História Terceira Chance - Capítulo 7


Escrita por: ~

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Categorias A Feia Mais Bela
Personagens Fernando Mendiola, Letícia "Lety" Padilha Solís
Tags A Feia Mais Bela, Fernando Y Lety, La Fea Mas Bella, Lfmb
Visualizações 195
Palavras 3.984
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Me senti culpada pelo capítulo anterior, por isso estou postando esse tão rápido haha.

Capítulo 7 - Staying Alive


               Durante os meses que fiquei internada, aproveitei que não tinha muito o que fazer e comecei a fazer algumas pesquisas. Pesquisas de pessoas que sofreram alguma perda, de pessoas que estiveram à beira da morte, e pessoas que juravam que chegaram a morrer, mas por algum motivo um milagre aconteceu. Li coisas inimagináveis e algumas inacreditáveis, mas, se por um acaso alguém um dia me perguntar sobre minha história, ela também vai parecer inacreditável. Enquanto eu dormia, eu pude sentir minha respiração falhar. Eu já estava aceitando que em breve eu não estaria mais nesse mundo. Eu já começava a imaginar como seria o meu enterro, quem estaria lá, e se as pessoas iriam chorar ou dizer “finalmente”. Mas, nada disso aconteceu.

- Acho que ela está acordando.

- Será? Você disse isso há duas horas atrás e ela continuou dormindo.

- Não, definitivamente ela está acordando.

- É verdade!

- Lety, você está me ouvindo?

               Abri os olhos e por um tempo não consegui enxergar nada, com as vistas doloridas e a cabeça girando. Pisquei diversas vezes até me acostumar com a claridade, e quando isso aconteceu, vi Doutor Walter ao meu lado, acompanhado de Carolina e Ramon.

- Olá! – Doutor Walter sorriu.

               Eu não o respondi de imediato, ainda estava um bocado confusa.

- Está tudo bem. Você está um pouco confusa, mas logo isso vai passar. – Ele disse convicto. – Bem vinda de volta, Lety.

 

 

                                                                          •••

 

 

 

- Então, Lety. Como se sente? - Ramon perguntou.

- Confusa. - Respondi apenas.

- Isso é normal. - Doutor Walter sorriu. - Mas, o que importa é que você está muito bem.

- Alguém pode me contar o que foi que aconteceu? Por que ontem eu estava à um passo da morte, e agora estou tão bem?

- Porque você teve um salvador, Lety. Ou uma salvadora. - Dr sorriu. - Um verdadeiro milagre se quer saber.

- Quais as chances disso acontecer?

- Com certeza poucas. - Carol me olhou sorrindo. - Mas você está aqui agora. A doação chegou na hora certa, e graças a deus tudo correu bem.

- Só temíamos que você rejeitasse o coração. O seu corpo, na verdade. Mas realmente o destino estava ao seu favor.

Todos sorriam para mim, mas eu ainda estava confusa. Não tinha certeza se estava bem com tudo isso, já que eu estava com um coração que não era meu. Alguém teve que morrer para salvar a minha vida, e eu não sabia se era digna disso.

- Vamos deixar ela descansar um pouco. - Ramon disse. - Acho que ainda é muita coisa para digerir.

- Tem razão. - Dr. Walter disse. - Também precisamos fazer alguns exames, só para ter certeza.

- Nós voltamos depois, ok? - Carol beijou meu rosto.

Ramon sorriu e a acompanhou até a porta. Dr continuou a me olhar, mas eu não sabia exatamente o que dizer.

- Grande impacto, não é? Receber uma segunda chance assim.

- É... - Suspirei. - Eu não posso saber quem foi, não é?

- Não. Tem um protocolo para isso.

- O senhor também não sabe?

- Não. Mas com certeza a família dessa pessoa está satisfeita por ter salvo uma vida.

Eu o olhei.

- Ainda não sei como me sentir sobre isso. É normal?

- Sim, bem normal. Os pacientes que recebem doações normalmente demoram um tempo para aceitar tudo isso, por isso vou te indicar uma psicóloga.

- Quanto tempo tenho que ficar aqui?

- Não muito. Só o necessário para termos certeza de que está tudo bem. E depois, pode voltar à suas atividades normalmente. - Ele sorriu. - Todos fixaram muito felizes por você, Lety.

Sorri triste. Apesar de estar feliz por ainda estar viva, eu precisava de um tempo para aceitar tudo isso. E principalmente, precisava rever tudo o que tinha acontecido. Eu só queria ver uma pessoa naquele momento, mas infelizmente isso não parecia ser possível por enquanto.

- Vou pedir para trazerem algo para você comer, tudo bem?

               Balancei a cabeça concordando.

- Eu volto depois.

               No mesmo instante, a porta do quarto se abriu e por um segundo foi estranha a sensação de sentir meu coração disparar. Era estranho senti-lo bater e saber que até pouco tempo ele não pertencia à mim.

- Ah, Glenda. – Doutor Walter sorriu. – Chegou na hora certa para fazer companhia à ela.

- Com prazer, Doutor.

               Doutor Walter seguiu até a porta e Glenda se aproximou.

- Oi, Lety.

- Oi.

               Por um tempo Glenda ficou em silencio, apenas me olhando.

- Tudo bem, você pode dizer o que está pensando. – Sorri me ajeitando à cama.

- Meu Deus, foi uma coisa surreal! – Disparou. – Você estava fraca, Doutor Walter já estava esperando o pior. Por mais algumas horas você não estaria mais aqui, e... De repente... O pager tocou e nós ficamos perplexos! Era inacreditável que a doação tinha chegado na hora certa! Foi uma correria, eu nunca vi Doutor Walter tão ansioso e nervoso ao mesmo tempo, porque cada minuto desperdiçado era um problema. Ele foi para a cirurgia, mas ainda tínhamos medo do coração não ser compatível. Se isso acontecesse, não tínhamos mais nenhuma chance ou esperança. Mas olha, com certeza alguém lá em cima gosta muito de você, e acabou tudo dando certo. Para dizer a verdade, acho que nem em filmes isso acontece. Você teve muita sorte, Lety.

               Foi impossível não rir da empolgação de Glenda para contar a história. Obviamente ela seria repreendida por Doutor Walter por usar termos tão informais e por estar tão eufórica a ponto de praticamente pular de alegria enquanto falava. Mas, era por isso que eu gostava da companhia dela. Glenda era sincera, coisa que a maioria dos profissionais daquele hospital não eram, e isso me tranquilizava.

- Desculpe. – Ela tomou folego. – Eu não deveria contar tudo isso porque obviamente você está confusa.

- Um pouco, mas obrigada por ter me explicado tudo, agora as coisas fazem mais sentido.

               Glenda riu.

- Lety, é realmente muito bom ver você assim.

- Obrigada. – Abaixei a cabeça e encarei minhas próprias mãos. – Só não sei como reagir à tudo isso.

- Seja grata. À sua segunda chance, e à pessoa que fez essa doação.

- Mas eu não conheço essa pessoa. – Eu a olhei. – Não sei tudo o que ele ou ela passou até perder a vida. E se ele ou ela não quisesse que isso tivesse acontecido? E se ele ou ela sofreu tanto quanto eu, ou até mais? Eu devo ficar animada com isso?

               O sorriso dela diminuiu.

- Não, se for pensar assim...

- Eu não queria estar tão preocupada com isso. Eu queria muito estar animada como você, mas... Eu simplesmente ainda não consigo pensar que isso é uma coisa boa. Morrer para salvar a vida de outra pessoa... Eu nem sei se sou digna de tudo isso.

- É claro que é, Lety. Não diga uma coisa dessas...

- Eu simplesmente virei uma pessoa completamente diferente nesses últimos meses. Tudo porque eu estava com raiva de apenas uma pessoa. E acabei descontando em todos vocês.

- Você não teve culpa de nada.

- Eu tive culpa de ter quase morrido e ter passado meus últimos meses com o coração amargurado, e não digo isso por causa da doença.

               Glenda suspirou.

- Olha, eu entendo que você se sinta assim, mas... Você realmente teve uma segunda chance. Queira você ou não, você recebeu o coração de alguém. Vai querer desperdiça-lo tendo raiva de você mesma?

               Suspirei e voltei a encarar minhas mãos, sem saber o que responder à ela. Novamente a porta se abriu e meus batimentos dispararam outra vez. Eu realmente estava com esperança de que ele fosse aparecer magicamente na porta do hospital?

- Com licença. – Zac me olhou. – Douto Walter disse que eu podia entrar...

- Zac. – Sorri. – É claro.

               Zac adentrou o quarto e se aproximou da cama, me olhando com um sorriso triste.

- Fico feliz por você estar bem, Lety.

- Obrigada.

               Ficamos um tempo em silencio, até Glenda chamar nossa atenção.

- Eu vou deixar vocês dois conversarem à sós.

- Obrigado. – Zac sorriu.

               Assim que Glenda nos deixou a sós, olhei para Zac esperando que ele dissesse algo, apesar de estar envergonhada por ter recusado sua visita por tanto tempo, até que ele provavelmente se cansou de ir até o hospital para falar comigo.

- Quanto tempo, não é? – Ele alisou sua nuca.

- É... – Sorri sem jeito. – Desculpe por isso.

- Tudo bem.

- Eu não estava em um bom momento.

- Entendo. Para dizer a verdade, eu também não tinha certeza se deveria ter vindo.

- Não pense que só porque... – Interrompi a frase, suspirando triste. – Eu só não queria ver ninguém depois que ele foi embora.

- Eu sei disso. – Zac me olhou com pesar.

- Eu queria muito que ele estivesse aqui, só para eu gritar, e até mesmo bater nele! Queria descontar toda essa frustração em alguém, e descontar nele seria perfeito. O pior de tudo é que por mais que ele tenha me magoado e desaparecido da face da terra, eu naõ consigo odiá-lo.

               Zac novamente me olhou com pesar, mas dessa vez, notei que seus olhos marejaram.

- Eu sei.

               Notei que ele queria me dizer algo, mas parecia buscar coragem para isso.

- Você... Teve notícias dele, não foi? – O olhei esperançosa, e interpretei seu silencio como um sim. – Onde ele está? Está com outra? Está feliz? Satisfeito por ter me abandonado por dois meses? Ah, como eu queria bater na cabeça daquele... Idiota! Quando ele voltar eu...

- Ele não vai voltar, Lety.

               O olhei assustada, sem saber o que dizer.

- Como... Como assim não mais voltar? Ele não quer voltar, é isso? Ele realmente foi embora porque quis?

               Zac continuou em silencio e aquilo estava começando a me irritar.

- Fala, Zac! – Pedi impaciente.

- Eu vim porque tem algo sobre o seu doador que você precisa saber. – Zac disse com a voz embargada. – E você não vai gostar muito disso.

 

 

 

 

                                                                          •••

 

 

 

               Em toda a minha vida, eu jamais pensei em relacionamentos. Para mim, tudo o que importava era o meu emprego, e minha vida estabilizada. A única coisa que eu esperava para o meu futuro, é que eu tivesse economizado o suficiente para conseguir viajar, e principalmente, conhecer a neve. Ah, esse era o meu sonho desde criança. Para alguém que nasceu no litoral (e sim, eu gostava muito de viver ali), conhecer a neve era algo extraordinário. Mas então, foi em um dia comum que eu conheci a pessoa que mudaria a minha vida. Todos tinham o costume de chama-lo pelo sobrenome: Mendiola. Eu já tinha ouvido falar dele, mas nunca havia prestado muita atenção. Eu não costumava ir à loja de pesca porque a última vez que pesquei, voltei para casa com a roupa encharcada e com cheiro de aquário. Mas, naquele dia tudo mudou. Uma pequena ajuda para resolver o meu problema, e um simples convite para um encontro, que ainda não sei como raios aceitei aquilo.

               Ele parecia extremamente convencido, mas acabei descobrindo que ele era apenas um cara otimista que quase nunca dizia “não”. Ele me fez rir em nossa primeira conversa, e me fez sentir especial em apenas uma noite. Eu só não esperava que a partir daquela noite, ele se tornaria a pessoa que eu confiaria a minha vida. Passamos momentos incríveis juntos, e em todos eles, ele me fazia sentir ainda mais especial. Era como se eu o tivesse inventado, e por muitas vezes eu cheguei à pensar que ele era apenas fruto da minha imaginação em um momento de desespero. Mas, não. Ele não era fruto da minha imaginação, porque meus amigos conseguiam vê-lo também, e todos o adoravam.  Me lembro de quantas vezes Carolina me repreendeu por eu recusar o seu pedido para morarmos juntos:

- Você ficou louca? Ele é um príncipe! É o homem que toda mulher procura! Por que você simplesmente não junta suas coisas e vai para lá? Você praticamente mora lá.

- Porque ainda é cedo, Carol. – Expliquei pacientemente. – Não temos tanto tempo de namoro para passarmos uma vida juntos.

- Não acredito, Lety. Primeiro você diz que não vai aceitar ter um relacionamento com ninguém porque ninguém é obrigado à conviver com a sua doença. E o que acontece? Você conhece um cara que aceita totalmente sua situação, e ainda te ajuda à superá-la. E agora está me dizendo que não vai aceitar morar com ele, simplesmente porque não tem muito tempo de namoro? Você ainda tem duvidas de que ele é o cara certo pra você?

- Não, não tenho duvidas. Mas não é tão fácil assim, Carol.

               Ficamos duas semanas sem conversar por essa discussão. Carolina queria de qualquer maneira me convencer àquilo, mas eu estava decidida. Não me deixaria levar pelos meus sentimentos. Eu o amava, tanto à ponto de deixar todos esses “porém” de lado. Mas, nossa relação era especial demais para que eu fizesse tudo sem pensar. Eu detestaria fazer algo por impulso e acabar com tudo aquilo.

               Ele era o meu melhor amigo. Sabia tudo o que eu sentia ou pensava apenas olhando para mim. Eu não precisava me esforçar para desabafar sobre algo, porque parecia que antes mesmo disso acontecer, ele já tinha a solução para tudo. O meu maior medo era que ele fosse atingido por meus problemas pessoais, que envolvia minha doença. No momento que eu soube que o tratamento não estava mais funcionando, pensei em terminar tudo e dizer à ele que ele não merecia isso. Mas, eu deveria imaginar que ele não permitiria isso. Ele nunca permitiria me abandonar em um momento que eu mais precisava.

               Por isso senti tanta raiva dele por um momento. Quando soube que ele tinha ido embora da cidade no momento em que mais precisei dele, me senti abandonada. Desamparada. Eu senti raiva, como nunca havia sentido antes. Eu senti que a pessoa que eu mais confiava em toda a minha vida, tinha me traído. E traído da pior forma possível. Eu preferia chegar em casa e vê-lo com outra mulher na minha cama, do que ter passado por aquilo. Eu esperei que ele voltasse e se desculpasse, mas isso não aconteceu. E quando eu percebi que ele realmente tinha me abandonado, desejei que minha doença piorasse o mais rápido possível. Parecia ridículo da minha parte desistir da vida apenas porque me decepcionei com um cara. Mas, a verdade é que eu tinha medo. Nos últimos dois anos, minha vida tinha sido ao lado dele, que acompanhava todos os meus passos. E, de repente, eu estava sozinha. E eu não fazia ideia de como seguir minha vida sem ele.

               Ainda conseguia ouvir sua voz dizendo “estarei sempre ao seu lado”, e isso parecia uma idiotice depois de tudo o que aconteceu. Como acreditar em uma frase como essa, se ele simplesmente havia me abandonado quando mais precisei dele? Mas a minha raiva era maior ao pensar que mesmo depois de tudo isso, eu não conseguia odiá-lo. Não conseguia simplesmente tirá-lo da minha cabeça, e todos os dias, mesmo com a doença se agravando, mesmo com meu coração batendo mais fraco, à cada batida lenta e dolorosa eu suplicava para que ele voltasse. Desde que eu acordava até adormecer, eu esperava que ele voltasse. Eu esperava que sua frase fizesse algum sentido.

               Eu só não esperava que ele estaria mesmo ao meu lado, da forma mais surpreendente e louca possível. Eu não esperava que uma parte dele fosse me acompanhar pelo resto da vida. Literalmente.

 

 

 

                                                                                         •••

 

 

- Lety, deixa a gente entrar.

- Eu não sei mais o que fazer!

- O que está acontecendo?

- Ela não quer abrir a porta.

- Lety, sou eu. Doutor Walter. Abra essa porta.

               Fez-se alguns segundos de silencio.

- Viu só? Ela não quer ab...

               Assim que eu abri a porta, todos olharam assustados para mim. Carolina abriu a boca para dizer algo, mas novamente a fechou, provavelmente sem saber o que dizer pela primeira vez em sua vida. Zac tinha a culpa estampada em seu rosto, e Doutor Walter só estava confuso. E eu? Preferi não deduzir como estava o meu rosto depois de passar exatos quarenta e dois minutos trancada dentro do banheiro, chorando como nunca chorei em toda a minha vida, desejando que eu nunca tivesse sido salva, desejando que eu nunca tivesse recebido aquele coração.

- Está tudo bem? – Doutor Walter perguntou.

               Não tive coragem de responde-lo, porque a única resposta que passava em minha cabeça era “Não, eu não estou bem porque acabei de receber a pior notícia que eu poderia ter recebido, entre tantas outras”. Mas, ele não merecia que eu fosse tão sincera, então apenas caminhei em direção à cama e me deitei, silenciosamente. A frase de Zac estava impregnada em minha mente, e eu não conseguia parar de pensar nisso. Como? Como era possível que uma pessoa completamente saudável pudesse sacrificar a sua vida por alguém? Principalmente por mim? Era realmente difícil acreditar. Eu esperava que à qualquer momento Zac dissesse que era uma brincadeira de “bem vinda de volta”. Maldito Mendiola! Idiota! Idiota! Idiota! Ele não poderia ter sido capaz de fazer isso. Era algo inacreditável até mesmo para ele!

- Lety... – Carolina se aproximou. – Você precisa de alguma coisa?

               Sim. Preciso que diga que isso tudo é uma mentira, e que na verdade eu morri e estou no inferno.

- Acho que ela está em choque. – Zac disse.

- Em choque? Por que? – Doutor Walter perguntou.

               Zac o olhou com pesar e depois para Carolina.

- Você fica com ela por um instante?

- Sim, é claro.

- Doutor, podemos conversar?

               Os dois se afastaram, e Carolina sentou-se à cama.

- Não vou dizer nada, prometo. – Ela me olhou com pesar. – Só quero que saiba que seja lá o que esteja pensando, ele não ia querer que pensasse assim.

- Ele não ia querer? – A olhei incrédula. – E ele por acaso sabe o que eu queria? Ele por acaso chegou a se importar com isso? Carolina, o que ele fez... Eu... Não tenho palavras... Eu...

               Suspirei profundamente e minha garganta se queimou.

- Ele não tinha esse direito, Carolina.

- Eu sei, mas... Olha, você está bem agora, não está?

- Bem? – Senti meus olhos lacrimejarem. – Eu não estou bem! Eu estou péssima! Ele pensou que fazer isso me deixaria melhor, mas EU ESTOU PÉSSIMA CAROLINA! COMO RAIOS EU VOU CONTINUAR VIVENDO SABENDO QUE EU ESTOU COM O CORAÇÃO DELE? COMO EU VOU CONTINUAR VIVENDO COM ESSA CULPA? ELE TIROU A PRÓPRIA VIDA PARA ME DEVOLVER A MINHA, QUE TIPO DE PESSOA FAZ ISSO?

- Tem uma explicação para isso, Lety. Eu tenho certeza.

- NÃO, NÃO TEM EXPLICAÇÃO. Quer saber de uma coisa? Isso não é verdade. É uma brincadeira, não é? Ele mandou todos vocês fazerem isso quando eu acordasse. Posso apostar que à qualquer momento ele vai entrar por aquela porta dizendo que o doador foi uma mulher que sofreu morte cerebral e pediu no seu leito de morte que os órgãos fossem doados para que ela salvasse algumas vidas antes de morrer. E pode apostar que quando isso acontecer, eu vou dizer umas poucas e boas para ele.

               Carolina suspirou tão pesadamente que por um segundo eu a olhei, pensando se deveria ou não abraça-la. Eu queria acreditar na minha imaginação, e queria acreditar que eu não deveria ficar tão mal porque à qualquer momento aquele idiota entraria no quarto se desculpando.

- Tudo bem, Carol. Não precisa ficar assim. – Segurei sua mão. – Quando ele voltar, ele vai se desculpar com você também.

               Carolina colocou as mãos em seu rosto e eu notei seus ombros se mexendo. Ela estava chorando.

- Carol?

- Desculpe, Lety. – Ela disse com a voz abafada pelas mãos e pelos soluços. – Eu deveria estar aqui para te apoiar, e não piorando a situação.

- Mas, o que...?

- Desculpe, desculpe mesmo. Eu prometo que... – Ela se levantou e enxugou as lágrimas rapidamente. – Eu prometo que assim que eu puder eu volto, tudo bem?

- Mas...

               Sem esperar que eu dissesse algo, Carol beijou o topo da minha cabeça e saiu às pressas do quarto. Eu não entendi absolutamente nada daquilo, mas me senti péssima. Ele realmente teria muito o que se desculpar quando voltasse. No mesmo instante que Carol saiu correndo e chorando do quarto, Doutor Walter voltou, com os olhos vermelhos. Por que raios todos estavam com os olhos vermelhos?

- Carolina enlouqueceu. – Falei olhando-o. – Sinceramente, isso já está passando dos limites. Aquele idiota do Mendiola causou um caos nesse hospital com essa brincadeira de mal gosto.

               Ao se aproximar da cama, Doutor Walter deu um longo e pesado suspiro e tocou em meu ombro.

- Lety, você me dá permissão para te medicar?

- Medicar? Por que? Tem algo errado?

- Não. Você só... Passou por muitas coisas hoje. É melhor que não fique tão nervosa.

- Do que está falando?

- Vai ser melhor para você, eu prometo. Só preciso da sua permissão.

               Eu não sabia exatamente o que estava sentindo. Minha cabeça rodava, e não seria tão ruim assim receber um medicamento para dormir o restante do dia. Até lá, eu esperava acordar com todo mundo ao meu lado dizendo que tudo não passava de uma brincadeira.

- Tudo bem. – Respondi escorando a cabeça no travesseiro. – Só me acorde quando ele chegar. Quero dizer muitas coisas à ele.

               Doutor Walter balançou a cabeça concordando, mas percebi que ele estava segurando as lágrimas. Deixei que ele me medicasse, e não demorou para que eu pegasse no sono. Foi a primeira vez desde que acordei que pude me sentir aliviada, mesmo com a cabeça à mil.

 

 

 

                                                                          •••

 

 

 

Eu já estava sozinha há algum tempo, e por mais que eu desejasse isso, de certa forma senti um vazio. Eu precisava ter alguém ao meu lado naquele momento, mas alguém que realmente me entendesse, e não que dissesse apenas "tudo vai ficar bem". O efeito do remédio ainda não havia passado, por isso eu estava apenas deitada à cama, encarando o teto. Meu corpo estava leve, mas minha cabeça parecia prestes à explodir. Me peguei imaginando se Doutor Walter não tivesse me dopado, como eu estaria. Enquanto eu encarava o teto, alguém bateu à porta do quarto e a abriu lentamente. Era um homem. Seu rosto não me era estranho, mas eu tinha certeza que nunca tínhamos sido apresentados. Eu ainda estava um pouco confusa e tonta por conta do medicamento, mas poderia jurar que já tinha visto aquele rosto antes.

- Você é Letícia Padilha? – Sua voz era grave e séria.

- Sim. - Respondi com certo receio.  – Nós nos conhecemos?

- Não. Não pessoalmente.

- Desculpe. Não é um bom momento.

- Eu sei. Não estou aqui para te incomodar, e... Eu sinto muito pela sua perda.

Ele me encarou como se eu já soubesse quem ele era, e de fato eu sabia. Depois de encara-lo por um tempo, eu me lembrei de onde tinha visto aquele rosto. Em diversas fotografias.

- Você é o primo dele.

- Sim. Eu... posso entrar?

Balancei a cabeça concordando, e ele adentrou o quarto, aproximando-se da cama. Era notável seu rosto triste. Eles eram grandes amigos apesar da distância.

- Sinto muito estarmos nos conhecendo em um momento assim. Eu não queria que fosse dessa maneira, mas... ele me pediu para vir aqui.

- Ele te pediu? Quando?

Depois de um pesado suspiro, ele me olhou com a feição ainda mais triste.

- Tem algumas coisas que preciso te contar, Leticia. Mas antes quero me apresentar.

Continuei em silêncio, esperando que ele continuasse a falar. Algo me dizia que seria uma longa conversa, e eu não costumava me enganar.

- O meu nome é Fernando. Fernando Mendiola.

 


Notas Finais


Esclarecendo algumas coisas:
Primeiramente: Não sei se alguém reparou que até então em nenhum momento eu citei que o homem desde o início da fic era o Fernando (ele só era mencionado como Mendiola, que é o nome da família).
Segundo: É claro que eu jamais faria uma fanfic Ferlety sem o Fernando, não teria sentido não é? rs
Terceiro: A fic ainda é BEM sofrência, mas ao menos agora vocês sabem que nada aconteceu com o Fernando, e que a história dos dois ainda está por vir.
Quarto: Espero que não se zanguem comigo, até porque o cara que vocês conheceram desde o início da fic realmente era uma ótima pessoa, porém algumas coisas irão fazer sentido mais pra frente.
Quinto e ultimo: Sei que até então a história está um pouco confusa e corrida, mas eu vou explicar tudo direitinho agora que já revelei a parte principal da história. Eu não poderia fazer isso antes de revelar que aquele não era o Fernando, por isso agora que vocês irão entender algumas coisas que ficaram no ar.

E então.... Ainda estão vivas para continuar a história? haha Espero que sim.


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