História Temporada de acidentes - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Sou Luna
Personagens Amanda, Ámbar Benson, Ana, Cato, Delfina, Gaston, Jazmin, Jim, Luna Valente, Matteo, Miguel, Monica, Nico, Nina, Pedro, Ramiro, Rey, Ricardo, Sharon, Simón, Tamara, Tino, Yam
Visualizações 8
Palavras 2.548
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Romance e Novela
Avisos: Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi amores. Tudo bem com vocês? Boa leitura

Capítulo 1 - 01


Âmbar está em todas as minhas fotos. Sei disso porque olhei todas as fotos tiradas com a

minha família nos últimos dezessete anos, e ela sempre aparece.

Só percebi isso ontem à noite, enquanto apagava quase seis meses de fotos do meu

celular. ÂMBAR no vestiário, durante o almoço. E nas excursões da escola, quase fora de

enquadramento. E em todas as apresentações de teatro. Pensei: Nossa, que coincidência!

Âmbar aparece em todas as minhas fotos. Então segui um palpite e vasculhei todas as que

tinha no computador. E as que colei nos diários. E os álbuns de família. Ela está em todas.

Nas festas de aniversário, AmbarAmbar dá as costas para a câmera. Ela participa das viagens

de férias em família e dos passeios na praia. Deixa vestígios até nas janelas e nos espelhos

ao fundo das fotos tiradas em casa: um cotovelo aqui, um tornozelo ali, uma mecha de

cabelo.

Será que existem mesmo coincidências? Coincidências assim tão grandes?

Âmbar não é minha amiga. Na verdade, não é amiga de ninguém. É só aquela garota que

fala muito baixo e está sempre por perto, que meio que era minha amiga quando eu tinha

oito anos e meu pai havia acabado de morrer, mas que foi deixada de lado junto com as

bonecas de pano, os jogos de chá e outras relíquias da infância.

Salvei no celular um bom número de fotos — setenta e duas, para ser exata — tiradas

nos últimos anos para mostrar a Jaz antes da aula. Quero perguntar se ela acha que tem

algo muito estranho acontecendo ou se o mundo é realmente pequeno a ponto de a mesma

pessoa aparecer em todas as fotos de alguém.

Ainda não mostrei as fotos a Nico. Não sei por quê.

Nas mais antigas, minha casa parece a de um desenho animado: não há carros na

entrada da garagem, as cortinas coloridas nas janelas têm o formato de ampulhetas e uma

nuvem esbranquiçada de fumaça sobe pela chaminé como algodão-doce. E lá estou eu,

com sete anos, brincando de pique-bandeira com Âmbar na rua em frente à nossa casa. E,

no canto da foto, uma perna, a bainha da saia xadrez e a ponta do sapato marrom sóbrio

que Âmbar sempre usa.

Essas fotos foram tiradas há dez anos; hoje de manhã não há nuvens de algodão-doce

subindo pela chaminé, e as cortinas em formato de ampulheta na janela da sala

emolduram a imagem de minha mãe se equilibrando em uma das pernas enquanto tenta

calçar a bota. Lá fora, Delfina bate o pé com impaciência. Ela vai até a janela e dá

batidinhas no vidro, apressando nossa mãe. Do corredor, ouço Nico dar uma risada,

invisível nas sombras, já que o sol da manhã só ilumina até a porta da frente. Enfio as

mãos ainda mais fundo nos bolsos e olho para cima. Vejo alguns filetes de nuvens

passando pelo céu enquanto me apoio no carro.

Delfina é minha irmã. Ela é um ano mais velha e um milhão de anos mais esperta, ou

pelo menos é nisso que gosta de acreditar (e talvez esteja certa; como vou saber, se me

acho uma tapada?). Nico é meu ex-irmão postiço, o que é meio bizarro de se dizer, mas,

como nossos pais se separaram, tecnicamente ele não é mais meu irmão. O pai dele era casado com minha mãe, até que desapareceu, quatro anos atrás. Fugiu com uma

bioantropóloga e agora se dedica a estudar os gibões nas florestas tropicais de Bornéu. Faz

sete anos que Nico mora conosco, então, para todos os efeitos, suponho que ele seja meu

irmão, mas, acima de tudo, ele é apenas Nico, um garoto alto nas sombras do corredor, o

cabelo loiro em topete.

Sabendo que vai levar um tempinho até todo mundo entrar no carro, tiro as mãos do

bolso e pego o celular de novo. Passo as fotos pela terceira vez só esta manhã e volto a

brincar de “Onde está Âmbar?”, como nos livros Onde está Wally?.

Não tinha percebido que Âmbar parece sempre preocupada. Em todas as fotos está com

a testa franzida e fazendo bico. Até seu cabelo demonstra preocupação, quando ela está de

costas. É incrível. Como deve ser meu cabelo quando estou de costas? Não vejo minha

nuca com muita frequência; ao contrário de AmbarÂmbar, faço pose e sorrio quando vou tirar uma

foto.

Quando Delfina está de costas (por exemplo, agora, enquanto bate na janela da sala pela

vigésima vez para apressar nossa mãe, que esqueceu alguma coisa — o celular, a bolsa, a

cabeça — e subiu para buscar), o cabelo dela parece sério. Ela pinta de um preto dois tons

mais escuros que o natural, e a raiz está sempre retocada, os fios perfeitamente esticados e

presos em um coque firme com auxílio de grampos e um par de palitinhos. O cabelo de

Delfina é intimidador.

O cabelo da minha mãe é castanho com mechas rochas. As mechas onduladas caem pelos ombros enquanto ela

dirige e balançam quando ela mexe a cabeça. Alguns fios grudam no brilho labial, e ela os

assopra enquanto fala. Hoje, ela pintou as unhas da mesma cor. Em outra época do ano,

durante o trajeto para a escola, ela estaria com o braço apoiado no banco do carona para

falar com Delfina, ou ajeitando o cabelo, ou lambendo a ponta do dedo para tirar o excesso

de sombra dos olhos, ou bebendo café de um copo térmico com a mesma vontade que um

fumante traga um cigarro. Mas estamos quase no fim de outubro, e Delfina caiu da escada

ontem à noite, então minha mãe segura o volante com tanta força que os nós dos dedos

ficam esbranquiçados, contrastando com o roxo das unhas, e não tira os olhos da rua. Ela

preferiria não fazer o trajeto de carro, mas tem certeza de que caminhar seria mais

arriscado.

— Como está a cabeça, querida? — pergunta a Delfina.

É a trigésima segunda vez que ela pergunta isso só hoje (e a octogésima nona desde

que voltamos do hospital, ontem). Nico faz outro risco na mão com a caneta vermelha.

Toda vez que minha mãe faz essa pergunta, Delfina responde comprimindo os lábios.

Nico se inclina para a frente e sussurra em meu ouvido:

— Aposto dez euros que Delfina vai gritar antes da centésima vez.

Firmamos a aposta com um aperto de mão. A mão de Nico é firme e quente. Torço

para Delfina não dar um escândalo antes de chegarmos à escola.

— Vocês estão de luvas, não estão? — pergunta minha mãe. — E, Nico, vou escrever

um bilhete pedindo para você ser dispensado da aula de química. Estão bem agasalhados?

Tomaram as vitaminas?

— Claro, Mônica — responde Nico.

Ele sorri para mim. Delfina não vai aguentar ficar de boca calada depois dessa

enxurrada de perguntas. Minha mãe arrisca mais uma espiadinha na direção dela antes de

voltar a olhar depressa para a pista. Com cuidado, Delfina enrola uma echarpe de seda na

cabeça para esconder o curativo. Ela passou delineador nos olhos para fazer com que o

hematoma na bochecha chame menos atenção. Parece uma cigana dos livros de histórias

infantis, só que de uniforme escolar.

Chegamos ao último cruzamento. O cabelo da minha mãe balança descontroladamente

enquanto ela tenta olhar para os dois lados ao mesmo tempo antes de seguir pelo tráfego

ameno. Avançamos bem devagar, a passo de tartaruga. Os carros atrás do nosso buzinam.

Depois de estacionar, minha mãe alonga as mãos. Ela tira os óculos escuros e entrega

um lanche embalado para cada um de nós.

— Vocês vão tomar cuidado, não vão? — pergunta, apertando de leve o ombro de

Delfina. — Como está a cabeça, querida?

Delfina comprime mais os lábios, então solta um grito sem olhar para nossa mãe e sai

correndo em direção ao prédio da escola. Afundo no banco.

— Passa a grana, maninha — zomba Nico.

Ao sairmos do carro, entrego a ele, de má vontade, uma nota de dez euros. Nós nos

despedimos da minha mãe, que, devagar, dá a partida no carro e vai embora.

— Não sou sua irmã — retruco.

Nico passa o braço ao redor dos meus ombros.

— Se você diz, petite sœur…

Suspiro e balanço a cabeça.

— Eu sei que isso significa “irmã”, Nico. A gente está na mesma turma de francês.

Quando ele segue em direção a seu armário para pegar os livros da primeira aula, vou

procurar minha melhor amiga.

Encontro Jazmin sentada nos fundos da biblioteca, com as cartas de tarô espalhadas na

mesa. Ela tem o hábito de tirar as cartas todas as manhãs para saber como será o dia. Jazmin

não gosta de ser pega desprevenida, então não vai se surpreender em saber que há um

grupinho de alunos do primeiro ano sentado a algumas mesas de distância rindo e

cochichando em sua direção, por isso nem falo nada. Seja como for, acho que Jazmin é

capaz de acabar com qualquer um deles só com o olhar.

Tiro um dos dois pares de luva das minhas mãos desconfortavelmente quentes (não

está frio o suficiente para usar gorros e luvas, mas minha mãe não deixa a gente sair de

casa sem eles), puxo a cadeira atrás de mim e a viro para me sentar de frente para Jazmin,

do lado oposto da mesa. Apoio o queixo no encosto.

— Âmbar está em todas as minhas fotos — comento.

Jazmin e eu olhamos automaticamente para a janela do outro lado da biblioteca. Em

geral, a esta hora, Âmbar já abriu a caixa de segredos. Os alunos mais novos são sempre os

primeiros a se aproximarem da caixa, antes de o sinal tocar para formarmos a fila no

pátio, de o inspetor abrir os vestiários e de a bibliotecária sair do escritório e mandar todo mundo ir para as salas. Eles aparecem, um de cada vez, escrevem seus segredos na

máquina de escrever antiga de Âmbar e saem da biblioteca cabisbaixos, fingindo que estão

concentrados no que têm na mochila. A caixa de AmbarÂmbar fica cada vez mais cheia de coisas

que não podem ser ditas. Mas ela não está aqui hoje. Talvez esteja atrasada.

Jazmin olha para mim.

— Como assim?

Mostro as fotos para ela. Mostro o cabelo castanho-claro sem graça, os sapatos sóbrios

e a testa franzida de Âmbar.

Jaz passa um bom tempo analisando cada foto, até que, por fim, ergue a cabeça.

— Cara, isso é…

Ela balança a cabeça.

— Um pouco mais estranho do que o normal?

Apoio a ponta dos dedos na testa e fecho os olhos. Jaz acredita em tarô e acende velas

para os fantasmas. Ela sempre fala da magia que nos rodeia e acha graça quando nossos

colegas de turma a chamam de bruxa. Mas isso é diferente.

Jaz olha as fotos de novo, passando uma por uma, pressionando a tela para dar zoom.

— Você também acha bem estranho? — pergunto, com a mão na boca. — Ou acha

que estou ficando louca? Por favor, não venha me dizer que são as duas coisas.

Jaz não responde, apenas embaralha as cartas de tarô e as abre devagar na mesa. Ela

observa as cartas, olha para mim, então se volta de novo para as cartas. Quando levanta a

cabeça uma última vez para me encarar, percebo uma expressão que não vejo há muito

tempo.

Ela nota o gorro de lã, o par de luvas que ainda não tirei, a legging grossa que uso junto

com uma meia-calça por baixo da saia do uniforme, a tala no meu dedo, a munhequeira e

o aroma suave de equinácea e ansiedade que me perseguem feito uma esquisita nuvem

escura.

Bea suspira e assente; ela compreende.

É a temporada de acidentes: acontece todos os anos na mesma época. Um período em

que ossos quebrados, cortes e hematomas são frequentes. Há alguns anos, minha mãe nos

trancafiou em casa, cobriu as quinas dos móveis com espuma e gaze, nos enrolou em

várias camadas de blusas e luvas e sumiu com os objetos cortantes e com o fogão.

Passamos oito dias acampados na sala, até que a comida cuidadosamente encomendada

pelo telefone — deixada na soleira da porta e levada para dentro com todo o cuidado pela

minha mãe, que não tinha pensando em como esquentaria tudo sem fogão — nos causou

intoxicação alimentar e passamos as vinte e quatro horas seguintes no hospital. Agora, todo

outono estocamos ataduras e analgésicos. Resumindo: apertamos os cintos, pois sabemos

que o pior está por vir. Nunca saímos de casa sem pelo menos três camadas de roupa.

Temos medo da temporada de acidentes. Temos medo da facilidade com que os acidentes

se transformam em tragédias. Já passamos por muitas.

— Delfina caiu da escada ontem à noite — comento. — Lá do alto. Na queda, bateu a

cabeça no corrimão. Ela contou que o som foi como um tiro de filme, só que mais abafado.

— Meu Deus.

— Não tinha ninguém em casa. No hospital, disseram que ela sofreu uma concussão,

então a gente precisava mantê-la acordada e caminhar com ela o máximo possível.

Bea arregala os olhos.

— Ela está bem?

— Está. Minha mãe não queria que a gente viesse para a escola hoje, mas Delfina

insistiu.

Tiro o gorro, balanço a cabeça e tento arrumar o cabelo. 

— Por que você não me ligou? — pergunta ela, e, em seguida, como se fosse

responder à própria pergunta, volta a olhar para as cartas. Jazmin pigarreia, hesitante, mas,

por fim, fala: — Acho… que essa temporada não vai terminar nada bem, Luna.

Ela tenta me olhar nos olhos, mas estou vidrada nas cartas em cima da mesa.

— Vai ser muito ruim? — pergunto, depois de um tempo.

Com delicadeza, Jaz toca minha mão enluvada e responde de modo suave:

— Vai ser uma das piores.

Ela vira uma das cartas para mim, e vejo a imagem de uma pessoa deitada numa

cama e sendo ferida com espadas. Um calafrio percorre meu corpo. Bato o joelho em

uma das pernas da mesa e sinto uma dor aguda. Quando olho para baixo, vejo que a

legging e a meia-calça foram rasgadas por um prego enorme preso à madeira e com a

ponta exposta. O corte começa a sangrar. Sinto meus olhos se encherem de lágrimas.

Jazmin se levanta e me abraça. Ela cheira a cigarro e incenso.

— Vai ficar tudo bem — sussurra. — Vou fazer de tudo para que nada aconteça com

você. Prometo. Dá para mudar isso. E não acho que você esteja ficando louca. Vamos

conversar com Âmbar. Parece que ela não veio hoje, mas podemos procurá-la amanhã. Vai

ficar tudo bem.

Engulo o pânico que começa a subir pela minha garganta e pego na mochila um pacote

de lencinhos com estampa de pirata. Limpo o sangue da calça, tentando mexer o pulso o

mínimo possível. Decido não relembrar Jaz de que já está acontecendo, mesmo que eu

só tenha me cortado com um prego e torcido o pulso ao sair do carro ontem à noite. É

sempre assim: os acidentes acontecem e continuam acontecendo, piorando a cada dia.

Olho de novo para o outro lado da biblioteca, onde geralmente fica a caixa de segredos de

Âmbar. Amesa vazia parece um sorriso banguela.


Notas Finais


Gostaram? Se gostaram favoritem,comentem e deixem sua nota. Bjs😘fiquem com Deus😇e até logo. Bayyyyy


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