História Sonhos Vermelhos - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Amor Doce
Personagens Alexy, Ambre, Castiel, Debrah, Lysandre, Nathaniel, Personagens Originais, Rosalya
Tags Amor Doce, Castiel, Demonios, Drama, Romance, Sexo, Terror Piscicológico
Exibições 75
Palavras 5.380
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Colegial, Drama (Tragédia), Escolar, Fantasia, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Gente, desculpa a demora, mas eu tive que fazer um tempo de pesquisa pra melhorar minha escrita. Mas taí, e espero que vocês gostem.

Capítulo 3 - No Rest For The Wicked


Revas abriu seu amado armário com força. Bastante força.

                Ela tinha até apelidado ele, e grudado o trocadilho na porta do mesmo do lado de dentro.

                Digam oi ao Karma.

                Castiel tinha rido ao ver isso, e dito que ela não batia bem.

                Conte-me uma novidade.

                Já tinham se passado duas semanas desde o “incidente”.

                Desde então ela os rapazes tinham começado a conversar mais, e pela primeira vez, ela achava que talvez a vida escolar não tivesse que ser um inferno.

                Ela tinha conhecido também Rosalya, e Alexy, que tinham faltado no primeiro dia. Eles cinco eram agora bastante próximos, e Revas descobriu que Rosa – como ela fazia questão de ser chamada por Revas – era namorada do irmão de Lysandre, Leigh.

                Havia também Viollete, Kim, Mellody, Íris, Peggy, Nathaniel e Armin.

                Eles não eram tão próximos, mas também eram bons amigos.

                Idiota. Acha que vai durar? Eles vão perceber uma hora.

                Você não é uma deles.

                E é claro que a voz discordava.

                Você não ia feri-los. Para que tanto drama?

                Você acabou sendo a única a se machucar no fim.

                Ela nem se irritava mais. Não valia a pena. Já tinham tido aquela mesma discussão mais de um milhão de vezes.

                “Você sabe o que aquele feitiço pode fazer com as pessoas. Não é simplesmente uma sugestão ou um controle mental. Aquilo atualmente atrai coisas ruins até a vítima.”

                Nem sempre. Às vezes o feitiço apenas abre o portão.

                “Ou abre o portão e cria um laço, que liga o feiticeiro ao enfeitiçado, fazendo com que o segundo enlouqueça.”

                Mas nem sempre. Além do mais, você já nasceu com todos os portões abertos, e, no entanto, é completamente sã.

                “Eu não tenho tanta certeza quanto a isso.” – e isso soou tão amargo.

                Mas ela vinha passando menos tempo no silêncio, e mais conversando com todos.

                É claro, depois do incidente, ela passou a tomar muito mais cuidado com o que dizia, mas a verdade é que ela nem discutia muito mais com a voz ultimamente. Tinham sido duas semanas, mas para ela era como uma pequena eternidade, uma experiência totalmente nova.

                Ter amigos.

                Ela se viu sorrindo consigo mesma enquanto terminava de fechar e trancar Karma.

                O dia não estava tão frio, e ela tinha descartado, com mais entusiasmo até do que o necessário, o maldito cachecol. No lugar, ela estava com um moletom pesado com o símbolo do Nirvana e as luvas eram de material mais leve, sem dedos.

                Mas tudo ainda era preto.

                Foi aí que ela lembrou que tinha trazido sua garrafa térmica, e tirando-a da mochila, deu um gole do líquido fumegante.

                Nada como o sabor de Ceylon tea.

                Eram uma nova blend que Lys tinha dado para ela de presente. E como uma boa vitoriana, ela tinha tido um ataque de felicidade.

                Tinha sido um presente de melhoras, considerando o que tinha acontecido.

                Ela tinha acordado no fim da tarde em uma cama de hospital. Lysandre estava sentado ao lado dela, escrevendo alguma coisa em um bloco-de-notas.

                Tinha sido estranho para ela acordar e ver que tinha alguém cuidando dela.

                Ele tinha sido extremamente gentil, e perguntado se ela já se sentia melhor.

                Ele comentou que eles tinham ficado em pânico sem saber o que fazer.

Por que ela estava vomitando agulhas.

                Agulhas negras junto com muito sangue.

                “Não é nada.” – Ela tinha dito.

                “Não pareceu seu um nada pra mim ou pro Castiel, Revas.” – Ele pareceu bravo por um instante, e ela abaixou a cabeça, envergonhada.

                “Desculpe Lysandre. Eu só não queria que vocês se preocupassem.”

                “Sem problemas. Amigos estão aí pra isso não é?”

                Ela tinha olhado para ele atônita, sem saber o que responder.

                “A-amigos? Mas nós acabamos de nos conhecer...”

                Ele tinha ficado claramente constrangido, e parou de escrever por um momento:

                “Se você não se sente confortável com a ideia, não tem probl-“

                “Não!” – ela tinha segurado o braço dele, um pouco desesperada demais. – “Q-quer dizer, eu não me importo, eu só não...”

                “Revas, o que realmente aconteceu? Os médicos nunca viram nada parecido.”

                Ela levantou os olhos, surpresa com a pergunta e viu que ele tinha uma expressão severa, senão um pouco triste, no rosto.

                “Se possível eu gostaria de não falar no assunto. Tem coisas que é melhor ficarem no passado.”

                Ele parecia contrariado, mas concordou com um aceno de cabeça.

                Tantas mentiras. Quando é que ela ia poder parar de viver de mentiras?

                E por que parar, pequenina?

                Talvez aqueles dois fossem o começo da chance dela.

                E foi aí que ela se lembrou de perguntar, soltando Lys rapidamente, ao perceber que ainda segurava seu braço:

                “É verdade! E o Castiel?”

                “Ele foi para casa se trocar, já que um pouco do seu sangue acabou acertando ele.”

                Ótimo. Ela tinha conseguido babar sangue em Castiel.

                Ele não ia deixar ela esquecer disso tão cedo, com certeza.

                Lysandre pareceu então se lembrar de algo, e disse:

                “A escola entrou em contato om os seus pais, e eu disse que poderia ficar aqui com você até eles chegarem, mas eu queria saber, eles trabalham até tarde? Por que aí eu teria uma desculpa para pedir pro Castiel vir me buscar de moto. Confesso que não queria muito ir de ôni-“

                “Lys...” – a jovem o interrompeu – “Vai pra casa.”

                Ele pareceu confuso, e teimou:

                “Revas, não tem problema nenhum. Eu posso muito bem esperar por el-“

                “Eles não vêm.” – Ela interrompeu, um sorriso triste nos lábios. – “Eles vão vir quando eu receber alta, me buscar. Não se preocupe.”

                Lys ficou ali parado observando ela, atônito.

                Mas era a verdade, e ela estava certa.

 Na manhã seguinte, depois de os médicos se assustarem com a velocidade de recuperação dela, ela recebeu alta, os pais de Revas apareceram, e ela entrou no carro sem trocar uma palavra sequer com eles.

E ela tinha ido direto do hospital para escola, em silêncio absoluto.

 

Ela estava tão distraída com o que quase não percebeu três garotas, arrumadas como se estivem um desfile, se aproximarem.

                Na frente, claramente liderando, vinha uma loira de olhos verdes, arrogância até os poros.

                Elas pararam na frente de Revas, que não lhes deu muita atenção, apenas continuou bebendo seu chá.

                - Ei esquisita. Você é a aluna nova não é? A tal Re-não-sei-oque.

                Revas deu de ombros, sinceramente desinteressada. Aquilo, no entanto, pareceu irritar a loira, que a deu um empurrão totalmente ineficaz antes de continuar:

                - Não fique se achando! Eu vou te avisar só uma vez, fique longe do meu irmão Nathaniel, e principalmente do Castiel. Ele é meu.

                Revas quase riu na cara da garota, de tão ridícula a cena.

                Sério? O Castiel, dela?

                - Olha, eu não te conheço, e a vida particular do Castiel não me diz respeito. – A garota sorriu convencida, achando que tinha conseguido intimidá-la – Mas eu te garanto, ele ia ficar muito puto de ouvir alguém falando dele assim. Ele é muito vira-lata para ser adestrado, garota.

                “E vacinado contra o seu tipo, também.”

                Mas ela não tinha necessidade extrema de humilhar a garota, então omitiu a última parte.

                Além do mais, Ceylon tea era muito melhor do que ouvir aquele mimimi infantil.

                Frutado, doce e límpido, tão suave.

                - Urgh, escuta aqui, não fique toda convencida só por quê – doce, tão deliciosamente doce, Revas poderia ficar daquele jeito o dia todo. – ele te carregou no colo para enfermari –

                E lá se foi o Ceylon.

                Cuspido na cara da garota.

                Que desperdício.

                A loira parecia estar em choque, olhando boquiaberta para Revas, chá em todo o seu cabelo e roupas.

                Definitivamente um desperdício.

                - C-como assim carregou?

                A “seguidora” asiática passava um lenço para a garota em choque, enquanto a outra, que carregava uma pasta consigo, o cabelo suspenso num rabo-de-cavalo, respondeu Revas, que estava na cara dura nem aí para a loira:

                - Sim, carregou. Estilo noiva e tudo.

                 A jovem teve que se recostar no armário, imaginando a cena.

Cacete. 

Não era atoa que ele andava tão insuportável.

Ele tinha um puta material de chantagem com ela.

A garota durona, carregada feito uma princesa enquanto babava sangue no príncipe encantado.

Ela quase riu ao imaginar o Castiel sendo rotulado daquela forma, mas ela estava com vergonha demais pra conseguir.

Numa reação instintiva, Revas levantou o livro de história, bloqueando o tapa que a loira tinha pretendido acertar em seu rosto.

- Vadia. – ela parecia furiosa – Você vai me pagar por isso.

E lá se foi a esperança de Revas de não fazer inimigos antes do segundo semestre.

Lindo.

Mas pelo menos duas semanas era um recorde histórico para ela.

- Se eu fosse você, eu escolheria melhor a quem provocar, Ambre. – Revas disse, abaixando o livro e guardando-o na mochila. – Vejo você por aí.

- Como você sabe o meu nom-

- Eu sei muito mais do que só isso.  – dito isso, a jovem de cabelos negros se virou, e saiu andando calmamente, indo para a aula que ia começar dali a pouco.

                Ambre ficou ali por alguns segundos, digerindo a fala de Revas, antes de bufar e rebolar até o banheiro feminino, já começando a tramar com Li e Charlotte sua vingança.

                Ela ia mostrar pra novata quem é que devia saber a quem provocar.

               

                ***

 

                Já era o terceiro horário, e Castiel tinha faltado todos.

                Ele não tinha dormido direito, e estava sem saco para fazer qualquer coisa que fosse.

                Por isso, estava no porão, deitado em um sofá velho que um dia devia ter pertencido à sala dos professores, uma revista de música sobre os olhos.

                Mas aquela revista não era qualquer uma. Era de meses antes, e, no entanto, ele não conseguia jogá-la fora.

                Tudo isso por causa da foto que estava diante dele, que ele encarava sem sequer piscar.

                Debrah olhava para a câmera, seu conhecido sorriso estampando o rosto de feições delicadas.

                Aparentemente, ela andava fazendo bastante sucesso, e o que ele estava fazendo?

                Estava na escola, um cigarro já há muito apagado entre os dedos, desejando algo forte para beber. Estava numa banda completamente desconhecida com o melhor amigo.

                Estava perdendo tempo com noites em claro, baladas estúpidas, mulheres e bebida.

                Mas o que mais ele podia fazer? Ela tinha ido embora.

                Era ele que o empresário tinha dispensado.

                Era dele que todos desistiam aos poucos.

                De repente ele ouviu passos na escada que levava à porta do porão, e se sentou rapidamente, escondendo a revista sob uma pilha de caixas e pisando no cigarro.

                Mas quem apareceu na escada foi Revas, que olhou para ele com aqueles olhos sempre impassíveis.

                Era tão difícil arrancar qualquer tipo de expressão dela.

                - Eu tava te procurando. – Ela disse, entrando no porão e se sentando ao lado dele.

                Os olhos dela pareciam queimar, como se ela pudesse ver tudo que ele sentia. Às vezes ele pensava que ela podia mesmo.

                Ele quebrou o contato visual, colocando a cabeça sobre as mãos, cotovelos apoiados nos joelhos.

                - Eu não tô a fim de conversa, tábua.

Ela bufou diante do apelido. Isso quase o fez sorrir, quase.

- Isso eu já notei, ruivo falsificado.

Isso o fez sorrir. Como ela conseguia?

- Então o que ainda tá fazendo aqui? Vaza. – ele conseguiu esconder o sorriso da voz.

Ao invés de fazer o que ele disse, ela tirou a mochila das costas, a abriu, e retirou de lá de dentro o celular e fones de ouvido. Plugou os dois e pôs um dos fones no ouvido direito, e passou o esquerdo pra ele, a mão suspensa em frente ao rosto abaixado do ruivo.

- Pega logo.

- Eu te disse pra vazar. – ele estava começando a se irritar de verdade com ela.

Revas bufou mais uma vez, e balançou a mão com o fone.

- Se eu sair agora você vai ficar ai se deprimindo, e sinceramente, você fica insuportável deprimido.

Ele pegou o fone sem delicadeza nenhuma, sentindo o rosto vermelho de raiva.

- Pense bem e veja quem está sendo insuportável aqui.

Ela riu dele, e Castiel se jogou contra o encosto do sofá, olhando para o teto, pondo o fone no ouvido.

De repente, Gone Forever do Three Days Grace começou a tocar:

 

Don't know what's going on
Don't know what went wrong
Feels like a hundred years 
I still can't believe you're gone

So, I'll stay up all night
with these bloodshot eyes
while these walls surround me 
with the story of our life

                Ele olhou para Revas pasmo. Será que ela sabia?

                Embora fosse muita coincidência, ele duvidou disso. Nem Lys sabia da história toda. Íris sabia, mas ela nunca contaria pra ninguém, disso ele tinha certeza.

I feel so much better
now, that you're gone forever
I tell myself that I don't 
Miss you at all

I'm not lying, denying 
that I feel so much better now
That you're gone forever

                Ela retribuiu o olhar dele, e sua expressão carregava uma seriedade mais profunda, como um adulto que tenta assegurar uma criança de que tudo vai ficar bem.

                Ele devia ter sentido raiva por ela estar se metendo na vida dele, mas a verdade é que ele não conseguia, mesmo sem entender o porquê.

                Na verdade, ele não entendia Revas a maior parte do tempo.

 Eles vinham conversando mais, mas ele não sabia quase nada sobre ela.

                Aquela garota era um verdadeiro mistério.

Now things are coming clear
and I don't need you here
and in this world around me
I'm glad you disappeared

So I'll stay out all night
Get drunk and fuck and fight
until the morning comes 
I'll forget about our life

                Ele não conseguiu evitar um sorriso amargo diante dessa parte da música, e Revas arrancou os fones de repente dos ouvidos dos dois, fazendo Castiel se empertigar assustado.

                Ela tinha um sorriso perverso nos lábios, e ele percebeu, com uma animação estranha, que ela tinha alguma coisa em mente.

                - Castiel, me diz, a sua moto tá com o tanque cheio?

                Ele retribui o sorriso, entendendo em parte onde ela queria chegar:

                - O suficiente pra dar uma boa volta na cidade.

               

                ***

 

                Lysandre se ajeitou na carteira pela décima vez naquela aula.

                Ele estava realmente entediado, e não conseguia pensar em nada para escrever em seu bloco de notas naquele momento.

                O fato de Alexy e Rosalya estarem há horas na frente dele conversando sobre a nova coleção de moda não ajudava muito.

                Muito menos a ausência de Castiel e Revas.

                Eles tinham se aproximado bastante desde o dia em que ela tinha ido parar no hospital. Diferente do que ela passava com sua expressão fechada e visual rebelde, Revas era uma pessoa muito gentil. Falava pouco, mas estava sempre ajudando alguém, sem nunca pedir algo em troca.

                Lys já tinha até perdido a conta de quantas vezes ela tinha achado e devolvido seu bloco de notas. Ela sempre o dava conselhos construtivos sobre suas músicas, e principalmente, animava Castiel quando ele parecia de mal humor.

                Ninguém, nem Lysandre, entendiam como ela conseguia. Mas a verdade é que com seu sorriso de canto, e uma inteligência de causar inveja, ela sempre parecia entender o que se passava com o ruivo guitarrista, e dava um jeito de torna-lo manso como um filhote.

                Claro que Castiel nunca admitiria a influência que ela tinha sobre ele, mas todos percebiam.

                Ela era, sem dúvidas, encantadora.

                Lys sentiu seu celular vibrar no bolso, e ele o puxou, para dar de cara com uma mensagem de Castiel:

                “Eu e a tábua vamos sair. Quer vir junto?”

                Lysandre riu daquilo. Revas tinha saído da aula pouco antes alegando uma forte dor de cabeça, enquanto Castiel ainda não tinha aparecido naquele dia.

                Claramente, a dor de cabeça dela tinha nome, e um humor do cão.

                Ainda sorrindo, o vitoriano digitou uma resposta rápida antes de voltar a guardar o celular:

                “Obrigado, mas não. Não posso perder essa aula. Divirtam-se.”

                Ele riu de novo, dessa vez de sua mentira, quando viu que Alexy e Rosalya o observavam por cima de seus ombros.

                - Quem era, Lys-fofo? – Rosalya perguntou, usando o apelido que tinha criado para ele.

                Mas é claro que ela sabia. Ela nunca se intrometeria se não soubesse. Ela e Revas eram duas mulheres de percepção sobrenatural.

                - Era o Castiel. Ele e Revas vão sair, e me convidaram para ir junto.

                Rosa trocou um olhar cúmplice com Alexy, e os dois sorriram, com certeza pensando em como interrogar Revas mais tarde.

                Logo os dois estavam conversando animadamente, e Lys teve de repente uma ideia muito boa para a música que estava escrevendo, e abriu seu bloco-de-notas.

                Com a caligrafia firme, escreveu:

Talvez eu devesse partir
Talvez eu devesse parar de beber
Mas eu tenho medo de sentir
Eu tenho tanto medo de perder

 

                ***

                Ao lado direito deles estavam as montanhas de pedra escura, cobertas vegetação rasteira.

                E à esquerda da estrada, logo depois do bloqueio, estava o mar. Cinza e revolto, ele brilhava onde pequenos feixes de luz ultrapassavam as nuvens e tocavam sua superfície.

                Revas se aproximou mais das costas de Castiel, seu cabelo negro esvoaçando por baixo no capacete reserva, e ele acelerou mais sua Harley-Davidson, o ronco do motor quase abafando o som das ondas.

                Seu perfume era amadeirado e cítrico, sensual e misterioso.

Engraçado como combinava tanto com Castiel.

Ao perceber por onde seus pensamentos caminhavam, ela balançou a cabeça, afastando os pensamentos. Ele era seu amigo, e não olhava para ela daquela forma, por mais mulherengo que ele fosse.

Além do mais, a última coisa que ela precisava no momento era de romance.

Revas, Revas. Eu não entendo por que fugir. Abrace seus desejos. Se você o quer, tenha-o, conquiste-o.

Ela ignorou a voz, suspirando.

Não queria Castiel daquela forma.

-Tudo bem aí atrás?! – Ele gritou, a voz quase engolida pelo vento, pelo motor e pelo mar.

Ela assentiu com a cabeça, e ele abriu um de seus sorrisos obscenamente charmosos.

Se virando mais uma vez para frente, ele gritou, mais uma vez:

- Você conhece mesmo o caminho, né?! Eu não tô com vontade de ficar perdido, não!

Ela grunhiu, irritada por ele perguntar a mesma coisa pela quarta vez desde que eles tinham saído de Sweet Amoris.

- Eu já disse que sim, cacete! Aquieta o facho e presta a atenção na porra da estrada Castiel, senão aí sim que a gente vai se perder!

Ela sentiu as costas dele tremerem numa risada curta, e logo eles fizeram uma última curva antes de ela avistar a entrada que estava procurando. Erguendo o braço, ela apontou a pequena placa que indicava o caminho.

Castiel diminuiu a velocidade e fez uma curva suave, entrando na pequena estrada de terra batida. A moto dava trancos violentos enquanto eles passavam pelos buracos, mas Castiel era um bom motorista, e mantinha tudo sob controle.

Eles continuaram assim, descendo cada vez mais, por cerca de um quilômetro, até chegar numa pequena praia de areia muito branca, cercada por trechos de rocha da cor das montanhas. Ela desceu seguida por Castiel, que estacionou a moto e guardou os capacetes.

Feito isso, ele se jogou de joelhos de forma teatral, juntou as mãos e fez um gesto zombeteiro de agradecimento aos céus.

- Obrigado Deus, por dar a essa tábua algum senso de direção.

Revas riu e chutou areia no ruivo, que levantou num pulo, ameaçando jogá-la na água se ela fizesse isso de novo.

- Ficou maluca? Volta aqui! Você vai ver quando eu te pegar, sua tábua!

Ela correu até as pedras e as contornou em ziguezague, despistando o bad boy.

Os dois riam, e Castiel parecia contente. Aquilo a deixou feliz, pois ao encontra-lo mais cedo, teve certeza que o ruivo estava tendo um dia ruim.

A brincadeira terminada, Revas pegou uma toalha de praia que eles tinham passado para pegar na casa dela, e estendeu na areia. Era um começo de tarde cinzento e um pouco frio, mas ela estava alegre. Fazia anos que não ia nessa praia.

Os dois se sentaram, e ela tirou uma garrafa de tequila da mochila. Castiel abriu um sorrisinho, e ela o avisou que a tequila ia ficar pra mais tarde, já que ele ia voltar dirigindo. Dito isso, guardou a garrafa mais uma vez, tendo conferido que nada tinha quebrado no caminho. Puxou então um pequeno rádio e vários pacotes de salgadinho.

- Caraca Revas. Você comprou essa bolsa da Hermione? Parece sem fim.

Ela fez beicinho, e brincou:

- É um truque feminino. Além do mais, você assistiu Harry Potter?

Percebendo sua gafe, Castiel fez careta e cruzou os braços, já na defensiva.

- Todo mundo assistiu Harry Potter quando era criança, tábua. – Ele falou num tom desinteressado, mas parecia constrangido.

Revas alargou o sorriso, e puxou uma garrafinha de Coca-Cola, que passou para o ruivo, junto com um pacote de salgadinho apimentado.

- Tudo bem, senhor-eu-não-sou-nerd.

Castiel estreitou os olhos para ela, e puxou com raiva a comida, abrindo a garrafa e dando um gole com vontade.

A jovem apenas riu dele, enquanto se ocupava com a própria comida. Os dois comeram em silêncio, olhando a barreira de recifes que cercava o lugar, e os rochedos, de onde o som de ondas batendo vinha como um trovão distante.

Castiel então guardou seu lixo em uma sacola separada, e acendeu um cigarro. Ainda olhando para frente, ele perguntou, enquanto Revas guardava tranquilamente o próprio lixo:

- Por que você não chamou o Alexy ou a Rosalya? Eles iam adorar esse lugar.

Revas olhou para ele, e depois para o mar.

- Você não parecia bem. – ele se virou para ela, parecendo surpreso. Ela tinha notado? Claro que ela tinha. – Eu achei que talvez pudesse fazer alguma coisa pra te animar, e eu só acho que ter aqueles dois te enchendo a porra do saco com perguntas não seria uma boa ideia.

Ele sorriu para ela, e seu sorriso pareceu, mesmo que por só um momento, quase sincero.

Revas sorriu de volta, e os dois permaneceram assim por momento, até a jovem se levantar, e olhar para os rochedos.

- Vem. Vou te mostrar uma última coisa.

Ele ergueu uma sobrancelha, curioso, e se levantou, seguindo Revas em silêncio pela praia.

Os dois caminharam até os rochedos, onde a jovem parou, e passou a mão pela superfície, procurando alguma coisa. Castiel alternou o peso de uma perna para a outra, cada vez mais intrigado.

- Ei, tábua. O que você tá procurando…?

- Shiu Castiel. – Ela disse com o dedo nos lábios, formando o gesto universal para silêncio – eu preciso me concentrar se quiser me lembrar direito...

Ele ficou mais inquieto, e já ia perguntar de novo quando ela deu um grito, e ele pulou assustado, chegando mais perto logo em seguida, claramente preocupado.

- Oque foi?! – seus olhos estavam arregalados.

Ela riu dele ao perceber que o tinha assustado, e quando ele fechou a cara, Revas apontou para alguns pontos da rocha na frente deles.

Ele acompanhou a mão dela com o olhar... Aqueles eram... Degraus?

Degraus escavados na rocha?

Sua expressão relaxou, e ele sentiu seu queixo cair ao olhar pra cima e perceber que os aparentes degraus iam até o topo da rocha, que não era tão alta, mas que era bem mais alta que qualquer humano.

Ele não tinha medo de altura, nem Revas. Eles tinham pulado o muro da escola, que era quase tão alto quanto, para fugir naquela mesma manhã.

Ele se virou para ela, que agora mostrava um sorriso com todos os dentes, – algo raro – e a mesma bateu as mãos uma na outra, claramente ansiosa, e disse:

- Vamos nessa?

Garota contagiante.

Ele abriu seu próprio sorrisinho.

- Com certeza.

 Os dois escalaram até o topo com bastante esforço, Revas guiando o caminho e Castiel logo atrás.

Cerca de cinco minutos depois, já haviam chegado a seu destino.

E o que Castiel viu o deixou boquiaberto.

A rocha tinha falhas em alguns trechos, que formavam profundas piscinas de água cristalina, e onde múltiplas espécies de peixes coloridos nadavam pacificamente ao lado de coloridos corais e algas. O tempo abriu parcialmente, e os raios solares atingiram algumas das piscinas mais distantes, fazendo com que brilhassem absurdamente.

Ele ficou ali encarando a paisagem por algum tempo, até Revas puxá-lo pela barra da camiseta, guiando-o para perto da piscina mais próxima, onde peixes borboleta-listrados nadavam junto de alguns sargentos e até mesmo um pequeno cavalo marinho estava ali, aninhado junto aos corais de cores vibrantes.

Eles se sentaram perto da água e começaram observar os peixes e conversar animadamente sobre as espécies, ou no caso, Revas começou a falar. Ela sabia muitas coisas sobre os peixes ali, e Castiel então se tocou, de que de acordo com as palavras dela, ela já tinha estado ali.

- Ei tábua. – ele começou, a olhando nos olhos.

Ela ainda mexia os dedos levemente na água, com muito cuidado para não assustar os peixes que lá nadavam tranquilos.

- Sim, ruivo falsificado?

É claro que Rosalya tinha aberto sua boca gigante e contado que ele pintava o cabelo. Não que ele ligasse, mas assim Revas tinha inventado aquele apelido, que vinha como troco por ele a chamar de tábua.

- Você já veio aqui antes, não é?

Ela parou abruptamente de mexer os dedos, e suas sobrancelhas se uniram, dando a Castiel a impressão de que ele tinha tocado num assunto ruim.

- Sim, eu já vim aqui antes. – ela ergueu a mão para repousa-la no colo, e olhou para as nuvens – eu vinha aqui com a minha família quando eu era pequena, e uma vez, brincando nas rochas, descobri essas piscinas.

Ele continuava a encarando, e então se lembrou de que no dia em que ela tinha sido levada para o hospital Lys tinha ligado para Castiel, pedindo que ele fosse buscar o amigo de moto.

No caminho para casa, no entanto, Lys tinha contado que ele sentia pena de Revas.

Por que ela parecia tão só.

Não que Castiel fosse estranho à solidão. Longe disso.

Ele era emancipado e seus pais estavam sempre viajando a trabalho, e justamente por isso, ele sabia muito bem como era ficar muito tempo sozinho. No entanto, Valérie – sua mãe, – e Jean-Louis – seu pai – eram pais carinhosos, que sempre ligavam para ele e aguentavam seu mau humor com paciência quase infinita.

No entanto, pelo que Lysandre lhe dissera, parecia que a relação de Revas com seus pais beirava à negligência. Segundo ela mesma tinha contado, eles não deixavam faltar nada, mas claramente, a troca era meramente material, por assim dizer.

Ele sentiu o coração um pouco pesado, mas não era lugar dele se meter naquilo. Não era problema dele.

Então ele apenas ficou ali parado, num gesto de amizade, em silêncio, e se ela quisesse, poderia continuar, ou se não, parar ali mesmo.

Ela abriu um sorrisinho, como se entendesse, e continuou:

- Meus pais me adotaram quando eu era só um bebê. Aparentemente eu fui achada sob um viaduto, embrulhada em um pano branco onde o meu nome estava escrito. Eles me adotaram por que minha mãe tinha descoberto que suas chances de engravidar eram quase nulas.

Ela se remexeu um pouco onde estava sentada, e Castiel engoliu em seco.

- No entanto, quando eu tinha cinco, contra todas as expectativas, minha mãe engravidou. Aos seis, eu virei irmã mais velha de um menino chamado Aramis. Eu amava meu irmão. – ela pareceu quase engasgar com essas palavras, e o coração de Castiel afundou. Merda! – Ele dizia desde pequeno que queria ser marinheiro quando crescesse. Ele amava o mar.

Foi ai que ele viu uma lágrima escorrer pela bochecha de Revas, e ele soube que tinha tocado no pior assunto possível. Ele já tinha percebido onde todos aqueles verbos no passado levavam.

Aquela história não ia acabar bem.

Com esforço visível, ela terminou:

- Nós vínhamos sempre aqui, e um dia, eu encontrei esse lugar. Mostrei pra ele, e esse se tornou nosso esconderijo secreto. Às vezes a gente pegava o ônibus que vai para o litoral, só pra vir aqui, só nós dois. – ela olhou pras próprias mãos, que tremiam. – Ele morreu quando eu tinha doze, e essa é a primeira vez que eu volto aqui desde então.

Parabéns Castiel.

Você definitivamente fez merda.

Ela limpou a lágrima com força, e então olhou para ele. Ela estava se segurando para não chorar.

- Que droga de amiga eu sou, né? Te trago aqui pra te animar e acabo falando de coisas tão deprimentes.

Antes que ele pudesse falar de qualquer coisa, no entanto, ela interrompeu:

- Vamos deixar isso pra lá, tudo bem? Vamos aproveitar o fim da tarde antes de ir pra casa.

Dito isso, ela se levantou e começou a caminhar em direção às outras piscinas, voltando a falar sobre os peixes que viviam ali e ele não conseguia se meter mais do que já tinha. Não tinha o que dizer ou o que fazer.

Revas. Por que contar para ele essas coisas? Não demonstre fraqueza nunca.

Eu achei que nós concordávamos nesse ponto.

A contragosto Revas teve que admitir que a voz tinha razão dessa vez.

Por que contar para Castiel aquelas coisas? Ele tinha claramente dado a ela a escolha de não dizer nada, mas ela tinha dito. Mas não a história toda.

Não que a culpa era dela que Aramis estava morto.

Que por causa dela aquele garotinho de olhos azuis como o mar nunca ia ser marinheiro.

Ela se lembrava de ver seu caixão, tão pequenino, sendo levado para debaixo da terra, enquanto sua mãe chorava inconsolável.

É claro que Castiel também não precisava saber que depois daquilo seus pais mal a olhavam nos olhos.

Aquela era a punição que ela sozinha tinha que pagar por ser um monstro.

Pouco depois os dois decidiram voltar para a cidade, e Castiel deixou Revas em casa.

- Te vejo amanhã tábua? – ele perguntou, descaradamente usando um sorriso sem vergonha. Os olhos dela ainda estavam um pouco vermelhos.

Revas sorriu de volta, uma das mãos na cintura, a outra segurando a alça da mochila. Ela fingiu pensar na pergunta dele, fazendo biquinho.

- Vou pensar no seu caso, ruivo falsificado. – eles riram da situação, e depois de se despedir, Castiel voltou para seu apartamento.

Abrindo a porta de casa, ele abraçou Dragon que veio em sua direção absolutamente desesperado.

- Calma amigão. Eu nem fiquei tanto tempo assim fora.

Mas o Pastor de Beauce nem quis saber. Pulou sobre Castiel até finalmente derrubar o dono no chão, assaltando seu rosto em seguida com lambidas ávidas.

Levemente irritado e decididamente babado, Castiel conseguiu finalmente tirar um Dragon bem mais calmo de cima de si, e andou na direção de seu quarto.

Largando suas roupas no caminho, ele entrou no chuveiro, lavando uma quantidade considerável de suor, saliva de cachorro, maresia e areia de si. Assoviando uma música da banda Seether, saiu do banho, e após se secar displicente, vestiu uma box preta e se jogou na cama de casal de seu quarto, olhando para o teto.

Ele se sentia mal pelas coisas que Revas tinha contado, mas não achava que ela fosse falar muito mais. De qualquer forma, ele definitivamente não servia para consolar ninguém e não pretendia tentar.

Ao invés disso, ele puxou o celular do bolso de sua calça descartada no chão do quarto, e começou a ver suas mensagens.

Uma de Lysandre, sobre o ensaio de sábado. Duas de seus pais, falando que a viagem deles ia se prolongar um pouco mais, dando a Castiel mais duas semanas de silêncio.

E por fim, uma ligação não atendida de um número desconhecido.

Não, três ligações.

Intrigado, ele retornou a chamada.

A linha tocou cinco vezes, antes de alguém atender.

- Alô?

Castiel congelou, a mão apertando mais forte o aparelho celular.

Ele conhecia aquela voz.

- Debrah? – a voz dele saiu baixa demais, como se ele falasse com um fantasma.

Mas depois de tudo que tinha acontecido, isso descrevia bem como ele a via.

Um fantasma que parecia adorar assombrá-lo.

- Oi gatinho. – a voz de Debrah soou, manhosa. – eu senti saudade.

E foi com o orgulho entalado na garganta, os olhos desfocados, que Castiel percebeu, para seu desprazer, que tinha sentido muita saudade dela também.



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