Espero que não se importe. - Ele ainda sustentava o mesmo sorriso de sempre enquanto se acomodava numa cadeira com seu irmão no colo, no entanto, agora não havia divertimento nenhum nele.

  - Claro que não me importo. Tudo bem com você, Papyrus? - Tentei forçar um sorriso para o esqueletinho no colo de Sans que me olhava com curiosidade, mas devo ter falhado. 

  - Como isso foi acontecer...? - A voz de Sans parecia perdida, assim como a de todas que se questionavam sobre a rapidez com que Chara estava convalescendo. - Semana passada nós estávamos os quatro no Grillby's, vocês dois, eu, Undyne... Ela parecia tão bem. O que fez com que adoecesse tão de repente? 

  - Eu não sei, Sans... - Minha voz soava tão cansada, era tão difícil mentir. - E-ela só acordou ontem d-desse jeito... E com o passar das horas ela só... Só está piorando...

  - Isso é terrível... - Ele brincava com o gorro de seu irmão, que soltou alguns sons em protesto. - E o pior é saber que talvez estejamos de mãos atadas. Como a composição dos corpos dos humanos é completamente diferente da nossa, não há quem realmente entenda como funciona a medicina deles. 

  Mais uma batida na porta e nos viramos para ver quem era. 

  - Ei, vocês. Vou entrar já que está destrancado. - Era Undyne, com a expressão mais calma e contida que eu já tinha visto. 

  Acenei positivamente com a cabeça e ela entrou. Parecia também ter vindo com pressa, já que os cabelos estavam um pouco úmidos e pendiam soltos, diferente do seu usual penteado. 

  - Hey, punks. Como é que ela está? - Ela acomodou-se numa cadeira ao lado de Sans e Papyrus. Não havia traço da Undyne que eu conhecia, sua voz era baixa e nela havia uma preocupação aparente. 

  - Ela não está nada bem, Undyne. - Murmurei, olhando na direção do corredor. - Dr. Gaster está aqui, no nosso quarto, mas... Ela está muito doente... 

  - Que coisa terrível para se acontecer. Eu gosto tanto daquela nerdinha tímida. - Ela suspirou, esfregando o rosto com as mãos. - Há alguma chance de ela sobreviver? 

  - Eles ainda não sabem, Undyne. - Disse Sans, passando o bebê Papyrus para o colo de Undyne, que parecia animado ao vê-la ali. 

  - Nós temos que ir vê-la agora. Ei, Asriel! Para de ser um bebê chorão e acredite que tudo vai dar certo! Tenho certeza de que quando a Chara ver o quanto estamos torcendo por ela, a determinação para viver vai queimar dentro dela! - Ela tentou se animar o mais que podia, contagiando o pequeno Papyrus que soltou gritinhos de alegria em resposta.

  - Eu espero que sim, Undyne... - Sans olhava para o corredor também. - Meu pai está lá, junto do rei e da rainha. Quando eles saírem, acho que podemos ver a pivete. 

  Algum tempo depois os três saíram do quarto, Dr. Gaster seguindo na frente com as mãos juntas na frente do corpo, seguido de papai e mamãe, que pareciam ainda mais preocupados e tristes que antes. 

  Sem perceber, estava apertando com força meu colar dourado.

  - Ei, pai! - Exclamou Sans. - Como ela está? Há algo que você possa fazer para ajudar Chara? 

 "Irei fazer tudo o que puder para ajudar a Senhorita Dreemurr, Sans.”, ele gesticulou. Dr. Gaster não era capaz de falar, por isso, se comunicava por meio da linguagem de sinais. 

  Mamãe suspirou longamente, parecendo sem esperanças. Havia uma nuvem negra naquela sala, o clima era tenso e pesado, e não havia nada que pudéssemos fazer. 

  - Podemos ver a Chara? Por favor, queremos encorajá-la. Podemos? - Pediu Undyne, já colocando Papyrus no chão com cuidado e levantando-se de onde estava. 

  - Podem ir vê-la, crianças. Tenho certeza que Chara irá ficar feliz de ter seus amigos junto dela. - Mamãe sorriu triste para nós. 

 - Vamos! - Undyne saiu em disparada pelo corredor, seguida de Sans levando seu irmãozinho pela mão, e eu logo atrás. 

  Ela abriu a porta cuidadosamente, entrando pé ante pé, fazendo sinal para que entrássemos também. 

  Chara estava com a aparência ainda mais fragilizada do que da última vez que eu a vi, apenas algumas horas antes. 

  Ela respirava com dificuldade, o rosto e os lábios brancos como papel, sua testa estava úmida de suor e ela tinha os olhos fechados com força, como se estivesse com dor. 

  - Ei, Chara. - Me aproximei da cama e ajoelhei perto dela, chamando baixinho. - Nossos amigos vieram te visitar. Você pode me ouvir, Chara? 

  Ela abriu os olhos lentamente, e eu tive dúvidas se eles realmente estavam enxergando alguma coisa. 

  - A... Amigos...? - Ela sussurrou tão baixo que todos tiveram que se aproximar mais da cama para entender o que ela dizia. 

  - Ei, nerdinha. Sou eu, Undyne, consegue me ouvir? Nós viemos para te dizer que não desista, certo? Todos nós estamos com você, portanto, fique firme! 

 - Até meu irmãozinho veio te ver, pivete. Nós acreditamos em você. Mostra pra essa doença que você é muito mais forte do que ela, que você pode vencê-la se assim quiser. O subsolo inteiro está querendo que você fique boa logo, está entendendo? Portanto, não desista. - Foi a vez de Sans falar, pegando o irmão no colo, enquanto Chara o olhava com seus olhos fracos. 

  - S-Sans... Undyne... 

 - Ele tem razão, punk. Todos que eu encontrei pelo caminho queriam vir comigo quando eu dizia que estava vindo para o castelo te ver. Eu disse que não porque senão não ia caber tanta gente assim no seu quarto. - Ela riu. - Mas o coração de todos eles está aqui com você, pode senti-los? Eles queimam nesse momento com um único desejo, te ver curada. Não os desaponte! 

  - Hey, Chara, você tem que ficar boa para irmos comer torta de chocolate no Grillby's depois. Ele disse que pode incluir isso no cardápio especialmente pra você. 

  Eu vi os olhos de Chara lentamente ficarem úmidos. 

  - E-eu... Obrigada, todos... Vocês... - Ela sorriu minimamente, olhando ao redor. 

  Papyrus soltou um gritinho de satisfação no colo do irmão. 

  - Obrigada você também... Por ter vindo... Me ver, pequeno Pap. - Ela estendeu a mão trêmula para tocar a ponta dos dedos do esqueletinho, que retribuiu segurando o dedo dela com força. 

  - Meu pai vai dar um jeito de te tirar dessa, Chara. Eu sei que vai. Meu pai é incrível, afinal. - Sans disse, sorrindo largamente. - Então continue com a gente. Não ouse desistir. 

  - Isso mesmo! Se você desistir, eu vou te trazer de volta só pra te dar uns tapas! - Brincou Undyne. - Mas eu sei que você não vai, você é muito forte. 

  Chara parecia emocionada de um jeito que eu não me lembrava de ver desde a noite em que dei o colar dourado a ela. Seus lábios pálidos tremiam de leve e ela parecia se segurar para não chorar. Vê-la daquele jeito só fez com que eu sentisse mais vontade ainda de acabar com aquele plano, esquecer aquela ideia, e salvar a vida dela antes que fosse tarde demais. 

  Sans, Papyrus e Undyne foram embora algumas horas depois, tendo dedicado todo o seu tempo ali conversando com Chara e encorajando-a a continuar determinada. Ela tinha ficado acordada durante todo o tempo, e apenas a presença de todos ali parecia tê-la deixado um pouco mais forte. Eles prometeram voltar o quanto antes e a fizeram dizer que ia estar aqui quando voltassem. 

  Mamãe insistiu para que eu descansasse, que ela cuidaria de Chara, mas eu não consegui. Continuei ajoelhado do lado dela na cama, e em algum momento acabei caindo no sono. 

  Sonhei coisas desconexas e conturbadas, eu estava com medo, estava triste, e não queria que nada daquilo estivesse acontecendo. 

  Acordei algum tempo depois, sentindo dedos trêmulos acariciarem de leve minha orelha esparramada na cama. 

  - Chara... Tudo bem? - Levantei a cabeça, sonolento. 

  Ela sorria tristemente pra mim, e a outra mão apertava o coração dourado. 

 - Eu estou... Quase parando de funcionar... Eu posso... Sentir... 

  Estiquei a mão para segurar a dela, que apertou a minha de leve. 

  - Está doendo, Chara? 

  - Não dói mais... Está ficando... Tudo dormente...  

  Ela lutava para manter os olhos abertos, e eu podia vê-los cada vez mais turvos e distantes.

 - Me desculpe por... Fazer você passar por isso. - Ela continuou, encarando o teto. - Vocês todos... Eu não sabia que... Queriam tanto que eu ficasse...

  - Ninguém quer que você morra, Chara. - Sussurrei. 

  Ela refletiu por um momento. 

 - Asriel... Eu... - Ela ofegava, mas não desistiu de falar. - Eu quero que você saiba... Sobre a minha vida antes... De vir pra cá. 

 

Chara POV

Asriel me olhava confuso, e ao mesmo tempo eu podia ver a curiosidade cintilar em seus olhos.

Eu sabia que ele tinha suas perguntas sobre mim, que ele queria saber mais sobre meu passado, e apesar de nunca ter me pressionado a dizer nada nesses seis meses, eu podia sentir que ele sabia que eu escondia alguma coisa dele.

 O motivo de eu ter escondido é que eu não queria que ele soubesse sobre a minha história suja. Não queria que a única pessoa por quem eu sentia algo tão bom e tão forte soubesse que eu era uma pessoa tão... Errada.

Ás vezes eu acho que ele pensava que eu não confiava nele o suficiente para lhe contar sobre mim. Mas a verdade é que eu havia aprendido a confiar nele mais do que ninguém, e o que eu sentia era medo de ser abandonada depois que ele soubesse de tudo. Não queria que ele parasse de brincar comigo, ou não usasse mais o nosso colar dourado. Não queria que ele deixasse de gostar de mim.

 Ali, nas minhas últimas horas de vida naquela cama, eu pensei em tudo aquilo e decidi que era hora de ele saber. Eu havia reunido coragem suficiente para falar sobre as coisas que eu preferia manter enterradas para sempre. Tinha que ser agora, ou não seria nunca mais.

Uma ultima prova de confiança, uma prova de... Amor...?

  - A minha vila... – Respirei fundo, tentando normalizar um pouco a minha voz trêmula e vacilante. Não sabia se pelo nervosismo ou pelos efeitos colaterais. – Lá era um lugar com muita... Riqueza.  As exportações para a cidade grande eram muitas... A vila acabou crescendo com isso.  É lá é um local muito afastado... Muitos costumes locais... Muitas superstições. Havia vários proprietários de agronegócio que tinham conseguido muito dinheiro com isso. O meu pai era um desses senhores.

  Parei para tomar fôlego e me concentrar para continuar ali com ele. Asriel havia segurado  ambas as minhas mãos e me olhava fixamente, atento ao que eu dizia.

 - Ele e minha mãe eram... Os maiores comerciantes de toda a vila. Os que mais garantiam que as exportações fossem bem sucedidas, os que mais traziam dinheiro e investiam no bem estar de todos... Eles eram muito queridos por todos. – Sorri tristemente.

 Aquelas eram memórias que eu não tinha vivido. Apenas haviam me contado tudo aquilo, pessoas diferentes, em situações diferentes. Mas a história era sempre a mesma.

 - Seja como for, um dia a vila foi invadida. Uma gangue os saqueou, não sabia de onde vieram, provavelmente da cidade grande... Aquele episódio ficou conhecido como “Noite de Horror.” Eles roubaram praticamente todo o dinheiro que havia... Todos os objetos de valor. Casas foram queimadas, homens e mulheres foram mortos, eles simplesmente... Tiraram tudo o que aquela vila possuía. Quando finalmente ficaram satisfeitos com sua carnificina, eles fugiram. Levaram tudo e deixaram o caos. Um dos incidentes foi que após aquilo minha mãe tinha sido violentada por um deles. – Sorri triste.

 Asriel pareceu ter entendido o que eu queria dizer, seus olhos se enchendo de lágrimas enquanto ainda estava a segurar minhas mãos um pouco mais forte.

  - Eu... Eles tentaram me tirar de vários jeitos, mas não conseguiram. – Eu começava a sentir minha voz embargar, e parei para respirar fundo antes de prosseguir. – E minha mãe me teve após nove meses. Eu fui odiada desde o primeiro instante, entende? Dizem que ela chorou de desgosto ao me ver pela primeira vez, dizem que ela... Tentou me matar quando viu a cor de meus olhos.

  Sem poder controlar, eu senti a primeira lágrima rolar pelo canto de meus olhos. Era como se falar sobre aquelas coisas que eu sempre mantive tão guardadas dentro da minha alma fizesse delas ainda mais real,ainda mais palpável. Sufoquei um soluço e continuei.

   - Todos ali passaram a me ver como o mal que foi plantado na vila após aquele dia terrível... Eu era o constante lembrete de que haviam tirado tudo que eles tinham, de que vários haviam morrido, de famílias haviam sido destruídas. Eles acreditavam que eu era mau agouro, porque depois do saque nada voltou a ser como era. A vila empobreceu, minha família foi destruída por minha causa... – Eu havia começado a chorar compulsivamente, todas as mágoas que havia acumulado dentro de mim por oito anos estavam por fim sendo postas pra fora. Todas as lágrimas que eu nunca havia chorado estavam agora escorrendo desenfreadamente.

  Asriel apertava minhas mãos, suas próprias lágrimas pingando no colchão. Ele continuava me olhando, e seu olhar me passava força para continuar a falar.

  - Minha mãe... Ela acabou por se matar um ano depois do meu nascimento. Ela não suportou aquela situação toda... Dizia que a felicidade tinha sido tomada dela no instante que me plantaram dentro dela. Depois disso, meu pai entrou em uma profunda depressão e tentou por diversas vezes me matar... Eu sempre conseguia escapar de algum jeito, e eu não entendia nada, Asriel, eu era uma criança, uma criança assustada... Eu...

  Eu soluçava tanto que quase não conseguia entender minhas próprias palavras.

  - Um dia, ele acabou por se matar também. Eu tinha cinco anos. Após a morte dele, eu não sabia para onde ir, o que fazer. Como sobreviver. E sempre que passava pelas ruas, procurando algo para comer, alguém para brincar, um lar para viver... Os olhos de todos me viam, eles me viam, Asriel, e me odiavam. Me chamavam de demônio por causa da cor de meus olhos. Eu... Tentei por diversas vezes escapar dali, fugir para algum lugar onde não me odiassem, mas eles sempre me achavam. E me traziam de volta, alguém me trazia, e diziam que eu não podia espalhar infortúnio para outros lugares... Que era responsabilidade deles me manter presa ali até que morresse. E... Eles me batiam sempre, você deve ter visto quando tomamos banho juntos, eu tenho tantas marcas pelo corpo, que não posso nem contá-las...

  Sentia um misto de emoções que não era capaz de compreender. Uma parte daquilo era nojo de mim mesma por ter um passado tão sujo, náusea, medo, mas uma parte de mim sentia alivio por finalmente conseguir colocar tudo aquilo para fora.

Aquilo envenenava minha alma há tanto tempo. Mas agora, Asriel estava ali para me ouvir, e ele não me julgaria, ele não me afastaria. Ele estava ouvindo minha história e continuava a apertar minhas mãos, por mais sujo que meu passado fosse.

 - Eu... Eles me davam o mínimo de comida para que eu apenas não morresse. Tinham medo de que eu morresse e me tornasse um espírito vingativo. Então... Eles continuaram a me manter na casa que antes pertencia a minha família, suja, abandonada. Foi assim por anos... Até que um dia eu deixei de ter esperanças. E eu decidi que seria melhor morrer... Por isso eu subi ao Monte Ebott. Por isso eu vim parar aqui. O meu plano era morrer... Mas eu não morri. E você veio... – Sorri em meio aos soluços, olhando para Asriel com meus olhos embaçados de lágrimas.

Ele segurava minhas mãos o mais forte que podia, soluçando baixo e me devolvendo o olhar.

 - Az, eu não queria ter te feito chorar... Me desculpe por tudo isso... E-eu sempre me senti uma pessoa tão vazia, tão errada. Até eu vir parar aqui e vocês todos me acolherem... Vocês deixaram com que eu experimentasse o que era ter uma vida feliz... Por isso eu quis fazer isso por vocês. Mas eu... Eu não queria ter feito você chorar, Az, eu queria ter feito você sorrir!

 - E-eu... Não quero que você morra, Chara... – Ele baixou a cabeça, mas suas lágrimas continuavam a pingar nos lençóis.

  - Eu os odeio, Asriel... Odeio cada um deles, todos que quebraram minha alma... Eu os quero mortos. A minha alma, ela está tão quebrada...

 - Deixe com que eu a conserte! – Ele exclamou de repente levantando-se, ainda a segurar minhas mãos. – Me deixa cuidar de você, Chara. Pode ser que leve um bom tempo para que sua alma se cole, mas deixe-me tentar. Eu prometo que você nunca mais terá que se machucar, Chara, eu vou te proteger! Por isso...

  - É tarde demais, Az... – Eu sentia agora tão claramente o arrependimento passando por meus ossos, corroendo o que ainda restava de mim. Pensei em todos que haviam se preocupado comigo.

 - Não é tarde demais, Chara! Nunca é tarde demais. Eu entendo que você odeie aqueles humanos, eles são cruéis, eles te machucaram... Mas você está comigo agora! Não precisa fazer a sua raiva por eles ser o que te mantém aqui... Porque enquanto você respirar, haverão esperanças, motivos para viver e para lutar... S-se você precisa de um, Chara, então... Viva por mim. Não me deixe sozinho. – Ele sussurrou a ultima parte, e eu arregalei os olhos, sentindo meu coração disparar.

“O coração de todos eles está aqui com você, pode senti-los? Eles queimam nesse momento com um único desejo, te ver curada. Não os desaponte!”

“Hey, Chara, você tem que ficar boa para irmos comer torta de chocolate no Grillby’s depois. Ele disse que pode incluir isso no cardápio especialmente pra você.”

 “Nós definitivamente iremos encontrar uma maneira. Eu nunca vou ficar parado, de braços cruzados, assistindo a minha filha sofrer assim.”

E então eu soube que a decisão que havia tomado era terrivelmente errada. Eu finalmente percebi que ninguém ali queria a minha alma para que a barreira fosse quebrada. Eles queriam a minha presença. Eu me deixei acreditar que todos ali me amavam.

  E eu os amava.

   - Eu estava tão determinada para morrer, mas agora... Eu acho que não estou mais. Não depois de ver todos torcendo para que eu me recupere...  Asriel... Eu não quero mais ir... Eu quero ficar com você... Não quero mais ir! – Eu disse de repente, sentindo as lágrimas ainda escorrerem, sem saber se elas alguma hora iam parar. Não sabia por que estava fazendo aquilo, mas senti que era a coisa certa a se fazer.

   Eu amava Asriel, ainda que não soubesse muito bem o que é amor. E o que eu sentia por ele era muito maior do que a mágoa que sentia pelos humanos. Por que eu tinha demorado tanto tempo para perceber isso?

 - Não vai morrer, Chara, eu te prometo que não vai! – Ele correu para o armário, tirando apressadamente um par de sapatos e um grosso suéter, que vestiu as pressas por cima do pijama.

 - Aonde você vai? – Perguntei, o seguindo com os olhos. Um tremor invadiu meu corpo e eu gemi.

 - Vou até Hotland, no laboratório. Uma vez que Dr. Gaster saiba exatamente sobre as flores douradas, ele fará um antídoto. Por favor, Chara, mantenha-se de olhos abertos, fique aqui comigo! Eu volto num instante. – Ele se aproximou de mim e depositou um beijo na minha bochecha que ardia em febre.

 - Ficarei com você. – Prometi, enquanto ele saía em disparada pela porta do quarto. 


Notas Finais


Oi, meus leitores lindos <3
Primeiramente, eu gostaria de agradecer, pois SEN chegou aos seus 50 favoritos <3 Sério, eu nem imaginava que no oitavo capítulo iria estar nesse numero, ainda mais que é a primeira vez que posto nesse site, então só tenho a agradecer! Muito obrigada por separarem um tempinho da vida de vocês para ler minha história, comentar e surtar pelos nossos personagens favoritos ;3; - Vocês fazem a Liz muito feliz <3
Quanto ao cap., alguns podem estranhar o tamanho dele, eu costumo programar uma média de 2500 ~ 3000 palavras, mas eu prometi que encerraria esse arco no próximo capítulo, então decidi fazer dois serem um só (O do passado de Chara seria separado), mas aí estamos! Espero que gostem, é tudo por vocês, meus queridos leitores <3 *toca videogame da Lana no fundo* -q It’s you It’s you, It’s all for you... / parei. -q
Eu escrevi esse cap. ouvindo His Theme ( https://www.youtube.com/watch?v=IkOK8tdEsFY ) para intensificar os feels, se quiserem também xD Gostaram? Me deixem saber!! Comentem!
Até a próxima <3


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