História The Age of Regina - Capítulo 1


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Categorias Once Upon a Time
Personagens Anna, August Wayne Booth (Pinóquio), Capitão Killian "Gancho" Jones, Cora (Mills), David Nolan (Príncipe Encantado), Elsa, Emma Swan, Henry Mills, Mary Margaret Blanchard (Branca de Neve), Neal Cassidy (Baelfire), Príncipe James, Regina Mills (Rainha Malvada)
Tags Emma Swan, Regina Mills, Swan Queen, Swanqueen
Exibições 303
Palavras 9.717
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), FemmeSlash, Orange, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Universo Alternativo, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Boa tarde. Essa one-shot é muito especial para mim. Envolveu-me por muitas horas e exigiu muita dedicação. Baseei-me apenas em essência em um filme que muito me agradou, The Age of Adaline (A Incrível História de Adaline). Espero que leiam com calma e que apreciem. :)

Música-título do capítulo: Immediate Music - Where We Met. Eu rogo para que vocês escutem a canção, leitores. É instrumental, curta e doce, e muitos de vocês a reconhecerão do filme "Carol".

Boa leitura. :)

Capítulo 1 - Capítulo 1 - Where We Met


Fanfic / Fanfiction The Age of Regina - Capítulo 1 - Capítulo 1 - Where We Met

 

 

Emudece o fatídico dia do acidente que mudou minha vida para sempre, remoto e obtuso em minha memória enquanto rascunho as páginas amareladas com nanquim, deslizando a pena pela superfície lisa e propositalmente envelhecida do papel. No andar superior, em meu escritório, não há quatro paredes padronizadas, mas duas fixas para o corredor da casa e duas feitas inteiramente de vidro, possibilitando-me a graça luz natural e a bela paisagem que me cerca: o gigantesco Lago Erie; os barcos brancos e amarelos, com nomes de moças, mães e artistas; as árvores tantas de folhagem alaranjada, com seus troncos cheirosos e escuros; o som da fauna e o orvalho na relva; a candura do Sol, aquecendo-me; a vida passeando em devaneios ao meu redor. Vida...

Hoje comemoro trinta e um anos. Espero por este dia, por esta data, há mais ou menos um século inteiro. Para que possa esclarecer os fatos acerca de quando faleci, de quando adormeci, de quando renasci e de quando voltei a viver, preciso rememorar a longa travessia iniciada no dia dois de fevereiro de 1935.

Um caro amigo de infância, Neal Cassidy, falecera de uma doença não diagnosticada, silenciosamente levado deste mundo. No Norte da Califórnia, onde morava em um bairro isolado no litoral com seu marido Graham e sua filha Wendy, meus pais me esperavam para que pudéssemos prestar homenagens e tentar reconfortar o Senhor e a Senhora Gold, seus pais. Minha irmã nunca tivera amizade com Neal como eu, portanto, permaneceu em casa. August ofereceu-se para me acompanhar, mas pedi que ficasse com seu pai, já debilitado para tocar sua loja sozinho. Daniel, meu noivo, não poderia se ausentar para vir, pois seu trabalho como fotógrafo no Jornal Daily News o enviara para a Inglaterra, para seguir os eventos de Watson Pratt, o físico britânico que criou o primeiro radar. Sem tempestuar, fiz as malas e solitariamente me guiei ao funeral de Neal.

Ainda me recordo do ardor selvagem da neve naquele dia. Batia no volante do carro, assoviava em distração, chupava balas doces demais para pensar em qualquer outra coisa, mas o caminho parecia cada vez mais lento e tedioso. Sempre fui uma menina impaciente e determinada, que dispensava delongas e estava constantemente em busca de um novo conhecimento ou atividade, evitando o ócio como quem não suporta parar a si próprio e entregar-se às grandes reflexões. Nem mesmo quando escrevia um dos contos publicados nos jornais do Public Garden permitia que minha mente me escapasse do controle habitual. Sob a tempestade da estrada, no carro silencioso, não fui furtiva quanto a esse traço de personalidade.

Acelerei como se estivesse em uma corrida imprudente. Então, de repente, não sei mais expressar em palavras sólidas o que me ocorreu. Mas lembro-me bem do que senti. O carro derrapando na neve, livre. O para-choque chocando-se contra uma cerca de ferro e madeira, destruída. Descendo sobre a terra, veloz, irrefreável. Mergulhando no rio, fundo, estilhaçando a fina camada de gelo sob a superfície, destroçada. Meu corpo contra a água congelante, choque. O reflexo das minhas próprias defesas ativadas, roubando minha respiração e diminuindo meus batimentos cardíacos, tênue. Pude ouvir como um tambor lento ao longe, silenciando-se. Senti a dor me consumir, rude. Um minuto, dois, três, quantos foram? Fúnebres. Minha temperatura interna caindo como se estivesse prestes a morrer. Meu coração finalmente para, mudo. Mas não morro, sei que não morro, estou imóvel, mas consciente de tudo, como num sonho louco. Então, o raio atinge a lataria creme exposta do carro, eletrocutando tudo ao seu redor. Quinhentos milhões de volts, sessenta mil ampères. Meu coração bate uma única vez. Quinhentos milhões de volts, sessenta mil ampères. Respiro, quase desperta, semiviva, semimorta. Quinhentos milhões de volts, sessenta mil ampères. O fenômeno físico inexplicável sobre o qual ninguém sabia, sobre o qual eu jamais entenderia.

Eu era uma mulher literária, não exata.

Sem teorias científicas esclarecedoras, sem crenças inalcançáveis e acalentadoras em minha alma, simplesmente aconteceu. Eu nunca mais envelheceria. A devastação e força do tempo nunca, nunca me conduziriam.

Desde então, o mundo tornou-se minha biblioteca, meu parque de diversões, meu passatempo. Há quem tome o conceito para si com otimismo, com alegria. Carpe Diem! Viva e deixe viver! Mas quando o tempo deixa de existir, mal sabem os que acreditam ter pensamento liberto, a vida nos abandona com ele, extingue-se, escorrendo entre nossos dedos. Vida líquida, memória líquida, ambição líquida, imparável, irrecuperável. Meu casamento com o adorável Daniel Colter, marcado para o dia dezessete de setembro de 1935, esvaiu-se. As férias programadas com Cora, minha mãe; Henry, meu pai; e Zelena, minha irmã, esvaíram-se. As noites aleatórias de leitura com meu caro amigo August Wayne Booth, editor e encadernador na ilustre livraria Wayne’s Travels, em homenagem ao livro favorito de seu pai, “Gulliver’s Travels, de Jonathan Swift, esvaíram-se.

Porque nem mesmo meu carinho por meu noivo, minha família e meu amigo poderiam suprir e aplacar a agonizante ciência de que, quando cada um dos rostos que conheci e amei desaparecesse da face da terra, nela eu permaneceria. Como criar laços estando aprisionada a uma existência onde tudo o que mais preza está destinado a acompanhar os passos do tempo enquanto você jaz imune a ele?

Como um rato surrupiador de sobras e migalhas, na calada da noite eu fugi. Sem cartas, sem despedidas, sem lamentações. Para quê, afinal?

Meus olhos assistiram o mundo acontecer. Crente de que não me restaria a eterna solidão e lamúria, eu participei de suas pequeno-grandiosas transformações. O New Deal. A Grande Depressão. O Imperador etíope. A Segunda Guerra Mundial e cada segundo de sua devastação. Vi eclodirem Mussolini, Franco, Stálin, Hitler e Salazar. O Estado Novo no Brasil.  Vi quando fundado o Estado de Israel. Roosevelt criar o Kings Canyon. A Declaração das Nações Unidas ser assinada. O Estado finalmente declarar a igualdade entre caucasianos e negros, embora os efeitos da lei não fossem suficientes contra o ódio e a injustiça. O primeiro coração artificial. O primeiro satélite artificial. A primeira nave espacial. Martin Luther King fazer seu discurso “I Have a Dream”. James Meredith ingressar na Universidade como o primeiro estudante universitário negro, um homem que tive o prazer de conhecer. A Guerra do Vietnã. O acidente da Apollo I. O assassinato de John Lennon, cuja vigília na frente do edifício Dakota contou com minha presença e lágrimas. Fui uma ávida fã dos Beatles. O ônibus espacial. O primeiro site na internet. A Guerra no Iraque. Meus olhos assistiram o mundo embelezar e apodrecer ao mesmo tempo. Vi o desenvolvimento da música, das artes, da arquitetura, da automobilística, da política. Tantas primaveras, tantos escândalos, tantas e tantas mudanças passaram diante de mim, eu as vi chegar e as vi partir.  

Antes do acidente em 1935, era uma escritora. Acredito que foi o único aspecto em minha vida que se manteve intacto. Em 1940, fui, no México, o poeta surrealista Salazar Guillén, cujas obras eram publicadas semanalmente nas colunas do Jornal Nuevo Día. Escondi-me no pseudônimo masculino através da ajuda do primeiro romance, embora fugaz, que nutri depois de abandonar meu noivo. Seu nome era Keith Rivera, um editor do Nuevo Día.

Em 1950 fui, depois de fugir do México, indo parar na Itália, Florence Pomponazzi, uma melancólica poetisa independente. Essa melancolia refletiu-me, pois foi este o momento no qual percebi que o tempo, de fato, não me daria a mão. Na Itália conheci a jovem aristocrata Gaia Libre, uma mulher arredia, com a qual conheci o que creio ser um estado próximo dos limites de uma paixão secreta violenta e incendiária.

Contudo, em 1960, lá estava eu, fugindo novamente, ciente de que jamais poderia ter uma vida normal ao lado de alguém. Em 60 fui para a Irlanda, para Waterford, morar perto do Rio Suir e trabalhar como professora de literatura no Colégio Lir. Se não me falha a extensa memória, nessa época chamei-me Fiona Foley, apelidada curiosamente pelos alunos de Senhorita FF, gerando diversão por ser justamente a única professora do colégio a nunca dar F a nenhum aluno, dando-lhes a chance de recuperar suas notas.

Foi na Irlanda, em uma viagem para Dublin, que conheci Brennan Jones. Brennan era um Oficial da Marinha belíssimo, além de um amante de Júlio Verne. Diferente de Keith e Gaia, tive com Brennan acidentalmente meu único filho, Killian Jones, em 1964. Lembro-me de parar na ponte do Rio Liffey por cerca de três horas após saber da gravidez, refletindo sobre afogar-me nas profundezas e livrar-me para sempre de toda a agonia da minha condição. Não pude. Não pude perder Killian. Quando meu pequeno Killian completou seis anos, eu novamente desapareci. Desapareci para Brennan, mas secretamente permaneci, de algum modo, perto, comunicando-me com meu menino.

Finalmente fui capaz de confiar em outro ser humano. De 1970 a 1980, fui Olivia McClair, a romancista polêmica inglesa, trocando somente cartas e telefonemas breves com Killian. Mas em 1985, quando estava na França sendo Amélie Debord, a escritora de dramas bélicos, meu filho foi me visitar com seus vinte e um anos. Senti-me respirar pela primeira vez em décadas. Contei-lhe toda a verdade. Absolutamente tudo. Estremeci, derramei lágrimas, gritei. Gritei de raiva, de inconformidade, de alívio e de paz. Killian foi minha única paz e, devido à sua presença constante e acalentadora, os romances que duravam uma década terminaram, restando somente casos aleatórios e insignificantes.

Quando se é inalcançável ao tempo, quase tudo se torna insignificante.

Em 1993, o pai de Killian faleceu em uma expedição marítima naufragada, que ironicamente seria sua última antes de aposentar-se. Voltei à Irlanda para ser Gwineth Jones, sua amiga desconhecida que passaria a morar em sua casa. As especulações sobre um romance entre Gwineth e Killian em Waterford renderam a mim e ao meu garoto incontáveis horas de risos e brincadeiras.

Enfim, em 1999, voltei aos Estados Unidos, New York, desta vez com meu filho, aprovado para ingressar em Música na Eastman School, na Universidade Rochester, como Regina Mills, mais uma vez. Lembro-me perfeitamente da sensação de voltar para casa, para as propriedades da família Mills que ficaram em nome dos filhos de minha irmã Zelena. Não soube se ela estava viva ou não, ou mesmo o que ocorrera com meus pais. Foi uma dor que não fui capaz de enfrentar, nem mesmo com a segurança de que Killian estaria comigo até o mais denso pesar.

Voltando como Regina Mills, tornei-me novamente escritora, desta vez da literatura fantástica, minha predileta, perdendo somente para a dramática. E foi no primeiro dia de Janeiro de 2001, na virada do século, que vi dar início a ruína da minha existência para renascer para a vida. Vida, o que abandonei há tantos anos, ao mesmo passo em que o tempo me abandonou com o acidente.

Killian, agora com trinta e cinco anos, invade meu escritório em nossa casa ao cair da tarde e arranca a folha da máquina de datilografar, a qual amava para rascunhar ideias, sentando-se na ponta da mesa e amassando o papel.

– É a virada do século. Não permitirei que fique em casa escrevendo.

– E o que deseja, meu querido? – Rio de seu olhar traquino. – Que eu o acompanhe ao bar hoje à noite e junte-me aos seus amigos e à sua namorada para falar das longas trajetórias dos artistas Folk?

– Eu desejo que acene para o novo século e para o novo ano com alegria. A senhora sempre me disse o quanto amava dançar. Vá a algum lugar e... Dance, mãe, só isso. Minha antiga professora de teoria, Kathryn Nolan, esteve dias atrás na Universidade e me pediu para convidá-la para a grande festa que terá no Hotel Royal, para acompanhá-la. Acho que ela está interessada em você, agora que descobriu que eu e você não somos um casal, acreditando que somos apenas amigos, quando nós dois sabemos que sou seu filho! – Explode em sua agradável risada.

A novidade me surpreende. Killian, após formar-se em Música, continuou estudando em Rochester para especializar-se o quanto fosse possível no mundo dos sons e silêncios que tanto amava. Estava no terceiro curso, aprofundando-se no em Terapia Musical e é curioso saber que sua professora do primeiro ano do primeiro curso ainda recorda-se de mim, a amiga de Killian que agia como sua mãe.

Ainda me lembro quando, há quase dois anos, conheci sua namorada, a estudante de literatura, Belle French:

“– Não consigo expressar minha alegria em finalmente conhecê-la, Senhora Jones. – Me envolve em um abraço apertado e sinto quando a capa do livro toca minhas costas com suas mãos. Percebo quando Killian arregala os olhos e baixa as sobrancelhas como um garotinho acanhado, denunciando que, para sua namorada, como sua mãe, sou a Senhora Jones.

– Seja bem-vinda à nossa família, Senhorita French. – Sorrio.

– Eu devo chamá-la de Senhorita Mills, como comandam os seus livros? – Estica em minha direção os braços trêmulos, imagino o quão nervosa esteja nesse momento. – Você é... Simplesmente a minha escritora predileta! Sua literatura, seus universos e suas ideologias são tão coniventes com as grandes escritoras do século passado, a italiana Florence Pomponazzi, a inglesa Olivia McClair, a francesa Amélie Debord! Mas... Como posso dizer? É como se você as colocasse no mesmo espaço e as trouxesse ao nosso tempo, é brilhante!

– Chame-me de Regina, querida. – Sorrio. Minha expressão estarrecida somente Killian pode decifrar. Como ela saberia que eu fui cada uma dessas escritoras que ela tanto admira? – Estou grata e contente em saber que aprecia meu trabalho. Meu filho contou que você ambiciona uma carreira literária.

A parte mais divertida é Belle sequer poder suspeitar de que fui eu mesma Florence Pomponazzi, Olivia McClair e Amélie Debord. “

 

Oh, meu menino... Meu homem que sempre será um garotinho aos meus olhos. Presa nos trinta e um anos enquanto ele encontrava-se nos trinta e cinco. Agiu sempre tão naturalmente que por vezes duvidei que ele pensasse como eu. E eu pensava... Um dia eu provavelmente verei meu pequeno irlandês deixar este mundo, partir desta vida. E aqui ficarei.

Meu belíssimo rapaz de penteado charmoso, barba bem feita, jaquetas de couro, coturnos surrados, sorriso malandro. Tão desbocado e arteiro e também tão sensível e dengoso.

– Ligue para Kathryn e diga que aceito seu convite.

– Não zombe de mim, mãe. – Sua voz grave esmorece.

– Killian Jones-Mills-Pomponazzi-McClair-Guillén-Foley-Debord! – Brinco. – Não estou zombando de você. Ligue para a Senhorita Nolan e diga que aceito seu convite antes que eu mude de ideia.

Ele se levanta da mesa e me estuda, caricato. Pula em meu colo como se ainda tivesse seis anos, enchendo-me de beijos, raspando a barba áspera em meu rosto, um travesso. Meu... Menino.

– Eu te amo! – Exclama. – Regina, Florence, Salazar, Fiona, Amélie, até Gwyneth! Eu te amo, mãe!

 

(...)

 

O Hotel Royal é uma das construções modernas mais belas que já vi em todas essas décadas observadoras. Dourado e imenso, repleto de gente e de luz. No salão lotado, embalado pelo Jazz, Kahtryn Nolan envolve-me em uma conversa agradável enquanto nos embriagamos com champanhe.

– Sim, Senhorita Mills, eu fui uma menina mimada por dois irmãos dez anos mais velhos. David e James, gêmeos, me fizeram uma jovem difícil de lidar!

– E seus pais não se opuseram a tal comportamento? – Sorrio para sua empolgação saudosa.

– Ruth e George sempre trabalharam muito, mal tiveram tempo de ver o monstrinho no qual David e James me transformaram. Mas... Estou falando muito sobre mim! Gostaria de falar sobre o motivo do meu convite. Se eu bem conheço seu amigo, Killian deixou minhas intenções ao seu respeito muito suspeitas.

– Impossível deixá-las mais suspeitas, Senhorita Nolan. Eu nada menos espero do feitio de Killian.

Rimos juntas. Como eu disse: Um eterno menino.

– Se me permite dizer, a Senhorita é uma mulher atraente e nossa conversa me envolveu tanto que sequer percebi já ser tarde, nove horas! – Exclama sorrindo, olhando seu relógio de pulso. – Mas confesso-lhe que estou perdidamente apaixonada pelo professor de percepção, creio que se lembre de Frederick.

– Congratulações! – Brindamos. – Alegro-me por você, mas ainda não compreendo o que me traz aqui além de uma boa companhia.

– Pode parecer embaraçoso... – Pigarreia. – Mas eu gostaria de apresentá-la a alguém. Minha sobrinha, filha de David, Emma Swan, formou-se recentemente na Cornell e, para a alegria da família, ingressou no New York Times.

– Eu a parabenizo novamente, vocês devem estar orgulhosos. – Brindamos mais uma vez, embora ainda não saiba o que Kathryn planeja.

– Acredite, nós estamos! – Explode em um belo sorriso. – Emma precisa fornecer-lhes um artigo a respeito de escritores contemporâneos. E... Bem...

– Acredita que eu possa ser essa escritora.

– Emma leu suas obras, Senhorita Mills e... Eu nunca a vi tão encantada por escritor ainda não renomado. Definitivamente você poderia ser essa escritora.

Antes que possa responder, duas grandes mãos tapam os olhos de Kathryn e Frederick sorri para mim.

– Ganhará um beijo se adivinhar quem é. – Ele desafia.

– Hum... – Kathryn estala a língua, rindo. – Com mãos tão fortes, só pode ser o professor de rítmica, o atraente Robert Locksley.

– Ele tem mesmo mãos fortes, acho que a deixarei aqui para beijá-lo.

A loira se vira em seus braços e o beija. É, de fato, um belo casal.

– Regina, eu preciso dançar. – Alcoolicamente alterada e entusiasmada pela presença do rapaz, ela ri. – Emma deve estar chegando. Você poderia...?

– Arrasem na pista, crianças. – Assinto, tentando não revelar o quão estranho será apresentarmo-nos sozinhas, eu e sua sobrinha.

Kathryn e Frederick dançam romanticamente pelo salão. Se tivessem me dito que poucos minutos depois conheceria a mulher que mudaria minha vida, provavelmente teria fugido dali na primeira oportunidade.

Surge diante de meus olhos como uma visão paradisíaca e celestial. Todos no Hotel Royal usam vestidos perolados, saltos finíssimos, ternos de seda e gravatas brilhantes. Todos se movem com o queixo empinado, os braços tensos e os olhares distantes. Ela não. Ela surge com botas baixas, de cordão. Com jeans skinny de lavagem delavê. Com uma jaqueta de couro vermelha e negras luvas de cetim. Sem joias e sem maquiagem. Lábios entreabertos, finos. Olhos verdes, vivos. Cabelos loiros, trançados, caídos no ombro direito. Andar despreocupado, solto. Vasculha com os olhos – e que olhos –, creio que em busca de sua tia, porque sei que é ela, sei que é Emma Swan. É linda... Tão linda quanto o primeiro dia do verão, que descobri ser lindo nos Estados Unidos, no México, na Itália, na Irlanda, na Inglaterra e na França, sempre díspar, mas sempre fascinante.

– Emma Swan? – A chamo, sem controle dos meus atos.

– Regina Mills? – Um sorriso estonteante abrilhanta seu rosto. – Claro! Que pergunta estúpida! Você é Regina Mills! Muito prazer!

– O prazer é todo meu. – Apertamos as mãos. – Então, você é uma jovem jornalista em busca de um escritor contemporâneo?

A conversa de Kathryn foi agradável, mas a de Emma Swan é... Desbravadora. É enérgica, curiosa, perspicaz. É tão ávida de saber, responsável, sonhadora em seus vinte e oito anos. Seus olhares são enigmas, sua voz é empolgada, matreira. Sua risada é musical. A única em todo o Hotel refinado que bebia cerveja e gesticulava bruscamente, rindo, rindo com sua alma, como se tudo fosse empolgante ao seu redor. Há muito eu não sei o que é rir assim, mas... Mas rio dela e de seus gracejos. Rio quando ela tira suas luvas e entrega a um garçom que carrega a bandeja todo trêmulo pela prata estar gelada demais, convencendo-o a vesti-las e aquecer as palmas. O garçom sorriu pelo resto da noite.

Emma e eu não falamos apenas de trabalho. Sua infância está no repertório, suas vontades, seus gostos e desgostos. Por ventura, pelo álcool, ou talvez pela presença intrigante dela, acabo revelando mais sobre mim do que espero. Percebo ali, com ela, que mesmo após quase um século ausente dos efeitos do tempo, eu ainda tenho vontades, ainda tenho gostos e desgostos, ainda sonho, sonho tão intensamente quanto antes. Aliás, por um instante ou dois, pergunto-me se não estou sonhando com a jornalista de olhos verdes.

– Vejo que já se conheceram! – Kahtryn surge vermelha de tanto dançar, nos braços de Frederick, mais bêbada do que antes. – Ela não é linda? O que me diz?

– Linda? – Emma me sorri e suspira. – Ela é... Deslumbrante.

– Acho que a pergunta foi para a Senhorita Mills, Emma. – Frederick repreende um riso, falhando miseravelmente.

Emma Swan enrubesce, contornando a garrafa de cerveja com os dedos, seus olhos longe dos meus, inquieta, envergonhada. Que adorável ela é.

– Sim, Kathryn. – Respondo finalmente. – Ela é linda.

Onze horas, se bem me lembro. Kathryn e Frederick desapareceram como se nutrissem um romance proibido e Emma tomou minha mão para dançarmos, que foi o intuito da minha noite, segundo o que Killian me pediu. Sua dança não é elegante, mas envolve a mim de tal forma, que sinto apenas nós duas no centro do salão. A mão agora nua que segura a minha, o braço que agarra minha cintura e não permite que nossos corpos fiquem separados, nem mesmo por um segundo sequer. Os rodopios são suaves e sua respiração é descompassada; as mãos deslizam em minhas costas conforme os gêneros variam, em uma carícia gentil, e seus olhos me devoram despudoradamente. Tudo nela é contrastante. Emma fala sobre o bigode exagerado de um banqueiro, sobre as plumas prateadas de uma dondoca, até mesmo sobre como ela acreditava que os garçons deveriam ser dispensados a cada meia hora, divididos em dois grupos, para que também pudessem aproveitar as alegrias da noite. Faz-me rir espontaneamente com seus pensamentos randômicos divertidos.

Um saxofonista acalorado e um vocalista dançante sobre no palco e interrompem as baladas suaves para entoarem “You’ll Never Find Another Love Like Mine”, de Gamble e Huff, mundialmente conhecida pela interpretação arrebatadora de Lou Rawls. A atmosfera de alguns pares se desfaz imediatamente, como se estivessem despertando, mas não a nossa. Envolvo seu pescoço com meus braços e os seus abraçam-me pelas costas, firmes, possantes. Emma canta sussurrante a letra em meus ouvidos e não sou capaz de conter minha risada, afinal, Louis Allen Rawls é um cantor consagrado do Soul, Disco e Jazz, enquanto ela tem uma voz aguda e suave, quase infantil, como uma criança que descobre o dom da música lírica.

Quando meus olhos encontram o grande relógio de bronze na parede atrás da orquestra, estremeço. Onze horas e cinquenta e sete minutos. Afasto-me, necessito. Dois passos para trás, incontrolável. A interrogação em seu rosto, esmagadora. A sensação de pânico que se espalha dentro de mim, agonizante.

– Todos prontos para a virada do século, pessoal?! – O dono do Hotel, um velho burguês pomposo, Leopold Blanchard, ergue uma taça para os presentes.

Aplausos ecoam. Mais dois passos para trás. Seus olhos me perseguem. Quando Kathryn surge com Frederick e abraça a sobrinha, encontro minha chance de fuga, a única. Disparo a passos largos para fora, cruzo o corredor do saguão, as portas giratórias, encaro o vento gelado da noite nova iorquina e tento, em vão, respirar. O que estava pensando ao ouvir os apelos de Killian? Deveria ter permanecido em casa. Não posso me aproximar, nem mesmo por um dia, das pessoas dessa maneira, não mais. Mas aqueles olhos verdes piscam em minha mente como duas estrelas-guia.

Encosto-me em meu carro e desfaleço, sentando-me o capô e deixando a cabeça tombar na lataria. Anos e mais anos e ainda sou capaz de cometer tamanha tolice. Deito-me ali, observando o céu, perguntando-me quando colocarei fim a este tormento que me tornei. Estúpida! Estúpida!

Fecho os olhos e permito-me esvaziar de pensamentos, ao menos por enquanto. Em um minuto os fogos de artifício explodirão por quase uma hora, pessoas sorrirão, brindarão, se abraçarão. Em um minuto a alegria tomará conta de toda a cidade, incendiará cada esquina, cada beco, cada avenida ausente de gente e de automóveis. Em um minuto, ninguém, ninguém além de mim, estará sozinho para ver o novo século. É assim que deve ser. É assim que para sempre deverá ser.

Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Explosões. Explosões de plenitude em toda parte. Mas nenhuma explosão poderia se comparar à que me ocorre dois segundos depois.

Um beijo. Um simplório e cândido beijo estala em meu rosto. Viro-me como se o tempo voltasse a existir para mim, mas voltasse lentamente, voltasse em velocidade absurdamente reduzida. E lá está ela.

Emma Swan, deitada ao meu lado no capô do carro, com sua trança desfeita e longos cachos dourados espalhando-se no metal negro. Ela olha para o céu colorido de explosões e sorri, depois me encara e sussurra

– Feliz ano novo, Regina.

Por mais que me esforce, não obtenho sucesso ao tentar remontar o quebra-cabeça que aquela noite de ano novo se tornou para mim. Lembro-me de breves instantes somente. De rolar no capô e beijá-la como há décadas não me sentia desejosa. O hálito, a pele, o perfume dos cabelos. De voltarmos ao Hotel Royal às pressas, surrupiando qualquer chave do painel, uma vez que os porteiros também estavam comemorando. De ser prensada contra a porta, de ser despida, de ser rasgada. De tentar fugir de seus olhos hipnotizantes. De domá-la sobre os lençóis e sentir-me deliciosamente impura ao fazê-la gemer de dor ao arranhar sua carne e estapear suas nádegas até que o vermelho enfunasse sua epiderme. De morder barbaramente seus ombros quando, abruptamente, sinto-me tomada, embriagada e energizada pela deleitável invasão. Lembro-me perfeitamente, em uma memória de fogo, de gozar e ser possuída novamente, de gozar e ser possuída pela terceira vez, e pela quarta vez, intrinsecamente tudo como se fosse a primeira vez, como se eu já não estivesse inteiramente rendida à ela e ela à mim. Eu estava. Quando a vi atravessar o salão do Hotel, eu já estava.

O mundo, meu passatempo, era uma pintura monocromática, cuja única cor tinha nome e sobrenome: Killian Jones. Com a chegada imprevisível de Emma Swan, aquela jovem e destemida jornalista, junto ao meu amado musicista irlandês, fez a tela explodir em cores, aquarelou os cinzas, brincou de festejar em mim. As cores saltaram do quadro, transbordaram pelas molduras, borraram-me inteira, de dentro para fora. Por um ano, Emma trouxe alegria para nós dois. A mim, porque pensei que havia desistido dela. A Killian, porque meu filho confessou através de seus atos, palavras e sorrisos, que a única coisa que lhe faltava para atingir a plena felicidade, era que eu, sua mãe, também estivesse feliz. De quebra, divirto ao recordar que Emma sentiu ciúmes de Killian quando o conheceu, uma vez que não podia lhe contar que se tratava do meu filho.

Por um ano, eu finalmente me senti plena e próspera por não perceber o tempo, ao invés de me sentir solitária e melancólica.

Quando o ano findou-se, no entanto, sofri uma crise devastadora. Senti-me uma vilã por maltratar secretamente o coração dela sabendo que não poderíamos permanecer juntas por muito além. Além de rasgar todo um projeto literário, deixando-o inutilizável, e entornar meia garrafa de whisky, mandei Emma Swan desaparecer de minha vida e nunca mais voltar. Não é uma memória que me agrade manter tão fresca, porém, o que ocorre em seguida é inapagável não só dos meus pensamentos, mas também da minha alma e corpo.

– Por que está me olhando desse jeito?! – Esbravejo completamente bêbada e transtornada. – Está surda? Não me ouviu claramente dizer para sumir da minha frente e não mais me procurar?

– Regina... – Ela suspira e sorri.

– Tire esse maldito lindo sorriso do rosto! – Insisto. Se ela pudesse ver a dor que me corroia... – Tudo está terminado, Emma Swan, eu a quero longe daqui e de mim!

– Regina... – Ela suspira e sorri pela segunda vez.

Antes que perceba, estou em seus braços. Debato-me em vão, não apenas por sua força e músculos, mas porque tudo nela me apavora e conforta ao mesmo passo. Tudo nela me eleva e fere ao mesmo passo. Tudo nela me chama, tudo me arrasta para ela, tudo me salva de todas as loucuras que o tempo me obrigou a aceitar ao me abandonar.

– Pare... – Imploro sufocada, fraca demais para afastá-la.

– Regina... Fique comigo...

– Eu acabei de mandá-la embora, Swan! – Grito, esmurrando seu peito como uma criança malcriada. – Não sabia que era dada às auto-humilhações!

– Regina. – Desliza suas mãos até meu rosto, forçando-me a encarar seus olhos, justamente os seus belos olhos. Acaricia-me tão devotamente, sorrindo, com lágrimas miúdas cintilando em suas pálpebras. – Fique...

Aí está a memória viva, tão viva quanto as mais recentes em minha vida. Choro compulsivamente enquanto a beijo, a devoro, firo seus lábios com todo o vigor do meu desespero em seu apogeu. Desfaço-me de suas roupas depressa, mágica. Caímos sobre o tapete vinho, abismo. Forço uma das mãos entre suas pernas, alucinada. Embrenho-me dentro dela sem prepará-la, cega. Ela geme impudicamente em meus ouvidos, fera. E este ciclo repete-se em mim, ainda mais ferozmente. Com as mãos espalmadas nos tijolos da lareira, sufoco-me. Com o corpo prostrado sobre o braço do sofá, submeto-me. No hall da escada, devido à louca necessidade que não nos permite chegar ao quarto, sofro de dor e de paixão simultaneamente. Finalmente, nos lençóis da cama, com seus olhos estelares sempre buscando os meus e seus lábios inchados, vermelhos, pousando suavemente nas costas da minha mão direita, apazíguo. E percebo que não posso, não sou capaz de mandá-la para longe, para fora. Porque Emma está em mim como se fosse minha própria salvação.

Nos seis meses seguintes, tive mais duas ou três crises. Em cada uma delas, terminei meu romance com Emma Swan de uma forma diferente e, com um sorriso detonador, olímpico, ela me trouxe de volta.

Quando completamos um ano e sete meses, Emma convenceu-me a conhecer seus pais, finalmente. Se eu recusasse, a magoaria e magoaria Killian na mesma proporção. Mesmo permanecendo cada década com um par, jamais me envolvi com suas vidas particulares, familiares e amigos. Entretanto, mais uma vez, Emma era diferente.

Dirigimos, no inverno, de New York ao interior do Michigan, onde os pais Swan moravam. Estava ansiosa para conhecê-los. O mais próximo que estive de conhecer intimamente a família de um amante foi em 1930, quando era noiva de Daniel Colter.

– Eles irão amá-la. É impossível não amá-la. – Disse Emma durante horas de viagem, aleatoriamente, sempre me sorrindo e beijando minha mão que acariciava sua nuca.

A propriedade dos Swan é afastada e singela. Há arbustos floridos na trilha de pedras, cercada por imenso bosque igualmente recheado de flores. Mil aromas e espécies nos rodeiam enquanto, com as malas nos ombros e uma das mãos entrelaçadas, Emma e eu caminhamos em direção a casa. Apesar de ter conhecido países e cidades tão distintos, não imaginei que um casarão tão amplo pudesse ter ares tão aconchegantes.

– Emma! – Um homem de olhos e cabelos claros, quase grisalhos, provavelmente com quase cinquenta anos, grande como um armário, mas de expressões dóceis como um filhote canino, abre a porta antes que cheguemos.

– Como vai, meu velho? – Com aquele sorriso debochado e moleco, Emma o abraça.

– Muito melhor agora que a família está reunida! E essa... Oh, meu bom Deus, essa mulher milagrosa é mesmo a sua Regina Mills?

– Em carne e osso e beleza ímpar, pai.

– Não conte à sua mãe, mas tamanha beleza só pode ser ímpar!

Enrubesço diante da troca de diálogos elogiosos. David Swan é um homem tão gentil quanto Emma.

– Onde está a velha, afinal?

– Certamente não está aqui, ela jogaria uma faca da cozinha e lhe acertaria em cheio se a ouvisse chamá-la assim! – Reprova. – Leve suas malas para o quarto enquanto apresento a família à Regina! Venha, querida, venha!

Quando digo à Emma para não comer doces demais para não ter dor de estômago, ela não obedece. Quando digo para tirar as botas nos dias de chuva e deixar na varanda para não ensopar o assoalho, ela não obedece. Quando seu pai ordena que me deixe sozinha com ele para encarar os outros Swan enquanto ela guarda despreocupadamente as malas no andar de cima, Emma obedece como uma serva devota, atirando-me beijos no ar como se não fosse levar o puxão de orelha mais dolorido de sua vida mais tarde.

Sou introduzida à companhia de George e Ruth, avós de Emma; James, irmão gêmeo de David, sua esposa Ingrid e suas filhas Elsa e Anna; as quais Emma disse não ser próxima, crescendo sozinha com os pais na grandiosa e bela casa. Kathryn e Frederick cumprimentam-me e sinto-me menos intrusa do que pensei na companhia da família dela. São pessoas divertidas e curiosas, com muitas e muitas histórias para contar. Travei uma batalha épica com minhas emoções para não mergulhar na amargura de ter desaparecido e deixado meus entes amados para proteger o meu próprio coração da devastação que seria vê-los partir enquanto aqui eu para sempre ficaria.

– Vejo que a festa começou sem mim! – Aproxima-se pela imensa sala uma mulher. Não é velha, apesar de não ser jovem, mas é bela. Emma tem muitos traços seus. Especialmente o nariz. É pequena e tem negros cabelos curtos, rosto rechonchudo e um sorriso iluminado. Quando analiso, após o suéter branco e a saia rodada de flores, as botas nos pés cobertas de lama, percebo que minha menina de cachos dourados herdou certas manias suas, assim como essas suspeitas são confirmadas quando vejo como Emma tem os mesmos trejeitos do pai ao contar uma piada.

– Não há festa sem você, Dona Mary Margaret Swan! – Emma a abraça.

De repente, a matriarca Swan estremece. Naturalmente pálida, perde completamente as cores do rosto quando seus olhos se encontram com os meus.  Não compreendo o porque, tampouco desejo compreender, tamanha a incredulidade estampada em seu olhar.

– Regina? – Suas sobrancelhas se franzem e a cesta de flores escapa de suas mãos, baqueando contra o piso de madeira. – Regina Mills? Isso é impossível...

Tento inutilmente repassar em minha mente todas as pessoas que conheci nesse quase um século de existência. Nada. Não há nenhuma Mary Margaret em minha memória.

– Essa é a minha Regina, mãe. – Emma se afasta, abraçando-me de lado. – Vocês já se conhecem?

– Eu me lembraria. – Tento sorrir. Tento. Tudo me é tentativa diante de seu olhar intrigado.

– O que há, querida? – David a toma nos braços ao vê-la trêmula da cabeça aos pés. – Parece ter visto uma assombração!

– E... É! Só pode ser uma! – Arregala os olhos, assustada.

– Mãe! – Emma estarrece, confusa com seu comportamento.

– Não, perdoem-me! – Adianta-se a mulher perdida. – Perdoe-me, cara nora, mas você... Você se parece com uma mulher... Uma mulher que meu Daniel, meu pai, amou, amou por toda sua vida, muito mais do que amou Eva, minha mãe... Que meu pai jamais esqueceu. E seu nome era Regina Mills, me desculpe, mas a foto que ele guardou, embora muito antiga, seu rosto... Eu estou... – Esfrega os olhos, buscando ordem mental.

– Regina Mills era minha mãe. – Em um lapso de desespero, minto. Minto diante dos olhos atentos de Emma, que sempre, sempre sabe quando estão mentindo. Mary Margaret, ao menos por enquanto, parece acreditar. – O nome foi em homenagem a ela, que faleceu no parto. – Estupidamente aumento o ponto da mentira, tentando a todo custo livrar-me daquele olhar.

– Oh, me desculpe, querida, eu só... – Ela sorri timidamente. – A semelhança é absurda, você é tão bonita quanto ela. Desculpe-me, vamos esquecer tudo isso, seja bem-vinda a família Swan!

A sombra apavorante desaparece imediatamente. O farto almoço é servido e ouço uma série hilariante de histórias sobre a infância de Emma. Minha menina, envergonhada, esconde seu rosto em meu pescoço e me beija a pele a fim de vingar-se dos meus risos. Revelam o que eu já imaginava: Emma foi uma garotinha curiosa, estabanada e valente.

No cair da tarde, Emma me arrasta até os jardins da propriedade e me beija como se o mundo estivesse prestes a acabar. Eu jamais me cansaria de seus beijos surpresa, de suas mãos travessas serpenteando em mim ou do modo como seu nariz estranha e adoravelmente avermelhava inteiro quando se excitava. Era sempre uma guerra descobrir se Emma estava ficando resfriada ou apenas arquitetando para onde me raptaria e me possuiria até minhas pernas cederem com seu apetite secular e sua devoção voluptuosa.

Mas quando a noite invade o céu e Emma sai com o pai e com o tio para a cidade, para buscar em um posto de gasolina os cigarros inseparáveis de sua tia Ingrid, um refrigerante dietético para Elsa e chocolates mentolados para Anna, encontro-me sozinha no jardim principal, ao som suave da água da fonte de mármore com a réplica de Vênus em mármore, ao lado de ninguém menos do que Mary Margaret Swan. A filha de Daniel Colter.

Soube que seria questionada assim que vi a foto desbotada e de bordas rasgadas apertada firmemente em suas mãos.

– Eu preciso saber. Eu não entendo, é impossível. – Estende a fotografia. – A cicatriz é igual, no mesmo lugar. Quem é você?

– Regina Mills. – Encaro seu olhar. Não há nele uma desconfiança aborrecida ou reprovadora. Está confusa. E com razão. – Eu de fato sou Regina Mills.

Tenciono sair e deixá-la com seus pensamentos. Por um momento, pensei em permitir que a bondosa e confusa Senhora Swan se sentisse como uma desvairada obsessiva.

– Por favor! Pelo amor da minha filha, eu preciso saber!

“Pelo amor da minha filha”. O amor de sua filha é o que tenho de mais valioso, empatando surpreendentemente com o amor de meu filho.

– Eu sou Regina Mills, filha de Cora e Henry, ex-noiva de Daniel Colter. – Viro-me e fito-a com derrota. Não há porque mentir ainda mais, não poderia ir tão longe.

– Eu... Como...? – Sussurra.

– Não sei. Eu lamento, Senhora Swan, mas eu não sei. Sofri um acidente e um dia... Simplesmente percebi que não envelhecia. E depois, que nunca mais envelheceria. Abandonei a vida que conhecia e tornei-me uma fugitiva do tempo, vagando a cada década, nômade. Até... Agora. 

– Por isso abandonou meu pai e sua família sem explicações? – Retrai-se.

– O que mais eu poderia fazer? – Retruco. – Estávamos em 1935. Deveria ter ido até um hospital? A um sanatório? O governo? Os religiosos?

– Meu pai sofreu muito com seu desaparecimento. Todos sofreram. Vi meu pai chorar pelos poucos anos em que viveu. Ele morreu quando eu tinha doze anos, em 1950... Onde você estava?

– Na Itália. Eu estava na Itália.

– O rapaz, seu amigo, o rapaz do qual Emma vive falando, que se parece muito com você pelas fotos...

– Meu filho, Killian Jones. Fruto de um relacionamento meu nos anos sessenta, na Irlanda.

– Oh, céus... Este seu dom...

– Dom? – Afasto-me, incrédula. – É uma maldição, nada mais do que uma maldição. E por essa maldição seu pai, minha família e eu mesma sofremos. O sofrimento deles findou-se com a morte, mas o meu mantém-se intacto até hoje, neste exato momento.

– Contou à Emma?

– Nunca contarei.

– E o que fará? – A escuridão temerosa toma conta de seu tom de voz.

– Mais cedo ou mais tarde, terminará. – Evito seus olhos. Uma covarde de quase cem anos.

– Não pode! Emma ama você, você é tudo para ela! Emma a ama até demais para o coração preocupado de uma mãe!

Essas palavras deveriam revirar meu estômago, mas me aquecem a alma. Emma, amar-me? Depois da truculência que enfrentamos nos últimos meses com minhas crises, depois dos meus segredos que mantenho trancados, os quais Emma jamais invadiria sem minha permissão, ocupando-se de tentar me arrancar sorrisos e êxtases para distrair-me de tais cargas, depois de cada provação... Emma, apesar de ainda não ter expressado em palavras, mas sim em cada um de seus gestos... Amar-me?

– Não posso pedir que ela lide com meu fardo, tampouco suportaria vê-la envelhecer e morrer enquanto ainda estaria aqui, exatamente do mesmo jeito. Sua filha é, para mim, Senhora Swan, uma preciosidade inestimável. Eu a...

– Mãe, você não está importunando Regina com mais histórias das minhas trapalhadas juvenis, está?

Sinto dois braços me enlaçarem pelas costas e um beijo ser depositado delicadamente em meu rosto. Emma havia voltado com James e David, aproximando-se silenciosamente para envolver-me e embalar-me contra seu corpo.

– Estamos apenas conversando futilidades, querida.

– Vamos para dentro, preciso fazer um anúncio!

Quando Emma nos deixa, sinto meu pulso envolvido pelas mãos de Mary Margaret antes de entrar.

– Você precisa contar. Emma precisa e merece saber.

A Família Swan está acomodada nos sofás macios, bebericando vinho na sala iluminada, alegre e rodeada de fotos. Emma está no centro, contando uma de suas piadas infames, das quais apenas James e David riem compulsivamente. Ela parece tão, mas tão feliz. Uma aura dourada a rodeia, cintilando. Minha menina tão linda, tão peculiar, tão maravilhosa.

– Família, tenho algo a dizer. Algo muito importante. E é mais importante por ter todos vocês aqui. – Ela sorri, começando.

– Aqui estamos, garota! – James ergue sua taça.

– Na virada do século, há quase dois anos, eu conheci Regina Mills. Minha querida tia Kathryn arranjou uma boa justificativa para nos apresentar, embora eu estivesse ávida por conhecê-la. Regina não sabe, mas revelo agora que eu a havia visto diversas vezes na biblioteca municipal. Ela já permaneceu por quase doze horas deliciando-se com os livros e despertou minha curiosidade ver que ela os pegava para ler em ordem alfabética e de gênero, como se tivesse o objetivo de ler cada um deles.

– Você é incorrigível, Emma Swan. – Sorrio.

– Ser incorrigível me levou até você. Eu serei para sempre incorrigível se isso sempre me levar até você.  E é por isso que marquei este encontro em nossa casa. Mãe, pai, tio, tia, tia adotada, tio adotado, primas...

– Está me deixando curiosa, prima! – Anna exclama, agitada em seus dezesseis anos.

– Em um ano e meio há tempo para refletir e remodelar. Há tempo para descobrir, desbravar. Há tempo para destruir e renovar. Em um ano e meio, tudo em nossas vidas pode deparar-se com as mais improváveis mudanças. A minha deparou-se com... Não, não simplesmente deparou-se! Minha vida deu de cara, foi como bater com o nariz em um muro gigantesco... Com Regina Mills.

Meu velho coração dispara. Os olhares todos me buscam, inclusive o dela, os seus grandes olhos verdes, minha maior rendição.

– Oh, céus...  Mary arregala os olhos, confusa entre sorrir ou estarrecer.

– E meu mundo passou a ser você, Regina. – Emma se aproxima a passos lentos, encarando-me. – Todos os meus dias são para fazê-la feliz. A cada tropeço que damos, sinto-me ainda mais capaz de cruzas oceanos, céus, fogos, e rochas, por você. Cresci rodeada de contos de fadas com finais felizes, mas o único lugar onde encontrei a chance de um final feliz foi em seus braços. Eu conheci o amor através dos seus olhos. Eu me refiz inteira e quero me refazer quantas vezes forem necessárias para e por você. Sei que nem todos os nossos momentos nesse um ano e meio foram perfeitos, mas eu tenho certeza de que podemos fazer isso. Juntas, sei que podemos superar até mesmo o mais doloroso dos obstáculos e a mais perniciosa das jornadas. Se ficar e me deixar ficar, eu serei sempre inabalável, sempre por você.

– Emma... – Sinto-me tremer em minhas pernas.

– E os meses, todos os segundos que compartilhamos são memoráveis e eternos em mim. Mas eu desejo mais, Regina. Meu coração deseja ser oficialmente e definitivamente seu, não posso mais conter essa verdade, não quero. Diga-me, Regina... Você aceita ser namorada de Emma Swan? Daria-me a honra de ser minha, de verdade?

Eu sou a casca perecida que marcha sem bússola e sem cabresto. Eu sou a faceta jovem de coração ancestral e memória nostálgica. Eu sou autônoma do tempo na mesma proporção em que sou inerente a ele. E por décadas a fio sobrevivi sem lei, sem laço, sem estrela. Sempre soube que meu filho estava em boas mãos. Killian é um grande homem e, embora seja devastador saber que recentemente meu menino comemorou seu aniversário de trinta e seis enquanto sua mãe jaz prisioneira nos trinta anos, nada se compara ao que sinto neste exato momento. Ali, na sala, diante daquelas pessoas, observo Emma Swan sorridente, ajoelhada, com a caixinha de veludo e o anel com a esmeralda cravada... E finalmente percebo.

De repente, eu quero viver. Eu preciso viver. De repente desperto agonizando após quase um século desde que o tempo me abandonou. Ele para mim não voltou, porém, seus efeitos em meu coração são mais ferozes e vívidos do que jamais estiveram quando compreendo ali que mesmo beirando os cem anos, é a primeira vez em que vejo-me inescapavelmente apaixonada, irrevogavelmente capturada por ela e por seu mundo. Eu a amo. Eu amo Emma Swan. Nada como Daniel. Nada como Keith. Nada como Gaia. Nada como Brennan. Emma foi capaz de colorir-me, reinventar-se. Emma foi tão depressa meu relógio e meu despertar. E eu jamais amaria alguém como a amava.

Paralisada e muda, com o olhar de Emma dotado de expectativa, recordo-me de uma estrofe de Cleómenes Campos, um trovador brasileiro:


“O amor e a morte, a rigor,
São faces da mesma sorte.
No fim da palavra amor
Começa a palavra morte!”

 

É tarde demais quando volto a raciocinar claramente. Entre aspas. Corro com o pouco controle que resta em meu corpo, corro tropeçando nos tapetes, no degrau das portas, nas flores, rasgando a meia calça nos espinhos dos arbustos. Giro a chave em desespero e o ronco do motor estoura meus batimentos cardíacos, como se houvessem duas Reginas engalfinhando-se brutalmente. Uma quer e precisa partir. Outra quer e precisa ficar. Fugir é meu hábito. Fugir é meu alento do amor.

Mas agora, enquanto dirijo desvairadamente em prantos diluviosos, fugir é efêmero. Este alívio costumeiro não me faz mais efeito, nunca mais fará, eu já a amo, já pertenço a ela e estou ciente de que nem mesmo o Rei Tempo, em sua magnitude interminável, pode sobrepujar-se ao amor.

Sequer atento-me à chuva que despenca do céu em plena estrada, pois a própria estrada me é um borralho cinza e morto. Os olhos, os malditos olhos dela me perseguem no interior, decepcionados, perdidos. Sinto-me o mais detestável dos seres em causar-lhe tamanha dor. Eu sempre soube que causaria. Assim como causei à Daniel, Keith, Gaia, Brennan, mas desta vez, essa dor reverbera em mim como nunca antes reverberou.

O toque do aparelho celular me desperta. Emma.

– Regina! Regina, me perdoe, meu amor! Eu não quis pressioná-la, não quis constrangê-la! Eu estava tão feliz que esqueci de perguntar a mim mesma se era a hora certa. Por favor, volte, volte e me perdoe...

Lágrimas grossas ardem em meu rosto. Se for possível amar alguém a cada segundo um pouco mais, eu a amo mais agora do que há um segundo atrás.

– Não, não... Tento explicar o inexplicável. – Não é culpa sua, minha querida. A culpa é minha. Perdoe-me por feri-la tão gravemente com minha covardia, com meus segredos, com tudo em mim que só sei ferir...

– Não! Pare! – Sei que também está chorando pelo modo como sua voz engasga. Ao mesmo tempo, sei que está me buscando, como sempre busca, provavelmente no carro de seu pai. – Pare o carro, por favor. Não me importam os motivos pelos quais você fugiu, meu amor! Sabe por quê?

Sim. Eu sei.

– Por quê...?

– Porque eu te amo! – Ela ri do outro lado da linha. – Eu te amo, Regina Mills, te amo com todas as forças do meu coração petulante e travesso, te amo com todas as palavras lindas e rebuscadas que eu nunca soube dizer.

– Emma, pare! – Suplico.

– Eu te amo quando está distante e quando anseia por colo. Eu te amo quando a desvendo e quando é incógnita. Regina, mande-me embora quantas vezes quiser, fuja o quanto precisar fugir, eu continuarei amando-a. E eu a encontrarei onde quer que esteja, nem que eu passe o resto da minha vida convencendo-a de que o meu amor é capaz de cuidar de você. Mas... – Funga, lacrimosa. – Mas eu preciso que pare esse carro e volte para mim. Eu preciso que tenha coragem por nós...

Silencio-me por um instante. Os anos cirandam em minha memória como se estivesse descobrindo somente neste momento a razão de viver, independentemente do tempo ou de sua ausência. A citação de Friedrich Nietzsche, de 1886, ecoa nessas lembranças como um mantra. “Was aus Liebe getan wird, geschieht immer jenseits von Gut und Böse“

Traduzindo,Aquilo que é feito a partir do amor acontece além do bem e do mal”.  

Dentro do carro, o rádio soa “Turn, Turn, Turn!”, de Pete Seeger, interpretada pelos Byrds. Estou pendurada no celular enquanto os versos ecoam melodiosos em mim, junto à voz dela, a voz que tanto amava, a voz que tentou cantar como Lou Rawls na noite de ano novo, em plena virada do século.

“A time of love, a time of hate. A time of war, a time of Peace. A time you may embrace... A time to refrain from embracing”. “Um momento para amor, um momento para ódio. Um momento de guerra, um momento de paz. Um momento em que você deve abraçar... Um momento para abster-se de abraçar.”

– Por favor, pare. Quero abraçá-la e dizer sem vocábulos que tudo ficará bem, porque eu sei que ficará. – O ronco do motor torna-se mais alto do outro lado e sei que Emma está acelerando. – Estou vendo seu carro na tempestade, me deixe chegar até você. Eu não sei porque você sempre foge de mim, meu amor, mas eu nunca a abandonarei, nem por isso, nem por nada. Eu sempre a encontrarei quando o que quer que seja essa aflição e esse temor dentro de você a levem para longe.

– Emma. – Involuntariamente fecho os olhos. – Eu também a amo.

Quando espero ouvir um suspiro aliviado dela, seu grito rouco ecoa em meus ouvidos como uma trovoada maléfica e furiosa.

– NÃO!

De repente, um abraço apertado da escuridão me deprime.

O carro derrapando na pista molhada, livre. O para-choque chocando-se contra o guard rail, destruído. Descendo sobre a terra, veloz, irrefreável. Mergulhando no rio embaixo do barranco às margens da estrada, fundo, estilhaçando lentamente o vidro do para-brisa, destroçado. Meu corpo contra a água congelante, choque. O reflexo das minhas próprias defesas ativadas, roubando minha respiração e diminuindo meus batimentos cardíacos, tênue. Pude ouvir como um tambor lento ao longe, silenciando-se. Senti a dor me consumir, rude. Um minuto, dois, três, quatro, dez, vinte, quantos foram? Fúnebres. Minha temperatura interna caindo como se estivesse prestes a morrer. Meu coração finalmente para, mudo. Mas não morro, sei que não morro, pela segunda vez sei que vivo, estou imóvel, mas consciente de tudo, como num sonho louco, quase um século depois. Então, o raio atinge a lataria negra exposta do carro, eletrocutando tudo ao seu redor. Quinhentos milhões de volts, sessenta mil ampères. Meu coração bate uma única vez. Quinhentos milhões de volts, sessenta mil ampères. Respiro, quase desperta, semiviva, semimorta. Quinhentos milhões de volts, sessenta mil ampères. O fenômeno físico inexplicável sobre o qual ninguém sabia, sobre o qual eu jamais entenderia. Mesmo após décadas...

Eu ainda era uma mulher literária, não exata.

Sem teorias científicas esclarecedoras, sem crenças inalcançáveis e acalentadoras em minha alma, simplesmente aconteceu. Lembro-me somente de desmaiar e entregar-me ao que acreditei ser, finalmente, a morte.

 Em um instante, o desfibrilador. No instante seguinte, o desfibrilador novamente. Logo após, uma comemoração de um médico e dois enfermeiros. Ainda além, curativos gelados por todo o meu corpo, remédios que me deixam sonolenta, tubos de respiração. O silêncio de um quarto de hospital.

Finalmente, desperto. Desperto quando Emma abre a porta do quarto com um buquê de rosas vermelhas, olheiras roxas, olhos inchados, vermelhos, pálida como nunca antes.

– Oh, meu... – Lágrimas escorrem fracamente em seu rosto. – Você acordou...

– Emma... – Não me recordo de sentir uma dor mais lancinante e mortífera do que ver tanta agonia nos olhos dela. – Perdoe-me...

– Não... – Ela sorri, caindo na poltrona do quarto e cobrindo o rosto com as mãos. – Não tem o que perdoar. Você está viva, você voltou para mim.

– Emma, eu preciso lhe contar, precisa ser agora de uma vez por todas.

– Espere! – Levanta-se apressada, indo até o corredor e sorrindo-me de uma forma que me faz sentir completamente vulnerável a ela. – Killian... Sua mãe acordou.

"Sua mãe". Emma sabe.

Killian invade o quarto correndo, suando, com seus lindos olhos azuis arregalados. Olheiras roxas, olhos vermelhos e pele pálida, exatamente igual à Emma. Sem pensar sobre uma possível consequência em meu estado físico, atira-se em meus braços e chora, um pranto quase gritado. Vejo Belle French se aproximar da porta segurando seu casaco, respirando fundo e sorrindo para mim.

– Mãe! – Exclama. – Mãe, mamãe... – Ergue o rosto para me encarar. – Você quase... Argh! – Abraça-me com uma força descomunal. E também o abraço com todas as forças que possuo. Como pude cometer tamanha imprudência e assustar meu menino dessa maneira?

– Meu menino... Meu amado menino...

– Mãe, me perdoe, eu preciso que me perdoe. Eu tive que contar, tive que dizer à Emma, tive medo que ela estivesse muito magoada e fosse embora e... Você a ama, mãe, não pode deixá-la ir! – Pede.

– Tem razão, meu querido. – Enxugo suas lágrimas, sorrindo-lhe. – Eu a amo e não posso deixá-la ir.

O sorriso que se estende no rosto de Emma é tudo que preciso para respirar em paz novamente. Eu não a deixaria ir e ela, mantendo sua promessa, jamais me abandonaria. E eu nunca mais a mandaria para longe dos meus braços.

 

(...)

 

Quase dois anos após sair do hospital, comemoro trinta e um anos. Espero por este dia, por esta data, há mais ou menos um século inteiro. Esclarecidos os fatos acerca do porquê espero por esta data há quase um século, qualquer um há de entender porque a felicidade é íntegra e vívida em mim. Uma luz magistral paira sobre os meus dias, minhas memórias, minhas rotinas.

Levanto-me no escritório, abandonando meu ofício literário para observar das grandes vidraças o extenso quintal que dá para o lago Erie. Killian, com um avental rosa e um chapéu de chef florido, assa salsichas, costelas e hambúrgueres na churrasqueira; sorrindo para Belle, que canta “Perfect Strangers”, Deep Purple, enquanto tosta o milho, doura as batatas e prepara os molhos da carne e da salada. O pai de Belle, Moe French, que somente agora foi aceitar o romance de sua filha com um músico, quando Killian foi pessoalmente em sua loja convencê-lo, podava alegremente as roseiras que Emma plantou para mim, contente em ver Belle tão feliz e tranquila. Na rede, estendida de um grande carvalho à outro, David e Mary Margaret Swan cochilam abraçados, amáveis como sempre. Kathryn aproveita os carinhos de seu Frederick. Em quatro meses, os dois se casarão. A jovem Elsa, prima de Emma, não pôde comparecer por estar trabalhando em uma expedição biológica no Alaska, mas Anna passeia em nossos jardins com seu namorado Kristoff, sob o olhar atento e preocupado do pai, James, e da mãe, Ingrid.

Na beira do lago Erie, Emma está com um macacão jeans, as barras dobradas até os joelhos, com os pés na água. Em suas mãos, uma garrafa de cerveja. Óculos escuros de aviador e um chapéu palheta sobre os cabelos dourados, cintilando pela luz do Sol. Ela observa Henry, nosso filho, adotado há seis meses, brincar com um balde nas margens, ensopado e sorridente. Ao me ver observando-os da janela, Emma tira seus óculos escuros para iluminar meu coração com seus olhos verdes, comandantes de todo o meu controle, de todos os meus batimentos cardíacos enlouquecidos. Como sempre, sempre, sempre... Ela sorri.

Nestes dois anos que se passaram, Emma soube cada detalhe da minha trajetória. Emma me amou exatamente assim, talvez ainda mais depois de descobrir a verdade. Nestes dois anos, encontrei a coragem necessária para procurar sobre minha família. Descobri que meu pai e minha mãe faleceram muito idosos, partindo desse mundo com a crença inabalável de que eu estava viva e vivendo feliz em algum lugar. Descobri que Zelena isolou-se para superar meu desaparecimento, mas que encontrou o amor e teve uma vida plena nos braços de uma jovem texana chamada Ruby. Descobri que August se casou e teve dois lindos filhos. Descobri, através de Mary, minha sogra, que Daniel, apesar de nunca me esquecer, foi feliz. A literatura fantástica permaneceu acompanhando-me e Emma tornou-se cada vez mais uma grande jornalista. Killian repentinamente tomou um gosto cativante por ensinar, sendo convidado a lecionar Instrumentação e Arranjo na mesma Universidade na qual estudou. Hoje Belle trabalha comigo, em meu escritório, e devo admitir que somos uma grande dupla de autoras.

O tempo não existe. Não mais, não para mim. Vivemos vidas inteiras com medo do tempo, tentando escapar de seus efeitos, de suas lições. Contudo eu, uma mulher que viveu quase um século imune ao tempo, fui atormentada por ele. A verdade é que entregar-se plenamente à vida, aos amores e aos sofrimentos, às vitórias e às ruínas, correr em busca dos sonhos vívidos do coração, dos desejos ocultos da alma e das vontades explosivas da mente, não é uma questão de tempo.

É uma questão de perspectiva.

Questão de tempo foi o que ocorreu conosco. Com Regina Mills e Emma Swan. Se tivesse que palpitar sobre, diria que o universo sequestrou-me do tempo em 1935 apenas para que eu encontrasse Emma Swan na virada do século, à frente do primeiro dia de janeiro de 2001. O tempo me abandonou para que exatamente neste dia Emma e eu nos encontrássemos. A ausência do tempo me proporcionou um amor sem medida, sem freio, infinito.

Encaro o espelho uma última vez antes de descer para confraternizar com minha família e sorrio hoje ao ver alguns fios grisalhos perdidos entre os fios escuros. O fenômeno físico inexplicável sobre o qual ninguém sabia, sobre o qual eu jamais entenderia, tem seu mistério intacto. O primeiro fio de cabelo branco surgiu em meados deste ano, surpreendendo-nos, comovendo-nos de tal modo que pranteei nos braços de minha amada Emma Swan por cerca de três horas imparáveis.

O tempo voltou. E eu o recebi de volta com carinho velado, como quem dispensa sua volta. Nos braços de Emma Swan, eu finalmente o esqueci. Com os olhos dela, meus calcanhares de Aquiles, eu finalmente deixei que ele tomasse seu curso e me surpreendesse.

Pois agora estou tão rodeada, tão transbordante de amor, de graça, de luz e fogo; e de uma magia colossal e inalcançável, tão rendida pelo perdão e maravilha em minha vida que define Emma Swan que, desta vez...

Desta vez, quem abandonou o tempo... Fui eu.

 

 

 

 


Notas Finais


Até breve, caros leitores. :)


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