História Sussurro - Capítulo 4


Escrita por: ~

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Categorias The 100
Personagens Clarke Griffin, Lexa
Tags Clarke Griffin, Clexa, Lesbian, Lexa, The 100
Exibições 182
Palavras 3.454
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Sobrenatural

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - 3


Descendo a Hawthorne a toda velocidade, passei pela minha casa, fiz o contorno, cortei pela Beech e me dirigi de volta ao centro de Arkadia. Usei a discagem rápida para ligar para Raven.

— Aconteceu uma coisa... eu... ele... do nada... o Neon...

— Não estou conseguindo entender. O que houve?

Sequei o nariz nas costas da mão. Estava tremendo da cabeça aos pés.

— Ele apareceu do nada.

— Quem?

— Ele... — Tentei organizar os pensamentos e transformá-los em palavras. — Pulou na frente do carro.

— Caramba. Caramba, caramba. Você atropelou um veado? Está tudo bem com você? E o Bambi? — Ela meio que choramingava e resmungava. — O Neon?

Abri a boca, mas Raven me interrompeu.

— Deixe pra lá. Tenho seguro. Mas me diz que não tem pedaços de veado por todo o meu carrinho... Nenhum pedaço, certo?

A resposta que eu estava a ponto de dar desapareceu. Minha mente estava dois passos à frente. Um veado. Talvez eu pudesse fazer com que toda aquela história se tratasse do atropelamento de um veado. Eu queria confiar em Raven, mas também não queria parecer maluca. Como explicaria o fato de ter visto o cara que atropelei se levantar e começar a arrancar a porta do carro? Puxei a gola para observar meu ombro. Não havia sinal de marca vermelha na região em que ele me agarrara...

Voltei a mim com um susto. Eu estava mesmo considerando a hipótese de negar o que acontecera? Eu sabia o que tinha visto. Não era minha imaginação.

— Que doideira — disse Raven. — Você não respondeu. O veado está preso no farol do carro, é isso? Você está dirigindo com ele preso na frente do carro como se fosse um trator de limpar neve.

— Posso dormir na sua casa?

 

Queria sair das ruas. Da escuridão. Com um suspiro repentino, percebi que, para chegar à casa de Raven, precisaria passar novamente pelo cruzamento onde o havia atropelado.

 

— Estou no meu quarto — disse Raven. — Entre quando chegar. Vejo você logo.

Segurando o volante com força, acelerei o Neon em meio à chuva, rezando para que o sinal estivesse verde para mim na Hawthorne. Estava, e voei pelo cruzamento, olhando fixamente para a frente, mas ao mesmo tempo tentando dar uma olhada nas sombras na lateral da pista. Não havia vestígio do cara (ou seria uma garota? Não, não poderia ser) com a máscara de esquiador.

Dez minutos depois, estacionei o Neon na garagem de Raven. A porta tinha sido tão danificada que precisei empurrá-la com os pés para abrir caminho e sair. Então fui correndo até a porta da frente, tranquei-a e desci depressa a escada até o subsolo.

Raven estava sentada na cama de pernas cruzadas, com o caderno apoiado nos joelhos, fones no ouvido e iPod ligado no volume máximo.

— Será que eu vou querer ver o prejuízo hoje à noite ou devo deixar para depois de pelo menos sete horas bem dormidas? — exclamou num volume mais alto que a música.

— Talvez a opção número 2.

Raven fechou o caderno com força e tirou os fones.

— Vamos lá.

Quando chegamos do lado de fora, fiquei olhando o Neon por um bom tempo. Não era uma noite quente, mas não foi a temperatura que causou os arrepios que eriçaram meus pelos dos braços. Não havia sinal de qualquer dano na janela do lado do motorista. Nenhum amassado na porta.

— Tem alguma coisa errada — disse eu. Mas Raven não estava ouvindo. Estava muito ocupada inspecionando cada centímetro quadrado do Neon.

Dei um passo à frente e apalpei a janela do motorista. O vidro estava intacto. Fechei os olhos. Quando os abri novamente, a janela continuava intacta.

Dei a volta até a traseira do carro. Tinha praticamente completado 360 graus quando parei subitamente.

Uma fenda fina dividia o para-brisas em duas partes.

Raven notou ao mesmo tempo.

— Tem certeza de que não foi um esquilo?

Voltei a ver em minha mente os olhos letais na máscara de esquiador. Eram tão negros que eu não conseguia distinguir a íris e as pupilas. Negros como... os olhos de Lexa, quando eu os fitava por muito tempo. Mas não eram verdes? Eu deveria estar ficando louca.

 

— Olhe pra mim. Estou chorando de alegria — disse Raven, jogando-se sobre o capô do Neon para um abraço. — Um arranhãozinho de nada. Só isso. 

Forcei um sorriso, mas meu estômago estava embrulhado. Cinco minutos antes, a janela estava destroçada e a porta, amassada. Olhando para o carro naquele momento, parecia impossível. Não, parecia maluquice. Mas eu vi o punho socar o vidro e senti as unhas se cravarem em meu ombro.

Não foi?

Quanto mais tentava me lembrar do acidente, mais difícil se tornava. Pequenos lapsos de informação abriam-se em minha memória. Os detalhes estavam desaparecendo. Como ele era? Alto? Baixo? Magro? Forte? Disse alguma palavra?

Eu não conseguia lembrar. E isso era o mais assustador.

Na manhã seguinte Raven e eu saímos de casa às 7h15 e dirigimos até o Enzo's Bistrô para tomar leite quente. Com as mãos em volta da minha xícara de porcelana, tentei afastar o frio intenso que me consumia por dentro. Tinha tomado uma chuveirada, vestido uma camiseta e um cardigã de Raven e passado alguma maquiagem, mas mal me lembrava de ter feito isso.

— Não olhe agora — disse Raven —, mas a srta. Suéter Verde não para de olhar para cá, avaliando suas pernas compridas nesses jeans... Ih! Ela acabou de me fazer uma saudação. É sério. Uma saudação militar com dois dedos. Que gracinha.

Eu não estava escutando. Passara a noite revivendo o acidente da véspera, o que espantou qualquer possibilidade de sono. Meus pensamentos estavam enredados, meus olhos, secos e pesados. Não conseguia me concentrar.

— A srta. Suéter Verde parece normal, mas sua escudeira tem jeito de ser uma garota bastante malcomportada — disse Raven. — Tem uma certa aura de "não mexa comigo". Diga só se você não acha que ela parece filha do Drácula. Diga que é minha imaginação.

Levantando os olhos apenas o suficiente para espiar, sem dar pinta, observei o rosto bonito, de traços finos. O cabelo louro caía na altura dos ombros, num corte curto-chique. Olhos cor de cromo. Impecavelmente vestida com uma jaqueta ajustada sobre o suéter verde e jeans escuros de marca.

— Você está imaginando coisas — eu disse.

— Não viu aqueles olhos fundos? O porte alto e esguio? Talvez ela seja alta o bastante para mim.

 

Raven está chegando perto de 1,80 metro de altura, mas tem fixação por saltos. Saltos altos. Também tem fixação por não sair com sujeitos mais baixos.

— Ok, Rae. Preciso te parar agora mesmo — apontei para ela — você pode me explicar porque de repente está se interessando por garotas?

— Depois que você se assumiu, me abri para as oportunidades. Talvez eu seja bi — deu de ombros — ou apenas cansei de garotos.

Revirei os olhos. 

 

— Muito bem. O que há de errado? — Raven perguntou. — Você ficou incomunicável. Não tem a ver com o arranhão em meu para-brisa, tem? Qual é o problema de você ter batido em um bicho? Podia ter acontecido com qualquer um. É claro que as chances disso acontecer seriam bem menores se a sua mãe resolvesse sair do fim do mundo.

Contaria a Raven a verdade sobre o que havia acontecido. Logo. Só precisava de um tempinho para reconstituir alguns detalhes. O problema era que eu não sabia como conseguiria fazer isso. Os únicos detalhes que sobraram eram vagos, na melhor das hipóteses. Era como se uma borracha tivesse apagado minhas lembranças. Rememorando, eu me lembrava da chuva pesada descendo pela janela do carro, deixando tudo mais indistinto. Será que eu realmente não havia atropelado um veado?

— Hum. Fique ligada — disse Raven. — A srta. Suéter Verde está se levantando da cadeira. Hum, aquele corpo frequenta a academia regularmente. Ela está vindo na nossa direção, com olhos em suas posses, ou melhor, com os olhos em você.

Menos de um segundo depois fomos saudadas com um "Olá" em tom baixo e agradável.

Raven e eu olhamos ao mesmo tempo. A srta. Suéter Verde estava em pé perto da nossa mesa, com os polegares escondidos nos bolsos dos jeans. Tinha olhos claros, cabelos louros charmosamente desarrumados caindo na testa.

— Olá você — disse Raven. — Sou Rae. Essa é Clarke Griffin.

Fiz uma cara feia para Raven. Não gostei de ela ter acrescentado meu sobrenome, achei que violava um acordo tácito entre meninas, para não falar de melhores amigas, ao conhecer pessoas desconhecidas. Acenei sem muita vontade e levei a xícara à boca, queimando a língua no mesmo momento.

Ela arrastou uma cadeira da mesa ao lado e sentou-se de costas, apoiando o braço no encosto. Estendeu a mão para mim e disse:

— Sou Nyllah Saunders. — Apertei a mão dela, achando aquilo formal demais. — E essa é Ontari— acrescentou, projetando o queixo na direção da amiga, aquela que Raven havia subestimado muito ao chamar de "alta".

Ontari abaixou-se toda para se sentar ao lado de Raven, fazendo a cadeira parecer de brinquedo.

— Acho que você talvez seja a garota mais alta que já vi — ela disse para ela. — Fala sério, qual é sua altura?

— Um metro e oitenta e dois — balbuciou Ontari, curvando-se no assento e cruzando os braços.

 

Nyllah pigarreou.

 

— Será que eu poderia pedir alguma coisa para as senhoritas comerem?

— Eu estou satisfeita — disse, erguendo a xícara. — Já pedi. 

Raven me chutou por debaixo da mesa.

— Ela vai querer um donut recheado com creme de baunilha. Peça dois.

— E a dieta vai para o ralo, é? — perguntei a Raven.

— Fica na sua. A fava da baunilha é uma fruta. Uma fruta marrom.

— É um legume.

— Tem certeza?

Eu não tinha.

Ontari fechou os olhos e apertou a ponte do nariz. Aparentemente, compartilhávamos o mesmo entusiasmo pela companhia uma da outra.

Enquanto Nyllah se dirigia ao balcão, deixei meus olhos a acompanharem. Com toda a certeza ela cursava o ensino médio, mas nunca a vira na Arkadia High School. Teria lembrado. Ela tinha uma personalidade atraente e extrovertida que se destacava. Se eu não estivesse tão abalada, poderia até mesmo ficar interessada. Em amizade, ou talvez em algo mais.

— Você mora por aqui? — perguntou Raven a Ontari.

— Hum, hum.

— Vai para a escola?

— Kinghorn Prep. — Havia um tom de superioridade em sua voz.

— Nunca ouvi falar.

— Escola particular. Em Azgeda. As aulas começam às nove horas. — Ela arregaçou a manga e olhou o relógio.

Raven mergulhou o dedo na espuma do leite e lambeu.

— É cara?

Ontari olhou diretamente para ela pela primeira vez. Os olhos se arregalaram, mostrando um pouco do branco.

— Você é rico? Aposto que é — disse ela.

 

Ontari olhou para Raven como se ela tivesse acabado de matar uma mosca esmagando-a contra a testa dela. Arrastou a cadeira alguns centímetros, afastando-se de nós.

Nyllah voltou com uma caixa de meia dúzia de donuts.

— Dois com recheio de creme de baunilha, para as moças — disse ela, empurrando a caixa na minha direção —, e quatro com glacê, para mim. É melhor que eu me abasteça, porque não sei como é o refeitório da Arkadia High.

Raven quase derramou o leite. 

— Você estuda na AHS?

— A partir de hoje. Acabei de ser transferido para lá, da Kinghorn Prep.

— Eu e Clarke estudamos na CHS — disse Raven. — Espero que você seja capaz de apreciar sua sorte. Qualquer coisa que queira saber, inclusive quem deve convidar para o Baile de Primavera, é só perguntar. Clarke e eu, aliás, não temos acompanhantes... Por enquanto.

Decidi que estava na hora de ir embora. Ontari estava obviamente entediada e nervosa, e estar em sua companhia não ajudava meu humor impaciente. Fiz uma grande cena ao olhar no relógio do celular e falei:

— Está na hora de irmos para a escola, Rae. Precisamos estudar para a prova de biologia. Nyllah e Ontari, muito prazer em conhecê-las.

— Nossa prova de biologia é só na sexta — disse Raven.

Fiz uma careta por dentro. Por fora, sorri entre os dentes.

— Isso. O que eu queria dizer é que tenho prova de inglês. Sobre as obras de... Geoffrey Chaucer.

Todo mundo sabia que eu estava mentindo. Fiquei um pouco incomodada por minha grosseria, especialmente porque Nyllah nada tinha feito para merecer aquele tratamento. Mas eu não queria ficar mais naquele lugar. Queria continuar avançando, distanciando-me da noite anterior. Talvez não fosse tão ruim assim a perda da memória. Quanto mais rápido eu esquecesse o acidente, mais rápido minha vida retomaria o ritmo normal.

— Espero que você tenha um ótimo primeiro dia. Talvez nos encontremos na hora do almoço — disse para Nyllah.

Então puxei Raven pelo cotovelo e a arrastei até a porta.

O horário de aulas estava quase encerrado. Só faltava a de biologia, e depois de passar rapidamente em meu armário para trocar os livros encaminhei-me para a sala. Raven e eu chegamos antes de Lexa. Ela deslizou no assento vazio onde ela deveria estar, começou a mexer no interior da mochila até retirar uma caixa de jujubas.

— Hora de uma fruta vermelha — disse, oferecendo-me a caixa.

— Deixe ver... Canela é fruta? — Afastei a caixa.

— Você também não comeu nada no almoço — disse Raven fazendo uma cara feia.

— Não estou com fome.

— Mentirosa. Você sempre está com fome. Isso tem a ver com Lexa? Você não está achando que ela tem mesmo seguido você, está? Porque, na noite passada, tudo aquilo que falei na biblioteca era gozação com a sua cara.

Massageei as têmporas em pequenos círculos. A dor sem fim que tinha se instalado atrás dos meus olhos intensificou-se diante da menção a Lexa.

— Lexa é a menor das minhas preocupações — disse. Não era exatamente verdade.

— Meu lugar, com licença.

Raven e eu levantamos os olhos ao mesmo tempo ao ouvir o som da voz de Lexa.

Ela soou bastante educada, mas não parou de encarar Raven enquanto ela se levantava e pendurava a mochila no ombro. Parecia que ela não conseguia se mover rápido o bastante. Ela gesticulou para o corredor, convidando-a a sair do caminho.

— Linda como sempre — disse para mim ao sentar na cadeira.

Recostou-se, estendendo as pernas diante de si.

— Obrigada — respondi sem pensar.

Imediatamente, quis engolir minhas palavras. Obrigada? De tudo o que eu poderia ter dito, "obrigada" era o pior. Não queria que Lexa achasse que eu apreciava seus elogios. Porque não apreciava... na maioria das vezes. Não era preciso ser muito esperta para perceber que ela era encrenca, e eu já tinha passado por encrenca o bastante na vida. Não precisava de mais. Talvez se eu a ignorasse, ela acabaria desistindo de puxar assunto. Então poderíamos nos sentar lado a lado em harmonia silenciosa, como todas as outras duplas na sala.

— Também está com um perfume gostoso — disse Lexa.

— Chama-se chuveiro. — Eu estava com o olhar fixo para a frente. Como ela não respondeu, virei-me de lado. — Sabão. Xampu. Água quente.

— Nua. Sei como é.

Abri a boca para mudar de assunto quando o sinal me interrompeu.

— Guardem os livros — disse o técnico, sentado à mesa. — Vou entregar um questionário a fim de que vocês se preparem para o teste de sexta. — Ele parou diante de mim, lambendo o dedo enquanto tentava separar os exercícios. — Quero 15 minutos de silêncio enquanto vocês respondem as perguntas. Então discutiremos o capítulo sete. Boa sorte.

Passei pelas primeiras perguntas respondendo com um despejo rítmico de fatos memorizados. Pelo menos o exercício prendeu minha atenção, colocando em segundo plano o acidente da noite anterior e a voz no fundo da minha mente que questionava minha própria sanidade. Quando parei para descansar a mão que escrevia senti Lexa se curvar na minha direção.

— Você está com uma cara cansada. Noite ruim? — sussurrou.

— Vi você na biblioteca.

Fui cuidadosa em manter meu lápis deslizando sobre o exercício, aparentemente entretida com o trabalho.

— O ponto alto da minha noite.

— Você estava me seguindo?

Ela jogou a cabeça para trás e riu suavemente.

— Então o que estava fazendo ali? — Tentei uma abordagem diferente.

— Pegando um livro emprestado.

Senti os olhos do técnico sobre mim e mergulhei no exercício. Depois de responder a várias outras perguntas, dei uma olhada para a esquerda. Fiquei surpresa ao descobrir que Lexa estava me observando. Ela sorriu.

Meu coração deu um pulo inesperado, aturdido com aquele sorriso estranhamente sedutor. Para meu horror, fiquei tão sem graça que deixei cair o lápis, que quicou no tampo da mesa algumas vezes antes de rolar da quina. Lexa se curvou para pegá-lo. Segurou-o com a palma da mão, e precisei me concentrar para não tocar sua pele ao pegá-lo de volta.

— Depois da biblioteca — sussurrei —, aonde você foi?

— Por quê?

— Você me seguiu? — questionei em voz baixa.

 

— Você parece um pouco perturbada, Clarke. O que aconteceu?

As sobrancelhas dela se ergueram com um ar de preocupação. Era tudo só fachada, pois havia um fulgor zombeteiro em seus olhos negros.

— Você está me seguindo?

— Por que eu ia querer seguir você?

— Responda a minha pergunta.

— Clarke..

O tom ameaçador na voz do técnico me devolveu ao exercício, mas eu não parei de pensar em qual teria sido a resposta de Lexa. Queria ir para o mais longe possível dela. Para o outro lado da sala. Para o outro lado do universo.

O técnico usou o apito.

— Acabou o tempo. Passem os questionários para a frente. Vocês encontrarão questões semelhantes nesta sexta-feira. E agora — ele disse batendo uma das mãos contra a outra, com um som que me fez tremer —, vamos cuidar da lição do dia. Srta. Reyes, gostaria de apresentar nosso tema?

— S-e-xo — anunciou Raven.

Assim que ela terminou de falar, saí do ar. Lexa estava me seguindo? Seria dela o rosto escondido pela máscara de esquiador? Se é que havia mesmo um rosto atrás da máscara. Em primeira instância acreditei que fosse um homem mas não seria impossível que fosse uma mulher. Minha memória era muito vaga para ter certeza. O que ela queria? 

Cruzei os braços com força, subitamente sentindo muito frio. Queria que minha vida voltasse a ser como era antes de Lexa aparecer em meu caminho.

No final da aula, não deixei que ela saísse.

— Será que nós poderíamos conversar?

Ela já estava de pé, por isso sentou-se na beirada da mesa.

— O que houve?

— Sei que você não quer sentar junto de mim mais do que eu quero sentar junto de você. Acho que o técnico talvez considere uma mudança de lugares se você falar com ele. Se explicar a situação...

— A situação?

— Não somos... compatíveis.

 

Ela passou a mão no queixo. Um gesto de avaliação que já se tornara familiar para mim depois de uns poucos dias.

— Não somos?

— Não estou dando nenhum furo de reportagem aqui.

— Quando o técnico me pediu uma lista de características desejáveis em uma parceira, descrevi você.

— Retire o que disse.

— Inteligente. Atraente. Vulnerável. Você discorda?

Ela estava fazendo aquilo com o único propósito de me provocar, e isso só me irritava mais.

— Você vai pedir ao técnico para mudar de lugar ou não?

— Negativo. Fiquei apegada.

O que eu deveria dizer diante aquilo? Obviamente ela estava tentando provocar em mim alguma reação. O que não era difícil, considerando que eu nunca sabia se ela estava brincando ou sendo sincera.

Tentei aplicar uma dose de compostura à minha voz.

— Acho que você ficaria bem melhor se sentasse com outra pessoa. Acho que você sabe disso. — Sorri, tensa, porém educada.

— Mas eu poderia acabar ao lado de Raven. — O sorriso parecia tão educado quanto o meu. — Não vou arriscar.

Raven apareceu junto a nossa mesa, olhando alternadamente para mim e para Lexa.

— Estou interrompendo?

— Não — eu disse fechando bruscamente a mochila. — Estava perguntando a Lexa quais páginas devemos ler hoje. Não conseguia me lembrar do que o técnico determinou.

— O dever está no quadro-negro, como sempre — Raven falou. — Como se você já não tivesse lido tudo.

Lexa caiu na gargalhada, como se estivesse curtindo sozinha uma piadinha particular. Não foi a primeira vez que desejei saber em que ela estava pensando. Porque algumas vezes eu tinha certeza de que essas piadinhas tinham tudo a ver comigo.

— Algo mais, Clarke? — perguntou.

 

— Não — respondi. — Até amanhã.

— Mal posso esperar. — Ela piscou. Piscou de verdade. Quando Lexa já não poderia ouvir, Raven agarrou meu braço.

— Boa notícia. Debnam. É o sobrenome dela. Vi na pasta de chamada do técnico.

— E isso é algo que deve me deixar feliz porque...?

— Todo mundo sabe que os alunos são obrigados a registrar medicamentos controlados na enfermaria. — Ela puxou o bolso dianteiro de minha mochila, no qual guardo os comprimidos de ferro. — Todo mundo sabe também que a enfermaria é localizada convenientemente dentro da secretaria, onde, por acaso, ficam guardadas as fichas dos alunos.

Com os olhos brilhando, Raven segurou meu braço e me empurrou na direção da porta.

— Está na hora de fazer uma investigação de verdade.

 


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