História Sussurro - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias The 100
Personagens Clarke Griffin, Lexa
Tags Clarke Griffin, Clexa, Lesbian, Lexa, The 100
Exibições 171
Palavras 4.646
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Sobrenatural

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - 2


 

O técnico Pike estava postado diante do quadro-negro no meio de uma lenga-lenga infinita sobre algum assunto, mas minha mente vagava bem distante das complexidades da ciência.

Eu estava ocupada em reunir motivos que justificassem por que Lexa e eu não deveríamos mais nos sentar juntas e os anotava em uma lista no verso de um antigo questionário. Assim que a aula acabasse, eu apresentaria meus argumentos ao técnico. Não coopera para a realização dos deveres, escrevi. Demonstra pouco interesse no trabalho de grupo.

Mas eram as razões que não tinham sido listadas as que mais me incomodavam. Achei o local da marca de nascença de Lexa assustador e estava apavorada com o incidente da janela na noite anterior. Não estava tão certa de que Lexa estivesse me espionando, mas não podia deixar de ignorar a coincidência. Tinha praticamente certeza de que alguém ficara olhando pela minha janela apenas algumas horas depois de termos nos encontrado.

Ao pensar na possibilidade de Lexa andar me espionando, retirei dois comprimidos de suplemento de ferro de um fiasco dentro do bolso da frente de minha mochila e os engoli a seco. Eles ficaram presos na garganta por um momento, mas acabaram descendo.

Pelo canto do olho, percebi que Lexa erguia as sobrancelhas.

Cogitei explicar a ela que eu era anêmica e que tinha de tomar comprimidos à base de ferro algumas vezes ao dia, especialmente quando estava sob pressão, mas mudei de ideia. A anemia não representava uma ameaça à minha vida... desde que eu tomasse doses regulares do remédio. Não estava tão paranoica a ponto de achar que Lexa queria me fazer mal, mas, de qualquer forma, meu problema de saúde era uma vulnerabilidade e me pareceu melhor mantê-lo em segredo.

— Clarke?

O técnico estava na frente da sala, com a mão estendida em um gesto que demonstrava que ele esperava alguma coisa: minha resposta. Senti o rosto lentamente começar a queimar.

— O senhor poderia repetir a pergunta? — pedi. A turma caiu na gargalhada.

— Que qualidades atraem você em um possível parceiro? — disse o técnico, ligeiramente irritado.

— Possível parceiro?

— Parceira — corrigiu-se o técnico, pouco confortável — vamos logo, não temos a tarde toda.

 

Eu podia ouvir Raven dando gargalhadas atrás de mim.

— O senhor quer que eu faça uma lista de características de uma...? — Minha garganta pareceu se fechar.

— Possível parceira, sim, ajudaria muito.

Sem querer, olhei para o lado, na direção de Lexa. Ela estava recostada na cadeira, quase jogado, estudando-me com ar de satisfação. Abriu aquele sorriso de cafajeste e balbuciou:

Estamos esperando.

Coloquei as mãos sobre a mesa, na esperança de parecer mais sob controle do que realmente estava.

— Nunca parei para pensar no assunto.

— Então pense rápido.

— Será que você poderia ouvir primeiro outra pessoa? 

O técnico fez gestos impacientes para a minha esquerda.

— Você, Lexa.

Ao contrário de mim, Lexa falou com confiança. Na posição em que estava, seu corpo ficava ligeiramente virado na minha direção, nossos joelhos separados por apenas alguns centímetros.

— Inteligente. Atraente. Vulnerável.

O técnico ocupou-se em escrever os adjetivos no quadro.

— Vulnerável? — perguntou. — Por quê?

— Isso tem relação com a matéria? — interrompeu Raven. — Porque não consigo encontrar nada sobre as qualidades desejadas em um parceiro em nosso livro.

O técnico parou de escrever um instante, só para olhar por cima do ombro.

— Todos os animais do planeta atraem parceiros com o objetivo de se reproduzir. O corpo dos sapos incha. Os gorilas machos batem no peito. Já viu o macho da lagosta levantar nas pontas das patas e estalar as garras para atrair a atenção da fêmea? A atração é o primeiro elemento de toda a reprodução animal, inclusive da humana. Por que não nos apresenta sua lista, srta. Reyes?

Raven mostrou os cinco dedos da mão.

 

— Deslumbrante, rico, generoso, altamente protetor e só um pouquinho perigoso. — A cada adjetivo, ela descia um dedo. Lexa soltou uma risada.

— O problema com a atração humana é você não saber se será correspondida.

— Muito bem pensado — disse o técnico.

— Os seres humanos são vulneráveis — prosseguiu Lexa —, porque são capazes de sofrer.

Nesse momento, o joelho de Lexa esbarrou no meu. Afastei-me, sem ousar pensar no que ela queria dizer com esse gesto. O técnico assentiu com a cabeça.

— A complexidade da atração entre os seres humanos e da reprodução é uma das características que nos distinguem das outras espécies.

Pensei ter ouvido Lexa bufar, mas foi tão baixo que não tive certeza.

— Desde a aurora dos tempos — prosseguiu o técnico —, as mulheres sentem atração por parceiros com mais habilidades ligadas à sobrevivência, como inteligência e força física, porque homens com tais qualidades têm mais chances de trazer comida para casa no final do dia. — Ele apontou os polegares para o alto e sorriu. — Comida é o mesmo que sobrevivência, equipe.

Ninguém riu.

— Da mesma forma — continuou —, os homens se sentem atraídos pela beleza porque é um indicativo de saúde e de juventude. Não há sentido em acasalar com uma mulher doente que talvez mais tarde não esteja por perto para cuidar das crianças.

O técnico colocou os óculos na ponta do nariz e deu uma risadinha.

— Isso é tão machista — protestou Raven. — Diga algo que tenha a ver com uma mulher do século XXI.

— Se você abordar a reprodução sob a ótica da ciência, srta. Reyes, verá que a prole é fundamental para a sobrevivência da espécie. E quanto mais filhos tiver, maior será a contribuição para o pool genético.

Eu podia praticamente ouvir Raven revirando os olhos:

— Acho que finalmente chegamos perto do assunto do dia. Sexo.

— Quase — disse o técnico, erguendo um dedo. — Antes do sexo vem a atração, mas antes da atração vem a linguagem corporal. É preciso comunicar ao possível parceiro que existe interesse sem usar palavras.

 

O técnico apontou para o meu lado.

— Muito bem, Lexa. Digamos que você esteja numa festa. O lugar está cheio de garotos de todas as formas e tamanhos. Você encontra louros, morenos, ruivos alguns meninos com cabelo preto. Você encontrou um garoto que se encaixa em seu perfil: atraente, inteligente e vulnerável. Como mostra a ele que está interessado?

— Primeiro que nunca vou encontrar um garoto atraente, inteligente e vulnerável pelo motivo de eu não gostar de garotos — a sala subiu um coro de risadas mas eu apenas gelei. Ela era lésbica afinal. — Quanto a uma menina, eu a escolho. Vou falar com ela.

— Muito bem. Agora é a hora da pergunta importante: como é que você sabe se ela está a fim ou se quer que você dê o fora?

— Eu a observo — disse Lexa. — Descubro o que está pensando e sentindo. Ela não vai ser direta e me dizer, por isso preciso prestar atenção. Ela vira o corpo na minha direção? Olha nos meus olhos e então desvia o olhar? Morde o lábio e brinca com o cabelo, como Clarke está fazendo bem agora?

A gargalhada tomou conta da sala. Deixei minhas mãos caírem no colo.

— Se é assim, está no papo — disse Lexa, esbarrando de novo na minha perna. E eu ainda fiquei vermelha.

— Muito bom! Muito bom! — disse o técnico, com a voz animada, muito satisfeito com a atenção.

— Os vasos capilares do rosto de Clarke estão se dilatando e a pele dela se aquece — disse Lexa. — Ela sabe que está sendo avaliada. Gosta da atenção, mas não sabe muito bem como lidar com isso.

— Não estou corando.

— Está nervosa — disse Lexa. — Passa a mão no braço a fim de desviar a atenção de seu rosto para o corpo, ou talvez para sua pele, ambos bastante atrativos.

Quase engasguei. Ela está de gozação, disse a mim mesma. Não, ela é doida. Eu não tinha experiência alguma em lidar com lunáticos, e isso estava na cara. Minha sensação era de que eu passava a maior parte do tempo olhando para Lexa estarrecida e de boca aberta. Precisava de uma nova abordagem se queria manter qualquer ilusão de poder colocá-la em seu lugar.

Apoiei as mãos na mesa, levantei o queixo e tentei demonstrar que ainda possuía alguma dignidade.

— Que ridículo!

Com muita dissimulação, Lexa esticou o braço para as costas da minha cadeira. Tive a estranha sensação de que era uma ameaça dirigida apenas a mim e que ela não consciência ou se lixava para a forma como a turma encararia aquilo. Todos riram, mas ela não pareceu ouvir, prendendo meu olhar ao dela com tanta intensidade que eu quase acreditei que ela havia construído um pequeno mundo particular para nós duas, ao qual ninguém mais teria acesso.

Vulnerável, ela fez com os lábios.

Prendi meus tornozelos nos pés da cadeira e me inclinei para a frente, sentindo peso do braço dela despencar no encosto. Eu não era vulnerável.

— E aí está! — exclamou o técnico. — A biologia em ação.

— Será que podemos falar sobre sexo agora? — perguntou Raven.

— Amanhã. Leiam o capítulo sete e estejam prontos para debater o assunto. 

O sinal tocou e Lexa empurrou a cadeira para trás.

— Foi divertido. Vamos repetir a dose um dia desses.

Antes que eu pudesse pensar em uma resposta mais contundente do que simplesmente Não, obrigada, ela se esgueirou por trás de mim e desapareceu porta afora.

— Vou passar um abaixo-assinado pedindo a demissão do técnico — disse Raven, aproximando-se da minha mesa. — O que aconteceu na aula de hoje? Foi quase pornografia. Ele praticamente colocou você e Nora sobre a mesa do laboratório, na horizontal, sem roupas, fazendo aquilo...

Lancei-lhe um olhar que dizia: Não precisa me lembrar disso.

— O.k. o.k. — disse Raven, dando um passo para trás.

— Preciso falar com o técnico. Encontro você em frente ao seu armário daqui a dez minutos.

— Tudo bem.

Fui até a mesa do técnico, que estava sentado, debruçado sobre um livro de jogadas de basquete. À primeira vista, todos aqueles "X" e "O" marcados no papel faziam parecer que ele estava brincando de jogo da velha.

— Olá, Clarke — disse ele, sem levantar o olhar. — Em que posso ajudá-la?

— Vim lhe dizer que a mudança de lugares e seu plano de aulas estão me deixando constrangida.

 

O técnico inclinou-se para trás e cruzou as mãos por trás da cabeça.

 

— Gosto da mudança de lugares. Quase tanto quanto gosto da nova tática homem a homem que aplicarei no jogo de sábado.

Coloquei uma cópia do regulamento escolar e dos direitos dos alunos sobre o livro.

— Pela lei, nenhum estudante deve se sentir ameaçado enquanto estiver nas dependências da escola.

— Você se sente ameaçada?

— Eu me sinto constrangida. E gostaria de propor uma solução. — Como o técnico não me interrompeu, respirei fundo, confiante. — Eu me ofereço para monitorar qualquer aluno de qualquer uma de suas turmas de biologia... se deixar que eu volte a me sentar com a Raven.

— Lexa bem que precisa de um monitor. 

Resisti à vontade de ranger os dentes.

— Isso vai contra o que estou lhe pedindo.

— Você viu hoje? Ela participou da discussão. Passei o ano inteiro sem ouvi-la dizer uma palavra, mas bastou colocá-la ao seu lado e... Bingo! A nota dela vai melhorar.

— E a de Raven vai cair.

— É o que acontece quando não dá para olhar para o lado e copiar a resposta certa — disse ele secamente.

— O problema de Raven é a falta de dedicação. Eu posso monitorá-la.

— Nada disso — ele disse, olhando para o relógio. — Estou atrasado para uma reunião. Já acabamos?

Queimei o cérebro tentando encontrar mais um argumento, mas aparentemente eu estava sem inspiração.

— Vamos ver como ficam as mudanças daqui a algumas semanas. Ah, e eu estava falando sério sobre o fato de Lexa precisar de um reforço. Conto com você.

O técnico não esperou resposta. Começou a assobiar e saiu.

Às sete da noite, o céu já se tingira de um azul muito escuro. Fechei o zíper do casaco para me proteger do frio. Raven e eu nos dirigíamos ao estacionamento do cinema, depois de assistir a O Sacrifício. Eu estava encarregada de fazer resenhas de filmes para o eZine e como já havia visto tudo o que estava em cartaz, precisamos nos conformar em assistir ao mais novo filme de terror urbano.

 

— Esse foi o filme mais esquisito que eu já vi — disse Raven. — Vamos combinar que não devemos ver mais nada que lembre de longe um filme de terror.

Por mim, tudo bem. Considere que alguém andou espreitando a janela do meu quarto na noite anterior. Some a isso o fato de que acabamos de assistir à historia de um maníaco perseguidor no cinema. Não era de espantar que eu estivesse começando a me sentir um pouco paranóica.

— Dá para imaginar? — disse Raven. — Passar a vida inteira sem ter noção de que você só continua viva para ser oferecida em sacrifício.

Nós duas trememos.

— E aquele altar? — prosseguiu ela, perturbadoramente alheia ao fato de que eu feria falar sobre o ciclo de vida dos fungos a discutir o filme. — Por que o vilão esquenta a pedra no fogo antes de amarrar a garota? Eu cheguei a ouvir o chiado da carne queimando.

— O.K.! — praticamente gritei. — Para onde vamos?

— E, caramba, se algum dia um sujeito me beijar daquela forma, vou vomitar. Chamar aquela boca de repugnante é pouco. Era maquiagem, não era? Sério: ninguém tem uma boca daquelas na vida real...

— Preciso entregar a resenha até a meia-noite — interrompi.

— Ah. Certo. Vamos para a biblioteca, então? — Raven destrancou as portas de seu carro, um Dodge Neon 1995 roxo. — Você anda muito nervosinha, sabia? 

Deslizei para o assento do carona.

— A culpa é do filme.

A culpa era do tarado que estava à minha janela na noite anterior.

— Não estou falando só de hoje. Eu percebi — disse ela, com um sorrisinho malicioso — que nos últimos dois dias você tem ficado bem rabugenta depois das aulas de biologia.

— Fácil. A culpa é da Lexa.

O olhar de Raven se dirigiu ao espelho retrovisor. Ela o ajustou para poder olhar melhor a boca, passou a língua nos dentes e deu um sorriso ensaiado.

— Preciso admitir: o lado negro dela me atrai.

Não tinha desejo algum de admitir, mas Raven não era a única. Eu sentia uma atração por Lexa que nunca havia sentido por ninguém. Havia um magnetismo sombrio entre nós. Perto dela, eu me sentia seduzida pelo perigo. A qualquer momento, parecia que ela poderia me fazer passar dos limites.

 

— Depois dessa, fiquei com vontade de...

Fiz uma pausa, tentando pensar exatamente o que eu me sentia tentada a fazer mesmo diante de nossa atração por Lexa. Seria algo desagradável.

— Vai me dizer que não acha ela bonita? Até eu que sou viciada em um pinto não consigo ignorar a beleza absurda daquela garota — provocou Raven. —  Se disser, prometo nunca mais tocar no nome dela.

Liguei o radio. Devia haver alguma coisa melhor a fazer com a nossa noite do que estragá-la convidando Lexa, mesmo que virtualmente, a participar dela. Sentar ao lado dela durante uma hora por dia, cinco dias por semana, era bem mais do que eu podia suportar. Não ia dedicar a ela também as minhas noites.

— E aí? — insistiu Raven.

— Ela pode até ser bonita, mas eu seria a última saber. Meu julgamento não é imparcial. Sinto muito.

— O que você está querendo dizer?

— É que a personalidade dela me incomoda tanto que beleza alguma pode compensar.

— Não estamos falando de beleza. Ela é... agressiva. Sexy.. 

Revirei os olhos. Raven buzinou e pisou no freio quando um carro cortou sua frente.

— O quê? Não concorda? Ou rude-e-rústica não é o seu tipo?

— Não tenho um tipo — disse. — Não sou uma pessoa tão limitada. 

Raven caiu na gargalhada.

— Você, meu bem, é muito mais do que limitada: é presa. Travada. Seu leque de possibilidades é tão amplo quanto um daqueles microorganismos do técnico. São pouquíssimas as meninas da escola para quem você daria mole. Se é que existe alguma.

— Não é verdade — pronunciei as palavras de forma instintiva. Só depois de dizê-las me questionei quanto seriam verdadeiras. Nunca tinha me interessado seriamente por alguém. Isso é assim tão bizarro? — Não tem a ver com as garotas. É o... amor. Ainda não encontrei.

— Não estamos falando de amor — disse Raven. — Estamos falando de diversão.

Levantei as sobrancelhas, em dúvida.

— Beijar uma garota que eu não conheço, por quem não sinto nada, isso é diversão?

— Você não prestou atenção às aulas de biologia? É muito mais do que beijar.

 

— Ah — disse com um tom cheio de sabedoria. — O pool genético já está bem desvirtuado sem a minha contribuição.

— Quer saber quem eu acho que deve ser gostosa de verdade?

— Gostosa?

— Gostosa — repetiu ela com um sorriso indecente.

— Acho que não.

— Sua parceira.

— Não chame ela assim — disse. — "Parceira" tem uma conotação positiva. 

Raven espremeu o carro em uma vaga perto da entrada da biblioteca e desligou o motor.

— Você nunca imaginou como seria dar um beijo nela? Nunca deu uma olhada para o lado e imaginou se jogar nos braços de Lexa e encostar sua boca na dela?

Encarei-a com um olhar que eu esperava que transmitisse quanto estava horrorizada.

— Você já?

Raven sorriu.

Tentei imaginar o que Lexa faria se soubesse disso. Por menos que a conhecesse, percebia a aversão que nutria por Raven como algo tão concreto que poderia ser tocado.

— Ela não é boa o bastante para você — disse eu, mesmo sabendo que Raven não estaria de fato interessada numa garota.

— Cuidado — ela gemeu. — Assim vou querer mais ainda.

Na biblioteca, escolhemos uma mesa no andar principal, perto das obras de ficção para adultos. Abri o laptop e digitei: O Sacrifício, duas estrelas e meia. Duas estrelas e meia era provavelmente uma nota um tanto baixa. Mas eu estava com a cabeça cheia demais e não me sentia particularmente justa.

Raven abriu um saco com chips de maçã desidratada.

— Quer?

— Não, obrigada.

Ela olhou dentro do saco.

— Se você não quiser, vou ter que comer. Eu realmente não queria fazer isso.

 

Raven estava fazendo a dieta das frutas, baseada em um quadro de cores. Três frutas vermelhas por dia. Duas roxas. Um punhado de verdes...

Ela pegou um chip de maçã e começou a examiná-lo.

— Qual é a cor? — perguntei.

— Verde asqueroso, eu acho.

Naquele momento, Octavia Blake — a única aluna da segunda série do ensino médio na história de Arkadia High a entrar para uma equipe universitária principal de líderes de torcida — sentou-se numa cadeira na beirada da nossa mesa. O cabelo negro estava arrumado em trancas finas e, como sempre, a pele escondida embaixo de meio vidro de base. Eu estava bem certa sobre a quantidade porque não havia sinal das sardas. Não via as sardas de Octavia desde a sétima série, o mesmo ano em que ela descobrira a maquiagem. Havia só um centímetro de saia cobrindo sua calcinha... se é que ela estava usando calcinha.

— Oi, Tamanho GG — disse Octavia para Rae.

— Oi, Sardenta Maluca — respondeu Raven.

— Mamãe está procurando modelos para trabalhar neste fim de semana. Paga nove dólares por hora. Achei que você poderia ter interesse.

A mãe de Octavia é gerente da loja de departamentos CPenney na região e nos fins de semana coloca Octavia e as outras líderes de torcida usando biquínis nas vitrines que ficam de frente para a rua.

— Ela tem muita dificuldade de encontrar modelos para lingerie tamanho grande — disse Octavia.

— Tem comida nos seus dentes — disse Raven para Octavia. — Entre os dois dentes da frente. Parece aquele chocolate laxante...

Octavia passou a língua nos dentes e saiu de fininho. Enquanto ela se afastava rebolando, Raven colocou um dedo na boca, fazendo de conta que estava vomitando.

— Ela tem sorte de estarmos na biblioteca — falou Raven. — Tem sorte de a gente não ter esbarrado em algum beco escuro. Ultima chance: quer maçã?

— Dispenso.

Raven levantou-se para jogar fora o petisco. Minutos depois, voltou com um romance. Sentou-se ao meu lado, mostrou a capa e disse:

— Nós vamos ser como essa daí um dia desses. Como deve ser beijar lábios queimados pelo sol e cobertos de poeira?

— Uma sujeira — murmurei, sem parar de digitar.

— Por falar em sujeira... — o tom da voz dela subiu inesperadamente. — Olhe ali nossa garota.

Parei de digitar apenas pelo tempo suficiente para olhar por cima da tela do laptop. Meu coração deu um pulo. Lexa estava do outro lado da sala, na fila de saída. Como se percebesse meu olhar, ela se virou. Ficamos nos encarando por um, dois, três segundos. Fui a primeira a desviar os olhos, não antes de receber um sorriso preguiçoso.

Meu coração batia descompassado e disse a mim mesma que precisava assumir o controle da situação. Eu não ia cair naquela. Não com Lexa. A menos que eu estivesse ficando maluca.

— Vamos embora — falei para Raven.

Fechei o laptop e o coloquei na pasta. Joguei meus livros dentro da mochila, mas alguns acabaram caindo no chão.

— Estou tentando ler o título do livro que ela está segurando... — disse Raven. — Pera aí... Como perseguir pessoas.

— Ela não está pegando emprestado um livro com esse título. — Mas eu não estava tão certa assim.

— É esse ou então Como ser sexy sem fazer força.

— Shh!

— Fique fria, ela não pode nos ouvir. Está falando com a bibliotecária. Está finalizando o empréstimo.

Ao confirmar a informação com uma olhadela rápida, percebi que se saíssemos naquele momento provavelmente a encontraríamos na porta. E então eu teria de falar com ela. Retornei para a cadeira e comecei uma busca cuidadosa (por nada) nos bolsos da mochila, enquanto ela terminava de acertar o empréstimo.

— Você não acha esquisito que ela esteja aqui na mesma hora que a gente? — perguntou Raven.

— Você acha?

— Acho que ela está seguindo você.

— Acho que é coincidência.

 

Isso não era inteiramente verdade. Se precisasse fazer uma lista dos dez lugares mais prováveis para encontrar Lexa numa noite qualquer, a biblioteca pública não estaria entre eles. Não estaria nem entre os cem primeiros. Então, o que ela estava fazendo ali?

A pergunta era particularmente perturbadora depois do que tinha acontecido na noite anterior. Não contei para Raven porque esperava que tudo perdesse a importância e desaparecesse da minha memória como se simplesmente não tivesse acontecido. Ponto final.

— Lexa! — Raven fez de conta que estava sussurrando. — Você está perseguindo a Clarke? 

Tampei com a mão a boca de Raven.

— Pare com isso. Estou falando sério. — E fiz cara de zangada.

— Aposto que ela a está seguindo — disse Raven, afastando minha mão. — Aposto também que ela tem histórico de perseguir garotas. Aposto que está cumprindo alguma medida cautelar de afastamento. Poderíamos bisbilhotar na secretaria. Vamos encontrar tudo na ficha dela.

— Não vamos bisbilhotar na secretaria.

— Eu poderia desviar a atenção. Sou boa em chamar atenção. Ninguém veria você entrar. Poderíamos agir como espiãs.

— Não somos espiãs.

— Você sabe o sobrenome dela? — perguntou Raven.

— Não.

— Você sabe alguma coisa sobre ela?

— Não. E prefiro assim.

— Qual é? Você adora uma boa história de mistério, e não existem muitas histórias de mistério melhores por aí.

— As melhores histórias de mistério costumam incluir um cadáver. Não temos um cadáver.

— Não temos ainda! — Raven soltou um gritinho.

Peguei dois comprimidos de suplemento de ferro do fiasco que estava na minha mochila e os engoli de uma só vez.

Raven parou o Neon na entrada da casa dela pouco depois das 21h30. Desligou o motor e balançou as chaves na minha cara.

— Você não vai me levar para casa? — perguntei. Desperdício de fôlego, porque eu sabia a resposta.

 

— Muita neblina. E a neblina sempre piora perto da sua casa — prosseguiu Raven. — Fico apavorada lá depois que escurece.

Peguei as chaves.

— Muito obrigada.

— Não ponha a culpa em mim. Diga a sua mãe que se mude para mais perto. Diga a ela que existe um novo clube chamado civilização e que vocês duas deveriam se associar.

— Imagino que queira que eu passe para pegar você amanhã antes da escola?

— Sete e meia seria uma boa hora. O café da manhã é por minha conta.

— É melhor que seja um ótimo café da manhã.

— Seja boazinha com meu carrinho. — Ela deu tapinhas no carro. — Mas não tão boazinha. Não quero que ele pense que pode ter vida melhor em outro lugar.

No caminho para casa, permiti que meus pensamentos fizessem uma breve viagem até Lexa. Raven estava certa: alguma coisa nela era extremamente atraente. E extremamente assustadora. Quanto mais pensava, mais me convencia de que havia algo nela... de errado. O fato de que ela gostava de me contrariar não era exatamente uma novidade, mas havia diferença entre implicar comigo na aula e talvez se dar o trabalho de me seguir até a biblioteca para levar a implicância adiante. Pouca gente faria isso... a não ser que tivesse bons motivos.

Na metade do caminho, começou a cair uma chuva fina das poucas nuvens de neblina que pairavam sobre a estrada. Dividindo a atenção entre a estrada e o controle do volante, tentei encontrar o comando dos limpadores de para-brisa.

A luz dos postes piscava lá no alto, e fiquei imaginando se uma tempestade estava se aproximando. Ali tão perto do oceano o clima mudava constantemente, e uma garoa podia rapidamente se transformar em uma enxurrada. Pisei no acelerador do Neon.

As lâmpadas vacilaram mais uma vez. Senti um calafrio na nuca e os pelos dos meus braços se eriçaram. Meu sexto sentido entrou em alerta máximo. Perguntei a mim mesma se achava que estava sendo seguida. Não havia faróis no espelho retrovisor. Nem carros adiante. Eu estava sozinha. Não era um pensamento lá muito reconfortante. Acelerei até os 70 quilômetros por hora.

Encontrei o comando dos limpadores do para-brisa, mas mesmo na velocidade máxima eles não conseguiam dar conta da chuva forte. O sinal ficou amarelo, então diminuí até parar, verifiquei se vinha outro carro e atravessei o cruzamento.

Ouvi o impacto antes de registrar que um vulto negro deslizava pelo capô do carro.

Gritei e pisei fundo no freio. O vulto bateu contra o para-brisa e ouvi um barulho de vidro quebrado.

Por impulso, virei o volante para a direita. O Neon saiu de traseira e girou no cruzamento. O vulto rolou e desapareceu por trás do capô.

Prendendo a respiração e agarrada ao volante com tanta força que as duas mãos estavam quase dormentes, tirei os pés dos pedais. O carro deu um tranco e parou.

Ele estava agachado a alguns metros, observando-me. Não parecia nem um pouco... machucado.

Estava todo vestido de negro e se confundia com a noite, o que tornava difícil dizer qual era a sua aparência. A princípio não consegui distinguir os traços de seu rosto, mas então percebi que ele usava uma máscara de esquiador.

Ele ficou de pé e se aproximou. Espalmou as mãos contra a janela do lado do motorista. Nossos olhos se encontraram pelo orifício da máscara. Um sorriso letal parecia brotar de seus olhos.

Deu outro golpe. O vidro vibrava entre nós.

Liguei o carro. Tentei sincronizar as ações de passar a primeira marcha, pisar no acelerador e soltar a embreagem. O motor ligou, no entanto o carro mais uma vez deu um solavanco e morreu.

Dei a partida de novo, mas me distraí com um estranho ruído metálico. Observei aterrorizada que a porta começava a ceder. Ele a estava... arrancando.

Engatei a primeira marcha. Meus sapatos escorregavam nos pedais. O motor roncou, enquanto o conta-giros no painel avançava para a zona vermelha.

O punho atravessou a janela com uma explosão de cacos de vidro. A mão tateou meu ombro e segurou meu braço. Dei um grito rouco, pisei fundo no acelerador e soltei a embreagem. O Neon cantou pneus ao entrar em movimento. Ele continuou pendurado, segurando meu braço, correndo ao lado do carro por muitos metros antes de me largar.

 

A adrenalina me fez avançar a toda a velocidade. Verifiquei o espelho retrovisor para ter certeza de que ele não estava me perseguindo e então afastei o espelho para o outro lado. Tive que apertar os lábios para não cair no choro.

 

Notas Finais




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