História Terceira Chance - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias A Feia Mais Bela
Personagens Fernando Mendiola, Letícia "Lety" Padilha Solís
Tags A Feia Mais Bela, Fernando Y Lety, La Fea Mas Bella, Lfmb
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Palavras 5.929
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - I'm Sorry


               Se alguém me perguntasse minha qualidade favorita de Lety, eu demoraria um tempo para responder entre tantas que ela tinha, mas com certeza escolheria sua força. Lety era a mulher mais forte que eu já tinha conhecido, e eu era prova disso. Nas semanas que se passaram, eu me surpreendi com seu ânimo. A visita ao aquário foi apenas um começo de uma “vida renovada” que ela estava disposta a seguir. Ao invés de Lety se deprimir com a notícia de Doutor Walter, ela se reergueu. Estava indo ao aquário com frequência para visitar seus amigos, e das vezes que ia à minha casa, ela insistia para fazer as refeições, apesar de dizer que eu cozinhava melhor do que ela.

               A verdade é que embora eu soubesse que ela era uma mulher forte, ela estava me surpreendendo cada dia mais. Eu estava animado ao vê-la daquela maneira, e depois de um mês, minha preocupação de querer ajudá-la o mais rápido possível já não era tão grande. Visitávamos Doutor Walter algumas vezes, e em todas as vezes ele se surpreendia com a saúde de Lety. É claro que não estava tão boa quanto quando o tratamento funcionava, mas ele disse que era melhor do que esperava. Em uma das visitas, ficamos a sós em seu consultório e ele me confessou que pensava que Lety se entregaria ao desanimo, e que isso poderia agravar sua saúde. Também disse que estava feliz por vê-la tão bem, principalmente porque quando ele pensou em parar com o tratamento, imaginou que ela começaria a se sentir mal depois de um tempo. Isso por sorte não aconteceu.

               Eu estava orgulhoso e tão feliz quanto ela, e era impossível disfarçar isso no meu dia a dia.

- Pode pegar esse pano para mim? – Zac pediu quando subiu a escada para limpar a prateleira.

- E sabe o que mais? Ela está radiante. – Falei lhe entregando o pano.

- Isso é bom, não é? Você estava com medo de que as coisas ficassem ruins.

- É, eu realmente estava. E estou começando a me sentir estupido por isso.

- E por que? Você não disse que o médico mesmo falou que a saúde dela começaria a se fragilizar com o tempo? Era notável sua preocupação.

- Mas se eu soubesse que ela ficaria tão bem, eu não teria me preocupado tanto.

- Não tinha como você saber isso. Aliás, Lety é um caso a parte. Eu no lugar dela estaria trancado no meu apartamento.

               Escorei ao balcão, rindo.

- É, ela é uma mulher extraordinária.

- Olha, eu sei que já perguntei isso antes, mas... – Zac desceu da escada e me olhou. – Você não acha que à essa altura vocês já deveriam estar planejando o casamento?

- Se dependesse de mim, Lety já estaria morando comigo desde a primeira semana de namoro.

- Mas estou falando de casamento. Um pedido romântico, e tudo mais.

- Eu quero, mas ela diz que precisamos de um pouco mais de tempo. Ainda não conheci seus pais, ela insiste em querer conhecer os meus avós, mesmo depois de ter dito diversas vezes que não somos tão próximos...

- Entendi, ela é tradicional.

- Eu não quero forçar as coisas. Quero que tudo seja perfeito para que ela não se esqueça nunca disso. Eu sei o quanto ela tem o sonho de se casar na praia, ter uma lua de mel em uma cidade diferente... E quero ter um tempo para planejar tudo isso.

- Eu não quero ser chato... – Zac escorou-se ao balcão. – Mas você quer arriscar a ter tempo para pensar nisso? Eu sei que ela está muito bem, e fico muito feliz com isso. De verdade. Mas... E se o caso dela piorar?

               Meu sorriso desapareceu.

- É, já pensei nisso também. Mas não quero ser indelicado dizendo “Lety, você quer se casar comigo? Porque gostaria de fazer isso antes que sua saúde ficasse debilitada”. Eu não poderia fazer isso com ela. Ela não merece isso.

               A porta da loja se abriu e eu vi Lety passar por ela, parecendo animada.

- Oi rapazes! – Ela sorriu, seguindo até o balcão.

- Oi Lety. – Zac sorriu.

- Espero não estar interrompendo nada. – Ela se inclinou sobre o balcão para me beijar.

- Não. Na verdade... Eu estava indo arrumar o depósito e...

- Eu só vim fazer um convite. Para vocês dois.

- Convite? – Perguntei surpreso.

- Sim! Vou fazer um jantar na minha casa hoje, e você está convidado, Zac.

- Uau, obrigado Lety.

- Você não precisa de um convite, não é? – Ela sorriu para mim.

- Bom... Com uma surpresa dessas, acho que eu vou querer um convite formal.

               Ela riu, me puxando para mais um beijo.

- Eu... Vou fazer o meu trabalho. – Zac pigarreou. – Bom te ver, Lety.

- Igualmente, Zac.

               Assim que ficamos a sós, saí de trás do balcão e a olhei.

- O que foi? – Ela perguntou divertida.

- Você está diferente... – Sorri.

- Diferente como? Bom ou ruim?

- Bom, muito bom. Está animada.

- E eu realmente estou. Tanto que também tenho outro convite para você, mas esse é único.

- Ah é? Qual? – Segurei sua cintura.

- Vamos dar uma volta na praia, quando você fechar a loja.

- Adorei esse convite.

- Que bom!

- E mais... Adorei você ter vindo aqui, e adorei ver que você está tão animada. Você parece muito bem.

- Eu me sinto muito bem. – Ela sorriu, entrelaçando seu braço em meu pescoço.

- Você não imagina a felicidade que me dá saber disso, Lety.

               Ela continuou a sorrir, e eu me senti extremamente bem com aquilo. Lety estava mais do que radiante, estava esbanjando felicidade. E eu estava muito satisfeito com aquilo.

- Bom... Não quero te atrapalhar. Só vim fazer esses dois convites. Acha que Zac vai mesmo?

- Se quiser que eu convença ele.

- Eu quero sim. Seria muito bom ter ele lá.

- Então eu irei convencê-lo.

- Obrigada. – Ela me beijou carinhosamente. – Preciso ir, comprar as coisas para o jantar.

- Quer ajuda em alguma coisa?

- Não, só esteja pronto para o passeio na praia. Quero pegar o por do sol.

- Estarei pronto às cinco e meia. – Sorri.

- Ótimo! Eu te amo.

- Também te amo.

               Depois de mais um beijo, Lety se afastou e saiu da loja. Suspirei satisfeito e continuei parado, com um sorriso bobo em meu rosto.

 

 

 

                                                           •••

 

 

               Como prometido, estava pronto às cinco e meia e esperei Lety no mesmo lugar de sempre. Costumávamos caminhar pela praia com frequência, mas já fazia algum tempo que não fazíamos isso. Estava empolgado pelo convite de Lety, e fiquei ainda mais empolgado quando a vi caminhar em minha direção, com um vestido branco segurando suas sandálias.

- Estou atrasada? – Ela perguntou quando se aproximou.

- Não, mas mesmo que estivesse, teria valido a pena. Você está linda.

- Obrigada, meu amor. Você também!

- Obrigado. Peguei minha melhor camisa. Acho que só tem uns três anos que tenho ela.

               Ela gargalhou, batendo em meu ombro.

- Bobo.

- Podemos ir?

- Claro.

               Entrelaçamos nossas mãos e seguimos para a beira do mar, caminhando. Ficamos um tempo em silencio, e eu não quis estragar aquele momento. Sabia o quanto Lety gostava de ver o por do sol e ouvir o barulho do mar, e pelo visto ela estava pensativa enquanto caminhávamos. Deixei que ela tivesse o seu momento, e me mantive em silencio.

- Você não acha isso incrível? – Ela quebrou o silencio depois de um tempo. – O por do sol. Todas as vezes que olho para o sol se escondendo sob o mar, me vem na cabeça tudo o que eu fiz no meu dia. É como se ele dissesse “pense bem, se você aproveitou bem o seu dia, ou se foi um dia desperdiçado”.

- É uma análise muito inteligente, meu amor. – Sorri.

- Mas você também não sente isso? Digo... Quando você tem um dia ruim, você se sente mal. E olhar para o pôr do sol te faz pensar “amanhã ele nascerá de novo, e meu dia poderá ser diferente”.

- Eu gostei dessa percepção.

- Eu sempre penso assim. Principalmente ultimamente.

- E quando você olha para o por do sol, você se sente satisfeita com o seu dia, ou decepcionada?

               Ela sorriu e parou de andar, me olhando.

- Me sinto totalmente satisfeita.

- Que bom. – Sorri. – Eu também.

               Voltamos a caminhar, mas dessa vez não deixei o silencio se perdurar.

- Então... O que te levou a ter a ideia do jantar?

- Bom... Nessas minhas visitas ao aquário, percebi que me sinto totalmente à vontade com meus amigos. Carol é uma pessoa tão boa, e está se sempre se esforçando para me ver bem, e é tão preocupada quanto você. – Ela riu. – Rosa também é um amor de pessoa, apesar de ser um pouco sentimental as vezes.

               Sorri divertido.

- E Ramón é engraçado. Ele está sempre me fazendo rir, e eu me sinto bem no mesmo ambiente que eles. Pensei que a saudade de trabalhar no aquário me deixaria mal, mas não me incomoda tanto a ponto de me impedir de me sentir bem com eles. Pelo contrário. Embora eu não esteja trabalhando como gostaria, me sinto bem em vê-los cuidando dos peixes, como eu costumava fazer.

- Fico muito feliz com isso, Lety.

- Eu também. Por isso o jantar. É uma forma de agradecer à todos vocês pela ajuda. Quero dizer... Já se passou um mês desde que parei o tratamento, e eu me sinto ótima! Acho que se não fosse por vocês, eu não estaria tão bem assim.

- Eu disse que as pessoas que você tem em sua volta só querem o seu bem.

- E eu sou muito grata à isso. – Novamente Lety parou, virando-se para mim. – E principalmente grata à você.

- Você não precisa...

- Ah-ah! – Ela riu. – Não comece, por favor.

- Tudo bem. – Respondi meio à um riso.

- E outra coisa... – Voltamos a caminhar. – Pensei que talvez possamos começar a fazer algumas coisas da sua lista.

               Dessa vez eu parei de andar, olhando-a surpreso.

- O que foi? – Ela riu.

- Quer mesmo fazer a lista?

- Sim. Bom... Algumas coisas. Nem tudo podemos fazer agora. – Disse rindo. – Mas algumas coisas sim. Como... Viajar. Quem sabe começamos por uma cidade próxima?

- Você tem certeza?

- É claro! Não seria ótimo passarmos um fim de semana... Só nós dois... – Ela se aproximou, tocando na gola da minha camisa. – Sem nos preocuparmos com nada?

- Sim. Seria ótimo. – Sorri.

- Então... O que me diz? Podemos planejar uma?

- Bom... Se você insiste tanto. – Disse divertido e ela riu. – É claro que sim!

- Ótimo! – Lety se inclinou para me dar um rápido beijo. – Vamos pensando nisso ao longo da semana. Agora... Me diz o que vai usar para o jantar hoje a noite.

- Eu preciso usar alguma coisa?

               Ela me olhou incrédula.

- Brincadeira. – Sorri, abraçando-a.

- Seu bobo. – Ela riu, e o som da sua risada aquecia meu coração.

 

 

 

                                                                          •••

 

 

               Por mais que ela tivesse dito diversas vezes que o jantar seria simples e que eu não precisava me produzir tanto, comprei uma camisa nova apenas para a ocasião e fiz questão de me produzir bem. Era uma noite especial, por mais que ela não quisesse admitir isso. De certa forma estaríamos comemorando o fato de ter se passado um mês desde que Lety interrompeu os tratamentos, e sua saúde estava melhor do que imaginávamos. Ela estava empolgada, eu estava empolgado, e todas as pessoas que eram especiais para Lety também estavam empolgados. Querendo ou não, era uma noite especial, e eu queria garantir isso.

               Combinei de buscar Zac em sua casa para irmos juntos, e para a minha felicidade, ele era pontual. Cheguei em sua casa e ele já estava me esperando na porta, por isso não demoramos muito a chegarmos à casa de Lety. A luz da sala estava acesa, assim como a da cozinha nos fundos. Assim que descemos do carro, pudemos ouvir o som de uma música abafada vinda de dentro de casa. Logo sorri, imaginando que ela estava mesmo animada com o jantar. Lety gostava de música, mas muitas vezes preferia o silencio. Apenas quando ela estava extremamente animada ela ligava uma música alta e cantarolava uma letra inventada por ela mesma juntamente com a canção.

               Paramos em sua porta e toquei a campainha, olhando para Zac. Ele estava arrumando a gola de sua camisa exageradamente, o que o deixava engraçado. Abafei um riso mas logo ele percebeu, fazendo uma careta.

- Não comece.

- Mas eu não disse nada. – Me defendi.

- Só estou ajeitando a camisa.

- É, pela décima vez.

- Não é nada de mais.

- Não, é claro que não. Você só está nervoso porque vai encontrar com a Carolina. – Falei divertido, olhando para a porta.

- Não é por isso! – Ele me olhou irritado.

               Antes que eu pudesse continuar com minhas provocações, a porta se abriu e Lety nos olhou sorridente. Usava um vestido cor de vinho e os cabelos soltos, com um toque final de batom escuro nos lábios. Obviamente eu já tinha visto Lety tão produzida assim, para algum evento importante ou para comemorarmos nossos aniversários de namoro, mas definitivamente ela estava encantadora naquela noite. Não apenas por seu vestido claramente novo e por sua maquiagem diferenciada, mas pelo sorriso que estava estampado em seu rosto quando nos viu.

- Oi! – Ela disse animada.

- Oi! – Zac sorriu. – Você está ótima!

- Obrigada!

               Zac a cumprimentou com um beijo no rosto e ela me olhou logo depois.

- Não vão entrar?

               Senti um tapa de Zac em meu peito e balancei a cabeça, saindo do transe.

- E eu só estava arrumando a gola da minha camisa. – Ele riu.

               Ignorei sua provocação e dei um passo à frente. Lety deu espaço para que entrássemos e logo depois fechou a porta.

- Você está linda. – Falei próximo à ela.

- Obrigada, você também. Eu deveria imaginar que você não me daria ouvidos. – Disse rindo, tocando em minha camisa. – Mas gostei.

- Ainda bem que não te dei ouvidos, eu teria passado vergonha se tivesse vindo com uma roupa simples, e você assim tão... Linda.

- Não seja bobo. – Ela riu. – Então, os outros devem chegar daqui a pouco! Eu ainda estou terminando os últimos toques no jantar, mas podem ficar à vontade.

- Quer ajuda em alguma coisa? – Perguntei.

- Não, tudo bem. – Ela sorriu. – Tem um vinho aberto em cima da mesa, pode servir para vocês dois.

- Tudo bem.

- Eu já volto.

               Lety caminhou até a cozinha, e eu provavelmente continuei a olhando com cara de bobo, porque Zac deu uma pequena risada que chamou minha atenção.

- Você nem ao menos tenta disfarçar, não é? – Perguntou rindo.

- Não, não preciso. – Respondi também rindo. – Ela é o amor da minha vida.

- É, é. Eu já sei. Enquanto os outros não chegam, eu agradeceria se vocês não me deixassem sem graça por estar sozinho no meio de um casal.

- Não precisa ficar sem graça. – Falei servindo duas taças de vinho. – Lety e eu não te deixamos sem graça.

- Vai que na casa dela é diferente.

- Oh, está achando que eu e ela vamos dar uma rápida fugida para o quarto dela? Até que não é uma má ideia...

- Argh! Não quero ouvir isso. Vou ao banheiro. Onde é?

- Segunda porta à esquerda. – Respondi rindo.

- Obrigado.

               Zac se afastou e eu peguei uma das taças, seguindo para a cozinha. Como eu esperava, Lety estava ouvindo uma música alta e cantarolava enquanto mexia no forno. Me aproximei devagar para não fazer barulho, e me escorei ao balcão esperando que ela terminasse. Quando se levantou, Lety virou-se para mim e deu um passo para trás, assustando-se.

- Eu já disse para não fazer isso! – Ela riu, colocando a mão no peito.

- Desculpe. É que não consigo evitar. Você fica uma graça quando se assusta.

- Você diz isso até quando estou dormindo.

- Porque é verdade.

- Ou porque você é cego. – Ela riu.

- Tem certeza que não precisa de ajuda? – Me aproximei.

- Não, eu só...

               Antes que ela continuasse sua frase, beijei seu rosto e logo depois o seu pescoço. Percebi que ela fechou os olhos e repetiu a mesma palavra algumas vezes, até eu olhá-la achando graça.

- Só estou terminando de assar a carne. – Ela me olhou. – E eu agradeceria se o Senhor não tirasse minha atenção.

- Eu não estou fazendo nada.

- É claro que está! – Ela voltou a se abaixar e abriu o forno. – Eu acho que está boa, mas não tenho certeza.

- Posso opinar?

- Claro.

               Lety pegou as luvas e tirou a forma de dentro do forno, colocando-a sobre a pia.

- Acho que está boa. E está com um cheiro maravilhoso.

- Que bom! – Ela sorriu. – Passei a tarde inteira preparando ela.

- Deu muito certo. Agora, já que não tem mais nenhuma desculpa para fugir de mim...

               Antes que eu pudesse beijá-la outra vez, ela riu e me olhou autoritária.

- Eu ainda tenho um jantar para terminar!

- Tudo bem. Você venceu. – Voltei a me escorar no balcão e peguei minha taça. – Não vou atrapalhá-la mais.

- Obrigada. – Ela riu, virando-se para a pia.

               Continuei parado observando-a, mas notei que algo estava errado. Lety escorou-se à pia e respirou profundamente por três vezes. Esperei que ela dissesse algo para me tranquilizar, ou fizesse alguma piada com aquilo, mas ela continuou de costas. Coloquei a taça sobre o balcão e me aproximei, tocando em seu braço.

- Lety, tudo bem?

- Sim. – Ela me olhou, mas logo notei que seu sorriso estava forçado. – Está tudo bem.

               Lety apressou-se em se afastar, pegando alguns pratos dentro do armário e colocando um por um sobre o balcão. Continuei observando-a de longe, até que de repente Lety deixou um prato cair no chão. Mas como se não bastasse sua desastrez, outra vez ela se escorou ao balcão, mas dessa vez não soube como disfarçar que havia algo errado.

- Lety, o que você tem? – Aproximei rapidamente, segurando-a pela cintura.

- Nada, eu só...

- O que houve? – Zac entrou na cozinha, olhando para o chão repleto de cacos.

               Olhei para Lety notando que ela estava um pouco pálida.

- Zac, pode pegar a vassoura para mim ali, por favor? – Apontei para o canto da cozinha. – Vou levar Lety para a sala.

- Claro.

- Cuidado com os cacos. – Falei segurando-a pelo braço.

               Lety não disse nada, apenas me acompanhou até a sala, e eu a coloquei sentada no sofá.

- Eu estou bem. – Ela disse como se já soubesse o que eu iria perguntar. – Foi só... Um mal estar.

- Um mal estar? – Perguntei me sentando ao seu lado. – O que você está sentindo?

- Nada, já passou.

- Tudo bem, então o que você sentiu?

               Ela me olhou com seriedade.

- Tontura e... Falta de ar.

- E você sentiu isso hoje?

               Ela não respondeu.

- Lety, você sentiu isso mais vezes hoje?

- Sim. Antes do banho.

               Respirei fundo e segurei sua mão.

- Por que não me contou?

- Eu não queria te preocupar.

- Mas combinamos que você me contaria se sentisse algo.

- Eu sei, mas eu pensei que naõ fosse nada de mais. Não é nada de mais. Foi só... Um mal estar. Caminhamos muito hoje.

               Continuei a olhá-la.

- Eu juro, estou bem. – Lety tocou em meu rosto tentando me tranquilizar.

               O barulho da campainha chamou sua atenção, e rapidamente Lety se levantou seguindo até a porta.

- Pode ajudar Zac a pegar os cacos, por favor? – Pediu. – Enquanto recebo os outros.

- Claro. – Me levantei e caminhei até a cozinha, mas sua tentativa de me tranquilizar tinha sido em vão.

 

 

•••

 

 

 

               De fato Lety não pareceu sentir nada estranho durante o jantar. Ou então, sua tentativa de forçar para me tranquilizar estava sendo muito boa. Ela gargalhava de alguma piada que contavam, participava animada das conversas, e até tomou meia taça de vinho. Não quis impedi-la de fazer isso, principalmente porque estava quase convencido de que estava tudo bem. Seu mal estar de horas antes não me agradou em nada, principalmente quando ela assumiu que tinha sentido isso outra vez durante o dia. No decorrer daquele mês, combinamos que se ela sentisse qualquer coisa errada, ela me avisaria imediatamente. Foi esse o nosso combinado para que eu não me preocupasse tanto, e eu acreditei que ela iria cumpri-lo. Eu entendia que Lety não queria me preocupar, principalmente quando ela pensava que era pouca coisa. Mas, eu ficava ainda mais preocupado em saber que provavelmente ela estaria sentindo algo naquele exato momento, mas não queria demonstrar.

- Tenho certeza que vão gostar da sobremesa. – Lety disse se levantando. – Amor, você me ajuda?

- Claro. – Sorri me levantando. – Com licença.

               Lety e eu saímos da mesa e fomos até a cozinha.

- Não está um clima agradável? – Ela perguntou abrindo a geladeira.

- Sim, está.

- E você notou os olhares de Zac para Carol? – Ela riu. – Eu acho que está rolando um clima entre eles.

- É... Acho que sim.

- Ela já me confessou que acha ele uma graça.

               Ela pegou uma vasilha da geladeira, e eu me aproximei rapidamente.

- Deixa que eu levo isso.

- O que acha de sermos cupidos dos dois? – Ela me olhou divertida, fechando a geladeira.

- Cupido de quem?

- Oras, de Zac e Carol.

- Ah, é claro. Seria legal.

               Lety cruzou os braços, me encarando.

- Você está preocupado.

- Não, não estou.

- Está sim, e não sabe mentir também.

               Suspirei colocando a vasilha sobre o balcão.

- É claro que estou preocupado.

- Mas eu disse que...

- Sei que você me disse que está tudo bem e que não preciso me preocupar, mas isso é impossível, Lety.

- Eu entendo, e agradeço sua preocupação. Mas eu realmente estou me sentindo bem. Foi um mal estar de momento. Pode ter a ver com minha ansiedade para o jantar. Passei o dia inteiro programando ele.

               Continuei a encará-la.

- Eu prometo que se eu sentir algo, vou te avisar imediatamente. Tudo bem?

- Promete mesmo?

 

               Ela sorriu aproximando-se.

- Prometo.

- Tudo bem.

- Agora pode me dar um beijo e colocar um sorriso nesse rosto lindo?

               A olhei divertido, puxando-a para mais perto. Lhe dei um beijo carinhoso e sorri logo depois.

- Assim está ótimo. – Ela sorriu satisfeita.

- Pessoal, eu... – Carol entrou na cozinha e nos olhou. – Oh, desculpe. Não queria interromper.

- Tudo bem. – Lety riu.

- Eu só ia dizer que sugeri fazermos alguma brincadeira. Já formamos nossas duplas.

- E Lety e eu somos da mesma dupla?

- É claro!

- Então eu brinco.

               As duas riram e eu peguei a vasilha sobre o balcão.

- Vamos.

               Lety conseguiu enfim me convencer de que estava tudo bem. Participamos animados da brincadeira sugerida por Carolina, onde uma pessoa de cada dupla deveria fazer uma mímica para que o seu parceiro adivinhasse. Zac e Carolina estavam se dando bem, mas Rosa e Ramón estavam péssimos, o que nos rendeu boas gargalhadas. Lety e eu vencemos o jogo, mas claramente tiveram protestos quanto à isso.

- Não é justo. Vocês se entendem pelo olhar. – Rosa disse emburrada, quando estavam indo embora.

- Queremos revanche. – Ramon disse.

- Com certeza teremos outra oportunidade. – Lety riu. – Mas precisam treinar mais.

- Treinaremos com certeza!

- Lety, o jantar foi ótimo. – Carolina disse abraçando-a. – Obrigada.

- Eu agradeço por terem vindo. Foi realmente ótimo.

- Da próxima, eu ofereço minha casa. – Rosa sorriu.

- Iremos cobrar.

- Zac, você já está indo? – Carol perguntou.

               Lety e eu olhamos divertidos para ele.

- Sim, já estou indo. – Ele me olhou. – Está indo embora?

               Olhei para Lety, esperando por uma resposta.

- Pode ir. – Ela sorriu. – Eu estou bem.

- Tem certeza?

- Tenho.

- Não sei se estou seguro em te deixar sozinha.

- Eu prometo que estou bem. Vou terminar de arrumar as coisas e vou dormir. Pode ficar tranquilo.

- Se sentir algo, qualquer coisa, me ligue imediatamente. Tudo bem?

- Tudo bem.

- Lety...

- Eu prometo! – Ela riu, me beijando carinhosamente. – Eu te amo.

- Eu também te amo.

- Vamos, apaixonadinho! – Zac riu.

- Eu te ligo amanhã.

- Tudo bem. – Lety sorriu escorando-se à porta.

               Acompanhei os outros, mas olhei para trás algumas vezes. Ainda não estava certo de que deixar Lety sozinha era uma boa ideia. Por mais que ela tivesse me garantido que estava bem, e por mais que tivesse me provado que isso era verdade, algo em mim dizia que eu deveria estar ao lado dela naquela noite, apenas para ter certeza absoluta que tinha sido apenas um mal estar bobo. E isso ficou em minha cabeça o resto da noite.

 

 

•••

 

 

 

               Obviamente não consegui dormir com tudo aquilo na cabeça, mesmo com Lety me mandando uma mensagem antes de dormir, dizendo que estava cem por cento bem, e que tinha adorado o jantar. De certa forma fiquei feliz e aliviado, mas ainda assim, não consegui pregar os olhos. Como consequência, logo cedo eu já estava de pé preparando um café para ir até a loja. Precisava me distrair com alguma coisa, ao menos até eu falar com Lety e garantir que ela teve uma boa noite de sono, diferente de mim. Ainda era cedo para ligar, e eu não quis incomodá-la. Depois de um café forte, fui diretamente para a loja e aproveitei que estava sozinho para ajeitar algumas coisas.

               Ficar sozinho na loja algumas vezes era relaxante, outras era uma tortura. Relaxante porque eu conseguia pensar com tranquilidade, enquanto ajeitava algumas coisas na loja. Tortura porque eu pensava demais. Zac sempre me dava conselhos, alguns loucos e outros nem tanto, mas isso de certa forma me deixava um pouco menos paranoico. Ficar sozinho na loja me fez pensar em diversas coisas, mas tudo apenas piorou depois que Zac chegou e eu tentei ligar para Lety.

- Ela não atendeu. – Suspirei.

- Deve estar dormindo ainda.

- Não sei, Lety não costuma acordar muito tarde.

- As vezes ela quis dormir um pouco mais hoje.

               Encarei o celular e mandei uma mensagem, esperando que depois de um tempo ela respondesse dizendo que estava ocupada ou com muito sono para me atender. Mas, depois de quase vinte minutos sem resposta e sem retorno, eu já começava a me preocupar.

- Eu vou até lá. – Falei decidido.

- Ei, calma! – Zac me olhou. – Deve ter acontecido algo.

- Eu sei, e é isso que me preocupa.

- Não, não foi o que eu quis dizer. Algo que não seja nada de mais. O celular pode estar na sala e ela em outro comodo por exemplo. Coisas desse tipo.

- Não sei... – Encarei o celular. – Eu não estou com uma sensação muito boa.

- Não seja bobo. Lety estava bem. Quero dizer, ela estava um pouco pálida quando cheguei na cozinha e vi o prato quebrado, mas depois ela ficou bem o resto da noite.

               Bati a ponta dos dedos sobre o balcão.

- Você precisa relaxar.

               Eu queria conseguir relaxar, mas eu realmente não estava com uma sensação muito boa.

- Eu vou até lá. – Coloquei o celular no bolso e peguei a chave do carro.

- Mas...

               Não dei tempo para que Zac tentasse me convencer do contrário. Eu realmente estava preocupado, e não estava gostando nada daquela sensação estranha. Durante o caminho até sua casa, ainda tentei ligar outras vezes, mas ela também não atendeu. A preocupação estava ainda maior, e quando parei o carro em frente sua casa, desci o mais rápido que pude. Quando parei em sua porta, tentei me recuperar para não assustá-la com minah feição preocupada, e depois de respirar fundo algumas vezes, bati a campainha.

               Balancei minhas pernas ansioso e nervoso enquanto esperava ela me atender, mas nada. Bati a campainha outra veze e meu coração já começava a disparar, imaginando o pior. Quando me preparei para tocar a campainha outra vez, ouvi o barulho da porta sendo destrancada e suspirei aliviado por um instante. Mas, quando a porta se abriu, meu alivio desapareceu. Lety estava pálida, com os olhos um pouco fundos e uma feição péssima.

- O que está fazendo aqui? – Ela perguntou em voz baixa.

- O que aconteceu? – pergunte preocupado.

- Como assim?

- Estou te ligando há um tempão e você não atende.

- Ah... Eu... Acho que meu celular está na cozinha. Não fui até lá hoje.

- Não foi até a cozinha?

- Não.

               Encarei ela por um tempo, até não ter mais paciência de esperar que ela me dissesse a verdade.

- Vamos no Doutor Walter.

- O que? Não.

- Lety, você não está bem.

- Eu estou bem.

- Para de dizer isso, olha só para você!

               Percebi que tinha aumentado a voz, e ela não me respondeu. Depois de um tempo, Lety deu espaço para que eu entrasse, e foi o que eu fiz.

- Está sentindo o mesmo que ontem?

               Ela apenas balançou a cabeça concordando, fechando a porta.

- Está pior?

- Eu não quero...

- Lety, está pior?

               Novamente ela balançou a cabeça concordando.

- Então nós vamos ao Doutor Walter.

- Não! – Ela disse firme. – Eu não vou!

- Por que está fazendo isso?

- Por que você está fazendo isso?

- Acho que sabe a resposta.

- Não, eu não sei. Eu realmente não sei. Eu disse que estava bem, por que você não acreditou em mim?

- Ainda bem que não acreditei, olha só pra você!

- Eu consigo me cuidar sozinha.

- Essa não é a questão.

- Então qual é a questão?

- Você não está se sentindo bem, mas quer mentir até o ultimo segundo! Por que isso, Lety?

- Eu só quero que você... Pare de se preocupar tanto! – Ela caminhou pela sala.

- Como eu vou parar de me preocupar?

- Você está sempre agindo como se eu fosse uma criança!

- É o que parece agora! Uma criança teimosa que está com medo de ir no médico.

- Não estou com medo de ir ao médico! Estou com medo do que ele vai dizer para mim.

- E prefere ficar aqui recusando minhas ligações, mentindo para si mesma que  você está péssima?

- EU NÃO ESTOU PÉSSIMA!

- VOCÊ ESTÁ PÉSSIMA!

               Pela primeira vez em dois anos de relacionamento, levantei minha voz para Lety. Eu não me orgulho de dizer isso, mas foi um momento necessário. Ela estava sim agindo como uma criança, e eu não conseguia entender o motivo disso.

- Eu só quero que você confie em mim. – Ela suspirou. – Eu sei cuidar de mim.

- Se você soubesse cuidar de você, concordaria em ir ao hospital.

- Eu não quero... – Ela respirou fundo, como se estivesse tomando folego. – Eu não quero ir ao hospital, porque sei exatamente o que Doutor Walter vai me dizer.

               Cruzei os braços encarando-a.

- Ele vai dizer que está acontecendo o que esperávamos desde quando parei com o tratamento, e que não há nada que possamos fazer. Realmente não há nada! Mas você age como se um milagre fosse acontecer. De que adianta ir ao Doutor Walter se ele não pode fazer nada para me ajudar.

- Você não pode estar falando sério...

- Eu estou falando sério! Eu fui idiota por pensar que isso não iria acontecer com o passar do tempo. Fui idiota por pensar que poderia levar uma vida normal, e quem sabe eu poderia voltar ao trabalho? É claro que fui idiota, porque isso não iria acontecer! Eu sempre soube desde o inicio que isso iria chegar, e você também! Agora não diga que eu estou agindo como uma criança, porque quem está fazendo isso é você!

- Eu faço isso para te ajudar!

- Eu não quero ajuda! – Ela aumentou a voz outra vez. – Eu quero um coração saudável, e isso você não pode me dar.

               Encarei ela por um instante, e pela primeira vez eu senti raiva estando na presença de Letícia. Não raiva dela, mas raiva da situação que ela estava passando. Eu não poderia ficar mais um segundo ali discutindo em vão, deixando-a ainda pior do que estava. Eu deveria protege-la, mas também deveria garantir que ela ficasse bem, e ela não ficaria bem com toda aquela discussão.

- Faça como quiser. – Falei seguindo em direção à porta, abrindo-a. Mas, antes de sair, olhei para Lety e suspirei. – Só não se entregue assim, Letícia. Isso não combina com você.

               Dizendo isso, saí de sua casa e bati a porta, talvez um pouco forte demais. Quando estava do lado de fora, suspirei profundamente e passei a mão pesadamente em meu rosto, tentando me acalmar. Aquela tinha sido nossa primeira briga de verdade, e foi a pior sensação que já senti. Estávamos preocupados, tensos e nervosos, na mesma intensidade. Lety tinha medo, e eu também tinha medo por ela. Estava ansiosa para que o pager que sempre a acompanhava preso à sua calça apitasse em algum momento, e eu também. Mas, tínhamos algo diferente, e não posso negar. Lety não acreditava em milagres, mas eu estava à espera de um.

 

 

 

 

•••

 

 

 

               Não consegui voltar para a loja depois da briga com Lety. Tampouco consegui ir para casa. Preferi dar uma volta na praia para esfriar a cabeça, e colocar as coisas no lugar antes de ligar para ela e me desculpar. Não queria fazer isso de cabeça quente para termos outra discussão, principalmente porque eu deveria ser tão forte quanto ela para apoiá-la naquele momento. De fato a caminhada funcionou, e eu voltei para casa pronto para ligar para Lety e resolver as coisas. Mas, quando parei o carro, notei que o gato estava próximo à entrada, observando. Percebi que tinha alguma coisa, porque aquele gato só aparecia quando Lety estava por perto, e não me enganei quando passei pelos fundos e a vi sentada à varanda olhando para o mar. Soltei um suspiro de alívio ao vê-la ali, e me aproximei, me sentando ao seu lado em silencio.

               Ficamos assim por alguns minutos, até ela olhar para mim e quebrar o silencio.

- Me desculpe por estar agindo como uma criança. E me desculpe por ter dito que não quero sua ajuda. Eu preciso de você.

               Olhei para ela e percebi que seus olhos estavam cheios d’água. Me partia o coração vê-la daquela maneira, e minha única reação foi segurar sua mão e beijá-la carinhosamente.

- Eu não quis dizer que você está agindo como uma criança. Só quero que entenda que você pode ficar brava comigo quantas vezes quiser, mas eu não vou deixar de me preocupar com você.

- Eu sei... E obrigada por isso.

               Sorri e me levantei. Ela também se levantou e eu a puxei para um abraço.

- Não quero discutir com você nunca mais. – Ela disse enquanto apertava o abraço.

- Eu também não.

               Ficamos assim por um tempo, e enfim eu me sentia bem outra vez. Ou apenas uma parte de mim. Eu ainda me preocupava com ela, mas ao menos sabia que já tínhamos resolvido nosso desentendimento.

- Não me abandona, tudo bem?

               Apertei ainda mais o abraço, fechando os olhos.

- Eu jamais faria isso.
 



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