História Talismã Do Poder - Crônicas De Nihal - 3 Temporada - Capítulo 3


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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Violência
Avisos: Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - A Decisão De Senar


Oarf voou o mais rápido que pôde. Não demoraram a deixar o pântano para trás e a sobrevoar novamente as florestas. A neve voltara a cair e Senar apertava contra si Nihal para protegê-la do vento. 

 Nenhum vilarejo à vista: sob as asas do dragão só escorriam as copas frondosas das árvores. Já fazia um bom tempo que estavam voando, mas por enquanto não havia nem sombra de um lugar próprio para as suas necessidades.  

De repente Laio apontou para o horizonte. 

 — Senar, o que acha que é aquilo? 

 Senar aguçou a vista naquela direção. Ao longe, indistinta, havia uma linha preta que apenas se distinguia. Seus contornos, no entanto, logo ficaram mais claros e a verdade mostrou-se em sua crua realidade: era a frente de batalha. 

 — Não é possível... — murmurou Laio. 

 — Mas é isso mesmo, infelizmente. Estamos longe há duas semanas e a situação já era desesperadora, não se lembra? 

 — Eu sei, mas não podem ter avançado tanto assim! — exclamou Laio. 

 — Estamos voando muito alto, devem estar mais longe do que parece. Mas de qualquer maneira é uma tragédia.

Senar fez uns rápidos cálculos: o Tirano já devia ter conquistado toda a região meridional e uma parte da ocidental, avançando ao longo do curso do Saar. Para onde poderiam ir? Loos ficava longe demais e ele não conhecia outros vilarejos. Só lhes restava o bosque. 

 — Acho que a melhor coisa a fazer é rumar para o nordeste: creio que lá ficaremos seguros, pois estaremos muito longe do inimigo — disse o mago finalmente. 

 — Há algum vilarejo por aquelas bandas? — perguntou Laio.  

— Não que eu saiba. Teremos de nos contentar com a floresta. 

 — Há um lugar... na floresta... — A voz de Nihal estava cansada. 

— O que disse? — perguntou Senar. 

 — Conheço alguém que pode nos ajudar na floresta. Indicarei a direção, mas precisaremos chegar lá de noite. 

 Nihal mostrou o caminho a duras penas. Voaram até o entardecer, quando mais uma noite gelada tomou conta da Terra da Água. Desceram então em uma pequena clareira que mal dava para Oarf pousar. No meio do pequeno círculo coberto de neve só havia uma pedra. 

 — Nihal, não há coisa alguma por aqui... — disse Senar. 

 — Fique calmo, você vai ver. 

Não tiveram de esperar muito tempo. Lentamente a pedra tomou vida sob a cobertura nevada e Senar viu aparecer um velho de rosto encarquilhado de rugas e longa barba branca.

 O velho fitou demoradamente cada um deles e sorriu ao reparar no espanto que via em seus rostos. Então o seu olhar vivaz fixou-se nos olhos febris de Nihal. 

 — Eu estava certo quando previ que iríamos nos encontrar de novo — disse. 

 — Não mudou nada, Megisto. — Nihal sorriu. — Os meus amigos e eu precisamos de um abrigo.

 — A minha caverna é grande até demais para mim. Ficarei feliz em hospedá-los. 

 Levou-os à gruta, onde Senar deitou logo Nihal no catre do velho. A semi-elfo ardia de febre e teve um sono agitado. 

Megisto não perdeu tempo: esquentou a água na lareira e juntou mais palha para acomodá-los. Para onde fosse, era acompanhado pelo sinistro chiado das correntes que trazia nos tornozelos e nos pulsos.

Senar observava-o pasmo. Como é que um homem tão velho pode mover-se tão agilmente com todo esse peso no corpo? Afinal, tirou os olhos do anfitrião e procurou tornar-se de alguma forma útil para Nihal, mas Laio afastou-o delicadamente. 

 — Acho que agora é comigo — disse com um sorriso. 

O escudeiro avaliou rapidamente as condições de Nihal. Depois virou-se para Megisto e perguntou se tinha algumas ervas que Senar desconhecia. 

 — Não, mas sei onde podemos encontrar. Posso levá-lo, se você quiser — respondeu o velho.

Laio assentiu. Embora a contragosto, Senar teve de admitir que o escudeiro parecia saber o que estava fazendo, muito mais do que ele próprio. 

 — Pode ficar com ela? — perguntou Laio. 

— Claro — resmungou o mago.  

Ele e Nihal ficaram sozinhos no silêncio da gruta. Senar tentou ajudá-la com a magia mas foi inútil.  

De repente Nihal abriu os olhos inchados e acalorados. 

— Como está se sentindo? — perguntou logo Senar. 

 — Não deixe que me transforme em um deles — murmurou a jovem. 

 — O que está querendo dizer? — perguntou o mago, embora já soubesse a resposta; ele também não conseguira deixar de pensar no assunto. Se Nihal morresse, iria engrossar as fileiras dos fantasmas que combatiam para o Tirano. 

 — Antes de permitir que eu me torne um fantasma, prefiro que disperse o meu espírito para sempre. 

 — Pare com isso! — exclamou Senar. 

 — A sua magia pode fazer isso, não pode? Precisa fazer com que eu morra para sempre... 

 — Você não vai morrer — disse Senar, tentando convencer principalmente a si mesmo. 

 Mas Nihal já mergulhara no sono. 

Nesta mesma hora Laio e Megisto voltaram, carregando ervas de todo tipo. 

 Laio ficou logo atarefado. Preparou uma espécie de pomada com as ervas e espalmou-a na ferida de Nihal. Cuidou dela durante uma boa parte da noite, até a testa da jovem deixar de arder e ela conseguir ter um sono sereno.

 Megisto pousou a mão no ombro de Senar. 

 — Acho que já é hora de você e o seu amigo descansarem. Esquentou então uma sopa de castanhas e trouxe uma forma de pão preto. 

 Enquanto tomavam a sopa, o mago não conseguia parar de observar o anfitrião. Quando haviam chegado, estava cansado e preocupado demais com Nihal para pensar em onde já ouvira aquele nome, mas não demorara a lembrar-se. Logo após a volta de Soana, Nihal falara a respeito de Megisto e da sua iniciação à magia proibida, à qual recorrera para derrotar Dola. Senar esquadrinhou o velho; não era possível reconhecer naquele corpo castigado pelos anos e as correntes um dos mais cruéis ajudantes do Tirano. 

 O cansaço pegou-os desprevenidos logo após o jantar e deitaram-se nos estrados que Megisto havia preparado para eles.

 Senar, no entanto, não conseguia dormir e continuava a pensar nas palavras que Nihal murmurara delirando: 

 O que estou fazendo aqui, afinal, se nem sou capaz de ajudá-la numa situação tão simples?

 Naquela altura Senar devia admitir que havia sido injusto com Laio. Acreditara que ele seria só um estorvo, mas na verdade o escudeiro nunca se queixara durante toda a viagem até o lamaçal, embora às vezes o mago o tivesse surpreendido a massagear-se as costas depois de tantas horas na garupa do dragão. Sempre olhara para ele com ceticismo, ao vê-lo manusear as suas ervas, e mesmo assim aqueles emplastros de cores improváveis haviam se revelado válidos para baixar a febre de Nihal.

 Senar aguçou os ouvidos, prestando atenção na respiração da semi-elfo. Estava preocupado com ela. Podia ler em seus olhos violeta que estava disposta a sacrificar tudo pelo bom êxito da missão, e percebia que dentro dela voltara a abrir-se uma ferida que poderia tragá-la de vez para o abismo. Tinha a impressão de nunca Nihal ter ficado tão longe dele. Voltou a pensar nas últimas palavras que dissera a Ondine, no fundo do mar, e amaldiçoou a si mesmo por não conseguir cumprir a sua promessa.

O dia seguinte passou lentamente, com a neve que continuava a cair no bosque. Quando acordaram, Megisto já não estava: voltara a ser prisioneiro da pedra.

 Tinha deixado umas tigelas de ambrosia e algumas fatias de pão. Depois de comer e beber, Senar e Laio ficaram se revezando ao lado de Nihal. 

 Naquela tarde, enquanto o escudeiro cuidava da semi-elfo, o mago ficou pensando no futuro da missão. A pedra seguinte era a da Terra do Mar, o lugar onde nascera. Não podia certamente dizer que conhecia bem o território, pois quando criança só estivera em contato direto com os campos de batalha, mas pelo menos iriam viajar por uma Terra que lhe era familiar.

Ao entardecer Nihal continuava dormitando e a febre parecia ter esmorecido. Megisto entrou na gruta depois do anoitecer, trazendo consigo queijo e pão. Senar acendeu a lareira e os três sentaram-se para comer.

 O mago abocanhou o queijo com vontade, deu uma olhada em Nihal que dormia tranqüila e então virou-se para Laio. 

 — As suas ervas tiveram sucesso onde a minha magia falhou — admitiu. 

 Faltou muito pouco para que o pão caísse das mãos de Laio. O seu olhar animou-se com uma luz orgulhosa e Senar não pôde deixar de sorrir.

Na manhã do terceiro dia como hóspedes de Megisto, Nihal abriu os olhos e, meio sonolento, Senar estava ao seu lado. 

 — Finalmente acordamos — disse o mago. 

 Com muito esforço Nihal levantou a cabeça do travesseiro. 

 — Há quanto tempo estamos aqui? Precisamos seguir viagem, não temos... 

 Senar interrompeu-a: 

 — Laio esforçou-se bastante para que você não morresse. Espero que agora não torne inútil o seu trabalho. 

 Nihal deixou cair novamente a cabeça na cama. 

 — Estou faminta — disse. 

 — Logo que Laio voltar, comeremos alguma coisa.

 O escudeiro não demorou a chegar com algumas frutas silvestres e nozes que encontrara no bosque. 

Quando viu que Nihal acordara, jogou-se em cima dela abraçando-a e esquecendo a ferida. Nihal não pôde evitar um gemido. 

— Desculpe, desculpe — disse Laio, desajeitado, ao se separar dela com o rosto vermelho de constrangimento. 

 Na mesma tarde, quando ficou sozinha com Senar, Nihal começou a esbravejar. Disse que estava boa, que tinham perdido tempo demais e que já estava na hora de retomarem a viagem. 

 — É muito cedo e você sabe disto — tentou dissuadi-la o mago. — Se partirmos agora, dentro de poucos dias vai ficar novamente doente. 

 — A guerra não se importa com as minhas necessidades. Não posso dar-me ao luxo de perder mais tempo — respondeu Nihal. 

 — Não estou dizendo isso. 

 — E inevitável se eu ficar aqui. 

 — Eu posso ir no seu lugar. 

Nihal demorou alguns segundo antes de responder, olhando para ele: 

 — Não pode e sabe bem disto. Só eu posso usar o talismã e tocar nas pedras impunemente. 

 — Sou um mago. Já não trago comigo o meu medalhão, mas continuo sendo um conselheiro. 

 — Não entendo como... 

 Senar virou-se de costas. Não podia encará-la, receava que ela pudesse ler nos seus olhos a mentira. 

 — Conheço centenas de encantamentos capazes de subjugar enormes poderes, um deles poderá certamente isolar o talismã, pelo menos durante algum tempo, para que eu possa usá-lo em seu lugar. 

 — Mas o guardião...

 — Ao ver o talismã não vai desconfiar de coisa alguma. 

 — Você não sabe onde fica o santuário... — protestou Nihal.

 — Você indicará o caminho. Senar calou-se. 

 Um silêncio cheio de dúvidas tomou conta da caverna. 

 — É perigoso. Não quero. 

Senar ajoelhou-se ao lado de Nihal e segurou a mão dela. 

 — Não deixarei que saia daqui antes de o seu ombro sarar por completo. —Tentou sorrir. —Afinal, o que pode haver de tão estranho em entrar num santuário para alguém que desceu ao Mundo Submerso? - Ela não devolveu o sorriso. 

 — Está me parecendo chantagem... 

 — Só estou tentando ajudar. 

Nihal ficou pensativa e Senar apertou suas mãos com mais força. 

 — Jure que não vai se arriscar além da conta — disse ela então, devagar. — Jure que se o encanto não funcionar voltará logo para cá. Senar engoliu em seco. 

 — Prometo. — Em seguida levantou-se. 

— Vamos lá. Vamos dar logo uma olhada nesse amuleto para saber aonde terei de ir — disse, tentando aparentar alegria. 

 Nihal hesitou por alguns instantes, depois pegou o medalhão. 

 Senar viu-a fechar os olhos e concentrar-se. Quando a semi-elfo falou, a sua voz soou estranha, como se chegasse do fundo de um abismo: 

 — No mar, onde o rochedo abraça as ondas e as ondas desgastam o rochedo. Há altos borrifos de espuma e ventania, uma forte ventania que uiva entre as fendas. A costa. Duas sombras negras que se erguem ao lado. Duas torres. Não, duas altas figuras, dois pináculos. — Nihal voltou a abrir os olhos. 

 — Só isso? — perguntou Senar, decepcionado. 

— Só. Não consegui ver mais nada. - Senar suspirou. 

 — Pode pelo menos indicar uma direção? 

 Nihal fechou novamente os olhos, mas Senar percebeu que a face ficava corada pelo esforço e interrompeu-a: 

 — Deixe para lá, está cansada — disse. - Nihal abriu os olhos. 

 — Precisa seguir o curso do sol, quando nasce. 

 — O leste... 

 — Aquela palavra, “pináculos”, está gravada na minha mente. Acho que é importante — acrescentou Nihal. 

 — Lembrarei disto. — Senar levantou-se. 

— Vou procurar algumas ervas no bosque — disse. 

 Saiu da gruta com passo decidido, como se quisesse afastar-se quanto antes da mentira que tinha contado a Nihal e da terrível decisão que acabara de tomar. 

 Senar ficou um bom tempo diante da pedra, no frio cortante do anoitecer. Precisava falar com Megisto, a sós. 

 Enquanto esperava pela chegada da escuridão, voltava a pensar no amuleto. Havia mentido a Nihal, não conhecia qualquer encantamento capaz de controlá-lo. 

Pouco a pouco a pedra animou-se. Megisto não se mostrou surpreso com a presença de Senar. 

 — Quer falar comigo? — perguntou, com o tom de quem já conhece a resposta. Senar anuiu e então contou de um só fôlego tudo o que já tinha dito a Nihal. Megisto ouviu atentamente. Depois de acabar o seu relato, Senar ficou algum tempo em silêncio.

 — Não existe qualquer tipo de magia, nem proibida nem do Conselho, capaz de subjugar um poder como esse — admitiu afinal.

 Senar baixou então os olhos. Já devia saber que não conseguiria mentir para aquele velho. 

 — Mas posso pelo menos atrasar o seu efeito, e se renovar a fórmula sem parar... 

 — É muito arriscado — disse sem meias palavras Megisto. 

 O mago começava a ficar irritado. Aquelas não eram as palavras que queria ouvir. 

 — Vai ou não vai hospedá-la enquanto eu estiver ausente? 

 — Está querendo que a tranqüilize, que oculte o seu engano, que lhe diga que não há perigo. 

 Está olhando na minha alma, sabe o que estou pensando... 

 — Isso mesmo — admitiu Senar. 

 — Está bem, farei isso enquanto puder — disse Megisto. — Mas saiba que não concordo. 

 — Só lhe peço que faça. Não tenho outra escolha. - Megisto levantou-se. 

 — Procure tomar cuidado, pelo menos. 

 Senar partiu no dia seguinte, de madrugada. Megisto já havia desaparecido e os três estavam sozinhos. 

 O mago aprontara tudo. Guardara as suas poucas coisas num saco de viagem e colocara no chão uma série de pequenas tiras recortadas de longas e fibrosas folhas de um verde desmaiado. Em cada uma delas, com tinta azul, estava marcada uma runa. O feitiço de contenção mais poderoso que conhecia. 

 — Dê-me o amuleto — disse a Nihal. 

 A semi-elfo esticou o braço. Na mesma hora em que os dedos de Senar tocaram no medalhão, a pedra da Terra da Água começou a ficar escura e o mago sentiu as próprias forças se esvaírem. Escondeu o talismã na mão fechada e tentou não deixar transparecer a fraqueza. Então virou-se e colocou o medalhão sobre as folhas. Logo que soltou a presa, a pedra reassumiu a sua cor natural. 

 Senar envolveu o amuleto nas folhas e recitou uma ladainha. Segurou-o então nas mãos e mostrou-o a Nihal com um sorriso. 

— Está vendo? Ficou inócuo. - Nihal não mudou de expressão. — Pense melhor. Só levarei mais dois dias para voltar a andar.  - Senar jogou o saco de viagem em cima do ombro. — Logo que tiver encontrado a pedra irei chamá-los e avisarei onde estou. Não se preocupem, vai dar tudo certo — disse. 

 — Tome cuidado — insistiu Laio ao despedir-se. 

 Nihal levantou-se na cama e abraçou-o. Beijou-o no rosto e, antes de afastar-se, murmurou ao seu ouvido: 

 — Não morra. 

 Senar fez um esforço para sorrir mas não conseguiu. Então virou-se e seguiu pelo seu caminho.



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