História Tales of Arwald - The legend of the Swordmaster - Capítulo 21


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Categorias Originais
Tags Ação, Aventura, Drama, Fantasia, Fantasia Medieval, Ficção, Magia
Exibições 19
Palavras 12.548
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Violência
Avisos: Álcool, Canibalismo, Estupro, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Olá leitores! Mesma conversa de sempre: Blá, blá, blá, sinto muito pela demora, blá, blá, blá não deu pra lançar o capítulo antes. Não sei se eu disse isso antes (Aposto que sim) mas o enredo está ficando um pouco mais complexo, então qualquer erro é extremamente fatal. Não há mais muita improvisação, então o roteiro precisa ser seguido a risca, o que não é fácil, pois preciso ficar verificando cada diálogo para saber se as coisas fazem sentido, se não estou liberando demais, e etc...
A partir de agora vou ser mais honesto com quem está lendo: Não dá pra prever a data dos próximos capítulos.
Três motivos:
1. Tá difícil escrever.
2. Estou ofuscado por Tesseract por motivos específicos.
3. Escrever está tomando MUITO do meu tempo. Cansativo, massante, enfim... Tá legal, mas tá também cansativo.

Bom, é isso aí. Eu sei que, tecnicamente, não preciso dar desculpas por causa de demora por que provavelmente vocês sabem que não é fácil gastar horas e horas (69 horas no caso desse capítulo) pra escrever... Mas gosto que as pessoas saibam por que eu atraso tanto as coisas.

Sem mais delongas, espero que gostem do ''primeiro dia em Azagal'' e boa leitura a todos!

Capítulo 21 - Arena!


Fanfic / Fanfiction Tales of Arwald - The legend of the Swordmaster - Capítulo 21 - Arena!

Ato 01 — Arena!

Depois de várias dificuldades em nossos longos dias de viagem, finalmente chegamos ao grande reino de Azagal! E como era grande... Ao menos três vezes maior que Hyland, eu diria.
As planícies verdes eram lindas. Tínhamos uma incrível visão das montanhas ao longe, além de uma fortaleza incrivelmente grande que ficava no meio do quase infinito gramado que pisávamos. Um reino como Azagal realmente precisa de uma defesa impenetrável. Os cavaleiros azuis estavam lá exatamente para isso.
Mesmo os subúrbios de Azagal eram tão impressionantes quanto os de Hyland... As pessoas ali pareciam ser bem educadas, além de aparentarem ter vidas calmas e sem tantos problemas externos. Nós sabíamos o que o reino estava passando... Mas o povo dali não.
As pontes que cruzavam o distrito das planícies... O rio que em centenas de vezes se ramificava... Aquele lugar tinha vida em todos os aspectos. Era tão movimentado quanto Algalord, tão bonito quanto Nefaria e com estruturas tão grandes quanto as de Whinnem.
Os negócios pareciam estar por toda a parte, mesmo na região menos nobre do reino. As feiras eram extremamente comuns e o comércio de armas e armaduras constante. Mesmo se eu pudesse contar cada um dos guerreiros e viajantes que vi, me perderia facilmente. Os famosos ‘’heróis’’ dos quais as pessoas comentavam, podiam ser vistos frequentemente. Homens, mulheres, jovens... Todos pareciam ter corações grandes e valentes. Aquele lugar definitivamente era incrível! Mesmo tendo passado tanto tempo em Hyland, um reino com cidades grandes e um pouco chamativas, não consegui parar de reparar em tudo que me rodeava enquanto explorávamos Azagal. Aqueles distritos existiam há eras... Pisar num solo tão antigo, para mim, parecia ser um privilégio.

Tentei interromper Alice várias vezes depois de deixarmos Koda e Zestris nos estábulos mais próximos. Mesmo que eu não quisesse falar disso, já que estava mais preocupado em explorar aquele lugar como uma criança quando vai pela primeira vez numa feira de objetos usados, Alice insistia em discutirmos sobre Ayla. As duas falavam mais sobre o assunto do que eu... Alice parecia preocupada com o fato de Ayla estar nos seguindo e estarmos constantemente entrando em combates contra infernais. Isso também me preocupava... Envolvê-la em nossos problemas não parecia uma boa idéia. A menos que ela se tornasse alguém como Alice, seria frágil como uma pena em relação a nós... Sem chance de se defender, praticamente. Mesmo assim ela não queria nos deixar. Queria ajudar! Mesmo que isso custasse sua vida... Naqueles últimos dias eu pude conhecer mais sobre aquela pequena elfo que tinha um coração maior do que poderia caber em seu peito. Uma parte de mim queria deixá-la ir para que seguisse com sua vida... Mas outra parte queria que ela ficasse. Sua companhia aos poucos estava se tornando importante para mim... De certa forma, acho que me dispersava dos meus pesadelos e pensamentos ruins. Um dom que somente Ayla tinha...

— Você disse que nos separaríamos quando chegássemos aqui! Sua presença conosco está se tornando um perigo para si mesma... — Disse Alice enquanto caminhávamos pela cidade. Ela queria convencer Ayla a seguir seu caminho... Mas já havia falhado antes de começar.

— Eu posso ajudá-los! Sei que posso ser útil! — Insistia Ayla, à minha direita, enquanto Alice a encarava com um olhar preocupado à minha esquerda. Aquela discussão estava desconfortável para mim...

— Por quanto tempo acha que os nossos inimigos não irão tentar te esmagar antes de nos atacarem sabendo que você é uma clériga?! — Ás vezes Alice se deixava levar demais pelo que parecia lógico... Mas de fato fazia sentido. Se eu tivesse que lutar contra um grupo de inimigos onde um deles é capaz de curar e ressuscitar, com certeza o clérigo seria o meu primeiro alvo. Algo assim poderia acontecer cedo ou tarde...

— Se eu me tornar uma vassala, posso ser de maior ajuda! — Ayla respondeu, aumentando o tom da voz. Mesmo que tentasse, não conseguiria gritar mais do que Alice.

— Já discutimos sobre isso! Não podemos! — Alice disse, aumentando também o tom da voz. Aquele já era o meu limite...

— Já chega! — Gritei após parar no meio da rua. Algumas pessoas olhavam para nós como se realmente fossemos muito estranhos. — Vocês não podem parar de discutir só por enquanto?

— Sorey, não podemos adiar isso por mais tempo! — Afirmou Alice, sem desistir do que achava correto. Eu também concordava com ela... Mas...

— Olha... Só por enquanto, vamos ter a ajuda da Ayla, ok? — Aquela parecia ser a melhor opção dentre todas. Dar mais algum tempo... Se a gente simplesmente a abandonasse naquele dia, algo de ruim poderia acontecer com ela... Assim como aconteceu com Maotelus. Teríamos que ter certeza sobre o que estava acontecendo naquele lugar.

— Mas Sorey... — Alice insistiu, olhando para mim com aquela expressão de preocupação que vinha de dentro. Eu queria simplesmente poder concordar com ela... Mas as duas escolhas pareciam perigosas para Ayla. A mais garantida seria tê-la conosco, assim poderíamos protegê-la.

— Por favor, Alice, só por enquanto... — Falei com a mão esquerda no ombro dela. — Para que não aconteça o mesmo que aconteceu com Maotelus... — Isso pode ter parecido um apelo emocional... Ainda mais por que Alice tinha ficado bastante abalada com a morte de Maotelus. Acredito que tanto quanto eu... Afinal, graças a ele a maldição de cegueira dela havia sido curada... Mas na verdade, eu realmente estava preocupado se caso algo assim voltasse a acontecer.

— Tudo bem... — Ela respondeu de cabeça baixa. — Você é o suserano, você decide... Mas cumpra com a sua palavra, mestre da espada. — Alice olhou para mim bastante séria. — Isso não pode se estender além do momento em que resolvermos os problemas neste reino.

— Tudo bem, eu prometo. — Acho que falei da boca pra fora... No fundo eu ainda estava incerto sobre o que faríamos em relação à Ayla... Mas acho que uma boa parte de mim pretendia fazer as coisas ao modo de minha cavaleira.

— Obrigada mestre! — Ayla disse de repente, me abraçando pela direita. Acabei me assustando um pouco, mas já havia me acostumado com as reações repentinas dela...

— Ok, ok... Agora vamos ao que interessa... — Falei enquanto ia afastando Ayla aos poucos. — Nós precisamos dar um jeito de encontrar os cavaleiros possuídos...

— O que não falta nesse reino são cavaleiros. Será que todos estão sendo possuídos? — Questionou Ayla, tentando ser de alguma ajuda.

— Acho que não. Se encontrarmos algum, irei reconhecê-lo na hora. Só assim vamos poder fazer algumas perguntas... — Respondi um pouco pensativo. Desde que entramos naquele reino não senti nem mesmo uma pitada de malevolência proveniente de presença demoníaca. Os cavaleiros que vimos a trabalho também não pareciam estar possuídos. Com alguma sorte acharíamos ao menos um.

— Sugiro que procuremos alguma sede da cavalaria. É o caminho mais rápido. —Alice disse enquanto olhava em volta. Não parecia estar brincando... Mas ambos sabíamos que poderia ser algo perigoso.

— Não seria perigoso se fossemos atacados por muitos cavaleiros possuídos? — Ayla perguntou, com um pouco de receio sobre o plano de Alice.

— Se algo acontecer, não há o que temermos. — Alice encarou a lança em sua mão esquerda por alguns instantes. Não estava com o escudo, mas não significa que era menos confiante quando tinha apenas sua arma primária. — Estamos bem preparados.

— É assim que se fala. — Afirmei, correspondendo a valentia de minha vassala. — Vamos andar um pouco por aí, até por que, não podemos desperdiçar a chance de conhecermos a cidade enquanto procuramos pelo nosso objetivo. — Falei, mudando um pouco de assunto. Como não havia malevolência por ali, eu estava me sentindo um tanto... Descontraído.

Alice parecia bastante focada no que precisávamos fazer... Mas assim como Ayla, não discordou que seria uma boa conhecermos um pouco de Azagal durante a caminhada.
Com toda a segurança daquele lugar, não demoramos para achar os primeiros cavaleiros que não aparentavam estar muito ocupados. Decidimos que iríamos pedir a localização de alguma sede da cavalaria, assim poderíamos encontrar outros como eles, tendo maiores chances de achar algum possuído.
Eram cinco cavaleiros. Três homens e duas mulheres.
O que chamava mais atenção era um grandão. Não era tão velho, provavelmente por volta dos vinte e sete anos, mas tinha jeito de experiente. Assim como a maioria das pessoas daquele reino, era loiro. Sua armadura era um pouco maior que a dos outros colegas, e assim como a moça ao seu lado, ele não carregava nenhuma arma. A garota era loira, mas num tom bem mais forte que o de Alice... Seus cabelos eram realmente dourados. Tinha olhos azuis quase no mesmo tom que sua bela capa. A armadura dela era impressionante... Definitivamente era mais cara que a de seus parceiros. Ela tinha um escudo de aço, pequeno, mas que parecia bastante resistente. Mesmo sendo a mais baixa entre os cinco, ela mantinha a cabeça erguida o tempo todo. Tinha o mesmo olhar frio que Alice mostrou pouco depois de nos conhecermos, quando falou com um guarda em Delphi. Esbanjava um pouco de superioridade.
Os outros três pareciam ser bem inferiores... Tanto em poder como em patenteamento. Um deles, o de cabelo escuro, tinha uma espada média e um escudo bem grande nas costas. Tinha uma armadura menor que a do loiro ao seu lado, mas ainda assim era barra pesada. A parceira à direita, um pouco mais alta que a outra garota, tinha duas espadas na cintura. Tinha cabelos castanhos claros e um longo rabo de cavalo, mas era um pouco diferente do de Alice. Vestia uma armadura bem leve comparada às de seus parceiros, mas isso com certeza a compensava em combate. O último cavaleiro dentre os cinco, era um lanceiro. Não usava uma arma pesada como a de Alice, e provavelmente era focado na velocidade. Ele tinha uma cicatriz vermelha que passava verticalmente pelo pescoço e chegava até o maxilar, do lado esquerdo. Imagino que tipo de inimigo ele deve ter enfrentado para conseguir aquela marca...
Nos aproximamos deles enquanto conversavam sobre algo aparentemente importante. Nem mesmo nos viram chegando.

— Com licença... — Alice disse de repente, chamando a atenção deles. Pelo pouco, pouco mesmo, que ouvimos da conversa, estavam falando sobre alguma estratégia de combate que iriam usar futuramente. Os cinco se viraram para nós após pararem de falar.

Não parecia haver nada de errado com nenhum deles... Todos aparentavam ser... Humanos. Olhei para Alice de canto e balancei a cabeça brevemente. Isso foi o suficiente para ela entender que não eram cavaleiros possuídos.

— Onde podemos encontrar alguma sede da cavalaria? — Questionou a minha parceira, sem mostrar timidez.

— Alguma denúncia? Ou apenas algo importante que precisam tratar...? — Perguntou a loira que estava à nossa frente, olhando bem para Alice. Ela havia percebido que estava falando com uma ‘’igual’’ mais cedo do que esperávamos. Não só notou pela lança que Alice estava carregando, mas também pelo brasão visível dentro de sua capa, já que ela estava com o braço esquerdo levantado. — Aliás... Acredito que conheço este símbolo. — A cavaleira afirmou, antes que Alice pudesse dizer alguma coisa. Não tirava os olhos do objeto. O encarava como se realmente já o tivesse visto antes.

— Me chamo Alice, filha de Cedrico Serenity, da ordem dos cavaleiros azuis de Hyland. — Disse Alice, se apresentando enquanto estendia a mão direita.

— Haylie Naelareon, capitã do esquadrão Grifo, divisão de contra ataque. — A loira respondeu, apertando a mão de Alice logo em seguida. Aquela situação estava um pouco esquisita... O olhar delas duas não era muito legal. Após separarem as mãos, Haylie virou um pouco o rosto para a direita e deu uma ordem aos outros cavaleiros. — Voltem para a sede. Vocês têm trabalho a fazer. — Ela afirmou com bastante frieza. Três dos parceiros saíram, mas o mais velho, o loiro que estava ao lado dela, se manteve ali parado. — Você também, cavaleiro Myles. — O homem suspirou e seguiu o mesmo caminho que os demais, tendo olhado para nós alguns instantes antes. Acho que eu e ele estávamos sentindo um mau pressentimento sobre aquela conversa...

Assim que os outros cavaleiros se afastaram, Alice julgou que era a hora de continuar. — Onde você viu o brasão de minha família? — Alice perguntou sem tirar seus olhos dos de Haylie.

— Há alguns meses, um cavaleiro chamado Halgor Serenity veio até Azagal com o objetivo de negar a missão principal do esquadrão de ataque Tigre branco. — Explicou a capitã Haylie, parecendo bastante convincente.

— Por que ele faria algo assim...? — Questionou-se a minha cavaleira, sem entender o motivo de o tio ter saído novamente do conforto de Hyland para resolver assuntos em Azagal. Mesmo sendo um homem tão ocupado por ter uma patente bastante alta na cavalaria, não parecia haver motivo aparente para ele interromper o trabalho de um esquadrão Azagaliano assim do nada.

— É o que me pergunto todos os dias. Por que negar uma missão tão simples ao norte da cidade de Nefaria? Graças a isso, o esquadrão Tigre branco foi movido para uma missão ao leste daqui. — Haylie afirmou, com um olhar cada vez mais sério. Como se Alice fosse responsável só por ser do clã Serenity.

— Sinto muito se meu tio se intrometeu nos assuntos da cavalaria daqui. Sei que... — Alice hesitou um pouco em terminar de falar. Acho que nem ela acreditava no que pretendia dizer, já que odiava Halgor. — Ele deve ter tido um bom motivo para pedir para abortarem a missão...

— Talvez... Mas se tivesse, ele não se esconderia tanto de mim. Como vocês, da cavalaria patética de Hyland, atrevem-se a se envolverem em nossos problemas desta forma?! — A capitã Haylie parecia realmente revoltada. Eu pensei em intervir antes que Alice dissesse alguma coisa, mas não consegui. Havia algo naquela garota que chamava a minha atenção... Nos olhos dela... Era como se as consequências do que aconteceu com o tal esquadrão Tigre branco fossem maiores do que poderíamos imaginar.

— Se a ameaça está em nosso território, somos nós que decidimos como a interceptamos. — Afirmou Alice, sem perder muito a postura. Apesar de ter sido chamada de patética... Afinal, mesmo tendo deixado a cavalaria de lado para me apoiar, ela não deixava de ser uma servente do rei de Hyland. Como uma cavaleira azul, ela ainda tinha o dever de proteger Hyland, assim como Azagal, já que os dois reinos formam uma aliança.

— Todos vocês dizem a mesma coisa, mas nem mesmo têm a capacidade de se protegerem sozinhos. — Disse Haylie, num tom arrogante. Definitivamente ela estava revoltada com aquilo. Não foi a toa que a capitã pediu que os outros cavaleiros se retirassem... Aquela discussão mais se parecia com um confronto pessoal, embora as duas não se conhecessem muito bem. Ayla e eu só podíamos observar.

— Nós podemos não ter cavaleiros tão fortes quanto os daqui, mas o tecido de nossas armaduras é tão azul quanto o das de vocês! — Alice disse em voz alta. Para a nossa sorte, não tinha muitas pessoas naquele local... Seria um problema se outros cavaleiros escutassem. Assim como Haylie, ela estava ficando alterada com a discussão.

— Mas que piada... O que teria sido de Hyland se os verdadeiros cavaleiros azuis não tivessem derrubado os orcs? As almas de vocês são pequenas demais... Vocês não são dignos de vestirem nossa cor! — Insistiu a capitã, se aproximando mais de Alice. As duas ficavam se encarando com olhares sinistros... Mesmo com Alice e sua lança logo à frente, Haylie nem mesmo hesitava em falar daquela forma.

— C-Como ousa?! — Alice perguntou, irada. Aparentemente não tinha mais o que dizer... Talvez Haylie estivesse certa. Hyland não parecia estar no mesmo nível de Azagal, e os cavaleiros de lá sempre foram menos poderosos e estiveram em menor quantidade... Mas tinham corações grandes. Aqueles que se sacrificaram pelo rei Bradley durante a invasão do pyromancer... A coragem de seus atos jamais será esquecida.

— Aquele homem que carrega o nome de seu clã... Foi o responsável por mortes que poderiam ter sido evitadas. Tanto de cavaleiros, como de moradores do vilarejo que ele escolheu deixar ser destruído. — Disse Haylie, abaixando a cabeça. — Vocês não deveriam usar o nosso nome. — Ela completou, olhando diretamente para os olhos de Alice.

— A culpa não foi de todos nós! — Alice respondeu, indignada com as palavras da capitã.

— Alice, tenha calma... — Falei de repente. Admito que foi sem pensar... No fundo eu não queria interferir pelo meu próprio bem. As duas estavam tendo uma discussão bem séria... Era algo que elas deveriam decidir.

— Não posso tolerar tal rebaixamento de nossa força! — Afirmou a minha cavaleira, me olhando apenas de canto. Apertava o cabo da lança com mais força... Para a nossa sorte, Alice tinha a cabeça no lugar. Mas mais ainda Haylie...

— Se você se acha tão forte, cavaleira Serenity, me vença num duelo! — Disse a capitã Haylie, se deixando levar pelo impulso. Fiquei tentando imaginar o quão pessoal poderia ser para ela o que aconteceu com aquele esquadrão... Acho que não posso culpá-la... Não eu. Sempre que eu olhava nos olhos vermelhos daqueles lobos infernais, me lembrava dos que mataram os meus pais. Parecia impossível controlar meu ódio por eles...

— Eu jamais recusaria uma forma tão honrada de provar o valor de meu povo. — Respondeu Alice, calma. Não imaginei que ela fosse aceitar... Mesmo sendo uma garota forte, não era a sua cara resolver problemas com a força bruta. — Aceito o duelo.

— H-Há um jeito mais pacífico de vocês resolverem isso! — Afirmou Ayla ao meu lado. Não parecia confortável com aquela discussão... Imagine se as duas tivessem que duelar!

— Pense bem Alice. Isso é desnecessário... — Falei, concordando com Ayla. Seria mais simples se elas pudessem resolver apenas na conversa... Mas Haylie não mudaria seu pensamento tão facilmente, e Alice não aceitaria todas aquelas coisas que teve que ouvir. Nenhum cavaleiro toleraria algo assim...

— Não posso aceitar tamanha insolência. — Alice respondeu séria e sem mudar de opinião. Ás vezes ela era bem cabeça dura... Principalmente quando se tratava dos próprios problemas.

A capitã Haylie se virou e começou a andar na direção contrária que seus parceiros seguiram. — Insolência é você achar que é capaz de me derrotar. — Afirmou, sem medo algum. — O coliseu fica ao norte. Não há como errar.

Ela simplesmente saiu andando enquanto Alice quase rangia os dentes de tanta raiva. Eu também agiria igual se estivesse no lugar dela... Mas a verdade é que eu não consegui acreditar que seria apenas aquilo. Apenas uma cavaleira arrogante que ofende a primeira pessoa que vê pela frente... Ela nem mesmo falou de mim ou de Ayla. Nem mesmo olhou para nós por muito tempo. A atenção dela estava direcionada apenas a Alice. Acho que um ponto fraco de se fazer parte de um clã ou uma família de nome conhecido, é ter de responder pelos atos de outras pessoas... Ou até mesmo de todo o clã em questão.

— Você não precisa fazer isso, Alice. — Afirmei enquanto ela observava a capitã Haylie se afastando com passos largos, mas calmos.

— Eu preciso, Sorey... É uma questão de honra. — Alice respondeu, de cabeça baixa e ainda de costas para mim.

Suspirei e cocei a nuca brevemente, olhando para Ayla de canto. — Parece que começamos muito bem... — Falei num tom irônico. — Imaginei que as coisas em Azagal seriam mais calmas...

— Humanos estão sempre entrando em conflito. Não importa o lugar... — Disse Ayla, parecendo um pouco preocupada com a decisão de Alice, mas não se envolvendo muito. Também pensei que aquele fosse um problema dela. Uma luta de Alice, e não minha.

Tudo o que eu podia fazer era pensar no que Ayla havia dito, enquanto Alice começava a andar na direção que a capitã Haylie foi. Ela realmente estava decidida... Acredito que nem se tentasse eu poderia pará-la... E por isso a seguimos.

A caminhada foi até o norte do belo distrito das planícies. Durante o caminho, tratei de verificar cada pequeno traço e mancha de malevolência. Não havia quase nada... Claro, a malevolência em grande quantidade era causada pela influência do lorde da calamidade, mas a influência das sombras em si... O ódio, a maldade, os pecados... Tudo isso sempre existiu, assim como a malevolência que poucos podem enxergar. Mesmo tendo encontrado pequenas quantidades, não havia sinal de demônio algum... Se um demônio se encontrava em Azagal, estava muito bem escondido num ponto fixo, ou bem longe daquela região do distrito... Azagal foi o maior reino que conheci em toda a minha vida. Alice e Ayla já tinham uma noção do tamanho, mas eu só descobri o quão grande era quando pude ver as cidades de longe. Chegavam até onde a vista podia enxergar... Não há civilização mais próspera que a de Azagal. Seria um problema procurar no meio de tantos prédios, casas e pessoas...
Após algum tempo, chegamos até o coliseu que a cavaleira Haylie havia falado. Como não era um dia comemorativo para duelos, não estava tão movimentado... Mas era grande! Talvez não o maior de todos... Mas posso dizer que tinha espaço o bastante para centenas de pessoas.
Na entrada, Alice se apresentou e mostrou o brasão de sua família, seguindo para aguardar uma batalha que estava acontecendo na arena. Haylie já havia preparado tudo...
Como Ayla e eu estávamos acompanhando Alice, não pagamos nem mesmo uma moeda para entrar. Assim que terminamos de subir as escadarias que levavam até os assentos de quem apenas observaria a luta, finalmente pudemos ver como era por dentro. Tudo parecia bem organizado... Não havia muita sujeira, e a arena era semi coberta. Bom... A arena em si, na verdade, era uma exceção quando falamos de organização. Como já foi palco de batalhas entre os mais poderosos cavaleiros daquela região, estava um pouco danificada... Algumas pilastras destruídas, chão rachado e até mesmo manchas negras um dia causadas por chamas. Nem quero imaginar o que aconteceu com a pessoa que provavelmente foi atingida pela explosão que causou aquilo... De certa forma, me lembrava o pyromancer de olhos vermelhos, então tentei não olhar para as marcas.
Ayla e eu assistimos uma breve batalha entre dois duelistas e dois cavaleiros. Admito que nenhum dos quatro parecia tão forte... Não aparentavam ter habilidades fora do comum, então foi uma luta bem calma. Ayla realmente não gostava desse tipo de coisa, mesmo tendo nos seguido... Mas eu acho que me diverti um pouco. Pegamos um lugar bem perto da arena, assim podendo observar bem a luta. As técnicas de defesa de um dos espadachins eram impressionantes. Tinha uma espada bastante parecida com a minha. Suas habilidades de esquiva e defesa eram maiores até do que as minhas. Se eu duelasse contra ele, provavelmente teria muito trabalho ainda se usasse minhas mais fortes habilidades. Isso só me mostrou que eu ainda tinha muito que aprender.

Após o término da batalha em times que assistimos; finalmente elas entraram. Eu queria que aquilo acabasse o quanto antes, já que tínhamos outras coisas para nos preocuparmos... Coisas mais importantes que um problema que poderia ser resolvido na base da conversa... Mas admito que achei que poderia ser interessante ver as duas lutarem. A especialidade de Alice sempre foi lutar contra pessoas, não contra criaturas como as que encontrávamos em nossa jornada. Ali ela se sobressaía.
A capitã Haylie entrou primeiro, assim que a primeira dupla saiu da arena. Um deles estava acabado, então o outro o ajudava a andar. Tinha sido uma luta difícil... A cavaleira vinha de cabeça erguida e passos largos. O escudo estava no braço esquerdo, como antes. O que estranhei foi a falta de uma arma. Me perguntei se ela realmente pretendia lutar apenas com um escudo. Talvez fosse uma conjuradora, pensei. Não é comum encontrar cavaleiros conjuradores, mas... Existe todo tipo de gente, não é mesmo?
Alice veio em seguida, já sem sua capa, alguns instantes depois de a oponente parar no meio da arena. Carregava a lança sobre o ombro direito. Mesmo daquela distância pude ver o olhar dela... Queria mesmo derrotar Haylie. Alice não aceitou qualquer ofensa que foi direcionada à cavalaria de Hyland... Definitivamente era uma questão de honra.
Sem o escudo, imaginei que Alice poderia vencê-la com muita facilidade... Mas acho que subestimei a capitã Haylie. Ela era mais forte do que aparentava.

Assim que ambas se posicionaram numa distância considerável uma da outra, se cumprimentaram antes do duelo. Algo comum entre duelistas. Apenas abaixaram suas cabeças por alguns instantes e depois voltaram a trocar olhares um tanto hostis.

— Então você realmente veio... Cavaleira Serenity, de Hyland... — Disse Haylie, não parecendo muito impressionada com a chegada de Alice, no entanto.

— Um cavaleiro de verdade jamais recusaria um convite como este. — Alice respondeu, sem desviar o olhar dela.

— Você tem coragem para me enfrentar... — Afirmou a capitã, ajeitando o pequeno escudo no braço esquerdo e preparando a mão direita. Me perguntei o que ela faria quando a luta começasse...

— Irei lhe mostrar que os cavaleiros de Hyland possuem mais do que apenas honra e coragem! — Alice disse em voz alta, fazendo um movimento rápido com a lança antes de deixá-la em posição de guarda, com a ponta virada para frente. Se ela fosse dar tudo de si, poderia até ser um duelo interessante... Mas eu torci para que ninguém se machucasse.

Após ver Alice completamente preparada para o combate, Haylie abaixou a cabeça e sussurrou uma palavra que eu definitivamente não pude escutar. Ela abriu a mão e estendeu o braço direito para o lado. Os brilhos amarelados apareceram, e a arma dela lentamente começou a tomar forma. Aquilo foi bem menos chamativo do que a maneira que o rei Bradley usou para conjurar sua arma... Mas ainda assim, incrível. Aquele tipo de habilidade parecia ser para poucos... Naquele momento eu percebi o quão fortes são os cavaleiros azuis de Azagal.
Não parecia ser uma arma comum... Além de dourada em boa parte, era grande para uma simples espada de uma mão. Larga... Sua lâmina parecia ter uma capacidade de corte além do comum. O guarda mão era longo, com diversos detalhes. Poderia ser usada com ou sem o acompanhamento de um escudo. Mas claro... Jamais por um amador como eu. Ao menos naquela época... Aquele tipo de arma eu não poderia empunhar.

Assim que a espada da capitã Haylie terminou de tomar forma, a batalha começou. Ela não hesitou em correr na direção de Alice e saltar para um ataque direto e fatal. A altura foi maior do que eu esperava quando a vi tirando os pés do chão... Aquele era o tipo de coisa que o capitão Varlian parecia conseguir fazer. O poder dela... Com certeza era maior do que pensávamos.
O corte vertical perfeitamente preparado não poderia ser defendido por uma lança sem que o cabo fosse cortado ao meio. Alice sabia bem disso... E por isso ela escolheu esquivar. O poder daquela espada desconhecida poderia ser equivalente ao escudo em sua mão esquerda. Se Alice subisse a lâmina de sua lança e deixasse que Haylie fosse perfurada por ela, qualquer coisa poderia acontecer... Mas eu duvido muito que ela simplesmente fosse deixar um buraco abrir em sua barriga.
A lâmina da capitã Haylie foi de encontro com o chão um instante depois de Alice dar um salto baixo, porém longo, para trás. O impacto foi forte demais até para uma espada como aquela. Não era tão forte quanto um profissional usando a sutra interior... Mas muito mais forte do que o que eu conseguiria fazer no meu nível.
Alguns pedaços de pedra do chão voaram para longe, mas acho que Alice teve a sorte de não ter sido atingida por nenhum. Alguns instantes depois do impacto no solo, ela partiu para o contra ataque, tentando uma perfuração direto no peito de Haylie. Ela conseguiu se defender... E como se defendeu... Apenas virou um pouco o quadril e posicionou da forma correta a perna direita, movimentando sua espada para o alto e a impactando contra a lâmina da lança de Alice. Aquilo foi o suficiente para fazê-la abrir a guarda por um instante, quase cambaleando para trás. Se durasse um pouco mais, seria uma chance para a capitã Haylie avançar... Mas ela tinha um domínio quase perfeito do tempo num combate como aquele. Sabia muito bem que se avançasse seria atacada nas pernas. É o que Alice faria... Ou o que qualquer lanceiro experiente faria depois de descer a ponta da arma daquela forma.
Acho que Alice se impressionou com aquela defesa tanto quanto eu ou Ayla...

— N-Nós deveríamos parar esta luta, mestre... Uma das duas vai acabar se machucando... — Afirmou Ayla após puxar minha capa de leve. Vi em seus olhos... Ela realmente estava preocupada.

Acho que, depois daquele ataque anormal da capitã Haylie, imaginei que ao menos Alice sairia ferida... Mas não passou pela minha cabeça que ela poderia ser morta numa arena. — Eu também estou preocupado... Mas a escolha é delas. — Respondi enquanto observava Alice tentar atacar Haylie, mas sem sucesso. O escudo defendia muito bem...

— Por que humanos fazem tantas escolhas evidentemente erradas...? — Ayla questionou-se depois de cruzar os braços e virar seus olhos para a batalha na arena.

— Boa pergunta... — Falei pensativo. — Acho que está na nossa natureza. — Completei enquanto coçava a nuca.

Enquanto falávamos, o combate à nossa frente se mantinha intenso. Alice parecia um pouco nervosa... Estava ofensiva demais. Se fosse eu no lugar de Haylie, provavelmente já estaria com as minhas vestes brancas pintadas quase que completamente de vermelho. A cada defesa da capitã, mais eu me impressionava. Mesmo com um escudo tão pequeno, ela resistia aos impactos e evitava cada uma das perfurações com perfeição, sem nem mesmo deixar peça ser danificada.
Quando Alice já estava ofegante, Haylie decidiu se afastar um pouco. Já estava ficando perigoso até mesmo para ela... Assim que a frenesia acabou, Alice levantou o braço direito ainda enquanto segurava a lança em ambas as mãos. Se mantinha parada, tentando aos poucos se livrar da respiração pesada.

— Muito impulsiva. — Disse Haylie friamente. Não aparentava estar cansada... Na verdade, não estava nem perto disso. Mantinha a guarda baixa, confiante.

— Calada! — Alice gritou como resposta ao que a capitã havia dito. Após isso, correu como vento em sua direção.

Quando estava numa distância considerável, Alice deu um salto... Mas não foi um salto qualquer. Aquele era o tipo de coisa que ela só fazia quando estava lutando sério. Antes de alcançar uma altura mediana, começou um giro vertical no ar. Já bem perto de Haylie, mas um pouco acima, desceu a lâmina da lança numa velocidade incrível. Se o ataque fosse bem sucedido, Alice com certeza a mataria... Mas sabíamos que não seria uma vitória fácil, tão menos que ela chegaria a ser gravemente ferida na arena. A capitã Haylie rolou para a esquerda e conseguiu evadir completamente, mas assim que Alice botou os pés no chão, já estava preparada para o segundo ataque. Tentou um corte horizontal rápido para a direita, girando o corpo no processo. Haylie colocou o escudo na frente do rosto e evitou o ataque sem muita dificuldade. Mesmo abaixada, ela tinha um equilibrio impressionante com aquele escudo tão pequeno.
Alice fez um movimento rápido com sua lança ao redor do corpo, após isso, mantendo-a apenas na mão direita.

— Isso é loucura... As duas vão acabar se matando! — Disse Ayla, se preparando para levantar-se e fazer alguma coisa. Segurei seu braço direito, a impedindo de prosseguir.

— Não se preocupe, Ayla. Alice é forte... E tem a cabeça no lugar. Vai ficar tudo bem quando a luta terminar. — Falei a fim de acalmá-la. Se eu interferisse, Alice não me perdoaria tão cedo... Se Ayla interferisse... Nem quero imaginar em como ela reagiria. Provavelmente iria querer antecipar a partida da pequena.

— Então iremos ficar aqui? Iremos ficar apenas assistindo?! — Ayla perguntou, voltando a se sentar.

— Mantenha suas mãos curadoras preparadas, é tudo o que eu te peço. — Falei enquanto virava meus olhos de volta para a batalha. — Se algo acontecer, estarei contando contigo.

— Sim... Mestre... — Ela respondeu após alguns instantes.

Haylie partiu para o ataque e tentou diversos cortes em Alice. Cada um deles estava sendo evitado da melhor maneira possível, mas aos poucos se tornavam perigosos demais. Alice acabou sendo atingida na barriga por uma perfuração. Para a nossa sorte, ela tinha o aço da armadura... Não chegou a ficar mais do que uma leve marca. Se ela não tivesse saltado para trás, poderia ter sido devastador.

Os olhares daquelas duas... Notei que estavam cada vez mais valentes. A cada pequena parada, pareciam se desafiar à distância.
Sem qualquer medo de acabar matando a capitã Haylie, Alice foi para frente como uma flecha. A velocidade parecia ser maior ainda quando se assiste de longe. Era como se deslizasse pelo chão de pedra... A lança estava apontada para frente e bem empunhada, preparada para uma estocada poderosa. Quando estava com a lâmina bem próxima de seu peito, Haylie deu um leve salto para trás, perigosamente evitando que tivesse o pescoço perfurado. Alice insistiu, tentando uma segunda estocada, mas sem sair muito do lugar. Ao invés de sair de perto ou tentar se abaixar, a capitã virou o corpo um pouco para a direita, deixando que a lâmina de Alice passasse direto. Com um movimento rápido usando a sua espada, tentou um corte no pescoço dela, mas não prosseguiu quando notou que Alice havia se afastado um pouco para poder colocar a lâmina da lança em seu pescoço. Claro, Haylie fez o mesmo, então as duas ficaram paradas com suas respectivas armas próximas do ponto fraco uma da outra.

Só haveria uma vencedora quando alguém fosse ao solo ou não tivesse qualquer chance de reação. Ambas estavam sem saída, então se afastaram para recomeçar a batalha.

— Impressionante. Não é a toa que o clã Serenity tem um nome de peso em Hyland. — Disse Haylie, olhando para os fundos olhos violetas de sua oponente.

Alice passou a segurar o cabo de sua lança com mais força. — Você não está lutando sério... Não é?

— Talvez não... — Haylie respondeu enquanto brevemente encarava a bela lâmina de sua espada.

— Então vamos acabar logo com isso... Mostre-me todo o seu poder! — Alice disse em voz alta, desafiando a capitã Haylie. A partir dali, não tinha mais volta.

De repente, a espada de Haylie começou a emanar um brilho estranho... Amarelado e bem forte. Naquele momento eu sabia o que aconteceria... Eu estava prestes a ver o verdadeiro poder de uma arma forjada a partir de uma alma humana.
A capitã Haylie levantou sua espada e desferiu um golpe vertical na direção de Alice. Como elas estavam numa distância considerável, já era previsível o que aconteceria. Um tipo de feixe de luz correu na direção de minha vassala. Não era tão veloz quanto muitos tipos de milagres de combate, mas parecia forte o bastante para cortar uma pessoa ao meio. Sem hesitar, Alice correu na direção do ataque e deu um completo giro para a direita, se afastando pela esquerda. Definitivamente passou bem perto de atingi-la... Mas não parou por aí. Assim que a lâmina de sua espada tocou o chão, Haylie deu um giro para a esquerda e preparou um corte horizontal, lançando um segundo feixe de luz que voava na direção de Alice enquanto um terceiro era lançado alguns instantes depois, também na horizontal.
Ainda com a lança na mão direita, Alice saltou por cima do segundo feixe de luz, quase tendo a barriga cortada. Sem hesitar, ela usou a mão esquerda como apoio no chão e deu um impulso para cima, jogando as pernas para frente e esquivando do terceiro feixe de luz por muito pouco. Assim que ela colocou os pés no chão, voltou a correr na direção de Haylie. Tinha um olhar confiante...
Os feixes mágicos criados pela arma desapareceram pouco depois de passarem por Alice, então não se tornaram um perigo para ninguém. O que mais me impressionou foi em como Alice estava dando tudo de si naquela batalha... Quando ela se livrava de seu escudo, parecia sentir que nada era capaz de derrotá-la.

A capitã Haylie mantinha seus pés no chão. Tinha um olhar frio e indiferente no rosto, enquanto Alice se aproximava velozmente e deixava esvair um grito de batalha envolvente.
Quando estava perto o bastante, Alice tentou uma perfuração na altura do peito de Haylie, sendo facilmente defendida pelo escudo de aço da cavaleira. O golpe foi evitado com sucesso, mas acabou empurrando a capitã Haylie para trás, dando a chance de Alice executar um movimento perigoso. Após segurar a lança em ambas as mãos numa altura maior que a sua cabeça, a girou enquanto também dava uma volta com o corpo. O corte, vindo da diagonal superior direita, atingiu o escudo de Haylie, formando um ‘’x’’ com o segundo ataque. Aquilo foi o suficiente para abrir a guarda dela por um instante... E Alice aproveitou esta chance efetuando uma perfuração na altura da barriga, vindo com a lança por baixo.
A capitã Haylie foi ágil. Deu um passo para trás e posicionou sua espada perto da perna esquerda, subindo com ela o mais rápido possível logo em seguida. A força foi tamanha, que jogou a ponta da lança de Alice para cima, porém não foi o bastante para fazê-la desistir. Minha vassala desceu a lâmina de sua arma na direção da cabeça de sua oponente, sendo defendida por um posicionamento horizontal da espada de Haylie. Quando ela se defendia, era como se tivesse a força um berserker... Como se nem mesmo sentisse o impacto das armas.
As duas não mediram forças por mais de um segundo. Haylie abaixou sua espada com brutalidade, indo para trás rapidamente. Alice colocou força demais em seu ataque, um grande erro... A lâmina de sua lança bateu contra o solo, dando finalmente a chance de Haylie vencer a batalha. Bastou um pisão com o pé esquerdo para que a lança fincasse no solo por completo. O metal de sua armadura, que se estendia até mesmo por baixo de seus pés, a salvou de qualquer arranhão.
Alice tentava desesperadamente puxar sua arma e voltar ao combate... Mas não tinha qualquer chance. A encarando com um olhar frio e quase sem vida, a capitã Haylie levantou sua espada e ficou ali parada por alguns instantes. A lâmina brilhava numa luz amarelada, pouco antes de descer na direção do cabo da lança, cortando-o ao meio. Aquela força... Chegava a ser assustadora.
Alice caiu para trás, só percebendo o que havia acontecido depois que ficou sentada no chão. Haylie se aproximava lentamente, olhando direto nos furiosos olhos de Alice.

— Só acaba quando eu não puder mais lutar... — Alice disse enquanto começava a se levantar. Aquela persistência... Às vezes acabava apenas piorando as coisas.

Sem hesitar ou dizer uma palavra, a capitã da cavalaria de Azagal, Haylie Naelareon, chutou o rosto de Alice com uma força impressionante. Aquilo foi o suficiente para fazê-la deitar no chão. Eu não imaginei que chegaria até este ponto... Ayla, ao meu lado, se levantou repentinamente. Não podíamos ajudar dali, então precisávamos aguardar o duelo terminar. Algumas pessoas assistiam também... Mas não pareciam dar a mínima para o que estava acontecendo. Provavelmente já viram coisas piores naquele lugar.
Quanto mais Alice tentava se levantar, mais Haylie chutava sua barriga. Como ela tinha a proteção da armadura, não era grande coisa. Alice sempre foi durona, então aguentou por um tempo.
Quando ela já não conseguia mais se levantar, a capitã Haylie colocou o pé direito sobre a sua cabeça, pressionando seu rosto contra o chão. Aquele era finalmente o fim... E acabou sendo pior do que eu imaginei que seria no caso de Alice não sair vitoriosa.

— Eu espero nunca mais ver um Serenity na minha frente... — Haylie disse um pouco ofegante, depois de terminar de encher Alice de chutes. — Ou terei que me controlar muito mais para não fazer pior do que apenas pisar em sua cabeça. — Ela completou, empurrando o rosto de Alice cada vez mais forte.

Ayla correu até a saída. Acho que eu já imaginava por isso... Ela tentaria ajudar Alice de alguma forma, mas já havia acontecido. A honra dela já havia sido ferida. E se tem algo que não pode ser regenerado por magia, é a honra de um cavaleiro.
Lentamente a capitã Haylie se afastava. Sua espada aos poucos se desfazia num tipo de pó amarelado que caia no chão da arena e aos poucos desaparecia. Alice continuou no chão... Não pude ver seu rosto, mas acho que consigo imaginar como ela estava se sentindo.
Segui para onde Ayla havia ido, assim também poderia ajudá-la. No fundo me senti um pouco mal... Ela pediu que não atrapalhássemos. Que não interferíssemos na batalha. Mesmo assim, eu deveria ter feito alguma coisa... Acho que confiei demais na força de Alice. Eu tive certeza que ela venceria... E no final, aquilo acabou só a ferindo. Não apenas fisicamente...

Quando, com alguma insistência, conseguimos chegar até onde os duelistas aguardavam por suas batalhas, finalmente pudemos ver como Alice estava. Não se encontrava muito ferida... Tinha alguns cortes no rosto por conta do chute, e parecia ter uma dor terrível na região do abdômen... Mas o que realmente parecia estar a machucando, era o fato de sua lança ter sido cortada ao meio como um brinquedo. Não era uma lança comum, afinal... Aquele foi o maior presente de seu falecido pai.

— Alice! — Gritou Ayla enquanto se aproximava dela rapidamente. — Você...

Alice não precisou dizer nem mesmo uma palavra. Apenas levantou o braço direito e colocou a mão na frente de Ayla. O esquerdo ela mantinha o tempo todo na barriga, já sem a armadura.

— Eu sinto muito por não termos feito nada... — Falei num tom de voz um pouco baixo, olhando para ela de canto.

— Vocês apenas respeitaram meu desejo. — Alice respondeu de cabeça baixa. Vê-la daquele jeito me cortava o coração. — Me desculpem por fazê-los terem que me assistir sendo humilhada...

Ayla se virou para mim e ficou me encarando com um olhar um pouco triste... Mas na verdade parecia estar me pedindo para fazer algo. Acho que no fundo, ela sabia que Alice fez a escolha errada ao lutar contra Haylie. No meu ponto de vista, aquilo poderia ter sido resolvido de uma maneira mais pacífica... Mas diferente de Ayla, consigo entender como Alice se sentiu.
Andei até ela e me sentei ao seu lado.

— Você não foi humilhada, Alice. Ainda que tenha perdido o duelo, você mostrou que possui honra ao tê-la enfrentado. — Afirmei, tentando melhorar seu humor.

— Mas mesmo depois de ter dito tudo aquilo... Fui derrotada miseravelmente. — Alice disse ainda de cabeça baixa. — Jamais serei como ela... Tão forte e segura...

Levei minha mão esquerda até a direita dela lentamente, a levantando um pouco. Forcei um leve brilho em Lumen, criando um pouco de iluminação naquela sala escura. — Você não precisa ser a mais forte e segura... Apenas você mesma. — Falei enquanto Alice virava seus olhos violetas até mim. — Afinal... O nome da cavaleira que eu escolhi é Alice Serenity.

Alice não conseguiu dizer absolutamente nada. Apenas mostrou um sorriso sincero enquanto me olhava nos olhos. Acho que consegui dispersar aquele sentimento de falha que estava na mente dela... Ás vezes Alice exigia demais de si mesma. Acho que faz parte da personalidade dela... O ponto é que ninguém é feito de metal. Levei minha mão direita até o queixo dela e virei um pouco seu rosto para o lado. Realmente estava um pouco ferida... Aquele chute que Haylie havia dado não foi brincadeira. — Vamos cuidar disso e depois de sua lança. — Eu disse após soltar a mão dela, me levantando enquanto Ayla se aproximava devagar.

— Obrigada... — Alice respondeu um pouco corada.

Ayla se aproximou mais para poder curá-la. As marcas no rosto desapareceram bem rápido, e a dor na barriga foi momentânea. Bom... Com a lança seria mais complicado. Teríamos que mandar um ferreiro dar um jeito nela, já que havia sido cortada ao meio. Quando analisei as duas pontas quebradas, vi que não pareciam ter sido cortadas por metal... Era como se o cabo da lança fosse feito de madeira e tivesse sido serrado perfeitamente. Quando passei meu dedo por cima do local que foi cortado numa das partes da lança, senti que realmente era completamente liso. Um pouco quente também...
Assim que um grupo de duelistas chegou, nos retiramos do local. Alice já estava bem e recuperada. Decidimos que iríamos nos focar no objetivo e tentar esquecer tudo aquilo que aconteceu... Mas alguém nos abordou antes de podermos nos afastar muito do coliseu. Um homem alto e loiro, cuja armadura era quase tão chamativa quanto a da cavaleira que havia enfrentado Alice. Não era coincidência. Ele era um dos quatro que estavam com Haylie quando pedimos informações mais cedo.

— Com licença. — Ele disse vindo até nós assim que saímos. — Me chamo Myles Clanmore, cavaleiro azul do esquadrão Grifo.

— Você... O vimos mais cedo, não foi? — Perguntei, tentando me lembrar. Todas aquelas preocupações com Alice e o duelo me distraíram na hora de identificar quem ele era.

— Afirmativo. Sou o conselheiro da capitã Haylie. É um prazer conhecê-los. — Ele estendeu a mão direita, me cumprimentando como um igual. Diferente de sua capitã, tinha um pouco mais de educação... Acho que por este motivo era seu conselheiro.

— Me chamo Sorey Graham, e ela Ayladriel Valynore. — O respondi, apertando sua mão e apresentando nossa acompanhante. Logo ele também apertou a mão de Ayla, mas com muito mais delicadeza, também sorrindo para ela. Parecia ser realmente uma boa pessoa... Bom, não que sua capitã não fosse...

— Você deve ser Alice Serenity, estou certo? — Myles perguntou após se aproximar de minha cavaleira. Estendeu a mão a ela também. Alice hesitou um pouco, mas logo correspondeu o cumprimento.

— Sim... — Ela respondeu um pouco séria, pouco antes de separarem as mãos. Acho que, por ele ser aliado de Haylie, Alice sentiu algum incômodo.

— Eu sinto muito pelo ocorrido... — Afirmou o cavaleiro, olhando para a lança quebrada ao meio que estava sendo segurada por Alice em sua mão esquerda. — Eu não esperava que as coisas fossem chegar até este ponto.

— Você viu a luta? — Perguntei um pouco curioso. Eu não tinha o visto na arena...

— Sim, mas apenas o final. Se eu tivesse sido um pouco mais rápido, teria ajudado de alguma forma... Minhas sinceras desculpas. — Disse Myles, se desculpando. O cavaleiro se curvou para Alice, parecendo realmente triste com o que havia acontecido. Afinal... Era o conselheiro de Haylie.

— N-Não tem problema... Ambas estávamos de acordo com o duelo. — Afirmou Alice, um tanto envergonhada por aquilo. As duas agiram por impulso.

— Se me permite, eu poderia compensá-la pelo transtorno. — O cavaleiro falou, levantando a cabeça. Alice e eu trocamos olhares por alguns instantes, deixando que ele explicasse. — Conheço alguém que pode fazer sua arma voltar ao estado anterior em pouquíssimo tempo. Posso pagar pelo conserto.

— Não seria muito incômodo? — Alice perguntou, segurando as peças em ambas as mãos.

— Claro que não. — Myles respondeu de maneira gentil. Mesmo assim, Alice parecia estar com um pé atrás sobre aquilo... — Eu insisto.

Acho que não tivemos outra opção... Alice acabou aceitando a oferta do cavaleiro Myles, então seguimos para a ferraria qual ele havia comentado. Claro, não era uma ferraria qualquer... O dono, além de saber muito bem como trabalhar com metal usando as mãos, usava a magia para poder restaurar os estados das armas. Não parecia nada complicado, mas de acordo com o homem, são necessários anos de prática para chegar ao ponto de recuperar completamente uma arma quebrada ao meio em poucas horas. Ele foi capaz de fazer isso em menos de uma.
Não pudemos recusar quando Myles nos convidou para almoçar numa taverna que tinha perto dali. Eu não podia sentir nem um pingo de malevolência nele... Definitivamente não estava fazendo aquilo para nos atrair para uma armadilha de demônios... Não era um deles. Eu nem mesmo poderia considerá-lo uma pessoa ruim, já que, mesmo toda aquela hospitalidade sendo suspeita, ele não tinha sinais de maldade em si.
Pensando bem, foi uma boa idéia... Ele parecia ser um cavaleiro experiente, mesmo não tendo uma patente alta. Imaginei que poderíamos descobrir algo sobre o que buscávamos com a ajuda de Myles.

Ato 02 — O vislumbre de um plano caótico

O conserto da arma de Alice havia sido um sucesso. Assim que saímos da ferraria, andamos na direção de uma taverna que ficava a menos de cem metros dali. Até que era bem grande... Também servia como hospedaria, e parecia ser um lugar bastante agradável, além de bem rústico, algo que sempre me deixou mais à vontade.
Myles insistiu em pagar tudo... Um homem honesto até demais. Queria fazer o máximo possível para compensar o que aconteceu com Alice. Parecia honrado da parte dele pagar pelo que sua capitã havia feito, já que era seu conselheiro... Mas o certo era que Haylie se desculpasse, não só por ter chamado Alice para o duelo, mas por tê-la ofendido.
A comida que serviam naquele lugar era realmente incrível! Pode-se dizer que os cozinheiros estavam de parabéns. Já fazia um tempo que eu não tinha uma refeição tão boa... O frango estava no ponto perfeito, e os grãos bem temperados. A bebida estava boa, embora eu já tenha bebido coisas melhores antes, era um vinho tinto de qualidade. Não abusei muito, já que quem estava pagando era Myles. Ayla não comeu praticamente nada, mas parecia ter um gosto especial por qualquer coisa que não fosse carne. Aproveitou bem a salada de frutas que havia pedido.
Assim como eu, Alice pediu um prato mais completo. Não comeu tanto quanto eu, mas pude ver que ela estava aproveitando. Uma guerreira deve recuperar suas forças, afinal de contas...

— Novamente, eu sinto muito pelo ocorrido... — Desculpou-se o cavaleiro Myles, ainda enquanto desfrutávamos da refeição. Havíamos explicado a ele o que aconteceu e sobre toda a discussão entre Alice e a capitã Haylie. — Se eu tivesse sido um conselheiro melhor, minha capitã não teria cometido tal erro sendo tão arrogante... — Completou, deixando de lado a caneca de vinho que estava em sua mão.

— O senhor não deveria pagar pelos erros dos outros. — Respondeu Alice, friamente.

— Haylie é jovem demais para sua patente... Meu trabalho como conselheiro é necessário, não só para manter o esquadrão Grifo nos eixos, como também nossa capitã. — Explicou o cavaleiro, parecendo sincero. Me perguntei como havia sido nomeado conselheiro e a quanto tempo conhecia Haylie.

— Como uma cavaleira tão jovem se torna a capitã de um esquadrão? — Perguntei intrigado. Alice era uma boa cavaleira... Mas estava longe de ser uma capitã. Tomando-a como base, Haylie não só era extremamente poderosa, como também possuía qualidades mentais fora do comum para a sua idade.

— A família Naelareon sempre foi conhecida por trazer cavaleiros fortes e com táticas de batalha formidáveis. Haylie possuía o sangue de uma cavaleira antes mesmo de vir ao mundo. Os talentos incomuns a fizeram ser denominada como rank B, sendo tão poderosa quanto eu. — Myles respondeu, encostando os braços sobre a mesa.

— Como ela é capaz de conjurar uma espada? — Questionou Ayla, parecendo interessada no que a capitã havia feito no começo de sua batalha contra Alice. Como poderia envolver magia, chamou a atenção da elfo antes de qualquer outra coisa.

— Assim como eu, minha capitã é capaz de materializar sua alma na forma de uma arma. — Disse Myles, convincente e natural. Desde que o vimos pela primeira vez, estava desarmado. Aquilo realmente explicava tudo...

— Por que apenas vocês dois? — Perguntei, um tanto confuso. Aquilo era interessante... Eu jamais havia visto uma habilidade que envolvia a alma do portador. Era completamente diferente de conjuração comum. Fiquei imaginando que tipo de relação tinha com o monarca de Hyland, afinal, a habilidade do rei Bradley era um tanto parecida com a de Haylie... Mas muito, muito superior.

Myles levou sua mão direita até o pescoço, afastando um pouco o tecido de suas vestes do mesmo. Havia um tipo de desenho azulado... Não consegui distinguir o que era, mas se parecia com uma chama.  — Em Azagal, todo novato na cavalaria recebe uma marca. Se o poder da alma do cavaleiro for forte o suficiente para poder materializá-la, ele passa por um treinamento para aprender a técnica que, combinada com a marca, traz um equilibrio entre o individuo e sua essência, sendo assim capaz de colocar sua honra, seus medos, e até mesmo sua personalidade, em uma arma. Uma arma que pode ser empunhada apenas por ele.

— Isso é incrível! Apenas os cavaleiros azuis de Azagal são capazes disso? — O fato de Alice nunca ter feito algo assim já quase respondia a minha pergunta. Naquele momento entendi a diferença entre os cavaleiros azuis de Azagal e os de Hyland.

— Não basta apenas ser um cavaleiro. O teste da marca é crucial para provar a honra de um soldado. Mesmo os que um dia foram cavaleiros azuis azagalianos, até o fim de suas vidas possuirão a marca. Somente alguém com um coração honesto e justo pode ser um de nós. Alguém incapaz de dar sua vida por este reino e sua monarquia, não é digno de ter a marca. É preciso ser aceito por ela. — Explicou o cavaleiro Myles, se mostrando um cavaleiro de verdade. Alguém que daria a vida pela rainha e pelo povo.

— Alice, esse tipo de teste existe em Hyland? — Como eu desconhecia a marca azul, jamais havia perguntado sobre ela à Alice.

— Não. A marca azul não foi adotada pela dinastia Hammet. — A loira respondeu, voltando para a sua refeição. Acho que Alice já sabia de tudo aquilo... Não parecia impressionada como eu e Ayla.

— Somente alguém da monarquia de Azagal é capaz de nomear um novo cavaleiro. — Afirmou Myles, já tendo deixado sua refeição completamente de lado, diferente de mim. — O poder de dar a marca azul é passado de rei a rei há eras.

— Deve ser um grande feito... Uma humana tão jovem conseguir provar ter um coração tão grande. — Disse Ayla, parecendo realmente interessada nas histórias sobre a civilização humana. Não que eu não tivesse curiosidade sobre os elfos... Mas eu nunca havia chegado a perguntar a ela sobre isso antes. Achei que poderia lembrá-la do passado...

— Com certeza... — Respondeu o cavaleiro Myles, com um leve sorriso no rosto. — Mas mesmo tendo um bom coração, ela se deixou levar por seus sentimentos ruins. Tenho certeza de que no fundo Haylie sente muito pelo que fez...

— Quando ela e Alice estavam discutindo, a capitã Haylie comentou sobre um esquadrão nomeado de ‘’Tigre branco’’... O que exatamente aconteceu com ele? — Questionei, voltando minha atenção ao que parecia ser mais interessante. Aquilo praticamente não saia da minha cabeça... Por que Haylie havia sido tão agressiva com Alice...?

— O esquadrão Tigre branco havia sido movido para uma missão ao leste... A missão que acabou sendo sua ruína. — Myles respondeu, com a cabeça um pouco baixa. Imaginei que tivesse conhecido ao menos alguém do esquadrão.

— O que exatamente aconteceu? — Indaguei, cada vez mais curioso.

— Ninguém sabe ao certo... Nenhum deles voltou com vida. — O cavaleiro explicou, parecendo ter visto mais do que queria... — A única certeza é que, seja lá o que for que enfrentaram, não era humano... Não restou quase nada para cremarmos. — E eu estava correto, afinal...

Só de imaginar a cena, meu almoço cogitou em voltar para o prato vazio a minha frente. Alice e eu trocamos olhares sérios. Aquilo estava bastante suspeito... — Que tipo de missão eles iam fazer antes de serem movidos? — Questionei, procurando me aprofundar mais nos possíveis motivos de o tio de Alice ter negado a ação daquele esquadrão nas proximidades de Nefaria.

— Não faço idéia. Aparentemente, o esquadrão Tigre branco estava investigando a ação de alguma criatura que foi vista pela região... Ao norte de Nefaria. Não era algo oficial, então não documentaram praticamente nada. Acredito que nem mesmo tenham visto... Seja lá o que for a coisa, acabou destruindo o vilarejo que eles pretendiam defender. — Explicou Myles.

— Tudo isso é bastante suspeito... — Falei num tom de voz mais baixo. Seria a criatura caçada por eles a mesma que havia atacado a vila em que conhecemos Ayla? A mesma vila com certeza não era... Nem mesmo o tempo batia. Mas essa pergunta não saía da minha cabeça. A falta de informações piorava ainda mais as coisas... Isso me parecia ter algo a ver com demônios... Mas não tínhamos provas, e não imaginei que o tio de Alice pudesse ter qualquer relação com as mortes dos cavaleiros. Talvez tenha sido inocência, mas... Pensei que como ele também era um cavaleiro, jamais faria algo assim.

— Haylie procurou incansavelmente por o que quer que fosse durante semanas... Seja lá quem, ou o quê, causou isso; não voltou a atacar. — Disse o cavaleiro Myles, encostando-se na cadeira.

— Que tipo de relação ela tinha com o esquadrão Tigre branco? — Indaguei, voltando à Haylie como o ponto da conversa.

— Seu irmão, Aryan, era um dos cinco cavaleiros do esquadrão. — Myles respondeu, um pouco abatido. Aquilo então explicava tudo... O tio de Alice foi o responsável por terem movido o esquadrão Tigre branco, o qual o irmão de Haylie participava. Quando ela viu o emblema de Alice, não pôde se conter... Era como se Halgor Serenity estivesse bem à sua frente. O tio de Alice não chegou a cometer um crime... Mas eu senti que algo muito estranho estava acontecendo. O fato de um esquadrão ter sido movido para uma missão que foi a sua ruína... Eles sabiam de alguma coisa. Estavam no rastro de algo, ou alguém... Só não sabíamos o que.

Após alguns instantes de silêncio, Alice se pronunciou: — Eu... Sinto muito. — Ela disse parecendo estar sendo sincera. — Se eu soubesse que o que meu tio fez causou uma perda tão significativa na vida da capitã Haylie, não teria aceito o duelo... — Alice suspirou. — Talvez nem mesmo tivesse discordado do que ela disse...

— A capitã Haylie errou ao falar tudo aquilo sobre vocês. — Afirmou Myles, se referindo aos cavaleiros azuis de Hyland. Afinal... Haylie os tratou como falsos cavaleiros. Não dignos. — Tu não precisas se desculpar, Alice Serenity. Foi minha superior que se deixou levar pelo ódio... Mesmo sendo tão poderosa quanto eu, ela ainda é uma criança. Haylie não superou a morte de seu irmão.

— Mesmo assim, eu peço desculpas... — Alice se levantou e abaixou a cabeça, mostrando formalidade em seu pedido por perdão. — Em nome de meu tio... E em nome do clã Serenity.

Quando Alice ergueu a cabeça, Myles correspondeu aquele ato de respeito. — Com certeza você tem tanta honra quanto qualquer cavaleiro azagaliano. — O homem disse com um sorriso no rosto.

Alice se sentou novamente, parecendo bem mais calma em relação ao que havia acontecido. Imaginei que ela iria querer se desculpar com Haylie pessoalmente... Se eu conheço alguém com um coração justo, esta pessoa é Alice. — Não foi a toa que a escolhi como minha guardiã. — Afirmei despreocupadamente.

Myles parecia um pouco confuso. Não havíamos falado sobre o que fazíamos... A palavra ‘’guardiã’’ o deixou desencadeado em curiosidade. — A propósito, o que vocês vieram fazer em Azagal? — Ele questionou enquanto passava a mão pelo queixo. — Não é todo dia que se encontra uma dupla de cavaleiros acompanhados por uma elfo.

— Ah não, eu não sou um cavaleiro! — Respondi, quase caindo em risos. Aquilo foi um pouco engraçado, já que eu não tinha o perfil de um cavaleiro...

— Vocês dois fazem parte de uma escolta? — Indagou Myles, apontando para mim e depois para Ayla.

— Sorey é o grande espadachim sagrado! — Ayla disse em voz alta. Uma moça veio pegar os pratos vazios que estavam sobre a mesa, e durante este tempo, ninguém disse absolutamente nada. Alice parecia bem indiferente, mas eu... Eu acho que meio que já pretendia dizer ao cavaleiro Myles. Além de ele parecer ser confiável, poderia ser de alguma ajuda para o nosso propósito. Ayla só antecipou o inevitável... Mas poderia ter sido algo bem mais elaborado.

Myles nos encarava com certa estranheza... Mas na verdade aguardava alguma explicação. — Eu pretendia explicar isso ao senhor. Ayla está nos seguindo... Ela é uma clériga... E bem... Alice é minha guardiã. — Falei enquanto coçava a bochecha, um pouco sem graça. Nunca parecia fácil falar sobre isso... Ainda mais quando as pessoas insistiam em não acreditar.

— Isso... É uma brincadeira... Certo? — O cavaleiro perguntou, parecendo não querer crer... Mas vi em seus olhos que acreditava. — Você é realmente o herói da lenda...?

— Sim. — Respondi friamente.

— Minha nossa... É... É uma honra conhecer o grande espadachim sagrado! — Myles disse, quase com lágrimas nos olhos. Pude ver o quão emocionado estava... O fato é que ele acreditou muito facilmente no que havíamos dito. — Mas imaginei que fosse ser... Mais alto... E um pouco mais robusto... — Completou encarando meu físico um pouco pensativo.

Cruzei os braços, um pouco emburrado. — Sinto muito se acabei sendo escolhido com apenas dezenove.

— M-Me desculpe pela arrogância, espadachim sagrado... As histórias que ouvi sobre seus antecessores contam sobre guerreiros bem diferentes de ti. — Afirmou Myles, um pouco sem graça depois de ter dito aquilo.

— Olhe, eu realmente não imaginei que acreditaria tão facilmente em nós... — Aquilo me intrigava. Me perguntei se as outras pessoas de Azagal eram tão devotas como Myles.

O cavaleiro me encarou com um sorriso no rosto, respondendo logo em seguida: — Quando eu ainda era uma criança, minha mãe me contava sobre os atos heróicos do escolhido pela profecia do espadachim sagrado. Como minha família, assim como tantas outras neste reino, segue algumas tradições do lorde do trovão, é impossível não conhecer a lenda do mestre da espada.

— Eu poderia ser um impostor qualquer... — Falei, pensando um pouco alto. Eu ainda não estava convencido que ele realmente acreditou em mim.

— Sinto uma boa aura vinda de você, espadachim sagrado Graham. Isso já é mais do que o bastante para me convencer que não está mentindo. — Myles respondeu, parecendo realmente sincero. Aquilo já era o suficiente para mim.

— Eu aprecio sua fé, senhor Clanmore. — Afirmei abaixando a cabeça brevemente. — E, por favor, me chame apenas de Sorey. Acho que ainda não estou acostumado com o título de espadachim sagrado...

— Então me chame por Myles. — Ele disse enquanto estendia a mão direita para mim. Tivemos um breve aperto de mão... Já que tecnicamente eu estava me apresentando pela segunda vez. — Por longas noites, minha mãe me encorajou a acreditar que um dia encontraria o grande mestre da espada... Ficarei feliz se puder ajudá-los de alguma maneira.

Olhei para Alice por alguns instantes. Ela balançou a cabeça positivamente, me dizendo, sem proferir uma palavra, que eu deveria prosseguir. — Nós estamos aqui por um motivo bem específico... Acreditamos que uma parte da cavalaria de Azagal pode estar sendo manipulada por demônios. — Falei, sendo bastante direto.

O cavaleiro Myles suspirou, encostando-se na cadeira. — Então é isso... Eles já estão entre nós...? — Perguntou-se o homem, parecendo preocupado. De fato ele conhecia a lenda. Algumas coisas sempre tendem a se repetir.

— Alguns cavaleiros podem estar possuídos. — Afirmou Alice, cruzando os braços. — O senhor notou alguém com comportamento suspeito?

— Não... Isso não... Mas notei que alguns esquadrões, especialmente os do distrito dos ventos, estão sendo mandados para missões cada vez mais violentas... Todas fora do reino... — Myles respondeu, parecendo preocupado. — Isso já está acontecendo há quase um ano. — Completou.

— Que tipo de missões...? — Ayla questionou, interessada especialmente naquilo. Provavelmente achou que tinha alguma relação com o que aconteceu em seu vilarejo.

— Não faço a menor idéia. Praticamente tudo está sendo encoberto... O que sei é que muitos voltam sem vida, e isso se tornou mais constante há alguns meses atrás. — Respondeu o cavaleiro.

— Isso é muito esquisito... — Sussurrei, pensativo. — O que você acha, Alice?

— Talvez estejam coletando almas para algum plano grande. — Ela arriscou.

— A pergunta é ‘’qual plano?’’ — Mesmo tendo em mente que os demônios buscavam almas, não fazíamos idéia de para que as usavam.

Ayla parecia um pouco alterada. Mantinha a cabeça baixa e um olhar quase sem vida. O mesmo olhar que eu tinha quando pensava nas criaturas que mataram meus pais. — Esses monstros estão roubando almas e jogando fora a vida de nobres cavaleiros... — Suas mãos começaram a apertar as bordas da mesa de madeira. — Não há nada que possa justificar estes atos...

Levei minha mão até a esquerda de Ayla, tentando a acalmar. — Não se preocupe Ayla. Nós iremos resolver isso.

Ela olhou para mim bem menos nervosa. Não fazíamos idéia do que os demônios estavam planejando com tantas almas inocentes... Mas com certeza era algo maior do que poderíamos controlar. Por isso eu tinha o dever de parar aquilo... Mas não só pelos que morreram nas garras dos demônios. Por Ayla.

— Nós precisamos encontrar um possuído o quanto antes, Sorey. Só um deles pode nos dar respostas. — Afirmou Alice, bastante focada em nosso objetivo.

— Sinto muito por não poder ajudar mais do que isso. — Disse o cavaleiro Myles, um pouco abatido.

— Não tem problema. Se os cavaleiros patentes superiores estão possuídos, não há muito que possamos resolver conversando. Teremos que ir até lá e purificá-los... — Aquele não parecia ser um bom plano... Mas havia algo melhor? Os problemas de Azagal não poderiam ser resolvidos tão facilmente como foi em Hyland. Se tivéssemos a confiança de algum capitão da cavalaria, poderíamos chegar até os superiores para poder ter uma audiência com a rainha... Mas se isso acontecesse, eles notariam nossa presença e dariam um jeito em nós antes que pudéssemos fazer algo a respeito. Na verdade... Pensei que nem mesmo a autoridade máxima seria capaz de fazer algo. — Senhor Myles, por favor, tenha cuidado... Se alguém suspeito estiver atrás do senhor, não o confronte... Demônios não podem ser derrotados por humanos tão facilmente.

— Irei ser cuidadoso, Sorey Graham. — O homem se levantou, colocando suas manoplas. — Agora devo partir. Minha capitã deve estar furiosa... Era para eu estar numa reunião neste exato momento.

— Agradecemos por tudo, cavaleiro Myles. — Disse Alice sorridente.

— Se precisarem de ajuda, me procurem! — Myles falou enquanto se despedia. Saiu da calma taverna pouco depois, nos deixando para trás assim que pagou tudo.

Começamos a discutir nossa rota até o distrito dos ventos, onde provavelmente encontraríamos algum cavaleiro possuído para fazer algumas perguntas. O principal ponto era que precisávamos acabar com o mal pela raiz... Cogitei que um demônio mais poderoso poderia ser o líder. Com certeza estava no alto... Um comandante, imaginei. Se quiséssemos purificar o reino, precisávamos acabar com todos eles... Mas o mais forte seria a prioridade.
Um ‘’ataque direto’’ aos demônios poderia acabar sendo suicídio, então decidi dar um tempo até termos certeza se iríamos ou não fazer algo assim. Se algum plano melhor surgisse, descartaríamos este na mesma hora. Como foi um longo dia, arrumamos um lugar confortável para descansar. Alice e eu fomos verificar Koda e Zestris nos estábulos que os deixamos, e estavam bem. Aproveitamos para conversar sobre nosso objetivo e também sobre Ayla... Aos poucos eu estava sendo convencido que o melhor era deixá-la seguir sua vida... Mas mantive minha palavra com as duas. Ayla continuaria ao nosso lado até que resolvêssemos aqueles problemas. Toda ajuda era bem vinda, e ela tinha seus motivos para odiar os infernais. Quando já era tarde, voltamos para a hospedaria. Alice e Ayla tiveram um quarto só para elas, onde se recolheram bem mais cedo do que o normal... Principalmente Alice, já que o duelo que teve foi bastante cansativo.

Passei algum tempo no bar que ficava em baixo dos quartos. Não, eu não me embebedei. Bom... Talvez só um pouco... Todos aqueles problemas que estávamos metidos me deram vontade de relaxar. Voltei para o meu quarto quando as luas já estavam no céu. A primeira coisa que fiz foi tirar minhas botas, logo em seguida deitando na cama. A escuridão do quarto já me permitia fechar os olhos.
O som da música de um flautista que havia se apresentado lá em baixo ainda estava em minha cabeça... Aquele tempo que passei só, por algum motivo, me lembrou de meu amigo Wave. Eu estava com saudades dos momentos que passávamos juntos em minha vila... Mas eu sabia muito bem que as coisas jamais voltariam a ser como eram antes. Mesmo que algum dia eu conseguisse voltar até o lugar de onde vim... As felicidades daquela época se transformaram apenas em memórias.

Quando abri meus olhos, ainda deitado na cama, pensei que veria apenas o teto de madeira... Mas meu coração quase disparou assim que notei um rosto familiar bem à minha frente. Luxúria. — Noite agradável, não é mesmo, Zephyrum...? — Ela disse num tom de voz baixo, me encarando com um olhar provocante. Seu rosto não estava muito longe do meu... Ruby flutuava pelo ar.

— Luxúria... — Falei enquanto me erguia, ficando sentado. Como era rápida, se afastou antes que minha testa colidisse com a dela, ficando bem à minha frente, mudando de posição.

Diferente de antes ela vestia uma capa negra, a qual usou para cobrir quase que completamente seu corpo enquanto se mantinha ‘’sentada’’ no ar. — Que tal me chamar pelo meu nome? — Sugeriu de cabeça erguida, porém um pouco abatida com a minha reação.

— Seu nome...? Um demônio usando um nome humano... Que piada. — Aquilo foi quase engraçado... Mas como eu estava em perigo, não consegui rir. Eu não tinha condições de lutar contra ela... E minha espada estava longe, de qualquer forma. Se Ruby quisesse, me mataria facilmente.

De repente, ela me empurrou para trás, fazendo com que eu novamente ficasse com as costas na cama. Aproximou muito seu rosto do meu, parecendo ter ficado revoltada com a minha provocação. — Não me chame de demônio, Zephyrum... Não me compare com aquelas coisas. — Suas mãos empurravam meus ombros para trás... Mas a origem de sua força não era física. — A lady Hynasis não lhe ensinou a ser mais gentil? — Ruby lentamente abriu as pernas, se sentando sobre mim.

Eu sabia muito bem o que ela pretendia fazer. Estava me seduzindo... Mesmo já tendo afastado suas mãos de mim, eu ainda sentia uma força que me mantinha deitado. — Saia de cima de mim... — Falei irritado.

— Qual o problema, Zephyr...? — Luxúria sorriu enquanto levava sua mão direita até a minha barriga, subindo-a até o meu peito. — Sua voz diz algo que seu corpo não demonstra...

Inevitavelmente, olhei para as pernas de Ruby. Tinham uma beleza que lembrava muito as de Alice... Mas eram menos magras. Quando ela se sentou em mim, o tecido que cobria suas pernas se afastou para o lado, dando visual de parte do que havia por baixo. Claro, não cheguei a conseguir ver a intimidade dela... Porém pude enxergar que não estava vestindo nada para cobri-la.
Senti uma sensação esquisita... Não era medo e nem ódio. Meu coração estava batendo mais forte... Mas ao mesmo tempo era como se algo o estivesse apertando. Por algum motivo, era um sentimento bom... Quando a armadura de Ruby começou a desaparecer lentamente em pequenas pétalas negras, meu olhar passou por sua barriga e chegou até seus seios. Tinham um belo formato... Quase não notei o restante da armadura se desfazendo em sombras de uma hora para a outra.

Ruby se aproximou do meu ouvido esquerdo lentamente. — Eu sei como você se sente... — Ela sussurrou. Mesmo tendo uma voz mais madura que a de Alice, de certa forma, a lembrava... — Eu sei o que você quer...

Quando ela colocou seu rosto de frente para o meu, pude ver perfeitamente seus olhos dourados. Tão dourados quanto ouro... Tão profundos quanto os portões do inferno, e tão misteriosos quanto os olhos de um gato. Eles me fizeram sentir uma sensação diferente de tudo o que eu já havia passado. Como se eu inconsequentemente desejasse algo... Como se aqueles olhos me chamassem para dentro de um precipício sem fundo... Uma queda que ocasionaria uma eternidade de agonia... Mas que mesmo assim eu ansiava. Sem sentido... Sem explicação... Algo que eu apenas desejava.
Sem que eu notasse, acabei levando lentamente minha mão esquerda até o rosto de Ruby, enquanto a direita passava por sua perna com bastante delicadeza. Naquele momento era como se as únicas coisas no mundo que me restavam eram os olhos dourados que me encaravam sem nem mesmo piscar. Aos poucos iam se aproximando... Por um instante, senti como se eu tivesse conseguido o que eu queria... Mas o que eu realmente queria?
Antes que os lábios de Ruby tocassem nos meus, recuperei minha razão e sussurrei as únicas palavras que poderiam me ajudar naquele momento. Melstis Clarid.
Minha mão esquerda se envolveu em luz, e logo que sentiu a purificação, Luxúria desapareceu em sombras rapidamente. Nem mesmo tive a chance de saber que tipo de efeito teria... Mas imaginei que não seria algo muito eficaz, já que ela não temia qualquer ataque vindo de mim. Sua imunidade trazia tal confiança...

Após me erguer repentinamente e ficar sentado na cama, a vi num canto do quarto, perto do teto. — Você não deveria se fazer de difícil num momento desses, Zephyrum... Nós estávamos tão perto... — Ruby disse, parecendo um tanto frustrada.

— Não irei me juntar a você... E não irei lutar ao lado de Nahr Veooth... — Respondi após levar a mão direita até a cabeça. Assim que consegui afastá-la, comecei a sentir uma dor terrível...

— Você poderá ter poderes incríveis se mudar de lado. Será o mais forte de todos os guerreiros... Nem mesmo se limitará mais ao plano dos vivos. — Afirmou Ruby, se aproximando lentamente enquanto flutuava pelo ar.

— Não quero ser... O mais forte... — Falei enquanto resistia à dor.

— Mas você quer a mim. — Ela disse ao finalmente tocar o chão, bem à minha frente.

Quando olhei novamente para aqueles olhos, era como se eu estivesse sendo hipnotizado... Como antes, me chamavam para si. Causavam-me desejo... Mas mantive minha cabeça no lugar e resisti. Avancei em Ruby com minha mão esquerda na direção de seu peito. O poder ainda estava esvaindo em forma de purificação... Mas, astuta, Luxúria novamente fugiu, se dispersando em sombras.

‘’Assim como todos, logo você irá perceber que é a mim que queres... Zephyr... ‘’

As sombras se foram pelo vão que havia na janela. Quando ela desapareceu, as dores em minha cabeça também sumiram.
Se eu não encontrasse logo uma maneira de derrotar Luxúria, imaginei que logo ela chegaria onde queria... Quanto mais eu resistia à manipulação de seus olhos, mais dor eu causava a mim mesmo... E quanto mais eu cedia, mais desejo eu tinha. Eu sabia o que ela estava fazendo. Quem era e pelo quê lutava... Mas por algum motivo, seu rosto me atraía. Sua voz, seu corpo... Tudo isso chamava por mim incansavelmente quando Ruby estava por perto.

Ainda um pouco nervoso, fechei a janela e tentei encontrar qualquer traço de malevolência que estivesse por perto. Não havia sinal algum... Não foi a toa que ela conseguiu entrar em meu quarto sem que eu notasse. O pecado da Luxúria era diferente de qualquer coisa que eu já tinha enfrentado. Não podia ser purificada e nem liberava a mesma malevolência de outros infernais.
Por que... Me perguntei por que eles precisavam de mim. Por que, ao invés de simplesmente me tirar do caminho, Ruby tentava me seduzir e levar-me para o outro lado. Que tipo de interesse Nahr Veooth poderia ter em mim? Tais questões me impediram de cair no sono durante horas... Mas quando eu já estava em completa exaustão, fechei meus olhos e dormi.
Mesmo tendo saído do tormento que aquelas perguntas traziam, entrei em outro. A realidade conseguia ser terrível... Mas os pesadelos que a minha mente ás vezes criava eram bem piores.


Notas Finais


Trilha sonora do capítulo 21:

''The kingdom of Azagal''
It tells a story (Dreams & imaginations Vol.2 - 2008) - Two steps from hell - https://www.youtube.com/watch?v=njXnHaxEzvc

''Knights duel''
Bring his head (Cyanide - 2013) - Two steps from hell - https://www.youtube.com/watch?v=oRnTa9Visao

Se liga só! The legend of the swordmaster já tem realmente o tamanho de um livro!
Agradeço mesmo quem está acompanhando a história, mas o que realmente faz a diferença na minha criação de conteúdo são os comentários. Se puderem deixar algo, nem que seja besteira, só deixem. Seja dica, crítica, elogio, o que for! São eles que realmente me ajudam a melhorar.

Eu escrevo por amor ao que eu faço, então tenham certeza que irei terminar esta história. Mesmo que demore muito mais do que eu esperava...

Até o próximo capítulo!


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