História Sonhos Perdidos - Capítulo 1


Escrita por: ~ e ~Metamorfose_

Postado
Categorias Originais
Tags Escolhas, Iniciativa Narnianos, Projeto Metamorfose
Visualizações 9
Palavras 5.261
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Colegial, Escolar, Famí­lia

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Oie!

Voltei! rs

História escrita para o Projeto Metamorfose, que tem como objetivo trabalhar temas relacionados à muitas das dificuldades que vivemos no nosso dia a dia, a fim de nos ajudar a ter mais confiança em nós mesmos. Vou deixar o link do projeto nas notas finais, então corre lá que tem um montão de histórias legais pra você ler!!!

Linda capa feita pela @CrzyRainbowStar
Betagem cuidadosa feita pela @Monalisa-

Espero de verdade que vocês gostem!

Capítulo 1 - Capítulo Único


Acordei com o barulho de batidas na minha porta e a voz de minha mãe perguntando se eu não iria trabalhar, então, meio sonolenta, levei minha mão até o criado mudo situado ao lado de minha cama, em busca do meu celular para conferir as horas. Tateei o móvel por alguns segundos, ainda com os olhos fechados, mas não encontrei o objeto de minha busca. Levantei a cabeça e inclinei um pouco o corpo para que pudesse ver melhor o móvel, constatando que o celular realmente não estava lá.  Já meio irritada, sentei sobre a cama e corri meus olhos pelo quarto a procura do aparelho, encontrando-o ali, ao lado de meu travesseiro. Apertei um botão qualquer do aparelho a fim de poder conferir o horário e constatar o que eu já desconfiava: eu estava atrasada.

Balancei a cabeça em negação ao mesmo tempo em que suspirava profundamente. Detesto segundas-feiras! Hoje era o primeiro dia da semana e eu já me sentia cansada. O final de semana passou tão rápido que eu sequer tive tempo de pensar em fazer tudo aquilo que eu havia planejado. Eu realmente não sabia o que vinha acontecendo com o meu tempo, a semana se arrastava, ao passo que meus preciosos dias de folga voavam. Era sempre assim. E por causa disso, cenas como a de hoje em que minha mãe abre a porta com cuidado e me encara com um sorriso doce, vem se repetindo com mais frequência do que eu gostaria.

— Bom Dia! Foi dormir tarde de novo? – Disse já adentrando o cômodo.

— Um pouco... – falei ao que bocejava e esfregava os olhos – Me distrai com um filme e acabei deitando mais tarde.

— Você precisa controlar melhor seus horários, você tem responsabilidades a cumprir. Vai, se arrume rápido e venha tomar café que ainda dá tempo de você chegar para dar a primeira aula.

— Ah mãe, não se preocupe com isso. Eu compenso isso depois ficando até mais tarde ou cobrindo a aula de algum professor que faltar. – Falei enquanto me levantava e caminhava até o guarda roupa para separar as peças que eu usaria ao longo do dia.

— Não é uma questão de cumprir horário Alice... Você tem responsabilidades a cumprir com seus alunos, eles dependem de você. – Disse em um tom calmo – Você pode compensar o seu horário, mas e a aula que eles perderão? O conteúdo? Como ficam?

Aproveitei que ainda estava de costas para revirar os olhos diante do discurso de minha mãe. Ela foi professora também, aliás, foi por influência dela que eu escolhi esta profissão, só que no tempo que ela lecionava tudo era diferente, era melhor, como ela mesma repetiu diversas vezes.... Agora, a educação não importava mais, ao menos não na escola pública, que era onde eu atuava. Me doía o coração dizer isso, já que eu mesma entrei nesse ramo com o intuito de ajudar a formar pessoas melhores, mas a realidade me mostrou que atingir esse objetivo era algo praticamente impossível. O ensino púbico estava destruído, por “n” motivos, e eu, uma simples professora de geografia, não seria capaz de mudar isso.

— Alice, está me ouvindo? – Minha mãe perguntou ao que se aproximava de mim e só aí percebi que havia me perdido em meio aos meus pensamentos e frustações.

— Sim mãe, cada palavra! – Disse já com minhas vestimentas em mãos enquanto saia do quarto em direção ao banheiro que ficava neste mesmo corredor. – Prometo fazer o possível para não me atrasar! – Disse já fechando a porta do cômodo.

Eu não menti para ela, fiz o possível, como prometido... O problema é que o “meu possível” não foi o suficiente e eu acabei me atrasando da mesma forma. Eu juro que tentei! Ainda que minha mãe não acredite, já que ela está sempre dizendo que eu estou fazendo corpo mole, usei toda a disposição que meu corpo e minha alma dispunham no momento para tomar um banho rápido, engolir o lanche matutino e seguir para escola em que eu ministrava aulas de geografia para o ensino fundamenta e médio.   

O estabelecimento em questão ficava perto de minha casa e por isso eu podia ir caminhando para a mesma. Trata-se de um prédio de tamanho médio e estrutura gasta, composto por dois andares, nos quais se distribuíam as salas de aula e as salas administrativas da escola. Na parte frontal do edifício havia uma grande área arborizada onde os alunos passavam os intervalos nos dias de sol. Na parte de trás ficam as duas quadras poliesportivas pertencentes a instituição.

Eu cheguei ao local com 20 minutos de atraso, mas fui informada que um professor estagiário havia entrado em sala para me substituir. Aparentemente este acompanharia minhas aulas durante toda a semana, a fim de cumprir o estágio obrigatório exigido por sua universidade, mas em virtude de meu atraso este se ofereceu para ministra-la. Como a aula já havia começado optei por não interrompe-lo. Passei os próximos 30 minutos na sala dos professores aguardando o sinal que comunicaria o início da segunda aula.

Assim que escutei o alarme, me direcionei a classe à qual ministraria a aula, encontrando o estagiário já na porta me aguardando, o que foi bom, pois já havia me esquecido dele.

— Bom Dia Professora Alice! – Disse num tom animado – Meu nome é Pierre, vou acompanhá-la nas aulas dessa semana.

— Bom Dia Pierre! Bom, eu vou te apresentar para a sala e você pode se acomodar onde preferir. – Disse num tom não tão animado assim, enquanto o mesmo apenas acenava com a cabeça.

Adentramos a sala que, apensar do horário, já estava bagunçada e barulhenta. Aguardamos alguns longos minutos até que todos se sentassem e ficassem em silêncio, ou quase isso, e então comecei a falar. De alguma forma a presença de uma pessoa diferente chamou a atenção dos alunos, que se aquietaram em tempo recorde.

— Bom dia galerinha do mal! – Usei o apelido “carinhoso” que havia dado a eles – Este é o professor Pierre e ele vai acompanhar nossas aulas durante a semana. – Falei enquanto o mesmo balançava a mão direita, cumprimentando a sala. – Ele está estudando para ser professor e isso vai ajudá-lo a entender melhor como uma classe funciona. Então, por favor, se comportem e não traumatizem o rapaz! – Disse essa última parte num tom de “brincadeira” arrancando sorrisos da sala.          

Orientei o rapaz a escolher uma cadeira vazia e este o fez, sentando-se ao fundo da sala. Dei início a aula colocando no quadro negro as páginas da apostila nas quais estavam os exercícios que os mesmos deveriam fazer, e disse que em caso de dúvidas eles poderiam me chamar. Sentei em minha mesa e fiquei organizando algumas coisas no diário da classe, aproveitando, inclusive para conferir a lista de presenças.

Como de costume, alguns poucos alunos fizeram as atividades enquanto a maior parte da sala apenas conversava enquanto pensavam que me enganavam. Um número bem reduzido nem se preocupava em fingir desenvolver a atividades, apenas papeavam descaradamente sem se importar se eu estava olhando ou não. Não dei muita bola para esses alunos, afinal de contas eu não fazia milagres, e me ocupei com as poucas dúvidas que foram surgindo ao longo da aula.

As aulas seguintes seguiram da mesma forma, e o professor estagiário permaneceu calado durante todo o tempo. Pude observar de minha mesa o olhar entediado e ao mesmo tempo curioso do outro junto aos grupos de alunos, que pareciam não notar a sua presença. Não pude deixar de lembrar de mim mesmo há alguns anos atrás, quando me encontrava nesta mesma situação.

A sala não estava quieta, mas também não estava tão barulhenta assim, os alunos costumavam ser mais calmos antes do intervalo, então eu aproveitava para me preparar mentalmente para o que viria depois deste. Adolescentes são complicados, acredite.

Durante o intervalo levei Pierre a sala dos professores e expliquei por alto como as coisas funcionavam. Ele me parecia interessado e perguntava muitas coisas, o que me mostrou que ele era bastante comunicativo.

Ao final do intervalo seguimos com o cronograma de aulas, que seguiram como esperado, isto é, com alunos agitados e mal-educados que se negavam a fazer as atividades e ficavam conversando ou correndo pelos cantos. Assim como no primeiro horário, optei por “ignorar” tais comportamentos, na medida do possível, e dediquei minha atenção apenas aos alunos que se mostravam realmente interessados e que vinham até mim tirar suas dúvidas.

Pierre continuou calado e observador. O rapaz estava tão silencioso que até me esquecia dele, lembrando apenas quando o sinal tocava e este se dirigia a mim para trocarmos de sala. Terminado o primeiro turno, o mesmo se despediu e foi embora, enquanto eu continuei na escola para o período da tarde.

***

No dia seguinte, apesar de todo esforço de minha mãe, eu cheguei atrasada novamente, mas como dessa vez haviam se passado apenas 5 minutos do início da aula, resolvi entrar para ministra-la. Quando cheguei na sala pude ver que o estagiário já estava lá, o que me fez pensar no quanto o garoto era proativo, já que, enquanto estagiário, ele não tinha obrigação nenhuma de me substituir.

Cumprimentei o mesmo que me respondeu com um sorriso, logo em seguida encaminhando-se para o final da sala onde escolheu uma cadeira e sentou.

A atividade de hoje também abordaria algumas questões da apostila, no entanto, uma destas pedia uma discussão em grupos, com a posterior elaboração de uma redação individual sobre o tema tratado. Como os alunos eram preguiçosos e não gostavam de pensar sozinhos, e como a redação valia uma parte considerável da nota do semestre, que estes não pareciam dispostos a perder, um mar de mãos e gritos de “Professora!” podia ser visto quase que a todo momento, o que já estava me deixando levemente irritada.

Eu não estava irritada porque não queria atendê-los e sim porque estes não pareciam interessados em ouvir minha explicação e a linha de raciocínio que eu estava tentando fazê-los seguir. Eles queriam que eu dissesse o que eles deveriam escrever e isso eu definitivamente não faria. Resultado, eu passava mais tempo do que o esperado em cada grupo e isso só fazia aumentar os gritos dos outros alunos que buscavam minha atenção.

Eu continuei com a mesma estratégia, pedia que os outros aguardassem enquanto terminava minha árdua tarefa de tentar fazer os alunos pensarem por si próprios, mas em determinado momento, percebi que os pedidos de atenção haviam diminuído consideravelmente. Ao finalizar a explicação com um grupo e buscar a próxima mão que receberia minha atenção, notei que Pierre também estava em pé auxiliando os grupos nas dúvidas que estes tinham, o que me fez agradecê-lo mentalmente por isso.

Ao final da aula eu agradeci por sua ajuda e o mesmo disse não se importar em ajudar, pelo contrário, até preferia que fosse assim, desta forma o tempo passava mais rápido e ele aprendia mais. Entendi isso como um pedido, então seguimos assim durante todo o período, com eu e ele “passeando” entre os grupos para sanar as dúvidas da atividade que deveria ser feita, que era a mesma, para todos as salas daquele dia. 

Durante o intervalo Pierre comunicou que, como parte da atividade de estágio, ele deveria planejar e aplicar uma aula junto aos alunos e me pediu permissão para fazê-lo ainda naquela semana. Não neguei, afinal eu sabia muito bem como tudo aquilo funcionava, então combinamos que ele elaboraria uma atividade dentro do tema que estava sendo tratado e que o aplicaria para todas as classes na próxima quinta-feira.  

***

Na quarta-feira eu cheguei bem em cima do horário, mas não me atrasei, e como nos outros dias encontrei Pierre já a minha espera. Entramos em sala, mas desta vez este optou por sentar-se ao meu lado, na frente da sala: disse que era para ter uma visão diferente da aula, o que eu não contestei.

Como eu sou uma pessoa muito boazinha e conheço meus alunos, permiti que estes terminassem a atividade do dia anterior durante a aula, contanto que estes ficassem em silêncio trabalhando individualmente em suas respectivas carteiras, o que não funcionou totalmente, mas que ao menos diminuiu consideravelmente o barulho da sala, que pela manhã já era reduzido. Enquanto eu corrigia algumas atividades entregues por aquela mesma sala, um aluno se aproximou com uma expressão totalmente despreocupada e disse:

— Prô, o que é para fazer? – Falou com uma voz rouca denunciando que ele havia acabado de acordar.

— É para continuar a atividade que estávamos fazendo ontem Henrique, você não estava na sala? – Disse num tom de repreensão, afinal de contas eu sabia que ele estava.

— Ah sim... E qual era mesmo? – Disse no mesmo tom calmo.

— Você deve escrever uma redação com base no tema da página 59 e entregá-la a mim hoje, até o final da aula. – Falei já sabendo que ele a começaria naquele mesmo momento.

— Entendi, vou fazer então. – Disse se virando e retornando a sua carteira no fundo da sala, ao passo que eu encarava o rapaz ao meu lado com um olhar de descrença.

— Dá para acreditar numa coisa dessas? Ontem eu tive que acordá-lo umas duas vezes para fazer a lição, mas pelo jeito não adiantou muito... Ele já está com as notas baixas, vai acabar reprovando. – Meu tom de voz transparecendo minha indignação.

— Ah sim, eu falei com ele também. Parece que a mãe dele está muito doente e por isso ele está fazendo hora extra no trabalho para ajudar a pagar os exames, já que a mãe dele sente muita dor, mas ainda vai demorar para ela conseguir fazê-los pelo sistema público.

— Jura?! Eu não sabia... Nossa, coitado, tão novo e já está tendo que lidar com isso. – Falei já num tom mais calmo, voltando a corrigir as atividades.

Em determinado momento, identifiquei uma atividade que me dava vontade de chorar só de olhar.

— Olha isso. – Estendi uma das atividades quase que em branco para Pierre. – Eu tive um desentendimento sério com esse aluno na última semana, pois ele não queria fazer as atividades e também estava atrapalhando os demais. Chamei os pais deles e veio somente a mãe, eu passei toda a situação para ela, mas pelo visto não adiantou muita coisa. – Falei com descrença. – Pensa bem Pierre, você tem certeza que quer ser professor? Vida de professor não é fácil, aproveita que ainda dá tempo. – Falei num tom divertido, mas que nem por isso tornava a minha constatação falsa.

— Ah, eu sei que não é fácil, mas eu gosto de lecionar. Eu queria poder ajudar a formar pessoas melhores, e acho que dar aula é a forma que encontrei para fazer isso.

— Eu concordo com você, eu também pensava assim, mas quando você começar a dar aula vai ver o quanto é difícil.... Você tenta ajudar, mas não adianta. Quando não é o aluno que não está afim de estudar, é o sistema educacional que não funciona direito.... Eu até tentava, mas conforme fui vendo que nada funcionava eu fui desanimando... – Meu tom de voz transparecia meu desânimo. — Essa apostila mesmo. – Apontei o material de estudo para ele. – Eu odeio isso aqui, mas se eu não usar a direção chama atenção. Os próprios alunos estão tão viciados nisso que se você passa alguma coisa diferente eles simplesmente travam.

— Eu também não gosto desse material, mas ele também não é tão ruim assim. A atividade que eu vou passar amanhã é com base em uma sugestão dele. – Disse animado. – É claro que eu tive que fazer algumas adaptações e tudo mais, mas acho que vai dar certo.

— Você vai passar uma música certo? Eu já tentei fazer isso com eles assim que eu entrei nessa escola, mas não deu muito certo... – Falei desanimada ao lembrar da dor de cabeça que tive por conta da atividade.

— Porque? – Questionou curioso.

— É aquilo que eu te disse, qualquer coisa que saia do padrão confunde eles. – Falei o encarando. – Eles não entenderam a proposta e ficaram conversando em meio a atividade. No final não atingi o resultado esperado e acabei desistindo.

— E você não tentou de novo? – Perguntou parecendo interessado.

— Eu até tentei, mas sempre tinha um probleminha ou outro, então acabei desistindo de vez. – Desviei meu olhar para as folhas em minha mão. – Eu sinto como se a cada dia eu fosse ficando mais desanimada com minha profissão...     

— Mas você não gosta de dar aula?

— Eu até gosto, mas não sei se quero isso para o resto da minha vida.... É muito estresse, não sei se aguento. – Disse sincera.

— Não querendo me intrometer, mas já o fazendo, porque você quis ser professora?

— Bom, minha mãe era professora e eu sempre vi ela falando de como gostava de lecionar.  Ela também sempre me incentivou a seguir nessa mesma carreira e eu acabei aceitando. – Disse sincera, ao mesmo tempo em que me perguntava do por que de eu estar desabafando com uma pessoa que eu conhecia a apenas três dias... – Eu gosto também, é claro, mas não tanto quanto ela.

— Ah, lá em casa é diferente.... Meu pai queria que eu fizesse direito ou alguma outra profissão que desse mais dinheiro, mas eu não quero isso pra mim. Eu quero ser professor, sempre quis. – Disse em meio a um sorriso. – Isso já deu tanta briga... E por um tempo eu quase cedi, mas depois eu voltei atrás e disse a ele que a escolha só cabia a mim, porque era a minha vida.

— E ele aceitou? – Agora eu é que estava interessada.

— Bom, ele ainda reclama de vez em quando, mas já não implica tanto.

— E você nunca pensou que ele pode estar certo? Sei lá, nesses meus poucos anos de atuação, eu até consigo entendê-lo um pouco.... Não que receber pouco seja o principal problema, para mim o stress e a frustação são piores.

— Ah, mas todas as profissões têm seus problemas. Não importa qual caminho eu escolha, uma hora ou outra eu teria que enfrentar algum tipo de dificuldade. – Ele estava claramente me dando um conselho. – Só que quando você tem um propósito maior, quando você realmente quer uma coisa, as dificuldades que surgem ao longo do caminho não são suficientes para te parar.... Você sabe que, mesmo que sofra um pouco, ou muito, você vai conseguir vencê-las, e que elas só vão te deixar mais forte. 

— Você falando desse jeito parece até fácil. – Brinquei.

— Ah, fácil não é, nem nunca será, mas quando você quer muito uma coisa você luta por ela. – Disse num tom pensativo. – Eu pensei bem antes de tomar essa decisão, medi os prós e os contras e tentei imaginar onde eu esperava estar daqui a 5, 10 anos, e acredite, não era num escritório fechado analisando processos e leis. – Voltou a me encarar. – Do que adianta eu ser a pessoa mais rica do mundo se não estiver satisfeita com minha vida né?

— Você tem razão, mas você não tem medo de ter tomado a decisão errada?

— Bom, por enquanto não. Pode até ser que eu mude de ideia depois, o que eu acho bem difícil, mas eu sempre vou ter a chance se começar de novo. O importante é eu dar tudo de mim para fazer com que a minha escolha dê certo, e se não der paciência, eu tento de novo, e de novo, e de novo.... Até achar o caminho certo.

— Você é bem decidido hein? – Disse num tom divertido, mas ao mesmo tempo admirando tamanha disposição.

— Você acha? – Falou enquanto sorria. – Na verdade eu só sou assim, quando a questão é dar aula mesmo, porque isso é algo que eu gosto muito. Para outros assuntos eu sou indeciso até demais.

— Bom, então vou torcer para que tudo dê certo pra você.

— Obrigado! – Disse num sorriso sincero. – E você, se arrependeu de ter virado professora?

— Bem, não é que eu tenha me arrependido... – Eu não sabia o que dizer. – Quer dizer, eu gostei do curso e de tudo que aprendi com ele.... Eu só não me sinto feliz fazendo o que eu faço. – Despejei num suspiro.

— Mas isso é de agora ou de sempre?

— Não sei dizer ao certo.... Eu gostava no começo, só não tenho certeza se era prazer mesmo ou se era só animação. – Desabafei.

— Bom, mas tem alguma outra profissão que você gostaria de seguir?

— Eu teria que pensar nisso, mas além da geografia, outro curso que me chamou a atenção quando prestei o vestibular foi o curso de jornalismo.

— Bom, então tenta descobrir o que você quer de verdade e toma as providências necessárias para consegui-la. Se você resolver continuar como professora, tenta resgatar a paixão, que você tinha no começo, em dar aula, mas se você achar que o melhor é mudar de área, então corre atrás disso.

— É.… vou pensar...

— Faz isso! Sabe, dinheiro nenhum paga a satisfação em se fazer o que gosta e além disso, sempre temos mais disposição quando fazemos algo por prazer.  

— Certo, já entendi! – Falei sorrindo e erguendo as mãos em sinal de rendição.

Ficamos conversando por mais alguns minutos sobre os problemas e benefícios da profissão e sobre a atividade que ele aplicaria no dia seguinte até que o sinal tocou, indicando o término da aula.

Pedi que os alunos entregassem a redação, mas, como esperado, uma grande parte deles não havia terminado. De começo eu achei que era falta de comprometimento destes que, apesar de em menor intensidade, conversaram durante toda a aula, mas ao ver que a Duda, umas das melhores alunas da sala, também não havia terminado, achei que talvez eles realmente estivessem com dificuldades, então permiti a entrega da mesma na sexta-feira, o próximo dia em que teríamos aula.

***

Quinta-feira chegou trazendo junto a disposição que eu não tive durante toda a semana. Saber que o final de semana se aproximava realmente me deixava feliz. A conversa que eu havia tido com Pierre no dia anterior havia aberto meus olhos, e eu estava considerando seriamente o que faria da minha vida.

Neste dia eu cheguei no horário, encontrando o estagiário ainda na sala dos professores. Ele parecia ansioso com a sua “aula” e eu, apesar de não estar muito confiante na atividade, já que sabia muito bem como era o comportamento das salas, não queria desanimar o menino, então tentei passar tranquilidade a este com algumas poucas palavras.

Fomos para a sala onde se realizaria a primeira aula já com os equipamentos necessários para a aplicação da mesma. Ao chegar, expliquei aos alunos que Pierre ministraria a mesma e pedi a colaboração de todos, que concordaram tranquilamente.

Como o tema tratado era “desigualdades”, Pierre escolheu trabalhar a música “A cidade” produzida pelo Chico Science junto com a Nação Zumbi, e ao final da mesma, instigou e conduziu um debate junto aos discentes sobre a espacialização das desigualdades no meio urbano. Tudo correu muito bem, e os alunos, apesar de não conhecerem a música e nem serem muito adeptos a tal estilo musical, acabaram participando bastante, já que o tema se aproximava muito da realidade destes.

Confesso que não esperava por isso, ver como os alunos gostaram de “fazer algo diferente”. Mesmo os mais bagunceiros ou dorminhocos mantiveram-se participativos durante a maior parte da aula, dando, inclusive, exemplos de outras músicas ou situações que também se encaixavam no tema. O resultado da atividade foi muito produtivo e tanto o estagiário, quanto eu mesma, ficamos muito felizes e animados.

Bom, a primeira batalha já tinha passado, ainda tínhamos mais 5, mas ver como havia dado certo já nos deixava esperançosos: eu absorvendo as emoções do rapaz como se fossem minhas, retomando um pouco da disposição que eu senti durante meus primeiros meses como professora.

As aulas seguintes ocorreram tranquilamente, umas com maior participação da sala do que outras, mas no geral, a atividade mostrou-nos resultados positivos. Fiquei esperançosa com isso, minha cabeça já maquinando outras formas lúdicas de trabalhar os conteúdos em sala a fim de incentivar uma maior participação dos alunos.

Ao final do período Pierre despediu-se de mim, já que aquele era seu último dia, desejando-me sorte em minha jornada na busca por mim mesma, assim como eu desejei-lhe sucesso na carreira de professora que já sabia ser o que ele amava. Algumas pessoas passam por nossas vidas, ainda que por um curto período, para nos marcar de alguma forma, e eu sentia que Pierre era uma delas. Ele me ajudou a enxergar que eu tinha um problema e que eu podia resolvê-lo, desde que eu quisesse e me esforçasse para isso.

Eu ainda tinha algumas aulas para ministrar no período da tarde, mas me sentia com ânimo para enfrenta-las, diferente dos dias anteriores, quando eu apenas as suportava.

***

Na sexta-feira eu acordei cedo e fui para escola com tranquilamente, chegando até antes do horário de início da mesma. Os resultados positivos do dia anterior tinham realmente me dado grandes esperanças sobre o “dar aula” e eu me sentia com mais disposição que o comum para ministra-las. O que durou pouco, pois por ser sexta-feira, ou simplesmente porque eles me odeiam, os alunos pareciam com mais disposição do que nunca e por causa do comportamento dos mesmos eu tive que administrar diversos conflitos em sala de aula, inclusive a minha vontade absurda de largar tudo e ir embora.

No horário do intervalo eu já me sentia esgotada, sem ânimo para nada, aquela velha ideia de mudar de profissão estava mais viva do que nunca. Eu não consegui entender como toda a esperança que eu havia acumulado no dia anterior conseguiu se esvair assim, tão rápido.... Eu queria dar uma boa aula, mas assim que entrava em sala e via aquela bagunça ou toda vez que algum aluno se recusava a fazer a tarefa, eu percebia que não tinha forças para lidar contra isso. Acabei fazendo o de sempre, isto é, passando tarefas da apostila - que eu ainda odeio! - Enquanto administrava o barulho da sala, tentando evitar que este incomodasse outros professores.

Em determinado momento da última aula do período da manhã, eu cobrei dos alunos a redação, cuja data de entrega máxima tinha ficado para hoje. Estes deixavam a atividade em cima da minha mesa ao passo que saiam da sala, para irem para suas casas. Observei com olhos cansados a sala se esvaziar até restar uma última aluna.

— Aqui está minha redação professora. – Falou enquanto colocava a mesma sobre a mesa. Ela me olhou com uma cara pensativa e então suspirou, me encarando em seguida. – Posso fazer uma pergunta?

— Claro Duda, diga. – Falei um pouco apreensiva, já que era nítida o seu desconforto com a situação. Duda era uma das melhores alunas da sala, e talvez até mesmo da escola, e eu estava curiosa para saber o que tanto lhe afligia.

— Então... – Começou num tom baixo. – Juro que não era minha intenção, mas eu acabei escutando a conversa que você e o professor Pierre estavam tendo na última aula. – Continuou envergonhada. – Eu estava muito perto de vocês e estava com um pouco de dificuldade na redação, então eu acabei me distraindo com o que vocês falavam, já que o assunto me interessava... – Eu a encarava na expectativa do que ela iria dizer. – É que eu sempre quis ser professora, mas depois do que vocês falaram eu fiquei com medo.... De não conseguir aguentar a pressão sabe.... Você acha que vale a pena?

Aquela pergunta me pegou totalmente desprevenida, principalmente porque eu mesma esperava que alguém pudesse respondê-la a mim. Eu não sabia o que falar.... Não queria estragar os sonhos da criança, mas também não me sentia à vontade em mentir e dizer que tudo era uma maravilha. Respirei fundo e tentei ser sincera.

— Olha Duda, eu não vou mentir para você, e nem poderia já que você ouviu nossa conversa e sabe mais ou menos a minha opinião sobre o assunto... – A menina acenou positivamente me incentivando a continuar. – Ser professor não é nada fácil, tem um monte de coisinhas que vão surgir pelo caminho que podem te desanimar, como aconteceu comigo, mas se você gosta mesmo da ideia e quer mesmo trabalhar com isso um dia eu acho que vale a pena sim. – A menina pareceu se surpreender com minha resposta, no entanto, isso pareceu interessar-lhe, já que esta sentou-se em uma cadeira próxima a minha mesa e continuou a me ouvir atentamente.

– Ser professor é uma profissão muito bonita, você não apenas ensina um conteúdo a seus alunos, você também tem o “poder” de despertá-los para o mundo, de ensiná-los a trabalhar em equipe e de saber distinguir o que é certo do que é errado. – Continuei me surpreendendo com a minha própria linha de raciocínio.

— Um bom professor é capaz de despertar sonhos, de orientá-los.  Depois da família, ou as vezes até antes, ele serve como uma base, como referência.  – Falei ao mesmo tempo em que resgatava em meu interior alguns dos motivos que me levaram a ser professora. – Um bom professor pode salvar vidas, mas um mal professor pode ajudar a destruí-las e é por isso que você precisa ter certeza de que é isso que você quer pra sua vida, porque se você decidir mesmo seguir esse caminho, você estará aceitando ser responsável não só por você, mas também por um monte de vidas. – Falei enquanto lembrava das palavras de minha mãe e ao mesmo tempo que repensava a minhas próprias atitudes.

— Você terá responsabilidades a cumprir com cada aluno que entrar em sua vida, você poderá fazer uma grande diferença na vida deles, mas você precisa querer isso. Do contrário será só mais um professor chato que tenta controlar uma sala que não tem qualquer respeito por você. – Eu a olhava com ternura. – É uma batalha perdida, entende? – Falei em meio a um suspiro. A menina acenou mostrando-me que havia entendido.

— Então pensa bem, você tem alguns anos ainda, não precisa se apressar na sua decisão. Veja o que você quer, analise suas opções, levante os prós e contras e só depois tome uma decisão. Tenha em mente que você sempre poderá voltar atrás e mudar tudo, ou quase tudo, mas a partir do momento que você escolher um caminho, você tem que se doar ao máximo para tentar fazer com que esse seja o certo. Pode ser que lá na frente você descubra que estava errada, que não era isso que você queria, mas você nunca vai saber se não tentar, não é? Então não espere só por Deus, seja o seu próprio milagre.

— Certo, acho que entendi.... Eu vou pensar bem e ver se é isso mesmo que eu quero. – Falou num tom pensativo, porém firme. – Obrigada professora! – Falou em meio a um sorriso. – Se um dia eu virar mesmo professora, espero ser alguém como você ou o professor Pierre. – Pegou sua mochila e foi até a porta, balançando a mão direita em um aceno de despedida.

Me surpreendi com sua última fala, principalmente porque eu mesma não me via como um exemplo de professora. Em algum momento da minha trajetória eu acabei me perdendo em um labirinto e eu não sabia mais se queria sair pelo mesmo caminho que entrei ou se queria um alternativo, mas ao menos agora eu sabia que estava perdida e que teria que fazer alguma coisa caso quisesse alcançar as coisas que almejo na vida.

Sei que não vai ser fácil, e sei também que eu teria que enfrentar muitas dificuldades, independente do caminho escolhido, mas eu tinha esperanças, de que eu poderia vencê-las, desde que eu mantivesse um objetivo principal em mente. Eu ainda não sabia que objetivo era esse, mas estava ansiosa para descobri-lo. 


Notas Finais




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