História Stella Merchant - A Garota de Sorrisos Ensaiados - Capítulo 3


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Anos 20, Drama, Drama De Epoca, Época, Orfanato, Violencia
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Palavras 2.161
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Violência
Avisos: Estupro, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Capítulo 03: Fugindo.


24 de dezembro de 1912.

— CONFUSÃO E ÓDIO! — os olhos de Stella encheram-se de lágrimas enquanto ela encarava a tragédia.

— Stella, precisamos continuar. Precisamos procurar um lugar seguro ou vamos acabar como todas essas árvores: estraçalhados! — ele tocou uma das mãos da menina.

Mas ela recuou e continuou a encarar o local do bombardeio. Não sabia ao certo o motivo, mas não conseguia desviar sua atenção dali.

— Stell... — alguém tentou gritar pelo nome da menina, mas não prosseguiu devido à uma crise de tosse.

De imediato, Stella reconheceu aquela voz, mesmo se rouca de desespero. Era a mesma voz que por diversas vezes lhe cantou cantigas de ninar ou contou histórias de princesas e seus finais felizes.

— Mãe! — ela gritou de volta e correu em direção à voz.

— Stella, não! — Marcus foi ao alcance da menina e tentou segurá-la, mas ela se desvencilhou com facilidade devido as mãos suadas do garoto.

Então ela correu. Sem rumo certo, mas correu.

A noite estava chegando aos poucos e dificultava a visão de qualquer pessoa que ainda estivesse viva. O calor insuportável das chamas e o odor de fumaça começava a causar efeitos colaterais em Stella; sua visão começava a embaçar e a garganta queimava. Mas ainda assim ela não desistiu de correr e tentar encontrar sua mãe.

— Mãe, eu estou aqui! — gritou enquanto corria e estapeava plantas que se enroscavam em seu vestido.

— Stella! — havia espanto em sua voz distante — Stella, vá! Salve-se! — ela suplicou.

— Não! — Stella retrucou, chorosa.

— Não complique as coisas. Salve-se. Você é jovem! — ela suplicou.

Sua voz estava cada vez mais próxima, apesar de rouca e exausta. Disposta a encontrá-la, Stella buscou folego para prosseguir, porém tudo o que conseguiu foi inspirar fumaça. Era como se ela tivesse engolido uma bola de espinhos. Sua garganta ardia tanto, que parecia ter sofrido a mesma queimadura de seu ombro.

Uma crise de tosse aconteceu e Stella teve de tomar apoio em uma árvore. Além da visão dificultada pela noite, agora seu corpo ferido começava a perder as energias de quando começou a correr.

— Stella! — novamente a voz de sua mãe era de espanto, porém dessa vez estava muito próxima.

Ela havia a encontrado.

— Mãe! — Stella sorriu ao ver a silhueta de sua mãe cambalear até ela.

Mesmo fraca, a menina não exitou em correr ao encontro da mulher para abraça-la. Mas assim que se aproximaram, a adulta cambaleou para o lado e caiu no chão com sua filha.

— Mãe, o que aconteceu? — perguntou Stella, entre soluços de choro.

Sra. Merchant gemeu antes de responder.

— Não sei. Não faço a mínima ideia, querida, mas não importa. Agora preciso que me obedeça saindo o mais rápido que puder daqui! — ela disse sem pausa e então tossiu ao finalizar a frase.

— Não vou deixa-la aqui. Não mesmo! Nem por um decreto! — protestou Stella, tateando os braços da mãe a procura das mãos para segura-las.

Mas sra. Merchant se encolheu e reprimiu os braços. Sua respiração estava horrível, estava como o arranhar de um pedaço de madeira. Isso preocupou sua filha.

— Consegue andar? Marcus está comigo e vamos ajuda-la a sair daqui. Vai ficar tudo bem, mãe! — esperançosa, a menina sorriu e tocou o rosto de sua mãe.

Sentiu algo pegajoso na ponta de seus dedos e sra. Merchant gritou desesperadamente logo em seguida ao contato. Ela se contorceu e trincou os dentes, enquanto começava a chorar como um bebê desesperado.

— VÁ! — ela gritou ferozmente para Stella.

A menina recuou um pouco, mas logo retornou. Então algo iluminado passou por cima das duas, fazendo Stella notar que o belo rosto de sua mãe agora estava desfigurado, fora a mão direito que não estava mais onde deveria. A menina soltou um gemido de horror, mas ainda assim sua teimosia a faria ficar, se algo não a tivesse puxado tão rápido e intensamente, que não teve tempo de retrucar.

Era Marcus. Sempre ele.

Os dois caíram no chão e o garoto a fez tapar os ouvidos, logo em seguida fazendo o mesmo. Uma bomba explodiu tão perto deles, que ambos rolaram para o lado e ficaram cobertos por terra, plantas e pedaços de árvore.

— Eles estão por perto! — Marcus se agachou perto de Stella.

A mesma sentia-se atordoada, e estava ferida tanto fisica quanto psicologicamente. O ferimento do ombro queimava muito mais do que antes, agora em companhia à muitos outros. Mas nada se comparava à dor em saber que perdera sua adorada mãe minutos atrás. E pior, que ela sofreu tanto até ter seu descanso eterno.

Os olhos de Stella doíam em junção ao excesso de fumaça pelos arredores e as lágrimas do choro silencioso que havia começado à alguns minutos; seu coração doía de maneira tão intensa que ela mal conseguia respirar, isso ao se lembrar da forma em que encontrou sua mãe, tão debilitada e desfigurada. Nem parecia aquela mulher que já foi eleita a mais bela da vila, por ninguém mais ninguém menos do que o sr. Merchant e a menina Stella.

Antes bela, agora aos pedaços. A imaginação de Stella entrou em ação e a deixou enjoada. Ela começou a tremer e chorar alto logo em seguida, como se estivesse com febre e dor física. Era involuntário, por mais que tentasse se controlar para não preocupar ainda mais Marcus.

O pânico havia a invadido.

— Vamos sair daqui! — Marcus ajudou Stella a se levantar e tomou o peso dela quase todo para si, para ajudar o corpo frágil da menina a caminhar.

Por mais que o garoto tentasse disfarçar, Stella notou que ele mancava e possuía a respiração extremamente ofegante, deixando visível que sua dor física era bem pior do que a dela. Vez ou outra, ele passava as mangas de sua camisa em sua testa úmida, óbviamente por sangue ao invés de suor, onde ele havia ganho aquele pequeno corte nas primeiras bombas.

— Tudo bem, eu consigo andar sozinha! — Stella se soltou de Marcus e inspirou brevemente.

Assentindo algumas vezes, Marcus se apoiou em seus joelhos e tomou um pouco de fôlego. Stella deu um tempo à ele, enquanto também aproveitava para descansar e tentar controlar seus tremores. E eles pararam aos poucos, conforme foi dispersando os pensamentos ruins.

Ambos estavam prestes a voltar a caminhar, quando ouviram passos novamente e dessa vez correndo. Havia a hipótese de ser alguém da vila tentando fugir, assim como Marcus e Stella, porém o garoto não deixou que esperassem para descobrir e puxou a amiga para voltarem a correr.

— Chega! — a menina gemeu um tempo depois e foi diminuindo os ritmos dos passos até parar — Meu ombro está acabando com o que resta de minha energia, e correr não ajuda! — tocou seus joelhos e ofegou.

— Já devemos estar próximos à estrada, não pare agora pois estou ferido demais para carregá-la! — Marcus estava tão ofegante quanto minutos atrás.

— Fuja você. Que diferença eu faria? Você deveria estar defendendo sua irmã, não à mim! — ela sentiu que agiu com grosseria, porém era a única forma de driblar a teimosia sempre intacta do amigo.

Ele se calou por alguns segundos.

— Se a vida me colocou junto à você, deve ter algum propósito! — caminhou para Stella e tocou uma das mãos com firmeza — Agora vamos! — com sua força superior à da menina, ele a obrigou a voltar a correr.

Os limites de dor e exaustão de Stella estavam ultrapassados, mas a mesma teve que supera-los por não possuir mais energia para retrucar. Acompanhou, então, Marcus na nova corrida às cegas pela floresta, onde ele sempre era atingido por alguma árvore ou planta antes dela, mas que nem isso o fazia perder o pique para prosseguir.

Stella pensou em tentar conter, nem que fosse por alguns segundos, a vontade louca de Marcus em sair dali, porém algo pensou mais rápido do que ela e explodiu não muito longe dos dois. Eles foram obrigados a parar e se esquivar em algumas largas árvores; mas ainda assim farpas os atingiram.

As chamas da explosão iluminaram o bosque e isso facilitou para os dois amigos a enxergar em que ponto do bosque estavam. Mais alguns passos corridos e então estariam na estrada, à alguns minutos da cidade.

— Por que diabos estão fazendo isso? — Marcus gritou.

— Me faço a mesma pergunta a cada instante! — Stella gritou de volta para ele.

— Já volto! — Marcus se levantou e deu a volta na enorme árvore que os abrigava.

Sozinha, Stella se encolheu e abraçou seus joelhos. Seu ombro ferido ardeu devido ao movimento e ela foi obrigada a deixar seus braços soltos ao lado do corpo; a dor a deixava cada vez mais exausta, então faria de tudo para evitá-la.

Devido a demora do amigo, a menina começou a sentir suas pálpebras ficarem cada vez mais pesadas. Sua respiração ainda estava agitada, mas ia se estabilizando aos poucos.

Os olhos estavam fechados e a inconsciência estava quase visitando Stella, quando ela ouviu, não muito longe, o "clique" de algum objeto e o som de um único par de pés caminhando por ali. Ela abriu os olhos com dificuldades pelo cansaço e notou que havia se tornado um alvo. Um homem que escondia o rosto com um lenço mirava um revólver para ela, talvez sem mais e nem menos para tal atitude.

Assustada, ela não se moveu ou sequer pensou em tal possibilidade, pois estava ferida demais para ter alguma chance contra aquele adulto. Mas não pensava exatamente em seu bem estar, e sim no de Marcus, que estava desinformado sobre aquela situação.

Pela fraca luz das chamas que consumiam a floresta, a menina notou que o homem roçava o dedo no gatilho em uma dúvida cruel de "Atiro ou não? Tanto faz!". Mas antes que ele pudesse se decidir, algo o derrubou de face na terra. O revólver caiu distante dele e próximo a Stella; rapidamente, ela se levantou aos tropeços e o pegou muito antes que o homem tivesse tal chance.

Marcus estava agarrado às pernas do homem, enquanto este se contorcia para se libertar. Stella sorriu esperançosa ao notar que ele não era apenas um magrelo puro osso, seus ossos não eram frágeis como aparentavam, eles possuíam força suficiente para defendê-los. Mas tal alegria e torcida logo se reprimiram dando lugar ao desespero, quando o garoto foi atingido no rosto e em seguida na altura do estômago por chutes. Gritos desesperados de Stella ecoaram pela floresta, parecendo que ela havia sido atingida no lugar de amigo.

— Stella, vá! — Marcus mandou, com a voz tão fraca quanto de sra. Merchant antes de morrer.

Lágrimas embaçaram a visão da menina.

— Não, Marcus, não vou deixar esse bobão acabar com você! — Stella mirou a arma para cima e apertou o gatilho.

Os ouvidos da garota zuniram com o barulho que a arma fez ao se livrar de uma bala; ela ficou tonta e quase perdeu o equilíbrio, porém uniu forças e mentalizou que aquele não era o momento de fraquejar. Brevemente, Stella encostou-se a uma árvore para tomar fôlego, mas logo firmou o corpo frágil e ferido.

O cavalgar de cavalos se aproximando em disparada foi ouvido segundos mais tarde. Stella encarou Marcus e notou que ele agora estava desacordado; o homem que o feriu estava se levantando enquanto limpava a terra do rosto. A menina era covarde demais para mirar e atirar nele; fez então o que ela menos desejava, mas que era sua única saída naquele momento: correr.

Estando com a arma do homem e confiando que ele não poderia tirar a vida de Marcus, Stella jogou para longe a arma, deu uma última olhada no amigo e correu entre as árvores. Além da escuridão da noite, lágrimas de extrema tristeza por deixar o amigo para trás dificultaram a visão da menina.

Mas ela continuou a correr tentando ao máximo não tropeçar em nada e conseguir mais um ferimento em sua extensa lista; seu corpo já estava esgotado de tanta dor, provavelmente não suportaria mais uma.

Novamente, o som de cavalos cavalgando cortou o silêncio, além do relinchar e do grito de homens ordenando redenção. Tiros ao longe também foram ouvidos, sinais de um duelo entre bons — talvez fossem — e maus.

Um fraco feixe de luz iluminou o rosto de Stella e a mesma pode notar que eram faróis. Ela voltou a correr até chegar às últimas árvores do bosque, chegando à estrada. Ouviu passos se aproximando e não pensou duas vezes antes de pular para fora dali e, talvez, ter a sorte de abordar alguém que pudesse a acudir, mesmo que em minúsculas chances disso acontecer.

Abordar alguém, Stella abordou, porém não teve a parte da "sorte", pois um carro freou bruscamente para não acertá-la, não obtendo tamanho sucesso. O impacto foi leve, porém o corpo fraco caiu na terra e ela ficou completamente tonta.

Exausta, ferida e ofegante, Stella sentiu a escuridão domina-la aos poucos até que a inconsciência a visitou.

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"Quando você achar que suas garras me pegaram, pense melhor

Não se surpreenda, eu ainda me erguerei..."

{Rise - Katy Perry}

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