História Soturno - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias The GazettE
Personagens Aoi, Kai, Reita, Ruki, Uruha
Tags Aoiha, Kaita, Reikai, Reituki
Exibições 19
Palavras 3.852
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Lemon, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Olá a todos! Esse capítulo não viria agora, mas eu fiquei tão feliz com os comentários e favoritos que eu decidi adiantar. Muito obrigada pelo carinho e espero que gostem desse capítulo <3 Boa leitura!

Capítulo 2 - Harbin's Tea


Fanfic / Fanfiction Soturno - Capítulo 2 - Harbin's Tea

2

{Harbin’s Tea}

 

"Você vai morrer antes dos vinte desse jeito, Kouyou. Seus olhos morrerão primeiro e quando isso alcançar seus lábios saiba que é a hora de parar. Você sabe. Muita gente morre antes dos vinte".

Segundo as expectativas de Ryou, um rapaz infeliz e drogado de Sapporo, eu já deveria estar morto e tão gélido quanto à neve na qual eu afundava meus pés naquele momento. Recordava de como ele era o tipo de rapaz sem qualquer esperança e que sabia muito bem como jogar a culpa nas costas do mundo, assim como ele era do tipo que não podia aceitar ser o único a levar um peso sozinho, portanto, ele sempre me lembrava do quanto eu era tão quebrado como ele, de como eu também tinha a minha culpa nas costas. Talvez ele tivesse razão em sua culpa, mas talvez ele fosse um menino que nunca cresceu.

Ryou havia sido a única pessoa mais próxima de um amigo que eu poderia ter em minha vida enquanto vivi em Sapporo. Mesmo que não compartilhássemos de nenhum segredo ou gosto em comum. Talvez a única coisa que sabíamos dividir eram os copos de café que comprávamos em uma cafeteria cara demais e que era perto de nossa antiga escola. Se eu olhasse por um certo ângulo, ele mais iria se parecer como um fantasma, daqueles que vai com você pra todos os lados e sussurra coisa desagradáveis no seu ouvido. Eu dei tanta razão para as coisas que ele dizia que elas passaram a ser a minha verdade também.

Ele foi a última pessoa que eu vi antes de voltar para o meu buraco frio e coberto de neve¹. Ryou me disse que não adiantaria eu fugir dos meus medos. Eu o mandei calar a boca, ele riu e depois disse outra vez que eu iria morrer se continuasse daquele jeito.

Mas quem sabe eu já tenha morrido e quase ninguém percebeu.

— Porra!

Toda a linha das minhas lembranças de Sapporo e Ryou foram cortadas quando eu ouvi o palavrão ecoar atrás de mim e quando eu me virei para ver o que tinha acontecido, foi inevitável o meu divertimento pela cena. Sorri ao encontrar um Takanori caído de joelhos ao chão enquanto tentava tirar os restos de neve de suas luvas vermelhas. Seu rosto que estava praticamente escondido por detrás de seu grosso cachecol bege parecia irritado e eu ainda era capaz de ouvir mais alguns resmungos seus.

— Já deveria estar acostumado a andar na neve, floquinho — O provoquei ainda me divertindo com a cena, mencionando o apelido que dei a ele quando éramos crianças. Ele rolou os olhos ficando em pé outra vez e tirando a neve que havia ficado em sua calça na altura  dos joelhos.

— Não pense que você está imune, eu vou adorar rir da sua cara quando você cair.

Ri pela sua braveza excessiva. Eu sabia que ele odiava cair em público, ainda que naquela rua estivéssemos tendo a companhia apenas da neve que marcávamos com nossos pés. Ele passou por mim ainda bufando e colocando as mãos de luvas vermelhas em sua jaqueta enorme e azul. Eu o segui mordendo meu lábio inferior para não soltar algum risinho já que a sua imagem caída sobre a neve não saía da minha cabeça.

— Sei que você quer rir, seu peste — Ele resmungou, mas parecia menos bravo — Apenas não conte que eu caí para o Akira. Ele riria por toda a semana, aquele infeliz sem graça.

Sobre Akira eu já sabia um pouco, afinal, Takanori fez questão de que estivesse inteirado sobre algumas pessoas da cidade. O primeiro mencionado por ele foi justamente Akira, o rapaz que trabalhava com ele em uma casa de chá que ficava na avenida principal. O lugar havia sido montado pouco tempo depois que Takanori foi para a Inglaterra e quando o mesmo voltou para o Japão, começou a trabalhar no lugar onde descreveu como sendo um dos seus lugares favoritos.

Akira tinha um tio e que era o dono da tal casa de chá , Yuu era o seu nome, admitia que tinha esquecido muito facilmente o sobrenome do homem, mas era culpa de Takanori que passou a falar mais rápido e animado sobre ele e no final mal consegui filtrar as coisas que ele tinha dito, apenas tive a conclusão de que Yuu era um cara legal, segundo as palavras do próprio Takanori.

E foi meu amigo quem foi conversar com Yuu pedindo por uma oportunidade para que eu trabalhasse na casa de chá ao seu lado. Eu fiquei com certo nervosismo por ele ter feito aquilo sem me consultar, mas aparentemente ele tinha tido aval do meu pai para tal coisa. Eu não queria, porém se aquilo servisse para que minha mente ficasse longe de lembranças desgastantes então já me servia.

Eu achava que ainda era cedo quando nós saímos pela manhã. Pelo o que caminhei percebi que o estabelecimento não era longe da casa dos meus tios e por isso achei que no dia seguinte não precisaria mais da ajuda de Takanori para encontrar o lugar, mas achava que ele bateria em minha porta de qualquer maneira pelas manhãs, apenas com a desculpa de que gostaria de ir conversando.

Takanori gostava de conversar. Ryou conversava muito pouco. Quem sabe era ele quem havia morrido e não havia percebido.

— Estamos chegando!

A voz de Takanori soou animada e eu podia jurar que ele sorria por detrás daquele seu imenso cachecol. Havíamos virado uma esquina e caímos na avenida principal da cidade, onde o comércio daquela pequena cidade girava. A maioria das lojas estavam fechadas, com exceção das cafeterias e padarias. Todas com aquele ar de interior e inverno que eu tanto gostava.

Respirei fundo sentindo o ar gelado e puro entrando em meus pulmões. Aquele pedaço da cidade parecia ser mais frio ali, mas isso não impediu que uma senhora de feições gentis e envelhecidas colocasse algumas mesas e cadeiras na calçada de sua cafeteria. Talvez alguém gostasse do contraste café quente e vento frio.

— É ali! — Takanori apontou animado outra vez para uma fachada a poucos metros de nós — Bem vindo ao Harbin's Tea!

Encarei com atenção o estabelecimento que ficava cada vez mais perto de mim a medida que nossos passos avançavam. A facha era pintada de um verde bonito que automaticamente me lembrou do matcha e de seu gosto amargo, porém gostoso. Havia uma vitrine que levava colado em seu vidro o seu nome e por trás dela, enfeitando de forma bonita, algumas prateleiras brancas que exibiam peças de jogo de chá. Era tão adorável que eu tinha a certeza que deveria ser comum que as pessoas parassem por alguns segundos ali apenas para observarem as peças de cores bonitas e delicadas. Pelas frestas da vitrine eu podia ver um pouco do interior do lugar, onde tinha algumas mesas distribuídas e ainda vazias por conta do horário.

Porém não tive muito tempo para a minha observação da vitrine bonita, pois logo a porta de entrada do estabelecimento foi aberta, causando o soar de um pequeno sino. Takanori e eu olhamos para aquela direção e vi aparecer pela porta um rapaz mais alto que meu amigo, porém menor do que eu. Tinha os cabelos descoloridos e um sorriso debochado nos lábios. Algo em mim ficou incomodado com aquele sorriso e por ele ser direcionado para Takanori.

— Sempre atrasado, não é Matsumoto?

Por todos os anos em que conhecia Takanori eu nunca o vi parecer irritado com alguém, mas aquele rapaz parecia ser alguém que o incomodava, pois logo em seguida àquela afirmativa, o vi olhar para o outro com certo desprezo e raiva. Vi meu amigo rolar os olhos e mostrar o dedo do meio para o jovem que apenas riu de sua atitude Eu estava tentando entender o que acontecia ali.

— Me ame menos, Suzuki — Takanori respondeu com o mesmo deboche usado pelo outro e depois apontou para mim — Esse é o Kouyou, meu amigo que falei para seu tio. Ele pediu para que ele viesse fazer o teste hoje aqui. E Kou, esse é Suzuki Akira.

Ah, aquele era o Akira e de repente muita coisa passou a fazer sentido. Aparentemente os dois não se davam muito bem e nem ao menos se preocupavam em disfarçar.

Eu me senti  um pouco nervoso quando os olhos de Akira caíram sobre mim, me incomodando por saber que estava sendo analisado. Ele me olhou de cima a baixo e por fim sorriu como se tivesse gostado do que viu. Pensei que se Ryou estivesse aqui, iria logo enfrentando Akira dizendo que ele deveria me olhar direito. Não que Ryou fosse meu namorado, mas ele era um amigo possessivo.

— Então você é Takashima Kouyou — Aquilo era uma afirmação e nem me dei ao trabalho de lhe responder — Bonito — Virou-se para Ruki — É mais bonito que você, Matsumoto.

Em seguida vi Ruki rosnar um palavrão que o divertiu e depois o empurrou para dentro da loja, mandando que eu o seguisse. Agradeci internamente por entrar e ser abraçado pelo calor do interior da loja, juntamente acompanhado com o cheiro de bolos. Talvez estivessem assando alguns acompanhamentos.

Comecei a retirar meu cachecol podendo enfim observar o lugar do lado de dentro. As mesas eram bonitas, de quatro lugarem em sua maioria e todas brancas e com toalhas de mesa que lembravam desenhos chineses. Vi que em cada uma delas havia dois porta-açúcar. Um com açúcar cristal e outro com torrões de açúcar. Era tão adoravel que pensei em um momento tirar uma foto daquilo.

Eu até poderia perguntar para Takanori se eu podia fazer aquilo, no entanto, ele parecia estar muito ocupado entrando em uma discussão com Akira. Pelo o que pude notar era que ambos trocavam provocações bobas e ofensas não tão graves, mas que eram o suficiente para que ambos se enervassem. Eu não sabia como os dois conseguiam trabalhar juntos daquela forma. A mim restou ficar parado com o meu cachecol em mãos, esperando o momento que eles fossem lembrar que eu estava parado ali e sem saber o que fazer.

Esperava que ao menos não saísse uma briga física daquilo.

— Vá se foder, seu trouxa! — Bufei  irritado pelo comportamento deles. Seria mais fácil se Takanori apenas o ignorasse, afinal, aquilo tudo me parecia como birras infantis.

— Mas que droga é essa?! — Uma terceira voz masculina preencheu o lugar com seu tom alto e autoritário fazendo que fosse maior que a briga e automaticamente vi aqueles dois se calarem e abaixarem a cabeça parecendo com duas crianças que tinham sido pegas em flagrante por algo errado – Será que todos os dias vocês vão ficar com essa frescura?

Admitia que tinha ficado um pouco surpreso pela forma como aquele grito imponente pareceu ter feito com que tudo tivesse voltado ao seu lugar e feito Takanori e Akira lembrarem de que estavam em um lugar de trabalho e não de brigas, porém ao mesmo tempo continuava um pouco nervoso com aquilo.

Aquela definitivamente não era a melhor primeira impressão de um lugar.

O dono da voz era de um homem que veio do interior do estabelecimento com um avental verde – da mesma cor da fachada – por cima de suas roupas completamente pretas. Ele estava com as mãos sujas do que me pareceu ser farinha e notei que ele possuía um cabelo comprido que naquele momento estava preso em um rabo de cavalo alto, porém ainda assim as pontas alcançavam facilmente os seus ombros. Seu rosto estava contorcido em raiva e me pareceu também um certo cansaço pela situação. Não era dificil de notar que aquela não tinha sido a primeira vez que os outros dois brigavam e algo me fazia duvidar que seria a última.

Vê-lo ali e tendo aquela tamanha autoridade sobre os dois, me fez pensar que ele talvez fosse o tal Yuu. Meu possível futuro patrão.

— Desculpe, Yuu — Takanori se pronunciou primeiro levando os olhos para Yuu, porém rapidamente notei que ele olhou com desprezo outra vez para o rapaz ao seu lado — Mas sabe que seu sobrinho gosta de provocar.

— O quê?! — Akira ao seu lado pareceu indignado — Mas que merda você...

— Chega! — Yuu disse autoritário outra vez e em um tom que notavelmente mostrava que ele não queria que aquele assunto continuasse a render — Os dois provocam e os dois estão errados, entendidos? — Eles concordaram com a cabeça – Agora, pelo amor de Deus, vão trabalhar e fazer as funções de voês e se vocês brigarem desse jeito de novo eu levo os dois para os fundos e deixo se socarem até acabarem de vez com essa birra.

Tive a impressão que ele não deixaria realmente os dois se socarem até não querer mais, mas que tinha dito como um ultimato, mas pela maneira como so dois ainda pareciam invocados eu achava que ainda iria presenciar mais discussões entre aqueles dois.

Após aquilo ouvi um suspiro de Yuu e finalmente então que ele correu os olhos pelo local e enfim me viu parado ainda próximo à porta com um cachecol na mão, e eu tinha a certeza que minha cara deveria ser uma mistura de desespero por não saber o que fazer misturado com como fiquei impressionado pela sua capacidade de calar aqueles dois de forma tão rápida. Ele ergueu as sobrancelhas e me olhava de uma maneira que parecia perguntar o que diabos eu estava fazendo ali, já que ainda era cedo para que ele visse algum cliente.

— Sou Takashima Kouyou — Achei-me na obrigação de me apresentar — Takanori me disse que o senhor permitiu que eu fizesse um teste aqui.

— Ah sim... — Ele olhou para meu amigo como se pedisse uma confirmação e ele assentiu rapidamente fazendo com que Yuu me analisasse mais uma vez— Bem, seja bem vindo... – ele parecia meio incerto em dizer aquilo já que ele tinha ciência do que eu tinha acabado de presenciar – Lamento que tenha visto a infantilidade de Akira, lamento ainda mais por dizer que isso é uma mania corriqueira — Akira fez uma careta de desgosto, mas foi ignorado por todos — Bem, como é seu primeiro dia, poderá ficar na cola de Takanori, ele te ensinará o que precisa. Não é um trabalho difícil, mas é necessário atenção.

— Verdade — Akira se intrometeu — Principalmente com os velhos. Eles são exigentes demais com o chá, chega a ser irritante.

— Por isso que você acaba os atendendo, a velhice deles combina com a sua chatice — Takanori provocou baixinho, mas foi ouvida por nós.

Merda, eles iriam começar outra vez.

— Eu já disse para parar — Yuu os interrompeu quando viu seu sobrinho tomar ar para rebater — Sinta-se a vontade para aprender Kouyou. No final do dia, se tiver gostado daqui então podemos conversar sobre a sua contratação, tudo bem para você? Isso claro se ainda quiser fazer o teste mesmo depois do que viu.

Ele riu constrangido pela sua própria frase eu por um momento me senti constrangido por ele também, porém eu sabia que a causa do que houve não era culpa dele, assim como notei o quanto ele queria que eu não ficasse com uma má impressão – por mais que isso tenha sido inevitável – e acho que isso foi o que me impulsou e tentar dar um sorriso pequeno em direção a ele.

— Não se preocupe, eu ainda quero fazer o teste aqui – Ele retribuiu meu sorriso, parecendo um pouco aliviado com a minha resposta positiva – Obrigado pela... oportunidade.

Na verdade eu não sabia dizer se estava realmente agradecido. Eu não queria trabalhar tão de imediato quando eu voltasse para a cidade. Desejava passar um tempo aproveitando daquele inverno que parecia nunca passar, mas sabia que meu pai não gostaria que eu ficasse divagando por aí. E nós dois sabíamos o quanto meus pensamentos podiam me atormentar.

— E então, vamos começar? — Takanori disse com um sorriso me puxando pela mão — Venha, primeiro eu vou te mostrar todo o lugar e depois vou te ensinar a fazer os chás que mais pedem.

Pelo restante do dia eu o acompanhei  e fiz comentários quando julgava ser necessário. O lugar era pequeno, mas tão aconchegante e quentinha que eu não me surpreendi por ouvir por várias vezes no dia o sino da porta, indicando os clientes que entravam. Vi que durante o trabalho Akira era bastante responsável e quase nem trocava palavras com Takanori, o que me deixava mais calmo sobre farpas trocadas entre eles. Akira, ao lado de seu tio, preparavam os chás com maestria e tão concentrados que eu me senti um pouco mais cativado por aquela arte. Sim, durante aquele dia descobri através de Takanori que fazer chá também era uma arte. E durante o horário de almoço, consegui tirar uma foto daquele porta-açúcar.

Descobri que Harbin - nome que levava a casa de chá - era como se chamava uma cidade chinesa, famosa pelas suas competições de escultura de gelo durante o inverno, aquilo me lembrava em muito sobre as esculturas de gelo que sempre faziam em Sapporo. Yuu havia escolhido aquele nome, pois anos atrás ele ganhou um desses concursos ao lado de um amigo e com o dinheiro do prêmio abriu o seu próprio negócio². Achei interessante o orgulho de Yuu ao contar a história era como se ele tivesse me contando sobre um sonho que realizou e eu não duvidava que fosse realmente assim.

Aprendi a fazer apenas alguns chás no estilo inglês, pois Takanori havia me dito que o cardápio de chás chineses, Yuu permitia que apenas ele próprio e Akira fizessem, já que eram mais delicados de se preparar e ambos possuíam mais experiência naquilo do que ele.

Ao término do dia eu passei a ver e entender melhor a razão pela qual Takanori dizia que ali era um dos seus lugares favoritos. Eu arriscaria pensar que se não fosse pelas farpas trocadas aqui e ali, tudo seria mais agradável, porém mesmo com isso eu gostei do Harbin’s e quando o relógio marcou seis horas da tarde e a loja foi fechada, eu me senti bem ao dizer para Yuu que gostaria de continuar a trabalhar ali e ele também pareceu satisfeito, dizendo que Takanori precisava de uma companhia.

Eu apenas esperava não me arrepender daquela escolha de continuar ali.

— Ah, que demais! — Takanori disse animado, agarrando meu braço quando voltávamos para casa — Vai ser tão bom com você trabalhando lá, Kouyou! Não vou me sentir tão sozinho.

Acabei sorrindo para ele e acabou engasgando em minha garganta um “também estou feliz por não ficar sozinho”, mas achei melhor não falar nada, eu sabia que aquele tipo de frase iria gerar uma profundidade que eu não queria naquele momento. Takanori estava contente e eu não queria afundar ele em minha melancolia particular. Apenas o acompanhava entrando em seus assuntos e comentando no que podia. A nossa distância fez com que ainda fosse difícil engatar aquele entrosamento de nossa infância, mas eu desejava me esforçar.

Eu sentia que aquela era a minha única chance de mudar. Eu não podia jogar fora.

— Acho que ele gosta de você.

Acabei comentando quando ele havia começado a dizer que Akira era um idiota. Takanori apenas riu soprado e acabou concordando com a cabeça. Ele já sabia daquilo.

— Ele já se declarou umas três vezes e eu acho que ele me provoca para chamar a minha atenção — Disse dando os ombros como se aquilo fosse nada de importante  — Mas eu não gosto dele.

— Hm... E você gosta de alguém? — Arrisquei perguntar, já que ele parecia receptivo a perguntas — Teve ou tem algum namorado por aqui?

— Aqui não, mas o único cara que eu gostei eu conheci quando estava no Inglaterra. O nome dele era Rupert³. A gente namorou no tempo que eu estudei lá, mas terminamos quando eu tive que voltar. Ele ainda me manda mensagens. A gente ainda se gosta, eu acho.

— E você não tem vontade de conhecer outra pessoa por aqui?

— Ah, sei lá — Ele deu os ombros — Desde que eu voltei só saio para trabalhar, por isso o único cara que eu vejo é o Akira e eu não presto atenção nos clientes. E como ele não me atrai, então eu estou sozinho — riu soprado mais uma vez, mas parecia um pouco triste por ser solteiro. Ele estava com aquele sorriso triste de gente que quer carinho — Minha mãe disse que eu tinha que sair mais, sabe? Mas não sei. Não tenho companhias para isso.

Assenti como se o compreendesse e por um tempo o único som que ouvimos era de nossos pés afundando na neve. Achei que o assunto tinha morrido ali, mas vi que não quando ele me olhou com as sobrancelhas erguidas e com um sorriso nos lábios. Eu já sabia o que perguntaria.

— E você? Lá em Sapporo você deixou algum namorado?

Talvez eu devesse ter me antecipado quanto aquela pergunta, pois eu sabia o quanto eu odiaria ter que responder aquilo para alguém, ainda que esse alguém fosse Takanori. A resposta era complicada demais para ser dita. Dependendo do que eu dissesse Takanori me faria mais perguntas sobre Sapporo e eu não queria respondê-las de maneira nenhuma. Aquela cidade que era o sonho de tantas pessoas havia se tornado um pesadelo para mim.

Um pesadelo que ainda estava vivo.

— Bem... — Comecei um pouco incerto— Eu tive um namorado em Sapporo. Terminamos um pouco antes de eu voltar para cá — Vi que ele perguntaria mais coisas, então decidi por um ponto final naquilo — Mas eu não quero responder nada relacionado a ele. Se possível, por favor, não pergunte mais.

Takanori pareceu surpreso pelo modo afoito em como eu pedi aquilo e eu não o culpava, também teria aquela expressão se estivesse em seu lugar. A verdade era que eu não queria mexer naquele buraco que eu tentava com tanto custo tampar.

— Tudo bem, parece que esse cara foi um filho da puta com você pela cara que está fazendo. Não tem problema, eu não pergunto mais.

Então Takanori sorriu abertamente para mim e eu sabia que ele cumpriria a sua palavra. Fiquei aliviado. Ainda era cedo demais para que eu mexesse naquele vespeiro quase infinito que era o meu passado em Sapporo.

— Hey, já que agora eu não estou mais sozinho, bem que nós dois poderíamos sair mais, o que acha? Até que aqui de final de semana é um pouco movimentado, a gente pode até gostar.

Eu apenas sorri como se dissesse que eu consideraria a ideia. Ele pareceu mais animado e eu momentaneamente esqueci tudo enquanto ele me dizia de alguns lugares que nós poderíamos visitar. Sem que Takanori visse, eu apertei as minhas mãos dentro dos bolsos da minha jaqueta. Eu estava inseguro e arrisco dizer que estava medroso. Eu queria um novo começo, ao mesmo tempo em que eu tinha medo disso.

Eu não queria estragar tudo outra vez. Eu não queria perder, da mesma maneira que eu perdi um dia.

— Pode ser bem legal, não é? — Takanori ainda sorria com a ideia dos passeios.

— Com certeza, pode ser bem legal.

Disse no modo automático, mas sinceramente eu desejava que as minhas palavras pudessem ser reais.

 


Notas Finais


NOTAS:
¹: Aqui na história não está especificado qual é a cidade onde eles vivem, por isso podem pensar em alguma que queiram, apenas digo que a história se passa em Hokkaido, mas uma curiosidade é que eu me inspirei nessa cidade deles pensando em Furano o "umbigo de Hokkaido", lá costuma fazer muito frio durante o inverno.

²: Harbin realmente é um a cidade chinesa onde fazem escultura de gelos, a mesma coisa acontecesse em Sapporo também, porém não sei dizer se realmente existe prêmio em dinheiro para quem ganha o prêmio de melhor escultura, mas no universo dessa fic eles ganham XD

³ Rupert... Sim, eu pensei no Rupert Grint... Sim, por um momento eu pensei RupertxRuki. ME JULGUEM! XD

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Espero que tenham gostado do capítulo, por favor, se puder comente! Os comentários de vocês me deixam contente :3 E desculpe por qualquer erro que encontraram. Vejo vocês no próximo capítulo! Até! Love y'all <3


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