História Tehilim - Capítulo 2


Escrita por: ~ e ~linnox

Postado
Categorias Hailey Rhode Baldwin, Justin Bieber
Personagens Hailey Baldwin, Justin Bieber
Tags Amor, Drama, Guerra, Hailey Baldwin, Jailey, Justin Bieber, Paz, Romance
Exibições 76
Palavras 4.030
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Científica, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


⇢ should i stay or should i go ♪
⇢ Olá meus amores, aqui é a Linnox *--*, quero primeiramente pedir perdão por mim e pela eleven por toda essa demora para postar :( acabamos por ficar atoladas com assuntos pessoais, e como é final de ano teve coisas da escola e vestibular, etc etc.
⇢ Queremos, em segundo, agradecer pelos favoritos e comentários só com o primeiro capítulo, significou MUITO pra gente, vocês são demais mesmo. Esse capítulo tá bem grandinho para poder recompensar toda essa demora, iremos tentar ao máximo voltar o quanto antes ok? Muito obrigada por tudo, e não desistam da gente rsrs.
⇢ boa leitura, enjoy it ;)
⇢ P.S.: LEIAM AS NOTAS FINAIS PORQUE É MUITO IMPORTANTE!!!

Capítulo 2 - 01; Reencontro.


Fanfic / Fanfiction Tehilim - Capítulo 2 - 01; Reencontro.

Reencontro — 10 anos depois.

Levanto-me às pressas e encontro Heidi na porta de meu quarto, pronta para bater.

— Menina Lena, o que ainda está fazendo vestida desta maneira? Uh? — ela aponta para meu traje completamente amassado. Eu estava dormindo. — Já é a terceira vez que venho lhe chamar. Ande! Vá banhar-se.

— Não sou mais a mesma garotinha de antes, Heidi. — reviro os olhos e espero que ela faça alguma objeção, e eu estava certa.

Heidi entra em meu quarto e passa a arrumar a minha cama. Seus olhos pequenos com rugas nas pontas mostravam cansaço, seus cabelos grisalhos estavam mais secos do que de costume. Heidi já estava ficando cansada para fazer a maioria das tarefas em nossa casa, não demoraria muito para que minha mãe percebesse o quanto Heidi já estava velha.

— A senhorita ainda continua a bagunçar a cama, sempre acorda na terceira vez em que eu lhe chamo, ainda continua a separar a comida do prato e não cansa de imitar os costumes de sua mãe.

Olho para Heidi um tanto surpresa, um pequeno sorriso de satisfação passou por meus lábios. Era sempre bom saber que eu poderia contar com ela, mesmo sabendo que a qualquer momento ela poderia ser despachada.

— Quando voltar, eu espero que meu quarto esteja aos trincos. — imito minha mãe e recebo um sorriso fraco de minha amiga.

Em menos de 40 minutos eu já havia feito todas as minhas higienes matinais. Ao sair do banheiro, ando até o espelho e faço uma trança, jogando-a para meu ombro esquerdo. Embora eu já estivesse pronta, tranco a porta e ando até a escrivaninha, atrás de todos os livros de história, pego o único livro pelo qual meu coração se anima em ler pela manhã.

— Tu és meu abrigo, dos infortúnios me guardas; com cânticos de salvação me envolves. — leio, releio, leio mais uma vez.

Cântico. Tais palavras me lembram de Justin; meu único companheiro quando criança.

O tempo passou. De dias para semanas, de semanas para meses, e de meses para anos. Fui treinada a odiar meu povo, obrigada a cuspir no prato de uma religião que eu mesma tenho .

Uma guerreira excepcional para meu papa e medíocre para o meu povo.

Desde minha chegada a cidade de Niederhagen¹, papa tem procurado me ensinar a usar armas. Passo grande parte do meu tempo trajando uma farda igual à de outros soldados, observando meu povo sendo maltratado e forçado a fazer atividades braçais ao sol quente durante o verão, e também, em intenso frio no inverno.

Depois de meses, a maioria deles é mandada para um campo de extermínio, onde eu nunca ousei colocar meus pés.

Já cheguei a desmaiar nas primeiras vezes, mas fui forçada a continuar frequentando esses tipos de lugares. Desde reuniões até as próprias celas onde a maioria deles descansa.

Eles sabem no que eu creio. Bom, a minoria deles, eu acho.

Minha fama no campo de concentração tornou-me uma mulher sublime, que, aos olhos do que não me conheciam, retratavam-me como uma guerreira pronta para matar, mas pessoas como Heidi, sabiam que era apenas uma mascara perfeita para me esquivar de meu pai — e eu venho usando essa mascara há muito tempo.

Guardo o livro sagrado atrás da escrivaninha e ponho os de história na frente. Passo as mãos suadas por minha saia e dou uma última conferida na minha aparência em frente ao espelho, pronta para mais um dia trivial.

Estava na porta de casa esperando papa para irmos a um centro de concentração onde conferiríamos o trabalho dos judeus que ali residiam.

O campo que se encontrava em Niederhagen, abrigava os jovens que tinham força para trabalhar e servir aos pelotões de Hitler, que se encontravam nessa região. Mesmo sendo uma surpresa, nunca havia ido até lá, sempre evitei tal visita, porque lá, é onde se encontram os filhos de Heidi.

A culpa me corroía ao ver a dor da única pessoa que me apoiou e consolou durante a toda minha vida, e eu não poderia fazer absolutamente nada. Assim, evitava ir até lá, tinha medo de ver a situação que eles estavam, e depois, ainda ter coragem de olhar nos olhos sofridos e exaustos de Heidi.

O desanimo fazia com que meus ombros caíssem, minha expressão cansada denunciava o quão fraca me sentia por não conseguir enfrentar minha família e seus costumes. Sentia-me cada vez mais sufocada por esconder minha fé, e renegar o meu Deus. Pois era isso que estava fazendo, estava O renegando, e isso dilacerava meu coração.

A imagem de Justin passou pelos meus olhos, um ser humano humilde que vivia na pobreza, mas que possuía uma felicidade que compartilhei com ele durante o tempo que obtive ao seu lado. Todos os dias sentia falta de sua doce voz, da calmaria que o ressoar dos cânticos cantados por ele me proporcionavam.

Todos os dias pedia para Javé que ele tenha conseguido fugir de toda essa guerra que acontecia, pedia que ele estivesse salvo e feliz.

— Magdalena, vamos. — a voz de papa tirou-me de meus devaneios. Suspirei pesadamente, concordando em seguida.

Endireitei minha postura, me posicionando como um verdadeiro soldado. Meu maxilar travado auxiliava-me na tentativa de transparecer poder, que na verdade nem ao menos existia.

Caminhei lado a lado com papa até o carro, onde mais três soldados armados esperavam. Adentramos o automóvel — tendo papa como motorista, eu ao seu lado e os outros homens no banco de trás.

O silêncio gritou no ambiente, mas a indiferença de meu papa mostrava o quanto ele prezava por isso. Ele seguiu em direção ao centro que estive evitando, tão duramente, de ir. Meu coração gritava para que eu me jogasse do automóvel e me recusasse a ir, mas a atitude tão estupida iria piorar a má relação que já tenho com meu pai. Então procurei ouvir minha mente.

Após, pelo o que parecera, tão pouco tempo, o carro parou de frente ao grande portão de ferro. Em uma torre, conseguia ver um oficial olhando para o automóvel e esperando pela confirmação de nossa identificação. Papa colocou a mão para fora da janela, fazendo o sinal que nos daria permissão para entrar, e logo o grande portão abriu.

Meus olhos vagaram por todo o terreno, tendo o nó formando-se em minha garganta. Milhares de jovens espalhados pelo campo, com roupas, em sua maioria, estraçalhadas, descalços, trabalhavam em diversas atividades.

O sol estalava sobre jovens e crianças. A indignação e horror atingiam-me em cheio, sempre ficava assim quando era submetida a comparecer em campos de concentração. Minha visão embaçou e puxei uma lufada de ar para meus pulmões, obrigando-me a engolir o choro que ameaçava cair. Senti as mãos de papa em minhas costas. Então, percebi que havia estagnado no mesmo lugar, sentia minhas pernas pesando toneladas, mas forcei-me a caminhar.

Papa passou em minha frente sendo escoltado pelos soldados que vieram conosco. Segui caminhando logo atrás, evitando ao máximo olhar a situação desumana que ocorria nesse lugar.

Chegamos ao que parecia ser o local onde faziam a alimentação, e mais uma vez a indignação flamejou todo espaço. Em todos os locais que eu já estivera, nenhum tinha a estrutura nojenta como as daqui. O fedor ácido trazia ardência para minhas narinas e minhas íris. Baratas e ratos transitavam sem parar pelo chão sujo, e até mesmo, sobre as mesas sujas e quebradas. Isso não poderia ser real.

Continuamos andando e fomos até os dormitórios, que como o refeitório, possui nada mais do que uma situação grotesca, nojenta e que me dava ânsia.

— Müller, reúna todos lá fora. Vamos resolver a situação desse jovem rebelde que tentou fugir. — a voz de papa me surpreendeu.

Então era esse o motivo de termos vindo. Meu corpo se estremeceu. Papa iria aplicar um castigo, disso tinha certeza. Sempre que algum deles tentava fugir, era punido rigidamente e poderia, até mesmo, ser executado.

Nunca havia presenciado tal ato, e nunca o quis. Sempre deixei claro para papa que não queria estar presente em situações como estas, e achei que ele havia aceitado. A indignação enchia meu coração, seguida por uma tristeza descomunal. Ele não havia cumprido sua promessa.

Müller fez reverência e logo foi fazer o que lhe foi designado. Continuamos andando por todo o local, mas já não prestava atenção em nada, meus pensamentos estavam focados na oração que fazia. Pedia, silenciosamente, para que meu Criador me mantivesse forte e indiferente, mesmo que isso me tornasse uma covarde.

— Senhor. Estão todos reunidos à sua espera. — Müller anunciou.

Sem mais delongas, papa fora em direção ao campo aberto. Caminhei bem atrás, tentando controlar minha respiração que começara a acelerar. Parei onde vi papa, milhares de judeus se amontoaram ali. Observei suas cabeças abaixadas, e posturas cansadas, cortaram meu coração e fizeram com que assumisse a mesma postura que todos eles.  

Abaixei minha cabeça e deixei com que meus ombros caíssem. Sentia-me destruída.

— Prisioneiro que tentou fugir, apresente-se agora! — a voz rude de papa rugiu alta e assustadora.

O silêncio se manteve por longos segundos, até que a figura de um adolescente que aparentava ter uns 15 anos surgiu dentre todos os outros. Ele caminhou mais para frente, ficando na metade do caminho entre nós e os outros.

— Diga-me seu nome, verme. — papa perguntou.

— Isaías, senhor. — uma voz baixa soou em resposta.

No mesmo momento, meus olhos se arregalaram. Isaías. Lembranças de Heidi dizendo o nome de seus filhos golpearam-me em cheio, pois ela dissera esse nome. A aflição surgiu juntamente com o medo de confirmar minhas suspeitas.

— Olhe para mim, Isaías. — a voz de papa soou tão fria que atingiu até mesmo a mim, deixando-me amedrontada.

O franzino garoto ergueu o rosto e a surpresa fora como um soco certeiro em meu estomago. Os traços do menino mostravam claramente as aparências de Heidi, pude ali, confirmar minhas suspeitas definitivamente.

Meu corpo automaticamente moveu-se e parei lado a lado com papa, minha mão tocou em seu braço, sua atenção voltou para mim. Olhei em seus olhos durante um longo tempo.

— Papa. O senhor sabe... — sussurrei deixando toda minha tristeza transparecer.

Seu silêncio confirmou mais essa suspeita. Papa sabia quem Isaías era, ele sempre soubera. E, mesmo assim, me obrigara a vir até aqui.

As lágrimas encheram meus olhos novamente, e desta vez, não me esforcei para escondê-las. Papa tirou minhas mãos de seu braço, olhou para um dos soldados, o qual lhe entregou um chicote de três faixas de couro.

Meu corpo paralisou, meu olhar se prendeu na figura magra de Isaías. Tudo parecera acontecer em câmera lenta diante meus olhos.

Papa caminhava até ele segurando o chicote firmemente. A primeira chicotada trouxe com si um barulho agonizante, e a imagem do pequeno garoto indo ao chão soltando um grito de dor, massacrou meu coração. Não tinha mais forças para parecer forte. Aquilo fora meu limite. Minhas pernas fraquejaram e quando dei por mim, estava ajoelhada sobre a terra, percebi, também, que os soluços rompiam dos meus lábios em alto e bom som.

O olhar de papa voltou-se para mim de forma dura, todos os meus irmãos, sim, meus irmãos, agora possuíam as cabeças erguidas e me olhavam fixamente. Dois soldados pegaram-me em cada braço, erguendo-me do chão e levando-me para trás. Uma barreira humana se formou a minha frente, impedindo-me de ver o que acontecia.

O barulho das chicotadas, dos gemidos, do choro, pulsava em meus ouvidos como se pudesse sentir a exata dor que aquela criança estava enfrentando.

Uma movimentação estranha tirou-me do entorpecimento que me encontrava, e pude notar por uma pequena fresta que outro homem entrou na frente de Isaías e o abraçou de forma que seu corpo tornou-se um escudo humano.

Papa pareceu não se importar e seguiu com as chicotadas. O estalo que o couro fazia contra o corpo humano, causava tremores incontroláveis em meu corpo. De alguma forma, meu coração parecia doer cada segundo mais, como se a dor daquele homem que apanhava por Isaías, fosse também, a minha dor, como se eu estivesse apanhando também.

Depois de minutos, que mais pareceram horas, o barulho cessou. Os braços que então me seguravam, soltaram-me. Empurrei quem estava em minha frente de forma desesperada e corri em direção ao papa.

Ele encontrava-se extremamente ofegante e suado. Seu olhar a mim causou-me calafrios. Era frio e ruim.

— Isso é o que acontece com quem se acha espertinho. — papa gritou, assustando a todos os que estavam ali, inclusive a mim. — Vocês não passam de vermes nojentos, que servem apenas para nos servir e, quando não puderem mais fazer isso, para morrer. — papa finalizou ainda gritando. Logo sua atenção estava toda em mim novamente. — E você, Magdalena, entenda que é isso que você é e sempre será. Não tolerarei outra cena como esta. Mas, como respeito você como filha, a deixarei encarregada de levar Isaías para sua cela, e esse outro animal que se intrometeu tentando ser herói. — papa sussurrou em meu ouvido.

Logo ele se afastou, os soldados passaram a levar os prisioneiros para suas atividades diárias que haviam sido interrompidas. Engoli em seco assimilando o que papa disse, e logo meus olhos pararam ao chão, onde o homem que havia defendido Isaías continuava na posição de escudo, abraçando Isaías como se sua vida dependesse disso.

Suas costas cintilavam o sangue que escorriam pelas feridas que foram abertas. Mais uma vez, meus olhos se encheram de lágrimas, sentindo a dor daquele homem. Caminhei cuidadosamente até eles, com certo receio, levei minha mão até o seu ombro, que se retraiu com meu toque.

— Está tudo bem... Eu não farei mal a nenhum de vocês, eu só quero ajudar. Você poderia, por favor, soltar o menino e se levantar? Levarei vocês e limparei os machucados. — disse tentando transparecer calma em minha voz.

O homem demorou um pouco, mas acabou levantando-se com dificuldade. De cabeça baixa, ele afastou-se um pouco, pude ouvir baixos gemidos saírem de seus lábios e, droga, aquilo me afetava de uma forma tão dolorosa e desconhecida.

Suspirei pesadamente, e me abaixei tocando em Isaías com cuidado. O menino me olhou com o rosto banhado pelas lágrimas. Suas costas, braços e pernas, se encontravam avermelhados e com vergões, mas graças a Deus, não havia sangue nenhuma ferida aberta, diferente daquele que o defendeu.

— Isaías, querido... Vai ficar tudo bem, huh? Estou aqui com você. — Isaías me olhava de forma curiosa, e logo depois, parecera que me reconheceu.

— Lena... Você é a menina que mamãe sempre falava, não é? — a surpresa me atingiu, mais uma vez.

Heidi falava de mim para seus filhos. A admiração no olhar de Isaías, mostrava que, além de me conhecer, ele sabia quem eu era verdadeiramente, e isso, me acalmou.

— Sim, querido. Sou eu. Prometo que ficará tudo bem. — sussurrei, e logo acarinhei seu rosto delicadamente. — Vamos sair daqui. Você consegue andar? — perguntei.

— Sim, eu consigo. — seu olhar foi para o homem, que ainda se encontrava em certa distância de nós, com o corpo tremulo, parecia que iria desmoronar a qualquer momento. — O ajude a andar, por favor. Eu estou apenas assustado, já sofri pior do que isso. — o menino levantou-se, e mesmo mancando, foi para perto do homem o amparando de forma desajeitada.

Ergui-me rapidamente, e fui até o outro lado daquele desconhecido. Peguei em seu braço, e um leve embrulho surgiu em meu estomago, reagindo ao sentir o contato com ele. O olhei de lado e por alguns segundos, tive a impressão que o conhecia.

Coloquei seu braço envolto do meu ombro, e com a ajuda de Isaías, fomos até o local que servia como seu quarto.

Adentramos a sala suja e fedorenta, onde tinha duas espécies de muros feitos de concreto, que parecia servir como cama. Ajudamos o homem a se sentar em uma das “camas”. Suspirei tristemente.

— Irei conseguir água e alguns panos, você cuidaria dele? — a voz de Isaías chamou-me a atenção por soar tão esperançosa.

— Claro que sim, estarei lhe esperando aqui. — o respondi.

Isaías apenas assentiu, e me deixou sozinha com aquele misterioso homem. Voltei meu olhar para ele, e o encontrei ainda de cabeça abaixada. Isso me incomodava, queria o olhar e agradecer pelo o que fez.

— Você pode olhar para mim, não sou como eles. Não sei se lhe falaram algo sobre a filha do capitão, mas é mentira. — disse calmamente.

— Desculpe-me, senhorita. — sua voz rouca soou baixa e fraca. Meu corpo, em resposta, ficou tenso.

Aquela voz... Logo o homem ergueu o rosto. Seus olhos castanhos caramelados me tiraram o ar. Sua expressão passou de cansada, para surpresa.

 Justin? — o embargar em minha voz denunciava que, mais uma vez, eu estava prestes a cair em prantos.

— Lena? — ele sussurrou, e se não estivesse tão próximo a mim, não teria o escutado.

Encaramo-nos por tempo indefinido. Passei a observa-lo, e Justin parecia fazer o mesmo. Ele estava vestido com uma calça encardida e com rasgados por todo o lado direito de sua perna, seu suspensório ainda estava ali, mas caído e tão encardido quanto à calça. Sua blusa estava aberta na frente, deixando seu peitoral a mostra, estava tão estraçalhada que mais parecia um trapo. Estava aos pedaços. Agora suas costas, que ainda sangravam, estavam expostas.

Sua pele encontrava-se evidentemente suja, seu corpo magro, denunciava a falta de alimentação. Seus cabelos haviam sido raspados, e ele tinha apenas pequenos tocos de cabelo crescendo em sua cabeça. A expressão dele era tomada por dor e exaustação, e quando encarei seus olhos, vi a mesma coisa. E no mesmo tempo, pude sentir sua dor, mais uma vez.

Agora entendi o motivo de me sentir tão conectada a ele... Eu sempre fui conectada a ele.

Quando notei, eu estava sentada do lado de Justin, minhas mãos estavam erguidas tocando seu rosto para provar que ele era mesmo real, que ele estava mesmo ali.

Justin tomou a mesma atitude que a minhas, suas mãos calejadas com a pele maltratada, tocou em minha trança e seguiu pelo meu rosto. As lágrimas, que hoje parecem ser minhas companheiras, escorriam de meus olhos, molhando minhas bochechas. Justin as limpava à medida que iam caindo.

Um resíduo de felicidade lampejou em seu olhar e logo seus braços me envolveram em um abraço cheio de saudade. Rapidamente envolvi meus braços em seu pescoço, sentindo seu corpo tremer um pouco contra o meu, e um baixo resmungo de dor sair de seus lábios. Foi então, que a realidade me atingiu e me derrubou.

Justin era um prisioneiro. Ele estava ali, sofrendo e sendo tratado como um animal. E quem estava fazendo isso era aqueles que eu chamava de família. Meus descendentes, como eles costumavam dizer.

— Oh, Justin... Por que isso tinha de acontecer? — eu chorava compulsivamente. — Eu sinto muito... Muito, muito, muito. Eu senti tanto sua falta, mas não pude fazer nada! — tentava desesperadamente explicar-me a ele.

— Lena, respire. — Justin sussurrou. — Está tudo bem, Heidi leu sua carta para mim. Confesso, fiquei devastado Lena, mas logo depois, todo pesadelo começou e acabei por ter de lutar por mim e pela minha família. Sua ida acabou sendo abafada por isso. — ele disse em um tom culpado. — Mas eu senti sua falta todos os dias desde que se foi. Ninguém nunca mais leu cânticos para mim, e tampouco eu pude ter momentos com Javé, como o que tínhamos, novamente.  — Justin soava triste.

Tudo que venho sendo obrigada a aprender e a pessoa que venho sido obrigada a ser, nesse momento, fora esquecida. Tudo o que eu queria, era ter um momento com Justin e nosso Criador, porque mesmo depois de tanto tempo, o meu amor por Justin, e o dele por mim, estava vivo. Podia dizer isso por mim, e por ele, porque consegui enxergar isso em seus olhos. Deus nos uniu novamente, e tinha certeza que havia um motivo.

Depois de tanto tempo lendo, eu havia decorado uma grande maioria dos cânticos, pois era o único conforto que tinha. Vendo a tristeza de Justin, e a falta que aquilo fazia a ele, comecei a cantarolar envergonhada.

— Pleiteia com aqueles que pleiteiam comigo; peleja contra os que pelejam contra mim. Pega o escudo e da rodela, e levanta-te em minha ajuda. Tira da lança e obstrui o caminho aos que me perseguem; dize á minha néfesch²: Eu sou a tua salvação.

Justin me olhava maravilhado e, pela primeira vez em anos, sorri verdadeiramente, como fazíamos quando éramos apenas duas crianças descobrindo o amor um pelo o outro, e o mais importante, o amor por Javé. Ele cantarolou o mesmo cântico, lindamente, me surpreendendo. Sentia-me absurdamente feliz naquele momento.

O barulho de passos se aproximando tornou o clima pesado. Justin parecia pronto para colocar-se à minha frente, como se quisesse me defender. Sorri involuntariamente com tal atitude.

Isaías adentrou a cela, carregando um balde com um pouco de água e alguns panos, que por incrível que pareça, estavam limpos, jogados em seu ombro. O momento golpeou-me novamente, e lembrei-me do quão machucado Justin estava, engoli em seco e pus-me de pé.

— Obrigada Isaías, sente-se e descanse. Irei dar uma olhada em você logo. — afirmei.

Isaías, por sua vez, me obedeceu em silêncio. Peguei um dos panos e o molhei na água que havia no balde, direcionei meu olhar para Justin, e o mesmo, pareceu me entender.

Ele se deitou com cuidado com as costas para cima, o resto que sobrou de sua camisa, caiu no chão o deixando nu da cintura para cima. Umedeci meus lábios, me ajoelhei ao seu lado e comecei a limpar seus ferimentos.

Justin gemia e se mexia vez ou outra, meu coração martelava em meu peito ao vê-lo nessa situação.

— Desculpe. — sussurrei.

Após limpar todos os vestígios de sangue e garantir que as feridas estavam limpas, peguei outro pano e o molhei. Tirei todo excesso de água o deixando úmido, o abri sobre suas costas tampando todos machucados.

Fui até Isaías e limpei todo seu corpo com cuidado, usando o resto da água que sobrara. Ele parecia cansado, e depois de pedir-me para dizer a sua mãe que a amava, se aconchegou no duro concreto e acabou por adormecer.

Sabia que era hora de ir, papa me mataria se visse o que estava ali acontecendo.

Olhei para Justin, e voltei até ele rastejando-me com os joelhos até meu rosto ficar próximo com o dele, seu rosto virado para mim, estava um pouco molhado com algumas lágrimas que haviam caído.

Beijei sua bochecha delicadamente, recebendo um leve sorriso em resposta.

— Preciso ir, mas prometo que encontrarei uma forma de lhe ver novamente. Como nos velhos tempos. — sussurrei enquanto acariciava sua nuca. — Eu te amo, Justin. Seja forte. Irei dar um jeito de ajudar vocês a fugirem. — Justin olhava-me, seus olhos quase fechando mostravam seu cansaço. Ele limitou-se apenas a assentir, parecia não ter forças para ao menos falar. — Não se esqueça, Javé é tua salvação, nossa salvação. Sempre. — Beijei, mais uma vez, de forma mais demorada, sua bochecha.

Justin moveu-se, pegando em minha mão e com seus lábios secos e rachados, depositou leves beijos em meus dedos em forma de despedida.

Relutante, levantei-me ainda o encarando. Dei-lhe um sorriso tentando o reconfortar, e me virei para ir embora.

— Descanse e lembre-se: eu irei voltar. — afirmei, saindo dali o quanto antes.

Caminhando por aqueles corredores mórbidos e com abundância de tristeza, prometi a mim mesma, que agora que havia reencontrado Justin, não sairia de seu lado nunca mais. Nem que para isso precisasse enfrentar papa e mama.

Javé havia mostrado meu verdadeiro caminho, então chega de fingir ser quem não sou. Estava na hora de tomá-lo como Criador e Salvador. Foi pensando nisso, que me lembrei de um cântico, que a partir dali, iria seguir com todas minhas forças.

"Sejam confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida; voltem atrás e envergonhem-se os que contra mim tentam o mal”.

Iria me voltar contra aqueles que queriam o mal do povo de Javé, do meu povo. E não iria me importar de lutar contra todos eles.

Se eles estavam vivendo uma guerra com arsenal de fogo, iria lutar contra essa guerra com o arsenal que Deus nos dá; irei lutar com amor, bondade e humanidade

E não irei calar-me novamente. Por nada... Por ninguém.


Notas Finais


→ Glossário:
• Niederhagen¹: É um local na Alemanha onde, na Segunda Guerra Mundial, tinha um campo de concentração com fins de trabalho. Então, não é nenhuma invenção, é realidade!
• Néfesch²: Em hebraico, néfesch significa "alma".

→ OUTRAS FANFICS:
• Retrocesso: https://spiritfanfics.com/historia/retrocesso-5617586
• Mercy - https://spiritfanfics.com/historia/mercy-6598510

xoxo; linnox & eleven.


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