História Strange and Beautiful - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Capitão América, Os Vingadores (The Avengers)
Personagens Anthony "Tony" Stark, Clint Barton, James Buchanan "Bucky" Barnes, Natasha Romanoff, Sam Wilson (Falcão), Sharon Carter (Agente 13), Steve Rogers, Thor
Tags Drama, High School, Os Vingadores Au, Steron, Stucky Au, Trans Bucky, Violencia, Winterfalcon
Exibições 37
Palavras 4.020
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Crossover, Drama (Tragédia), Escolar, Romance e Novela, Slash, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Álcool, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Essa é a primeira fanfic que eu escrevo na vida.
Perdoem os erros ortográficos porque não tenho beta e não entendo dessas coisas, mas garanto que não há absurdos que te faça desistir da leitura (a menos que o plot não lhe seja agradável).

Passei quase um ano inteiro com a ideia dessa fanfic na cabeça porque não tem muito espaço para a versão trans de personagens nessa internet, pensei: vô fazê. Fiz.

E é com imensa vergonha que exponho meus escritos ao público.
Espero que gostem e prometo que os próximos capítulos não serão tão imensos.

Capítulo 1 - I Verão


Ele não podia perceber as poucas gotas de uma garoa cinza martelando o vidro do carro porque não olhava para frente, para o futuro, mantinha os braços cruzados sobre o banco traseiro, como se pudesse perder o olhar no horizonte deixado para trás e com ele não precisar encarar a realidade de uma nova vida. Essa nova vida não seria parecida com a antiga, onde tinha o acolhimento dos pais, manhãs douradas e cheiro de torta de morango. O que lhe esperava era uma cidade de pedra, os berros de uma avó rabugenta e o cheiro de seus cigarros. Ele fechou os olhos cor de chumbo.

Feche os olhos e pense nas estrelas.

Bucky fora puxado de sua bolha de proteção por um tapa da avó ordenando que o rapaz sentasse corretamente no banco, pior, que tomasse o lugar da frente e fosse defumado pelo cheiro de sua nicotina. A velha não quis abrir as janelas durante toda a viagem e Bucky pedia aos céus para não acabar pegando um câncer. Mais uma coisa ruim na minha vida, não. Por favor. Pensava.   

― Ouviu, Bucky?

A velha pareceu enojada ao dizer aquele nome.

― Desculpe, vó. Eu não ouvi.

― Uh! Viu, só? Igualzinho seus pais, nunca prestavam atenção em nada! Por isso estão mortos!

A falta de sensibilidade atingiu Bucky feito uma fagulha queimando a ponta de uma folha seca, pronta para tacar fogo por tudo. Um suspiro ruidoso impediu que esse fogo no interior do rapaz lhe consumisse, acabando por agredir a própria avó. Ela esperava uma discussão, era bem seu feitio atiçar os nervos das pessoas, Bucky reagiu virando o rosto e permanecendo em silêncio.

Ele seria obrigado a engolir tantas coisas...

-x-

 

 Bucky era um rapaz nascido e criado no interior que teve a liberdade roubada há poucos meses por uma tragédia, claramente um rapaz acostumado a estudar em casa ficaria admirado ao topar pela primeira vez com uma construção enorme na qual chamavam de escola. Extensa, trabalhada em vidro e pedra, possuía uma enorme torre na parte traseira, onde escondia os restos do que um dia fora uma estufa para estudos de botânica. A frente, um gigantesco relógio refletia seu brilho acinzentado sobre a admiração nos olhos do rapaz, que não durou longos segundos, claro, pois assim que Bucky viu multidões de adolescentes brotando de todos os cantos, encolheu-se no acento e desejou tornar-se invisível.

O primeiro dia de aula é sempre o mais terrível.... Assim como o segundo e o terceiro.... Na verdade, ambiente escolar é um lugar hostil e perigoso tanto quanto um campo de guerra. Bucky sentia-se no front line fazendo de tudo para não ser acertado pelos tiros de olhares curiosos sobre si. Ele não era do tipo sociável e também não se esforçava para ser, pessoas nunca lhe fizeram muito bem, afinal. Saindo do carro, esperou que os longos cabelos castanhos lhe cobrissem o rosto carrancudo ― sua defesa para não cair nas garras de nenhum engraçadinho.

Achando que pisar sobre o terreno novo parecia fácil, o rapaz até conseguiu respirar. Porém, tateou o corpo e não encontrou as alças da mochila onde deveriam estar. Parou de respirar ao ver a velha caminhonete nem um pouco enferrujada e chamativa da avó se distanciar. E sim, seu maior medo de passar vergonha em público em seu primeiro dia de aula numa escola tornou-se realidade. Bucky gritava pela avó, acenando os braços feito um desesperado no meio da rua. A cereja do bolo da manhã humilhante de Bucky foi a avó cantar pneu na porta da escola, jogar-lhe na cara a mochila e arrancar com o carro fora da rua gritando:

― Presta atenção, imprestável!

Bucky passou de cabeça baixa por um corredor de risos, piadinhas e provocações de inúmeros rostos deformados com seus dentes para fora, feito demônios, sedentos por sangue fresco e indefeso, famintos para triturarem a sanidade e autoestima das poucas almas boas que se deixam afetar.

Afinal, ambiente escolar é o inferno.

 

Ele rumou o mais rápido que pôde para a sala da direção, pois mais uma complicação lhe esperava. Bucky era um apelido carinhoso para James Buchanan Barnes, porém, em seu registro James ainda era Jenna. Bucky era um menino transgênero. Durante sua vida no campo, nunca tivera problemas em ser aceito. Julgadas ignorantes, Bucky sempre achou essas pessoas simples na qual crescera junto bastante respeitosas. Agora na cidade, descobrira que a arrogância dos mais evoluídos não deixava lugar para a empatia.

Uma senhora que mais parecia a guarda de guarita de prisão feminina discutia de cara fechada com o rapaz. Ela fazia um bico zangado que salientava uma verruga esverdeada com um único pelo saindo bem do meio. Bucky discutia de volta, mas vez ou outra perdia o foco da fala porque encarava de mais aquela característica tão única.

― Nós não podemos trocar nomes de documentos, a direção não permite.

― Estou pedindo para pôr o nome correto na lista de chamadas! ― Bucky estava quase arrancando os cabelos, era a quinta vez que tentava explicar o mesmo ponto. ― Sou homem! Vê? Homem! Como um homem de barba na cara poderia se chamar Jenna?!

― Escuta, filha.... Se aceite lésbica de uma vez e pare de inventar apelidinhos.

Sentiu o marejar de seus olhos embaçar a visão sobre a mulher rude, mas manteve as forças erguendo a cabeça e respirando fundo. Deixou que o ar lhe preenchesse o vazio que os pais deixaram em seu peito. Estava sozinho, esse momento era uma amostra grátis do que enfrentaria por ser quem era.

Tentou mais uma vez.

― A senhora está sendo transfóbica.

― Estou cansada, isso sim! ― Disse num grunhido, a cadeira gemeu de dor ao ser esmagada pelo sobrepeso.

― E fedendo, também. ― Bucky disse.

― Escute aqui, sua vadiazinha...

Ruído de salto martelando o piso de cerâmica fez os dois darem espaço para a presença de uma mulher esguia e comprida. O cabelo alaranjado era leve quanto a cor estilo nude das roupas. Apagada, sim, mas sem esconder uma doçura travessa no belo par de olhos cobalto.

― Com licença, estão com problemas?

A senhora da recepção voou contra o balcão, espumando sua defesa primeiro, enfatizando bem a malcriação do rapaz novo. Ela esperou de sorriso amarelado aberto por uma punição que não veio, na verdade, daquela mulher ela só teve as costas.

― Bom dia, sou a coordenadora Potts. ― E cumprimentou Bucky num sorrisinho curioso.

― Sou James, acabo de me matricular, mas acho que não vou poder aparecer nas aulas por causa do desrespeito dessa senhora!

A senhora guinchou, mas fora calada por um aceno simplório da moça. Pelo que Bucky percebeu, essa coordenadora não precisava de esforço para impor sua dominância.

― O que aconteceu? ― Ela perguntou, indo para trás do balcão checar a ficha de matricula do rapaz e seus documentos. Ele não soube se foi ilusão de sua mente ou Potts entendera a situação somente ao passar rapidamente os olhos sobre o nome em sua identidade, porque tinha carinho no brilho azulado deles ao encará-lo.

― Só estou pedindo que mudem o nome na lista de chamadas...

― Não se preocupe, James. Tomarei conta da sua situação pessoalmente.

Finalmente pôde suspirar aliviado, e um alívio sincero.

― Eu agradeço muito, senhorita Potts...

A ruiva deu de ombros, sem deixar de sorrir. Entregou o que Bucky precisaria para se encontrar durante as aulas e o acompanhou até o corredor. Tapinhas gentis sobre o ombro do rapaz foram sua forma sutil de lhe desejar boa sorte.

― Seja bem vindo. Problemas... Corra até mim.

― Se não puder enfrenta-los sozinho, eu corro.

-x-

 

Problema com o nome resolvido, sua identidade segura também, tudo o que restou ao rapaz fazer foi sobreviver e durante as três primeiras semanas ele passou despercebido, ignorado, tão valorizado quanto o rato que fuçava no lixo do refeitório todas as manhãs. O refeitório em questão era o campo onde os animais selvagens comiam uns aos outros ou disputavam violentamente pela posse das inúmeras fêmeas espalhadas aos cantos. Muito barulho, Bucky não podia desenhar sem concentração, também não arriscou porque tinha certo apego sentimental pelo caderno com capa de couro vermelho na qual rabiscava seus personagens fictícios, seria horrível vê-lo se desintegrar nas mãos oleosas dos brutamontes do time de atletismo, ou virar conteúdo de alguma seita satânica. Bucky havia encontrado um lugar perfeito.

Havia um banheiro para funcionários fora de uso atrás do prédio do refeitório, colado com o muro que dava para sabe-se lá onde, cheio de mato. Era um lugar imundo e escuro. Não existia pedaço limpo nos azulejos cinzentos, estavam riscados, até mesmo no teto. Das três cabines, somente uma permanecia com a porta feita de madeira toda lascada, porém, funcionando. Uma única janela trazia calor ao topo da cabeça cor de chocolate do rapaz, deixando-o saber da vida do lado de fora e que não era pecado algum encontrar um lugar onde houvesse paz. Naquele banheiro escuro Bucky sentia-se seguro.

Sentado na tampa do vaso com o caderno de rabiscos sobre o colo, uma mão se ocupava em encorpar o esboço de um corpo feminino, a outra segurava uma caixinha de leite fermentado que ele vez ou outra sugava. A iluminação da cabine valorizava o sombreado do lápis HB sobre o papel, deixando o artista orgulhoso de seu trabalho. Mas, concentrado, não ouviu o furacão raivoso que tomara posse daquele ninho de introversão.

Aquela porta sobrevivente fora violentada por um chute poderosíssimo e quem estava atrás dela recebeu o golpe dado por uma ruiva pegando fogo do lado de fora. Bucky machucou um joelho, teve o caderno e a camiseta encharcados pelo leite que fora explodido fora da caixinha. Ele se assustou, pensou em ficar em silêncio para não virar alvo de algum valentão estressado, mas o latejar do machucado incomodava bastante e depois que viu o estrago em seu belo desenho, emputeceu de vez.

― Ei! Cuidado!

A garota que fora se ocupar em terminar de quebrar a cerâmica velha de uma pia voltou-se na direção da porta aberta, surpresa. Dificilmente alguém descobriria a existência de um rapaz ali.

― Cara, o que você estava fazendo ali dentro?

Ambos se encararam por um longo tempo. Tempo o suficiente para que Bucky se arrepiasse pela presença da garota. Os cabelos cor de cobre dela ondulavam até pouco mais para baixo das orelhas, tentando inutilmente descontrair a aura violenta num rosto de boneca russa. A boca pequenina estava fechada feito um botão de rosa que se recusa a florescer, já seus espinhos refletiam periculosidade na forma que ela olhava Bucky da cabeça aos pés, pronta para devorá-lo caso merecesse. A garota, por sua vez, via Bucky como um filhote de rosto rechonchudo. Ela discretamente sorriu porque o rapaz parecia adorável tentando ser durão. Pois então, percebeu que ele era um lutador.

 ― Eu estava esperando bater o sinal. ― Bucky disse mexendo na camiseta ensopada.

― Jeito bem esquisito de lanchar, hein?

― Aqui ninguém me incomoda.... Até agora.

Eles trocaram meio sorrisos e não caíram em nenhum silêncio constrangedor porque a garota desamarrava da cintura uma blusa de moletom, estendendo a Bucky como um pedido de desculpas.

― Pra quê isso? ― Ele pareceu confuso.

― Não vai querer ser visto saindo de um banheiro abandonado com a camiseta molhada de sei lá o quê, não é?

Bucky não entendeu a pegada da coisa de imediato, mas um simples erguer maldoso na sobrancelha dela o fez se enfiar dentro do blusão preto de capuz no mesmo instante. Serviu-lhe bem, era confortável. Tinha o desenho de uma estrela vermelha no peito, também haviam inúmeros rasgos na manga do braço esquerdo. A garota deveria ter ido para a guerra com aquele moletom. Ele gostou. Melhor do que ser chamado de punheteiro.

― Sou Natasha, me chame de Nat.

Eles se cumprimentaram.

― Bucky.... Só Bucky.

― Prazer em conhece-lo, “Só Bucky”.

― Queria demolir esse banheiro?

― Tsc, alguma biscate do primeiro ano me dedurou para a direção. ― Natasha cuspiu na pia, enojada.

― Você deve ter feito algo bem grave.

― Que nada! Essas garotas mexem com fogo e ficam putas quando são queimadas de volta.

Natasha encostou as costas e um pé na parede fria de ladrilho e o que tirou do cano alto do coturno fez Bucky dar um passo para trás. Ela começou a bolar um poderoso cigarro de maconha com destreza, seus dedos finos trabalhavam no beck como uma aranha faria arte na teia. Simplesmente bolou, acendeu, tragou e o cheiro de orégano e mato queimado impregnou o banheiro miúdo com sua fumaça intensa.

― Você vai fumar aqui?! E se te pegarem?

Natasha deu de ombros.

― Estou na detenção pelos próximos dias porque taquei fogo numa cortina na aula do sr. Banner, não podem me dar detenção se eu já estiver nela.

Bucky não sabia o que dizer, nem qual expressão deveria demonstrar para deixar transparecer sua surpresa e não acabar parecendo um burro do interior, até porque crianças do campo jamais fizeram algo parecido. Natasha estava tranquila, seu feitio não deveria significar nada comparado ao que estava acostumada a fazer numa escola que carecia de regras e ordem. Ele sentiu receio, um frio na barriga tomou conta, aquela sensação safada que impulsiona a andar por onde não se deve. Irresistível tal sensação corroendo o peito do rapaz do campo. Ele nem tentou lutar contra. A curiosidade vencera.

― Ei, posso dar um trago?

Seus olhos verdes faiscavam, desafiadores. Natasha deu um belo trago e fumaça saia de suas narinas antes de dizer:

― Não tem medo de acabar na detenção?

― Podemos fumar na detenção também?

-x-

 

Bucky sentia o rosto enterrado sobre o caderno derreter, de vez em quando parecia afundar como se as folhas fossem nuvens macias. Natasha não o deixou por papel na boca, garantindo-lhe que não tinha nem de longe gosto de marshmallow. Eles se sentaram juntos na aula de um professor que Bucky pensou ter nome de mordomo robô de alguma família futurista. Quando o rapaz, chapado até o último neurônio, olhou para a lousa, coçou os olhos preguiçosamente. Estava vendo uma enorme travessa de sopa verde de letrinhas flutuantes no lugar do quadro negro? E por que a voz daquele professor de nome Jarvis parecia tão aveludada? Sedutora, até. Sentia vontade de dormir com aquela voz lhe mimando os ouvidos.

― Como você é cruel, Nat.

Clint, melhor amigo e fiel escudeiro de Natasha disse, dando uma boa olhada num Bucky molenga sobre a mesa. Ele cutucava o rosto do rapaz e caiu no riso ao vê-lo babar sobre o próprio caderno. Clint podia bem ser uma peste, mas se mantinha longe, observando o circo pegar fogo feito um gavião.

― Nem vem, ele quem pediu. ― Disse Natasha.

― E você, sempre generosa...

Bucky murmurou algo e Clint levantou seu rosto.

― Ei, carinha! Está tudo bem?

― Hm.... Estou morrendo de fome.

Natasha e Clint riam.

― Bateu uma larica braba aí, hein, mano? ― Brincou Clint, dando puxadinhas nos longos cabelos de Bucky, espalhados sobre a mesa.

― Comida? Quero.

― Imundos, querem dar uma escapada na próxima aula? ― Natasha dizia, prontamente enfiando seu material na bolsa de qualquer jeito.  ― Vamos para a quadra, podemos ficar nas arquibancadas.

― Vai levar o aluno novo para o mau caminho logo de cara, Nat?

― Nós estudamos no inferno e esse anjo não vai durar muito se ficar sozinho. Ouçam o sinal! Vamos logo!

-x-

 

Os três começaram zanzando pela arquibancada no campo de futebol. Claramente não foi tão fácil decidirem onde ficariam de primeira, primeiro porque Clint queria tomar sol, Bucky queria dormir na sombra, Natasha queria uma boa visão do treino dos jogadores então acabaram encostados na grade de arame do campo, sobre o gramado. Bucky dormia de boca aberta, Clint relaxava todo esticado e Natasha gritava desaforos para encorajar os amigos atletas.

Ainda alto, Bucky tinha uma leve noção do bom sentimento de se ter companhia. Ainda mais ele, quem aprendera que a solidão seria sua eterna sina. Abriu os olhos, fixando-os diretamente naquele resplendor azul límpido que parecia olhar por ele. Sentiu-se grato. Talvez os pais lá de cima, ou onde quer que estivessem, pudessem ter alinhado o caminho de seu destino com o de pessoas extraordinárias. Bucky ergueu o rosto e sentiu que aquelas duas almas estranhas lhe trariam boas memórias.

― Gente, sério, estou morrendo de fome.

O cabelo cor de areia de Clint brilhava feito uma estrela pela forte luz do sol. Ele estava bem à vontade deitado de barriga para cima no moletom estendido sobre o gramado, sem camisa, fazendo o campo da escolar seu paraíso particular. Falou com Bucky, divertido:

― Bom dia, flor do dia! Seu cabelo está cheio de formigas.

Desesperado, Bucky se sentou e começou a estapear a cabeça como se dependesse disso para viver. A imagem de monstruosas formigas mutantes tomou conta de seus pensamentos drogados e ele sentiu que queria chorar. Natasha lhe deu tapinhas sobre o ombro.

― Não tem formiga nenhuma. Deixa o Só Bucky quieto, Clint.

― Desculpe, Só Bucky!

Clint lhe sorriu e o rapaz percebeu certo charme naquele jeito de repuxar o canto dos lábios. Certamente devia usar essa skill para fisgar facilmente garotas, pensou.

Quando virou o rosto na direção do campo verde, sua cabeça doeu. O sol forte castigava o verde massacrado por chuteiras coloridas e seus respectivos donos não podiam ser distinguidos pelo uniforme branco que ofuscava a sensibilidade dos olhos de Bucky. A droga deixava as cores muito mais intensas do que eram, por isso não notou a silhueta de três rapazes caminhando em sua direção. Suas imagens ferviam ao longe.

― Errou feito aquele gol, picolé! ― Disse Natasha para alguém.

Ela cumprimentou os recém chegados, apresentando-os a Bucky em seguida.

O primeiro ficou sabendo que se chamava Thor. Seu sorriso era tão largo quanto o corpo. O cara era enorme! Sua aparência meteria medo caso não parecesse tão carismático ― fora os longos cabelos dourados presos numa trança com alguns fios rebeldes lhe escapando aos olhos de um azul intenso. Ele parecia um guerreiro nórdico saído de um livro mitológico. Logo atrás, apareceu um rapaz que deu a impressão a Bucky ser o mais recluso. Ele não estava de cara fechada, mas sério de um modo sereno. O suor escorrendo sobre a pele negra causou sede no rapaz, e ele nem soube o porquê. Era Sam Wilson, o chocolate que a maioria desejava degustar, mas que se mantinha longe pois os estudos eram sua prioridade. Por fim, o último do trio que se perdera no campo atrás da bola correu até o grupo e Bucky jurou que tivera um infarto assim que aquele demônio dourado lhe sorriu pela primeira vez.

― Steve Rogers, senhoras e senhores! ― Aplaudiu Natasha.

― Ei! Ouvi você me chamando de picolé.

Bucky estava estático! Fechou a boca ou babaria feito um cão. Seu rosto corou violentamente e ele tratou de se encolher contra a grade, escondendo o rosto entre os braços cruzado sobre os joelhos. Aquele rapaz era tão lindo que Bucky queria ir embora. Sentiu-se um pedaço de casca de árvore em comparação a ele. O que pensaria o cara, se o visse ali, encolhido, de longos cabelos desgrenhados, olheiras que o fazia parecer um guaxinim? Riria, com certeza, assim como era a reação natural das pessoas ao vê-lo.

― Não se preocupe, Só Bucky, Steve não morde.

Bucky ouviu a voz de Natasha e mais uma vez fora puxado fora de sua bolha antissocial de proteção. Ele ficou vermelho feito uma cereja, todos o olhavam agora, curiosos a respeito do aluno novo e possível novo integrante do bonde. Mas o pior de tudo era a mão do loiro sorridente que roubara seu coração estendida em sua direção. Aquela criatura possuía uma luz natural potente o suficiente para fazer os demônios de Bucky desintegrarem, dando-lhe trégua do mundo dolorido onde vivia.

Bucky se apaixonou pelo capitão do time de futebol, Steve Rogers, sem ao menos precisar tocá-lo.

Foi um esforço tremendo tocar naquela mão, quando aconteceu, não existia vontade de largar. Podia ter suor deixando pegajoso o contato entre peles, mas não parecia incomodar, o calor transformava os dedos grossos de Steve numa brasa que percorreu o braço de Bucky e em seu peito fez morada. Quando o contato se desfez, Bucky pensou estar conectado a ele por séculos.

― Está tudo bem com ele? ― Perguntou Steve e Bucky precisava sair correndo da mira daquela voz gentil e da preocupação sincera no brilho dos olhos, ou choraria por não poder tê-los só para si.

― Claro que está! Vocês chaparam o moleque! ― Disse Thor, o som de seu riso rouco lembrava o de um trovão.

― Vocês não deveriam estar em aula? ― Dessa vez fora Sam quem se pronunciou e, de todos, era o que mais olhava Bucky.

― Nós estamos de folga, mãe. ― Clint se pôs em pé, vestindo a camisa.

― É sério. Vão expulsar Nat se ela pegar outra detenção.

O fato não alarmou a ruiva nem um pouco, ela até grudou em Sam, passando-lhe um braço ao redor dos ombros largos e deu um belo sorriso sacana.

― Obrigado pela preocupação. ― Agora, voltando a voz ao grupo de rapazes, principalmente para Bucky que era o único encolhido no chão, disse: ― Acho que deveríamos tomar milk-shake.

A palavra mágica milk-shake surtiu um efeito curioso no grupo. Thor e Clint jogaram os braços para o alto e saíram gritando feito loucos, depois pareciam se atracar numa luta. Sam revirou os olhos diante a infantilidade dos amigos, também pela falta de responsabilidade de Natasha, mas permaneceu em silêncio porque era educado de mais para interromper aquela boa vibe. Todos concordaram prontamente. Menos Steve. Ele parecia meio sem jeito ao desculpar-se:

― Não vou poder acompanhar vocês.... Sharon, vai pegar no meu pé.

Que porra é Sharon?

Steve foi vaiado pelos rapazes, mas deu de ombros rindo. Bucky queria poder reparar na doçura daqueles lábios, mas seu coração afoito gritava implorando por respostas.

―  Essa garota está te afastando do seu bonde, cara. Estamos ficando sem nosso líder! ― Thor disse.

― Você tinha que namorar a mina mais nojenta de toda a escola. ― Clint rodou o moletom no ar, tentando acertar Steve num golpe.

― Vamos sair todos no sábado para compensar, está bem? ― Disse Steve com as mãos para o alto pedindo trégua.

― Ei, carinha, você está bem?

Bucky não ouviu a voz de Clint, não enxergou Nat vindo em sua direção. Seu olhar era distante e o marejar dos olhos embaçava o doloroso mundo real no qual vivia. Óbvio que um rapaz lindo feito um príncipe como Steve estaria comprometido com alguém. Quem seria a louca de deixa-lo sozinho? O rapaz também não compreendia porque a revelação lhe tocara tão intimamente, Steve era um estranho. Steve nunca olharia para ele. Steve nunca ficaria com Bucky porque a atração entre eles seria impossível. Ergueu a cabeça e coçou os olhos com as mangas do casaco.

― Hm, esse beck foi muito forte. ― Mentiu.

Thor lhe dera um tapa no ombro capaz de desmontá-lo, mas com gentis intenções de deixa-lo bem. Clint passou o braço ao redor de sua cintura e Thor fizera o mesmo do outro lado, dando-lhe apoio necessário para obriga-lo a sair dali.

― Vamos dar algo para esse garoto comer, logo. ― Disse Sam.

― Quebro sua cara se não aparecer sábado, picolé! ― Natasha ameaçou de punho fechado um Steve que corria de costas sorridente pelo campo. ― Vamos, Só Bucky precisa repor as energias.

― Milk-shake com maconha!

― Milk-shaconha!

― Argh! Calem a boca!

 

Sendo levado pelo grupo de novas companhias, Bucky olhou sobre o ombro afim de dar uma trégua para seu pobre coraçãozinho decepcionado se visse só mais uma vez o ladrão dourado que levara sua felicidade para um mundo onde somente poderia encontrar de olhos fechados, em seus sonhos.


Notas Finais


Essa fanfic é inspirada na música Strange and Beautiful do Aqualung.

Tambem disponível em: https://fanfiction.com.br/historia/716776/Strange_and_Beautiful/


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