História Superstar - Capítulo 6


Escrita por: ~

Postado
Categorias My Chemical Romance
Personagens Frank Iero, Gerard Way, Personagens Originais, Ray Toro
Tags Frerard, My Chemical Romance, Romance
Exibições 9
Palavras 5.743
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Fluffy, Lemon, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


AMO VOCÊS!!!!!!! <3
BOA LEITURA!!!

O.B.S: Tia tá postando tudo e talvez fique alguns erros para trás (apesar da revisão rs). Me falem se algo estiver esquisito xD

Capítulo 6 - Capítulo 06 - O Lugar Mais Seguro


Fanfic / Fanfiction Superstar - Capítulo 6 - Capítulo 06 - O Lugar Mais Seguro

 

Capítulo 06 - O Lugar Mais Seguro

 

"Minhas palavras não têm nenhum significado agora. Mas você terá todo o tempo do mundo para compreendê-las" - O Vampiro Lestat ( Anne Rice)

 

Cindy acordou mais tarde naquela manhã. Após duas semana as quais parecia não haver mais nada, nenhuma beleza na vida ou no que esperar da mesma, ela finalmente tinha conseguido dormir. O café ficou pronto e a mesa posta, o silêncio ainda era bastante desconfortável, mas ela rompeu -o naquela primeira refeição de forma audaciosa.

- Vou arrumar as coisas de Frank.

- Como assim? - Monica quase cuspiu o leite da xícara juntamente com as palavras. Amanda e Richard permaneceram calados e entreolhando-se.

- Preciso entrar naquele quarto e porão, encarar a realidade dos fatos. Guardar o que precisa ser guardado, jogar fora o que é necessário, doar outras coisas, tudo isto.

- Devo admitir que precisa mesmo. Ray, amigo do papai, poderia ajudar ou Gerard.

- Falarei com Ray, não sei se Gerard sentiria-se bem com isso. Ele e seu pai eram como irmãos, muito ligados, parecia ter o mesmo sangue. Melhor não chamá-lo.

Monica apenas balançou a cabeça e Cindy concentrou-se em terminar sua primeira refeição. O café seguiu sem maiores movimentos ou diálogos consistentes.

xxx

Cindy abriu a porta do móvel onde estava todas as roupas de Frank e segurou o choro, Monica e Ray, que atendeu prontamente ao chamado da viúva, estavam logo atrás dela e todos andaram bem devagar no cômodo, a seguir. Cômoda e cama, um baú. Cindy sentou na cama e olhou para trás, parecia exasperada. Monica e Ray aguardavam instruções e seus semblantes não eram melhores que o dela. Aquilo tudo era muito triste.

- Vamos começar por onde? Roupas? - Monica perguntava sem emoção.

- Acho mais fácil. E enquanto eu e você permanecemos no quarto, Ray pode ir no porão. Tem muitos livros e outro tanto de coisas de Frank. Instrumentos, cadernos. Poderia ajeitar tudo em caixas?

- Sim, eu farei isso. – Ray lhe dava seu mais doce sorriso e saía.

Sem mais delongas, Cindy e Monica iniciaram a separação de roupas de Frank. A maioria seria doada para algumas pessoas conhecidas, outras para o bazar de caridade da Igreja. Sapatos também, se bem que não possuía mais do que 4 pares, se muito. Finalizada esta parte, Cindy achou melhor separar documentos agora. Guardar os mais importantes e jogar fora os antigos.

- Acho que ele guardava estas coisas naquela gaveta branca manchada ali e naquela bolsa preta. Deve ter papéis na bolsa também. - Cindy ia em direção à gaveta e Monica pegava a bolsa. Ao abrir a gaveta, Cindy viu uma caixa transparente de plástico cheia de papéis. - Achei.

Monica, por sua vez, começou a esvaziar a bolsa e assim jogar fora todos os papéis possíveis.

- Acho que vou manter somente os comprovantes de contas pagas até seis meses atrás. - ela dizia verificando as datas das contas.

- Sei lá, talvez nem seja preciso, mas nunca se sabe. Pedi para Gerard elaborar uma carta de comunicação ao bancos e lojas, para que comuniquemos os mesmos do falecimento dele, assim não haverá mais envio de cobranças caso haja alguma e para que seja encerrada a conta bancária. - Cindy pegava o passaporte de Frank e colocava ao seu lado. Monica observou – Meu esposo nem pôde estrear seu passaporte, meu Deus. Justo ele que tanto desejava viajar.

A limpeza dos papéis continuaria por boas horas, enquanto isto, Ray iniciava a sua parte na ajuda, no porão.

xxx

Ray estava munido de caixas, sacolas e sacos para lixo. Como já havia separado itens preliminarmente, enquanto Cindy arrumava as roupas para doação e Monica recolhia todo o lixo da faxina nos documentos e contas. Isto foi bem rápido. O desafio e as surpresas estavam por conta de Ray e ele ainda iria se deparar com isso.

- Os livros, LP’S, CD's e DVD's... - Ray olhou para os inúmeros itens tanto no armário escuro e cheio de areia fina quanto os que estavam dispostos em um baú e estante e começaçava a falar sozinho. - Não sei, verei melhor os DVD's de filmes, os de música faz meu gênero e isso inclui os CD's, assim como o gosto de Gerard. Só não sei se ele aceitaria. Livros tampouco. Os dois eram um o espelho do outro. – Ray suspirou fundo e olhou para o computador e o notebook. - Acho que seria interessante formatar o computador e doá-lo, creio que ele ia gostar, principalmente se ficasse para os adolescentes da comunidade da Igreja. Quanto ao notebook, vou dar uma olhada nele e depois vemos melhor, creio que tem muita coisa pessoal. – ele continuava a conversar consigo mesmo. - Gostei da idéia. Farei isto. Vou ligar para Mohamed e ele vem pegar o computador e as caixas de som. Os meninos adoravam estas caixas de som quando Frank as usava em algumas aulas que ele deu para aquela galerinha.

Ray sorriu e viu que agora só restava uma caixa quadrada em cima da estante. Ele puxou a caixa e a abriu, começou a revirá-la: havia comprovantes de passagens para viagens curtas, já realizadas (pela data), ingressos para shows locais também já realizados, um ‘bolo’ de cartas amarrado com um pedaço de tecido velho, emails impressos, também havia o que seriam presentes, itens pessoais e fotos. Fotos de Frank e Gerard ou de um dos dois sozinho, provavelmente tiradas por um e outro. Um pouco mais do lado estava um envelope envolto num laço azul e o nome Gerard escrito no verso. Ray olhou para trás rapidamente, o coração disparado por aquele acervo de provas da relação extraconjugal e homoafetiva, um prato mais que cheio para que Gerard fosse preso e condenado à morte sem qualquer sombra de dúvida. Ray agarrou a caixa e a tampou. Colocou-a sobre a mesa e separou-a de lado juntamente com o notebook.

- Preciso convencer Cindy de me deixar levar isto comigo.

Ray sentou um pouco, sentia o peito doer pelo susto daquela descoberta, não pelo relacionamento deles; Ray sempre soube e os ajudava, Deus sabe. Mas, por algo tão perigoso estar ali, quieto, silencioso, como uma bomba relógio pronta a explodir a qualquer momento se cair nas mãos erradas.

- Terei de pedir para Gerard para ficar com isso e ainda tem essa carta. – Ray estava suando e muito intrigado, porém tomou um pouco de água e continuou com a limpeza.

xxx

Ray saiu da casa de Frank e Cindy com a caixa e o notebook sem nenhuma dificuldade. Cindy entregou até o passaporte de Frank para que Ray colocasse na caixa e ele foi embora dizendo que voltaria no dia seguinte para levar o computador para formatação e entrega para a comunidade. Cindy agradeceu e parecia mais leve, os filhos também. Ray agradeceu aos céus por aquele pedido de ajuda e ele ser o incubido de limpar o porão. Quem disse que Deus não protege?

Naquela noite, Ray retirou tudo o que estava na caixa, pediu licença para Frank onde quer que ele estivesse e como um leitor àvido, leu tudo que estava escrito ali, viu cada objeto guardado, cada papel que carregava um significado único, as fotos que agora pareciam fazer sua alma gritar e deixou a carta envolta no laço azul por último. A cada linha, Ray admirava ainda mais o amigo e desejou ser como ele. Frank e Gerard continuavam a ser pessoas dignas e íntegras, lutadoras, heróis sem capa. Finalizou a leitura já em prantos, tanto pela saudade que o abatia ferozmente como pelo impacto que aquelas palavras causavam pessoalmente nele.

- Ah, meus amigos! A vida foi muito injusta com vocês. E ainda assim vocês foram bravos.

Ele encolheu-se na cama e cobriu-se, abraçou todos aqueles papéis e objetos e lançou mão de seu celular. Olhou o nome que procurava e titubeou.

- Não, ainda não.

Suspirou e vencido pelo cansaço, dormiu enfim.

xxx

No dia seguinte, Ray acordou cedo e juntou tudo o que havia espalhado e organizou dentro da caixa. A seguir, pegou o notebook e começou a explorar cada pasta que Frank tinha. Algumas de fotos apenas aleatórias, as de família e amigos estavam em pastas devidamente entituladas e então começou a acessar nas pastas mais pessoais.

- Isto vai demorar. - suspirou. Fechou o notebook e foi comer algo.

Reparou que a mãe não estava em casa, bem provável que tivesse ido ajudar nas doações das roupas de Frank, Cindy havia lhe pedido ajuda.

- Melhor assim pois fico mais livre para ver aquelas pastas. - Ray fez um prato com alguns itens e voltou ao quarto novamente.

Abriu o notebook e passou para outra pasta, a que reunia todas as composições de Frank e tudo o mais que ele salvava para compor melhor suas músicas: fotos, lugares, reportagens, informações adicionais... Passou muito tempo vendo as fotos e lendo composições, uma grande parte escrita em conjunto de Gerard. A exaustão já lhe abatia quando chegou na última pasta. Esta seria uma caixa bem pessoal. Ray olhava atento a tudo, tanto para fotos quanto para arquivos de documentos em texto, prints de tela de computador... - Algo me diz que além da caixa, eu terei de dar o notebook para o Gerard também. Ou um belo pen drive com tudo isto salvo.

xxx

Após mais algumas horas a fio de incansável vista e leitura, Ray tinha certeza de duas coisas. A primeira era a de que precisava entregar a caixa de itens, bem como um pen drive ou o próprio notebook para Gerard. A segunda é que ele precisava falar com sua namorada, mas era tarde demais e estava exaurido de todas as forças, tanto fisicamente quanto emocionalmente, precisava dormir urgentemente e foi o que fez. No dia seguinte faria o que tinha de fazer.

No dia seguinte, Ray acordou tarde e ainda sentia-se cansado pois foi um período de intensa leitura e isto o consumiu demais, o conteúdo era denso. Entretanto, não cansava de agradecer a Deus pela oportunidade de ver e ler tudo o que Frank havia deixado e vislumbrou que aquilo era um legado sensacional e precisava fazer valer a pena. No que dependesse dele, Frank não teria motivo nenhum para não se orgulhar de sua vida e suas obras e jamais estaria em perigo novamente.

Antes mesmo de tomar café, Ray lançou mão do celular e enviou duas mensagens de texto.

"Gerard, tudo bem? Preciso falar com você, será que pode me ligar? É urgente. Aguardo. Até mais!".

A confirmação de que a mensagem foi enviada apareceu na tela e Ray iniciou a próxima.

"Lya, preciso falar contigo. Me liga. Beijos."

 Mais uma vez a mensagem de confirmação de envio aparecia na tela do celular.

- Agora é só esperar. - Ray nem bem finalizou o pensamento e o celular vibrou pelo som de chegada de mensagem. - Nossa! Quem será o ultra rápido? - ele pegou o aparelho e sorriu. – Gerard.

"Hey, Ray! Tudo bem na medida do possível e você? Posso te ligar hoje a noite, assim que eu encerrar um trabalho, lá pelas sete. Será bom falar com você, irmão. Abraço.”

Ray respondeu imediatamente:

"Oi, estou bem na medida do possível também. Aguardo sua ligação. Concordo que será bom nos falarmos, irmão. Outro abraço."

Ray suspirou e logo o celular tocou. Riu porque era óbvio que seria Lya. Não havia nada no mundo que chamasse tanto a atenção da garota quanto a palavra “urgente”.

- Oi, Lya, tudo bem? ... Sim, tudo certo ...É, eu mandei sim. Podemos nos encontrar hoje a noite naquela loja de discos? ...Certo. Te encontro lá às oito... Sim. Até mais, beijos. - e desligou. Deitou na cama altamente desordenado e sorriu. - Obrigado, Frank.

xxx

O dia passou rápido e no momento, Ray estava se arrumando, afinal, havia marcado um encontro com Lya. Ele tinha certeza de que ela estava muito curiosa sobre isso, porém, tremendo de medo. Ele conhecia bem a namorada. Ela era bem prestativa, amorosa e carinhosa, super gentil, mas quando resolvia virar o demônio, sabia desempenhar o papel maravilhosamente bem. Os dois estavam em atrito por questões puramente voltadas ao passo seguinte: casamento. Numa comunidade com a que viviam, os jovens se casavam cedo e o relacionamento longo dos dois passava a ser visto com grade desconfiança por ambos pais. Com a pressão familiar, vieram suas discussões. No dia que resolveram falar tudo o que estava ‘engasgado’, foi como uma ruptura de represa e a devastação foi grande. Frank, na ocasião, aconselhou o amigo, considerado um grande irmão, todo o tempo e disse reiteradas vezes que eles deviam, do mesmo modo como terminaram, recomeçar. Falando. Somente falando e deixando o que é maior entre eles falar ainda mais alto, o amor.

Ray sorriu para si ao lembrar do som da voz de Frank, endossado por Gerard e que provavelmente teriam orgulho da atitude que estava tomando. Se não desse certo, ao menos ele tentou dignamente. Neste instante, o celular tocou e ele procurou pelo aparelho no quarto, devia ser Gerard. Viu o nome dele no visor e atendeu com um sorriso.

- Olá, Gerard.

- Oi, Ray. Tudo bem no decorrer do dia?

- Sim e o seu?

- Também. - a voz dele parecia desanimada, poderia ser cansaço.

- Bom, não vou tomar muito de seu tempo, sei que deve estar cansado.

- Imagina, não se preocupe com isto. Seus pais estão bem?

- Sim, com limitações, mas está tudo ótimo. Você é quem não está bem, não é?

- Nem me pergunte. Deus sabe como estou levantando da cama todos os dias. - agora a voz soava triste. Ray contraiu os lábios e disse:

- Eu sei o quanto está sofrendo, o quanto Frank e você eram ligados.

- Pois é. Sinto como se uma parte do meu mundo nunca mais fosse voltar à órbita. - a voz saiu grossa e pesarosa. Embargada em um choro que, talvez, jamais cessaria.

- Eu imagino, Gerard. É por isso que eu te mandei a mensagem e pedi para ligar. Hoje, eu fui ajudar Cindy a arrumar as coisas do Frank. – e um longo respiro foi ouvido do outro lado da linha. - O fato é que, eu, ela e Monica nos dividimos para esta tarefa, e enquanto Cindy e Monica ficaram no quarto cuidando de roupas, sapato e documentos, contas, eu fui para o porão. E o que eu encontrei lá, sem sombra de dúvida necessita ficar com você. É claro, fique à vontade para recusar caso ache que trará ainda mais sofrimento. Porém, acho que não há escapatória, estas coisas devem ficar com você. – Ray disse suavemente. – Tenho certeza.

- Devem? - ele ficou curioso.

- Sim. Mas, gostaria que você viesse aqui em casa, até para ver outros itens também. Sei que é um homem ocupado e que não estamos perto geograficamente falando. – Ray sorriu e arrancou um riso tímido de Gerard.

- Que é isso!

- Então, posso aguardar uma nova ligação para agendar sua visita, irmão?

- Claro. Só preciso verificar algumas coisas e você me deixou curioso. Frank sabia bem disso, algumas vezes eu acho que ele me deixava curioso de propósito. - Gerard sentiu alegria e dor ao mesmo tempo. - Preciso ver estes itens aí.

- Certo! Fique à vontade, quando der, é só me ligar. Tudo está aqui em meu poder, guardado a sete chaves.

- Eu agradeço, Ray. Muito. Talvez seja o que eu preciso para tentar colocar algumas coisas no lugar.

- Eu acredito que possa ajudar sim. - Ray suspirou. - Bem, agora preciso desligar, afinal por causa de tudo isto que vi e li em meio a organização das coisas de Frank, estou indo resolver algo para colocar meu mundo de volta à órbita também.

- Santo Frank! - ele disse com convicção, Ray gargalhou.

- Muito sentido nisto hein!

- Que bom! Espero que dê tudo certo.

- Eu também. Bom, vou lá, aguardo seu retorno. Fique bem Gerard e qualquer coisa, nos ligue, não se intimide. Estamos juntos nessa.

- Obrigado, Ray. Desejo o mesmo para vocês e olha que eu ligo mesmo! Obrigado de novo. Um grande abraço, boa sorte!

- Obrigado! Outro abraço, irmão. - e desligaram.

Ray ficou feliz e terminou de se arrumar, logo sairia para tentar colocar tudo no eixo novamente. Graças ao Santo Frank.

xxx

Uma semana depois, Gerard ligou para Ray e disse que viria no fim de semana visitá-lo e aos pais dele também. Ray ficou feliz e disse que o hospedaria em sua casa e de sua noiva. Sim. Porque eles haviam se reconciliado e marcado a data de casamento. Ray até brincou que isso era coisa de “Santo Frank” e Gerard já estava devidamente intimado ao acontecimento. Gerard divertiu-se em pensar que existam estes tipos de histórias, faz com que a vida possua alguma beleza. Ambos despediram-se e Ray o esperaria.

Gerard saiu de carro de sua cidade na manhã do sábado, não seriam muitas horas de viagem e por volta do meio dia chegaria na casa de Ray. Gerard protestou várias vezes quanto a ficar na casa dele e da futura esposa, que não queria invadir a privacidade de ninguém, ainda mais agora que estavam reconciliados. Ray não aceitou nenhum protesto e disse que seria um prazer tê-lo em sua casa. Gerard aceitou relutante, embora feliz por ver o rosto amigo.

A viagem correu tranquila e como plenejado, Gerard se atinha ao endereço dado e com o silêncio do deserto, o jovem era mergulhado na sensação nostálgica de rever a cidade com lembranças de Frank. Aquilo machucava muito, o que o fez lembrar também que nos últimos dias havia pensado em não vir e ficar sem ver as coisas que Ray afirmava que deveria ficar com ele. Até que ponto isto iria beneficiá-lo e não deixá-lo ainda mais triste e machucado? A ferida estava abertíssima e sangrava dia e noite, algumas horas mais e outras menos, porém a intensidade do "baque" era profundo e agonizante. Tomou coragem e manteve sua palavra. É melhor ver tudo por si só e então decidir se quer ficar com algo ou não. Ele teria esta opção.

Não demorou muito para que o táxi estacionasse em frente a um portão médio de madeira o qual parecia "proteger" a casa; nada se via além dele. Gerard agradecia pela boa viagem e desceu de seu carro empoeirado, pegou sua mochila, não era caso para mala; suspirou uma última vez e bateu palmas com força.

- Pois não? Oi? - a voz feminina atendia, em pé na porta.

- Lya? Sou eu, Gerard. - ele dizia firme e com leve aceno.

- Gerard! Entre, é só tirar a corda! – ela pareceu reconhecê-lo e abriu um largo sorriso.

- Obrigado! Estou entrando.

Gerard abria o portão de madeira e deu um meio giro, olhando a rua ao redor e as casas esparsas. Uma rua tradicional e tranquila, padronizadas com aquele tom alaranjado do deserto. Colorido somente seus varais com os tecidos esticados e sob a impetuosidade do vento quente.

- Hey, irmão! - Ray levantou a mão e Gerard se aproximou ainda mais para um leve abraço.

- Olá, irmão! Boa tarde!

- Boa tarde! Entra, entra. Tudo bem? Fez boa viagem? - Ray abriu a porta um pouco mais, Lya o cumprimentava e Gerard entrou rapidamente.

- Tudo sim e vocês? Foi tranquila. Desculpa atrapalhar vocês, prometo que serei um bom hóspede - Gerard sorriu, embora o semblante ainda estivesse bem carregado e pesaroso.

- Ah, cara, nem se preocupa, é um prazer recebê-lo. Estamos bem. Lya está finalizando o almoço, espero que esteja faminto. - Ray arregalou os olhos e isto divertiu Gerard. Era bom ver que o casal estava se dando bem novamente graças ao "SantoFrank".

- Vou deixar a vergonha de lado e comer mesmo! - Gerard deu um leve riso, Ray o acompanhou e guiava-o até o corredor da casa. O quintal possuía muitos vasos de cactos e outras plantas típicas do deserto.

- Entre, por favor e sinta-se em casa. - Lya era altamente simpática.

Gerard sorriu para ela e segurou sua mochila nas mãos, olhava para a pequena sala adornada com um sofá preto coberto por dois xales coloridos, um tapete escuro, parecia azul marinho, sem mesa de centro ou mesa de canto. À frente havia uma TV posta num móvel de madeira bruta. Lya pediu licença singela e envereidou-se para cozinha, seguindo um corredor à esquerda, com um sorriso e ajeitando um avental. Gerard nunca havia reparado bem nela e agora via que era uma garota de traços delicados, contrastando bastante com a aparência rústica do amigo Ray.

- Me diz, Gerard! Tudo bem? – Ray o olhava com atenção.

- Tudo, Ray.  – ele respondeu desanimado, mas tentou “consertar” e emplacou uma pergunta com o tom de voz mais alegre. - E você? Obrigado mais uma vez por me receberem.

- Estou bem e fica tranquilo, adoramos receber pessoas, ainda mais alguém como você. Alguém tão especial para nós e para Frank.

O nome de Frank possuía um impacto e embora os sorrisos tivessem sido espontâneos, uma ponta dolorosa da tristeza costumeira latejava no coração deles novamente. Gerard respirou um pouco mais fundo e contraiu os lábios.

- Ele era muito especial para mim. Era, é, será. Isso nunca mudará.

- Eu sei. - Ray disse sem tirar o sorriso gentil dos lábios e rapidamente mudou de assunto. - Bem, como está Sybbyl e Muriel?

- Estão bem, eu... tento não transparecer meu semblante para elas, minha deficiência, meu reflexo de caos e sonhos despedaçados. – Gerard disse emocionado e Ray o consolava com a mão posta nas costas do amigo. – Fico horas pairando no vazio. Outro dia, esqueci do horário e peguei Muriel vindo sozinha para casa. Apesar de outras crianças trilharem o mesmo trajeto, eu sempre tento vir com ela. Eu ou Sybbyl. Não consigo dormir e vivo cansado, não como direito ou faço em horários errados. Sybbyl está preocupada, mas não é invasiva. Talvez, ela acredite que seja apenas uma fase porque eu perdi meu melhor amigo. – Gerard suspirou fundo. – Eu realmente estou perdido.

- Eu não consigo imaginar a dimensão e profundidade de sua dor, Gee. Mas, tente acalmar-se aqui. Logo conversaremos, te darei os itens separados. Tudo foi guardado por Frank, um acervo, um memorial de vocês dois, algo fantástico.

Gerard balançou a cabeça levemente enquanto o amigo retirava a mão de suas costas e o abraçava forte. Em seguida, Ray pediu para Gerard o acompanhar e mostrou o quarto onde ele ficaria. Era pequeno e confortável.

Gerard deixou a mochila sobre a cama e pediu licença para usar o banheiro. Ray disse para ele ficar à vontade e avisou que estaria na cozinha, arrumando a mesa. Gerard agradeceu mais uma vez e assim que Ray saiu do quarto, ele dirigiu-se até o banheiro. Lá, olhou para sua face no espelho e disse a si mesmo:

- Seja forte.

XXX

O almoço foi servido no horário programado e apesar de estar tudo uma delícia e a companhia de Lya e Ray ser altamente agradável, Gerard ainda não sentia-se totalmente à vontade. Era impossível esquecer a razão pela qual estava ali e isto tomava a proporção de um "espinho na carne"; Frank estava morto, mas presente em tudo. Desde um simples porta-retrato espalhado pela casa aos assuntos tratados na mesa, a presença de Frank era notória na atmosfera, atingindo a cada um de diferentes maneiras, fazendo Gerard ficar ainda mais angustiado. Ray lhe mostraria tudo o que queria após o almoço? Ou esta agonia ainda perduraria quanto tempo?

- Gerard, eu já volto para te mostrar as coisas pertencentes ao Frank. - Ray sorriu e levantou-se da mesa.

- Obrigado. – Gerard retribuiu o sorriso e ficou na companhia de Lya que iniciava um novo assunto.

- Gerard, me fale sobre seu trabalho. Você é músico, não é? Eu amo música. Ouvi várias das quais você ajudou na composição e harmonia, bem como nos vocais. Sua voz é bem singular.

Gerard sorriu e mais uma memória de Frank lhe atravessou a cabeça.

XXX

Gerard estava no sofá e aguardava Ray. Lya o havia deixado ali e ido em algum lugar rapidamente. A TV estava ligada mas ele não prestava atenção. Estava deslocado e sobretudo cansado. Desejou mais que tudo que Ray lhe entregasse todas as coisas de Frank, ele percorresse os olhos em uma análise geral e breve, porque não conseguiria ver nada perto de Ray. Ele conhecia a si e sabia que necessitava estar sozinho quando tudo aquilo fosse realmente visto, lido e sentido. As emoções nele não lhe seriam nada parciais e sim esmagadoras.

O pensamento foi interrompido pela presença de Ray e uma caixa em suas mãos.

- Desculpe a demora. - o riso saiu fácil e Gerard acompanhou.

- Sem problemas. Tenho todo o fim de semana. - ele disse sorrindo mas sentindo que seria um dos mais longos fins de semana que tivera.

- Bom, esta é a caixa em questão. Tem todas as coisas que Frank reuniu neste tempo de relacionamento entre vocês. - Ray entregou-lhe a caixa de tamanho médio, quadrada e alta; possuía peso também. Gerard tentou mensurar o peso e preparou as mãos para segurá-la e colocá-la em seu colo. - Vou pegar o notebook, livros, CD's, LP’s e DVD's. - ele virou-se rapidamente e Gerard assentiu com a cabeça.

Ele estava decidindo se abria ou não; ou se pensava como era possível reunir tudo o que existe entre duas pessoas em "uma caixa"? Não caminharia nesta linha filosófica, pois seria injusto. Frank não reuniu "tudo" o que havia entre eles em uma simples caixa, apenas depositou ali cada parte de um tesouro. Aquilo não era uma caixa e sim um baú. Cheio de preciosidades e ele era parte disso. Precisava ter certeza disto.

Abriu-a e logo no topo encontrou o envelope com seu nome. Por estar um pouco "fofo", a carta ali, talvez, ou simplesmente páginas de algo, eram direcionadas para ele. Resolveu começar por aquilo, somente aquelas folhas e fim. Tudo o mais seria analisado quando estivesse em sua casa e sozinho. Gerard abriu o envelope e retirou algumas folhas dobradas, mas havia mais; continha uma carta realmente. Iniciou a leitura. Ray despontava na sala naquele momento, mas ao vê-lo concentrado naquelas linhas ferozes, voltou para trás antes que sua presença fosse notada. Gerard precisava deste momento a sós, sem interferências ou vigilâncias.

XXX

Gerard finalizou a leitura da carta e sentiu o coração partir novamente, ser atravessado por uma lança e imediatamente pensou que aquilo era a última coisa que Frank havia feito antes de sua súbita partida. Ainda em seus derradeiros, porém não sabidos últimos momentos, lá estava ele pensando em Gerard, amando-o, tomando uma séria decisão. Qual seria a escolha? Se Frank havia escolhido separar-se dele para sempre, o plano havia dado certo. Ele partiu de modo irremediável. Mas e se não tivesse sido esta escolha? Se a escolha fosse permanecer ao lado dele, mesmo que isto implicasse num sacrifício? O quanto isto lhe pesaria na mente ou lhe faria admirar ainda mais este homem? Gerard não sabia mais de nada e as perguntas "nasciam" como um animal em trabalho de parto com uma bela ninhada. Ele suspirou e guardou a carta na caixa, porém ainda olhou mais uma vez dentro do envelope, havia mais papel ali e... foi demais! Aquilo era demais! Esperaria Ray lhe trazer os demais itens, mas não se atreveria a olhá-los. Pediria desculpa, pegaria sua mochila e todo este arsenal de memórias e emoções físicas contundentes e adiantaria sua volta para casa, precisava ficar sozinho. Era necessário.

XXX

Um mês havia passado desde que Gerard encontrou-se com Ray e recebeu tudo o que pertencia ao Frank e "deveria" ficar com ele. Procurou não ter uma overdose de tudo aquilo; seria suicídio certamente. O envelope da carta estava sempre com ele, em todo lugar, como um fantasma, uma sombra. Gerard ainda não sabia exatamente como agir com aquele conteúdo.

Nos dias seguintes, dividiu toda aquela "bagagem" e em alguns dias se dedicou a ler algumas das conversas entre ele e Frank, salvas em arquivo. Não diria que foi um compilado de "As Melhores de Todas" mas, as que ali estavam eram realmente fenomenais; claro que não seria possível um compilado definitivo, afinal, quem poderia imaginar que a vida de Frank seria tão brevemente interrompida? Resta a memória para restaurar as que ali não estavam. Em outro dia, Gerard absorveu as fotos, presentes, canções e shows. Este dia foi extremamente longo, aliás não foi um dia somente, e sim um fim de semana. Aproveitou a viagem de sua esposa e filha para a casa de sua sogra e preparou-se adequadamente para tal "evento". Comprou muitas bebidas e realizou a sessão nostalgia e sofrimento. Entre goles da "desinibição líquida", ele cantava as canções que os dois compuseram e performaram juntos, gritava, ria e chorava; ia do céu ao inferno. No domingo, ele sentiu mais falta daquele que lhe era tão companheiro, ainda mais depois de ler algo tão pequeno, porém profundo e triste. Era um pedaço de papel com números, talvez a única equação matemática que Frank tenha feito com precisão e total certeza de acerto. Dizia que era uma matemática do diabo, pois era extremanente ruim e triste, reunindo o numeral de dias que eles se conheciam, somando todos os anos e que de todo o numeral de dias, os momentos que eles realmente estavam juntos era ínfimo.

Gerard leu aquilo e sentiu-se despedaçar. Só podia estar errado! Aqueles mínimos dias? Dias inteiros? Durante todos esses anos? Frank era um homem da área de Humanas, mais uma vez enfiava o "pé na jaca" quando decidia ser lógico. No início, Gerard chocou-se com o impacto daquela folhinha, depois riu diante da possibilidade de ser uma brincadeira dele e por fim, sucumbiu à verdade. Aquele cálculo não estava errado, devia ser isso mesmo. Ele sentiu os números o torturando, precisava sair daquela casa, estava sufocado! Decidiu ir à missa. Foi do jeito que estava, de chinelos. Chegou na porta da modesta Igreja e entrou devagar, não tinha receio de ser barrado, afinal "ali é a Casa de Nosso Senhor", não é? É sua paróquia. Principalmente os pobres e contritos de coração devem ser abrigados. Deu passos curtos e parou no centro da Igreja, fez o sinal da cruz e sentou no banco, não sabia exatamente que horas lhe dava o relógio, mas a missa já havia começado e aproximava a hora da tomada da hóstia. Inicialmente, Gerard fechou os olhos e fez uma oração silenciosa sem prestar atenção no sermão do vigário. Abriu os olhos e olhou em redor, poucas pessoas e a introspecção lhe veio novamente. Fechou os olhos mais uma vez, porém agora balbuciou:

- Por quê?

A resposta não viria, disso ele tinha certeza. Levantou-se e saiu, antes fez o sinal da cruz novamente. Ao estar fora da Igreja, sentiu o vento bater em seu rosto e a paz que tanto procurava parecia não ter feito morada nele. Caminhou sem destino durante algum tempo até encontrar-se na frente de sua casa. Com rapidez adentrou o seu lar novamente e ao fechar a porta reparou o que tinha deixado para trás; Frank "estava por todo lado". Gerard sentou-se e olhou fixamente para uma foto deles. A que ele, talvez, mais gostasse e sorriu. Procurou deixá-la em um lugar visível e tentou acalmar-se, foi tomar banho e em seguida, deitou e dormiu devido ao alto teor alcóolico no qual estava.

No dia seguinte, Gerard estava com uma tremenda dor de cabeça e uma dificuldade de concentração que não era possível mensurar. Nada resolvia. Ao sentar em sua mesa habitual, abriu o seu notebook e olhou a tela com um papel de parede chamativo que tanto adorava. Havia decidido que neste dia faria algo realmente produtivo e as músicas que ouviria seriam mais animadoras e sem memórias aparentes. O plano seguiu bem. Conseguiu elaborar uma composição maravilhosa e emplacou no desenvolvimento da harmonia. Leu, gostou e sorriu satisfeito. Então, mirou a foto que havia colocado em lugar visível e num ímpeto buscou o notebook de Frank. Ligou-o rapidamente e foi direto na pasta onde ele salvava suas composições. Decidiu ler os que ainda não conhecia realmente e só havia ouvido falar. Os outros conhecia e sabia que seriam longos, porém estavam inacabados. Letras tão importantes que deveriam ser ouvidas por muitas pessoas e estavam ali, reclusas e sem esperança de uma aurora. Gerard teve uma ideia repentina, quase tão fugaz e estonteante que até ele se assustava, mas ria ao imaginar realizada. Porém, agora, como seria possível?

Gerard mergulhou em mais um profundo oceano de questões e ponderações. Ele teria de ser drástico.

XXX

Seis meses depois.

Gerard olhava para a face de sua esposa disposta na cama, dormindo um sono tanquilo em mais uma noite quente de seu país. Lembrou-se de que, embora aquilo fosse doloroso, ele não poderia mais fugir do inevitável, uma alegria estranha lhe transpirava pelos poros. Olhou-a pela última vez e foi até onde a filha dormia. Contendo as lágrimas e beijando-a singelamente na testa, impedindo-a de despertar, ele afastou-se, dizendo:

- Eu sempre estarei contigo, filha, até quando eu não estiver em presença. Não me tenha ódio, meu amor, mas papai não pode mais com isso. Eu preciso fazer o que necessita ser feito. Eu preciso de paz.

Gerard tentou conter o choro colocando a mão fortemente sobre a boca e saiu do cômodo. Ao chegar em sua sala, suspirou fundo.

A hora havia chegado. Deixou a sua carta para a esposa e para a filha, o discurso foi feito. Um brinde solitário levantado. Frank e toda a herança partilhada naquela caixa, naquele aparelho cibernético, em tantas canções, shows e livros refletiram para Gerard o que ele já sabia e pôde em absoluto comprovar. Aquela carta foi deixado com um firme propósito.

Frank ainda era o lugar mais seguro que Gerard poderia se abrigar. Ontem, hoje e para sempre.

"Obrigado, meu bote salva vidas! Hoje, agora, nós nunca mais estaremos partidos. Você é meu e eu sou seu. Eu irei te honrar. Honrar o seu amor por mim."

 

“Nós vamos nos reunir, vamos conversar, todos nós, e vamos ficar juntos. Será esplêndido, melhor do que já foi antes.” - O Vampiro Lestat (Anne Rice)

 


Notas Finais


Vivos até aqui? ÓTIMO!!!
Como se sentem? O que acham que Gerard fez?
Preparem-se pois o próximo é o último ;)
OBRIGADA, FOFITOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! MIL BEIJOOOOOS! <3


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