História Te vejo domingo - Capítulo 4


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Angst, Lemon, Originais, Yaoi
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Palavras 5.012
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Lemon, Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Hey bebes! Boa leitura e até as notas !

Capítulo 4 - Quatro


 

Novembro de 1963

Me lembro do dia em que deixei Spencer e Madeline no internato. Spencer me odiou, arrancou o botão de meu casaco e o levou com ele.

Nunca mais pude usar meu casaco cinza, eu amava aquele casaco, não sei porque, ele me fazia me sentir melhor, ele se ajustava a mim e junto com o chapéu, não sei explicar.

Eu simplesmente adorava aquele conjunto.

Gostava da cor dele, o seu cinza se ajustava perfeitamente a mim. Nunca mais pude usá-lo, afinal está sem botão. Eu o deixei na casa de Ryan, lá é extremamente frio no inverno. Dei o casaco a ele para que ele use nos dias e noite quase congelantes, mesmo sem o botão ele ainda é um bom agasalho.

Ele usa? Espero que sim.

Depois daquele almoço, resolvi não trabalhar, não tenho consultas marcadas para hoje e por mais que seja tentador, não estou com vontade de estudar.

Tenho mil detalhes para resolver, só de pensar, fico cansado. Voltar a morar com meu pai vai ser um torturante espero que ele simplesmente nos ignore e como ele odeia crianças, ele nem vai dar as caras. Assim eu espero.

Preciso da ajuda de Adele, agora que ela está grávida e muito esperançosa e não a ninguém mais prestativo no mundo do que Adele. Desejo que essa gravidez vá em frente. Minha prima anseia uma gravidez a anos e cada filho que perde, um pouco da sua alegria de viver também se vai. Céus, como eu vou sobreviver aquela família sem ela?

Decido ir visita-la. Taylor nunca sabe o caminho de casa e os outros eu tentarei aturar.

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Deve ter sido planejado, mas as casas da família Whitesell são um pouco afastadas do restante da cidade. Há um caminho que leva para a estrada e para qualquer outro lugar.

Forma um bairro de qualquer forma, há ruas que separam a casa de tio Kevan e de seu filho Frederick, o meu único e odiado primo. Um pouco adiante a casa do meu outro tio Beric , o pai de Adele. A minha prima não quis deixar de morar com os pais, já que os ama tanto, bem, é o que ela diz, tia Clary é uma senhora chorona e tagarela. E o tio Beric, ele tendo seu whisky duplo gelado, o resto do mundo é irrelevante.

 Meu pai é o filho caçula, a casa em que ele vive é quase no fim desse bairro privado e a minha casa é ainda mais isolada. Eu mandei construí-la enquanto fazia faculdade em Detroit, mesmo tendo uma ou duas casas vazias. A minha é pequena, apenas um quarto. Quanto menos espaços para visitas melhor.

Para deixar o lugar ainda mais exclusivo, na entrada de tudo há duas belas árvores. Ah, elas são enormes, estão ali desde antes do meu avô e talvez nunca morram, não enquanto existir um Whitesell. Lembro, eu e Adele subíamos nela, nunca no topo, mas era divertido. Brincávamos lá em cima até a época em que eu perdi o interesse de subir em árvores e de fazer todas as coisas de criança.

Agora, suas folhas vermelhas, amarelas e marrons fazem um tapete no chão, os galhos secos, parecem frágeis, mesmo sendo extremamente grossos.

Encontro Taylor saindo de casa. Ele é um homem bonito, saudável e que impõe presença. Ruivo de olhos castanhos e pouca coisa mais baixo que eu. É realmente uma pena que sua personalidade seja um lixo.

— Martin! – Ele grita ao me ver. — Que surpresa. Ah, não é tão surpreendente assim. Veio ver sua prima não é mesmo?

Dou um sorriso seco e respondo.

— Você que não seria.

— Ah,tanto faz.—  Ele dá de ombros. — Adele está em casa, no quarto. Fazendo a única coisa que sabe.

Quando eu vejo o desprezo nos seus olhos eu logo já imagino o que seja. Mas eu preciso de uma confirmação.

— O que quer dizer com isso Taylor?

Ele engole em seco e olha para baixo, quando levanta o olhar novamente para mim, o seu rosto se contorce em asco.

 Ela está naquele quarto. Chorando. E matando todos os meus filhos.

Oh não. Mais uma vez não.

Adele estava grávida de dois meses. Ela perdeu o bebê. Novamente.  E a culpa é desse miserável, ele bateu nela. Eu sei.

 — Você é um cretino Taylor. — A vontade que eu tenho de soca-lo e gritar é imensa mas me controlo. — Você bateu na minha prima. Você bateu em Adele! É por isso que ela perdeu o bebê. Por sua culpa. Você não merece ser pai.

Os olhos castanhos de Taylor arderam em ira. Um fiapo de sorriso surgiu de seus lábios.

— E você? Você merece ser pai ? —  Sua pergunta não esperava resposta. — Se eu tivesse dois filhos como você tem eu nunca os deixaria. Então não diga que eu estou errado se Adele não é forte suficiente!

Ai sim quis acabar com a cara dele. Um soco bem forte naquele nariz bonito demais para alguém como ele. Mas eu vi pelo canto do olho, o jardineiro saindo dá casa de tio Beric, não quero escândalos nem comentários. Por isso controlo a minha raiva.

— Taylor você é ridículo, você bate em uma mulher maravilhosa como Adele e pensa que tem algum motivo para falar de mim. Por favor, suma da minha frente.

 Ele solta um risinho.

— Lya teve sorte em não ter se casado com você.  Minha irmã teria ficado maluca, pobrezinha. Claro que no começo, quando eu fiquei sabendo que você a rejeitou pensei que o maluco era você. Mas eu penso que você não merece ter ninguém.

O sortudo foi eu.

— Ainda bem que eu não me importo com o que você pensa. Com licença, vou ver minha prima.

Ignoro Taylor, o jardineiro e quando entro na casa também não é diferente. O caminho que faço é um tanto robótico já que o meu objetivo era bem claro.

A porta do quarto estava apenas encostada. Fui a abrindo lentamente, estava nervoso pelos meus problemas e preocupado com a minha prima.

Ela estava sentada na cama abraçando as próprias pernas. Ainda usando a camisola de dormir ainda que já passe das duas, os cabelos estavam presos num coque desgrenhado e ela não pareceu notar a minha chegada. Ocupada demais chorando baixinho.

— Hey. – Minha voz sai mais baixa do que eu esperava porém ela me nota. Vira o rosto lentamente e me olha. E volta chorar baixinho.

Fecho a porta e noto o quanto o quarto está bagunçado, as cortinas estão fechadas, mas há uma grande mancha marrom no tecido. A quanto tempo elas não foram trocadas? A colcha da cama também estava desorganizada. Tudo era uma bagunça.

Doía ver Adele assim. Ela era minha prima, minha melhor amiga, minha única amiga. Ver ela num casamento infeliz e sem filhos. É horrível pensar que eu poderia ter dado uma vida infinitamente melhor pra ela.

— Chegue mais perto, por favor. —Ela pede com a voz ainda embargada de lágrimas.

— Sabe que eu nunca recuso uma pedido seu. — Eu tento sorrir e anima-la. Sento na cama ao seu lado.

Ela não tomava sol a um bom tempo, a pele estava mais clara que o normal, seus belos olhos verdes não tinham mais destaque algum. As escuras olheiras lhe tiravam a atenção. Mas nada era tão ruim quanto a marca roxa no lado esquerdo de sua face, ela ia da bochecha até a orelha e era uma marca de quanto Taylor era um monstro.

— Adele, eu ... Eu sinto muito. – A abraço, na tentativa de fazer ela se acalmar. Queria conseguir consola-la, mas não tenho nada além das palavras e dos meus abraços.

“Tudo culpa minha. Culpa minha. Mais uma vez a culpa é minha.”  É o que ela murmura enquanto está nos meus braços.

— Ei, o que é isso? Não é sua culpa nunca foi sua culpa. — Eu lhe digo mas ela parece nem ter ouvido.

“Tudo culpa minha. Culpa minha. Mais uma vez a culpa é minha.”

“Não é. Não é.” Era tudo que eu dizia.

 A forma que ela repetia isso enquanto eu a embalava nos meus braços já era uma cena terrivelmente comum. Esta é a segunda vez no ano que Adele perde um filho e a quinta em toda sua vida.

Quando eu não conseguia mais aguentar aquela situação, a tirei delicadamente dos meus braços. Queria enxugar as lágrimas dela. Porém tinha medo de mesmo delicadamente, o meu toque fizesse seu rosto doer. Seguro suas mãos finas e delicadas, podia ver que elas tremiam.

— Adele, você tem que se acalmar. Tem que ser forte. Só um pouquinho. Estou te suplicando.

Ela respirou fundo, consegui ver que queria tentar sair de todo aquele desespero.

—  Hoje eu acordei com muitas cólicas. Também não me sentia bem ontem. — Adele tinha a voz baixa mas sem lágrimas a atrapalhado.— E eu o Taylor discutimos. Bem, perdeu o controle. Mas isso não é importante. Eu perdi o meu filho, nada mais é importante.

-  Eu vou denunciar aquele filho da puta. – Já havia dito isso antes. Ameaçado, mas Adele sempre me pedia para não fazer isso seria um escândalo seu marido na cadeia. Uma vergonha que ela não queria ter. Como se ser agredida fosse mais aceitável. – Não me implore para que eu não o faça. Você perdeu seu filho por culpa dele.

Adele tinha um estranho medo nos olhos. Apenas um cego realmente não veria todo seu desespero e impotência.

— Já pensou o que vai ser de mim se ele for preso? – A forma indignada que Adele me questiona me assusta. – Uma Whitesell divorciada seria vergonhoso. Ninguém jamais se casaria comigo novamente. Taylor não teve culpa nenhuma. A culpa é minha. A minha incapacidade. Essa era a minha última chance, o tempo está passando e eu nunca serei mãe!

— Não há verdade nenhuma nisso. Seu marido é um monstro. Ele não merece uma esposa como você.  Se você finalmente se livrar dele e vai conhecer uma pessoa...

— Alguém que não seria você. — Ela me interrompe. Não gosto desse assunto, me embaraça, me faz me sentir culpado por muitas coisas que aconteceram com a minha prima. — Não quis se casar comigo quando eu era jovem e com certeza não se casaria agora.

— Isso já faz muito tempo. — Não tenho muito o que responder, preciso ser sincero e cortar este assunto. — E não foi tão simples como você está dizendo.

Mas Adele pareceu não ter ouvido o que eu disse e continuou se lembrando do passado.

— Se você tivesse se casado comigo, não estaríamos aqui, nessa cidade que você odeia. Eu seria mãe de Spencer e de Maddie. Isso seria maravilhoso.

Por alguns anos, na época que eu ainda não tinha nem trinta, eu era tímido e péssimo em me relacionar com qualquer um da espécie humana. Adele era minha prima, cresci com ela, minha única amiga. Meu primeiro beijo, minha primeira namorada e a primeira vez que senti o corpo de outra pessoa. Não minto, eu a amei muito. A muito tempo, pensar nisso não vai me fazer ama-la de novo, apenas maneira de ferir algo tão belo e frágil.

— Eu não quero ver você assim Adele. Triste e despedaçada, seus pais também não. Talvez, até Taylor. Poderia pelo menos tentar. Poderia fazer um repouso hoje, não chore mais. Quanto tempo você não leu nenhum livro?  Amava poesias.

— Poesias mentem. Só as tristes são verdadeiras. — Com a voz pouco expressiva e a face apática, Adele não era Adele.  A marca roxa na sua bochecha era como uma bandeira de derrota.

A raiva que sinto de Taylor é enorme, mas também sinto raiva de Adele. Quando foi que ela se tornou tão fraca? Olho ao redor do quarto, há um pequeno enfeite na prateleira, bonito, acho que Taylor deu a Adele.

A sensação de joga-lo contra a parede e ouvir o barulho do vidro se quebrando foi satisfatório.

— O que você fez? Aquilo era um presente. — Adele não ficou muito satisfeita, ela veio até mim e tentou me bater. Levei uns tapas no peito, porém era o que eu queria, que ela saísse da cama.

A abraço de um jeito meio desajeitado, sentindo luas lágrimas em minha roupa.

— Não era um presente, Taylor não te ama. Eu amo você.  Você é a minha priminha querida. Minha única família, não há ninguém importante aqui além de você.

Era uma meia mentira. Eu tinha Ryan. Mas ele era só meu, meu adorado segredo e tesouro escondido. Ninguém podia saber, nem Adele. Uma pessoa não tão agradável quanto ela já sabia e isso me assustava.

Ela chorou por um tempo. Eu tentava consola-la e dizer que não era culpa dela o fim da gravidez, que Taylor era um idiota em ter batido em uma mulher maravilhosa como ela e fiz uma pequena chantagem que se ela não se animasse, eu iria me misturar álcool e medicamentos.

— Obrigada. — Uma única fala dela, a sua voz sai alegre, pelo menos bem melhor do que antes.  Como a Adele de anos atrás.

— Eu só aceito seus agradecimentos se você parar com toda essa tristeza. Sair um pouco dessa casa e tentar ver algo bom nessa cidade. Terá que recorrer a maquiagem eu sei. E também se me desculpar. Por qualquer coisa.

Ela sorri e começa a enxugar as lagrimas.

— Desculpado, por alguma coisa. Perdão, não queria ser mais um problema pra você.

Rio fraco pois ela jamais seria um problema.

— Nada disso. Tenho meus problemas e mais alguns novos. Mas você nunca estará entre eles. Você é o meu alivio.

— Como assim novos problemas? — Aquilo despertou sua curiosidade. Como de qualquer forma ela ia ficar sabendo, decidi não fazer mistério.

Falei sobre o internato falido, a volta dos gêmeos e todo o resto. As expressões de Adele eram calmas, apenas observava.

— Maddie e Spencer vão voltar. Ah, Isso é bom, eles gostavam de mim. Será que ainda gostam? — Pergunta.

Bufo, extremamente frustrado.

— Provavelmente gostam mais de você do que de mim. Eu nunca quis ter filhos. Porém eu fiquei feliz quando eles nasceram. Acho que Monique ficava com a parte difícil. — Me arrependi de ter dito isso, não há parte fácil ou difícil, ela cuidava das crianças mas eu trabalhava quase todos os dias e ficavam muito cansado. — Ai ela morreu e eu mal me aguentava. Não fiquei completamente feliz durante três anos mas, bem, eu nunca fico completamente feliz. E ainda tem o psicólogo, eu tenho que falar com ele logo, ver quanto ele cobra, deve ser caro, preciso agilizar isso.

Adele mexia nas mãos, como sempre fazia ao se animar, ela sorriu, um belo sorriso.

— Eu faço isso por você! Sim, eu falo com o psicólogo, posso telefonar para ele, ou mandar telegramas se necessário, eu gosto disso. Organizo os quartos na casa do tio Patrick para receber as crianças.  Eu sei que ... Que ele não vai voltar. — Ela se referia ao filho.— Nunca voltam, e nunca vou segurar um filhos nos braços. Acho até que não quero mais, Taylor não merece um filho. Mas você sim, eu sei que não deve achar isso. Martin você é uma pessoa tão boa, vai ser um bom pai. Eu sei.

Se ela me ajudasse seria ótimo, menos preocupações para mim e seria uma ótima maneira dela se distrair. Também fico feliz que ela tente seguir em frente. Agora, eu ser um bom pai, ser um pai, é algo que eu não tenho o que opinar.

— Taylor não vai gostar de saber que vou ter sua ajuda. — Por mais que ele a traia com qualquer vagabunda, sua possessividade é absurda.

— Sim. É verdade.— Ela concorda sorrindo. Mas ele também odeia quando fico triste, então ele terá de fazer uma escolha. E obviamente vai escolher a que me deixa mais longe.

— Não sabe como me ajuda. — A abraço.— Gostaria de passar mais tempo com você. Mas preciso trabalhar agora. Um posto de saúde e dezenas de arquivos bagunçados me esperam.

— Me ajuda muito mais Martin, já que vai sair, vou com você, quero passear um pouco, gosto das folhas de outono. Me ajude. — Ela abre o se guarda roupa e uma infinidade de roupas das mais variadas cores aparece. — Escolha minha roupa, confio no seu bom gosto.

Alegro-me com o seu entusiasmo e principalmente por ela estar ficado ainda mais bela do que é.

— Vestido verde, cinto prateado, e não esqueça aqueles sapatos pretos. Você ficará linda, como sempre foi. A mais linda da cidade.

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Os últimos dias foram corridos, meu pai não fez nenhum comentário, critica ou elogio sobre a arrumação da casa, na verdade, seu silencio era absoluto como parte do trato.

‘’ Não estou aqui por você. As crianças não vão te atrapalhar e eu não ficarei aqui para sempre, no tempo que ficar, não se preocupe, não me verá.’’

Ele ficou bem satisfeito.

Já era sábado, Adele tinha organizado os quartos, a cor de ambos era branca. Eu não me lembrava a cor favorita deles. Achei interessante cada um ter seu quarto e seu espaço.  O doutor Conan tinha se aposentando.  Tinha um afilhado formado a alguns anos mas era muito jovem. Não queria alguém sem experiência para cuidar do assunto.

Adele insistiu, dizia que o pobre rapaz não iria conseguir experiência sem trabalho, e somos uma família de renome, ele não falharia conosco.

Seu nome era Heitor Levanhook, teve alguns casos na carreira. Algo como crianças muito agressivas, problemas em conversar e falta de concentração.

Ele não tem nem trinta anos.

Já fechamos o acordo e ele voltará comigo e com Adele depois da viagem, não sei quanto tempo ele vai ficar, espero que apenas o necessário.

E depois de um dia apenas estudando e com as malas prontas, preciso pensar em apenas uma coisa: Ryan.

Não quero chegar de mãos vazias como na semana passada, mesmo ele insistindo em dizer que eu sou o presente.

Já tinha passado das quatro, ia comprar algo em Cluverton. Um isqueiro, alguns cigarros decentes, charutos talvez. Com o inverno chegando, Ryan precisa se aquecer eu me preocupo todo ano se ele tem o suficiente para o frio. Mais um casaco seria útil.

 

O outono era bonito, eu gosto dessas cores me misturando com o meu cinza. Porém no inverno, é como se meu cinza não fosse nada de tão anormal.

Em Cluverton, preciso de uma estratégia para não chamar atenção. Comprar o isqueiro, charutos e cigarros é simples. O casaco é um pouco mais complicado. Ryan tem o corpo diferente do meu, mais forte, mais bonito, não queria que ninguém me ajudasse a escolher, iriam ficar se perguntando, se não era pra mim para quem seria?

Faltava quinze minutos para a loja fechar, se não fosse um Whitesell teria sido chutado do lugar, mas como tal, eu tive a minha chance.

Escolhi um simples porém grosso casaco preto, os botões eram também da mesma cor, porém lustrosos. Ryan poderia usar em várias ocasiões, inclusive em casa.

A vendedora estava sem animo para me ajudar, eu mesmo coloquei o casaco na sacola e deixei o dinheiro no balcão. Consegui ouvir comemorações de felicidade. Com tudo certo, eu me preparo pra ir embora. Tenho ainda alguns preparativos a fazer (Pelos pubianos, malditos pelos pubianos).

— Isso é um presente para amanhã? — Percebo que não estava tão sozinho quanto imaginava. — É, eu também faria a mesma coisa. Só que eu daria uma coisa melhor.

— Sim. Eu tento me preparar o máximo possível. — Respondo a voz sem em virar. Não quero conversar com ele.

— Eu também faria isso se fosse você.— Delsin continuou a falar, ele pode ser bom em várias coisas. Mas nunca em calar a boca.

Ele era a única pessoa que sabia sobre mim e Ryan, um mineiro sem nada de importante, mais um dos Ojibwe que trabalhavam nas minas, apenas disso, sua pose era de um rei. Da minha altura, a pele morena parecia saudável, as grossas sobrancelhas estavam franzidas, os olhos tão marrons quanto chocolate estavam me fitando. Sobre os ombros havia uma mochila de couro gasta. Seus cabelos eram longos e grossos fios castanhos que batiam no peito. Um estranho sorriso nos lábios fechados que misturavam sarcasmo e desprezo.

– Fico surpreso de te ver aqui. Pensei que estaria na aldeia, com sua família. Mas aqui está você me perturbando.

Ele deu um grande sorriso e dá de ombros.

– Estou aqui pela minha família. Vendendo sabão, tapetes e aquelas coisas que as mulheres da aldeia fazem. Além da melhor caça da região, a minha.

E lembro que Ry e Delsin caçavam juntos. O dinheiro ajudava imensamente. Mas eu não conseguia suportar a proximidade dos dois.

Tento cortar a conversa.

– Já estou de saída. Não tenho tempo pra conversar. E nem quero.

– Eu não me importo. – Ele revela. – Não é legal conversar com você. Caralho, eu não consigo entender o que Ryan vê em você.

Essa é uma dúvida minha também. Mesmo assim, Delsin se achava melhor por ser mais novo e ter músculos. Eu não podia fazer ele sentir tão bem.

– Com certeza algo que ele nunca viu em todos esses anos. – Retruco. – Não pense que somente porque vê Ryan seis dias na semana não significa que ele gosta de você. Eu sou amante e você é amigo.

Não era pra ele rir. Não era para ele se aproximar de mim. Ele deveria ficar quieto e engolir o orgulho.

– Amigos podem virar amantes. – Havia esperança demais na sua voz. –  Principalmente se ficarem próximos demais. Ryan não merece você. Não merece amor por apenas um dia. Isso nem ao menos é digno. Ele merece ser amado todos os dias, a cada minuto. Ver todas as coisas belas do mundo. Todos deveriam saber o quanto ele é maravilhoso.

Controle-se. Ele quer te irritar, ele está conseguido. Mas ele é um garoto. Pode não ter idade mas pensa como um garoto. Sou um homem. Homem não batem em garotos. Por mais que queiram, homens não batem em garotos idiotas.

Por mais que eu também concorde em algumas coisas. Não era culpa minha não existe outra opção.

– Delsin, tudo que você diz são palavras bonitas. Daria muito certo se não estivéssemos na porra do mundo real. Do que adiantaria o seu amor se estivesse cercado por agressores? Não adiantaria nada. — Não gritava, estava sozinho, mesmo assim seria imprudente gritar. Era um sussurro, talvez um pouco mais. Baixo e violento, a décima, a centésima vez que alego isto. Verdade amarga. Porém ainda verdade. — Não adiantaria nada você andar pelas ruas de mãos dadas com ele. Iriam ser xingados, humilhados, você nunca teria emprego nem ele. Isso não seria vida, você não conseguiria dar nem metade do que disse. Ninguém pode dar tanto. Nem você, nem eu.

Como a pessoa sem juízo que é, Delsin não estava satisfeito, não percebia a gravidade da situação. Ele começa a gritar:

— SERIA UMA VIDA! Uma vida curta mas que seria boa. Seria sim melhor do que isso que você tenta se defender. Eu nunca. Nunca. Deixaria ninguém tocar nele. Eu o protegeria de tudo. Por que eu o amo de verdade. Amo como você nunca vai amar. Por amor a ele, eu faço ele ficar surdo ele nunca vai ouvir nada. Ele nunca vai sentir dor. Eu mato e eu morro. Mas eu amarei intensamente.

Não. Não, está tudo errado. Nunca vai dar certo.

Delsin se considera um príncipe de uma história de contos de fadas. Aquelas que não importa quantas merdas podem acontecer na história, sempre terá  um final feliz.

— Belas palavras, Delsin. Belas palavras. — Tenho a ousadia de dar um tapinha leve em seu ombro. Eu não posso ficar quieto. — Sabe, eu acho que elas se tornariam realidade se não estivéssemos no mundo  real. Na porra do mundo real. Esse tipo de coisa não funciona aqui. Não importa o quanto você tente ignorar, você não é como todo mundo. Você não vai conseguir fazer com que Ryan fique ileso para sempre mostrando ele como uma roupa nova. Podem bater em você primeiro, podem matar você primeiro. Mas ele será o próximo. E eu não vou deixar isso  acontecer. Isso não é fácil pra mim também, mas eu não me iludo. É melhor você parar de se iludir também.

Ele fecha os punhos, nervoso. Era algo maior que fúria, via nos olhos dele, que ele não me bateria por não querer tocar em mim. Ele apenas esbravejou.

— Ryan não merece você. Ele é bom demais pra você.

Quando percebo ele já não está mais na minha frente. Delsin. simplesmente sumiu.

Talvez seja verdade. Ryan é mais do que eu poderia imaginar. E ele é simplesmente o motivo de eu estar vivo. Eu tenho que cuidar dele e protege-lo mesmo ele não entendendo como faço isso.

As vezes é difícil.

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Essa é a última noite que passo na minha casa. Vou aluga-la para o doutor Heitor e espero que ele não seja do tipo bagunceiro, afinal, a casa ainda é minha.

Sempre vi Delsin como um menino bobo. Porém mesmo assim ele me ameaçava, nunca escondeu que gostava de Ryan e apenas não espalhou para a cidade inteira porque Ryan implorou segredo.  Ele me tinha nas mãos, gostava de jogar isso na minha cara.

 Caso eu pare de pensar em Ryan, Maddie e Spencer invadem minha mente.  E com ele mais problemas. Minha querida cunhada Olívia, o que ela quer com duas crianças? Ela odeia todo mundo.

Ela pode ter mudado. Ter ficado mais intima das crianças e ter me transformado no monstro mau das histórias. Assim eles vão odiar ficar aqui e escolherem ficar com Olívia. Se um juiz dar a guarda deles a ela. Ninguém vai me respeitar, vão falar de mim e minha reputação vai ao lixo. Nem meu sobrenome vai me tirar do fundo do poço.

E obviamente, Ryan vai ficar puto comigo. Eu quero sempre estar ao lado dele mas, como lidar com as crianças agora? Elas precisam de atenção, e ele também. Mas diferente do resto da família,

 Eu não jantei muito bem, mas tanto faz agora. É bom eu dormir logo. Não quero sonhos nem demorar a pegar no sono. Depois de tomar um remédio, espero ficar sonolento para me deitar.

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Foi difícil acordar. Mesmo eu querendo  muito me levantar. Ryan já acordou? Provavelmente. Sete e meia do Domingo, a cidade é apenas um monte de blocos de concreto e tijolos imóveis no asfalto.

E agora é sempre o mesmo processo. Acordar. Café. Higiene. Se vestir. Perfume. Pegar o presente. Sair pelos fundos e pegar o rumo a trilha da floresta.

Talvez o que mais demorou foi eu escolher uma roupa adequada. Não sabia o que vestir. Cinza? Ryan odiaria. Azul? Usei semana passada. Quando enfim me visto. A calça marrom,  uma camisa de manga longa bege e um colete branco. O casaco é verde. É a cor favorita dele.

Semana passada foi tão bom. Ryan tinha feito a melhor torta de morango que existe. Tinha um vinho quente com cravo e todos os tipos de carinhos possíveis.

Ele não mora na cidade em si, atravesso a floresta pelo caminho habitual. As árvores altas, sem folhagem, quase nua. As folhas faziam barulho ao meu pisar, aquilo era a minha única companhia. E era perfeitamente agradável.

Vinte minutos de isolada caminhada. Até que a floresta acabe. A baixa vegetação está marrom e meio seca, a linha do trem dividia o restante da floresta.

Atravesso os trilhos. É algo simples de se fazer, mas eu já me neguei a fazer isso. Eu estava lá, parado, esperando. E Ryan interrompeu a minha espera me empurrou e fez eu torcer meu pé.

Ele é a razão de eu ainda estar vivo. Mesmo que isso seja meloso de dizer, é verdade.

Mais alguns minutos pela floresta. Meus sapatos estão um pouco sujos de barro, são os sapatos que uso apenas para esse trajeto.

Avisto de longe, o antigo galpão que agora tem cortinas verdes e a porta pintada de branco. Estou chegando. Eu quero logo abraça-lo, sentir o toque dele, ouvir sua risada.

Tenho que pensar nos momentos bons agora, aproveitar o quanto puder. Pois não tenho certeza de quando Ryan vai entender sobre a minha situação.

Quando chego, não consigo ver muita coisa com as cortinas fechadas. Faço então aquilo que mais lhe irrita. Bato na porta.

A madeira velha já está com a tinta branca descascando, a cada batida um pouquinho de poeira cai e eu tenho que limpar minha mão.

A porta é destrancada e eu ouço aquela tão bela risada.

– Quantas vezes preciso dizer que não precisa bater? – Ryan pergunta. Ele está indignado, mesmo assim lindo. – Você tem a chave, é só abrir.

Sorrio. É engraçado ver ele nervoso.

– Sabe que eu gosto de ser recebido por você. – Digo notando que pouco espaço nos separa. – Mas  é assim agora? Tudo bem, eu vou embora...

Quando eu ameaço sair, ele segura meu braço. O seu toque era terno e quente, espalhando calor por toda extensão do meu corpo.

– Seja muito bem vindo senhor Whitesell. – A sua voz e seus braços me conduzem para dentro da casa.

Estava quente lá dentro. Devia ter alguma coisa no forno e cheirava bem. Ryan estava com sua grossa camisa jeans e não tinha feito a barba.

– Senti saudades. – Eu digo ainda olhando pra ele.

– Eu sei.

Não é necessário mais palavras. Apenas eu sentir o corpo dele e ele sentir o meu em um abraço. Sei cada detalhe daquelas costas, passeio minhas mãos por elas porque cada detalhe é meu.

– Te trouxe um presente.– Digo no seu ouvido.

– Não era preciso. – Ele teima comigo. Olho bem nos olhos dele.

– Diga isso de novo que vou embora.

Ryan sorri com descaso, ele sabia mais do que ninguém que eu não tinha capacidade pra isso.

– Bobo.

Depois disso ele não fala mais nada. Junta seus lábios aos meus e eu não tenho pressa alguma. Lentamente com as minhas mãos pela sua cintura e as dele no meu cabelo. Passando pelo mapa que eu já  tracei na boca dele. Porque não importa o quanto eu demore, ele sempre será meu e eu jamais deixaria de ser dele.


Notas Finais


E foi isso bebes! Até o próximo ( Que não vai ser em Dezembro kkk *rindo de nervoso*) pq cap 5 tem hot e eu já to fazendo hehehehe

Bejocas


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