História Sweet - Capítulo 13


Escrita por: ~

Postado
Categorias TWICE
Personagens Chaeyoung, Mina
Tags Lillaby, Michaeng
Visualizações 180
Palavras 4.014
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, FemmeSlash, Romance e Novela, Yuri
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


E aí, meus anjinhos, tudo bem com vocês?

provavelmente no capítulo de hoje vocês vão odiar mais a nayeon

ou não

enfim, boa leitura!

Capítulo 13 - Unpleasant



             Naquela noite, levei Nanam até o final da nossa rua sem saída para brincar de bolinha. Não era igual a nossas caminhadas de antes, mas parece que ele gostou do mesmo jeito. E até encontrou um coelho selvagem para caçar, mas acho que o bichinho não gostou muito do jogo, ou de ser caçado.

             Quando voltei com Nanam para casa, a minha mãe estava à mesa da cozinha, com uma caneca de chá, folheando um guia de TV, embora a gente tenha pacotes personalizados.

             - Aonde você foi? - perguntou.

             - Até o fim da quadra - respondi, colocando água fresca na tigela de Nanam. - Pra jogar bolinha.

             - Sem a guia? - Ela me olhou, horrorizada. - Mina, está escuro! Ele podia ser atropelado!
              
             - É um beco sem saída, então tenho minhas dúvidas.
 
             - Olha o tom, menina.

             - Desculpe. - Peguei um pacote de bolachas da dispensa e abri. - Quer?

             - Agora não - ela respondeu. - Venha aqui e me fale da escola.

             De repente, eu me arrependi de minha incrusão à despensa.

             - A escola vai bem - respondi, com a boca cheia de bolacha. - Mas isto aqui é horrível, ache que fossem de chocolate.

             - De alfarroba. É mais saudável. Como vão as aulas?

             - Bem, preciso de uma autorização. Tem um passeio para um torneio em San Diego na semana que vem.

             - Dormir fora por causa de excursão escolar? - Ela balançou a cabeça. - Querida, sei lá... Você não fisioterapua aos sábados?

             - É só eu ligar para o doutor Levine e desmarcar - respondi, impaciente. - E não é uma excursão; é um torneio. Entrei para o time de debate.

             Nanam choramingou por um biscoito, e eu lhe lancei um olhar dizendo: Confia em mim, você não vai querer isto.

          - É isso que os seus amigos do grêmio estudantil estão fazendo esse ano? - minha mãe perguntou, animada. - Um time de debate?

          - Não é bem isso. - Tentei não rir diante da ideia de Moon Byul Yi, nossa representante esportiva, ou Tifanny Hwang, nossa representante de eventos sociais, andarem juntas com o meu novo grupo. - Hirai Momo me convidou. Ela é capitã este ano.

             - Ah, Momo! Não a veja há tanto tempo. - A minha mãe fechou a revista inclinou-se na mesa, baixando a voz num cochicho: - Diga uma coisa, ela virou lésbica?

             Engasguei com a bolacha.

             - Mãe!

             - O que foi? Só estou curiosa, querida.

             Encarei-a, espantada. Não é o tipo de pergunta que a gente sai fazendo por aí.

             - Vai assinar a autorização ou eu peço ao papai? - pressionei.

         - Deixe no balcão da cozinha de manhã. Posso levar você ao Nordstrom depois da aula. - Tinha acabado de me levantar, e fiquei paralisada quando ela mencionou fazer compras. - Ué, você vai precisar de um vestido para o debate, não vai? - E minha mãe continuou, animada com a ideia: - A gente pode comprar umas roupas novas também. Os seus jeans estão muito folgados. Não quero que você tropece na barra.

             Ela estava sorrindo com se o departamento feminino do Nordstrom fosse a oportunidade perfeita para nós duas passarmos um tempinho juntas. Aí, tive uma ideia.

             - Na verdade - disse -, eu vou com Momo. Ela sabe do que eu vou precisar para o torneio.

             - Ótima ideia. - A minha mãe sorriu radiante. - Use o cartão de crédito do seu pai. As lésbicas tem um bom gosto imenso para roupas!













                  - Você não pode simplesmente comprar um vestido direto das araras - Chaeyoung me olhou, horrorizada.

               Dos alto-falantes invisíveis saía a mesma música que tinha tocado na comemoração de volta às aulas, espalhando-se por todo o departamento de roupas femininas de Nordstrom. Suspirei, indefesa diante das intermináveis araras de roupas.

                   - Momo - Chaeyoung reclamou. - Fale com ela.

                   - Como todos os meus  vestidos vêm do lindo ateliê da Senhora Exército da Salvação, eu não sei de nada - Momo sorriu, adorando o meu incômodo. - Mas, definitivamente, ela precisa de um vestido rosa.

                   - Para o inferno com isso. Não enchem o saco.

                   - Posso ajudar? - perguntou uma vendedora sorridente, que poderia ser a mãe de algum colega da escola.

                   - Na verdade, pode - Chaeyoung respondeu com animação. - Vocês fazem ajustes nos vestidos?




                   Uma hora depois, o porta-malas estava cheio de sacolas de compras, e eu tinha também um ticket de alfaiate para pegar o vestido na semana seguinte.



                    - Podia ter sido pior - Chaeyoung disse, dando tapinhas no meu ombro quando entramos no carro. - Você podia ter gastado duas horas provando tipos diferentes de vestidos pregueados com sua mãe.

                    - Você não conhece a mãe dela - Momo riu. - Teriam sido três horas. E um corte de cabelo surpresa.

                    - Quando foi que vocês duas se uniram? - resmunguei.

                    - Pelo visto, demoramos muito - Chaeyoung sorriu. - E aí, quem quer estudar para o testo do professor Kwon?

                    O horário de Momo na escola era o contrário do nosso; ela primeiro tinha Inglês, depois História.

                   - Que tal vocês simplesmente me darem as respostas no intervalo de amanhã? - Momo sugeriu. - Bom, vamos dar o fora do Prisma Center agora que a gente já conseguiu o que queria.

                    - Vamos estudar em algum lugar ou eu deixo você na Fail Whale? - perguntei.

                    - Vamos estudar - Momo suspirou.



                     Fomos até o Legacy, um gigantesco aglomerado de lojas perto da escola. Era legal espalhar as nossas coisas na cafeteria da livraria Barnes & Noble, tomando café e estudando com outras  pessoas como se fosse algum tipo de atividade social. Nunca passara por tal experiência antes.


                     Quer dizer, passei, sim, quando Nayeon insistia que a gente fizesse a lição de casa juntas na Starbucks, logo que começamos a namorar. E isso significava principalmente que ela ia ficar esfregando a minha perna por baixo da mesa até a gente ter de desistir de estudar e voltar para casa dela, já que seus pais nunca estavam por lá. Portanto, acho que nunca estudei de fato com outras pessoas. Claro, Chaeyoung me provocava, fingindo que tinha mexido na minha bebida quando eu voltava do banheiro (mas não o fizera, só queria me deixar desconfiada), contudo a gente conseguia estudar pra valer.


                     Quando já estávamos razoavelmente preparadas para o teste, era tarde.

                 - E aí, Myoui? - Momo disse. - Posso estar enganada, mas acho que você vai me pagar o jantar porque eu a ajudei muito na escolha do sapato.

              - Tá bom - concordei. Sempre fora assim, mesmo quando éramos pirralhas. Meus cinco dólares por semana tinham financiado a mania dela por certos bonequinhos de goma e cartas do Pokémon. - Vou ligar pra minha mãe avisando que não estaria em casa para o jantar.

                     Peguei o celular, fui até a seção de revistas e rapidamente assegurei minha mãe de que não, não íamos comer fast-food, e de que, sim, tinha comprado tudo de que precisava. Mas a conversa não ia terminar tão cedo, então me sentei num banco e folheei um exemplar da Rolling Stone que alguém tinha esquecido, desejando que ela aprendesse a teclar mensagens.

                     - Sim, comprei... mocassins ou algo assim... com botões de borracha, lembrei! É, sei lá, meio castanho avermelhado. - Suspirei, torcendo para que ela predesse o interesse. - Mãe - forcei. - Todo mundo está me esperando, vou desligar... Sim, chego antes das nove. Tá bom, tá bom. Tchau.

                     - Ah, cale a boca - eu disse quando voltei para a mesa da cafeteria.

                     - Mas eu não falei nada - Momo deu um sorriso largo.

                     - O seu silêncio está me julgando.

                     - É provável que sim - Momo admitiu.









                  Cruzamos o estacionamento e fomos até o In-N-Out Burguer, que tecnicamente não conta como fast-food, já que temos de esperar pela comida.

                  - Já ouviu falar do cardápio secreto deles? - Momo perguntou a Chaeyoung. - Porque você pode pedir um monte de coisas. Vaca preta, batatinhas com cara de bichinho...

                  - Claro. - Chaeyoung virou os olhos. - Eu já morei na Califórnia.

                  - Não diga! Mesmo? - Momo brincou.

                  - Vocês sabem das palmeiras? - perguntei. Ambas me olharam. Forcei um sorriso. - Existem duas palmeiras plantadas em X do lado de fora de todos os In-N-Outs - expliquei. - Tem a ver com algum filme antigo de que o dono gostava, porque no filme tinha um tesouro enterrado ali.

                  - Que horror! Fazendo de conta que fast-food é como um tesouro enterrado - Chaeyoung comentou.

                - Sei lá, acho legal. A maioria das pessoas não sabe disso, mas, quando a gente sabe, sempre porcura pelo X toda vez que passa perto de um In-N-Out.

                - É como o IHOP* - Momo disse. - O meu primo chama de "dohi", que é IHOP invertido. Isso fica na cabeça da gente. Da próxima vez que você passar por um, vai ver um dohi! Vá por mim.

                  Imediatamente, pensei nas cadeias de hidrocarboneto da Química Orgânica; a mesma coisa de ponta-cabeça, e saber disso muda toda uma perspectiva. Quase comentei o fato, já que Chaeyoung saberia do que estava falando, mas não o fiz. Não por que achariam que eu era esquisita ou nerd, mas porque esse momento estava tão perfeito que não precisava de mais nada.

                  - Mina - cochichou Momo, quando pegamos o pedido. - Sabia que Kang Seulgi trabalhou aqui?

                  Dei de ombros.

                  - Devem pagar bem.

                  Seulgi estava na minha classe de Matemática. Era uma garota inexpressível, exceto pelo carro - um incrível Honda turbinado, o tipo que todo mundo da escola chamava de "foguete".

                  Estávamos na maquina de refrigerante quando ouvi uma gargalhada conhecida. Fiquei tensa na hora.

                  - Ai, quero morrer! - Momo se apoiou na máquina, olhando para eles.

             Claro. Nayeon, Jeongyeon e Moonbyul se reuniam no lugarzinho perto da janela onde sempre costumávamos sentar quando vínhamos aqui.

                  - Acha que devemos pedir pra viagem? - Momo cochichou.

                 - E ir pra onde? - perguntei. - Não quero hambúrguer no meu carro porque vai ficar com cheiro de hambúrguer, não quero correr esse risco!

                  - A gente pode guardá-los no porta-malas - Momo sugeriu, em desespero.

                  - Não vou comer hambúrguer que ficou no porta-malas de ninguém - disse Chaeyoung.

                  - Podemos comer no estacionamento - disse Momo.

                  - E não seria nada óbvio... - virei os olhos. - Eles estão bem na janela.

                  Ficamos emboladas junto da bisnaga de ketchup, dando uma olhada para a mesa. Eles tinham acabado de fazer o pedido e obviamente não sairiam tão cedo.

                   Um dos funcionários do In-N-Out, um garoto de outra escola, levou mais três hambúrgueres e batatas fritas para a mesa deles.

                   - Oi, Mina - chamou Kang Seulgi. - Jinyoung levou o pedido para a sua mesa.

                   Encarei Seulgi, sem compreender. E aí me dei conta de que aqueles sanduíches eram os nossos.

                    - Maravilha - respondi, sem graça. - Obrigada.

                    - Que merda! - Momo xingou baixinho.

                    - Bom, vamos lá - eu disse, como se estivéssemos hesitando diante de um velório.

                    - Ah, nossa quer dizer que eu vou ficar com as suas antigas amigas? - Chaeyoung sorriu com ironia.

                    - Comporte-se - avisei.

                    - Do jeito que você fala, parece até que escovo os dentes e afio a lingua toda manhã - Chaeyoung reclamou.

                    - Ta mais pra escovar os dentes e embotar a inteligência - disse Momo.








                  Foi Jeongyeon quem nos viu primeiro. Fazendo a voz de barítona ecoar pelo restaurante todo ao erguer o refrigerante no ar em um tipo de brinde, ela grutou:

                  - E aí, Myoui! Senta a bunda aqui!

                  - Oi - eu disse, acanhada, enquanto nos arrastávamos até a mesa. - E aí?

                  - Só relaxando - Jeongyeon respondeu.

                 Moonbyul fez um sinal de cabeça animada. Estava comendo um sanduíche tipo 4 x 4 animalesco, grudento, do qual escorria um monte de carne e molho. Na bandeja havia outro sanduíche idêntico, porque talvez um só não bastasse.

                  - Que engraçado - eu disse -, Seulgi mandou a nossa comida pra mesa de vocês.

                  - Quem? - Nayeon perguntou, meio confusa.

                  - Seulgi - repeti. - A menina do balcão. Ela é da nossa escola.

                  Não sei como ela não sabia quem era. Depois lembrei que Nayeon sempre fez isso, fingir que não sabia de que colega a gente estava falando, como se estivesse acima desse tipo de lembrança.

                   - Ah - Nayeon franziu a tesa, sem interesse. - Bom, tanto faz. Estão aqui. Juntem-se a nós.

                   - É, tem espaço de sobra. Se enfia aí - disse Jeongyeon.

                   Não tínhamos combinado, mas eu sabia que o plano era pegar os sanduíches e calcular que mesa ficava mais longe daquela, o melhor lugar para curtir o nosso jantar. Mas não podia recusar o convite. Não depois que tinha sumido sem explicações desde que as aulas haviam começado.

                   - Tudo bem - concordei, encolhendo o ombro e me ajeitando no banco. Senti a mão de Chaeyoung na minha manga, como se quisesse me dizer que ela se sentaria primeiro, para que eu ficasse na ponta, mas cerrei os dentes e escorreguei pelo assento de couro, pois não queria que meus amigos soubessem como estava inútil. - Onde está Jihyo? - perguntei, desembrulhando a comida. Virei metade das batatas na bandeja e, sem dizer nada, passei para Chaeyoung a embalagem de papel, já que estávamos dividindo.

                   Nayeon me observou dividindo a embalagem de batatas como se isso fosse significativo.

                   - Ficou presa com alguma merda administrativa, nem sei o quê. Mas a gente vai poder conhecer a sua nova amiga. - O sorriso de Nayeon era puro veneno, enquanto mexia o milk-shake.

                Começamos a comer. A três mesas dali, um garoto grande demais para a cadeirinha alta que ocupava gritava que queria sobremesa, enquanto seus pais comiam calmamente, ignorando-o.

                   - Myoui, você não foi à minha festa! - Moonbyul reclamou.

                   - É, desculpe. Como foi?

                   - Jackson Wang apareceu bêbado e jogou o barril na piscina. - Moonbyul balançou os ombros, filosoficamente. - E o chato do meu vizinho chamou a polícia. Tivemos que fingir que era um churrasquinho de paróquia.

                   - E funcionou? - Momo perguntou, confusa.

                   - Não. - Moonbyul deu outra mordida no sanduíche.

                   - E aí, Chae - Nayeon disse, animadamente. - De onde você veio? Chino? Compton?

                   Chaeyoung sorriu diante do insulto, como se achasse Nayeon muito engraçada.

               - São Francisco - Chaeyoung respondeu. - Mas já morei em um monte de lugar, na verdade. Londres, Zurique, até mesmo na Lusiana por uns dois anos.

               - Ah - Nayeon ficou meio sem graça enquanto pensava nisso. - Sempre quis conhecer a Europa.

          - Bom, pra onde a escola de vocês viaja? - Chaeyoung quis saber. Mas todas nós a olhamos sem entender. Então ela perguntou, surpresa: - Vocês não viajam? O terceiro ano não vai à Espanha ou algum outro lugar para passear por museus ou igrejas durante uma semana?

                   Eu comecei a rir.

                   - Vamos para Six Flags.

                   - Ainda bem que não é a Disney - Nayeon comentou suavemente, com uma olhada na direção de Momo.

                   Nesse momento, Jeongyeon caiu na gargalhada.

                   - Menina, que veneno - ela engasgou, espirrando comida e tentando se controlar.

                   - E você adora - retrucou Nayeon, tocando a ponta do nariz de Jeongyeon com o indicador. Foi tão meigo que eu quase vomitei em cima da minha adorável pilha de batatas.

                   - E aí, todo mundo estudou para o teste do professor Kwon? - perguntei sem pensar, querendo logo mudar de assunto.

                   - Que teste? - Moonbyul, nervosa, perguntou.

                   - PA Euro - Chaeyoung respondeu.

                   - Nenhuma de nós faz essa. - Jeongyeon deu um risinho, enchendo a boca de batatas fritas.

                   - É o terceiro ano - Moonbyul disse. - Só tenho cinco matérias contando o tênis.

                   - Contando o tênis! Haja colhões! - Momo resmungou.

                   Chaeyoung riu com desdém, e eu tentei nao rir.

                   Jeongyeon estendeu a mão e roubou um punhado de batatas do prato de Nayeon. Ela fingiu um beicinho e deu um tapa de leve na mão dela, que enfiou tudo na boca, rindo.

                    - Estou com fome - Jeongyeon disse, desculpando-se. - Treinei duro esta tarde.

                    - Foi mesmo! - Moonbyul confirmou. E ambas bateram os punhos engordurados no porta guardanapo. Momo recuou.

                    - E aí, Mina, por que não está mais se sentando com a gente no almoço? - perguntou Nayeon.

                    Todos os olhos se voltaram para mim. Dei de ombros e tomei um gole da minha bebida, ganhando tempo. A família com o garoto brincando deixou as bandejas e o lixo ao se levantar.

                     - É que... - comecei, sem saber como continuar.

                     Ela queria mesmo que eu dissesse em voz alta? Que para mim tudo aquilo parecia esquisito, como se só me quisessem por perto por pena? Que tinham sido péssimas amigas quando eu estava no hospital? Que ela tinha me sacaneado na noite do acidente e que eu a culpava um pouquinho pelo que tinha acontecido? Que, se fosse preciso dizer, eu preferia almoçar na maca da enfermaria a testemunhar diariamente ela se sentando no colo de Jeongyeon?

                     Felizmente, Momo me salvou.

                     - Myoui está no time de debates agora.

                     Todas caíram na risada, como se Momo tivesse dito que eu tinha me reunido com as meninas que traziam leptops para a escola a fim de ficar jogando durante o almoço.

                     - É mesmo? - Jeongyeon perguntou.

                     - Claro - respondi. - Por que não?

                     - Podemos conversar? - Nayeon pestanejou, curvando a boca num sorriso perigoso.

                     Espontaneamente, Chaeyoung e Momo se levantaram para que eu saísse do banco. Num silêncio pesado e constrangedor, segui Nayeon até o balcão de condimentos.

                     Não tínhamos mais nos falado. Não desde a festa do Im Jae Bum, quando ela correra atrás de mim, insistindo que não desistisse do baile. E havia tanto para dizer, e não dizer, que eu nem sabia por onde começar. Mas Nayeon obviamente sabia.

                     - O que aconteceu com você? - ela perguntou. - Fica saindo com Hirai Momo e fazendo parte do time de debate?! - Nayeon ainda usava a minissaia do grupo de torcida, fitas emoldurando o rabo de cavalo e uma patinha azul pintada na bochecha. Mas a expressão dela não sugeria animação. - E aí? - ela insistiu, esperando uma explicação.

                     Mas, do meu ponto de vista, eu não deveria justificar nada a ela. Nada sobre algo tão trivial, que era com quem eu almoçava.

                     - Então, você e a Jeongyeon - retruquei. - Maravilha, vai ter o meu voto para rainha da escola.

                     - Dá licença! - Nayeon protestou, com veemência demais. - Não é por isso que estamos juntas.

                     - Claro que não. - Mantive o sorriso firme, percebendo com o meu comentário a havia enfurecido.

                  - Isso é um absurdo - ela revidou. - Você devia voltar para a nossa mesa de almoço. O seu lugar não é com esses perdedores. Traga até a sua namoradinha da pré-escola. Não me importo.

                   - Não são perdedores. E Chaeyoung e eu somos apenas amigas.

                   - Sei... - Nayeon riu. - Porque um monte de meninas olha pra você e pensa: Ta aí uma garota de quem eu gostaria de ser só amiga.

                    - Do que está falando?

                     Tinha certeza de que a maioria das meninas me via e pensava: É a garota que quase morreu na festa do Jaebum. Costumava ser uma estrela do esporte, mas agora esta aleijada. Que pena!

                     Ergui a sobrancelha, esperando que Nayeon enunciasse o que todo mundo andava dizendo. Em vez disso, ela suspirou e sacudiu a saia como se eu a irritasse. Reconhecia esse gesto, dos tranquilos tempos em que começamos a namorar.

                    - Pelo amor de Deus, Mina! Se ligue! Você está toda mal-humorada e depressiva agora, e nem me pergunte por quê, mas sombria, profunda e tortuosa funcionam completamente pra você. Você poderia ter quem quisesse, então se livre desses marginais e pare de ficar de mau humor por causa do seu joelho distendido.

                Meu joelho distendido, certo. Sem saber o que comentar, fiz o que sempre fazia com Nayeon - com todos os meu amigos, na verdade: dei de ombros e silenciei.

                       - Escute - ela disse, aproximando-se e fazendo um beicinho charmoso. - Vou dar uma festa na próxima sexta. Você vai, tá?

                       Agora eu tinha certeza de que ela estava me paquerando. E eu não queria nada com isso.

                       - Na verdade, não. Estarei ocupada.

                       - Fazendo o quê?

                       - Num torneio de debate - respondi, com prazer. - O fim de semana inteiro, infelizmente. Fora da cidade.

                       - Você não está falando sério.

                       Inclinei-me, diminuindo a distância entre nós e ciente de que iria embora depois de dizer isto:

                       - Tão sério quanto um acidente de carro.

                       Dei-lhe o meu melhor sorriso e voltei para a mesa.












      


                  Enquanto voltávamos para o meu carro, só me virei uma vez. O sol se punha, e as luzes entre as palmeiras do estacionamento estavam recém-acesas. Mas mesmo nessa noite purpúrea, com o brilho de milhares de lampadazinhas refletidas na janela do In-N-Out, eu as via ali no canto que tinham ocupado apenas para as três. A comida delas tinha acabado, mas guardavam a melhor mesa do lugar como se ela lhes pertencesse pelo tempo que desejavam.

                  Não muito tempo atrás, eu estaria ali com elas, devorando um sanduíche duplo depois do treino, mergulhando as minhas batatas no milk-shake só para que Nayeon guinchasse de nojo. Teria gargalhado das palhaçadas de Jeongyeon e Moonbyul, porque a gente sabia que elas agiam assim só para ver quanto eu demoraria para fazê-las parar.

                   - Vamos ser expulsas - eu avisaria, balançando a cabeça. - Eles vão tirar uma foto nossa usando esses chapéus e pendurá-la na parede para nos envergonhar.

                  E talvez, assim que Kang Seulgi viesse retirar as bandejas, eu lhe pediria desculpas com o olhar, quando os demais não estivessem vendo, sabendo que não nos comportamos bem, mas tínhamos nos safado mesmo assim.

                    - Bom, foi uma beleza de desagradável - Chaeyoung comentou, sentando-se no banco da frente.

                    - Bem-vinda a O.C*, vadia - Momo propôs.

                  - Vamos embora. - Liguei a música, pois não queria falar de nada. A esttação de rádio da universidade local tocava Arcade Fire, que cantava sobre a vida nas periferias. Concentrei-me na letra até chegar a Princeton Boulevard.

                    - Estepicursor - Momo observou. - Cinquenta pontos se você acertar.

                    - Na União Soviética - eu disse, com um sotaque horrível.

                 - Não tem estepicursor na União Soviética - Chaeyoung comentou. - Mas, falando de KGB, o que foi aquilo com a sua ex-namorada?

                    Dei um riso abafado.

                    - Ela me informou que eu estava subvertendo o status quo. E também que vai dar uma festa na próxima sexta.

                    - Nós também - Momo disse. - E eu garanto que a nossa vai ser muito melhor, e muito mais exclusiva.

                    - Com certeza - Chaeyoung garantiu. - Você ainda vai ter que experimentar a maravilha de uma festa num quarto de hotel.

                    - O meu único arrependimento na vida - respondi.

                    - Não sei, não - Momo provocou. - Aquelas chuquinhas que você usava aos onze anos era bem ruim.

                    Chaeyoung riu.

                    - Ela está mentindo - eu disse. - Fisicamente, é impossivel o meu cabelo formar chuquinha.

                    - Desde quando? - Momo riu com desdém.

                 - Desde que você começou a mentir sobre ele - retruquei, entrando no estacionamento da escola, que estava quase lotado por causa do jogo da noite.

                    - Pode deixar que eu levo Chayoung pra casa - Momo disse, procurando as chaves.

                    - Eu estou bem - Chaeyoung protestou. - Não sei por que vocês têm tanto medo de coiotes.

                    - Não tenho - Momo disse. - Tenho medo de que Myoui se ofereça para guardar a bicicleta no porta-malas de novo. A gente sabe que ela vai se matar fazendo isso.

                    - Você é uma babaca - revidei.

                    - Pelo menos eu não usava chuquinha aos onze anos!











 


Notas Finais


*Internacional House of Pancakes.

*The O.C foi uma série de televisão que contava a história de um grupo de adolescentes e de suas famílias que viviam em Newport Beach, no Condado Orange, na Califórnia. No Brasil, chamava-se The O.C.: um estranho no paraíso.

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kk


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