História Templo das Bacantes - Capítulo 31


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Categorias Saint Seiya
Personagens Afrodite de Peixes, Aiolia de Leão, Aldebaran de Touro, Camus de Aquário, Geist de Serpente, Mascára da Morte de Câncer, Miro de Escorpião, Mu de Áries, Personagens Originais, Saga de Gêmeos, Shaka de Virgem, Shura de Capricórnio
Tags Afrodite, Akatsuki, bacantes, Baco, Bordel, Camus, Cdz, Crime, Drama, Festa, Homosexual, Lemon, Máfia, Puteiro, Romance, Rpg, Saga, Saintseiya, Sexo, Shaka, Yaoi
Exibições 106
Palavras 12.817
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Bishoujo, Bishounen, Comédia, Drama (Tragédia), FemmeSlash, Hentai, Lemon, Luta, Orange, Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Olá amore.

Caraaa como eu esperei o dia de postar esse cap *-* a nossa tão sofrida espera chegou povo.

A linda arte da capa foi a Ju que fez especialmente pra esse cap, e ela deixou uma notinha:

"Essa ilustração é uma releitura da obra original da mangaka japonesa Kaori Yuki, Boys Next Door, de 1998, e que sempre foi meu xodó. Já tive vontade de reproduzi-la, mas nunca um casal me inspirou antes.
Agora a história é outra, e não poderia ter escolhido ship melhor!"

OUWWWWW Agora chega de enrolação e bora ler

Capítulo 31 - Ne me quitte pas...


Fanfic / Fanfiction Templo das Bacantes - Capítulo 31 - Ne me quitte pas...

Templo das Bacantes. Na mesma noite, 01:12am

Desde que Shina lhe transmitira o recado, ou melhor, a nova ordem de Saga de Gêmeos, Camus empenhava-se, sozinho, em fechar o acordo com o porta voz da Camorra, a máfia napolitana.

Entre bufadas de zanga e cansaço, meia dúzia de cigarros consumidos com impaciência e um italiano arranhado em meio ao sotaque francês acentuado, Aquário tentava fechar um preço “justo”, aos moldes da máfia, no negócio da carne contrabandeada, porém, tanto ele, quanto os italianos, não pareciam entrar em acordo quanto ao valor e a qualidade da mercadoria fornecida.

No entanto, o ruivo estava longe de ser um mero amador. Pelo contrário, não estava ali pessoalmente por nada, e usava de todos seus artifícios para vencer aquela negociação, inclusive a própria irmã, Natassia!

A bela bailarina não era sua acompanhante naquela noite à toa.

Natassia era muito esperta, fazia-se de tola, e assim conseguia se aproximar das outras acompanhantes que ali estavam a fim de pescar informações importantes que pudessem ajudar o irmão na transação.

E era justamente isso que ela fazia ao voltar do toalete onde conversara com a amante de um dos membros da Camorra, entre um retoque e outro na maquiagem, desenferrujando seu italiano, o qual aprendera depois de tantas temporadas na Itália com a companhia de balé.

Mal sabia a mulher que havia dado dicas de ouro para aquela negociação ao dar com a língua nos dentes.

Discretíssima como de costume, Natassia retornou à mesa e tomou seu assento ao lado do irmão.

*Queiram me desculpar, senhores, mas a fila para o toalete estava imensa! — sorriu com graça, falando em russo, já que para todos os fins ela era uma simples acompanhante de luxo que mal falava corretamente sua língua materna.

**Non se preocupe, ma cherie. Estamos apenas admirando a apresentação de dança. — o aquariano usou o idioma nativo dos convidados para lhes assegurar de que a moça apenas se desculpara por sua ausência.

Logo em seguida, a puxou para mais perto de si aproveitando que no palco o show burlesco que as bacantes apresentavam, carregado em sensualidade, prendia os olhares de grande parte dos italianos, pois já previa que a irmã aprontara das suas, dado seu risinho sapeca nos lábios.

*Está com aquela cara de quem andou aprontando. — o ruivo sorriu, sem tirar os olhos do palco onde as meninas chacoalhavam plumas e seios nus fartos ao som de uma música de cabaré.

Natassia então inclinou a cabeça, a apoiando no ombro do irmão e estrategicamente lhe sussurrou no ouvido:

*Uma das moças estava muito alterada no banheiro. Dizia que queria ir embora, mas que não podia, pois o carequinha ali, o mandachuva deles, não vai sair daqui enquanto não fechar esse negócio com os gregos... Ele sabe que você é apenas o porta voz do líder, o cavaleiro de Gêmeos, mas, pelo que eu entendi, o amante dela, o cara com quem você está negociando, sabe que você é da Vory, e sabe que vocês têm grana, por isso ele resolveu dobrar o preço da oferta de última hora achando que assim pode desembolsar um extra para ele sozinho.

*Voilà! Espertalhão, non? — Camus sorriu discretamente.

Natassia lhe dera de bandeja tudo que precisava para encerrar de vez aquela transação e ir embora o mais rápido que pudesse daquele lugar.

Camus só pensava em sair dali antes da já anunciada, e tão esperada, apresentação de Afrodite.

Não que estivesse com receio de talvez ter uma recaída, já que estava decidido a esquecer o passado, como fizera tantas vezes para conseguir viver o presente, mas, mesmo resoluto, Aquário sabia que não seria nada fácil olhar para Peixes uma vez mais.

Ainda sentia-se abalado pela troca de olhares horas antes quando o sueco descia as escadas, por isso tratou logo de se apressar.

— **Creio que já perdemos muito tempo. — disse de forma abrupta, em alto e bom tom, o aquariano.

— **Perdão? — questionou o italiano calvo erguendo uma sobrancelha.

— **Minha bela acompanhante se sente cansada e deseja ir para casa. —com firmeza na voz e o rosto novamente assumindo um semblante sisudo ao olhar para o homem com quem negociava em nome de Saga — **Acredito que non iremos chegar a acordo nenhum esta noite, então... Se non se importar, podemos declarar a transação encerrada.

 

 

A reação dos presentes foi imediata.

Todos naquela mesa, tanto gregos, quanto russos e italianos, agora olhavam exacerbados para o Santo de Aquário e segundo Vor da Vory v Zakone, que irresoluto aguardava uma posição do porta voz da Camorra.

Aquela negociação era de suma importância para ambas as partes, mas a postura austera somada à audácia do francês, colocaram em cheque o líder italiano, que não viu alternativa senão ceder.

— **Não! Um momento! — disse o homem calvo, convencido de que tentar ganhar dinheiro à custa daquele ruivo não seria mesmo tarefa fácil — Eu acredito que... — pigarreou meio sem jeito, intimamente irritado com sua derrota —... Posso reduzir um pouco o valor proposto inicialmente.

Camus olhou para ele e simulou um sobressalto arqueando ambas as sobrancelhas enquanto apoiava os antebraços na mesa entrelaçando os dedos das mãos uns aos outros.

— **Oh, é mesmo? Sendo assim, acho que minha bela acompanhante pode esperar um pouco mais. — encarou os olhos do homem calvo com frivolidade ímpar — Vamos, me diga qual sua nova oferta que eu lhe digo se continuarei aqui nessa mesa por mais alguns minutos até acertarmos tudo, ou se levo minha dama para casa. Non me faça mais perder meu precioso tempo com vocês.

***

Enquanto isso, no andar de cima do Templo, em seu quarto Afrodite de Peixes tentava conter seu pequeno surto de ansiedade respirando dentro de um saquinho de biscoitos — que foram jogados em cima da cama no desespero, espalhando farelo para todo lado — para conter a hiperventilação e tentar recuperar a calma.

Tremia, sentia náuseas, tontura, falta de ar, e seu coração parecia querer pular para fora do peito e se atirar pela janela!

Sentia sua garganta estrangulada, como se uma bola de golfe indigesta a estivesse obstruindo e causando dor, muita dor, mas essa não podia sequer ser comparada a que sentiu ao ver Camus no meio do salão de braços dados com aquela bela garota.

Não. A dor da rejeição, do abandono, do fim propriamente dito não podia ser mensurada.

E era essa dor que Afrodite sentia naquele momento, sentado no chão, encostado ao pé da cama, enquanto respirava no saquinho de biscoitos.

Puxava e soltava o ar com tanta fúria e velocidade que acabou rasgando a embalagem, e num acesso de raiva, com uma pitada de desespero, a jogou longe, levando em seguida ambas as mãos ao rosto e arranhando o couro cabeludo com as unhas ao emaranhar seus dedos entre as mexas do cabelo azul.

Assim ficou por longos minutos. Mergulhando num poço de sofrimento que nem ele mesmo entendia como havia se atirado, uma vez que também já havia dado sua relação com Camus de Aquário por terminada em definitivo.

No entanto, ver o aquariano acompanhado da garota, num terreno que deveria ser somente seu, foi para Afrodite como tomar o golpe de misericórdia.

— Eu não posso enlouquecer! Não posso! — murmurou para si mesmo, lutando para conter o choro que teimava em sair — Ele disse que ia ser assim. Ele escolheu ser assim!... Era mais que óbvio que ele ia trancar aquele armário a sete chaves e ficar lá dentro para o resto da vida matim* dele!... Que ódio de você, Camus! COVARDE! COVARDE!

Os gritos do pisciano vieram acompanhados de outro pequeno surto de raiva que o fez se levantar e chutar os móveis que encontrava pela frente.

Poltronas, banquetas, cabideiros, rodopiavam pelo chão enquanto o Santo de Peixes vivenciava novamente a cena do aquariano de braços dados com a bela jovem que o acompanhava.

Sorriam-se um para o outro de forma íntima e cúmplice. Ele a conduzia pelo salão esbanjando altivez, visivelmente orgulhoso de exibir tão bela e oportuna figura como sua...

Namorada? Noiva?

Não importava o que ela fosse, mas sim que ela poderia ocupar um lugar ao lado de Camus que ele jamais poderia.

Camus jamais poderia exibi-lo com orgulho a seus amigos e capangas.

Jamais poderia andar ao lado dele segurando sua mão.

Jamais poderia sequer confessar a todos que amou de verdade uma vez, que não era vazio, oco por dentro.

E que amou Camus de Aquário com uma intensidade que jamais imaginou ser capaz.

— Se tem que ser assim... Por quê?... Por que dói tanto?... Atena, será que essa dor nunca mais vai passar?

Rogou à deusa de sua devoção, mas a resposta não viera da forma que esperava.

De súbito, ouviu três toques na porta e do outro lado dela a única voz naquela hora que clamava aos céus não ter de ouvir.

— Ei, Escamosaaa. O show das vadias acabou, meu bem. Você tem cinco minutos para descer e deixar todo mundo surdo com essa sua voz de gralha.

Misty, como de praxe, havia acompanhado de longe toda a movimentação que se dera no salão naquela noite.

Entre um beberico e outro sentando no balcão do bar, o cavaleiro de Prata viu Milo desfilando numa beca impecável e surpreendentemente subindo para um programa com Geisty, já que Saga parecia sempre impedi-lo por ele não poder pagar o valor da joia da casa.

Gêmeos, aliás, lhe pareceu bem mais perturbado naquela noite que nas anteriores.

Não era de hoje que o Grande Mestre andava estranho, mas algo em seu olhar parecia sombrio em demasia até para um homem tão perigoso quanto Saga.

Por fim, viu quando Camus chegou acompanhado de seus homens da Vory e de uma belíssima mulher, a qual lhe parecia muito íntima, mas que para si não representava ameaça alguma.

Viu quando o cavaleiro de Peixes, visivelmente perturbado, subiu as escadas correndo ao trocar olhares com o aquariano e nessa hora deixou escapar uma risada de satisfação.

Havia ganhado a noite.

Agora estava encostado à porta do quarto do pisciano. Um risinho indelével de deboche ilustrava sua satisfação.

Afrodite havia perdido Camus, e ele não perderia a oportunidade de tripudiar o sueco.

— Ei! Está me ouvindo, bicha surda? — riu um pouco mais alto — Você viu a namorada do ruivo? Até que é bonitinha.

Do lado de dentro do quarto, Peixes tapava a própria boca com ambas as mãos. Tinha medo de soluçar e Lagarto perceber que estava chorando.

Seu pranto era de dor, tristeza, mas também de ódio, frustração, desespero.

— Ele é esperto! Fez questão de trazer ela aqui, numa zona, imagina só... Só para esfregar ela bem na sua cara. Hihihihihihi.

Misty encostou o rosto na madeira, contendo uma risada mais alta.

Afrodite virou-se de frente para a porta. A encarava com os olhos encharcados e a mesma expressão de quem olhava para um monstro ou alguma criatura fantasmagórica.

— Você é tão ridículo, Afrodite. Tão patético. — a voz de Lagarto ficou mais séria — Jura que você achou que ele iria assumir você? Justo você? Aquele viado nunca vai sair do armário. Ele não pode sair... Você foi burro, como sempre, né Escamosa? Como sempre... Ai você é tão previsível!... Eu não! Eu sei que ele, como tantos outros, vai passar a vida fingindo ser o que não é e por isso mesmo que aceitei apenas ser seu amante.

O coração de Afrodite até falhou uma batida ao ouvir aquilo. Retirou as mãos da boca e instintivamente disse em meio a soluços.

— A-Amante? Você... E ele...

Do outro lado da porta, Misty agora quem tapava a boca contendo uma risada de escárnio, e apressadamente respirou fundo para responder com firmeza e segurança.

— Ué, claro. Ou você acha que ele vai deixar de vir aqui só porque está casado com a loirinha bonitinha lá? — abafou outra risada, logo recobrando o tom de voz sisudo — Até porque nós dois bem sabemos do que ele gosta! Ele pode se casar com uma mulher, manter o status de chefe de família, macho, varão para a sociedade que o cobra isso, mas é de rola que ele gosta, né sua fudida! E quem melhor que eu, discreto e amigo, para dar o que ele gosta em troca de lindas joias e muita grana?... Bem... Acho melhor não atrasar sua apresentação de merda. O chefe hoje está com o demônio no couro.

O som dos saltos dos sapatos de Misty foram perdendo intensidade a medida que ele se afastava, até o único som a ser ouvido dentro do quarto ser o da música abafada que vinha do salão.

Afrodite ficou ainda alguns minutos de pé, imóvel, olhando para a porta com os olhos estatelados de alguém que acabara de receber uma notícia nefasta.

O enjoo agora era mais forte.

A falta de ar mais intensa.

A tontura mais severa.

Porém, as lágrimas se secaram, e o coração... Esse estava estranhamente calmo.

Batia num ritmo suave, brando, como o coração dos moribundos que encontram a tão almejada paz no derradeiro momento que precede a morte.

O choque daquela realidade era tamanho que Afrodite sentia que tinha somente dois caminhos a seguir naquela noite, ou morria de vez, engolido pela tristeza que o consumiria até seu último suspiro, ou ariscava um último ato desesperado para livrar a si mesmo e ao homem que tanto amava do destino cruel que se desenhava para eles.

Fechando os olhos, Peixes suspirou.

Uma, duas, três vezes, profundamente, pensando num modo de dizer a Camus tudo que sentia por ele e que jamais conseguiu dizer de forma clara e convincente devido seu mau jeito com as palavras.

E se não era bom com elas, se não sabia como conduzi-las de modo a transmitirem com exatidão o que queria, então faria com que as palavras de outra pessoa falassem por si e dissessem de uma vez por todas o que precisava tanto dizer a Camus, e que jamais conseguiu.

Pois, se Aquário viera até si acompanhado de uma linda mulher para lhe dar um recado, então também tinha um recado para dar a Camus.

Que fosse o derradeiro!

E decidiu fazer isso cantando, naquele palco, na frente de todo mundo.

Sem mais delongas, até porque se pensasse muito tomaria consciência de que seu plano era arriscado demais, além de ousado, e desistiria, Afrodite correu para dentro de seu closet e da gaveta onde guardava muitos discos e fitas cassetes de variados tipos de música e artistas, retirou um LP de Jacques Brel, cantor e compositor belga famoso na década de 1960.

Amante das antigas canções românticas cantadas em língua francesa, Afrodite encarou a capa do LP, onde havia uma foto em branco e preto de Jacques Brel.

— Jacques, hoje você vai falar por mim, colega, porque só você sabe bem como estou me sentindo. Hoje, tudo o que tenho a dizer para ele está aqui... — deslizou os dedos pelo papelão, contornando o desenho do rosto do cantor —... É tudo... Ou nada... Que Dadá e sua poderosa coroa de lantejoulas me dê força!

Antes de sair do closet, o Santo de Peixes, com o LP debaixo do braço, caminhou até o fundo daquele pequeno cômodo e abriu uma das portas do grande armário.

Uma sutil e quase imperceptível luz de tom azul celeste tingiu seu rosto tristonho suavemente.

Ela vinha da pequena e quase extinta rosa de gelo que Camus lhe presenteara meses atrás, e que agora não passava de um único ramo, sem pétalas, sem folhas, sem forças e sem esperança.

Afrodite então a pegou com cuidado entre os dedos. Era tão frágil que temia quebrá-la, por isso a embrulhou delicadamente em um pequeno lenço vermelho de seda e com todo zelo a colocou no bolso do blazer de veludo preto que usava.

Não sabia explicar por que, mas tê-la junto a si lhe dava coragem.

Era como um amuleto.

Deixando finalmente o closet, cruzou apressado o quarto, vendo a “fantasia” que deveria usar para apresentar-se no palco para os integrantes da Camorra esticada sobre a cama. Um caricato e para lá de cafona traje sensual com as cores da bandeira italiana.

Olhou para ele por alguns segundos, somente pensando que Saga o mataria por quebrar o protocolo e não apresentar o número tão ensaiado, mas naquela hora não pensou em ninguém, somente nele, Camus.

Ajeitou a gola do blazer, e como não usava nada por baixo, tinha o peito nu e vestia uma calça de lycra colada ao corpo, toda de paetês, apenas arrumou algumas mechas de cabelo mais bagunçadas com os dedos mesmo e encarando seu reflexo no espelho, deixando escapar um suspiro longo e pleno de ansiedade antes de sair do quarto às pressas pela porta dos fundos.

Usando o corredor que dava acesso ao salão pela parte de trás, que era por onde as pessoas tinham acesso ao palco, Afrodite subiu correndo as escadas do mesmo já vendo o encarregado do som com a aparelhagem toda pronta, somente aguardando sua chegada.

— Ufa, até que enfim você apareceu, Afrodite. Está na hora. — disse o homem — Já está tudo pronto. Assim que você der o sinal, mando abrir as cortinas e dou o play.

— Você não vai dar nada, santa. — disse o pisciano com certa impaciência, caminhando em direção ao homem e o pegando pelo braço — Você vai desaquendar* daqui e me deixar sozinho nesse palco.

— Como é que é? — questionava o encarregado enquanto era conduzido para a escada dos fundos, completamente confuso e surpreso — Mas...

— Vai tomar um baygon*, ou outro otim* miado* no bar e pode colocar na minha conta. Anda, dá linha*, quero ficar sozinho.

Sem mais contestar, o homem deixou o palco e Peixes apressou-se a trocar os discos, substituindo o aclamado tenor italiano Luciano Pavarotti pelo seu LP de Jacques Brel.

A aparelhagem de som era das mais versáteis existentes no mercado e tinha um programa que separava a parte vocal da parte instrumental, dessa forma Afrodite podia interpretar a canção com sua voz tendo apenas a melodia de fundo.

Tudo pronto, o Santo de Peixes fechou os olhos.

Respirou fundo, por vezes seguidas, e não conseguindo conter o tremor das mãos ajeitou o microfone no pedestal, depois caminhou até o aparelho de som e desligou a música ambiente, pegando a todos que estavam do outro lado das cortinas de surpresa.

Em seguida apagou as luzes principais, deixando apenas alguns pequenos focos de luzes periféricas.

Todos no salão logo desviaram sua atenção para o tablado, no aguardo do musical previamente anunciado.

Os italianos da Camorra riam satisfeitos, sentiam-se ilustres ali, ao passo que Camus ficou ainda mais apreensivo. Rogou a Atena para que o maldito homem calvo desse a negociação por encerrada antes da apresentação de Afrodite, pois assim poderia ir embora antes de vê-lo no palco, mas o carcamano lhe pediu para apertarem as mãos após o número e o ruivo não teve como declinar.

Teria que assistir, e sentia-se já extremamente nervoso.

Mas não mais nervoso que o Santo de Peixes que detrás das cortinas só conseguia pensar que não suportava mais a agonia de viver naquela corda bamba de sentimentos, por isso, resignado, apertou o play e surpreendendo a todos a introdução da célebre canção francesa de Jacques Brel, Ne me quitte pas, começou a ecoar no salão.

As cortinas vermelhas lentamente se abriram e agora um foco de luz iluminava a belíssima figura do Santo de Peixes no centro do tablado.

Um anjo.

Era ao que sua imagem remetia.

Um anjo de olhos tristes e lábios trêmulos.

Afrodite então olhou para Camus.

Sem medo, sem pudor, sem dúvidas.

E antes que alguém pudesse capturar a intensidade daquele olhar, Peixes fechou os olhos e cantou.

Sua voz aveludada preenchendo todo o salão, no que mais parecia uma prece, uma súplica, do que uma canção.

 

Ne me quitte pas — (Não me deixe)

    Il faut oublier — (É preciso esquecer)

                       Tout peut s'oublier — (Tudo pode ser esquecido)

                      Qui s'enfuit déja — (Tudo que já tenha passado)

       Oublier le temps — (Esquecer o tempo)
          Des malentendus — (Os mal entendidos)

             Et le temps perdu — (E o tempo perdido)...

A voz de Afrodite era algo único.

Tinha presença, não era forte em demasia como um grito, nem frágil demais como um sussurro.

Era expressiva, cálida, terna.

Deixando que algumas mechas de seu cabelo encobrissem parcialmente seu rosto, agora ele cantava olhando diretamente para Camus com os olhos azuis marejados.

 Ne me quitte pas — (Não me deixe)

 Ne me quitte pas — (Não me deixe)

 Ne me quitte pas — (Não me deixe)

 Ne me quitte pas — (Não me deixe)

 

   Moi je t'offrirai — (Eu irei te oferecer)

          Des perles de pluie — (Pérolas de chuva)

    Venues de pays — (Vindas de países)

          Où il ne pleut pas — (Onde nunca chove)

          Je creuserai la terre — (Escavarei a terra)
              Jusqu'aprè ma mort — (Escaparei da morte)

                       Pour couvrir ton corps — (Para cobrir seu corpo)

         D’or et de lumière — (De ouro e de luz) ...

 

Na plateia, que fizera silêncio ao início do show, Camus estava estático.

Parecia ter sofrido uma espécie de paralisia súbita, porém, dentro de seu peito seu coração batia tão acelerado e intensamente que o aquariano temeu que todo o salão pudesse ouvi-lo retumbar dentro de si como tambores.

Sentia o impacto físico das palavras cantadas pelos doces lábios de Afrodite, as quais bailavam pelo ar e o atingia em cheio lhe causando grande abalo.

Ofegante, o ar lhe faltava e as mãos ficaram frias.

A seu lado, Natassia já notava que algo lhe acontecia.

A irmã de Camus era francesa, como ele, mas assim como o irmão desde muito jovem fora morar na Rússia e adotara o idioma local como oficial, porém sem abrir mão da língua mãe, a qual sempre manteve viva nos diálogos com o ruivo.

Além do mais, que criatura no mundo não conhecia aquela canção?

Olhava para o jovem cantor no palco que interpretava com tanta emoção aquela belíssima melodia quando sentiu um frio súbito, tão intenso que lhe arrepiou toda a pele.

Desviando os olhos, Natassia buscou discretamente o rosto de Camus, pois ao tocar suas mãos as sentiu tão frias que lhe causaram desconforto.

Foi então que a bailarina entendeu o que acontecia ali. 

Circunspecto e estático, tal qual uma estatua fria de mármore, o ruivo olhava para o palco com os olhos avelãs escondidos por detrás da farta franja para encobrir o brilho das lágrimas que lutava para conter com muito custo.

E foi aquele olhar que dissera a Natassia tudo o que ela precisava saber.

Discreta, a bela bailarina abraçou o irmão com carinho, pousando sua cabeça no peito ofegante dele, enquanto escutava as batidas fortes de seu coração que pulsava em sincronia com aquela declaração de amor cantada.

O coração de Natassia nessa hora foi tomado por sentimentos opostos.

Alegria e tristeza. Esperança e medo.

Ao entorno dos dois irmãos e na mesa ao lado, alheios ao verdadeiro significado daquela apresentação musical, italianos e russos encaravam o cantor no palco com feições sisudas e expressões de descontentamento.

Entre pigarreadas, risinhos de deboche, murmurinhos e muita insatisfação, os homens davam tapas na mesa e chegaram até a ensaiar um coro de vaias, afinal, era com uma música francesa que os gregos pretendiam homenagear a visita da Camorra àquele bordel?

 

Vaffanculo! — esbravejou em alto tom um dos italianos.

 

Porém, as vaias logo morreram, os risos de escárnio cessaram, pois nenhuma atenção dos presentes naquele salão fora dispensada aos que se queixavam, uma vez que fosse em francês ou em italiano, a belíssima voz de Afrodite de Peixes, e a emoção desmedida com que ele cantava, hipnotizava a todos, que faziam silêncio em admiração.

 

Enquanto Afrodite se declarava de forma velada a Camus, no bar Aldebaran de Touro suava em bicas, encarando o pisciano no palco com os olhos de jabuticaba arregalados a ponto de quase saltarem das órbitas, em completo desespero, enquanto tencionava contra a nuca o seu paninho úmido de limpar o balcão.

 

— Puta que me pariu que agora fodeu mesmo, rapaz! — trouxe o paninho para a testa onde enxugou o suor que escorria abundante — Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!  Afrodite, seu viado burro!

 

Praticamente gritava, dando ênfase à última sílaba.

 

— Justo hoje esse viado me faz uma cagalhopança dessas! Justo hoje! Que tem um monte de italiano sangue ruim e o chefe tá com o encosto do Belzebu no couro... Essa porra vai sobrar pra mim... Já tô até vendo! Ai meu soldo, meu soldo, cara... Meu carnaval. — mordeu por fim o paninho para tentar se conter.

 

No balcão do bar, Misty olhava incrédulo para o palco, sem poder acreditar no que estava presenciando.

 

Tamanho era o assombro do cavaleiro de Prata que seus olhos azuis sequer piscavam ao fixar a figura de Afrodite, que parecia ter conseguido passá-lo para trás mais uma vez.

 

— Seu... Maldito! — rangeu os dentes sentindo todo seu corpo fremir de raiva.

 

Aquele pedido de perdão que Afrodite cantava a Camus era tão simplório, tão patético que chegava a lhe ofender a inteligência, mas parecia estar sendo absurdamente eficaz, uma vez que olhando para Camus via o ruivo com a atenção completamente voltada para o homem no palco.

 

Sentiu seus dedos formigarem de ódio, então levou o copo que segurava à boca e despejou de uma vez a dose de vodca que Touro havia acabado de lhe servir garganta a baixo, em seguida bateu o copo contra o balcão com tanta força que o vidro se desfez em milhões de pedacinhos.

 

Aldebaran piscou os olhos alarmado, mas alheio ao motivo real do destempero do Lagarto.

 

— É cara, vai sobrar para nós. — disse o taurino — Sempre sobra pro grandão com cara de bobo aqui.

 

Sem dar resposta, Misty se embrenhou no meio das mesas e às pressas subiu para seu quarto, onde passaria o resto da noite amargando sua derrota, mas já pensando em uma nova estratégia para separar Peixes de Aquário e vingar-se daquele que lhe causara tanta dor no passado.

 

No tablado, Afrodite entoava as últimas estrofes da canção.

A inércia de Camus, a falta de uma mínima reação, o rosto fechado, e principalmente a mulher ao lado dele, encostada em seu peito, acariciando seus longos cabelos cor de fogo, fizeram Afrodite cantar aquelas últimas palavras como se desse seu último suspiro de vida.

Com lentidão.

Com sofrimento.

Como quem clama pela redenção.

Ne me quitte pas — (Não me deixe)

Ne me quitte pas — (Não me deixe)

Ne me quitte pas — (Não me deixe)
 

                           Je ne vais plus pleurer — ( Eu não vou mais chorar)
                     Je ne vais plus parler — ( Eu não vou mais falar)
          Je me cacherai là — ( Me esconderei aqui)
           A te regarder — (Só para te olhar de longe)
  Danser et sourire — ( Dançar e sorrir)
       Et à t'écouter — (E para ouvir a sua voz)
            Chanter et puis rire — (Cantar e depois rir)
                   Laisse-moi devenir — (Deixe que eu me torne)
                            L'ombre de ton ombre — (A sombra da tua sombra)
                 L'ombre de ta main — (A sombra da tua mão)
                    L'ombre de ton chien — (A sombra do teu cão)

 

Ne me quitte pas — (Não me deixe)
Ne me quitte pas — (Não me deixe)
Ne me quitte pas — (Não me deixe)

A música acabou, e Afrodite olhou uma última vez para Camus antes das luzes se acenderem.

Entre alguns tantos aplausos houve, obviamente, a inércia dos membros da Camorra, que sentiam-se ultrajados, e da Vory v Zakone, que jamais aplaudiriam número qualquer que fosse apresentado por um homossexual, os quais permaneceram calados e carrancudos em seus lugares sem manifestar qualquer emoção.

Calado também estava Camus, e como se tivesse sido atingido por um golpe indefensável, já aceitando sua derrota, encarava os olhos aquamarines marejados de Afrodite ao longe, sem nem ao menos conseguir respirar.

Foi Natassia que o trouxera de volta daquela catarse quando percebendo o estado do irmão e pousou a mão delicadamente em seu rosto. Com um sutil movimento o fez olhar para si antes que algum daqueles homens notassem o que ela levara tempo para perceber.

*Camus, querido. Temos que ir embora... Tem que tomar uma decisão importante e não pode mais esperar. Sabe que irei estar sempre ao seu lado, não importa o que decidir. Encerre essa negociação de uma vez por todas. — a voz suave inspirava confiança e conforto, tudo que Aquário precisava naquele momento, então Natassia olhou profundamente em seus olhos e eles disseram ao ruivo tudo o mais que ele precisava saber.

Como quem encontra um oásis em meio à agonia excruciante do deserto, Camus, com certa euforia, envolveu a irmã em seus braços e a abraçou com a força e a eloquência de quem exala gratidão.

Natassia sorriu ternamente, e devolvendo o abraço depositou um beijo singelo no rosto do francês.

Porém, aquele gesto de amor fraternal fora interpretado pelo jovem no palco como a resposta derradeira que tanto esperava.

Ao ver aquela troca de carinhos tão cúmplice e os olhares embevecidos com que ambos se encaravam, Afrodite baixou a cabeça deixando que a farta cabeleira lhe encobrisse o rosto choroso, então finalmente deixou o palco, dando as costas para a plateia antes de as cortinas se fecharem.

Sua súplica havia sido em vão.

Descia as escadas do tablado enxugando uma lágrima quando topou com Shina que vinha em sua direção.

A amazona apresentaria seu tão aclamado número de pole dance.

— O que deu em você, Afrodite? Era para ter cantado O Sole Mio, caspita. Você ensaiou essa porra de música a semana toda e agora me canta uma música francesa? Ficou maluco? — disse ela ao parar na frente do pisciano para ajeitar a liga nas coxas torneadas — Saga vai quebrar você ao meio... O que está acontecendo com todo mundo nessa merda de lugar hoje? Ficaram todos loucos? — referia-se à conversa que tivera com Saga momentos antes, quando Gêmeos permitiu que Milo subisse com Geisty.

— Não se quebra o que já está quebrado. — respondeu sem olhar para o rosto de Shina, e tocando em seu ombro a empurrou gentilmente para o lado para poder continuar seu caminho — Por favor, peça ao Máscara e ao Shura que fechem a casa no final no expediente por mim. Eu vou para o meu Templo.

— O que? Vai embora essa hora? O marqueteiro do prefeito está ai. Ele não é seu cliente fixo?

— Não vou atender mais ninguém hoje, Ofiúca. Eu me entendo com ele antes de ir embora, mas hoje não fico nem mais um minuto aqui.

Dito aquilo, Peixes seguiu pelo corredor dos fundos, enquanto Shina o acompanhou com os olhos sem entender o motivo de tanta tristeza.

No salão, Camus tratava logo de encerrar o que tinha que fazer ali para enfim poder ir embora.

Não demorou para que seu pulso firme e sua habilidade nata para os negócios convencessem o italiano calvo de que não conseguiria mesmo arrancar nenhuma grana extra naquela negociação, e não vendo alternativa deu a transação por encerrada pelo mesmo valor que tinha estipulado a Saga por telefone, quando esse conversou consigo se mostrando interessado no negócio do contrabando de carne.

Pacto selado, mãos apertadas, assinaturas trocadas, Camus levantou-se e arrastou a cadeira de Natassia para trás para que ela também pudesse se levantar.

*Andreas, quero que venha comigo. — ordenou ao russo que era seu braço direito, ao mesmo tempo em que corria os olhos para outros homens que vieram consigo e que estavam à mesa — Os demais podem ficar. Divirtam-se.

Sem questionar Andreas acompanhou Camus e Natassia até a saída do Templo e depois até o carro no qual haviam vindo. Então Aquário segurou no rosto da irmã e ambos trocaram olhares e sorrisos por alguns minutos.

Não foi preciso nenhuma palavra.

Natassia entrou no carro e o ruivo fechou a porta, depois dirigiu-se a Andreas e deu a última ordem da noite.

*Andreas, quero que conduza Natassia até o hotel pessoalmente. Alugue um quarto ao lado e fique alerta. Amanhã você vai embarcar junto com ela para Moscou e deixá-la em casa pessoalmente também. Eu tenho uma missão para resolver aqui no Santuário e só devo voltar dentro de alguns dias para a Rússia. Entendido?

— *Sim, chefe. Pode ficar tranquilo.

— *É minha irmã que está sob sua responsabilidade, Andreas. — disse pressionando o dedo indicador contra o peito do russo alto de cabelos alourados.

— * Pode confiar chefe. Sua irmã estará segura, a protegerei com minha vida.

— *Ótimo! Eu sei que posso confiar em você. Boa noite.

— *Boa noite, chefe.

***

Depois de informar ao marqueteiro do prefeito que não iria atendê-lo naquela noite, Afrodite deixou o Templo de Baco sem falar com mais ninguém.

Cabisbaixo, a tristeza lhe corroendo a alma e o ânimo, subia as escadarias de rochas com a exaustão de um pagador de promessas, pé ante pé, as lágrimas banhando seu rosto belíssimo e a boca entreaberta puxando o ar para os pulmões comprimidos pela melancolia.

Por que Camus não lhe dera nenhum sinal?

Teria detestado a música? Ou desaprovado sua iniciativa por achar que estava chamando muita atenção quando deveria se manter discreto como sempre lhe pedira.

Pior!

Teria Camus sido tocado pela música de maneira avessa e ido procurar Misty de Lagarto para lhe propor ser mesmo seu amante, ou até mesmo seu noivo? E então o cobriria de joias e o levaria para um passeio luxuoso em Bora Bora em seu iate particular?

— Minha... Deusa! Será? — arregalou os olhos diante desse pensamento ínfimo e até tropeçou em um dos degraus quase indo ao chão.

Ao se recompor minimamente, retomou a subida esfregando os olhos.

Tudo havia acabado.

Agora teria que aceitar ser mesmo apenas a sombra de Camus.

Sentir-se feliz sozinho em apenas observá-lo de longe, cantar e sorrir intimamente quando escutasse sua voz.

O amaria mesmo não sendo correspondido, pois ainda que não pudesse viver aquele amor já era grato a Camus por lhe ter mostrado que podia sim, amar alguém, que não era vazio como todos, inclusive ele mesmo, acreditavam.

E foi assim, amargurando uma tristeza indômita que Afrodite cruzava as doze casas em direção ao Templo de Peixes.

No caminho, enfiou a mão no bolso do blazer de veludo e de lá retirou o lenço vermelho que abrigava o fiapo do amor que Aquário outrora lhe ofertou e que ainda vivia no galhinho frágil da escultura de gelo, o qual agora era tão fino quando um palito de dentes.

Segurando o lenço já muito úmido nas mãos, Afrodite suspirou profundamente quando se viu em frente à décima primeira casa, o Templo de Gelo, e morada do Santo de Aquário.

Logo nos derradeiros degraus que precediam a passagem, Peixes sentiu o frio intenso e violento que vinha de dentro.

Com passos lentos e ruidosos, adentrou o corredor cruzando os braços e baixando a cabeça. O ar se condensando ao sair de sua boca enquanto andava.

O frio de Camus era algo sobrenatural, pesado, devastador.

— “Atena!... Será que... Ele está com tanto ódio assim?... De mim?” — pensou batendo o queixo e rangendo os dentes.

Sentia a presença poderosa e opressora do guardião daquele Templo e resignado a não desafiá-lo ainda mais apertou o passo para deixar claro que respeitava sua decisão, que apenas queria ir para casa.

Ao chegar ao meio do corredor o frio tornara-se ainda mais intenso, pois todo o pátio, colunas que de sustentação e teto estavam cobertas por grossas camadas de gelo.

Também o chão estava escorregadio por conta de uma fina camada que o recobria, dificultando sua passagem e por vezes o fazendo escorregar sutilmente.

Afrodite já começava a ficar assustado.

Não era normal Camus congelar seu Templo daquela maneira. Por isso, entendeu aquilo como um recado.

Deveria ficar longe. Não era bem vindo no Templo de Gelo.

Foi aos soluços e tremores, tanto causados pelo frio, quanto pela angustia que lhe assolava a alma, que o Santo de Peixes finalmente cruzou o Templo vizinho e chegou à sua casa.

Deu um suspiro longo ao finalmente galgar o último degrau e adentrar o corredor, mas antes que se dirigisse à passagem oculta que dava acesso ao interior da construção, sua casa propriamente dita, sentiu a presença de alguém ali.

Imediatamente virou-se novamente para o corredor e para sua completa surpresa e assombro viu uma silhueta muito conhecida encostada em um dos pilares.

— C-Camus? — sussurrou com voz entrecortada.

Peixes ficou confuso, pois apesar de Camus estar ali, diante de si, o Cosmo do aquariano estava todo na décima primeira casa zodiacal, porém logo percebeu que aquilo se tratava de um artifício até que muito comum dos cavaleiros de Ouro.

Camus deixara seu Cosmo ativo em seu Templo, juntamente com a sagrada armadura de Aquário montada fora da urna, pois assim conseguia fazer parecer com que estivesse pessoalmente lá, apagando qualquer indício de sua localização exata.

Assim, poderia estar em Peixes sem temer ser pego em flagrante, uma vez que seu Cosmo e sua armadura estavam em Aquário.

— Olha... Se veio aqui para... Para me gongar*... Ou para me... Me dar outro coió* de cinta, poupe o meu e o seu tempo...

Enquanto Afrodite falava com voz trêmula e semblante tristonho, Camus caminhava em sua direção com passos firmes, sempre encarando os olhos aquamarines do cavaleiro e intimamente se questionando se estaria mesmo fazendo a coisa certa.

Certo ou não, Camus estava cansado de ponderar, cansado de analisar, de ser racional.

A quem queria enganar?

Passara semanas inteiras na Rússia, focado no trabalho, mantendo a mente ocupada com os negócios da máfia e o corpo exausto com treinamentos e missões que fazia questão de executar pessoalmente, tudo para evitar pensar em Afrodite de Peixes e descobrir, por fim, que jamais conseguiria arrancar aquele homem de dentro de si, de dentro de seu coração.

Não havia lugar no mundo onde pudesse se refugiar dele.

Não havia trabalho ou atividade exaustiva que o impedisse de pensar nele.

Ao final, Camus entendeu que tentar esquecer Afrodite era mais perturbador do que amá-lo!

— Eu... Eu já entendi, Camus... Eu te prometo que nunca mais vou...

O francês parou quando ficou frente a frente com o pisciano, interrompendo sua fala ao lhe tocar os lábios com a ponta do dedo indicador.

O rosto assustado e apreensivo de Peixes esperava por alguma palavra, uma explicação que fosse, mas no lugar das palavras um gesto do aquariano falou por si próprio.

Camus esticou os braços e segurou as mãos de Afrodite que traziam o lenço vermelho, então olhando nos olhos do pisciano tomou aquele pequeno embrulho de suas mãos e o desenrolou.

— Eu lhe fiz essa rosa como símbolo do que eu sentia por você... — murmurou em baixo tom ao descer os olhos para o pequeno gravetinho —... É triste ver no que ela se tornou.

O Santo de Peixes mal conseguia se mexer.

De cabeça baixa sentiu uma lágrima quente lhe escorrer novamente pelo rosto.

— Afrodite eu... Tentei. Com toda minha vontade, com todo meu juízo, o qual desde muito cedo fui forçado a construir a ferro e fogo, ou melhor, com muita violência e gelo... Mas... O amor me parece ser um sentimento avesso ao juízo.

Dito aquilo, Camus segurou o gravetinho entre seus dedos e o erguendo até o rosto fechou os olhos e lhe deu um sopro gélido.

Como por mágica, a escultura de gelo começou a se refazer milagrosamente a medida em que Camus lhe devolvia o sopro da vida, lhe depositando novamente todo o amor que preenchia seu coração.

Paralisado, e como que em estado de graça, Afrodite observava a rosa aos poucos voltar a ser o que era antes, porém mais brilhante, mais exuberante!

Finalmente Peixes percebeu que Camus havia entendido seu recado através da música e, assim como ele, agora também entendia o recado do aquariano através daquele gesto.

Não podia acreditar que Camus o havia perdoado. Que estava ali!

Estava atônito.

O choro agora era impossível de ser contido.

— Afrodite... — o ruivo pegou novamente na mão do amado e mais uma vez lhe ofertou a rosa que carregava dentro de si todo seu sentimento, e que jamais morreria —... Eu amo você. E eu non quero mais passar um dia sequer dessa minha maldita vida negando isso, ma belle rose!

O Santo de Peixes deixou escapar um soluço.

Em meio a choro e riso o pisciano olhava para o homem à sua frente e não conseguia conter sua surpresa e emoção. Seus ombros chegavam a chacoalhar, e nas mãos ele apertava com força a rosa de gelo revivida.

Camus também o encarava com lágrimas nos olhos, finalmente permitindo que toda aquela emoção extravasasse, dessa vez sem o mínimo pudor.

Camus queria sentir.

Estava farto de viver trancado dentro de si mesmo.

Quando Afrodite, enfim, se permitiu respirar aliviado e seus joelhos pararam de tremer minimamente, abriu um largo sorriso e num gesto eufórico saltou para o colo de Camus, como sempre fazia quando o recebia no seu quarto no bordel, entrelaçando as pernas em sua cintura e colando seu corpo ao dele, para na mesma hora tomar aqueles lábios tão saudosos num beijo ansioso e apaixonado.

O francês não se surpreendeu nem por um momento.

Conhecia bem o jeito estabanado e exaltado do pisciano e era essa uma das peculiaridades daquele homem que tanto o cativara.

Era com a mesma emoção, alegria, regozijo e euforia de um sobrevivente do horror da guerra que regressa ao lar que Camus de Aquário beijava os lábios de Afrodite de Peixes. Intensamente, profundamente, aliviado e grato.

Com um dos braços sustentava o corpo do pisciano junto ao seu, enquanto a mão que tinha livre passeava entre os fios sedosos dos cabelos de perfume único que tanto sentira falta.

Dieu!... Como senti sua falta, Afrodite!... Non tem ideia do tanto que senti sua falta. — dizia o francês entre sussurros ao separar as bocas ávidas por poucos segundos para olhar para os olhos aquamarines que eram sua perdição.

— Eu também, Camus... Eu também... Todos os dias, todas as horas... Você... Você me perdoou? De verdade? — o pisciano esfregava seu rosto ao do aquariano, sem desmanchar por um só segundo o sorriso que tinha nos lábios.

Oui! Como você disse na canção. Vamos esquecer. Tudo pode ser esquecido.

Peixes então encarou os olhos avelãs do ruivo e sem nenhuma sombra de dúvidas, nem atrapalhação, lhe confessou o que tanto desejava:

— Eu amo você. Eu amo! Eu amo você Camus! Mon amour! Eu amo você!

Novamente, e com ainda mais euforia, retomou o beijo e dessa vez ambos sorriam ao tocarem os lábios.

Camus então adentrou o templo de Peixes com Afrodite ainda atracado a si e quando chegaram à sala o colocou no chão, assumindo um semblante sério ao segurar seu rosto com ambas as mãos e encarar seus olhos uma vez mais.

— Faça amor comigo, Afrodite... Pela primeira vez. Quero amá-lo como sempre desejei e quero que me ame.

— É o que eu mais quero! — respondeu o sueco puxando o francês para um abraço possessivo — É o que mais desejo! — afastou-se para olhar em seus olhos — Me mostre como é diferente, Camus? Me mostre como é pertencer a outro por amor!

Tocou com suavidade os lábios do guerreiro de gelo com os seus, fechando os olhos e sentindo o calor e o perfume delicioso que exalavam dele.

Oui ma belle!

Arrebatado, de amor, saudade, entusiasmo e felicidade, Camus retribuía aquele beijo não só com o corpo, mas também com a alma.

Após longos minutos ali, naquele reencontro tão esperado, com sutileza o francês se afastou um passo e tomou o sueco nos braços para então carregá-lo até o quarto.

Aos beijos, e tropeçando nos móveis e objetos decorativos, Aquário caminhava sem precisar de instruções, visto que a arquitetura da parte interna das casas zodiacais, das moradias propriamente ditas, eram relativamente parecidas.

Logo que entrou o cheiro de rosas o arrebatou como nunca antes.

Era intenso, inebriante, luxuriante, erótico!

Com Afrodite ainda nos braços, Camus tateou a parede ao lado da porta e ao encontrar o interruptor acendeu a luz.

Foi aos beijos que chegaram até à cama de românticos lençóis brancos de seda, onde o ruivo desceu o amado do colo o colocando sentado na beirada.

Camus então se ajoelhou à sua frente e diante do olhar ansioso e curioso de Afrodite tomou um de seus pés e lhe tirou o sapato. Repetiu a ação retirando o outro, com extrema delicadeza e sem nenhuma pressa, então tomou os pés do Santo de Peixes em suas mãos e lhe depositou pequenos beijos nos dedinhos esmaltados em azul celeste.

Afrodite mordia o cantinho da boca, em deleite.

— Hoje é um dia especial. — disse Camus ao olhar para ele rapidamente — Hoje quero que sinta todo o amor que carrego dentro de mim, mon amour.

Embevecido, o pisciano observava cada gesto do cavaleiro com olhos semicerrados e olhar luxurioso.

Os lábios quentes do ruivo ao tocarem sua pele lhe causava um arrepio inebriante, diferente de tudo que já experimentara. Era aprazível, mas ao mesmo tempo enternecedor, relaxante.

E, ah! Os lábios de Camus!...

Como sentira falta dos beijos e dos toques daqueles lábios. Do hálito doce, da textura macia, do sabor único!

O peito do cavaleiro de Peixes subia e descia num movimento acelerado e cadenciado.

O coração batia em festa e as borboletas no estômago reouveram suas asas e agora revoavam entusiasmadas.

O corpo de Afrodite estava em festa, como nunca antes.

Já havia feito muito sexo na vida, mas nunca havia feito amor, e a sensação era completamente diferente.

Dessa vez, sua alma estava em festa!

Camus, entre um beijo e outro que distribuía nos tornozelos de Peixes, levantava o rosto e olhava para ele, então sua alma se alegrava e seu corpo era tomado por um furor ansioso ao ver como o amado reagia às suas carícias.

Nunca percebera Afrodite tão entregue daquela forma.

Tentando conter a própria ansiedade, o francês endireitou a postura e ainda de joelhos posicionou-se entre as pernas do sueco deslizando ambas as mãos para dentro do blazer de veludo negro, tateando a pele macia e os músculos firmes com as pontas dos dedos em exaltação, até retirar a peça e jogá-la ao chão.

Afrodite sentia todo o corpo formigar ao toque daquelas mãos.

Afoito, mas bem menos que das outras vezes, levou as mãos aos cabelos ruivos do cavaleiro de gelo e arranhou de leve sua nuca, ao mesmo tempo em que tomava novamente a boca de Camus num beijo lascivo.

Aquário aprofundava o beijo, tornando-o mais intenso à medida que sua ânsia pelo outro crescia. As unhas longas de Afrodite arranhando sua nuca lhe arrancavam suspiros sonoros, e então, sem poder esperar mais correu as mãos para o cós da calça do pisciano e o puxou para baixo, mas quando seus dedos tocaram o elástico da peça íntima que o sueco usava Camus apartou o beijo para descer o olhar, surpreendendo-se com o que via.

— Oh! Veja só! O que temos aqui! — sussurrou com um sorriso sensual, então enfiou um dedo por debaixo do elástico espesso, enquanto mordiscava de leve o pescoço do pisciano — Está usando cueca!

Afrodite não pode conter o riso nem a surpresa repentina de se dar conta de que todas as vezes que estivera com Camus no seu quarto do bordel ambos vestiam lingerie e pareciam acometidos por um transe sexual maluco.

— Sim, eu uso cueca, mon amour. Ou achou que eu só usava calcinha? — mordeu o lábio inferior do ruivo o provocando, enquanto também aproveitava para lhe retirar o casaco — Mas, se quiser uma para você eu tenho algumas aqui em casa também.

Non... Non quero... — Camus também riu — Eu adorei vê-lo de cuecas... Mas prefiro você sem nada!

Dito isso, Camus espalmou ambas as mãos no peito arfante de Afrodite e o fez deitar-se no colchão, então agarrou o cós da calça e com um puxão a foi arrastando para baixo até jogá-la junto ao blazer no chão. Em seguida mordeu o elástico da cueca com os dentes e encarando os olhos do amado a puxou também, excitando-se ainda mais ao ver o membro já rijo e grande pular para fora, enquanto aproveitava o movimento para tocar as coxas roliças, virilhas e nádegas do cavaleiro.

Peixes há tempos não sabia o apelo sexual e o prazer contido no ato de ser despido daquela forma tão erótica.

Na verdade, talvez nunca fora despido com tanta sensualidade, uma vez que era ele quem sempre despia seus amantes com habilidade ímpar, ou, como nos últimos meses, despia-se sozinho, rapidamente e sem a mínima necessidade de erotismo ou sedução, visto que os clientes que pagavam para fazer sexo consigo não estavam à procura de romance, mas apenas de satisfazer seus fetiches e necessidades fisiológicas.

Por isso, o tesão que Afrodite sentia ao ser desnudado por Camus daquela forma era indescritível.

Contorcia-se em resposta aos toques e deixou escapar um gemido quando o aquariano lhe segurou o membro rijo, o massageando gentilmente, e depositou um beijo molhado no meio de suas coxas.

Já estava pronto para pedir mais, mais toques, mais beijos naquele local, quando percebeu Camus se levantar e se afastar alguns passos.

Sem levantar do colchão, mas apenas apoiando os cotovelos no mesmo para erguer parcialmente o tronco, olhou para o ruivo e o viu desabotoar a camisa, botão por botão, num lentidão torturante, porém extremamente sedutora.

Ao tirar a peça, Camus passou para a calça, sempre sem quebrar o contato visual com o pisciano, que se deliciava com aquele stripe tease, sorrindo enquanto mordia a pontinha da unha do dedo indicador.

Abriu o cinto, depois o botão, zíper, e ao descer a peça, retirá-la e deixa-la junto à camisa sobre a poltrona, olhou para o sueco que percorria todo seu corpo forte com olhos languidos, então segurou no cós da cueca e lentamente a retirou também, pondo-se completamente nu diante de seu amado.

Sem pudor.

Sem vergonha ou jogos.

Amava e desejava Afrodite, e agora que não mais precisava negar isso, não precisava também se conter.

— Você, por todos os deuses do Olimpo... Você é tão lindo, Camus de Aquário!

Afrodite sussurrou, seus olhos marejados de emoção fixos aos olhos de Camus.

O Santo de Aquário já não suportava mais aquela distância, então aproximou-se novamente e gentilmente deitou-se sobre Peixes, encaixando-se no corpo febril que o acolheu de imediato com paixão e necessidade desmedidas.

Novamente as bocas se provavam, mas agora com mais fervor, mais ansiedade, enquanto pernas se friccionavam, quadris se pressionavam um ao outro, lutando instintivamente por dominância, e mãos percorriam ávidas costas, ombros, nádegas...

Afrodite e Camus matavam a saudade usando todos os seus sentidos, pois ambos enxergavam, ouviam, respiravam, provavam e tocavam um ao outro em sua totalidade.

Cada pequeno arquejo do Santo de Peixes era uma vitória comemorada com mais beijos e mais afagos pelo cavaleiro de Aquário, pois o prazer dele era seu deleite, era o que instigava seu desejo.

Camus o queria como jamais quis algo com tanto desejo e tanta certeza em sua vida!

Je t´aime... Aphrodite!... Je t´aime... — disse num francês carregado, enquanto encaixava-se entre as pernas do sueco — Permettez-moi de vous aimer! (Deixe-me amá-lo!)

— Ahh... Oui... — gemeu o pisciano de olhos fechados, descendo a mão, que surpreendentemente estava trêmula devido um inédito nervosismo, para a virilha do aquariano onde sem demora agarrou seu membro firme e úmido — Ahh... Camy...

Seu baixo ventre chegava a doer tamanha sua excitação, a qual só aumentou ao sentir na mão a excitação também do outro.

Afrodite abandonou o pênis do amante para correr, juntas, ambas as mãos às nádegas durinhas e avantajadas, onde apertou com força, enchendo as palmas com aquela carne macia e desejosa, e enquanto institivamente projetava o quadril para cima, contra o do francês, correu o dedo indicador para o meio delas, tateando a intimidade de Camus com toques alternados, ora leves apenas acariciando a região, ora pedindo passagem, forçando contato.

O ruivo mordeu os lábios segurando um gemido rouco que surgia no fundo da garganta, diante de tal provocação tão deliciosa. Sentia o dedo do outro dentro de si e arfava de prazer.  

Afrodite, num rompante quase de agonia, segurou o ruivo pelos quadris e com força o puxou para o lado, girando seus corpos e se colocando por cima dele. 

Aproveitou a posição para lhe segurar gentilmente pelos cabelos e girando seu rosto para o lado lhe depositar uma mordida no pescoço, tomando cuidado para não marcá-lo. Então, esticou o braço e tombando o corpo alcançou a gaveta do criado-mudo de onde retirou uma bisnaga de lubrificante.

— Hum... Camy... Quero você... — com o objeto na mão, voltou a mordiscar agora o peito, mamilos e ombros do aquariano, ao mesmo tempo em que esfregava sua ereção na dele e contraia as coxas e o quadril já prevendo como seria formidável tomar o ruivo novamente depois de tanto tempo, ávido pela expectativa.

— Eu também quero você, ma belle... Ahh... Quero tanto... Tanto...

Aos sussurros e lampejos, entusiasmado pelo furor oblíquo do amante, Camus de súbito surpreendeu Afrodite ao agarrar, agora ele, a cintura esguia do pisciano e novamente inverter suas posições.

Ao debruçar-se sobre o sueco, Aquário esfregava com excitação demasiada o nariz, a boca, o rosto na curva de seu pescoço, arranhando a pele alva com os dentes, deixando um traço de saliva onde passava os lábios ardentes, e enquanto Afrodite delirava Camus gentilmente lhe tomava das mãos a bisnaga de lubrificante.

Peixes arregalou os olhos, surpreso com aquele gesto, e se pôs ainda mais surpreendido quando Camus, de forma brusca, tombou o corpo para o lado e o segurando pelos ombros o virou de bruços, já colando em seguida seu corpo forte ao dele, deixando todo o peso de sua estrutura máscula e viril pressionar o pisciano contra os lençóis, impondo dominância, enquanto friccionava seu membro pulsante contra as nádegas delgadas do cavaleiro debaixo de si.

— Humm... hum... Camy...  — o sueco murmurou com a voz rouca e arfante de tesão — Você quer assim?... — provocou empurrando o quadril para trás, intensificando o atrito de suas nádegas com o pênis dele.

Oui... Oui, je veux! (Sim... Sim, eu quero assim.) — a resposta viera imediata e proferida em tom grave e autoritário — Quero amá-lo de todas as formas, Afrodite. Quero que seja meu... Quero ouvir seus gemidos... Quero tomar o seu corpo... — sussurrava ao ouvido do sueco indo à loucura com o rebolado provocativo com que ele lhe atiçava — Quero ouvi-lo gritar meu nome quando estiver dentro de você... Ahh... Dieu!... Agora você é meu!... Hum... Mon homme... Mon amour... Ma belle rose!

Camus nunca havia sido ativo antes. Não com outro homem.

O sexo com prostitutas não contava, pois era mecânico, quase uma obrigação.

Dentro da Vory v Zakone era comum os homens frequentarem bordéis juntos e também fazerem sexo com as prostitutas sob supervisão dos membros para provar sua masculinidade.

Todo sexo na vida de Camus fora uma farsa, menos o que fizera com Afrodite.

Porém, ainda que ao pisciano Aquário tivesse desnudado sua alma por completo, seus encontros, por mais prazerosos que tivessem sido sempre foram regados a fetiches, chantagens, jogos e um sentimento estranho de humilhação...

Ali não.

Ali era a primeira vez que Camus estava no comando das próprias ações. Despido de qualquer personagem, expiado de qualquer culpa.

Já para Peixes aquela nova postura do aquariano, além de surpreendente, era absurdamente excitante!

Ouvi-lo dizer aquelas palavras, e de modo tão sensual e sincero, fora o maior estímulo que recebera em anos.

Um choque elétrico lhe percorreu todo o corpo ao ouvi-las, e o sentiu com tanta força que temeu não resistir e explodir de prazer antes mesmo de seu amado tomar seu corpo pela primeira vez.

De repente, toda a ansiedade que sentia dobrou.

— Camy... — gemeu virando a cabeça para o lado para receber um beijo no cantinho da boca — Então para de me provocar ou vai me matar de tesão!

Aquário sorriu, e sem perder mais tempo colocou-se de joelhos sobre o colchão, entre as pernas de Afrodite, abriu a bisnaga e despejou uma boa quantia de lubrificante em seus dedos, os levando imediatamente à intimidade do pisciano.

Circundou a região com movimentos lentos e precisos, e para alguém que não tinha perícia alguma com aquela prática, até que o fez com uma habilidade espantosa.

Apesar de toda sua pressa em tomar Afrodite, Camus lembrava-se de como o amado o preparava sempre antes da penetração, e não iria privá-lo dos mesmos cuidados.

Seus olhos avelãs pregados no corpo do amante deleitavam-se com a imagem belíssima dele se contorcendo de prazer mediante seus toques.

Afastou as nádegas dele com uma das mãos enquanto introduzia lentamente o dedo indicador da outra dentro do cavaleiro, que gemeu baixinho.

Camus mal piscava, mal respirava.

Explorar o corpo do outro daquela maneira tão íntima e explícita era algo sublime para alguém como ele, que sempre reprimira todo e qualquer desejo que sentia.

— Humm... — Afrodite sentia o francês lhe estocar com o dedo, cada vez mais intenso e acelerado, e esfregava o rosto nos lençóis em delírio.

— Ahh... si délicieux! (Tão delicioso!) — o francês gemia, introduzindo outro dedo e experimentando a sensação única de explorar o corpo do amante com tanta intimidade.

Afrodite facilitava seu deleite empinando o quadril e contraindo os músculos da pélvis, provocando Camus, instigando ainda mais sua libido como só ele sabia fazer.

— Hummm vai me matar de tesão, mafioso malvado... Ahh... Camy — entre gemidos o pisciano arqueava mais os quadris para poder se tocar, masturbando-se enquanto sentia os dedos de Aquário o explorando, o preparando, ansioso com a expectativa do que viria a seguir.

Ao ver o sueco se tocando quase em desespero, Camus sentiu também um arrepio lhe percorrer toda a coluna.

Não aguentava mais esperar. Estava no ápice!

Não querendo mais torturar o amado, tampouco a si mesmo, afastou-se novamente e com certa impaciência apanhou a bisnaga de lubrificante que havia largado ao lado e derramou uma quantia generosa por todo seu membro já dolorido de tão excitado.

Peixes o olhou rapidamente por cima dos ombros e na expectativa visceral de ser tomado pelo homem que amava abria-se ainda mais, remexia-se, arfava, pedia.

— Ahh Camyy... Por favor...

O pedido, o rebolado, as mãos agarradas aos lençóis, a entrega, só faziam o coração de Camus bater ainda mais acelerado e seu sexo pulsar mais forte. Por isso, assim que se posicionou entre as pernas do pisciano novamente, Aquário segurou firme na base de seu pênis e começou a introduzir-se nele. De forma lenta, cuidadosa, porém sem interromper-se até que se sentisse todo dentro.

— Ahh Dieu!... Aphro... Aphrodite... — clamou baixinho, forçando o quadril e contraindo-se todo contra as nádegas do pisciano, enterrando-se nele e vivenciando a sensação sublime e única de sentir-se dentro de seu amado, percebendo seu corpo quente, apertado e delicioso envolver seu membro.

Peixes buscou as mãos do francês quando este começou a se movimentar, de início lentamente, já que não tinham mais pressa, e agora de dedos entrelaçados ambos gemiam e arfavam juntos.

Camus alternava as estocadas, ora mais lentas, ora mais agressivas, arrancando alguns gritos sutis do pisciano.

Ah, os gritos de Afrodite de Peixes!

Fora com eles que tudo começou.

Entre as investidas vigorosas que agora dava contra o corpo do sueco, Camus simulava sair de dentro dele, mas quando Afrodite já pensava em reclamar, eis que o ruivo se arremetia com força novamente dentro de si, chocando seus corpos ruidosamente e repetindo processo, dando trancos deliciosos no corpo abaixo do seu para justamente provocar os gritos do amado, os quais sempre o levaram à loucura!

— Ahh... Ahhhh... Ahhh Camyy... Assim... Ahhh... Aii... Mais forte... Que delícia... Ahhh

Camus mordia os ombros de Afrodite enquanto o penetrava, agora com furor, tal qual uma fera em pleno coito, enlouquecido com o cheiro, o corpo, aqueles gritos e gemidos, mas principalmente por ouvir seu nome!

Tomar aquele homem, tão belo, tão atraente, sensual, experiente, e fazê-lo contorcer-se de prazer enquanto pedia por mais, enquanto gritava seu nome, era sublime para Camus. Tanto que não conseguia diminuir a intensidade das estocadas, nem conseguia pedir para que Afrodite abaixasse o tom da voz, temendo serem ouvidos, pois tudo que desejava era ouvi-lo gritar, e ainda mais alto, enquanto dizia seu nome.

— Ahhh Camus!... Ahh...

Afrodite estava em êxtase, e Camus conseguira o que queria.

O corpo todo arrepiado do pisciano, os gritos, os olhos levemente marejados, o sorriso no rosto corado pela luxuria, mas plácido pela paz da reconciliação, lhe provavam que Peixes se entregava pela primeira vez por amor, e a ele.

Já para Afrodite Camus era um homem único.

O único no mundo que fora capaz de lhe fazer desejar acordar acompanhado no dia seguinte.

Um amante completo, tanto entregando-se a si, quanto o tomando com autoridade e vigor.

O homem de sua vida.

E jamais haveria outro.

Quando achou que Aquário já o surpreendera de todas as formas naquela noite, eis que sentiu um tapa forte em suas nádegas que o fez arregalar os olhos e contrair os músculos.

A marca da mão pesada e grande de Camus logo ficou impressa na pele muito clara, mas nem bem teve tempo de esboçar uma reação já sentiu as mãos do francês lhe agarrarem a cintura e o puxarem para cima.

Agora estava de quatro e sentia as unhas do ruivo arranhando suavemente suas costas enquanto a pélvis dele se chocava com furor contra suas nádegas.

Vous êtes délicieux... ma rose! (Você é delicioso, minha rosa.) — sussurrou o francês.

A posição em que estavam agora proporcionava uma visão incrível para Camus, que podia ver seu membro entrando e saindo de dentro do amado, lhe deixando com ainda mais tesão.

Afrodite sabia que era isso que o ruivo queria, queria vê-lo, prová-lo com todos os sentidos, por isso mesmo abriu mais as pernas para permitir que Camus se enterrasse em si com vontade, enquanto levava uma mão até seu próprio pênis e aproveitava a posição nova para tocar a si mesmo.

Puxava o ar pela boca, quase sem fôlego, louco de excitação.

Mechas dos cabelos azuis piscina colados em suas costas, outras espalhadas pelo colchão. A pele suada e marcada pelas pegadas fortes do francês reluzia ao tom rosado da luz ambiente.

Sentia suas nádegas arderem a cada novo choque do quadril do aquariano contra si, pois já fazia um bom tempo que Camus estava se arremetendo dentro dele, diminuindo poucas vezes o ritmo, e aquele misto de dor e prazer intenso o levava à loucura.

Camus então levou uma das mãos a seus cabelos e os puxou com força, fazendo Afrodite erguer o tronco e ficar apenas de joelhos sobre o colchão, na mesma posição em que estava, para em seguida colar seu tórax suado às costas do pisciano e segurá-lo firme pela cintura enquanto o estocava.

Nessa nova posição, Camus podia se deliciar esfregando o rosto nos cabelos úmidos do amante, inebriando-se com seu perfume extraordinário.

Ouvindo agora os arquejos roucos do ruivo ao pé de seu ouvindo, sentindo o hálito quente lhe arrepiar a nuca, Afrodite intensificou a masturbação em si mesmo já sentindo o membro dolorido pedir por alívio imediato, e naquela euforia lúbrica uma descarga intensa de prazer lhe acometeu, intensificando as contrações involuntárias em seu baixo ventre e o levando a um orgasmo arrebatador.

— Ahhhhhhhh CAMUS!... 

Peixes gritou, tremendo quase convulsivamente.

A cabeça jogada para trás e apoiada no ombro forte do francês.

Os olhos fortemente cerrados. A mão trêmula segurando com força o próprio membro que derramava o farto gozo sobre os lençóis.

Camus estava em êxtase.

Apertando o corpo trêmulo de Afrodite contra o seu, temeu desmaiar ou ter um colapso qualquer, tamanha era a intensidade das sensações que o tomava.

Sentia o corpo todo pegar fogo, e o furor sexual que o acometia cresceu ainda mais ao sentir o corpo do amado se contrair daquela forma tão vigorosa, o deixando ainda mais apertado, ainda mais delicioso.

Interrompeu por segundos as estocadas apenas para espalmar uma das mãos nas costas do pisciano e novamente colocá-lo de quatro, então segurando em seus quadris voltou a arremeter-se dentro dele com ainda mais força, mais intensidade, delirante, até que sentiu seu baixo ventre formigar e descargas elétricas percorrerem seu corpo tão violentamente que o fazia contrair os dedos dos pés, culminando numa explosão de prazer nunca antes experimentada.

— Ahhhhhhhh... Aphroditeee... Ahhh... — gemeu alto, agora estocando o pisciano com extrema lentidão enquanto explodia dentro dele, o preenchendo com seu gozo, sentindo o corpo todo fremir, vibrar, até enfim parar de movimentar-se e apenas viver todo o arrebatamento daquela experiência única.

Camus nunca amara alguém com tamanha intensidade. Com tanto desejo e certeza.

A respiração ofegante e o coração acelerado lhe causavam uma leve falta de ar.

Debruçou-se sobre as costas do amado, que exausto sentiu os joelhos fraquejarem e finalmente se deixou cair de bruços sobre os lençóis.

Por cima de dele, Aquário arfava, em delírio, enquanto passeava as mãos pelos braços suados de Peixes fazendo uma leve carícia, até lhe depositar um beijo terno na lateral do rosto quente e corado.

— Eu te amo... Je veux l'aimer pour reste de ma vie, Aphrodite. (Quero amá-lo pelo resto da minha vida.) — sussurrou ofegante. Sua respiração ruidosa e hálito quente soprando no ouvido do sueco.

Afrodite sorria. De olhos fechados e alma expiada.

— Fazer amor é muito melhor que fazer sexo, Camy... — grunhiu com a voz meio rouca.

Aquário lhe sorriu de volta, e sentindo-se completamente letárgico, já que jamais havia desprendido tanta energia em uma transa antes, teve forças apenas para gentilmente sair de dentro do pisciano e rolar para o lado.

— Sim. Sem dúvida nenhuma! — sorriu em estado de graça, pois finalmente poderia dormir sentindo o perfume delicioso de Afrodite após amá-lo de verdade, então puxou o corpo de Peixes para um abraço, o aconchegando em seu peito.

 Agora poderia fechar os olhos e descansar em paz.

Não mais seria dispensado logo após o sexo.

***

Casa de Peixes 10:23am

No belo jardim que enfeitava o décimo segundo Templo, os roseirais naquela manhã ganharam novo viço.

Milhares de novos botões desabrocharam ao mesmo tempo, e um perfume delicioso pairava pelo ar atraindo as borboletas e outros pequenos insetos que os tinham abandonado.

Tudo havia voltado a ser como antes.

No quarto do guardião da última casa zodiacal, uma suave brisa que entrava por uma fresta na janela balançava as cortinas de tecido finíssimo e preenchiam o ambiente com o perfume dos roseirais, tocando de imediato o aguçado olfato o Santo de Peixes que despertara ao senti-lo.

Afrodite remexeu-se languidamente entre os lençóis, e ao esticar os braços para uma espreguiçada tocou no corpo adormecido a seu lado.

Surpreso, arregalou os olhos, olhou para o lado e ao ver a cabeleira ruiva espalhada pela cama instintivamente deu um pulinho em recuo, assustado, já sentindo o coração dar um salto dentro do peito.

— Dadá me abana! De novo? — sussurrou em sobressalto.

Passado aquele segundo de distração, levou ambas as mãos ao peito enquanto corria os olhos pelo corpo forte ressoando baixinho, demorando-se um pouco mais em uma determinada área de sua anatomia.

Então soltou um longo suspiro e sorriu aliviado, já recuperado da breve amnésia causada pelo despertar, recordando-se da noite de amor intensa que tivera com Camus.

Nunca tinha sentido tanto! Amado tanto!

Ficou longos minutos acompanhando o leve subir e descer do peito másculo do cavaleiro de gelo, ouvindo sua respiração tranquila, aspirando seu cheiro único, delicioso.

— Estou amando! — outro suspiro, dessa vez mais longo, mais profundo, mas logo prendeu o ar dentro dos pulmões e assumiu um semblante sério, quase assustado — Que medo!

Sorriu de si mesmo, então se reaproximou do ruivo adormecido e com toda a delicadeza que lhe cabia lhe fez um carinho na testa, afastando a franja para depositar um beijo sobre a pele alva enfeitada com pequenas sardas de cor ferrugem.

Usando seu Cosmo, Afrodite criou ali mesmo uma belíssima rosa vermelha, que surgiu como um passe de mágica entre seus dedos, e ansioso por acordar seu amado deslizava as pétalas aveludas em seu peito, ombros e barriga enquanto o chamava em tom baixinho.

— Camyyy... Hora de acordar, mon amour!

Camus, que estava praticamente desmaiado, já que desprendera muita energia horas antes, com a boca entreaberta apenas emitiu um leve chiado, franzindo o nariz.

— Anda, acorda, princesse du papa! — Peixes sorriu, dando-lhe outro beijo, agora na ponta do nariz.

— Humm... Non... Sai, Natassia, non... laissez-moi. (Me deixa dormir)resmungou o francês, pois sempre que a irmã dormia em sua mansão em Moscou era acordado por ela com um beijo na ponta do nariz.

Ao ouvir aquilo, Afrodite paralisou.

Na mesma hora sentiu todo seu couro cabeludo arrepiar-se. O coração, que antes batia calmo, numa explosão enfureceu-se dentro do peito. A respiração ficou pesada, as sobrancelhas de um cinza azulado franziram-se e os olhos aquamarines cintilaram uma faísca dourada.

— Na-Natassia? — disse em voz alta, mas ele mesmo já se encarregando de responder — Só pode ser aquele exú loiro que estava com ele no salão.

Olhou para o rosto tranquilo de Camus e não teve dúvida.

Deixou a rosa em cima do peito do aquariano para ter ambas as mãos livres, então com uma lhe tapou a boca, pressionando com força para baixo, e com a outra lhe tapou o nariz, apertando as narinas do francês com os dedos, impedindo Camus de respirar.

Não demorou para que o cavaleiro de gelo começasse a se debater à procura de ar, desesperado e assustadíssimo, achando que estava tendo um mau súbito e que estava atravessando os portões do reino morte, então Afrodite lhe liberou as vias respiratórias e se colocou sentado na cama à sua frente, com uma carranca emburrada.

 Camus sentou-se também em sobressalto.

Levou às mãos à garganta e depois ao peito, puxando o ar pela boca aliviado, mas surpreso e irritado por ser acordado daquela forma.

— VOCÊ FICOU LOUCO AFRODITE? QUER ME MATAR? MON DIEU!... Quelle frayeur, pédé! (Que susto, viado) — gritou ao olhar para o pisciano.

— Quem é Natassia? — inquiriu cruzando os braços.

Comment? (Como)

— Tá de truque* comigo, linda? Você escutou muito bem. Quem é Natassia? É aquele despacho loiro que você trouxe ontem? O que ela é? — jogou os cabelos para trás dos ombros num gesto nervoso — Olha, Camus, você está na MINHA cama dizendo o nome de outra pessoa, já? O que esse exú de Natassia é sua? É sua namorada? Sua noiva?

Aquário não conseguiu conter a risada, que veio sonora e descontraída.

— Você está com ciúmes? — o ruivo perguntou sorrindo.

— É c-claro que não... — respondeu fazendo um bico.

— Está sim.

— Não faz a Katya*, me responde! É a varejeira loira né? Você vai se casar com ela? E você vai ser amante da... EU NÃO ACREDITO! — arregalou os olhos, incrédulo — Você vai ser amante da Lagartixa?

Num gesto impensado, Afrodite apanhou a rosa que criara e bateu com ela nos ombros de Camus, espalhando pétalas por todo o lençol.

— Eeeeeei! Se acalma seu peixinho doido! Quem é Katya? — Camus perguntou confuso, encolhendo os ombros — E que Lagartixa? Do que você está falando?

— Eu não aceito que pense em outra pessoa estando na minha cama! E nem que esteja com outra pessoa, muito menos com aquele ebó mal despachado de ventosas.

— Afrodite, não me enlouqueça! — Camus elevou o tom de voz e gentilmente segurou nos ombros do pisciano, contendo aquele ataque súbito de ciúmes, mas de fato sem entender nada do que ele dizia, apenas tendo como certo que o motivo do ciúmes era ele ter dito o nome da irmã — Natassia, Afrodite, é minha irmã!

Peixes se calou, novamente surpreso, afinal Camus nunca havia mencionado que tinha uma irmã.

— Irmã?

— Sim. Minha irmã. Eu a trouxe ontem comigo para me auxiliar nas negociações com os italianos.

— Por Dadá, os italianos! — Peixes disse assustado, já se lembrando de que teria muito que se explicar a Saga por não ter apresentado o número de música proposto.

Oui. Não reparou que todos estávamos acompanhados? Mas... Eu confesso que a trouxe comigo porque tive medo de encarar você sozinho. Eu estava inseguro, não sabia como seria ver você de novo após tanto tempo longe, e Natassia me dá forças... Ela é minha única família, tudo que me restou, e a pessoa que mais amo nessa vida... Aliás... — puxou um ainda emburrado pisciano para um abraço carinhoso e apaixonado — Corrigindo: Natassia, e agora você, Afrodite. São as pessoas que mais amo na minha vida.

Peixes aos poucos deixou a marra de lado e abraçou o aquariano com o mesmo afeto. Tinha que admitir, não poderia descrever o alívio que estava sentido agora por saber que a loira lindíssima que acompanhava Camus era tão somente sua irmã. O que justificava totalmente os abraços e carinhos entre os dois.

Riu de si mesmo, sentindo-se bobo.

— Nossa... Caguei no maiô* bonito agora, né? — disse durante o abraço.

Camus arqueou uma sobrancelha não entendendo o que o amado quisera dizer, já que ambos ainda estavam nus e nem maiô ele usava. 

Pardon? — o questionou, um tanto quanto encabulado.

— Nada não. Me desculpa. — afastando-se minimamente, Afrodite segurou no rosto do francês e encarou seus olhos — Fico feliz que tenha uma irmã que te apoia, e que não vai se casar... Mas, fique longe da Lagartixa Cascuda. Ela é perigosa.

— Deve estar falando do Misty. Lagarto é meu amigo, só isso. — respirou fundo, esperando que Afrodite jamais descobrisse o incidente que o levou a passar a noite com Misty, como acreditava.

— Não! Ele não é amigo de ninguém. Ele é uma víbora. Mas, não quero falar dele hoje. Não hoje, que finalmente Dadá ouviu minhas preces e me deu você de volta. — beijou os lábios do aquariano com paixão — Você também é a pessoa mais importante da minha vida, Camus. Eu amo você. Como nunca achei que amaria alguém.  

Deitaram-se novamente aconchegados um ao outro, curtindo aquele momento único de dividir a cama com quem se ama logo pela manhã, e enquanto Afrodite tagarelava, Camus fechava os olhos e o ouvia sorridente.

— Essa sua irmã, a Natassia, mora na Rússia com você? Como é lá? Sua casa é grande? Você tem iate, Camy? Iate é legal... Quando a gente era criança eu te achava feio, sabia? Feio não, horrível!... Shaka era o mais bonito de nós todos, só que era tão chato que acabava ficando feio... Mas, ai você cresceu e nossa! Por Dadá, como você ficou bonito! Nem acreditei quando você entrou no meu quarto, e agora também não tô acreditando! Parece truque... Como vai ser agora, Camus? Digo, tem o lance da máfia né? A gente vai ter que continuar se escondendo?

Camus suspirou, eram muitas questões de uma única vez.

Mon amour, Natassia non mora comigo, ela é bailarina, e quando não está em turnê com a companhia de balé ela fica no apartamento dela, em Moscou também. Non, eu non tenho iate... — riu da pergunta do outro —... Imagino que um iate na Rússia seria um luxo inútil... Quanto a nós... — um tanto entristecido, o ruivo se ajeitou de forma a poder olhar nos olhos do pisciano — Eu non sei o que será de nós.

Afrodite baixou o olhar, sem se surpreender por ouvir aquilo.

— Compreende que nosso amor é proibido e nosso relacionamento impossível?

O Santo de Peixes balançou a cabeça em uma afirmativa melancólica.

— Mas, mesmo assim eu o quero, Afrodite. Eu escolhi você ontem. — segurando no queixo do pisciano o fez olhar para si novamente — Eu non sei o que será de nós, o que o futuro nos guarda. Mas... ninguém sabe!... Só posso lhe dizer que por enquanto sim, teremos que nos manter ocultos, porque se formos descobertos serei acusado de traição por Dimitri, meu Vor, já que ser homossexual é uma falha imperdoável dentro da Vory v Zakone. Ainda mais alguém com um cargo tão alto quanto o meu... Se descobrirem meu segredo, Afrodite, a máfia vai te culpar, vão colocar em você a culpa de eu ser gay, e também no Santuário, e irão lavar sua honra com sangue... Há muita coisa e muita gente envolvida nisso que pode se machucar de verdade se non tomarmos cuidado... Por isso, ma fleur, non me faça essas perguntas... Ainda non. Non agora... Porque eu non tenho as respostas. Vamos viver o hoje, o agora... Deixe o amanhã... para depois.

Aquela não era exatamente a resposta que Afrodite esperava ouvir, mas entendia que se não era fácil para ele ouvi-las era menos ainda para Camus dizê-las.

Sendo assim, rodeados por incertezas, os dois se aninharam um ao outro, calados, mas em comum acordo escolhendo amar mesmo diante das tantas adversidades que aquele amor proibido lhes impunha.

 

*traduzido do russo

**traduzido do italiano

 

Dicionário Afroditesco

Baygon – bebida alcóolica forte, com grande teor de álcool

Cagar no maiô – fazer uma besteira muito grande, enfiar o pé na jaca

Coió - surra

Dar linha – ser convidado a sair, retirar-se

Desaquendar – palavra multiuso, que traz em si o sentido de sair fora, deixar um lugar, tirar algo de determinado lugar.

Fazer a Katya – fingir-se de cega, de desentendida

Gongar – derrubar, torcer contra, ridicularizar

Matin – pobre, miado, chinfrim, sem graça, pequeno

Miado – chinfrim, sem graça       

Otim – qualquer bebida alcoólica

Truque – mentira, enganação 


Notas Finais


** Vor é o nome que se dá ao altos lideres da máfia russa. Camus é o 2° Vor em comando. Apenas Dimitri está acima dele. Nós iremos abordar muito o tema da Homofobia, principalmente na Rússia.

E ai gostaram? Puta merda nós estavamos tão na seca de postar esse cap. Reescrevemos ele com o maior carinho pra vcs *-*

beijoooo


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