História Terceira Chance - Capítulo 4


Escrita por: ~

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Categorias A Feia Mais Bela
Personagens Fernando Mendiola, Letícia "Lety" Padilha Solís
Tags A Feia Mais Bela, Fernando Y Lety, La Fea Mas Bella, Lfmb
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Palavras 5.261
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - Savior


Olhei para Lety enquanto ela dormia, e mal notei que já estava assim há longos minutos. Eu costumava acordar primeiro que ela, mas normalmente me levantava para ir preparar um café para nós dois. Mas, naquele dia, eu não consegui me levantar. Continuei deitado olhando-a enquanto ela dormia. Parece perturbador, mas não fiz por mal. Eu queria gravar cada detalhe do rosto dela para caso um dia cogitarmos a ideia de termos outra discussão como a do dia anterior, eu me lembrasse do quanto a respeitava e do quanto eu deveria continuar respeitando, sem levantar a voz para ela outra vez. 

Enquanto a olhava, Lety se mexeu à cama até abrir os olhos, olhando diretamente para mim. Sorri enquanto ela piscava rapidamente, até ela também sorrir.

- Bom dia! – Ela disse espreguiçando-se.

- Bom dia.

- Acordou agora?

- Não, tem um tempo.

- E continuou deitado? Isso é um milagre.

Eu ri.

- Estava te olhando, confesso.

- Me olhando dormir?

- Sim.

- Não tinha algo mais interessante para fazer? – Ela riu.

- Hum... Acho que não. – Sorri. – Dormiu bem?

- Muito bem.

- Que bom.

- E você?

- Acordei algumas vezes durante a noite para me certificar de que você estava bem, mas consegui dormir melhor que ontem.

- Que bom. Eu vi que você acordou algumas vezes. E também que demorou para dormir. Percebi você rolando na cama.

- É que não consegui tirar nossa discussão da cabeça.

- Eu também não. – Ela sentou-se à cama, me olhando. – Não quero ter outra nunca mais.

- Bom... Provavelmente quando nos casarmos teremos algumas discussões, mas jamais vou levantar a voz para você outra vez. Eu garanto.

- Eu também não. – Ela riu. – Mas temos que prometer que se tivermos outras discussões, faremos as pazes no mesmo instante.

- Seria ótimo.

- Promessa? – Ela esticou sua mão.

- Promessa. – Apertei sua mão, rindo.

- Ótimo! 

Lety sorriu e se levantou, caminhando em direção ao banheiro. Eu poderia me acostumar à acordar daquela maneira todos os dias, pelo resto da minha vida. E pensar nisso me deu uma ideia. Depois daquela péssima discussão, Lety e eu precisávamos de um dia a sós, mas em um lugar diferente. Por mais que eu soubesse o quanto ela adorava minha casa, merecíamos passar o fim de semana em um lugar novo e diferente. E eu tinha certeza que isso iria animá-la.

Enquanto Lety estava no banheiro, fui para a cozinha me apressar com o café da manhã, mas ainda planejando o fim de semana em minha cabeça. Depois de alguns minutos ela apareceu à cozinha e me abraçou por trás, me fazendo virar para ela.

- O que foi? Está com aquela cara de que passou muito tempo pensando em algo. – Ela me olhou desconfiada.

- E realmente estava. – Sorri. – Vamos fazer uma viagem.

- O que?

- Curta, mas uma viagem. O que você acha?

- Ficou louco? – Ela riu. – Assim? De repente?

- Sim.

- E para onde vamos?

- Não sei. Podemos escolher no caminho.

- Você está mesmo louco. Como vamos para um lugar que não sabemos onde é?

- Fazemos as malas para o fim de semana, pegamos a estrada, e paramos em algum lugar que nos agrade.

Ela me encarou como se eu fosse louco.

- Vamos, Lety... – Segurei sua mão. – Eu acho que vai ser bom passarmos um fim de semana juntos.

- É que parece loucura. Eu quero passar o fim de semana com você em um lugar diferente, quero muito. Mas... Não está muito em cima da hora?

- Sim, e essa é a graça. – Sorri. – Olha, se demorarmos um tempo para planejarmos isso, provavelmente vamos ficar confusos quanto ao lugar, e então adiaremos ainda mais essa viagem. Precisamos fazer tudo em cima da hora. Sem contar que vai ser uma experiencia incrível.

Ela continuou me encarando.

- Você está mesmo empolgado com isso, não é?

- Muito! 

Lety sorriu.

- Tudo bem. Podemos fazer essa loucura.

Comemorei animado.

- Mas... – A olhei com seriedade. – Precisamos fazer uma coisa importante antes.

- O que? – Ela me olhou tensa.

 

 

 

 

•••

 

 

 

- Bom... Não vou mentir. Desde a última vez que você se consultou, sua saúde ficou um pouco fragilizada. – Doutor Walter disse. – E isso explica a falta de ar e as tonturas. São os sintomas que eu disse que poderiam aparecer com a interrupção do tratamento.

Lety me olhou e eu apertei sua mão.

- E isso pode voltar a acontecer? – Perguntei.

- Sim, pode. – Ele nos encarou. – Infelizmente é algo que não podemos evitar. Esperávamos por isso, e me admira ter demorado tanto tempo para os sintomas aparecerem.

Lety suspirou e eu a olhei com pesar.

- Mas... Isso não significa que vocês não possam fazer uma viagem romântica. – Ele sorriu.

Nos olhamos empolgados, e enfim Lety sorriu.

- Com moderação, é claro. Nada de escaladas, competições de natação nem nada assim. 

Nós dois rimos.

- Não, garanto que não terá nada disso. – Brinquei.

- Em você sei que posso confiar. Então... Façam uma boa viagem, e divirtam-se com moderação.

- Obrigado. – Apertei sua mão animado. – Pode deixar que vou cuidar muito bem dela.

- Eu sei que sim. E você, Lety... Se cuide.

- Obrigada, Doutor. – Ela sorriu.

- E se precisarem de alguma coisa, me liguem.

- Pode deixar.

Saímos do consultório diferente de quando chegamos. Claramente Lety não gostou da minha condição de irmos ao Doutor Walter para perguntarmos se estava tudo bem se passássemos o fim de semana fora mesmo depois do que Lety sentiu no dia anterior. Mas, ela estava tão empolgada quanto eu, e por isso aceitou mesmo que de má vontade. Qunado chegamos ela estava tensa e com medo de que ele não a deixasse fazer absolutamente nada, mas eu sabia que isso não iria acontecer. Ele já tinha dito outras vezes que Lety teria uma vida normal enquanto pudesse, apenas com algumas restrições que eram para o seu bem.

Para o meu alívio e o de Lety, recebemos sinal verde para nossa viagem, e só nos restava irmos para casa arrumar a mala. Como eu era prático, peguei apenas uma mala de tamanho médio e coloquei algumas camisas que eu mais gostava. Eu costumava ser organizado, por isso demorava um pouco mais para arrumar minhas coisas. Lety já tinha arrumado sua mala, e me ligou assim que terminou. Eu ainda estava na metade da arrumação da minha, por isso a busquei antes de terminar. Quando chegamos à minha casa, Lety me ajudou a guardar as coisas que faltavam, e quando fechei a mala, minha ansiedade aumentou ainda mais.

- Acho que peguei tudo. – Falei colocando minha mala no chão.

- Tem certeza? 

- Sim.

- Pegou roupa de frio?

- Sim.

- Roupa de calor?

- Sim.

- Escova de dentes?

- Peguei.

- E...

- Eu peguei tudo. – Falei rindo, lhe dando um rápido beijo. – Agora é só dizer que está pronta, e partimos para o nosso destino que ainda não sabemos qual é.

- Eu estou pronta. – Ela sorriu, levantando-se. – Ah, espera...

Lety colocou a mão no bolso da sua calça e me mostrou o seu pager. Por um segundo não entendi porque ela estava me mostrando aquilo, até perceber que havia algo colado nele.

- O que é isso?

- Não lembra? Um dos adesivos que você ganhou para mim no parque de diversões no nosso terceiro encontro.

- Ah! – Sorri. – Eu não sabia que você ainda guardava eles.

- Claro que guardo, e só uso em ocasiões especiais. Quis colocar nele para dar sorte. Quem sabe não temos uma surpresa até o fim da viagem?

- Tomara que sim. – A puxei para um abraço. – Será definitivamente a melhor primeira viagem de todos.

Ela riu, retribuindo o abraço. Era reconfortante vê-la tão positiva, e eu também estava daquela maneira. 

 

 

 

•••

 

 

 

 

- E por aqui tem o banheiro. Ali tem uma cozinha. Não é nada luxuoso e grande, mas até hoje nenhum hóspede reclamou. 

Senhora Walsh sorriu, virando-se para mim.

- Oh... Onde está a sua namorada?

Olhei em volta e percebi que Lety não estava ao meu lado como estava há cinco segundos. Estava prestes à chama-la quando a encontrei em outro cômodo. Sorri enquanto a olhava e voltei a olhar para a Senhor Walsh.

- Pode nos dar alguns minutos, por favor? É a nossa primeira viagem juntos...

- Oh, mas é claro. – Ela sorriu. – Estarei na recepção se precisarem de algo.

- Obrigado. – Sorri.

Assim que Senhora Walsh nos deixou a sós, caminhei em direção à varanda onde Lety estava, e ela me olhou quando abri a porta de correr.

- Imaginei que seria sua parte preferida do chalé. – Falei me aproximando.

- Está vendo ali? – Ela apontou para as montanhas.

- Sim.

- O sol provavelmente irá se por ali. Não deve ser lindo ver o por do sol entre as montanhas?

Sorri satisfeito, abraçando-a.

- Sim, deve ser lindo.

- Eu adoraria ver.

- Quer dizer que vamos ficar com esse chalé?

- O que você acha?

- A minha opinião não conta nessa escolha.

- É claro que conta. Vamos ficar aqui juntos, não vamos?

- Mas você vai ter o privilégio de escolher o lugar. 

- É o primeiro que olhamos...

- Sim. Pensei que por termos escolhido um lugar aleatório, demoraríamos mais para encontrar.

Ela virou-se para a vista e sorriu.

- Talvez por esse motivo esse lugar seja especial. Foi o primeiro que escolhemos aleatoriamente. Deve ter algo especial.

Olhei para a mesma direção em que ela olhava e continuei a sorrir.

- Eu pensei exatamente a mesma coisa.

Lety virou-se para mim e tocou em meu rosto.

- Quero que essa viagem seja especial. Para nós dois.

- Ela já está sendo especial. 

- Tem razão.

Estávamos prestes a nos beijar, quando a Senhora Walsh voltou.

- Ah, desculpem incomodar. Eu esqueci de dizer uma coisa... Hoje como cortesia todos os casais irão ganhar um jantar especial.

Lety e eu nos olhamos, sorrindo.

 

 

 

•••

 

 

 

Definitivamente, Lety tinha razão ao dizer que aquele lugar era especial. Passamos uma ótima tarde juntos, caminhando (na velocidade possível para ela), e conhecemos os pontos turísticos do lugar. Não era um local conhecido, mas quando vimos a placa, pensamos que seria um bom lugar para nossa viagem. Não estávamos muito longe do litoral, mas era bom sentir a diferença de ambiente. Eu particularmente não me dava muito bem com areia e mar, apesar da varanda com vista para a praia ser a parte favorita da minha casa. Mas, Lety adorava tudo que relacionava à isso. Eu entendia que para ela, conhecer outros lugares era uma experiencia inesquecível, e estava feliz por fazer parte disso. 

- Então, um brinde à nossa primeira de muitas viagens. – Lety ergueu sua taça.

- E que a próxima seja para o exterior.

- Você é muito apressadinho.

Brindei minha taça à dela, rindo. Observei Lety tomar o vinho e ficamos em silencio por um tempo.

- O que foi? – Ela sorriu.

- Você é linda.

- Obrigada... Mas eu deveria ficar preocupada com esse elogio repentino?

- De maneira alguma.

- Que bom. – Ela riu, desviando o seu olhar por um segundo.

Eu sabia exatamente para onde ela estava olhando. Não estávamos apenas nos dois naquela viagem. O pager tinha sido nossa companhia durante todo o tempo, e Lety não parava de olhá-lo a cada cinco minutos. Eu entendia sua ansiedade, e eu também estava assim. Mas isso me preocupava. Era sempre terrível ver a decepção de Lety a cada vez que ela olhava para o pager e ele continuava silencioso.

- Sabe de uma coisa? – Segurei sua mão, fazendo-a olhar para mim. – Eu acho que nossa próxima viagem tem que ser algo ainda mais especial.

- Como o que?

- Como... Você conhecer meus avós.

Ela me olhou surpresa.

- Jura?

- Sim. – Sorri. – Eu sei que todas as vezes que marcamos de você conhece-los algo deu errado, mas dessa vez eu vou planejar muito bem.

- Seria ótimo poder conhece-los. Eu já me sinto parte da família só de ouvir você falando deles. E também quero muito conhecer o seu primo.

- Ele também quer te conhecer. Uma pena que ele trabalhe tanto.

- Talvez consiga um tempo...

Percebi que a voz de Lety foi desaparecendo, e ela deu um longo suspiro, seguido de outros. Olhei preocupado para ela, mas logo ela se recompôs e sorriu para me tranquilizar.

- Isso está ficando frequente. – Ela encarou a taça.

- Eu posso fazer alguma coisa para ajudar? Não quer se levantar?

- Não, tudo bem. – Ela voltou a segurar minha mão. – Doutor Walter disse que isso ficaria frequente. Acho que só... Temos que acostumar.

A olhei com pesar.

- Não precisa me olhar assim. – Ela riu. – Ainda está sendo uma ótima viagem.

- É... – Forcei um sorriso. 

- Além do mais, podemos ter uma surpresa em breve, não é? – Ela olhou para o pager.

Não quis parecer pessimista, e também não quis desanimá-la. Por sorte ela mudou de assunto, e não se sentiu mal outra vez. Mas, a verdade é que eu estava preocupado, e mesmo que eu tivesse animado com a viagem, eu preferia me sentir seguro de que aquilo não iria piorar. 

Continuamos com nosso jantar, e depois fomos para o quarto nos esquentar. Essa era uma das coisas que eu gostava de não estar no litoral. Qualquer brisa fria que passava pela janela, era motivo para ficarmos deitados à cama, nos esquentando de uma forma melhor. Estávamos quase pegando no sono depois de certo tempo, e eu estava abraçado à Lety esperando o sono chegar, quando ela me fez uma pergunta:

- O que você acha que pode acontecer de pior?

Abri os olhos surpreso com a pergunta, sem saber o que responder.

- Sobre o que?

- Sobre a minha doença.

Me mexi inquieto, dessa vez, sem querer responder a pergunta.

- Eu sei que você não gosta de falar sobre isso, mas queria aproveitar essa viagem para falarmos um pouco disso.

- Eu ainda não entendi a sua pergunta.

- Quero saber a sua opinião, sobre o que pode acontecer. Quero dizer... Se esse pager nunca tocar, e se... Os sintomas ficarem piores.

Eu a olhei.

- Precisamos mesmo falar disso?

- É que você mais sensato do que eu. Acho que meu otimismo me faz iludida algumas vezes. – Ela sorriu triste. – Passei o tempo inteiro com esse pager do meu lado, esperando que em algum momento ele apitasse. E eu percebi que em certo momento você ficou incomodado com isso. Você é melhor do que eu para deduzir esse tipo de coisa, e eu preciso de uma opinão sincera.

Suspirei, voltando a fechar os olhos.

- Por favor... 

Eu não conseguiria dizer “não” para ela, mesmo que eu não quisesse falar sobre aquele assunto.

- Você quer saber o que pode acontecer de pior se esse pager não tocar? – Perguntei com a voz falha.

- Sim. 

- Primeiro, os sintomas irão piorar. Aos poucos. Você vai começar a se sentir fraca, não vai aguentar fazer grande parte das coisas que você costuma fazer, até você não conseguir ter forças para levantar da cama ou respirar sozinha.

Ela me encarou.

- E depois...? 

Voltei a olhá-la.

- Depois, sua fraqueza vai chegar à um ponto que você ficará na cama, até...

Lety continuou a me olhar.

- Por que está fazendo isso comigo? – Perguntei com as vistas embaçadas.

- Porque eu preciso que você entenda, que há dois caminhos para nós dois daqui para frente. Esse pager pode tocar a qualquer momento, ou... Ele pode não tocar. E eu quero que você entenda que precisamos pensar nessa possibilidade.

- Eu não quero mais falar sobre isso. – Me sentei à cama, mas Lety segurou meu braço.

- Nós precisamos falar sobre isso.

- Por que? Por que agora?

- Porque não há um lugar melhor para fazermos isso.

- Você quer que nossa viagem termine falando sobre isso?

- Não. Pelo contrário. Eu quero que ela nos ajude.

Passei a mão no rosto.

- Sei que estamos fazendo muitos planos, e isso é ótimo. Realmente é ótimo. Mas, também precisamos estar preparados. Se esse pager não tocar, em algum momento eu não vou ser a mesma pessoa que eu sou agora, e eu já estou começando a mudar.

- É claro que você vai ser a mesma pessoa. – Eu a olhei.

- Você me entendeu.

Fiquei em silencio.

- Eu preciso saber se você está pronto para lidar com isso. Porque eu realmente não quero ser um estorvo na sua vida, te deixando preocupado vinte e quatro horas por dia.

- Você nunca seria um estorvo na minha vida, Lety.

- Eu... Notei que você estava diferente agora quando nós...

Eu a olhei.

- Você está com medo de que aconteça alguma coisa a qualquer momento, não é?

- Desculpe. Eu não quis...

- Eu sei. Sei que não quis, e não estou reclamando. 

Ela sorriu.

- E é claro que não estou pronto para lidar com isso, mas eu estarei, de um jeito ou de outro. 

Voltei a me deitar a puxei para um abraço. Lety repousou sua cabeça sobre meu peito e eu encarei o teto por um tempo. De fato ela tinha razão que precisávamos falar sobre aquilo, mas eu detestava. Detestava pensar na possibilidade daquele pager nunca tocar.

- Tem outra coisa que quero te perguntar.

- O que?

- Acha que seus avós vão gostar de mim?

Sorri, apertando mais o abraço.

- Definitivamente eles irão te amar.

Percebi que ela sorriu, suspirando logo depois. Eu queria sempre poder ficar daquela maneira com Lety, sentindo-a protegida perto de mim. Infelizmente a única coisa que eu poderia fazer quanto à isso era ficar ao seu lado, e eu ficaria. Sempre.

 

 

 

•••

 

 

 

Era verdade que aquela viagem fez muito bem para nós dois. Poder passar dois dias inteiros com Lety, conhecendo um lugar novo e calmo foi relaxante, e quando voltamos para casa, parecíamos renovados. Lety não se sentiu mal outra vez, e não olhou para o pager por um bom tempo. Me senti satisfeito ao vê-la tão bem, e quando estávamos nos despedindo, recebi um agradecimento da melhor maneira possível. Lety me beijou com tanta ternura, que por alguns segundos eu não quis que ela se afastasse, assim como não queria me despedir depois de um fim de semana incrível.

- Obrigada pela viagem. Foi a melhor primeira viagem de todas. – Ela sorriu próxima ao meu rosto.

- As outras serão ainda melhores. – Sorri.

- Vai ser difícil dormir sem você depois desse fim de semana.

- Bom... O meu convite ainda está de pé.

Ela riu.

- Eu não posso ficar dormindo sempre na sua casa. Preciso me reacostumar a dormir na minha casa.

- Não precisa não.

- É, eu não preciso. Mas precisamos de algumas horas longe um do outro, para sentirmos saudade. Nos sabemos que fazer algo com saudade é sempre mais prazeroso...

- Não me provoque, Letícia Padilha. Eu posso te sequestrar agora mesmo.

Lety riu, me dando outro beijo, dessa vez mais rápido que o outro.

- Eu te amo.

- Eu também te amo.

Lety pegou sua mala do chão e abriu a porta de sua casa. Dei alguns passos para trás, ainda olhando-a. Antes de fechar a porta ela acenou para mim, e eu retribuí o aceno. Caminhei em direção ao carro e ouvi a porta se fechar. Era sempre terrível me despedir de Lety quando passávamos um longo tempo juntos, mas era ainda pior quando eu me preocupava por ela ficar sozinha. A ultima vez que Lety ficou sozinha em sua casa, ela se sentiu mal e não queria me dizer. Eu a fiz prometer que se isso acontecesse, ela me ligaria no mesmo instante, e eu confiava em sua palavra. Isso talvez me deixava um pouco mais tranquilo.

Segui para minha casa e fui logo tomar um banho. A casa era ainda maior sem Lety, e eu detestava as noites sem ela. Fiquei um tempo na varanda observando o mar, depois fui para o quarto ler um pouco. Logo as vistas começaram a pesar, e eu apaguei todas as luzes, pronto para dormir. Graças ao chá que tomei antes de ir para a cama, não precisei lutar contra o sono por sentir a cama grande demais sem Lety. Logo o sono me pegou, e eu tive um sonho lindo, que desejei do fundo do meu coração que ele se realizasse. Lety estava feliz, e estávamos na neve. Ela dizia que estava feliz por realizar o seu sonho, e ainda mais feliz por estar bem. Ela gargalhava enquanto tocava na neve, e eu conseguia sentir a minha alegria por vê-la daquela maneira. Foi um sonho lindo, eu foi interrompido quando ouvi o meu celular tocar. Me mexi à cama pensando que o barulho fosse do sonho, até abrir os olhos e ver a luz da tela iluminar a cômoda. Rapidamente peguei o celular, e tive uma intuição. Uma péssima intuição. Não precisei olhar para a tela para saber que era Lety, e tudo ficou ainda pior quando atendi a ligação e logo ouvi um soluço do outro lado da linha.

- Lety? – Perguntei me sentando à cama.

- Você pode vir para a minha casa? Por favor. 

Eu não precisei perguntar nada para saber que ela estava chorando, e só tive tempo para me levantar as pressas e pegar a chave do carro.

 

 

 

•••

 

 

 

Toquei a campainha freneticamente, e cada segundo parecia uma eternidade. Eu já começava a pensar no pior, e por pouco não me preparei para arrombar a porta, quando ouvi que ela estava sendo destrancada. Assim que a porta se abriu, olhei para Lety, mas não me senti aliviado. Seu rosto estava pálido e marcado por lágrimas, e em todos os anos conhecendo Letícia, eu jamais a vi daquela maneira.

- O que aconteceu? – Perguntei preocupado, adentrando sua casa.

- Eu... Estava dormindo... – Ela disse abraçando o próprio corpo. – Estava dormindo e... Acordei com falta de ar. Pensei que fosse como as outras, mas eu me levantei e ficou ainda pior. 

Fechei a porta e voltei a olhá-la, segurando em seus ombros.

- Você está se sentindo mal? Lety? Me responde!

Ela cobriu o rosto com as mãos e voltou a chorar. Nunca vi Letícia chorar, e obviamente fiquei desesperado vendo-a daquela maneira. Só tive tempo de puxá-la para um abraço, onde ela enterrou seu rosto em meu peito e continuou a chorar meio à soluços.

- Lety eu preciso que você me diga se você está se sentindo mal.

Lety ergueu a cabeça e me olhou.

- Eu não consegui chegar até a cozinha. – Disse soluçando. – Eu não consegui voltar a respirar sozinha. Por um segundo eu pensei... Que... 

Ela não precisava terminar a frase para que eu entendesse, e meu corpo inteiro se arrepiou ao pensar naquela possibilidade.

- Eu desmaiei, não sei por quanto tempo. Acordei no corredor, e quando me recuperei eu fui te ligar. Eu... Nunca senti isso antes. É horrível! Horrível! 

- Tudo bem. – Voltei a abraça-la. – Eu estou aqui, você está bem.

- Eu não quero passar por isso. Não quero que esses sintomas piorem. Eu pensei que eu estava preparada, mas eu não estou. 

Eu não sabia o que dizer. Eu deveria ter uma solução para aquilo, deveria dizer à ela que tudo ficaria bem, mas eu não tinha garantia nenhuma disso. Infelizmente, a melhora de Lety não dependia de mim.

- Eu vou buscar um copo de água para você. Enquanto isso, fique sentada aqui. – Eu a guiei até o sofá, e ela se sentou. – Eu já volto.

Lety balançou a cabeça concordando e eu corri até a cozinha. Eu também pensei que estivesse preparado para ficar ao lado dela, mas a verdade é que eu estava morrendo de medo. Tive medo quando ela me ligou chorando, tive medo quando ela abriu a porta e me olhou daquela maneira, e tive medo de que algo acontecesse novamente. Peguei a água o mais rápido que pude, e quando voltei à sala, ela não estava no sofá.

- Lety? – Olhei em volta, colocando a água sobre a mesa. – Lety!

Meu coração disparou, e imediatamente eu segui pelo corredor, chegando ao seu quarto. A cena que vi em seguida foi algo que jamais pensei que veria, e não saiu da minha cabeça por um bom tempo. Lety estava no chão, desacordada. Os minutos que se seguiram passaram como um flash, que foi como se não tivessem acontecido. Peguei Lety do chão enquanto a chamava na tentativa de que ela acordasse, mas isso não aconteceu. Eu a coloquei na cama e com as mãos tremulas liguei para Doutor Walter. Não me lembro exatamente do que disse à ele, porque eu só conseguia implorar por ajuda e dizer o endereço da casa dela diversas vezes. Me lembro que em certo momento ele pediu para que eu tivesse calma, mas calma era a ultima coisa que eu teria naquele momento. Depois que desliguei o telefone, fiquei ao lado de Lety torcendo para que ela acordasse, mas isso não aconteceu até a chegada do Doutor Walter. Ainda tive que esperar longos torturantes minutos para que ele a examinasse, e quando o fez, a notícia foi pior do que eu esperava.

- Ela não está nada bem. Acabei de ligar para uma ambulância, precisamos leva-la para o hospital, agora. O que temíamos aconteceu, e o caso dela se agravou. 

Aquele definitivamente foi o pior momento da minha vida.

 

 

 

•••

 

 

Lety continuava desacordada depois de um tempo, mas eu estava mais tranquilo por saber que isso era apenas por conta do medicamento. Doutor Walter me garantiu que ela acordaria logo, e enquanto isso ele fez alguns exames para saber o que poderia ser feito. Segurei a mão dela durante todo o tempo, mesmo com milhões de coisas se passando em minha cabeça. Eu detestava vê-la daquela maneira. Detestava que ela tivesse que passar por tudo isso. Letícia era a pessoa mais gentil que já conheci, e com certeza ela não merecia algo assim. Ela tinha ambições em sua vida. Ela tinha sonhos que precisavam ser realizados. Parecia crueldade pensar que alguém como ela provavelmente ficaria em uma cama até acontecer um milagre para aquele maldito pager dar sinal.

A espera era ainda pior naquela situação. Enquanto eu esperava que ela acordasse, fiquei olhando para o pager sobre a mesinha ao lado da cama, e aquilo se tornou um vício. Comecei a sentir raiva. Raiva por termos que esperar para decidir sobre a vida de Lety. Raiva por não termos certeza se ela ficaria ainda pior, ou se um milagre realmente aconteceria. Nunca fui religioso, nunca acreditei em milagres, mas naquele momento eu esperava que algo assim acontecesse.

- Com licença. – Doutor Walter abriu a porta. – Posso entrar?

- É claro. – Passei a mão em meu rosto tentando disfarçar a preocupação, e me levantei.

- Estive analisando os exames dela, e... As notícias não são nada boas.

Meu coração acelerou.

- Como eu disse, nós já esperávamos que em algum momento o caso dela se agravasse, e isso está acontecendo agora. O coração dela já não está bombeando como deveria, e isso vai piorar cada dia mais. Eu sugiro que ela fique no hospital até... 

Ele olhou para o pager, e eu suspirei pesadamente.

- Não tem nada que possamos fazer? – Perguntei com a voz falha.

- Infelizmente, só podemos esperar.

Esperar. Como eu odiava aquela palavra. 

- Eu sinto muito.

Olhei para Lety e me senti ainda pior, se é que era possível.

- Isso ainda vai piorar mais? – Perguntei enquanto a olhava. – Ela vai... Sentir dores?

Doutor Walter ficou em silencio, me fazendo entender que aquilo era um “sim”.

- Eu sei que é difícil, e que mesmo pensando que estamos preparados, nós nunca estamos. Lety é forte, sempre foi, desde que comecei a cuidar do seu caso. Me admiro em saber que isso era algo que deveria ter acontecido há algum tempo, mas ainda assim ela foi forte até agora, e tenho certeza que vai continuar sendo.

- Eu espero que sim, Doutor.

- Ficando aqui no hospital ela vai ter a assistência necessária, e pode ser que não seja tão difícil quanto estejam pensando.

- Já está sendo difícil.

Ele bateu em meu ombro.

- Ao menos ela tem você ao lado dela. Você é um bom rapaz, Mendiola.

Não soube o que responder.

- Sugiro que fique ainda mais próximo à ela nesse momento. Ela vai precisar.

Continuei a olhar para Lety, até perceber que Doutor Walter se afastou, saindo do quarto. Senti o meu coração se partir ainda mais, e uma vontade incontrolável de chorar. Eu não chorava com facilidade, mas lembrar de como Lety estava quando cheguei em sua casa, de vê-la desacordada no chão sem saber o que fazer, e de pensar que aquilo era apenas o “começo” para as piores coisas que acontecia me fazia sentir o pior dos homens. Alguns diriam que o que eu sentia por Lety era um sentimento exagerado, contando que nos conhecíamos a “pouco tempo”. Mas, eu sabia que não era assim. Eu sabia que o que eu sentia por ela era tão forte à ponto de eu desejar que estivéssemos em lugares trocados. Mas me sentia ainda pior ao saber que não adiantaria estarmos em lugares trocados, já que ela provavelmente estaria sofrendo da mesma maneira.

Lety e eu tínhamos um motivo para nos darmos tão bem, e eu tinha um motivo para entende-la tão bem. Nós éramos mais parecidos do que todos imaginavam, e por muitas vezes Lety disse que se sentiu à vontade de contar sobre sua doença para mim, porque era como se eu conseguisse entende-la de todas as formas. E eu conseguia entende-la realmente. Conseguia entender como era conviver com algo semelhante à uma bomba relógio, que a qualquer momento poderia explodir. Sabia como era conviver todos os dias pensando que poderia ser o ultimo, mas, eu não me atreveria a comparar à minha vida com a de Lety. Por isso eu desejei que estivéssemos em lugares trocados. Eu já tive que me acostumar uma vez com a ideia de ter os dias contados, mas ela ainda precisava se acostumar com isso. Eu já tinha sido preparado para aproveitar minha vida ao máximo antes que algo ruim acontecesse, o que por sorte não aconteceu. Mas, Lety já não tinha tanto tempo assim. Eu, por outro lado, tinha todo o tempo do mundo. Eu só não queria viver esse tempo sem Lety.  Eu daria todo o tempo que eu tinha para que ela pudesse realizar todos os seus sonhos. 

E foi então que deixei Lety no quarto por um momento, pegando o meu celular. Precisava fazer uma ligação, e só havia uma pessoa que eu poderia desabafar naquele momento. Alguém que me conhecia ainda mais do que Lety. Disquei seu número rapidamente e saí do hospital, indo para um lugar vazio. 

- Alô? – Ouvi sua voz do outro lado do telefone.

- Oi. Sou eu.

- Oi. – Fez-se silencio por um tempo. – Aconteceu alguma coisa?

- Não. Ainda não. Precisamos nos encontrar, e isso não pode esperar. 

- Você parece nervoso. Está tudo bem? Está se sentindo mal?

- Não. Tem uma coisa que preciso fazer, e quero conversar com você antes.

- O que você tem que fazer?

Olhei para o hospital e dei um longo suspiro.

- Preciso salvar a vida de alguém. 

 


Notas Finais


Pessoal, desculpem a "pressa" de postar um cap atrás do outro, mas é que eu queria igualar os capítulos daqui com os que eu já havia postado no wattpad. A partir de agora os cap serão novos, e eu vou excluir a fanfic de lá (porque todo mundo que acompanha por lá também está aqui, e não vai fazer diferença deixar ela lá porque não vou atualizar por lá, só por aqui). Espero que estejam gostando, e como eu disse, a fic é bem sofrência, mas vocês não vão se arrepender de ler até o final. Prometo que vai valer a pena.

Beijos!


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