História Tales of Arwald - The legend of the Swordmaster - Capítulo 23


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Categorias Originais
Tags Ação, Aventura, Drama, Fantasia, Fantasia Medieval, Ficção, Magia
Exibições 8
Palavras 9.351
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Violência
Avisos: Álcool, Canibalismo, Estupro, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Quase um mês de demora pro capítulo. Um mês praticamente, devo dizer...
O motivo da demora foi bem simples: O capítulo em si.
Claro, tive que escrever Tesserato nesse meio tempo... Mas este capítulo de legend of the swordmaster deveria ser bem mais curto do que acabou saindo e bem mais simples. Acabei inserindo mais do que só uma dramatização meio pesada... As coisas saíram dos trilhos... Mas eu acho que ficou bom.

Enfim, como devem se lembrar, falei sobre uma trilha sonora... Ela está entre nós! Já foi inserida em quase todos os capítulos, desde o primeiro. O único que não tem nenhuma música ficou sem por motivos óbvios. Muito curto, nada aconteceu, então decidi não desperdiçar nenhum tema nele.
Eu espero realmente que gostem das minhas escolhas... Tentei colocar as músicas o máximo possível no tema da fic, deixando o épico nos momentos certos, o melancólico como tema de específicas cenas, e até mesmo o divertido em seu respectivo lugar. Não pude colocar muitas músicas com vocal pois as letras saem demais do tema da história... Não é uma songfic, não precisa acompanhar, mas eu pelo menos tento colocar uma música que tenha uma letra que no mínimo lembre a cena em que ela é fixada. Ou o dilema de certo personagem... Por aí vai. Além da música tema que escolhi pro Sorey, com certeza colocarei outras com vocal no futuro, mas dependerá muito do que vai acontecer na história e da minha disponibilidade para procurar as letras das músicas.

Sem mais enrolação, fiquem com o capítulo 23 ''O domínio de Azagal''.

Capítulo 23 - The domain of Azagal


Fanfic / Fanfiction Tales of Arwald - The legend of the Swordmaster - Capítulo 23 - The domain of Azagal

Ato 01 — O domínio de Azagal

Era uma noite fria e nublada de Sol crescente, Fredas. As nuvens no céu deixavam a cidade escura em pontos como aquele... Estávamos num beco, no distrito do vento. Não era o lugar mais agradável da cidade... E não estávamos ali para brincar de casinha. Tínhamos a companhia de dois demônios, cavaleiros possuídos por infernais. Os capturamos mais cedo, depois de uma longa discussão sobre fazermos ou não algo tão perigoso.
Alice estava totalmente a favor de irmos ao centro do reino em busca de respostas... Resolver o problema pela raiz... Mas ela preferiu ter certeza de que nenhum daqueles demônios seria de alguma ajuda. Ela propôs um interrogatório. Embora nunca tivéssemos feito isso antes, para tudo se tem uma primeira vez... E acho que estávamos indo muito bem.
Depois de os vencermos numa breve luta que já estava vencida antes mesmo de começar, os prendemos com correntes e cadeados. Não eram tão inteligentes quanto eu imaginava que seriam... Alice e eu armamos um belo plano para capturá-los. Não tinha falha... Ayla também ajudou, mantendo erguido um domínio que evitaria que pessoas daquela cidade chegassem perto. O domínio fazia com que perdessem o interesse na região e não escutassem ou pudessem enxergar nada do lado de dentro. Claro, não se aplicava a demônios... Mas pretendíamos ser breves.

’’Atrul vash zasmir... ’’ Resmungou um dos infernais, olhando de canto para o parceiro, de joelhos.

‘’Nastvazhil... Zephyr... ‘’ O outro respondeu irado, tentando se soltar das correntes.

— Com corpos humanos vocês não irão escapar tão facilmente. — Afirmei confiante, me sentando sobre uma caixa velha que estava de frente para eles. — E sei também que não irão deixá-los para trás...

‘’Hiza... Hiza vul jazi zamohri! ‘’ Berrou o segundo infernal, deixando saliva escorrer pela boca. Por um instante, olhou para Alice e Ayla, que estavam um pouco longe.

— Certo, certo... Que tal cooperarem? — Sugeri enquanto passava a mão esquerda pela lâmina de minha espada. — Assim será tudo mais fácil... Para nós três...

— Nós iremos abrir o peito das duas... Bem na sua frente, Zephyr! — Gritou o primeiro demônio, bastante irritado. Ambos eram fracos, e por isso estavam ali... Mas poderiam representar um perigo se conseguissem escapar, então decidi que agiria rápido.

Me levantei e andei na direção dos dois, usando o pomo de minha espada para atingir a região acima da orelha de um deles. Consegui tirar sangue do maldito... Mas ele não parecia sentir dor, já que não usei a lâmina. — Fale de novo e arranco a sua cabeça... — Na hora eu acabei me deixando levar pela raiva... Mas acho que não teria coragem de fazer aquilo. Algo assim com certeza mataria o humano por baixo, e a magia de Ayla é inútil em casos de decapitação.

— He... Hehe... — O desgraçado levantou a cabeça, me encarando nos olhos. Os dele eram vermelhos e brilhavam em meio à escuridão. — Faça isso... Mate o pobre Gauthier! Ele está pedindo por isso há meses... Hahahahaha!

Eu sabia de quem ele estava falando... De sua casca. — Obrigado por me lembrar... — Abaixei-me e fiquei cara a cara com o demônio que mantinha seus olhos focados nos meus, um pouco confuso. Ele tinha o rosto de um humano, mas por dentro... Não quero nem imaginar sua forma original. — Há formas mais interessantes de causar dor em vocês... Vidium, Lumiasi...

Os dois infernais se encararam por um instante, bastante nervosos. — Me purificar não irá acabar com os planos de nosso mestre! — Ele estava com medo. Mesmo sendo um monstro... Eles são capazes de sentir medo. Sempre me perguntei pelo que prezam, no entanto...

— Expulis... Clarid! — Quando terminei o círculo de purificação, Lumen começou a emitir a luz que acabaria com aquela enrolação a qualquer momento.

— Nós iremos acabar com este reino... Com todos os outros! Azagal é apenas o começo, tolo Zephyr! — Gritava o demônio, com medo, mas se mostrando fiel ao seu mestre. Não contava mais do que o que eu já sabia que eles desejavam. — A supremacia de nosso lorde, Nahr Veooth, está apenas começando! Hahahahaha! — Sua risada era alta... O maldito tentava o tempo todo se soltar das correntes, diferente do parceiro.

Sem hesitar, botei tudo a perder. Coloquei minha mão esquerda na cabeça do cavaleiro e comecei a purificar o demônio dentro dele. A luz forte incomodava o outro infernal, que não conseguia reagir enquanto o parceiro gritava freneticamente. Não demorou que o homem caísse no chão, completamente inconsciente. — Agora é a sua vez... — Falei chegando mais perto.

Desesperado, o infernal tentou fugir do corpo que possuía. No começo, logo depois de prendê-los, eu me perguntei por que eles não haviam fugido ao serem capturados. Era obvio... Os corpos eram importantes. Aqueles humanos poderiam saber de coisas que dariam a nós alguma vantagem. Bom, no final das contas, não tinham saída... Se eu os purificasse, as vítimas poderiam tentar me ajudar depois de despertarem. Claro, não era algo garantido... Eu não me impressionaria se os dois se esquecessem do que viram quando estavam possuídos... Ou se ficassem completamente loucos por isso... Por este motivo, preferi o interrogatório antes do plano B.
As sombras logo começaram a sair da boca do loiro, mas fui mais rápido. Coloquei minha mão esquerda na frente da única ‘’porta’’ que eles tinham para os corpos. Com algum esforço, empurrei o maldito de volta para dentro, fazendo com que novamente ficasse consciente no corpo do cavaleiro.

— Tsc, tsc... Tentando escapar no meio de uma conversa...? Isso não se faz... — Afirmei enquanto segurava a boca dele. O demônio olhava para mim com um visível nervosismo. Estava quase aterrorizado pela purificação. A luz, ainda em minha mão esquerda, o incomodava bastante, mas apenas isso. Se eu quisesse purificá-lo, seria num instante... — Quer terminar como o seu amigo? — Suspirei, me acalmando um pouco. — Agora... Vamos lá... Que tal fazermos uma troca? Você me conta tudo e eu te levo de volta para o inferno. — Tirei minha mão da boca dele, percebendo a respiração ofegante do desgraçado.

— Yavuzo...? O Zephyr pode mesmo fazer isso...? — Não entendi a primeira palavra que ele disse, já que não era na minha língua... Mas ele parecia realmente querer voltar para o inferno. Para o miserável, seria melhor do que ser purificado.

— Sim. Uma troca é uma troca. — Respondi, diminuindo drasticamente a quantidade de luz que Lumen liberava.

— Certo... Irei contar tudo... Tudo o que quiser saber... — Disse o demônio, de cabeça baixa. São realmente criaturas sem honra alguma...

— Quem é o seu mestre? — Aquela era a primeira pergunta que levaria a todas as outras. Mas não tive tanta sorte...

— Nin... Ninguém sabe... Só alguns, que são mais próximos da casca dele, e dele... Só esses sabem... — Respondeu o infernal, bastante nervoso.

— Então há um tipo de hierarquia entre vocês...?

— Eu apenas sigo ordens... Os que me dão ordens seguem ordens... — Ele parecia convincente quando falava sobre receber ordens, já que, de cabeça baixa, parecia odiar até mesmo seus superiores. Tenho certeza que ele iria querer subir de cargo... Todos os demônios só se importam com o poder.

— Onde está quem fica no topo?

— E-Eu não faço idéia... — Eu sabia que ele estava mentindo.

Coloquei minha mão esquerda no pescoço do desgraçado, o segurando com força enquanto liberava uma pequena quantidade de energia da gema. — Não me faça perguntar de novo, imundo...

— Dizem... Dizem que ele está sempre no centro... Perto da... Rainha... — O infernal respondeu com um pouco de dificuldade.

Me afastei do maldito, bastante preocupado. Eu e Alice já imaginávamos a proporção que isso poderia tomar... Um exército de cavaleiros possuídos seria um problema... Se o mais forte deles estava perto da rainha de Azagal, seria uma questão de tempo que algo grande fosse acontecer. O que quer que fosse... Estaria com certeza fora do nosso alcance...

Alice chegou perto de mim, colocando a mão esquerda em meu ombro. — Você está bem, Sorey...? — Ela friamente perguntou.

Ter a certeza de que o problema era maior do que eu esperava havia me deixado um pouco... Abalado... — Sim... — Olhei para o desgraçado pela última vez. — Ele não parece saber de mais nada... E duvido que a casca saiba.

— Então devemos ir. Se outros como ele chegarem, teremos problemas... — A loira afirmou, se afastando de mim e voltando para perto de Ayla.

Lumen passou a brilhar mais forte conforme eu me aproximava do infernal, que tremia de medo ao ver meu rosto iluminado pela luz da gema. — P-Por favor... Você disse que era uma troca! — Ele constantemente se mexia, tentando soltar-se das fortes correntes de ferro.

— Você vai querer me agradecer depois disso... — Coloquei a mão esquerda na cabeça dele, me concentrando para fazer com que fosse rápido. Afinal de contas... Ele cooperou.

— N-Não! Espere! Não!

Aquelas foram as últimas palavras do demônio antes de ser completamente purificado. O corpo do cavaleiro de armadura azulada caiu de lado. Ambas as vítimas saíram vivas, então foi uma vitória...
Ayla manteve o domínio erguido por mais um tempo até os cavaleiros acordarem. Alice nos alertou sobre o perigo, mas eu insisti em falar com eles. O que havia sido purificado primeiro não se lembrava de quase nada, e parecia bastante perturbado... Mas o segundo era visivelmente mais resistente, e se lembrava de um compilado de coisas. Assim como aconteceu com Andrew, o homem esteve consciente durante quase todo o momento enquanto esteve possuído. Achei que ele poderia ser útil... Mas realmente seria muita sorte se acontecesse. Tudo o que ele sabia era sobre o que aquele demônio havia feito com seu corpo. Ele não tinha nenhuma informação útil... Mas graças a ele, sabíamos um pouco do que os infernais estavam tramando. Enquanto demônios de vários tipos invadiam o reino e matavam pessoas descontroladamente, alguns dos que possuíam a cavalaria enfraqueciam o exército por dentro. As missões suicidas... Assassinatos inexplicáveis... Se eles quisessem poderiam simplesmente acabar com tudo. Destruir os cavaleiros em questão de dias... Ou até mesmo matar a própria rainha... Então, por que enfraquecer Azagal? Não parecia fazer sentido.
Me preocupava saber que o reino estava com sérios problemas... Assim como em Hyland, demônios realmente estavam atacando as pessoas... Não era fácil seguir com os planos, deixando isso de lado para poder me preocupar inteiramente com a raiz do problema. Quanto antes acabássemos com o mais forte deles, mais rápido tudo se consertaria.

Após uma longa noite de descanso, partimos a cavalo para o centro do reino. Nosso destino era o distrito das nuvens, a região mais rica e nobre de Azagal, onde a própria rainha vivia. Claro, não poderíamos simplesmente encontrá-la vagueando por lá... O palácio azul ficava no ponto mais alto, e era ali que ela residia, de acordo com Alice. De qualquer forma, nosso foco era encontrar o maldito que estava por trás de toda aquela manipulação em massa. O maior e mais malvado sempre tem a aura mais pesada... O que é grande sempre fica mais simples de achar. Se fosse realmente assim, seria fácil... Mas eu estava otimista.
O sol estava no céu, um pouco mais forte do que eu esperava, mas ainda assim era um dia um pouco nublado. Havia uma ponte que cortava metade do distrito do vento, levando quem quer que a seguisse direto para o distrito das nuvens. Era enorme... Mas não tão chamativa quanto os maravilhosos muros brancos que separavam os ricos dos verdadeiros nobres.

As coisas estavam indo consideravelmente bem... Mas ainda havia algo que precisava ser resolvido. Assim que descemos de nossos cavalos, numa das áreas que ficavam sobre a ponte, decidi que era a hora de falar sobre. Após amarrarmos Zestris e Koda, deveríamos seguir a pé... Mas Ayla não poderia ir junto.

— Ayla, você fica e vigia os cavalos. — Afirmei, já andando ao lado de Alice. Nós combinamos que Ayla teria que ficar para trás naquela situação... Seria muito perigoso se ela simplesmente entrasse conosco. Eu só estive esperando pela hora certa para falar a ela...

— Não! Eu vou com vocês! — Ayla correu até mim, se posicionando ao meu lado. Algumas pessoas passaram por nós, dois deles a cavalo. Estranharam um pouco, já que Ayla era uma elfo... Mas continuaram seu caminho.

— Não podemos correr este risco. — Parei, ficando de frente para a baixinha. — Se as coisas derem errado, Alice e eu iremos sair de lá imediatamente...

— Eu posso ajudá-los! — Insistiu Ayla. Claro que a magia dela seria de extrema utilidade... Mas Alice e eu já havíamos abusado demais disso. Eu estava convencido que, a partir dali, era apenas por nossa conta.

— Ayla, é perigoso demais! — Alice afirmou, se mostrando na mesma posição que eu. — Se formos encurralados, como iremos protegê-la?

— E-Eu posso criar um escudo! — Ela estava mentindo... Ayla não era uma perita em habilidades de combate. Mesmo o escudo sendo uma magia defensiva, eu não apostaria que ela conseguiria.

— Nós... Nós não podemos arriscar a sua vida novamente... — Há muito tempo Ayla insistia em ser minha vassala. Eu já havia me acostumado com a presença dela... Mas aquilo precisava parar. Alice estava certa... Não seria correto envolvê-la mais ainda. Mesmo que ela quisesse tanto lutar ao nosso lado... Era só uma criança...

— Mestre! — Antes que eu pudesse continuar a caminhar, Ayla levou ambas as mãos até a minha esquerda, segurando-a perto de seu rosto. — Por favor... Eu posso ajudá-los...

Após Alice e eu trocarmos alguns olhares sem sabermos exatamente o que fazer, notamos que alguém familiar se aproximava. A loira, cujos cabelos dourados batiam conforme o vento, não estava vestindo uma armadura como da outra vez. Era Haylie, capitã do esquadrão Grifo. Assim que a notou se aproximando, Alice virou o rosto para a direção do distrito das nuvens. Não parecia com raiva de Haylie... Mas também não estava feliz em vê-la. Não foi muito legal ver Alice tendo a cabeça pisoteada por ela... Mas nem por isso eu deveria odiá-la. Ayla soltou a minha mão assim que viu quem se aproximava. Haylie tinha uma pasta de couro em mãos e vestia um uniforme azul escuro, um pouco parecido com o que Alice usava fora de combate, na cavalaria de Hyland.

— Capitã Naelareon...? — De certa forma, acho que foi uma baita coincidência ela passar por ali justo naquele dia e naquele horário.

— Que surpresa encontrá-los por aqui... — Haylie se aproximou, evitando esboçar qualquer sinal de felicidade ao nos cumprimentar. Talvez ela tenha achado que seria estranho ser gentil demais depois do que havia acontecido entre ela e Alice. — Imaginei que sairiam do reino...

— Bom... Ainda temos alguns assuntos a resolver em Azagal... — Respondi, olhando para os enormes muros ao nosso lado. A distância deixava a visão mais bela ainda... Mas de certa forma, assustadora.

Haylie colocou a pasta na frente do corpo, se curvando de repente. A princípio eu não entendi aquilo... Mas logo fez sentido. — Antes de qualquer coisa, devo pedir-lhes perdão pelo que aconteceu há alguns dias... — Quando ela levantou a cabeça, vi que parecia realmente arrependida. — Principalmente a você, cavaleira Alice Serenity... Acabei agindo sem pensar e me levei pelos meus instintos.

Alice se manteve calada por alguns instantes. Parecia tão impressionada quanto eu ou Ayla. — Acho que... Eu entendo como você deve ter se sentido. Se eu estivesse no seu lugar, provavelmente faria a mesma coisa.

— Então Myles realmente contou a vocês sobre o meu irmão... — Haylie falou um pouco cabisbaixa.

— Sim... Eu sinto muito pelo que aconteceu... — Disse Alice após um suspiro. Talvez o real motivo de ela não guardar rancor do que havia acontecido entre ela e Hayle, tenha sido colocar-se em seu lugar. Afinal de contas... Alice também tinha um irmão.

— Meu irmão lutou até o fim. Me vingar de seu tio usando-a foi um ato de desonra... Tenho certeza de que Aryan teria vergonha de mim por isso...

Alice chegou mais perto de Hayle, mantendo o pomo de sua lança no chão enquanto carregava o escudo. — Você fez o que qualquer irmã faria. Assim como ti, tenho um irmão... Se eu descobrisse que a morte dele foi causada pelo erro de outras pessoas, com certeza me vingaria se pudesse... Mesmo sabendo que é o errado...

— Me desculpe pelas coisas que falei a você... — Haylie mostrou um sorriso que parecia realmente sincero. — Você tem mais honra do que muitos cavaleiros azagalianos.

Alice correspondeu o sorriso e deu uma breve risada. — Nossa batalha foi de igual para igual. Não guardo qualquer ressentimento... — Mesmo ela tendo tido uma reação negativa quando viu Haylie chegando, o clima mudou assim que as duas esclareceram as coisas.

Haylie recuperou a postura, se virando para mim. — Myles e eu tivemos uma pequena reunião no final daquele dia. Segundo ele, você disse ser o espadachim sagrado.

— Parece que o assunto se espalhou rápido... — Falei enquanto coçava a bochecha.

— Não se preocupe. Apenas Myles e eu sabemos. — Hayle estendeu a mão esquerda para mim, já que com a direita carregava a pasta de couro. — É um prazer conhecê-lo, espadachim sagrado.

Apertei a mão dela, usando a esquerda também, claro. — Pode me chamar apenas por Sorey...

Alguns instantes depois de segurar a mão dela, percebi que Haylie estava bastante distraída. Havia virado a base de minha mão para cima, olhando diretamente para Lumen. Como se tivesse descoberto uma linda flor que ninguém nunca antes havia visto... Olhava para a gema como se fosse o objeto mais deslumbrante que havia visto em anos. Lumen carrega um enorme poder capaz de purificar infernais ou catalisar habilidades que nenhum mago poderia... Mas ela não afeta apenas os demônios.

— Capitã Naelareon...? Algum problema? — Perguntei, olhando para os olhos azulados e brilhantes dela, cuja distração ainda era a minha mão esquerda. Ela não demorou em voltar para o mundo real.

Aos poucos, Haylie afastou sua mão da minha. — Ah, Myles... Agora compreendo... — Ela disse em voz baixa, com um sorriso. — Vocês podem me chamar apenas de Haylie, se assim preferirem. Como seguidora dos princípios do lorde do trovão, ofereço-me a ajudá-los no que estiver ao meu alcance...

Alice e eu trocamos olhares brevemente, e logo respondi. — Obrigado. Acho que no final das contas, sua ajuda pode ser bem vinda... — Eu estava pensando... E se as coisas não pudessem ser resolvidas como foi em Hyland? Com uma audiência...

— Vocês pretendem entrar no distrito das nuvens? — Indagou Haylie.

— Sim. Só estávamos decidindo... Quem vai ou quem fica... — Respondi, olhando para Ayla. Ela cruzou os braços e virou o rosto, um pouco irritada com o fato de eu ter insistido tanto para que ela não nos seguisse.

— Como um herói de tamanha importância, você deve estar planejando ter uma audiência com a nossa rainha, estou certa?

— Bom... — Olhei para Alice, que balançou a cabeça positivamente. Não acho que seria uma boa dizer que iríamos entrar para procurar por um demônio que estaria possuindo um cavaleiro de alta patente... Haylie provavelmente ficaria um tanto desesperada, e assim como Ayla, não conseguiria evitar em querer ajudar-nos diretamente. — Sim...

— Talvez eu possa ajudá-los. Nossa rainha é ocupada, mas creio que teria tempo para uma audiência com o grande mestre da espada. — Haylie afirmou, sorridente. Porém, sua expressão mudou quando falou sobre seus parceiros. — Myles me contou sobre o que estão investigando. Temo só ser de alguma ajuda em conseguir uma audiência...

— Demônios são ótimos em manipular e fingir. Apenas não confie em ninguém... Já que não é fácil para uma pessoa comum distinguir um humano de um infernal. — Imagino a tensão que Myles e Haylie devem ter passado ao ficarem sabendo sobre isso. Qualquer um pode ser um impostor... Algo preocupante. Por isso eu deveria encontrar quem estava por trás disso.

— Se puderes provar sua autenticidade como espadachim sagrado, com certeza nossa rainha fará algo a respeito. Afinal... Ela já foi uma de nós... — Respondeu Haylie. Todos os cavaleiros pareciam ter um enorme respeito pela rainha de Azagal, mas não só por ser sua rainha. Saber que ela já havia sido parte da cavalaria só deixava mais claro o motivo.

Uma parte de mim dizia que poderia dar certo... Mas nunca é tão fácil. A outra alertava que avisar a rainha poderia não adiantar de absolutamente nada. Os demônios pareciam quase ter Azagal na palma de suas mãos... Se soubessem que eu estava interferindo nos planos, facilmente poderiam acabar com boa parte do exército. Mas se a rainha não era só alguém com uma infinita influência no reino... Talvez... Talvez realmente pudesse fazer algo. No pior dos casos, ela poderia estar sendo possuída também, mas duvidei de algo assim. Se estivesse, o povo daquele reino iria descobrir o que é a miséria.
Aquela missão era como andar numa corda bamba de olhos vendados.

— O que acha, Alice? — Não pude deixar de pedir a opinião de minha vassala. Ás vezes, Alice tomava decisões mais sábias do que as minhas. Só de estarmos ali, de certa forma, foi imprudência minha... Mas eu estava convencido de que teríamos que nos arriscar para saber o que estava acontecendo. Quanta tolice...

— Não parece um plano ruim ter uma audiência com a rainha... Mas se eles chegaram muito longe, isso se tornará um problema... Só saberemos se formos até lá. — Por um lado, Alice estava certa... Porém, seu pensamento não estava longe do meu... Aquela situação estava complicada. As coisas em Hyland pareciam ter sido infinitamente mais simples...

— Mestre... — Ayla puxou de leve o tecido de minha capa, chamando a minha atenção. — Não acho que é uma boa idéia entrarmos lá... S-Se vocês forem, eu irei! Mas... Sinto uma sensação estranha quanto mais nos aproximamos desses muros... — Não eram palavras que eu não levaria em conta. Ayla era uma sacerdotisa... Mesmo que fosse magia demoníaca, ela tinha uma pequena capacidade de identificá-la. Até mesmo possuídos...

— A escolha é sua, espadachim sagrado. — Afirmou Haylie, bastante séria. — Creio que este é o único caminho em que posso ajudá-los.

Respirei fundo e olhei para o céu. Não estava naquele belo tom de azul de alguns dias atrás... As nuvens indicavam que, ao menos durante a noite, teria uma chuva gelada. Mas... Que droga! O que eu deveria ter feito? Uma parte de mim dizia para entrar lá e procurar pelo desgraçado... Outra dizia para não nos arriscarmos e tentar resolver de outra forma... Mas que forma?! Isso estava me queimando por dentro...
Decidi então que entraria sem medo. Seria muito pior me arrepender de nunca ter procurado, do que me arrepender de ter morrido tentando.

— Irei aceitar a sua ajuda, Haylie. — Falei após abaixar a cabeça. — Se alguma coisa acontecer, contaremos com a sua ajuda para proteger Ayla. — Coloquei a mão esquerda na cabeça da baixinha, a acariciando. — Alice e eu cuidaremos do resto...

— Se for necessário, irei empunhar minha espada contra os meus iguais... — Disse Haylie, com certo pesar, mas muita coragem.

Não pude impedir Ayla de vir conosco... Mas com a ajuda de Haylie, pensei que, qualquer emergência, seria facilmente solucionada. Se fosse necessária uma fuga, não hesitaríamos em sair dali. Nosso foco ainda era descobrir onde o líder deles estava... Não poderíamos capturar um infernal como fizemos na noite anterior... Não naquele lugar cheio de guardas e soldados. Se não encontrássemos o desgraçado, iríamos tentar pedir a ajuda da rainha... Mas definitivamente, o plano todo foi por água abaixo.

— Certo... — Respirei fundo, já na frente dos grandes portões abertos para o distrito das nuvens. — Alice, conto contigo...

— Sim, Sorey. Lembre-se... Se as coisas derem errado... — Alertava a loira.

— Iremos sair já. — Completei. Agarrei a empunhadura de minha espada com a mão esquerda, andando na direção da entrada. — Vamos.

As coisas deram errado antes do que eu esperava que dessem caso o universo conspirasse contra nós. Quando coloquei o pé direito dentro do distrito das nuvens, senti um forte aperto no peito. Como se... Eu fosse esmagado por dentro... Algo me puxava para baixo. Consegui entrar dando mais dois passos, mas eu sabia que não aguentaria ficar em pé por muito tempo. O ar parecia pesado... Uma dor de cabeça forte apareceu de repente, além das dores nos braços e nas pernas. Era como se eu tivesse sido surrado com um bastão de madeira por horas... E a dor só piorava.

— S-Sorey! — Gritou Alice, de repente. Os guardas olharam para nós com estranheza, mas não reagiram... Não eram demônios.

Virei-me para Alice, caindo sobre o joelho direito logo em seguida. — N-Não... Não venha... — Chegava a ser difícil de falar. Senti como se a minha mente fosse se apagar em breve... — Droga... Minha cabeça... — Parecia querer explodir. A sensação vinha de dentro... Não era como uma dor de cabeça comum.

— Mestre! — Ayla não conseguiu se segurar e correu até mim, me agarrando. Eu não consegui entender... Por que apenas comigo? Ela não teve a mesma reação que eu... — Isso é... Um domínio...? S-Senhorita Haylie, por favor, me ajude!

Haylie correu para ajudar Ayla a me carregar para fora dos portões. Quando eu finalmente me afastei do maldito domínio, senti que tudo havia voltado ao normal. A sensação ruim no peito e a dor de cabeça continuava, mas eu sabia que logo desapareceriam.
Minha respiração ainda estava ofegante enquanto eu tentava me recuperar do que aconteceu. Para a sorte de Alice, ela não entrou para me socorrer... Com certeza passaria pelo mesmo.

— O-O que... O que foi aquilo?! — Perguntei enquanto estava sentado no chão, encostado no muro da ponte.

— Ao que parece, há um domínio neste distrito... — Respondeu Ayla, abaixada na minha frente. — Se tivesse o avisado antes, isso poderia ser evitado, mestre... Eu sinto muito... Não consegui detectá-lo a tempo...

— Não foi culpa sua... Mas... Por que ele não te afetou? Por que não afeta as pessoas lá dentro...?

— Provavelmente foi criado apenas para repeli-lo. Evitar que entre no distrito das nuvens... — Ayla parecia bastante pensativa. — Talvez... Talvez haja uma maneira de quebrá-lo...

— Como? — Perguntei, olhando nos olhos de Ayla.

— Com o estímulo certo de poder... Acho que eu poderia fazê-lo. — A pequena respondeu. — Como uma sacerdotisa comum eu não sou capaz de quebrar o domínio de um demônio... Nem mesmo tentando durante dias... Mas se eu me tornar sua vassala, minhas magias afetarão infernais como se fossem criaturas comuns...

— Não... Eu não posso aceitar isso... — Mas que cabeça dura eu era...

— Mestre, não enxergas?! Só assim poderemos entrar! — Ela estava certa. Se não queriam que eu entrasse, com certeza o maldito por trás de toda a possessão em massa estava lá. Algo importante precisava ser protegido, ou evitado que fosse encontrado por mim. Se ele queria impedir que eu entrasse... Significa que seu plano era grande demais para poder correr o risco de ser destruído.

— Eu não sou o seu mestre! — Me levantei repentinamente, indo para perto de Alice. — Eu não posso fazer isso... — Afirmei enquanto colocava as mãos sobre o baixo muro da ponte, olhando para todas aquelas pessoas que andavam pela cidade. — Não posso roubar a sua vida também...

— Eu não me importo de servi-lo como meu mestre... Juntos, nós três podemos dividir este fardo! — Ayla insistiu.

Me virei rapidamente, encarando Ayla nos olhos. Sem perceber, aumentei o meu tom de voz... — Você irá viver para sempre! Irá passar a eternidade com esta mesma aparência! Não vai poder ter filhos... É isso que você quer?! Você irá jogar sua vida fora por isso?!

Ayla tinha uma expressão de tristeza... Talvez eu tenha a assustado. Alice estava de cabeça baixa, e nem mesmo conseguia olhar para nós dois. Haylie observava de longe, mas não interferia.
O fato de o domínio ter me impedido completamente de prosseguir acabou me deixando... Irritado... Com tudo. Com todo aquele esforço que não parecia levar a nada. Com toda aquela situação que parecia ser centenas de vezes maior do que o que éramos capazes de resolver... Mas é como dizem... O inimigo nunca espera você estar pronto. Eu tentei ir lá e lutar! Ser valente... Agir de acordo com a minha honra... Mas como eu poderia vencê-los sem o poder necessário? Como conseguir o poder necessário sem tirar a vida de Ayla?

Respirei fundo, tentando me acalmar. Não seria ali que eu conseguiria pensar em alguma coisa... Em outro plano... — Haylie... Obrigado por sua ajuda... — Haylie olhou para mim de canto ao notar que eu estava falando com ela. — Nós iremos arrumar outro jeito de resolver isso...

Alice foi chegando perto, ainda carregando seu escudo e sua lança. — Sorey...

— Nos encontramos na hospedaria durante a noite... Irei... Tentar pensar em algum outro plano...

Minha mente estava sobrecarregada. Pensar em outro plano? Que outro plano...? Não havia outro plano. Ou entrávamos lá e acabávamos com o líder deles, ou lutaríamos por meses para tentar extingui-los de Azagal. Uma hora notariam, e então viriam atrás de nós... Nos emboscariam e... Bom, depois disso... Eu não faço idéia do que poderiam fazer. Quem sabe arrancariam a cabeça de Alice e tentariam me levar para o lado deles. Era o que queriam.
Por quê?! Não consegui parar de me perguntar... Por que eu? Não me arrependi de ter escolhido Alice... Mas de certa forma, eu não queria tê-la envolvido também. Ter que roubar a vida dela... Só para... Tentar salvar o mundo.

Peguei Koda e cavalguei para longe daquele lugar. Procurei algum canto quieto naquela cidade... Algum lugar que pudéssemos ficar só nós dois. Sem demônios ou problemas para resolver... Sem lordes ou vassalas. Apenas eu e meu amigo. Havia uma região bastante calma por onde cortava o longo rio de Azagal. Cheia de casas altas, porém simplórias, ainda no distrito do vento. Sem lojas... Sem soldados... Me parecia o lugar perfeito para refletir.
Não havia ninguém além de nós... Assim que desci de Koda, o acompanhei até as margens do rio. Não era fundo. Um mergulho ali nem poderia ser chamado de mergulho... Sentei-me ao lado de meu amigo, que começou a beber a água logo que se aproximou dela.

— Aqui estamos longe de todos os problemas, amigo... — Suspirei, bem mais calmo com o som da água corrente bem à nossa frente. Acariciei Koda levemente, passando a mão pelo seu pescoço até perto da orelha. — Somos apenas nós e o vento...

Aproveitei o tempo para refletir sobre o que havia acontecido. Sobre o plano ter dado errado tão rápido... Sobre Ayla. Tudo aquilo não parecia ter uma solução que fosse totalmente válida. Fiquei pensando... Seria o certo transformar Ayla numa guardiã como Alice?
As coisas eram tão simples antes de eu seguir este caminho... Antes de eu sair de minha vila... Antes de meus pais serem mortos. Não há dádiva maior do que ser uma criança. Ter em sua alma a inocência. Sim... Quando eu era criança, tudo parecia que ia durar para sempre. Que nenhuma adversidade jamais apareceria... Que eu ficaria com os meus pais por toda a eternidade. Como era bom brincar perto do lago ao lado de Wave... Não tínhamos nada com o que nos preocupar. Caçar com o meu pai se tornou mais do que a nossa fonte de renda. Era um momento com o meu velho... Uma diversão. Contar para a minha mãe sobre tudo o que víamos... Ajudá-la a limpar a casa, lavar a louça e até mesmo as roupas... Isso não era muito divertido, mas me trazia certa paz.
Eu sentia saudades da simplicidade daquela época...

— Com licença... — Uma voz feminina disse, de repente, chamando a minha atenção ao me tirar de um sonho que durava minutos. — Posso me juntar a vocês?

Quando virei um pouco a cabeça para trás, subindo o olhar, me deparei com uma moça jovem de longos e presos cabelos escuros. Vestia as roupas típicas de uma viajante... Com um manto e bastante couro. Carregava uma mochila nas costas, e também tinha uma adaga visível na cintura, bem atrás. Como não tinha nenhuma espada ou arco, eu sabia que provavelmente não era uma aventureira ou caçadora. Seus olhos eram bem escuros... Não parecia ser de Azagal, já que a maioria por ali era composta por loiros.

— Fique a vontade... — Eu não estava muito a fim de conversar, mas ao menos fui educado. Não havia uma placa por ali dizendo que somente eu poderia me sentar...

A moça se agachou ao meu lado, tirando de seu cinto um cantil de madeira. Aos poucos foi o enchendo. — É um belo cavalo que tens aí... Quantos anos ele tem? — Ela indagou, puxando assunto de repente.

— Não faço idéia... Não tive a chance de perguntar isso ao antigo dono. — Respondi, me lembrando de quando resgatei Koda de uma morte lenta e miserável. Ele realmente era um cavalo fiel... Quase tão fiel quanto qualquer vassalo que eu poderia recrutar. A garota parecia ser do tipo que gostava de conversar... Mas eu realmente não estava afim de falar sobre mim. — Você não é daqui, estou certo?

— Não. Estou apenas de passagem. — A moça respondeu, me fitando de cima a baixo logo em seguida. — E pelo visto você também não é...

— Como sabe? — Questionei, intrigado.

— Seu cabelo desarrumado, a pena na orelha... Você se veste como um nobre, mas nem mesmo se senta ou fala como um. — Bem observado da parte dela... Eu estava com a perna esquerda dobrada e deitada no chão, enquanto a direita mantinha o joelho para cima, servindo de apoio para o meu braço.

— É... Acho que você está certa... — Por mais que eu tentasse ter os melhores modos, não conseguia me manter assim o tempo todo. — O que te trouxe até Azagal?

— Sou uma mensageira. — Ela afirmou.

— É? Você não se parece com uma... — Mensageiros geralmente se vestem de maneira mais adequada, além de estarem quase sempre acompanhados por alguma montaria.

— Não sou uma mensageira qualquer! — Contestou a garota. — Eu também entrego objetos de valor... — Sim, isso explicava tudo. A adaga aparentemente afiada, as roupas resistentes e a mochila nas costas.

— Hm... Talvez você não devesse estar falando isso para mim.

— Por quê? Você é alguém suspeito? — Ela indagou, tirando o cantil de perto da água, tampando-o logo em seguida.

— Não... Mas eu poderia ser qualquer um. — Não é só por que alguém veste belas roupas brancas que é bonzinho. Eu poderia ser um maldito ladrão disfarçado de mocinho...

— Você não me parece ser uma pessoa muito perigosa. — A moça disse, prendendo o riso.

— Hump... — Virei meu rosto para a água do raso rio novamente. — Aliás, por que você escolheu sair por aí entregando coisas? Não deve ser nada fácil...

— Sempre quis conhecer outros lugares desde criança. Eu poderia ter ficado com o meu pai, vivendo uma vida chata e trabalhando num vinhedo... Claro que seria muito mais fácil, mas... Eu senti que deveria deixar aquele lugar. Eu descobri o que realmente quero para a minha vida. — Ela respondeu, aparentando estar sendo bastante sincera. Quando falou do pai, parecia um pouco distante... Mas confiante de que fez a escolha certa ao dizer que se descobriu de verdade. — E você? O que te trouxe até Azagal...? — A moça questionou, voltando a me tomar como foco.

— Vim salvar este reino das forças das trevas. — Respondi, indiferente. Quase soou como uma piada. Bom, não havia sinal de malevolência nela... Achei que não teria problema ser sincero naquele momento.

De repente, a jovem de cabelos escuros começou a rir, de maneira moderada, mas realmente agindo como se eu tivesse contado alguma piada. Não demorou a colocar a mão esquerda na frente da boca, se controlando em seguida. — Certo, certo, destemido e justo herói de terras distantes... Mas pelo seu olhar, você não parece muito satisfeito com isso. — Não só era espertinha, como também bastante analítica. Uma pessoa de personalidade... Talvez por isso não me levantei e saí dali antes, quando ela começou a fazer as perguntas pessoais.

— Não acho que eu seja muito bom no que faço... — Afirmei, um pouco pensativo. Se eu fosse mais forte, mais inteligente, mais rápido... Muitas pessoas estariam vivas... Eu não teria falhado ao tentar entrar no domínio que estava no centro de Azagal.

A garota se levantou, ajeitando a mochila nas costas. — Então talvez você não devesse estar tomando este rumo.

— Como assim? — Questionei. Aquilo não seria o certo a se fazer? Ajudar as pessoas... Acabar com o mal...

— O que você realmente deseja, afinal? É isso que importa... — Ela dizia após cruzar os braços, olhando para a água correndo à nossa frente. — Se você acha que o que está fazendo é o certo, não deveria se cobrar demais. Todos temos limites... Mas se você segue este caminho apenas por honra, sugiro que deixe-a de lado.

— Você não acredita na honra de um herói?

— A honra não é a motivação certa quando ela rouba quem você realmente é. — A moça respondeu, sem custar muito. Como se já tivesse refletido sobre aquilo mais de uma vez...

Sem perceber, fiquei pensando sobre o que ela havia dito por um curto espaço de tempo. O que eu realmente queria... Eu sabia por que lutava. Mas não era esse tipo de vida que eu queria... Se eu pudesse, deixaria tudo de lado e viveria ao lado de Alice e Ayla... Ou até mesmo voltaria para a minha vila e seguiria meu próprio caminho. Eu sempre quis ser um espadachim e conhecer o mundo... Mas estava sendo bem diferente do que eu esperava. Ser um herói nunca é fácil.

— Qual é o seu nome...? — Perguntei, virando o rosto para onde a moça estava quando havia dito tudo aquilo, mas ela desapareceu sem que eu notasse. Nem mesmo tive a chance de saber seu nome.

Após quase duas horas nas margens daquele rio, volta e meia me levantando para olhar ao redor e acariciar Koda, que se alimentava da grama no local, parti com o meu cavalo para uma taverna grande que ficava ali perto. Decidi que deveria... Tentar relaxar um pouco... Os estábulos no fundo me chamaram a atenção assim que passei por ela, então optei por aquele lugar... Mas eu não imaginei que ficaria mais do que apenas até o pôr do sol.
Num reino como Azagal, onde a população fica dividida em distritos diferentes de acordo com suas riquezas, facilmente percebe-se a diferença a cada região que se visita. O distrito do vento era claramente onde a maior quantidade de pessoas ricas se aglomerava... Mas o mais interessante era que muitas dessas pessoas vinham de fora. Visitantes de vários reinos, nobres e cavaleiros, aproveitavam a estadia em tavernas como aquela. Os músicos não eram bardos comuns... Tratava-se de verdadeiros artistas. Seus instrumentos eram diferentes de qualquer coisa que eu já havia visto antes... Um homem alto e de longos cabelos loiros que se sentou ao meu lado explicou-me sobre todos eles.
Um dos instrumentos, assim como o famoso alaúde, funcionava com cordas, mas não se tocava com os dedos, e sim com um tipo de arco. Em Azagal o chamavam de violino. Seu tamanho não era muito chamativo, mas seu som era de se impressionar... Certas vezes, agudo e com um som agradável, mas em outras, violento e frenético.
Havia uma versão maior do violino, também tocada com o arco, que por sinal era mais longo. Mal posso imaginar como aquele homem o carregava, já que o instrumento parecia extremamente pesado. Tinha um som bastante diferente de seu pequeno primogênito... Era mais calmo, porém mais grave. Contínuo... Como a ventania que estava do lado de fora. Violoncelo era seu nome.
No grupo havia uma bela moça que tocava uma harpa. Assim como Ayla, ela tinha orelhas longas que saltavam para os lados. Era uma elfo. Seu instrumento musical era dourado e brilhante, chamando bastante atenção visualmente. Seu som criava o fundo de cada música.
Por fim, a principal peça do grupo musical... Uma bela cantora de olhos esverdeados. Além de ser muito bonita, tinha uma voz que passava paz a qualquer um que ouvia. As letras das músicas que ela cantava contavam histórias variadas. Algumas sobre heróis de Azagal, outras sobre nobres cavaleiros que conquistavam as mãos de suas amadas princesas. Histórias de amor... Histórias tristes... Contos sobre viajantes que encontravam dragões em suas aventuras, e até mesmo guerreiros que bravamente enfrentavam gigantes ferozes.
Após algumas horas depois de Verhor, o cara que me fez companhia por um tempo, partir, finalmente notei que o tempo passou voando... O grupo musical havia saído, e então constatei que eles estavam ali há muito tempo. Terminei meu último copo de vinho e finalmente parti, deixando a apresentação dos dois novos bardos para trás. Seria no mínimo perigoso voltar para a hospedaria tão tarde, já que eu não poderia deixar Koda nos estábulos daquele lugar. Como do lado de fora estava bastante nublado e com uma garoa que aos poucos ficava mais forte, não pude saber exatamente quanto tempo eu tinha ficado ali, já que as luas estavam completamente cobertas... Porém, estava obvio que eu havia passado mais tempo lá do que deveria. As ruas não estavam nem um pouco movimentadas, e até mesmo os guardas estavam se recolhendo para trocarem de lugar com os do turno da noite. Acabei deixando Alice na mão, já que prometi que a encontraria na hospedaria... Imaginei que há àquela hora ela já estava dormindo.

Depois de deixar Koda nos pequenos estábulos da hospedaria, finalmente fui ao meu quarto. Não havia ninguém nos bares de baixo... Bom, algo normal, já que todos ali provavelmente já estavam dormindo, exceto o rapaz que cuidava do lugar durante a madrugada e seu parceiro com uma espada curva esquisita. Os dois estavam quase tombando também... Mas eram obrigados a ficar ali até que o sol nascesse novamente.
Minhas vestes estavam um pouco molhadas, assim como as minhas botas. A chuva aos poucos ficava mais forte do lado de fora... Por sorte cheguei antes de se tornar um problema muito grande. Após subir as escadarias até o terceiro andar, destranquei a porta de meu quarto, já bastante distraído pelo cansaço. Tudo o que eu queria era cair na cama e dormir... Estava exausto... Mas antes que pudesse fechar a porta atrás de mim, vi alguém sobre a cama. A figura nua me encarava nos olhos... Como se pudesse se comunicar comigo apenas com o olhar... Se eu não estivesse um tanto acostumado com aquela expressão provocante tentando me atrair com todas as suas forças, eu a confundiria com Alice, ainda mais naquela escuridão... Mas até mesmo num momento como aquele, onde eu me encontrava sonolento como uma criança no final de uma tarde, ela era facilmente reconhecível. Era Ruby, o pecado da luxúria.

— Demoraste demais, Zephyrum... — Ela passou a língua pelos lábios, começando a mexer os pés logo em seguida. Estava sobre a cama com as costas para cima, mantendo erguidas as suas pernas. — Já estava me preocupando...

— Ruby... — Falei num tom de voz um pouco baixo, ainda sem enxergar muito bem por conta de todo aquele vinho que bebi.

— Haaaah... Você chamou pelo meu nome...! — Ruby disse, corando de repente. Colocava as mãos sobre as bochechas enquanto esboçava um enorme sorriso no rosto. — Hoje eu posso sentir seu corpo exalar desejo... — Aos poucos ela foi saindo de cima da cama, logo ficando em pé. Atrás de mim, a porta rangia... Estava se fechando, eu sabia disso... Mas mesmo assim, não me mostrei nervoso. Não pensei no pior... Por quê?

‘’O que você realmente deseja, afinal? É isso que importa... ’’

Mesmo com Ruby se aproximando tão lentamente, meu corpo não se movia. Eu não reagi... Minha mente parecia flutuar numa nuvem acima dos céus escuros daquela cidade... Mas mesmo assim eu estava ali. Eu sabia o que ela faria... Algo em mim queria impedi-la. Uma parte de mim sabia que não era certo... Mas me perguntei por um instante: Por que levar minha honra tão longe? Naquele momento, eu não quis mais me importar com a moral.
Aquelas mãos macias, porém frias, tocaram o meu rosto levemente pouco depois de a porta atrás de mim se fechar por completo. Aos poucos ela foi se esticando para cima, ficando nas pontas dos pés. Seus lábios vieram até os meus... E eu simplesmente não hesitei em seguir seus movimentos. Aquele havia sido o meu primeiro beijo... Mas era diferente do que haviam me dito. Não era tão quente quanto falavam, mas era molhado... De certa forma, senti um calor em meu corpo. Aquilo era prazeroso... Bem devagar, levei minhas mãos até a cintura dela, passando brevemente com a direita pelas suas costelas. Eu pude senti-las... Seus seios me tocavam conforme eu me colava mais e mais à Ruby. Eram confortáveis...

Após terminarmos aquele longo e molhado beijo, Ruby moveu suas mãos até os prendedores da minha capa, os soltando. Antes que eu pudesse perceber, já estávamos na cama... Eu sobre ela, a beijando de maneira mais intensa e ousada do que antes. Meu coração dizia que era errado... Mas o resto do meu corpo negava esse sentimento.
Quando me dei conta, eu ainda estava sobre ela... Mas já sem meu sobre-tudo branco e minha camisa escura. Minha espada estava longe... Havia sido removida da mesma forma que as minhas vestes: Pela estranha habilidade que Ruby tinha de fazer com que objetos flutuassem no ar. Minha respiração estava ofegante, assim como a dela. Mesmo não estando uma noite quente, eu estava começando a suar. Por dentro era quase como se eu ardesse... Meu coração batia forte e numa velocidade mais alta do que o comum. Encarar o fundo daqueles olhos dourados me deixava mais excitado... Como se eles me chamassem para um abismo no qual eu desejava muito mergulhar.

— Você já sofreu tanto... — Ruby levou suas mãos até o meu rosto, olhando fixamente para mim. — Eu irei amenizar essa dor...

De repente, Luxúria desapareceu, passando por mim ao se converter em centenas de pequenas pétalas negras. Senti seus braços tocando em minhas costas, e então me virei lentamente, deitando-me na cama. Aos poucos ela foi se posicionando, colocando-se sentada sobre mim. Visivelmente ela não se importava nem um pouco em tocar sua intimidade no ponto final de minha barriga. A fraca luz que vinha da janela sobre a cabeceira da cama dava-me visão aos seus seios. Tinham uma beleza inigualável...

— Você pode tocá-los se quiser, Zephyrum... — Disse Ruby, passando brevemente a mão direita por um de seus seios. Tinha um olhar sedutor enquanto mantinha a boca um pouco aberta. Estava corada... Mas não como quando uma garota fica envergonhada. Ela não tinha nenhuma vergonha do que estava fazendo.

Não hesitei em tocá-los. Eram macios... Quando coloquei minhas mãos neles, Ruby arrepiou por um instante. Ousei tocar em seus mamilos depois de por um tempo amaciar os peitos. Sem conseguir evitar, ela deixou sua voz ir ao ar. Aquilo não era prazeroso só a mim. As expressões dela mudavam conforme eu passava minhas mãos por sua barriga e seios. Senti que seu corpo também esquentava... Conforme nos tocávamos, mais excitada ela ficava. Pude perceber isso pela visível umidade em sua intimidade.
Quando éramos mais novos, em nossa vila, Wave e eu escutávamos as conversas dos poucos guardas que jogavam fora seu tempo durante a tarde. Um deles, um tanto bêbado, admito, falou sobre seu relacionamento sexual com a mais nova amante. Sem se preocupar com quem estava ouvindo, ele mencionou o que a deixava excitada na hora do ato... Wave e eu não demos muita bola na época, já que não pretendíamos nos preocupar com sexo tão cedo... Mas eu tenho uma boa memória.

— Ahm... Eu sei o que você quer... — Luxúria levou sua mão direita até o meu pênis, o massageando para cima e para baixo. Aquela sensação estranha... Era como se eu fosse explodir...

Não consegui evitar. Não consegui pará-la. Depois que ela removeu as minhas calças, fizemos o que eu achei que faria apenas com a mulher dos meus sonhos... Alguém com quem eu fosse passar toda a minha vida.
Nos juntamos num calor inigualável. Mesmo naquela noite fria, tudo parecia esquentar cada vez mais... Seu corpo... Sua voz... Havia uma sensação dentro de mim que eu não conseguia compreender. Me chamava. Me fazia ter desejo... Eu sabia bem o que era o desejo. Consegui compreendê-lo... Mas... Por quê? De onde ele vinha...? Algo me chutava até ela. Me fazia desejar seu corpo...
Todas aquelas sensações incríveis que nunca antes tive só ficavam cada vez mais fortes. Mesmo após chegar ao auge uma vez, já quase exausto... Continuamos... Aquilo não estava certo. Mas meu corpo ansiava por algo que a minha mente queria negar. Precisava negar... Eu joguei fora a minha honra naquela noite.

Num momento de semi-lucidez, me enxerguei num lugar totalmente diferente... Antes, eu estava sentado na cama de meu quarto, na hospedaria, com Ruby agachada bem à minha frente, usando a boca para me fazer mergulhar novamente no profundo poço do prazer sexual... Mas depois, vi-me em uma casa um pouco escura, com algumas tochas que criavam certa iluminação. Sim... Eu já estive lá...
Ao olhar para baixo, não vi Ruby, mas sim Sandra. Quando estendi um pouco as minhas mãos, que antes estavam na cabeça dela, vi marcas que jamais havia tido... Meus braços tinham pêlos escuros e estavam bem mais fortes. Erguendo a cabeça, vi a imagem de mim mesmo a alguns metros à frente. Eu vestia as roupas azuis de antes, e tinha o cabelo um tanto bagunçado... Meu eu encarou-me nos olhos. Mais do que ninguém, eu sei o que cada expressão minha significa. Tudo o que eu podia ver era vergonha...

Paralisado, voltei ao mundo real após alguns instantes olhando para os meus próprios olhos verdes. Lentamente voltei minha atenção à Ruby, que continuava o ‘’trabalho’’ olhando para mim periodicamente. Ao notar minha expressão esquisita, talvez de pavor, já que eu não podia ver a mim mesmo naquele momento, ela afastou sua boca de meu pênis.

— Qual é o problema, Zephyr...? — Luxúria indagou, olhando para mim com as sobrancelhas arqueadas, tendo realmente estranhado o meu olhar.

Acabei surtando de repente... Acho que eu já estava ficando louco há muito... Só seria uma questão de tempo para que algo assim acontecesse. Numa velocidade que assustaria qualquer pessoa distraída num momento tão calmo como aquele; avancei em Ruby com brutalidade. Não consegui evitar os gritos... Minhas duas mãos apertavam aquele, aparentemente, frágil pescoço, com o máximo de força possível. Se eu estivesse concentrado, com certeza usaria a sutra para tentar quebrá-lo... Mas num momento de loucura como aquele, eu nem mesmo conseguiria pensar em usar uma habilidade tão complexa.
Senti uma dor esquisita nos braços... Algo parecia estar apertando os meus ossos, mas principalmente, segurando a minha pele. Era Ruby. Desesperadamente ela tentava se soltar de mim, mas tinha grandes dificuldades. Seus olhos encaravam diretamente os meus. Ainda eram profundos... Mas não como antes. Eu não os via como antes. Eu queria matá-la... Mas eu sabia que a culpa de aquilo ter acontecido era de fato minha... Só não pude aceitar de imediato.
Quanto mais eu gritava, mais ela mostrava os dentes enquanto tentava resistir à dor que eu causava. Com bastante esforço, finalmente ela soltou os meus braços, se dispersando em sombras de repente.

Instantes depois de fugir de ser enforcada pelas minhas mãos, Ruby reapareceu sobre a cama, encostando-se à cabeceira da cama logo em seguida. Segurava o pescoço e tossia... Mesmo sendo um pecado tão poderoso, ela sentia dor. — Por quê, Zephyrum...? — Ruby perguntou, olhando para mim apenas com o olho direito aberto. — Eu posso sentir... Você me deseja! Então... Por quê...?

Nos encaramos por alguns segundos. Naquele curto espaço de tempo em que estivemos fitando fundo aos olhos um do outro, tive certeza de que ela havia entendido o motivo. Rapidamente apontei minha mão esquerda para Luxúria, lançando Voxtris sem precisar dizer absolutamente nada. Aconteceu tão rápido, que nem percebi... A janela se quebrou quando a infernal colidiu-se com a mesma, forçando Ruby a se dispersar em sombras logo em seguida, fugindo.

Ainda perturbado pelo que havia acontecido e decepcionado com o fato de eu ter fraquejado e quebrado a minha própria honra, fiquei de joelhos no chão, logo apoiando os meus braços nele. Havia muito tempo que eu não deixava que lágrimas escorressem daquela forma... O... O que eu fiz? Eu matei a minha própria honra?
Quando me vi no corpo do líder dos bandidos que matei para recuperar a caixa que os bruxos de Haisyn me pediram, vi que eu havia caído no pecado da luxúria. No desejo pelo prazer. No desejo por ser amado de maneira tão incondicional de repente... Um desejo tão forte que me fez ficar cego ao que eu no fundo desejava. Acabei simplesmente aceitando o prazer... Eu prometi a mim mesmo que não fraquejaria perante Luxúria, mas não consegui. Eu falhei... Aquela foi a minha verdadeira falha...

Após poucos minutos, decidi ao menos me trocar. Sentei-me na cama, podendo sentir o vento vindo da minha direita. A chuva havia parado pouco depois de eu expulsar Ruby do quarto, mas o clima lá fora continuava o mesmo... Frio... Enquanto eu pensava no que havia feito, sem me importar com o restante, escutei algumas batidas na porta.

‘’Sorey? Você está aí...?’’ A voz era familiar. Era Alice, com certeza. Não consegui responder nada... Ouvi como se fosse uma voz ecoando em minha cabeça... Mas ela voltou a se pronunciar, acordando-me. ‘’Se estiver, por favor, responda... ’’

Não me impressionou o fato de ninguém ter escutado o que aconteceu. A chuva do lado de fora estava realmente bem forte, e isso abafava bastante o som de tudo o que vinha do quarto. Talvez Alice tivesse escutado os meus gritos, mas realmente não agiu como se tivesse certeza que vieram de mim.
Me levantei e andei até a porta, abrindo-a lentamente. Alice estava usando um vestido branco longo e seu cabelo estava completamente solto.

— Sorey! Você estava aí... Por que não respondeu antes? — Ela perguntou, preocupada. — Há alguns minutos escutei gritos... Você...

Antes que ela pudesse terminar de falar, abracei-a. Senti que, com o que eu havia feito com Luxúria, eu havia falhado não só comigo mesmo... Mas com Alice, minha fiel escudeira. ‘’Eu não sou digno de tê-la como minha guardiã... ‘’ Pensei. Novamente não consegui segurar as lágrimas... Eu estava me lamentando tanto... Por que fui fraco...
Lentamente fomos nos abaixando, até nos sentarmos no chão. Sem entender o exato motivo de minhas lágrimas, Alice me segurou enquanto dizia o meu nome. Senti que ela havia olhando para dentro de meu quarto após virar o rosto, então provavelmente havia visto a janela quebrada e algumas das minhas roupas espalhadas pelo chão, assim como minha espada, embainhada. Eu não precisei contar que havia tido uma luta... Alice viu com seus próprios olhos as consequências dela.

Quando entramos, após minha vassala ajudar-me a me acalmar, não consegui contar a ela... Alice jamais faria algo assim comigo, eu tenho certeza... Mas mesmo assim eu fui fraco e cedi. Sem perceber, caí nos planos de Luxúria... Tive tanta vergonha de mim mesmo, que não consegui nem mesmo falar a verdade sobre o que havia acontecido. Sobre a existência de Ruby, a qual eu mantinha em segredo há algum tempo...
Depois que ela deu um jeito na janela usando um lençol branco, Alice me ajudou a esquecer o que havia acontecido naquele dia. Não só durante a noite, mas também na ponte até o distrito das nuvens, durante o dia. Eu estava tão cansado que adormeci em poucos minutos. Me confortava saber que eu sempre tinha Alice para me ajudar... Me apoiar nos momentos difíceis... Mas meus erros e minha desonra eram coisas que me perturbavam de maneira absurda.

Eu caí nos jogos de Ruby e acabei, por vontade própria, fazendo o que eu sabia que era errado... Mas algo em mim impediu-me de continuar. Não só aquele ato... Algo me impediu de unir-me à causa de Nahr Veooth. Eu fraquejei... Mas não o bastante para mudar de lado. Talvez eu tenha falhado com Alice como amigo; por não ter contado absolutamente nada do que aconteceu... Mas não falhei como suserano. Posso ter falhado como herói, mas não como mestre da espada. Meu objetivo continuava o mesmo. A luta ainda precisava continuar.
Mesmo depois de algo tão ruim, eu consegui compreender uma coisa... Por mais que as fraquezas me fizessem cair, eu jamais desistiria da profecia. Isso me motivou até o fim desta jornada... Por que o que eu de fato queria, era salvar o mundo daquelas criaturas... E isso que realmente importava. 


Notas Finais


Trilha sonora do capítulo 23:

''When honor is betrayed''
Ashes to ashes (Tree of life - Vol.4 - 2013) - Audiomachine - https://www.youtube.com/watch?v=818C5LHvU6E

''Lust''
Trois vierges (Solo version) (The score - An epic journey - 2005) - EPICA - https://www.youtube.com/watch?v=McYkjHj3o_4

Se chegou até aqui, caro leitor, aposto que sabe bem o por que de ter sido difícil pra caramba de escrever este capítulo... Toda essa coisa do Sorey e a Ayla, a revolta dele por ter falhado, e por fim, a enorme cena com Luxúria. Não foi fácil escrever essa parte em particular por que eu não queria que ficasse muito pesada, já que não é uma história que foca nesse tipo de coisa... Se focasse, garanto que eu detalharia MAIS AINDA, então... Eu espero que, mesmo isso, não tenha sido demais. Desconfortante...
Eu mesmo estive indeciso sobre o que aconteceria nesse capítulo. Como e por quê Sorey iria ceder. Se iria... Mas acho que consegui deixar o bolo no ponto. Isso irá afetar os próximos capítulos, e principalmente o que irá acontecer no futuro entre Sorey e Ruby.
Sei que o capítulo não foi um dos que mais avançou na história. Eu sabia que seria assim desde que criei o roteiro dele. Fiz o possível para não deixar abaixo de cinco mil palavras kkk
Acabou saindo maior até do que eu esperava, no final, mas mesmo assim aconteceu pouca coisa. Muito detalhe pra pouca cena. Mesmo assim, acredito que ficou bom... Toda essa auto crítica é por que eu realmente fiquei indeciso sobre o 23. Foi perturbador, sério.

Bom, sobre quando será o próximo capítulo (Que virá depois de tesserato, creio eu): eu não faço ideia. Sorteei que, ao invés de continuar dando tanto foco à essas duas histórias, daria a devida atenção ao meu outro trabalho que ficou meio abandonado. Um que não tem nada a ver com ToA, por sinal. Já atrasei-o por muito tempo, então pretendo terminá-lo para poder continuar minhas preocupações atuais sem muito pesar na consciência. Como ficarei de férias, vai estar infinitamente mais fácil de enviar capítulos (O período que avancei na história com mais facilidade foi o que eu mais faltei na escola e nas férias kkk) então o final de ano vai ser bem show para escrever. Se uma das duas histórias estivesse bem avançada, eu poderia até fazer um especial de natal! Mas... Quem sabe no final do ano que vem, não é mesmo? Talvez até lá eu já tenha terminado, se tudo correr como o planejado.

Obrigado por lerem, e até o próximo capítulo, o qual garanto que vai acontecer MUITA coisa, e principalmente, será um dos três pontos principais que criarão uma ponte entre o protagonista e sua nova fonte de poder. Estive esperando por isso há um bom tempo... Vários meses, hehehe


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