História Sussurro - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias The 100
Personagens Clarke Griffin, Lexa
Tags Clarke Griffin, Clexa, Lesbian, Lexa, The 100
Exibições 216
Palavras 5.854
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Sobrenatural

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 2 - 1


 

ARKADIA, POLIS NOS DIAS DE HOJE

Encontrei no laboratório de biologia e meu queixo caiu. Lá estava, misteriosamente grudada no quadro-negro, uma boneca Barbie. Devidamente acompanhada por Ken. Os dois tinham sido postos de braços dados e estariam completamente nus, não fossem as pequenas folhas artificiais colocadas em alguns lugares estratégicos. Rabiscado em giz cor-de-rosa, sobre as cabeças dos dois, lia-se:

BEM-VINDOS À REPRODUÇÃO HUMANA (SEXO)

— É por essas e outras que a escola proíbe celulares com câmeras — disse Raven Reyes ao meu lado — Bastariam umas fotos disso aí no eZine e eu conseguiria que o conselho de educação eliminasse a biologia do currículo. Aí a gente poderia ocupar o tempo com algo realmente útil, como ter aulas particulares com caras gatos das turmas mais avançadas — ao ver minha cara carrancuda, ela revirou os olhos — gatos e gatas.

Me assumi lésbica há uns três meses e Rae ainda se adaptava a nova informação, apesar de jurar que sempre soube. Ela não se incomodava com isso, me apoiava acima de tudo. Só que sua habilidade incrível de falar sobre caras a impedia de lembrar-se que eu não me sentia da mesma forma por eles.

— Como assim, Rae? — falei. — Podia jurar que você tinha passado o semestre inteiro doida para estudar essa matéria.

Raven apertou os cílios e abriu um sorriso perverso.

— Aqui ninguém vai me ensinar nada que eu já não saiba.

— Mas você é virgem!

— Fale baixo.

Ela deu uma piscadela bem na hora em que o sinal tocou, obrigando-nos a ir para nossos lugares, que ficavam lado a lado em uma carteira dupla.

O técnico Pike agarrou o apito que pendia de uma corrente em seu pescoço e soprou.

— Equipe, sentar!

Para o técnico, ensinar biologia às turmas do ensino médio era um bico para complementar a renda de seu emprego como treinador de um time universitário de basquete. Todo mundo sabia disso.

— Talvez não tenha passado pela cabeça de vocês que o sexo é mais do que um passeio de 15 minutos no banco de trás de um carro. É uma ciência. E o que é ciência?

— Uma chatice! — exclamou um garoto no fundo da sala.

— A única matéria em que estou levando pau — disse outro.

 

Os olhos do técnico percorreram a primeira fila e pararam em mim.

— Clarke?

— É o estudo de alguma coisa — falei.

Ele se aproximou e bateu com o indicador na mesa à minha frente.

— O que mais?

— É o conhecimento adquirido pela experimentação e pela observação.

Que beleza. Agora parecia que eu estava fazendo um teste para a versão em áudio do nosso livro escolar.

— Nas suas palavras.

Toquei meu lábio superior com a ponta da língua e tentei encontrar outras palavras.

— Ciência é uma investigação... — acabou soando como uma pergunta.

— Ciência é uma investigação — disse o técnico, esfregando as mãos. — A ciência exige que a gente se transforme em espiões.

Explicada dessa maneira, a ciência até parecia divertida. Mas eu já estava na turma do técnico havia tempo suficiente para não alimentar qualquer ilusão.

— É necessária muita prática para se realizar um bom trabalho de detetive — ele prosseguiu.

— O sexo também exige muita prática — comentou outro alguém do fundo da sala.

Todos tentamos conter o riso enquanto o técnico apontava um dedo de advertência na direção do malfeitor.

— Esse não vai ser o dever de casa de hoje. — O técnico voltou-se novamente para mim. — Clarke, você se senta com Raven desde o início do ano.

Assenti com um gesto de cabeça, mas tinha um palpite ruim sobre o rumo que o assunto tomaria.

— Vocês duas trabalham no eZine da escola. — De novo fiz que sim com a cabeça. — Aposto que sabem muito uma sobre a outra.

Rae chutou-me embaixo da mesa. Sabia o que ela estava pensando: que ele não tinha a mínima ideia de quanto nos conhecíamos. E não estou falando apenas de segredos que enterramos em nossos diários. Rae é minha gêmea ao avesso. Existe um fio invisível que nos une. Nós duas podemos jurar que esse elo começou antes mesmo de nascermos. E podemos jurar que vai existir até o fim da vida.

O técnico contemplou a turma.

— Na verdade, aposto que cada um de vocês conhece bem demais a pessoa sentada ao lado. Vocês escolheram esses lugares por alguma razão, certo? Foi pela familiaridade. Que pena, pois os melhores detetives evitam a familiaridade. Ela embaça o instinto investigativo. E é por esse motivo que hoje vamos reorganizar seus lugares.

Abri a boca para protestar, mas Raven foi mais rápida.

— Como assim? Já estamos quase no fim do período letivo. Você não pode inventar esse tipo de coisa agora.

O técnico esboçou um sorriso.

— Posso fazer isso até no último dia de aula. E, se for reprovada na matéria, vai voltar para esse mesmo lugar e aguentar todas as minhas novidades mais uma vez.

Raven olhou feio para ele. Ela é famosa por esse olhar. É um olhar que já diz tudo, ela nem precisa abrir a boca. Sem parecer se importar, o técnico levou o apito aos lábios — e nós entendemos a mensagem.

— Quem estiver sentado no lado esquerdo da mesa, isto é, à sua esquerda, deve avançar um lugar. Aqueles que estão na primeira fila, e isso inclui você, Raven, vão para o fundo da sala.

Raven jogou o caderno dentro da mochila e fechou o zíper com raiva. Mordi o lábio e dei um tchauzinho. Virei-me discretamente, observando o restante da sala. Sabia o nome de todos os alunos... menos o de uma. A aluna nova. O técnico nunca se dirigia a ela, e ela parecia preferir que fosse assim. Estava jogada em uma carteira atrás de mim, os olhos verdes e frios fixados num ponto adiante. Como sempre. Nunca acreditei por um momento sequer que ela simplesmente passasse o tempo todo sentada ali, dia após dia, fitando o vazio. Tinha de estar pensando em algo, mas o instinto me dizia que eu provavelmente não ia querer saber o que era.

Ela colocou o livro de biologia na mesa e deslizou para a antiga cadeira de Rae. Sorri.

— Oi. Sou Clarke.

Seus olhos me atravessaram e os cantos de sua boca se ergueram. Meu coração parou por um segundo e, naquela pausa, um sentimento sinistro e desesperador pareceu me envolver como uma sombra. Passou depois de um segundo, mas eu continuava a encará-la. O sorriso dela não era amistoso. Era um sorriso que queria dizer confusão. Confusão garantida.

 

Voltei minha atenção para o quadro-negro. Barbie e Ken me fitaram com aqueles sorrisos estranhamente animados.

— A reprodução humana pode ser um tema pegajoso... — o técnico disse.

— Eca! — disseram os alunos em coro.

— Exige tratamento maduro. E, como todas as ciências, a melhor abordagem para o aprendizado é a investigação. Até o final da aula, pratiquem essa técnica desvendando tudo o que conseguirem sobre seu novo parceiro. Amanhã, tragam suas descobertas por escrito, e podem acreditar: vou checar a autenticidade das informações. Estamos falando de biologia, não de aula de redação, por isso nem pensem em inventar as respostas. Quero ver interação e trabalho de equipe de verdade.

Havia um "ou então" implícito ao final da frase.

Fiquei sentada, completamente imóvel. O passo seguinte deveria ser da colega — eu já tinha sorrido e de nada tinha adiantado. Funguei discretamente, tentando decifrar o cheiro dela. Não era de cigarros. Era de algo mais intenso e mais desagradável.

Charutos.

Olhei para o relógio na parede e bati meu lápis no ritmo do ponteiro dos segundos. Finquei o cotovelo na mesa e apoiei o queixo no punho. Soltei um suspiro. Que beleza. Assim, eu seria reprovada.

Meus olhos estavam fixos à frente, mas escutei o suave deslizar da caneta dela. Ela estava escrevendo, e eu quis saber o quê. Dez minutos sentada ao meu lado não lhe davam o direito de presumir nada a meu respeito. Dei uma olhada à esquerda e vi que o texto já continha diversas linhas, e continuava a crescer.

— O que está escrevendo? — perguntei.

— E ela fala — disse ela enquanto continuava a rabiscar, em um movimento suave e descuidado.

Curvei-me, aproximando-me dela o máximo que minha ousadia permitia, tentando ler o que mais escrevera, mas ela dobrou a folha ao meio e escondeu o conteúdo.

— O que você escreveu? — exigi saber.

Ela alcançou minha folha de papel ainda em branco e a puxou para perto. Amassou-a até formar uma bola. Antes que eu pudesse reclamar, ela a lançou na lixeira que ficava ao lado da mesa do técnico. Cesta.

Fiquei contemplando a lixeira por um momento, dividida entre a descrença e a raiva. Então abri o caderno em uma folha nova.

— Qual é o seu nome? — perguntei, com a caneta a postos.

Levantei o olhar a tempo de ver outro sorriso sinistro. Este parecia me desafiar a conseguir qualquer informação sobre ela.

— Seu nome? — repeti, torcendo para que a vacilação em minha voz não passasse de fruto da minha imaginação.

— Me chame de Lexa. Falo sério. Me chame.

Ela piscou ao falar e fiquei bem certa de que estava debochando de mim.

— O que faz em seu tempo livre? — perguntei.

— Não tenho tempo livre.

— Estou partindo do princípio de que este trabalho vale nota, então colabore, por favor. 

Ela recostou-se na cadeira, cruzando os braços atrás da cabeça.

— Que tipo de colaboração?

Estava convencida de que ela estava sendo sarcástica, então tentei mudar de assunto.

— Tempo livre... — ela repetiu, pensativa. — Tiro fotos. 

Escrevi Fotografia no papel.

— Ainda não acabei — disse ela. — Tenho uma bela coleção de uma colunista do eZine que acredita que é melhor comer alimentos orgânicos, que escreve poesia escondida e que treme diante da ideia de precisar escolher entre Stanford, Yale e... Qual é o nome da outra grande que começa com H?

Encarei-a por um momento, abalada — ela tinha acertado na mosca. Aquilo não parecia ter sido um chute. Ela sabia. E eu queria saber como era possível — imediatamente.

— Mas, no fim das contas, você não vai para nenhuma delas.

— Não vou? — perguntei sem pensar. 

Ela enfiou os dedos debaixo do assento da minha cadeira, arrastando-a para mais perto. Sem saber bem se deveria me afastar e demonstrar medo ou não reagir e fingir tédio, preferi a segunda opção.

— Apesar de você poder se dar bem em qualquer uma das três, você as despreza por serem um clichê de sucesso — ela disse. — Fazer julgamentos apressados é sua terceira maior fraqueza.

 

— E a segunda? — falei, contendo a raiva.

Quem era aquele garota? Que tipo de piada sem graça ela pensava que estava fazendo?

— Você não sabe confiar. Quer dizer, não: você confia, mas só nas pessoas erradas.

— E a primeira? — questionei-a.

— Você leva a vida com rédeas curtas.

— E o que isso quer dizer?

— Que tem medo daquilo que não consegue controlar.

Senti um arrepio na nuca e a temperatura da sala pareceu cair. Em uma situação comum, eu teria ido direto à mesa do técnico e pedido para mudar de lugar. Mas me recusava a deixar que Lexa pensasse que podia me intimidar ou me assustar. Senti uma necessidade irracional de me defender e decidi então que não recuaria antes dela.

— Você dorme nua? — perguntou.

Meu queixo quase caiu, mas eu o mantive no lugar.

— Você está longe de ser a pessoa a quem eu contaria isso.

— Já fez terapia?

— Não — menti.

A verdade era que eu estava sob aconselhamento do psicólogo da escola, o dr. Jaha. Não tinha sido por escolha própria e não era algo que eu gostasse de comentar.

— Já fez alguma coisa ilegal?

— Não. — Passar do limite de velocidade não contava. Pelo menos para ela. — Por que você não me faz uma pergunta normal? Por exemplo... De que tipo de música eu gosto?

— Não vou perguntar o que posso deduzir.

— Você não sabe o tipo de música que eu escuto.

— Barroca. Com você, tudo tem a ver com ordem, controle. Aposto que toca... violoncelo? — Ela falou como se tivesse simplesmente adivinhado.

— Errado. — Outra mentira, mas essa fez com que um calafrio percorresse toda a minha pele. Quem ela era de verdade? Se sabia que eu tocava violoncelo, o que mais poderia saber?

 

— O que é isso? — Lexa perguntou, tocando com a caneta a parte interior do meu pulso. Instintivamente, recuei.

— Marca de nascença.

— Parece uma cicatriz. Já tentou o suicídio, Clarke? — Nossos olhos se encontraram e eu podia sentir que ela estava rindo. — Pais casados ou divorciados?

— Moro com minha mãe.

— Onde está seu pai?

— Meu pai morreu no ano passado.

— Morreu como? 

Eu me encolhi.

— Ele foi... assassinado. É um assunto particular, por favor.

Houve um minuto de silêncio, e a aspereza no olhar de Lexa pareceu ceder minimamente.

— Deve ter sido difícil — disse ela, parecendo sincera. 

O sinal tocou, e Lexa levantou-se e caminhou até a porta.

— Espere — chamei. Ela não se virou. — Com licença! — Ela já estava saindo. — Lexa! Não consegui saber nada sobre você.

Ela deu meia-volta e andou na minha direção. Pegou minha mão e escreveu nela alguma coisa antes que eu sequer pensasse em puxá-la.

Olhei para os números escritos em tinta vermelha na palma da minha mão. Cerrei o punho. Queria lhe dizer que não havia a menor chance de o telefone dela tocar naquela noite. Queria dizer que era culpa dela ter passado o tempo todo me fazendo perguntas. Queria muitas coisas, mas apenas fiquei ali sem fazer nada, como se tivesse me esquecido de como abrir a boca.

— Vou estar ocupada hoje à noite — finalmente disse.

— Eu também — ela respondeu, sorrindo, antes de partir.

Fiquei imóvel, tentando digerir o que havia acontecido. Será que ela tinha consumido todo o tempo com aquelas perguntas de propósito? Para que eu tirasse uma nota ruim? Será que ela achava que um sorriso sedutor seria o suficiente para redimi-la só por eu ser lésbica? Sim, pensei. Ela achava.

— Não vou ligar! — gritei para ela. — Nunca!

— Já terminou sua coluna para o fechamento de amanhã? — dessa vez era Raven. Ela se aproximou de mim, fazendo anotações em um bloco que carregava para todos os lugares. — Estou pensando em escrever sobre a injustiça da mudança de lugares. Fiquei com uma menina que disse ter terminado um tratamento contra piolhos hoje de manhã.

— Minha nova parceira — eu disse, apontando Lexa no corredor.

Ela tinha um jeito de andar irritantemente confiante, do tipo que combina com camisetas velhas e um chapéu de vaqueira. Lexa não usava nenhum dos dois. Era uma garota do tipo jeans Levi's escuro, camiseta escura e botas escuras.

— A aluna nova do último ano? Acho que ela não deve ter estudado muito na primeira vez. Ou na segunda. — Ela me lançou um olhar de quem já tinha entendido tudo. — A terceira é sempre melhor, não?

— Ela me dá calafrios. Sabia minha música preferida. Sem nenhuma dica ela disse "barroca". — Tentei imitar, sem sucesso, a voz baixa dela.

— Pode ter sido um palpite.

— Ele sabia... de outras coisas.

— Como o quê, por exemplo?

Suspirei. Ela sabia mais do que eu era capaz de encarar com tranquilidade.

— Ele sabia como encher meu saco — disse, finalmente. — Vou pedir ao técnico que nos mude de lugar de novo.

— Vá em frente. Poderia muito bem usar isso como gancho para meu próximo artigo no eZine. "Garota do segundo ano reage". Melhor: "Mudança de lugares leva um duro golpe". Hum, gostei disso.

No fim das contas, a única pessoa a receber um duro golpe havia sido eu. O técnico recusou meu pedido de que reconsiderasse as mudanças de lugar. Aparentemente, eu estava presa a Lexa.

Por enquanto.

Moro com minha mãe em uma antiga casa de fazenda do século XVIII, cheia de correntes de ar, afastada do centro de Polis. É a única residência em Hawthorne Lane e os vizinhos mais próximos estão a mais de um quilômetro e meio de distância. Às vezes me pergunto se o construtor teria percebido em algum momento que, de todos os lotes disponíveis, ele escolhera erguer a casa justamente no olho de uma misteriosa inversão atmosférica que parece sugar toda a neblina da costa de Polis e transplantá-la para o nosso quintal. Naquele momento, a casa estava envolta em sombras que faziam lembrar espíritos fugitivos perambulando.

Passei a noite plantada em uma banqueta da cozinha na companhia do dever de casa de álgebra e de Dorothea, nossa empregada. Mamãe trabalha para a empresa de leilões Hugo Renaldi, coordenando leilões de bens e antiguidades em toda a Costa Leste. Naquela semana, ela estava no norte do estado de Nova York. O trabalho exigia que viajasse muito e ela pagava Dorothea para cozinhar e limpar, mas eu tinha certeza de que as letrinhas miúdas do contrato de trabalho de Dorothea incluíam a função de manter um olhar vigilante e maternal sobre mim.

— Como foi a escola? — Dorothea perguntou, com um ligeiro sotaque alemão. Ela estava diante da pia, tentando raspar os pedaços de lasanha grudados no fundo de uma travessa.

— Tenho uma nova parceira na turma de biologia.

— E isso é bom ou ruim?

— Raven era minha antiga parceira.

— Hum. — Mais esfregação vigorosa e a carne no braço de Dorothea sacolejou. — Então é ruim.

Concordei com um suspiro.

— Fale de sua nova parceira. Essa menina, como ela é?

— Ele é alta, branca, desagradável.

E assustadoramente impenetrável. Os olhos de Lexa eram como órbitas verdes que absorviam tudo e não devolviam nada. Não que eu quisesse saber mais sobre ela. Se não gostei do que vi por fora, duvidava de que fosse gostar do que espreitava lá no fundo.

O único, porém é que isso não era bem verdade. Eu adorei o que vi. Estava difícil convencer a mim mesma de que deveria ignorar algo que já começava a parecer irresistível.

Às nove da noite, Dorothea terminou o trabalho e trancou a porta ao sair. Pisquei duas vezes as luzes da varanda para lhe dar um adeus. A claridade deve ter atravessado a neblina, pois ela tocou a buzina em resposta. Fiquei sozinha.

Comecei a examinar as sensações que tomavam conta de mim. Não estava com fome. Não estava cansada. Nem estava tão solitária. Mas estava um pouco ansiosa por conta do dever de biologia. Tinha dito a Lexa que não ligaria, e seis horas antes era essa mesmo a intenção. Mas, agora, tudo em que eu conseguia pensar era que não queria uma nota ruim. Biologia, para mim, era a matéria mais difícil. Minhas notas variavam problematicamente entre A e B. Em minha cabeça, essa era a diferença entre uma bolsa integral e parcial no futuro.

Fui para a cozinha e peguei o telefone. Olhei para o que havia sobrado dos sete dígitos ainda marcados em minha mão. Secretamente, tinha esperanças de que Lexa não atendesse minha chamada. Se não estivesse disponível ou se não quisesse colaborar com o trabalho, eu teria provas contra ela para convencer o técnico a mexer na distribuição dos lugares. Esperançosa, disquei o número.

Lexa atendeu no terceiro toque.

— E aí?

— Estou ligando para ver se a gente poderia se encontrar hoje — disse em um tom de voz pretensamente natural. — Sei que você comentou que estaria ocupada, mas...

— Clarke — Lexa pronunciou meu nome como se fosse o desfecho de uma piada —, achei que você não ligaria. Nunca.

Odiei ter de engolir minhas palavras. Odiei Lexa por esfregar aquilo na minha cara — Odiei o técnico pelas mudanças na sala de aula. Abri a boca na esperança de que saísse alguma frase inteligente.

— E então? Podemos nos encontrar ou não?

— Pelo jeito, não vai dar.

— Não vai dar ou você não quer?

— Estou no meio de um jogo de sinuca — ouvi o sorriso implícito na voz dela —, um jogo de sinuca muito importante.

Pelo barulho ao fundo da ligação, achei que ela dizia a verdade — sobre o jogo de sinuca. Se era mais importante que o trabalho era algo discutível.

— Onde você está? — perguntei.

— No Fliperama do Bo. Não é o tipo de lugar que você costume frequentar.

 

— Então vamos fazer a entrevista por telefone. Tenho uma lista de perguntas bem...

Ela desligou na minha cara.

Fiquei olhando o telefone completamente atônita, então rasguei uma folha em branco do caderno e rabisquei Babaca na primeira linha. Na linha abaixo, acrescentei: Fuma charutos. Vai morrer de câncer no pulmão. De preferência logo. Excelente forma física.

Risquei imediatamente a última observação até ficar ilegível.

O relógio do micro-ondas indicava 21h05. Eu tinha duas opções. Ou inventava a entrevista com Lexa ou dirigia até o Fliperama do Bo. A primeira opção seria tentadora se eu conseguisse esquecer o aviso do técnico de que checaria a autenticidade das informações. Não sabia o suficiente sobre Lexa para blefar uma entrevista inteira. E a segunda opção? Não era nem remotamente tentadora.

Adiei a decisão a fim de ter tempo de ligar para minha mãe. Parte de nosso acordo por conta de seu trabalho e suas muitas viagens era que eu me comprometia a agir com responsabilidade e não ser o tipo de filha que necessitasse de supervisão constante. Eu gostava da minha liberdade e não queria fazer nada que desse a mamãe motivos para se sujeitar a um salário menor em um emprego por perto só para ficar de olho em mim.

No quarto toque, a secretária eletrônica atendeu.

— Sou eu — falei. — Só para dizer que está tudo bem. Tenho dever de casa de biologia para terminar e depois vou para a cama. Se quiser, ligue amanhã na hora do almoço. Amo você.

Depois de desligar, encontrei uma moeda na gaveta da cozinha. Melhor deixar as decisões complicadas por conta do destino.

— Cara, eu vou — disse para o perfil de George Washington —, coroa, eu fico em casa.

Joguei a moeda no ar. Ela aterrissou na palma da minta mão e eu dei uma olhada. Meu coração acelerou por um segundo e disse a mim mesma que não estava certa do que isso queria dizer.

— Não está mais em minhas mãos — falei.

Determinada a resolver a situação o mais rápido possível, peguei um mapa pendurado na geladeira, apanhei minhas chaves e dei a ré no meu Fiat Spider. O carro provavelmente era bonito... em 1979. Eu não gostava tanto da pintura cor de chocolate, nem da ferrugem que se espalhava descontroladamente no para-choque traseiro, nem dos assentos de couro branco rachado.

O Fliperama do Bo era bem mais longe do que eu gostaria, próximo à costa, a trinta minutos de viagem. Com o mapa esticado sobre o volante, entrei com o Fiat em um estacionamento atrás de um prédio que lembrava um grande bloco cinza e tinha um letreiro luminoso que piscava FLIPERAMA DO BO, PAINTBALL DO MAD BLACK E SALÃO DE SINUCA DO OZZ. As paredes eram tomadas por pichações e guimbas de cigarro pontilhavam o chão. Com toda certeza o fliperama devia estar repleto de futuros estudantes das melhores universidades e cidadãos exemplares. Tentei ver aquilo com superioridade e indiferença, mas estava com um nó no estômago. Depois de verificar duas vezes que todas as portas do carro estavam trancadas, eu me dirigi à entrada.

Fiquei na fila, esperando para passar pelos cordões. Assim que o grupo à minha frente pagou a entrada, eu me espremi entre eles, caminhando na direção de um labirinto de sirenes estridentes e luzes que piscavam.

— Você acha que merece entrar de graça? — urrou uma voz áspera de tabaco. Virei e pisquei diante do caixa, um sujeito coberto de tatuagens.

— Não estou aqui para jogar. Estou procurando alguém.

Ele grunhiu.

— Se quiser passar por mim, precisa pagar.

O homem abriu a palma da mão no balcão, onde uma tabela de preços tinha sido colada com fita adesiva, mostrando que eu devia 15 dólares. Pagamento só em dinheiro.

Eu não tinha dinheiro. E, se tivesse, não o desperdiçaria com alguns minutos fazendo perguntas a Lexa sobre sua vida particular. Senti uma onda de raiva pelas mudanças na sala de aula e, em especial, por ter de estar ali. Só precisava encontrar Lexa e então poderíamos fazer a entrevista do lado de fora. Eu não tinha dirigido até ali para sair de mãos abanando.

— Se eu não voltar em dois minutos, pago os 15 dólares — disse.

Antes de pensar melhor no que estava fazendo ou de juntar um pouquinho mais de coragem, fiz algo completamente fora do habitual: passei por debaixo das cordas. E não parei por aí. Saí correndo pela sala de jogos à procura de Lexa por toda parte. Dizia a mim mesma que não conseguia acreditar que estava fazendo aquilo, mas eu parecia uma bola de neve rolando ladeira abaixo, ganhando força e velocidade. Aquela altura, só queria encontrar Lexa e sair dali.

— Ei, você! — o caixa me seguia gritando.

Convencida de que Lexa não estava no andar principal, desci correndo, seguindo as indicações até o Salão de Sinuca do Ozz. No fim da escada, luzes fracas iluminavam diversas mesas de pôquer, todas ocupadas. A fumaça de charutos, quase tão densa quanto a neblina que envolvia minha casa, pairava no teto rebaixado. Disposta entre as mesas de pôquer e o bar estava uma fileira de mesas de sinuca. Lexa estava debruçada sobre a mais distante de mim, tentando uma jogada difícil.

 

— Lexa! — exclamei.

Assim que falei, ela empurrou o taco, acertando-o no tampo da mesa. Virou a cabeça e me encarou com um ar que misturava surpresa e curiosidade.

O caixa desceu pesadamente os degraus atrás de mim, agarrando meu ombro com a mão.

— Para cima. Agora.

Na boca de Lexa surgiu outro sorriso quase imperceptível. Era difícil dizer se era um sorriso simpático ou debochado.

— Ela está comigo.

Isso pareceu servir para o caixa, que afrouxou a pegada. Antes que ele pudesse mudar de ideia, soltei-me da mão dele e avancei por entre as mesas até chegar a Lexa. Dei os primeiros passos bastante segura, mas descobri que minha confiança diminuía conforme eu chegava mais perto dela.

Na mesma hora, percebi que havia algo de diferente em Lexa. Não sabia exatamente o quê, mas parecia uma espécie de eletricidade. Mais hostilidade?

Mais confiança.

Mais liberdade para ser ela mesmo. E aqueles olhos verdes estavam me dando nos nervos. Eram como dois ímãs grudados em cada movimento meu. Engoli em seco discretamente e tentei ignorar o frio na barriga. Não sabia exatamente o que era, mas havia algo de errado em Lexa. Algo nela não era normal. Algo não era... seguro.

— Desculpe-me por ter desligado — disse Lexa, aproximando-se de mim. — O telefone não pega muito bem aqui embaixo.

Sim, claro.

Com um gesto de cabeça, Lexa indicou aos outros que saíssem. Houve um silêncio desconfortável antes que alguém se mexesse. O primeiro cara esbarrou no meu ombro ao passar. Recuei um passo para recuperar o equilíbrio e olhei para cima a tempo de ver a cara feia dos outros dois jogadores ao partirem.

Que beleza. Não era culpa minha Lexa ser minha parceira em biologia.

— Sinuca? — perguntei a ela, levantando as sobrancelhas e tentando parecer completamente segura, completamente à vontade. Talvez ela estivesse certo e o Fliperama do Bo não fosse mesmo um lugar para mim. Isso não queria dizer que eu iria sair correndo dali. — Em quanto estão as apostas?

 

Ela abriu o sorriso. Desta vez eu fiquei convencida de que estava rindo da minha cara.

— Não jogamos por dinheiro.

Coloquei minha bolsa na beirada da mesa.

— Que pena! Ia apostar todo o meu dinheiro contra você. — Segurei meu trabalho, com duas linhas já preenchidas. — Mais algumas perguntas e eu dou o fora.

— Babaca? — Lexa leu em voz alta, apoiando-se no taco. — Câncer no pulmão? É para ser uma espécie de profecia?

Abanei o ar com o papel.

— Presumo que dê sua contribuição para esta atmosfera carregada. Quantos charutos por noite? Um? Dois?

— Eu não fumo. — Parecia sincera, mas não me convenceu.

— Hum, hum — disse eu, ajeitando o papel entre a bola preta e a vermelha. Sem querer movi uma delas enquanto escrevia fuma charutos, com certeza, na terceira linha.

— Você está atrapalhando o jogo — disse Lexa, ainda sorridente.

Olhei nos olhos dela e não consegui deixar de retribuir o sorriso — por pouco tempo.

— Tomara que não esteja ajudando você. Qual é o seu maior sonho?

Estava orgulhosa dessa pergunta porque sabia que ia desafiá-la; exigiria que ela pensasse.

— Beijar você.

— Não tem graça — falei, olhando-a nos olhos, grata por não ter gaguejado.

— Não, mas você ficou vermelha.

Sentei-me na lateral da mesa, tentando parecer indiferente. Cruzei as pernas, usando o joelho como apoio para escrever.

— Você trabalha?

— Sirvo mesas no Borderline, o melhor mexicano da cidade.

— Religião?

Ela não pareceu surpreso com a pergunta, mas também não pareceu ter gostado.

 

— Achei que tivesse dito que eram algumas perguntas rápidas. Você já está na quarta.

— Religião? — perguntei com mais firmeza. Lexa passou a mão no queixo, pensativa.

— Não é religião... É um culto.

— Você pertence a um culto? — Percebi tarde demais que não deveria ter me surpreendido.

— Acontece que preciso de uma fêmea saudável para sacrifício. Tinha planejado ganhar a confiança dela primeiro e atraí-la, mas como você já está por aqui...

Se ainda havia qualquer sorriso em meu rosto, foi embora naquele momento.

— Você não está me impressionando.

— Ainda nem comecei.

Desci da mesa e fiquei de frente para ela. Ela era mais alta, meia cabeça de diferença.

— A Rae me disse que você é aluna do último ano. Quantas vezes foi reprovada em biologia? Uma vez? Duas?

— Rae não é minha porta-voz.

— Está dizendo que não foi reprovada?

— Estou dizendo que não frequentei a escola no ano passado. 

Seus olhos me provocavam. Isso só me deixou mais determinada.

— Pulou o ano?

Lexa pousou o taco sobre o tampo da mesa e fez um sinal com o dedo para que eu me aproximasse. Não me aproximei.

— Um segredo? — disse-me em tom confidencial. — Nunca fui à escola. Outro segredo? Não é tão chato quanto eu imaginava.

Ela estava mentindo. Todo mundo ia à escola. Existiam leis. Ela estava mentindo para tirar onda com a minha cara.

— Acha que eu estou mentindo — disse ela com um sorriso.

— Você nunca foi à escola, nunca? Se é verdade, e, você tem razão, não acho que seja, o que o levou a decidir frequentar as aulas este ano?

 

— Você.

O impulso de sentir medo me atravessou, mas disse a mim mesma que isso era exatamente o que Lexa queria. Mantendo-me firme, tentei parecer apenas incomodada. Ainda assim, precisei de um momento para recuperar a voz.

— Essa não é uma resposta verdadeira.

Ela deve ter se aproximado, pois de repente nossos corpos não estavam separados por nada além de uma nesga de ar.

— Seus olhos, Clarke. Esses olhos azuis mas pálidos e frios são surpreendentemente irresistíveis. — Ela inclinou a cabeça para o lado, como se quisesse me examinar um novo ângulo. — E essa boca carnuda, de matar.

Dei um passo para trás, desconcertada não tanto pelo comentário, mas por parte de mim reagir àquilo positivamente.

— É isso. Vou embora.

Mas assim que as palavras deixaram a minha boca, vi que não eram verdadeiras. Queria muito dizer mais. Examinando os pensamentos tortuosos que passavam por minha cabeça, tentei encontrar o que achava que devia dizer. Por que ela debochava tanto de mim e por que agia como se eu tivesse feito algo para merecer aquilo?

— Você parece saber muito sobre mim — soltei, dizendo a novidade do ano. — Mais do que deveria. Parece que sabe exatamente o que dizer para eu me sentir mal.

— Você ajuda.

Uma fagulha de raiva percorreu meu corpo.

— Você admite que faz isso de propósito?

— Isso?

— Isso... me provocar.

— Diga "provocar" de novo. Sua boca fica provocante quando você diz isso.

— Chega. Termine seu jogo de sinuca.

Tirei o taco da mesa e empurrei-o para ela, que não pegou.

— Não gosto de sentar ao seu lado — falei. — Não gosto de ser sua parceira. Não gosto desse seu sorriso condescendente. — Meu queixo estremeceu, algo que só costuma acontecer quando eu minto. Fiquei pensando se estava mentindo naquele momento. Se estava, queria me matar. — Não gosto de você. — Disse da forma mais convincente que consegui e empurrei com força o taco contra o peito dela.

— Estou feliz que o técnico tenha nos colocado juntas — disse ela.

Percebi uma levíssima ironia na palavra "técnico", mas não consegui entender o que isso poderia significar. Então ela pegou o taco.

— Estou tentando mudar isso — contra-ataquei.

Lexa achou tão engraçado que chegou a mostrar os dentes quando sorriu. Estendeu a mão para mim e, antes que eu pudesse me mover, tirou alguma coisa do meu cabelo.

— Um pedacinho de papel — explicou, jogando-o no chão.

Quando ela estendeu a mão, percebi uma marca no lado interno de seu pulso, principio, achei que fosse uma tatuagem, mas, ao prestar atenção, percebi uma marca de nascimento marrom-avermelhada, ligeiramente em relevo. Tinha o formato de uma gota de tinta.

— Lugar infeliz para uma marca de nascença — falei, um tanto nervosa por notar que a posição fosse tão semelhante à da minha.

Patch fez um movimento casual, mas pude perceber que foi para puxar a manga da camisa e cobrir o pulso.

— Você preferiria que fosse em algum lugar mais íntimo?

— Não preferiria que fosse em lugar nenhum. — Eu não estava bem certa de como aquilo tinha soado e tentei de novo: — Não ligaria que você não a tivesse. 

Tentei pela terceira vez:

— Não ligo para sua marca de nascença. Ponto final.

— Mais alguma pergunta? Algum comentário? — ela disse.

— Não.

— Então até a aula de biologia.

Pensei em dizer a Lexa que ela nunca mais iria me ver. Mas não ia engolir o que disse duas vezes no mesmo dia.

Mais tarde, naquela mesma noite, despertei com um barulho. Com o rosto apertado contra o travesseiro, fiquei quieta, todos os sentidos alertas. Minha mãe ficava fora da cidade pelo menos uma vez por mês, por causa do trabalho, e por isso eu estava acostumada a dormir sozinha. Já tinham se passado meses desde que eu imaginara ter ouvido o som de passos se arrastando pelo corredor rumo ao meu quarto. A verdade era que eu nunca me sentia completamente sozinha. Logo depois que meu pai foi morto a tiros em Portland, enquanto comprava um presente de aniversário para minha mãe, uma estranha presença surgiu em minha vida. Como se alguém estivesse orbitando em torno do meu mundo, observando-me à distância. A princípio a presença fantasmagórica me apavorava, mas, como nada de mal aconteceu, minha preocupação foi passando. Imaginava se havia naquilo algum sentido cósmico. Talvez fosse o espírito do meu pai por ali. O pensamento costumava ser confortante, mas naquela noite foi diferente. A presença era como gelo sobre a pele.

Virando a cabeça ligeiramente, vi uma sombra comprida no chão do quarto. Mudei de posição para olhar a janela. Os raios embaçados do luar eram a única claridade no cômodo capaz de fazer sombra. Mas não havia nada ali. Apertei o travesseiro e disse a mim mesma que aquilo não passava de uma nuvem atravessando o céu. Ou um pedaço de lixo voando ao vento. De qualquer maneira, levou muitos minutos até que meu coração se acalmasse.

Quando reuni coragem para sair da cama, o quintal sob minha janela estava silencioso e imóvel. O único ruído vinha dos ramos das árvores, que esbarravam na casa, e do meu coração ressoando no peito.



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