História Starry Starry Night - Capítulo 10


Escrita por: ~

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Categorias Fifth Harmony
Personagens Ally Brooke, Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Normani Hamilton
Tags Camren, Fifth Harmony
Exibições 55
Palavras 8.502
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ficção, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Nem demorei tanto desta vezkkkk. Na verdade eu ia postar semana passada, mas num deu. Fazer o quê. E nem devia estar postando agora também, amanhã tem aula. Mas a vida é assim, né?? Nada é como a gente quer.

De qualquer forma... Leiam aí e etc. O capítulo tá grande, mas foi escrito com o coração. E talvez com os dedos.

Capítulo 10 - Acidentes


 Eu sei fugir bem. Acho que deve ser um talento. De verdade. A turminha de Mahone até tentou me seguir, mas assim que eu entrei dentro do colégio eles me perderam de vista. Como tinha plena consciência disso, fui para o armário 503. 
  A adrenalina da fuga ainda corria pelo meu corpo, por isso estava animada para responder a garota. E ainda mais porque o primeiro tempo não é o meu horário. Ela podia me pegar no flagra a qualquer momento.
  

Mas antes do pet shop ela estava na natureza. Em seu habitat natural. Ela iria ser retirada de lá apenas para ver você morrer um ano depois.

Estava escrito no papel, em rosa. Mal terminei de ler e a animação já havia passado.

Caramba, garota. Eu não vou ser a dona do pet shop que vai tirar ela da natureza. Eu só queria dar carinho pra ela. E, além do mais, estar num pet shop significa estar longe do alcance de predadores, certo? De certa forma é até bom. E eu poderia pegar uma tartaruga já adulta, pra que ela não sofresse tanto. Você problematiza tudo assim mesmo ou é só pra irritar?

  Respondi rapidamente. Até acho que me controlei bastante, na verdade. Tinha esquecido o quanto ela sabia ser irritante.

Passei o olho pelo armário e notei que havia mais um papel novo ali, pequeno, que dizia "você faltou? :(". Respondi um "sim" no pequeno espaço que havia em baixo. Dei um pequeno sorriso com isso. 

Eu estava com muito medo da garota aparecer, por isso a minha letra tinha ficado uma merda. E isso feria o meu orgulho.

No momento em que fechei o armário, me deparei com Dinah me encarando com olhinhos curiosos. Arregalei os olhos e, por algum motivo, corei feito sangue venoso rico em gás carbônico. Fui pega.

 — O que você está fazendo com esse armário? Não é seu, certo? — ela perguntou, com uma das sobrancelhas nas alturas. 

— Eu, er... U-uma garota da minha turma... armário... minhas mãos... Papel! Isso. — eu disse. Ainda procuro saber o que diabos eu falei. Eu fico calma pra caralho sendo ameaçada de levar um soco no rosto, mas para mentir fico nervosa feito um filho da mãe. Não entendo.

Dinah adotou, agora, um semblante desconfiado. Parabéns, eu. Entregou todo o jogo.

— É o quê? — perguntou. Depois riu.

Respirei fundo antes de responder.

— Droga. — murmurei baixinho antes de continuar. Fechei os punhos numa tentativa de conseguir me acalmar. Eu poderia estragar tudo naquele momento. — Uma garota da minha turma me pediu pra colocar um papel aí dentro. — consegui mentir. Eu olhava pra baixo, com medo da reação dela. E se ela fosse a garota?! Eu não queria descobrir. Não quero que ela tenha um rosto.

— Ah, entendi! — ela exclamou, sorrindo. Não parecia ter desconfiado da minha mentira. E isso é uma grande evolução para a humanidade. — Mas por que você ficou tão nervosa com isso? — perguntou, achando graça.

— Porque, er...  ela disse que, se alguém visse o que eu estava fazendo, poderia ferrar com tudo. — menti novamente. Nessa mentira eu fiquei totalmente confiante porque não era exatamente uma mentira. Eu poderia realmente estragar tudo.

— Tem sentido... 

Dinah murmurou, pensativa. Ficamos em silêncio por um tempo. Mas minha mente trabalhava à mil. Eu ainda não sabia o que exatamente ela fazia ali, se ela era a garota do armário ou não. Eu não podia saber disso. Até tentei colocar a personalidade implicante e sabe-tudo da garota em Dinah. Mas não batia.

— Enfim... Pode ficar tranquila. — ela quebrou-o. — Eu vim aqui pra justamente servir de pombo-correio assim como você. — disse, e apontou com uma das mãos para a outra, que segurava um papel dobrado. Depois sorriu.

Fiquei aliviada imediatamente. A garota permanecia anônima. Desloquei-me um pouquinho para o lado, para que Dinah pudesse colocar o papel que segurava lá dentro do armário.

Assim feito, encostei na parede. Sorri, novamente aliviada. Nem me incomodei com a probabilidade de Dinah ler os papéis que estavam dentro do armário. Fiquei perdida em pensamentos por uns 10 segundos e só acordei quando Dinah fechou a porta do armário. Ela me encarava curiosa.

— Por que ele implica com você? — perguntou. Fiquei surpresa por ela estar querendo iniciar um diálogo comigo depois de ontem.

 Mahone? — questionei, confusa. Por que ela queria saber?

— Sim.

Fiquei em silêncio por um tempo, pensando se deveria falar o motivo ou não. A expressão no rosto da garota na minha frente me pressionava, mas não consegui identificar o que ela estava pensando. Ponderei sobre o que poderia acontecer se não falasse. Ela poderia insistir, ou deixar quieto. Eu queria arriscar na segunda opção, mas, do pouco que conheço dela, tenho 82% de certeza de que seria a primeira. Pra me poupar de aborrecimentos futuros, decidi contar. Não é como se fosse um segredo, mantido a 7 chaves. Na verdade, eu nem me importo com isso. Não faz diferença alguma.

— Hm... Teve uma época que Mahone saía com uma "amiga" minha. Quase como "ficantes sérios".  — comecei, fazendo as aspas com os dedos e me lembrando de Keana. — Só que ela tem essa mania de me beijar às vezes. E teve um dia que ele viu, e ficou puto comigo desde então.

— Você tá de sacanagem? — ela perguntou. Parecia surpresa. — Ele praticamente te persegue SÓ por causa disso?

— Não sei, na verdade. Ele devia ter feito com motivo só nas primeiras vezes, porque tava chateado. Aí depois deve ter se acostumado. Ou ele pode ter outros motivos de que eu não tenha consciência. — eu disse, dando de ombros. Queria meu violino aqui.

— Ele é muito infantil, não duvido nada que guarde rancor. — murmurou.

— Quem é infantil? 

 voz diferente se intrometeu no nosso diálogo. Logo as outras 3 bonitinhas invadiram o meu campo de visão. Não consegui identificar de quem era a voz, mas acho que foi Normani, porque Dinah se dirigiu a ela ao falar:

— Mahone.

Nessa hora Camila revirou os olhos. 

— Você não se cansa de falar nele, Dinah?! — ela murmurou, irritada.

— Não mesmo. Eu odeio ele. — a mais alta respondeu.

— Como se ele fosse importante... Camila resmungou.
  Mal elas haviam acabado de falar e as duas já bufavam, enquanto Ally suspirava cansada, como se essa fosse uma discussão recorrente na pauta das bonitinhas. Normani estava lixando as unhas, indiferente ao desentendimento que havia causado sem querer.

— Mas por que ele é infantil? — Ally perguntou, curiosa.

— Porque o motivo de ele implicar com a Lauren é que ela pegou a garota com quem ele tava saindo. 

Corei feito morango maduríssimo. 

— Não foi isso o que eu disse! — reclamei. Dinah e Normani me olhavam com semblantes maliciosos.

— Ela te pegou. Uau. Grande diferença.

— A outra versão é melhor, assim você mantém a cara de ativa que tem. — Normani falou. Dinah concordou.

Elas distorceram completamente a minha história?!

— E qual é a verdadeira versão? — Ally perguntou. Parecia estar se divertindo com a minha cara de indignação. Já estava meio arrependida por ter falado sobre isso. Suspirei antes de falar, encarando tudo menos as bonitinhas:

— Eu tenho essa "amiga" que tava saindo com o Mahone. Ela tem uma mania chata de me beijar do nada. Teve um dia que ela fez isso e Mahone viu. Só.

— Ou seja, ela te pegou. — Dinah disse.

Olhei pra ela com uma cara bem irônica. Já estava me irritando tudo isso.

— Mas vocês duas têm alguma coisa? — Camila perguntou. Parecia estar tão irritada quanto eu com esse assunto.

Aliás, desde quando o assunto é a minha vida amorosa? E por que eu tô falando com elas? Isso nunca tinha acontecido, sabe, uma conversa de verdade entre a gente. Que dia bizarro.

Antes de eu responder, Normani sussurrou alguma coisa no ouvido de Camila que a fez corar. Não foi muito relevante, na verdade. Nem sei por que comentei isso.

— Não. — respondi simplesmente.

— Mas amigas não se beijam. — retrucou imediatamente. — E você usou aspas na palavra "amiga".

Meu Deus, como ela é implicante.

Nesse momento Dinah riu, fazendo-a ficar ainda mais corada. 

— A culpa não é minha se ela gosta de beijar as bocas alheias de suas amizades. — dei de ombros. Ignorei a segunda parte da frase dela. Nem eu mesma sei por que motivo coloquei aspas ali. É só muito estranho pra mim chamar alguém de "amigo".

Ela chegou a abrir a boca pra falar mais alguma coisa, mas Normani a interrompeu, lançando-a um olhar duro:

— Mais importante que isso, vocês fizeram o exercício de recuperação de Inglês que vale ponto?

Dinah, que ainda ria (não sei do que diabos), passou para uma expressão assustada e pálida em milésimos. Depois exclamou um "puta que pariu!".

— Caramba, ninguém fez?! — Normani perguntou, adquirindo uma expressão desesperada, ao ver que ninguém tinha se pronunciado de forma positiva.

— Não fiquei em Inglês, Mani. — Camila disse, calma. Ally concordou, mumurando um "nem eu". 

— Lauren? — tentou mais uma vez. Devia estar realmente desesperada, para ter que recorrer a mim. E aliás, desde quando chegamos no nível "me deixe copiar o seu dever de casa"?! Não deixaria nem se tivesse feito.

— Não fiz. — respondi, calma, escondendo o turbilhão de pensamentos que me invadia a mente.

— São quantas questões essa merda, Normani?! — Dinah perguntou, mexendo adoidada em sua mochila provavelmente a procura do papel com os exercícios de gramática que a professora deu.

— Umas 7, acho. — respondeu, inquieta. — Mas tem um texto enorme.

— O Adam ficou em Inglês. — Ally disse. — Ele com certeza deve ter feito. E também vai deixar vocês copiarem.

— O quê?! Como? Por quê? Ele escreve maravilhosamente bem. E adora gramática. — Camila perguntou, surpresa e um pouco indignada. Dinah e Normani também pareciam estar.

Quem caralhos é Adam?

— Ele zerou a última redação porque colocou metáforas demais. — a baixinha retrucou, esclarecendo. — Eu li o texto dele. As metáforas eram brilhantes, mas era para ser um texto objetivo, e não poético.

Me perdi em meio a tantas palavras conceituais. E eu realmente queria que o sinal batesse de uma vez...

— Caramba, que merda. — Dinah disse. As outras concordaram.

— Enfim, onde caralhos eu vou achar ele? — Normani perguntou. 

— Você é muito cara de pau. — Camila riu. — Faz tempo que não fala com ele.

— Realmente. — Ally concordou. Normani deu de ombros.

— Que seja, falem logo onde podemos achar o Young. — Dinah resmungou. — O sinal bate daqui a pouco.

— Eu não sei, ué. — Ally disse. As duas bufaram nervosas. 

— Ele é da sala da Lauren. Pode ser que já esteja lá. — Camila disse, evitando contato visual.

Oi? Tem algum Adam na minha sala?

— Que aula você tem agora, Lauren? — a mais alta das bonitinhas perguntou, imediatamente.

— Sociologia...

Mal terminei de falar e Normani já me puxava em direção à sala correspondente. Quando percebi já estava correndo. Dinah vinha logo atrás da gente. Por que as duas me incluíram nessa? Eu nunca nem vi o garoto na vida. E estava pouco me fodendo pra essa atividade de Inglês.

Até pensei em protestar e deixá-las para irem sozinhas, mas de qualquer forma eu teria que ir pra aula de Sociologia mesmo.

Afinal o tal do Adam já estava na sala realmente, e emprestou na boa o seu trabalho feito para as duas bonitinhas mais altas. Como a gente só teria aula de Inglês no último tempo, elas ficaram de devolver para ele no intervalo. Ele até deixou eu copiar também, mas recusei. Não parecia ser o certo pra mim. Eu não fiz o troço e não vou fingir que fiz.

Pude perceber que ele estranhou o fato de eu estar com elas. Mas até eu estranhava isso também. Ele parecia ser o tipo de idiota que gosta de caneta preta. Aliás, já esqueci qual tinha sido a numeração que eu tinha estipulado pra falar sobre as diferenças entre os idiotas - a parada da assinatura e canetas pretas e azuis. Mas não é como se fosse realmente importante.

Eu estava animada para que acabasse o primeiro tempo de uma vez. Queria saber logo o que a garota do armário escreveu naquele papel que Dinah colocou lá dentro. Significa que ela tentou puxar assunto comigo. 

Arranquei uma folha do primeiro caderno que eu vi na minha mochila e escrevi um "Desculpe. Eu faltei ontem. Estava com muita alergia." pra colocar lá no armário. Pra minha mentira com a Dinah funcionar eu teria que levar algum papel pra lá. Pela primeira vez na minha vida eu estava confiante de que uma mentira minha daria certo.

A aula até que passou rápido. Dessa vez eu havia usado a lógica: se eu só ficasse pensando no quanto eu queria ir logo conferir o armário 503, o tempo seria mais uma vez escroto e passaria que nem uma lesma. Por isso, me forcei a prestar atenção na aula. Aí passou rápido. Dessa vez o tempo tinha decidido colaborar.

Quando o sinal bateu eu já tava pronta pra partir. Saí avoada. Liderei a manada, inclusive.

 

Tenho um crush numa pessoa da sua turma.

 

Dizia um papelzinho, que presumi que havia sido o que Dinah colocou ali dentro. Escrito em cor vermelha. Fiquei com vontade de responder um “e eu com isso?”, mas não seria muito educado da minha parte. É que me assustava pensar que ela confiava em mim o suficiente pra contar esse tipo de coisa. Quero dizer, nós mal conversávamos direito; só ficávamos discutindo sobre coisas inúteis. Como se cria confiança em alguém desse jeito?

 

Como? Só tem idiota na minha turma.

 

Respondi. E era realmente verdade. Depois direcionei a minha atenção para a folha “antiga”, na qual falávamos sobre o assunto maravilhoso que eu bolei acerca de tartarugas. Eu sou um lixo.

 

Sim, eu realmente problematizo tudo. Peço desculpas por isso. Pra mim é divertido. :(

 

Me senti mal com essa resposta dela. Ela parecia ter ficado triste com o que eu havia escrito antes. Correção: eu sou muito lixo.

 

Não tem problema. Quero dizer, essa sua qualidade deve ser ótima para o clube de debates que você participa, certo? É realmente importante que seja divertido para você; eu que me irrito fácil demais. Problematize o quanto você quiser. Além do mais, é importante questionar.

 

Escrevi, com sinceridade. Depois fechei a porta do armário e saí desembestada para a próxima aula.

 

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O fato de todos serem idiotas não significa que essa pessoa também não seja. Ela provavelmente é a maior de todos da turma, aliás. Mas não vou dizer quem é... Vai que é você.

 

É, você tem razão. Mas acho que seria impossível ser eu, apesar de eu ser muito idiota.


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Estava eu no meu lugar habitual. Não estava conseguindo desenhar. Acho que era um mal dia pra isso - nada saía como eu queria que saísse, como estava na minha mente. Aí decidi fazer o maldito trabalho da recuperação de Inglês. Não ia dar tempo de qualquer jeito. É impossível ler um texto gigante e responder 7 questões sobre ele misturado com parada de gramática em trinta minutos. Mas eu faria até onde desse. Estava com tédio mesmo. E o remorso havia batido forte.

O caso é que, quando eu tinha acabado de responder a primeira questão, alguém se sentou do meu lado. Olhei em direção à tal pessoa. Era uma Camila corada, para minha surpresa. Ela olhava pra frente.

Eu não sabia o que fazer. Por isso voltei a fazer o trabalho. 

— Você não copiou o do Adam não? — ela perguntou, um tempo depois. — Ele não ofereceu?

Eu havia inconsciente e discretamente colocado o braço em cima das minhas respostas quando Camila chegou. Não queria que ela visse a minha letra. Se Dinah era amiga da garota do armário, então ela também deveria ser. E reconheceria a minha letra facilmente se a garota tivesse mostrado alguma coisa. Não poderia arriscar.

— Ofereceu sim. — respondi. Continuei a escrever.

— E você não aceitou? — ela insistiu.

— Não.

— Por quê?

— Não sei. Não parecia certo. Quero dizer, ele gastou tempo da vida dele fazendo aquilo. Eu fiquei à toa o tempo inteiro. — suspirei. — Não sei explicar. Só não parecia certo para mim. Nem sabia o nome dele até hoje de manhã. 

— Entendi, acho. — ela disse. — E, aliás, como você não sabia o nome dele? Ele é da sua sala!

— Não sou boa com nomes. — dei de ombros. 

Ela riu. 

— Como sabe os nossos então? — perguntou, fazendo referência às bonitinhas.

Olhei pra ela.

— Em momento algum falei o nome de vocês. Esperei chamarem umas às outras.

— Hm, esperta...

Nesse momento Camila finalmente parou de tentar puxar assunto. Eu ainda não havia saído da segunda questão desde que ela tinha chegado. Suspirei cansada ao constatar que ainda faltavam 5 delas. Mas continuei a fazer.

— Por que não fez o trabalho antes? — ela perguntou, quando eu estava lendo a quarta pergunta do troço. Parecia estar nervosa. E mexia nos dedos o tempo inteiro.

— Não estava a fim.

— Por que não?

Que pergunta idiota. Não respondi nada, somente olhei pra ela, irritada. Só queria terminar o negócio de uma vez.

— Eu sei, foi uma pergunta idiota. — ela murmurou, levemente vermelha, olhando pra baixo. — Desculpe.

Não respondi. Voltei a me concentrar no que estava escrevendo. Não sabia a resposta da questão, mas botei qualquer coisa só pra não deixar em branco. Pulei a pergunta seguinte porque era muito grande.

Depois de um tempo me senti mal por ter pegado tão pesado com Camila. De fato ela sempre implicou comigo, mas agora estava tentando puxar assunto. Mas também, caramba, a culpa não é exatamente minha se eu tinha que fazer o troço e ela estava tirando a minha concentração.

— Lauren. — olhei para ela quando me chamou. Continuava olhando pra baixo.

— Oi?

— Você sempre toca naquele shopping nas sextas?

Não estava conseguindo ver o que Camila estava pensando através da expressão de seu rosto. Não sou boa em leitura ocular, na verdade. Não fazia a menor ideia do que significava essa pergunta.

— Nem sempre é sexta-feira. E às vezes toco em parques também. Ou qualquer lugar que me dê vontade. — disse. Logo depois continuei, movida pela curiosidade. — Por quê?

— Entendi. É que eu gostei de te ver tocar. Queria ver novamente.

Camila havia dito isso de forma tão sincera que eu fui obrigada a corar. Ninguém nunca tinha me dito algo como isso, de querer me ver tocar. E ela sustentava um sorriso tímido no rosto, que eu acho que dava ainda mais sinceridade para a frase.

Ninguém nunca tinha se interessado pelo Joe. Eu sempre fico tão concentrada tentando fazer as pessoas pararem de pensar enquanto toco que nunca parei para perceber se elas tinham interesse, ou se estavam gostando. Até porque não realmente importa se a pessoa gostou ou não - afinal, tanto odiar quanto amar causam o mesmo efeito de esquecimento que eu almejo -, mas, de alguma forma, isso para Camila fazia diferença. E isso era novo.

— Hm, eu posso tocar nesta sexta. — eu disse, um pouco indiferente apesar de meus pensamentos entusiasmados.

O caso é que para mim não fazia realmente diferença. E depois voltei a minha atenção para a sétima - e última, graças a Deus - questão. Até que havia sido rápido.

— Certo. — ela murmurou. Acho que não sabia o que responder - quero dizer, eu não saberia pelo menos. Mas não vi sua expressão facial e, pra falar a verdade, não me importava muito.

Uns dois minutos depois e eu havia finalmente terminado o maldito trabalho. Depois me espreguicei. 

— Você vai se inscrever no show de talentos que vai rolar depois das férias? — Camila tentou mais uma vez. Ela é persistente.

— Não sei. — e realmente não sabia. Ponderei sobre o assunto por dois segundos, depois continuei. — Acho que não.

— Por que não?! — ela perguntou. Nesse momento olhei em sua direção. Ela parecia estar indignada. — Você toca muito! Iria ganhar fácil. E ainda tem a vantagem de provavelmente ser a única no colégio que saiba tocar violino. Adolescentes só querem saber de guitarra, de violão - no máximo piano ou bateria. Sem falar que o prêmio é em dinheiro.

— Mas você só me viu tocar uma vez...

— E daí? Não muda o fato de que você é boa.

Fiquei quieta. Refleti. Novamente ponderei. Cheguei, porém, à mesma resposta. Mas realmente me mantive calada.

— A Ally vai participar, junto com o Adam. — Camila quebrou o silêncio que havia se formado depois de um tempinho.

— Que bacana. — eu disse. Tive a impressão de que externalizei a frase de forma totalmente contrária da qual queria de verdade. Mas eu realmente havia achado bacana. — Uma dupla?

— Sim. O Adam toca violão bem demais e a Ally canta demais. Desde que se conheceram no coral da igreja os dois compõem juntos e fazem covers... Essas coisas. É bem bacana mesmo.

— E mesmo com eles participando você acha que eu ganharia? — perguntei, realmente surpresa. Não fazia sentido. Eles são amigos dela. E pelo visto são realmente bons.

— É porque eles ainda não decidiram se a música que vão escolher é gospel ou não. — ela respondeu, fazendo uma careta.

— E o que isso tem a ver?

— Ninguém gosta de gospel. A opinião do público conta.

Dei uma risadinha. É, verdade. A maioria não gosta de gospel.

— Se eles tocarem alguma música não-crente, é certeza de que ganham o primeiro. Aí você ficaria em segundo, desculpa.

Ela continuou falando.

— Mas, parando pra pensar, se você tocar música clássica, as pessoas também vão dormir. E isso te deixaria nas últimas assim como eles. Tem que ser alguma coisa atual também.

— Espera aí, você tá comparando música clássica com gospel? — me senti ofendida.

Quero dizer, nada contra gospel. Ou Deus. Só não gosto de escutar. Ou acredito. Essas paradas de religião não é comigo. Eu sei que Jesus existiu e tudo o mais... Mas pra mim não tem como alguém transformar água em vinho sem corante. E aqueles apóstolos são uma piada. A filosofia cristã é até legal e bonita e tudo. Mas só não gosto.

— Estou. — Camila respondeu, rindo. — Os dois são chatos.

— Do que estão falando? — alguém interrompeu nosso diálogo. Quando olho pra cima vejo as 3 bonitinhas restantes nos encarando curiosas. Dinah e Normani sustentavam uma expressão não identificável por mim.

— Estava tentando convencer a Lauren de participar do show de talentos de depois das férias. — Camila respondeu, se levantando.

Eu não estava a fim de ter que ficar olhando para cima o tempo todo e acabar ficando com torcicolo, então me levantei também. 

Mal me pus de pé e já suspirei, cansada com a provável conversa que viria a seguir.

— Caramba, eu nem pensei nisso! — Dinah disse, sorrindo animada. 

— Mas por que "tentando convencer", Mila? Ela não quer participar? — Ally perguntou. Estava tão animada quanto a anterior.

Por que diabos tanta animação?

— Não. 

Camila respondeu por mim. Eu fingia que a conversa nem era comigo.

— Por que não? — a baixinha continuou, olhando para mim dessa vez.

— Não sei. Eu não toco violino com o objetivo de competir. 

Mas eu realmente não sabia. E nem se eu soubesse iria querer explicar.

— Se esse é o problema, então você pode dar o seu prêmio para mim caso você ganhe... — Dinah falou. Eu ri.

Nessa hora o bendito sinal soou pelos corredores. Amém. Realmente não estava a fim de ter uma conversa desse tipo. 

Após um breve "até mais" de ambas as partes, eu e as bonitinhas seguimos caminhos diferentes.


  
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 É, você é realmente muito idiota, pelo pouco que conheço de você. Mas nós não mandamos nos nossos sentimentos. Mesmo que você seja a pior pessoa do mundo, ou a mais feia, ainda assim alguém pode começar a gostar de você. Nenhuma pessoa no planeta tem apenas defeitos. E os seres humanos só se apaixonam pelas qualidades dos outros, de qualquer forma.

 

É, todos devem amar a minha qualidade de sempre fugir. É um talento.

 

Não é não. Você deve ter outras qualidades. Qualidades de verdade.

 

Tá, claro. E quais são as suas?

 

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Rumei para a saída a passos lentos. Suspirei cansada não sei do quê. Assim que pus os pés na grama do lado de fora do prédio, fui surpreendida com a presença de uma pessoa que pensei que nunca mais fosse querer falar comigo. Ainda mais me procurar.

Keana acenava para mim do lado de fora das grades que cercavam a instituição. O que caralhos essa garota estava fazendo aqui? Se Mahone a visse... seria adeus Lauren na certa. Fiquei tão nervosa de repente que nem ao menos pensei em olhar ao redor para ver se as bonitinhas ainda estavam por aqui.

Fui caminhando a passos medrosos em direção a ela, que sustentava um bonito sorriso no rosto. Mal parei do lado dela e lhe lancei um olhar curioso.

— Por que essa cara? — Ela perguntou, rindo. — Você tinha dito pra eu vir visitar a sua escola qualquer dia desses. Estava com tédio em casa. Então eu vim.

— Era só para você pensar que meus argumentos eram válidos. — murmurei, emburrada. — Não tem aula hoje, não? Sabe... Leis.

— Não tenho aula às quartas. Sabe... não precisa me expulsar. — Keana disse, ainda rindo.

Eu ia retrucar. Até mesmo havia aberto a boca para tal ato. Não sei o que diabos era tão engraçado, eu estava muito bolada com ela. Odeio surpresas.

Mas ela foi mais rápida e exercitou a sua mania: me beijou. Não foi bem um beijo, foi mais um selinho. Mas foi o suficiente para me manter calada. E corada feito a cor do fogo do rabo do Charmander com gripe suína. Mas ainda assim bolada e nervosa com a possibilidade de Mahone aparecer a qualquer momento.

Tomei um susto quando alguém chamou meu nome atrás de mim, virei para trás completamente receosa. Suspirei aliviada ao ver que era Dinah.

— É essa a garota da sua história de hoje de manhã? — perguntou divertida. As outras bonitinhas, como de praxe, a acompanhavam.

Fiz uma careta. Depois fiz também aquele ritual babaca de apresentar pessoas. Odeio fazer isso. 

— Olha só, eu não sabia que a Lauren tinha amigos. — Keana falou, rindo depois.

— "Eu não sabia que a Lauren tinha amigos." — debochei, alterando a minha voz para que se parecesse mais com a dela. — Idiota. — murmurei emburrada, cruzando os braços. Ela riu mais ainda. Depois deu um beijo na minha bochecha, o qual eu fiz questão de limpar imediatamente, mas ela nem ligou. Ela nunca esteve tão amorosa antes, dava até medo.

— Ora, ora, ora...

Mahone brotou do nada, forçando uma voz macabra. Como se fosse um traficante indo cobrar alguma dívida. Ou a Rainha Má da Branca Neve. Se ele pensa que eu tenho medo dele, então ele está completamente certo. Murmurei um sincero "puta que pariu" assim que vi a carinha debochada dele.

Dinah e Normani abriram sorrisos animados, provavelmente por estarem diante de um início de treta. Já Camila e Ally trocaram olhares nervosos. Keana trocava de olhar entre mim e o recém-chegado, surpresa.

— Esse idiota estuda aqui, Lauren? — ela perguntou. — Você nunca me disse isso.

— Oh, sim. O idiota estuda aqui. — ele disse, irônico. — Por que não me avisou que a sua namoradinha viria te visitar hoje, Jauregui?

— Ela não é a minha namorada, Austin. Assim como nós não éramos naquela época. Já te expliquei isso mil vezes. — Keana respondeu por mim. — Isso faz quase dois anos, cresça e esqueça.

— E depois a louca ainda sou eu... — murmurei, suspirando cansada com toda a situação. Eu só queria estar na escolinha dos meus irmãos indo pra casa na maior paz do mundo com os dois.

— O que disse, Jauregui? — Mahone rosnou para mim. Seus olhos me queimavam.

— Hã? Eu?! Nada! Eu nem boca tenho mais. — respondi imediatamente. E não tinha mais mesmo.

— Bom mesmo.

Decidi, então, olhar para o céu. Muito mais interessante e enriquecedor olhar para as nuvens do que participar de uma briguinha adolescente ridícula. 

— Austin... — ouvi uma Camila receosa falar. Mas continuei a olhar para cima. — Deixa isso pra lá, tá legal? Isso vai acabar gerando confusão...

— Camila? Você estava aqui? — perguntou, surpreso. — Engraçado, você bem que adora uma confusão. Confusão e acidentes.

— Olha só, garoto. Você não começa a atacar a Camila não, ok? — Dinah partiu para a defensiva. — Ela não tem nada a ver com o assunto.

Eu já estava começando a ficar tonta por ficar tanto tempo com a cabeça virada para cima. Por isso tive que voltar o meu foco para o círculo adolescente patético do qual fazia parte no momento. Infelizmente.

— Qual o seu nome mesmo, grandona? — ele perguntou, irônico. 

— Você realmente virou um babaca. — Dinah murmurou, com raiva. 

— Ainda tinha dúvidas? — Normani perguntou, novamente lixando as unhas. Que caralhos tem nessa unha, Jesus?

— Que seja. — Mahone deu de ombros.

Aproveitei que eles estavam tendo uma discussão interna que não me envolvia e comecei a andar na direção da escola dos meus irmãos. Claro que fiz isso de fininho, para ninguém perceber o que eu estava fazendo. Mas ninguém perceberia - eles tinham começado realmente um fervoroso início de briga. Mas, afinal, Keana percebeu que eu estava indo embora, e apenas deu uma risadinha. Demorou uns 7 metros pra Mahone perceber que eu estava de saída e ficar puto por causa disso.

— Jauregui! — exclamou. Virei pra trás e ele estava correndo em minha direção. Também comecei a correr, mas não me desesperei ou fiquei nervosa. Já nem ligava mais se ele iria me alcançar ou não. Que seja.

Mas, de qualquer forma, eu tinha que pensar. E rápido. Porque ele já estava bem próximo. Olhei ao redor. Havia um hidrante bem na minha frente. Mahone com toda a certeza não o tinha visto, porque eu bloqueava a sua visão. Ele estava correndo a uma velocidade maior do que a minha, o que garantia a minha vantagem perante a situação. Ele não teria tempo para reagir.

Rapidamente, coloquei a minha mão em cima do hidrante e passei as minhas pernas do lado do mesmo, pulando-o. Corri por mais um metro e, quando virei para trás, vi Austin agonizando de dor, deitado em posição fetal no chão, porque certo objeto tinha batido em suas partes baixas. Mais atrás vi as bonitinhas e Keana rindo da situação. Sorri, bati a famosa continência informal de que tanto gosto para elas, e depois continuei a correr. Estava atrasadíssima para buscar meus irmãos.
 


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Minha qualidade é óbvia: consigo transformar qualquer coisa em argumento. Isso é demais.

 

Realmente. Não tenho como discordar disso.

 

Viu? É irritante, mas não deixa de ser uma qualidade. Você com certeza também tem alguma. É questão de olhar para o seu interior, de se conhecer.

 

Olha, me conheço há 17 anos e não tenho a menor ideia de quem eu seja.

 

Olha só, já sei mais coisa sobre você. Você tem 17 anos. Eu tenho 16.

 

Uau, bacana. — em minha defesa eu só não tinha mais o que responder. Não tem como responder a constatações.

 

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Aquele dia escolar, comparado aos outros, havia sido bastante monótono. Cheguei no horário certo, e fui direto pra minha sala. Durante o intervalo, como de costume, fiquei desenhando em frente ao meu armário. Na saída até vi as bonitinhas, mas elas já estavam longe quando pisei fora do colégio, e por isso não me viram. Foi um dia completamente monótono, como há tempos não havia sido desde o dia que a garota do armário começou a falar comigo.

Na sexta-feira, porém, as coisas foram mais interessantes.


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Poxa, dessa vez você nem tentou puxar assunto. Assim eu fico magoada.

 

Eu estava com preguiça de tentar pensar em algum assunto. E também você nunca dá brechas pra eu poder puxar assunto a partir delas. Assim dificulta o meu lado, poxa.

 

É, realmente. Eu tenho minha parcela de culpa. Não vai mais acontecer.

 

Você fez de novo.

 

Ai, conversar é muito difícil. Me desculpa.

 

Só te desculpo porque concordo que seja difícil. Até hoje não aprendi.

 

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Na verdade até a hora da saída foi igualzinho à quinta-feira. 

Mal havia pisado na grama do pátio e as bonitinhas vieram falar comigo.

— Oi, Lauren! — Ally foi a primeira a falar, me cumprimentando por todas.

— Oi. — respondi, enquanto ajeitava a mochila nos ombros. Estava pesada, afinal estava carregando trocentos livros para tentar estudar para as recuperações da semana que vem.

— Como você es... — a baixinha tentou continuar.

— Então, que horas você vai tocar no shopping hoje? — Dinah interrompeu-a, sendo direta. Camila riu da cara emburrada que Ally fez. — Nós queríamos te ver.

Olhei para Camila, curiosa. Ela, por sua vez, não retribuiu o olhar. Olhou para baixo, levemente corada.

— Hã... Eu não sei. Acho que umas 19h, talvez. — respondi. E eu realmente não sabia, iria depender da hora que meu pai chegasse pra ficar com os meus irmãos.

— Ok, então umas 19h30 estaremos lá. — ela determinou.

Depois disso o dia transcorreu normalmente; busquei meus irmãos na escola, fiquei com eles durante a tarde e etc... Todas essas baboseiras que eu sempre faço. Lá pelas 16h decidi ir estudar, já que hoje Chris não teria treino de futebol porque o treinador havia ficado doente. Deixei as crianças vendo televisão na sala e fui pro meu quarto. As provas de recuperação eram semana que vem e estava me matando aos poucos ter a consciência de que eu ainda não tinha estudado nada para elas. Comecei pela mais fácil de entender, Inglês. Uma parte da prova seria gramática e a outra era interpretação de texto, que eu era boa. Então era uma boa estratégia.

Estudei Inglês ininterruptamente até às 18h30, quando fui tomar banho. Depois fui para a sala e fiquei brincando com Taylor e Chris. E que energia eles têm. A sala estava uma bagunça. Tentei arrumar o que eu pude, mas eu sabia que os dois iriam bagunçar tudo de novo.

Afinal os dois sossegaram quando começou Steven Universe na televisão. Santa televisão, aliás. Os dois estavam impossíveis naquele dia. Fiquei assistindo com eles, tão concentrada que nem percebi quando meu pai chegou. O velho simplesmente se sentou em sua poltrona, já com roupa de ficar em casa, e ficou vendo o desenho conosco. Mas eu fiquei por lá só por mais uns 5 minutos, porque subi para colocar um tênis e pegar o meu violino.

Deixei o Joe do lado da porta. Eu não tinha lembrado que estava de castigo até aquele momento. Teria que pedir permissão. Mas eu não estava nervosa – estava bem tranquila até. No final, não realmente importaria o que meu pai decidisse.

­— Mike, — chamei. Tinha chegado de mansinho do lado de sua poltrona. Esperei ele olhar para mim antes de continuar a falar. — posso sair hoje?

Ele ponderou por uns segundos, depois suspirou antes de perguntar:

— Você sabe que está de castigo, não é?

— Sei.

Suspirou mais uma vez com a minha resposta.

— Vai para onde? — perguntou, interessado. Amanhã provavelmente estaria estampado nos jornais mais fajutos da cidade que ele tinha se interessado em alguma coisa que eu fazia depois de anos.

— Shopping.

— Sozinha?

— É.

— Fazer o que lá?

Revirei os olhos. Já estava irritando o súbito interesse dele nas coisas que eu faço da minha vida.

— Vai deixar ou não? — perguntei, transparecendo toda a minha irritação.

— Bem, se eu não deixar você vai sair escondido de qualquer jeito, não é? — perguntou. Pelo menos nisso ele me conhece bem.

— Sim. — retruquei, sorrindo.

— Vá. Eu te cubro se sua mãe chegar antes de você. — ele disse, correspondendo ao meu sorriso. E então foi pro sofá onde estavam meus irmãos. Começou a fazer perguntas sobre o desenho para os dois, realmente interessado. Algum bicho tinha mordido ele, só podia ser. Aquilo tudo estava estranho demais.

De qualquer forma, dei de ombros e me desembestei porta afora com o Joe nas costas. Eu tava morrendo de medo daquela sensação de estar desaparecendo me dominar de novo enquanto iria para o shopping a pé, por isso peguei um ônibus.

Poucos minutos depois eu já estava no meu habitual lugar em frente ao Starbucks. Decidi que hoje iria monetizar, mas deixaria a caixa do violino num lugar mais escondido. Não estava ligando muito para isso naquela hora.

Em poucos minutos eu já estava desconectada do mundo. Só abria os olhos quando terminava uma música e começava outra, tamanha era a minha concentração. Estava no meu auge de tranquilidade. Mas devo ter feito isso no máximo duas vezes, porque as bonitinhas não demoraram a chegar.

Assim que abri os olhos depois de terminar de tocar alguma música de Bach, da qual não me lembro o nome, vi as bonitinhas em pé na minha frente. Adam estava com elas. Corei feito lápis de cera vermelho com diabetes. Na verdade nem havia sido nessa intensidade toda. Afinal, elas se aproximaram e vieram falar comigo.

— Oi, Lauren! — Dinah comandou dessa vez, mas todas as outras três – e o Adam – sorriram em cumprimento.

— Oi...

— Já dissemos que você toca muito? — Ally perguntou. Parecia fascinada – sei lá com o quê.

— Hã... Não sei?

E tem como avaliar isso sendo que eles só ouviram uma música? E nem devem ter ouvido toda.

— Vocês são muito apressadas. Só a ouvimos tocar uma música. E nem foi inteira. — Normani disse, após ler meus pensamentos. Sorri pra ela.

Dinah e Ally, afinal, deram de ombros. Pareciam irredutíveis perante suas opiniões. Eu nem ao menos sabia o que pensar quanto a isso.

De qualquer forma, elas continuaram a conversa, mas eu nem prestava atenção mais. Tanto o tal do Adam quanto Camila não haviam dito uma única palavra. O primeiro talvez porque parecia ser tímido ao extremo, já a outra parecia triste. Ignorei tudo isso e voltei a me concentrar. Decidi ir de Chopin dessa vez. Fechei os olhos para me lembrar das notas e me desliguei de novo ao voltar a tocar.

Eu realmente não sei explicar o que fazer o Joe reverberar me faz sentir. Eu até poderia tentar, mas acho que ficaria sem graça. Porque, para mim, pelo menos, o legal e interessante da música é justamente o fato de ser indescritível. Uma mesma música pode te fazer sentir tal coisa em algum dia, mas em qualquer outro provocar sensações completamente diferentes. A mesma coisa acontece de pessoa pra pessoa. E tentar acabar com isso através da explicação significaria eliminar uma parte importante da música: a identificação.

Não tem como descrever a música. Porque a música não é algo para ser descrito. A música é algo para ser sentido. A música tem um poder maior sobre nós do que temos consciência. Outro dia, inclusive, eu li no jornal que usaram a 5ª Sinfonia de Beethoven para matar células cancerígenas. E isso é simplesmente incrível. Música é música. Não é uma coisa passível de definição; é um sentimento. Um sentimento que deve ser sentido e aproveitado da melhor maneira possível - seja para curar um coração partido, ou para ser usada como teste para a cura do câncer.

Não há coisa melhor do que, enquanto estou tocando, eu simplesmente esquecer que o resto do mundo existe completamente. Assim que encosto o arco em alguma das quatro cordas de meu companheiro fiel, só há nós dois no mundo. E isso é a coisa mais mágica do planeta inteiro. Eu queria que as pessoas ao meu redor sentissem, nem que seja um pouquinho, toda essa magia que eu sinto; eu queria compartilhar. Porque, sinceramente, é uma das coisas mais bonitas que eu não me canso nunca de presenciar.

De qualquer forma, depois que terminei de tocar, o conjunto bonitinhas + Adam me aplaudiu. Nem pensei numa metáfora com patologias, simplesmente corei mesmo.

— Ei... Vocês podem parar de fazer isso? — eu reclamei das palmas, meio sem jeito. Não gostava daquilo. E nem era porque estava chamando a atenção do shopping inteiro.

— Awn... Ela é tímidazinha! — Dinah exclamou, indo apertar as minhas bochechas.

— Não é isso. — fugi das mãos dela, me escondendo atrás de Camila. Até porque eu realmente não sou tímida. Só gosto de ficar na minha. Não tenho vergonha de falar com outras pessoas, ou de ser o centro das atenções – eu só não gosto e, por isso, prefiro evitar. Por exemplo, se eu tiver que apresentar um trabalho na frente da turma, eu apresento na boa, sem complicações. Mas, se for opcional apresentar ou não, eu escolheria não apresentar, sem dúvidas.

Dinah agora era uma pessoa completamente diferente da Dinah daquele dia. Acho que se alguém mexer com Camila ela se monstrifica, ou algo parecido. É doida. Ela tava completamente diferente comigo. Naquele dia parecia que iria me matar, mas agora tá cheia de intimidades. E a gente nem conversa muito.

— É só que palmas são esquisitas. Não gosto de ser ovacionada; sou só mais uma. — completei, baixinho. Elas já sabiam muita coisa sobre mim, não quis falar alto uma coisa que é minha. Acho, aliás, que só Camila ouviu, porque eu estava bem atrás dela.

— Normani, será que você pode concordar com a gente agora? — Ally perguntou, ainda fascinada com alguma coisa.

— Continuo sem ver nada de especial. — ela murmurou. Novamente sorri pra ela, em concordância.

— Você não tá escutando direito! — Dinah disse, cruzando os braços. A outra bufou.

— E vocês dois? — a baixinha perguntou, se referindo a Camila e Adam.

— Ela é realmente muito boa. Tipo, pra caramba. Demais. — a garota disse. Parecia nervosa com alguma coisa, o que fez as outras 3 bonitinhas rirem – no caso de Dinah, rir foi apelido. Arriscaria dizer que estava corada, mas não tinha realmente como eu saber porque ainda estava atrás dela. De qualquer forma isso não fazia muita diferença.

— Concordo, ela é muito boa. — Adam murmurou, envergonhado. Dinah bagunçou o cabelo dele.

Eu nunca sei como agradecer ou reagir a elogios. Sou péssima nisso. Por isso prefiro não receber. É mil vezes melhor. Porque em 100% das vezes eu não falo o que deveria ser falado e as pessoas acabam pensando que eu sou escrota. Não que eu me importe muito, é só que é irritante.

— Er... Eu não sei o que falar... — choraminguei baixinho. Meu rosto estava quente, o que dedurava um rubor igualzinho a toalhas vermelhas com esquistossomose.  — Agradeço...

E voltei ao meu lugar inicial. Em movimento pelo menos não iriam notar o meu desconforto.

— Finalmente respirando, né, Mila? — Dinah falou. Não entendi e, por isso, ignorei. Recebeu um tapa da referida.

Olhei para ela. Seus olhos esbanjavam aquela mesma tristeza de antes, além de uma raiva temporária pela amiga. E aquilo, por algum motivo, estava me incomodando demais. Eu queria que pelo menos estivesse exalando implicância, não tristeza. Olhá-los assim estava me deixando pra baixo também. Por isso comecei a olhar ao redor. Parei quando percebi que o menino Adam estava segurando uma garrafa de água, já quase no fim. Acabei tendo uma ideia.

— Alguém tem celular Samsung? Com 3G. — perguntei ao grupinho, do nada. Acabei interrompendo a conversa na qual eles embarcaram e que eu não estava prestando a mínima atenção. Eles estranharam a pergunta. E muito. Acontece.

— Eu tenho. — Camila e Ally responderam em uníssono. Perfeito.

— Ok. — eu disse. Depois continuei, me virando para o Adam. — Você vai terminar de beber? — apontei para a garrafa. — Posso cortar ela? Te pago outra depois e tudo o mais.

— Hã... Claro... — ele respondeu. Respondi um “muito obrigada”. Eles deviam estar me achando realmente muito doida.

— Já volto. Não saiam daí.

Eu disse, deixei o arco e o Joe na caixa e depois entrei no Starbucks. Mas antes pedi para olharem o violino por mim. Pedi um estilete ao caixa do estabelecimento, o Jack, que era meu “amigo”. Na verdade não éramos exatamente amigos. Eu gostava de zoar com a cara dele e ele com a minha. Era basicamente isso. Mas só nos víamos quando eu vinha tocar aqui, o que não era muito recorrente.

— Pra quê?. — ele respondeu, indo pegar em algum lugar atrás do balcão. — Não, espera! Não responde. Eu já sei. É realmente a sua cara cortar os pulsos.

— Deixa de ser implicante e me dá de uma vez, rosinha. — eu chamava ele assim porque ele tinha uma mecha vermelha no cabelo. Pode parecer idiota, mas ele ficava realmente puto.

— Já disse que é vermelho! — ele resmungou, me entregando o estilete.

— Me empresta também uma caneta? — pedi.

— Quer meu fígado também, cara de pau? — ele perguntou, mas afinal me entregou o que eu tinha pedido.

— Muito obrigada! — agradeci. Ainda ouvi ele resmungando coisas como “oi, Jack, como vai? Você poderia, por favor, me emprestar um estilete e uma caneta? – Oh, Lauren, mas é claro que eu te empresto. Há quanto tempo!”.  Mas nem retruquei. Saí dali às pressas. Estava com medo do pessoal ter ido embora por causa da minha maluquice repentina.

Mas afinal eles ainda estavam lá. Logo que cheguei, Adam me entregou a garrafa vazia. Agradeci a ele novamente. Fiz um círculo com a caneta na parte de baixo da garrafa e depois cortei-a com o estilete, formando um cone + a parte de baixo. Guardei os dois instrumentos no bolso da calça assim que terminei.

— Camila, pode me emprestar o seu celular? — perguntei a ela. Joguei a parte de baixo que não seria de utilidade ao lado da caixa do Joe, assim como a tampinha da garrafa.

— C-claro... — ela murmurou. E, enquanto ela retirava-o do bolso, eu retirava o Joe de sua cama, assim como o arco. O combo bonitinhas + Adam se manteve em silêncio o tempo todo desde que tinha chegado – só observavam curiosos.

Agradeci novamente quando ela me entregou o aparelho já na página principal, desbloqueado. Eu segurava o violino e o arco com uma das mãos, e, com a outra, o celular e a meia-garrafa. Fui nas músicas dela, só para ver qual tinha sido a última que ela havia escutado. Mas essa informação só seria usada depois, se nada desse certo. Depois, rapidamente abri o YouTube e coloquei uma música eletrônica de que gosto, com o volume no máximo.

Coloquei o celular em cima da caixa, e o que restou da garrafa em cima da saída de som do mesmo, com o bico virado para baixo. Dessa forma o som seria amplificado e poderia ser ouvido mesmo com toda a barulheira que era o shopping. Era basicamente uma caixinha de som improvisada.

Rapidamente fechei os olhos, tentando me concentrar na batida da música. Deixei a mesma rolar sozinha por uns 10 segundos, enquanto pensava o que poderia fazer com ela. E então comecei a acompanhar, totalmente no improviso. Quando terminei, não fazia a menor ideia de como tinha ficado. Eu poderia ter feito melhor se tivesse pensado previamente e com cuidado nas notas, porque em algumas horas eu senti que não tinha combinado, mas, no geral, pra mim tinha ficado ao menos escutável.

Assim que terminei, coloquei a garrafa do lado da caixa, peguei o celular de Camila, bloqueei-o, e depois entreguei a ela.

— Tudo bem, retiro o que eu disse. Ela é foda. — Normani disse.

— Meu Deus. Põe foda nisso. ­— Dinah completou. E depois bagunçou meu cabelo. Que mania. — Eu nem sabia que dava pra misturar violino com eletrônica.

— Eu tô até sem palavras... — Ally disse.

— Eu também! — Adam concordou com ela.

— Ah, vocês estão exagerando... — eu disse, sem jeito. — Mas agradeço, de verdade.

Depois olhei para os olhos de Camila, que ainda não havia se pronunciado. Queria ver se tinha adiantado alguma coisa. Parecia que sim, mas não 100%. A coisa que estava a deixando triste ainda permanecia na sua mente. Nunca quis tanto que alguém se esquecesse de alguma coisa. Por isso parti para o plano B.

— Hm... Deixa eu ver... Roar... — murmurei, já na posição de tocar. Fechei os olhos. Me concentrei na música da Katy Perry.

Nunca tinha ouvido aquela música mais do que 5 vezes – todas Taylor havia me obrigado a escutar com ela. Por isso estava insegura no meu “cover”. Por isso também só consegui tocar pouco mais de um minuto da música. Não conseguia lembrar do resto.

— ROAR! — Dinah exclamou quando terminei. — Você é demais.

— Já está cansativo repetir. — Ally disse.

Sorri para elas, um pouco falsamente. O que interessava mesmo eram os olhos de Camila. E novamente não tinha funcionado 100%.

— Desculpa, eu vi no seu celular. — me desculpei com ela, sincera. Estava frustrada. Significava que a minha teoria do esquecimento através da música não era de todo verdadeira. Ou a tristeza dela era realmente profunda.

  — T-tudo bem... — ela estava corada feito pimenta com artrose. Parecia nervosa. Olhou para o chão antes de murmurar, baixinho: — Droga, não sei como reagir.

É, eu também não saberia. Mas queria que tivesse saído 100%, por isso tentei manter a conversa.

— Viu? Segui seu conselho. Toquei algo atual. — disse. Depois comecei a segurar o Joe como a guitarra Katie. E fiquei tocando. — Ainda acha violino chato?

— Ei, eu não disse que achava chato! Eu disse que música clássica era chato.

Eu ri.

— Xingar um é consequentemente xingar o outro, pra mim.

— Mas não é! — ela reclamou. Podia sentir o sarcasmo voltando. — A culpa não é minha se você não consegue diferenciar uma coisa da outra.

Eu sorria largo. Ela tava voltando ao normal. Murmurei um "finalmente...".

— Lauren, a Ally e o Adam querem te perguntar um negócio. — Normani interrompeu. Os dois pareciam um pouco envergonhados.

Olhei para os dois interrogativa, por mais ou menos um minuto. Não fazia a menor ideia do que eles iriam perguntar. Mas estava curiosa. Como eles não tinham falado nada nesse meio tempo, fui na caixa do Joe e peguei o breu pra passar nele - tava com muita pouca resina, as cordas já nem pegavam mais no talão do arco.

— Você gostaria de participar do show de talentos com a gente? — perguntou Ally, enquanto eu ainda estava agachada na frente da caixa do violino, resinando o arco.

Mas, afinal, com a pergunta repentina, eu parei o que estava fazendo na mesma hora. Não sabia o que responder. De verdade. Nem sabia mais o que eu queria realmente. Me assustava imaginar que, por causa do show de talentos, teríamos que nos ver mais vezes para ensaiar. Quero dizer, era aterrorizante. Eu não ligava muito de tocar na frente de todo o colégio. Eu não tenho medo do contato com pessoas desconhecidas, mas sim com conhecidas. E se eu aceitasse passaria a ter muito mais com as bonitinhas + Adam. Se tornar amigo de alguém é completamente assustador. E eu sou a pessoa mais covarde do mundo.

Tudo indicava o meu mais sonoro e sincero “não”. Mas tinha um porém. Seria divertido. E seria interessante para a minha técnica de violino tocar em grupo com algum instrumento diferente. Seria, afinal, uma boa experiência. E eu já estava cansada de tanta monotonia na minha vida. Nunca tinha percebido o quão era ruim até a garota do armário me acordar.

Acho que nunca havia estado tão indecisa na minha vida quanto naquela hora. Eu sabia que qualquer que fosse a minha decisão eu iria me arrepender. Exatamente por isso que eu me joguei na mais improvável de todas, e a mais perigosa também. Foi provavelmente meu único ímpeto de coragem em anos.

— Ok. — por fim eu falei. — Mas não toco gospel.


Notas Finais


Agradeço por ter lido até aqui! :)

A propósito, esse Adam da história é o Adam Young (Owl City), meu filho precioso. Na vida real ele é bem velho, mas eu não podia deixar de inclui-lo em alguma coisa minha. E, além dele, o Jack é o guitarrista do All Time Low. Ele não é meu filho, mas o baterista é, o Rian. Eu deveria ter incluído ele, mas o Jack combinava mais com o personagem e etc.

Enfim, também queria deixar dois links aqui. O primeiro é a música eletrônica + violino que a Lauren tocou naquela hora, da minha mãe Lindsey Stirling ( https://www.youtube.com/watch?v=JGCsyshUU-A ) e o segundo é o cover de Roar, também dela ( https://www.youtube.com/watch?v=0S10zllZEqU ). Quem puder, seria interessante dar uma olhada para que assim a fanfic pudesse ficar mais real.

De qualquer forma, até a próxima, se ainda houver alguém lendo.


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