História The Ascent. - Capítulo 28


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Bruxas, Fadas, Guardioes, Lobisomens, Princesa, Principe, Vampiros
Exibições 2
Palavras 7.040
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Fantasia, Magia, Romance e Novela, Shoujo-Ai, Sobrenatural, Terror e Horror
Avisos: Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 28 - Capítulo 27


Eu havia acabado de sair do meu banho quando Isabella bateu em minha porta. Quando eu a abri demorei alguns segundos para me recuperar do choque dos olhos prateados dela. Me forcei a afastar a memória de outros olhos iguais para longe.

—Bella, — eu disse, pisando para o lado e lhe indicando que ela podia entrar. — está tudo bem?

Ela olhou em volta, notando a bagunça que eu não tinha energia para arrumar. Eu não tinha energia para qualquer coisa, ultimamente. Não conseguia me concentrar em quase mais nada a não ser na sensação de vazio que estava me consumindo.

Ela me olhou preocupada, me fazendo desviar os olhos. Odiava que me dessem esse olhar. Me fazia sentir mais fraca do que eu já me sentia.

—Eu vim checar como você está, sei que meu irmão faz isso bastante, mas achei que seria mais fácil conversar comigo. — eu abri a boca para repetir pela milionésima vez hoje que eu estava bem, mas ela levantou uma mão. — Não precisa fingir comigo. Tem conseguido dormir?

Me sentei na poltrona, trazendo minhas pernas para cima, descansando minha cabeça nos meus joelhos. Comecei a cutucar o esmalte nas unhas do meu pé, evitando seu olhar.

—Não, mas Linne me deu uma poção que deve me ajudar nisso.

Ela assentiu com a cabeça, sem responder. Isabella foi a primeira a notar que eu estava pior do que eu deixava transparecer, então eu contei para ela sobre os sonhos que eu estava tendo. Das mortes que eu havia causado.

Eu acordava toda noite tremendo, e tinha que ir correndo para o banheiro vomitar pela sensação que o suor em meu corpo me causava, quente e molhado como o sangue que jorrou em mim.

Mas eu não a contei sobre o meu outro sonho, em que o último homem que eu havia matado com minha adaga se transformava em James.

Fechei os olhos, tentando me livrar da imagem dele. Eu não estava com raiva, nem triste. Eu não sentia nada a não ser o vazio, que era pior ainda. Com ódio e dor eu sabia lidar.  A falta de emoção me assustava mais, pois eu não sabia se algum dia eu voltaria a sentir novamente.

Isabella olhou para mim, como se percebesse o que eu estava pensando.

—Você vai melhorar, Sophia. Não duvide disso.

Eu suspirei, querendo que fosse verdade.

—Não tem como você saber disso, Bella. Não tem como ninguém saber.

Ela olhou para o céu que minhas janelas abertas mostravam. Passou a mão pelo seu cabelo, com uma expressão tão séria que não parecia ela.

—Quando eu tinha um pouco mais que a sua idade, meu pai me disse que eu precisava me casar para fazer uma aliança e fazer minha parte na nossa família. — ela disse quietamente, seu olhar focado no passado. — Eu não queria, é claro. Até que eu conheci o homem em questão. Sebastian era lindo, e absolutamente charmoso. Ele me disse que não iria me forçar a casar com ele, que era minha escolha. Caspian estava em Ilíria, então eu não pude fazê-lo vasculhar a mente dele para saber se ele era uma boa pessoa para mim. E eu queria tanto agradar meu pai que aceitei, que me esforcei para me apaixonar por ele.

Ela pausou, seus olhos vidrados no chão.

—Ele era uma pessoa maravilhosa, no começo, dizia que me amava e eu acreditava nele. Quando havia pessoas olhando ele era perfeito, porém quando não havia… ele era um monstro. Ele batia nos seus empregados por coisas imbecis, pelo menor erro. Não demorou muito para fazer isso comigo.

Senti meu coração parar por um segundo. Seus olhos estavam fechados agora.

—Eu fiquei grávida dele, mas mesmo assim ele não parou, mesmo com gravidezes no nosso povo sendo tão raras e preciosas. Me bateu até eu perder a criança, até eu não querer mais viver. — ela tomou uma respiração profunda, seus lábios se curvando levemente. — Quando Rhysand veio me visitar uma vez ele soube, mesmo com Sebastian tendo o cuidado de não me machucar onde era visível. Ele ficou pior do que eu jamais havia ficado.  Caspian chegou logo após isso, e me perguntou se eu queria que ele terminasse por mim, já que as consequências não seriam tão severas para ele. Eu disse que não, e dei o golpe final eu mesma. Quando voltamos ao castelo eu fiquei igual a você, me sentindo vazia, sentindo tudo e nada ao mesmo tempo.

Apenas percebi que eu estava chorando quando vi as marcas de lágrimas na minha calça.  Ela havia sobrevivido a tudo isso, e ainda continuava sorrindo. Me senti uma estúpida por estar assim com algo tão pequeno comparando ao que aconteceu com ela.

—Como você conseguiu melhorar? — eu consegui perguntar, finalmente.

Ela me olhou, sem nenhum traço da tristeza que ela havia sofrido em seu rosto.

—Eu percebi que o vazio era meu jeito de lidar com as coisas, era minha proteção. Quando finalmente me permiti sentir de novo eu chorei por três dias seguidos no ombro de Caspian. Depois disso foi cada dia ficando mais fácil me permitir viver de novo. Fazendo as coisas que eu gostava antes me fez lembrar de quem eu  era antes de todo o horror que me havia sido infligido.

Eu fui até ela, me sentando a sua frente, tomando suas mãos nas minhas.

— Obrigada por me contar isso, Bella. Me.fez perceber o quão forte você é. Você e Caspian já passaram por tanta coisa, e ainda conseguem sorrir. Eu queria ter essa força.

Ela colocou uma mecha solta do meu cabelo atrás de minha orelha. Seu sorriso não era nada além de carinhoso.

—Você tem, Sophia. Você também já passou por muita coisa, e sobreviveu. — ela apertou minhas mãos quando notou meu olhar de descrença. — Você pode ser maior que nós, maior que qualquer um. Pode chacoalhar os céus, se quiser.

Eu fechei meus olhos, evitando seu olhar novamente.

—Eu não sei como.

—Se permita sentir. Não há nada de errado nisso, faz parte de quem somos sentir tudo tão intensamente. Mas não guarde para você, ou ficará pior. Você pode vir conversar comigo, se quiser. Ou Caspian, que passa todo momento preocupado com você.

Eu abri meus olhos, a encarando finalmente.

—Eu não queria preocupá-lo. — eu disse, sinceramente. — Eu vou tentar, Bella. Eu prometo.

Ela sorriu, provavelmente satisfeita. Se levantou, a saia azul se movimentando fluidamente, quase como o céu. Ela me olhou, com a cabeça inclinada.

—Nós vamos à cidade mais tarde, Caspian quer ir comprar mais tintas para suas pinturas, ele não confia em mim para saber discernir uma cor da outra. Vá conosco, um pouco de ar fresco lhe faria bem.

Eu prometi que iria tentar ir, e depois de me dar uma olhada engraçada ela saiu, seu andar confiante e indubitavelmente sensual.

Me deitei no sofá. Olhando para ela ninguém nunca imaginaria o que ela havia superado. Rolei, ficando de barriga para baixo e encostando minhas testa nos meus braços.

Eu não queria preocupar ninguém, apesar de saber que era exatamente isso que eu estava fazendo. Eu podia ver no olhar de cada um deles o quanto eles estavam preocupados comigo, mesmo sem nenhum deles me fazer qualquer pergunta sobre isso.

Menos Caspian, que hoje havia praticamente implorado para eu lhe dizer como ele podia me ajudar. Mas como eu diria para ele que eu não achava que fosse possível? Que a culpa de ter me deixado ser enganada me corroía todo dia, assim como a sensação de impotência.

Me levantei, indo me olhar no espelho. Instantaneamente eu fiz uma careta e desviei os olhos. Eu realmente estava terrível. O fato de eu não conseguir manter meu jantar em meu estômago toda noite não estava me ajudando.

Suspirei, lembrando de como eu uma vez havia dito que não iria mais correr dos meus problemas, percebendo que era exatamente isso que eu estava fazendo. Eu estava me escondendo em mim mesma,

E eu me sentia tão sozinha agora, sem o laço de sangue. Era uma sensação tão estranha não ter uma linha direta com o bem estar de outra pessoa.

Passei uma mão pelo meu rosto. Eu precisava sair dessa, eu sabia. Remoer o que havia acontecido não me levaria a lugar nenhum.

Acessei novamente o buraco em meu peito, convidando as emoções dormentes a preenchê-lo. Eu sabia que Bella estava certa. Eu estava evitando sentir pois sabia que isso colocaria algum dia um final no meu sofrimento. E eu não estava muito pronta para seguir em frente, não depois de James.

Me lembrei novamente da primeira vez que ele havia dito que me amava, o quão sincero ele havia soado. Ele não parecia estar mentindo, eu não achava que ele tinha mentido.

Mas ele obviamente amava mais a sua sodalis se estava disposto a vender informações sobre mim para Noah.

Eu não havia chorado por isso desde quando eu o havia dito para ir embora, percebi. Sempre que uma lágrima ameaçava rolar, eu a controlava e engolia o choro.

Peguei meu celular e mandei uma mensagem para Carolinne, a pedindo para vir ao meu quarto.

Talvez estivesse mesmo na hora de desabafar. Talvez assim eu conseguiria me focar nas coisas importantes, como a guerra, meu país.

Linne entrou em meu quarto, me olhando um tanto alarmada.

—Qual o problema? — ela perguntou, seus olhos me escaneado, procurando algum sinal de que algo estava errado.

Eu abri minha boca para responder, para lhe dizer que tudo estava errado, porém as lágrimas vieram com força total, fazendo apenas um soluço estrangulado sair. Ela correu até mim, me abraçando. Ela murmurou um “ainda bem”, o que me fez chorar ainda mais por ter preocupado minha melhor amiga.

Quando o choro diminuiu, eu contei para ela tudo. Tudo que eu estava sentindo e pensando. Em como eu estava com medo se ser enganada novamente, quando eu tinha um país para governar. Contei sobre o peso de ter tirado vidas, mesmo vidas de Giovannis.

E ela escutou tudo. Por horas, até eu finalmente cair no sono depois de aceitar a poção que ela havia me feito.

Quando acordei novamente me senti quase em paz, a sensação no meu peito não tão sufocante. Me levantei, esfregando os olhos. Havia uma caixa na mesa de centro.

Fui até ela, ligando as luzes já que agora era noite. Chequei o relógio antigo na parede, percebendo que já eram oito horas.

Abri a caixa, tracejando o papel de presente de pinguins dançando, pegando o cartão que estava dentro dela.

Eu notei que estava faltando esse livro na sua coleção e me dei a liberdade de comprá-lo para você. Os outros são os meus livros preferidos. Já que não está treinando seu Poder comigo achei que seria uma boa maneira de passar seu tempo. Esse será seu dever de casa.

          Cas.

 

Peguei o primeiro livro, o único novo em folha. A garota morena da capa me encarava desafiadoramente, uma espada em sua mão. A Beleza da Escuridão. Eu tracejei os relevos, uma sensação boa invadindo meu peito. Eu estava esperando ansiosamente por esse livro, havia até marcado no meu calendário. Mas em meio a confusão que minha vida havia se tornado, eu havia esquecido.

Fui até o calendário em minha parede, a data circulada em vermelho me olhando de volta. Havia sido lançado a menos de uma semana, o que me fez perguntar como é que Caspian havia o achado aqui nesse fim de mundo.

Coloquei o livro carinhosamente de lado. Vasculhei os outros, todos títulos que eu nunca havia lido. Eu esperava que Caspian não gostasse de ficção, mas era exatamente o que eles eram. Ficção de todos os tipo, percebi. Até mesmo com romance.

Meu coração acelerou com a emoção de descobrir mundos novos. De me perder na vida dos personagens e esquecer da minha um pouco. Abri o A Beleza na primeira página, respirando fundo o cheiro de livro novo. Apenas isso era tão confortante quanto o abraço de Caroline.

Na primeira página Caspian havia escrito uma dedicatória.  Sua letra cursiva era elegante e preta sobre o papel levemente amarelado.

Se quiser voar pelos céus, precisa deixar o chão. Se quiser seguir em frente, precisa deixar o passado para trás.

                         C.

   Deixei isso se acomodar na minha alma. Caspian, mesmo sem estar aqui, sabia o que me dizer. Guardei essas palavras no meu peito, o fazendo ficar não tão vazio.

E comecei minha leitura.

Me perdi nas palavras impressas, lendo com avidez. Fazia tanto tempo que eu não lia um livro que não fosse sobre algo da minha família ou da história de Munin.

Eu logo terminei o livro em algumas horas. Saboreei cada palavra, as deixando entrar em mim como se fosse um remédio. Peguei o próximo livro, uma cópia bem usada de Caspian. O livro tinha o cheiro dele, de tabaco e chuva, e seu sabonete de alguma flor que eu não lembrava o nome.

Ele fazia marcações nas bordas das páginas, grifava frases que ele devia ter achado especiais. De algum jeito, senti como se ele estivesse ali comigo. O personagem desse livro morava em um mundo perfeito, onde ninguém entendia sua condição de sentir demais.

Quando fechei o livro, com o sol já começando a nascer, o abracei junto a mim. De alguma forma eu estava me sentindo começando a ser reconectada comigo mesma. Um fio de cada vez.

Me perguntei se Caspian também usava esses livros como refúgio. Eu já havia visto sua estante cheia de livros, e como ele sempre estava lendo enquanto eu estava treinando.

Senti meus olhos fechando com o novo sono, e antes de ceder a ele pensei em como Bella havia dito que ele queria comprar tintas. Eu devia pedir para ver seus quadros logo.

 

 


((Caspian))

 

Alonguei meus braços, ouvindo minhas juntas reclamarem. Rhys havia me feito duelar com ele a manhã toda, dizendo que eu estava relaxando no meu treinamento.

Eu estava na parte antiga do castelo, onde eu sabia que antigamente era a parte usada pelos reis. Rhys havia insistido que treinássemos aqui, já que de acordo com ele “os guardiões ririam da minha cara” quando vissem o quanto eu estava enferrujado. Mas eu sabia que ele apenas não queria deixar os outros verem suas habilidades.

Eu fui parado por uma serie de melodias ecoando de uma sala. Alguém estava tocando o piano daqui. As notas eram tão cheias de paixão, de sentimentos, que eu esqueci o que estava pensando na hora.

Silenciosamente, entrei pelas portas duplas. Eu reconheci instantaneamente os cabelos vermelhos.

Os dedos de Sophia deslizavam pelas teclas com maestria, e eu lembrei dela me dizendo que sentia falta da sua tia a forçando a praticar.

Ela pausou, anotando furiosamente na partitura a sua frente, fazendo ajustes. Ela estava compondo.

A musica recomeçou, mas melancólica agora. Seus olhos fechados escondiam seu olhar de mim, mas eu sabia que eu não os encontraria vazios.

Eu iria comprar um presente gigante para Isabella.

Eu quase cai de alivio ao perceber que ela estava demonstrando o que estava sentindo, não através de palavras, mas de sua música.

Cautelosamente, sem fazer nenhum barulho, fui até seu lado. Me encostei no piano.

A música foi diminuindo o ritmo até atingir uma parada, e Sophia continuou de olhos fechados.

Eu aplaudi e ela pulou do banco, alerta. Seus olhos verdes me olharam alarmados.

—Não sabia que ser uma excelente pianista era um de seus atributos.

Ela colocou a mão no seu coração, sem dúvidas para se acalmar. Me olhou melhor então, absorvendo os detalhes. Seus olhos pararam na minha barba por fazer por alguns instantes, e depois encontraram os meus.

De fato, não estavam mais vazios. Porém não completamente como antes, mas eu não esperava isso. Seria pedir demais em tão pouco tempo.

—Você realmente precisa parar com esse seu hábito de me assustar. — ela disse, se sentando novamente. Ela juntou seus papéis, dando um grande bocejo.

Franzi meu cenho.

—Parece cansada. Carolinne não ia lhe fazer uma poção para dormir? Está tendo pesadelos ainda?

Ela desviou o olhar para a partitura em suas mãos.

—Não se preocupe comigo, Cas. — ela disse suavemente. — Eu fiquei acordada até o amanhecer lendo. Obrigada pelos livros, aliás. Onde achou o papel de pinguins?

Eu sorri um tanto envergonhado. Sacudi minha mão para ela com pouco caso.

—Ah, foi fácil. — eu disse, escondendo que na verdade eu tive que mandar ser feito especialmente, assim como o livro que encomendei algumas semanas antes. —Já leu todos?

Ela sacudiu a cabeça, seu olhar nas teclas.

—Falta apenas um dos seus. — respondeu, sua mão indo até seu cabelo e o afastando de seu rosto. Seus olhos verdes cintilaram pela primeira vez em dias. — Eu os adorei, mas não sabia que você gostava de romances sobrenaturais, ou romances distópicos.

Eu a olhei novamente. Suas sardas estavam mais claras por não estar saindo muito no sol. Ela estava com um vestido azul escuro, um normal, não do tipo que ela usava nas reuniões. O colar ainda estava ali, em volta de seu pescoço. Assim como o meu.

— Não vejo muita graça numa história que não tenha romance. Mesmo que eles estejam quase morrendo num deserto e prestes a serem comidos por zumbis, romance apenas dá um toque a mais, não acha?

Ela suspirou minimamente, fechando a proteção do piano e apoiando a cabeça nela.

—Acho que romances assim só são possíveis em livros. Na vida real eles não sobrevivem tanto tempo. Nem a tais circunstâncias.

Hesitei antes de falar, com medo de ultrapassar algum limite.

—Acho que toda experiência é válida. E mesmo que não dure, ele serviu para saber como é. Assim quando você achar a pessoa certa, saberá que é ela mesmo.

Seus olhos verdes se focaram em mim, observando.

—Realmente acha isso? — perguntou. Eu assenti com a cabeça. Seus olhos se desviaram até o chão novamente, nas não antes de eu notar algo neles.

Eu sabia que ela estava pensando na sua própria experiência. Eu vi a dor em seu olhar. Coloquei minhas mãos nos bolsos, para não toca-la. Eu sabia que se eu dissesse algo sobre isso ela provavelmente ficaria na defensiva, talvez até pior. Mas não pude inpedir minha boca grande.

—Eu devia ter te contado mais cedo sobre James. —eu disse quietamente. Ela me olhou, daquele jeito dela de quem estava prestando atenção. — Talvez eu poderia ter impedido isso de acontecer com você se eu tivesse usado meu poder e visse o que ele estava tramando.

Ela sacudiu a cabeça, me olhando tristemente. Sua mão alcançou a minha que ainda estava no piano, a apertando delicadamente, mandando um choque através de mim.

—Nada poderia ter me impedido de me apaixonar por James, Cas. —ela respondeu. — Linne acredita que tudo tem um motivo, como se uma força movesse tudo, mesmo que torto, até servir seu propósito. Eu estou tentando acreditar que isso aconteceu por algum motivo, talvez para me fazer amadurecer. Não estou fazendo um bom trabalho nisso por enquanto, mas minha conversa com Bella me fez perceber que eu não posso ficar do jeito que eu estava. Que eu ainda estou.

Apertei a mão dela em retorno. Ela era tão nova, tão terrivelmente nova para o nosso mundo. E desde o dia que eu a conheci havia amadurecido tanto. Não pude evitar a faísca de orgulho em meu peito.

Me levantei, me esticando novamente e lutando contra a dor muscular que eu estava sentindo. Devo ter feito alguma careta, já que ela me olhou um tanto quanto preocupada.

—Rhys me entregou meu traseiro numa bandeja hoje como recompensa por não estar treinando.— eu expliquei. — Tenho sorte de ter sido ele e não Azriel. Ele sim me deixaria numa cama por isso e não pararia de se gabar por um mês.

Sua cabeça pendeu levemente para o lado, me lembrando um gato observando algo.  Seu olhar me varreu novamente por alguns segundos, até chegarem em meus olhos.

—Você parece cansado. — ela disse. Seus olhos verdes me encararam com o que achei ser culpa.

Eu cocei minha barba, notando pela primeira vez que já havia passado da hora de fazê-la. Eu não queria que ela se preocupasse comigo, muito menos que sentisse culpa por eu me preocupar com ela. Isso era, afinal de contas, inevitável.

—Eu sou insone por natureza, querida Sophie. — eu menti, lhe dando um de meus sorrisos charmosos.

Seu cenho franziu para mim.

—Mentiroso. — ela acusou. Então se levantou, arrumando novamente suas coisas.

Engoli em seco quando ela se curvou para pegar uma bolsa no chão. Seu cabelo formou uma coberta em volta de seu rosto, o escondendo de mim.

Ela havia notado que eu havia mentido com tanta facilidade. Nem mesmo Bella conseguia saber quando eu mentia ou não.

Mas Sophia era diferente. Ela sempre parecia me entender melhor. Ver através do que eu demonstrava ser. E não por causa do colar, já que era assim antes de eu o dar para ela.

Por um segundo cogitei contar para ela o motivo de eu não conseguir dormir direito a noite. Ela sempre compartilhava seus problemas comigo, seria uma troca justa.

Abri a boca para contar, mas a fechei. Ela já estava com problemas demais para eu lhe contar sobre os sonhos com a Corte Seelie que eu tinha toda noite, sonho dos quais eu acordava na maioria das vezes gritando e indo direto para o banheiro, onde eu lutava contra a ânsia de vomito que as memórias me causavam. O motivo de eu não querer morar no castelo, e sim sozinho na cabana.

Ela se endireitou, tirando seu cabelo do caminho. Involuntariamente, dei um passo a frente quando ela fez menção de sair.

—Tem algo marcado para hoje? — perguntei, recebendo uma sacudida negativa de cabeça da parte dela. — O que acha de treinar um pouco? Faz tempo desde a última vez.

Ela assentiu. Eu sorri aliviado. Não queria deixá-la ainda.

Nós seguimos o caminho lado a lado. Me estiquei, pegando rapidamente a bolsa  surpreendentemente pesada de seu ombro. Ela fez um barulho de protesto não muito convincente. Ela permaneceu quieta, sua mão esquerda tracejando a parede de pedra enquanto a outra tocava seu colar.

As vezes eu me via fazendo a mesma coisa, alcançando meu colar e o apertando, me confortando em saber que a vibração dele significava que Sophia estava do “outro lado da linha” , por assim dizer.

Eu a olhei disfarçadamente. Ela parecia pensativa, mas não tão triste como antes. Triste não era a palavra certa para descrever como ela estava antes. Era quase como um… vazio. Seu olhar era vazio, sem qualquer emoção.

Logo chegamos a saída desse lado do castelo para a parte traseira dele. Ela andou mais rápido ao perceber que aqui haviam algumas pessoas, já a olhando. Sorri para elas, do jeito que eu era esperado. Um sorriso para lhes lembrar que eu era o vampiro mais poderoso daqui. Ou bem, o segundo.

Abri a porta da cabana, fazendo um gesto dramático com meu braço para convidá-la a entrar. Ela rolou os olhos para mim e se espremeu ao meu lado na abertura da porta. Tão perto que seu cabelo acariciou meu nariz, me fazendo sentir o cheiro do seu perfume.

Ela olhou em volta, procurando algo. Ela sacudiu a cabeça levemente e foi sentar no sofá.

Apontei as plantas que eu estava deixando na sala na esperança de ela se sentir bem o suficiente para vir aqui treinar.

—Eu realmente espero que estejam pagando bem a florista daqui.

Rolei os olhos e depois sorri. Eu senti falta dessas afirmações que ela sempre acabava fazendo.

—É claro que está sendo, ela tem o prazer de ver o meu rosto sempre lá. — apontei um dedo para ela. — Seque-as até quase morrerem, mas pare antes de desintegrar. Vamos ver até onde você consegue controlar seu poder. Enquanto você faz isso eu vou tomar um banho, não quero que meu fedor seja o responsável pela morte delas.

Ela me analisou, e depois deu uma respiração profunda. Sua cabeça se inclinou para a esquerda, fazendo seu cabelo cascatear. Ela parecia um pouco confusa.

—Você está com um cheiro diferente. — ela notou. — Mudou seu perfume ou algo assim?

Comecei meu caminho até o banheiro, e sem olhar para trás eu disse, — Foco, Sophia. Depois eu te deixo me cheirar melhor, se quiser.

Ela falou algo incompreensível por baixo de sua respiração, me fazendo rir. Eu adorava provocá-la.

Mas assim que entrei debaixo do.chuveiro não me senti com tanta vontade de rir assim. Eu sabia que alguma hora eu teria que contar para ela o motivo de ela achar que meu cheiro havia mudado. O motivo que eu havia percebido quando ela se livrou do Laço com James, quando eu havia sentido o cheiro dela também e percebido o que havia mudado.

Eu não queria esconder nada dela, sabia que isso não me faria melhor que James.mas ela ainda estava tão magoada, tão frágil. Talvez isso apenas a deixasse pior.

Ou talvez a ajudasse a perceber que James não era mesmo a pessoa certa para ela.

Sacudi a cabeça e esfreguei meu cabelo vigorosamente com o shampoo.

Eu não arriscaria deixá-la mais triste. Eu ainda levava minha promessa para ela a sério. Eu não ia deixá-la esquecer de quem ela realmente era.  

Terminei meu banho, me enfiando rapidamente em roupas limpas e secando meu cabelo com a toalha. Ele estava no ombro, coisa que Rhys me atormentou hoje sobre, dizendo que para me derrubar bastava apenas puxar ele.

Eu sabia que era verdade, que numa guerra ele não seria prático. Mas não conseguia me fazer cortá-lo, já que a última vez que tive ele curto foi em Seelie, onde eles o raspavam.

Quando fui até a sala novamente, encontrei Sophia encolhida no sofá, dormindo. As plantas estavam exatamente do jeito que eu havia dito para ela deixar.

Sem ter como deixar a oportunidade passar, fui até meu quarto e peguei meu caderno de esboços. Ela parecia tão em.paz dormindo, tão bonita com o cenho levemente franzido e os lábios um pouco separados, algumas mechas de seu cabelo caídas em sua bochecha. Suas mãos estavam entre seus joelhos, como se quisesse esquentá-las.

Comecei a desenhar seus traços, podendo estudar melhor o lugar de cada sarda dela. O nariz levemente arrebitado, a boca bem desenhada.

Algum tempo depois minha cabeça estava abaixada para o papel, minha concentração focada no desenho. Foi por isso que eu não vi quando ela acordou e se inclinou para frente, uma mão passando em uma mecha do meu cabelo ainda úmido, me fazendo pular.

—Seu cabelo é mais bonito que o meu. — ela disse, quase como uma bronca. — Não é justo, se eu deixar o meu secar assim ele fica horrível.

—Eu seriamente duvido que isso seja verdade, Sophie. — eu respondi.

Ela esticou a cabeça, tentando espiar meu caderno. Eu o levantei acima de minha cabeça.

—Bella me disse que você pintava. Eu estava me perguntando onde é que suas obras de arte estavam.

Eu me encolhi por dentro. Isabella como sempre havia falado mais do que devia. Hesitante, entreguei o caderno para ela, indo até a cozinha para evitar a sua reação.

Me perguntando o que exatamente Bella havia dito sobre minhas pinturas, fui até  pia e tomei um copo de água. Quando me virei novamente para Sophia ela estava encarando quietamente o papel, sua mão tracejando delicadamente.

Me apoiei no balcão, assumindo uma de minhas melhores poses impassíveis.

—Eu não sou muito bom, preciso praticar mais. — eu me expliquei, envergonhado pela seu escrutínio. —Deveria ver antes, eu era melhor que o Picasso.

Ela rolou os olhos para mim.

—Sempre tão humilde, não é?  — ela observou o desenho novamente, sua feição muito mais séria quando ela levantou seu rosto para mim uma outra vez. — Você não precisa fazer isso, você sabe.

Senti meu cenho franzir. Cruzei meus braços sobre meu peito, a encarando.

—Fazer o que, exatamente? Desenhar sua cara enquanto você baba em meu sofá?

Ela se levantou, parando em minha frente. Colocou cuidadosamente o caderno em cima do balcão, levantando seu rosto ainda inchado de sono para me encarar.

—Fingir que isso é tudo que você é. Arrogante, auto centrado, até malvado. O jeito que você age nas reuniões. Não precisa fazer isso comigo.

Inconscientemente me inclinei para frente, nivelando nosso olhar.

—Mas eu sou essas coisas, Sophie querida. — eu disse, recebendo uma olhada firme em retorno. Dei de ombros, me virando para colocar meu copo  na pia. —E o que você acha que eu sou então, Sophia?

Não a olhei enquanto aguardava sua resposta. Me dando uma bronca interna por me importar demais com o que ela poderia falar, me forcei a manter minha postura relaxada.

—Você é gentil. — ela disse baixo. —Tão gentil que mesmo não precisando, me ajuda com qualquer coisa que eu precise, sem exigir nada em retorno. Que mesmo com suas próprias feridas se preocupa com as minhas. Um sonhador, pelo que os livros me indicaram. Ninguém que analisa cada personagem do jeito que suas anotações mostraram pode ser cruel, não de verdade.

Senti os cantos da minha boca se virando.

—Tirou essas conclusões baseadas em minhas anotações?

Eu podia sentir o peso de seus olhos em minhas costas.

—Sim. Mas eu te conheço um pouco, você é meu amigo. E gostaria de conhecer melhor. —senti seu calor mais perto de mim, como se ela tivesse dado um passo para perto. — Eu sei que eu não estou muito apta a dar conselhos ou algo assim, mas se você os quiser eu vou tentar. Se quiser falar do que te aflige como eu faço toda hora com você, fale. Nada do que falar pode mudar nossa amizade, Cas. Não importa o quê.

Eu me virei para ela, tão perto de mim agora. Eu lhe dei um sorriso largo, disfarçando que suas palavras haviam feito comigo. O quanto eu queria mesmo poder fazer isso.

—Eu não tenho aflições, não se preocupe.

Ela me analisou, seus olhos verdes cheios de pensamentos que eu não podia discernir.

O canto de sua boca se levantou sem humor.

—Mentiroso.

Novamente ela havia farejado minha mentira. Me senti tentado a lhe contar tudo, cada preocupação minha. Mas como eu poderia fazer isso quando ela ainda estava tão fragilizada? Talvez depois, mas não agora.

Fui poupado de responder por várias batidas frenéticas na porta. Nós dois nos afastamos, percebendo o quão perto estávamos. Sua distância repentina pareceu errada, então antes que eu pudesse me aproximar novamente fui até a porta, a abrindo para minha, que deu apenas uma olhada para Sophia antes de me dar um sorrisinho irritante.

Carolinne entrou logo atrás de Bella, que me deu  mais uma uma olhada conhecedora. Estreitei meus olhos para minha irmã mais velha, a mandando se comportar.

Carolinne passou direto por mim, indo até Sophia, que a olhava alarmada.

—O que houve? — ela perguntou, vendo o olhar de sua amiga. Alerta, me olhou e depois para Bella.

Carolinne pegou o braço de Sophia, a puxando em direção a porta.

—Os guardas foram mandados para o muro nos limites da cidade para deter uma alcateia de lobisomens de se aproximarem. Você precisa ir até lá, rápido.

Os olhos de Sophia se arregalaram, sua olheiras haviam sumido com a energia que ela havia tomado das plantas. Assentiu enfaticamente com a cabeça.

—Você vai levá-la para uma alcateia  desconhecida, sem proteção? — eu me coloquei no meio do caminho e perguntei, incrédulo. — Você se lembra que ela é a ultima da linhagem dela, não é?

Carolinne me olhou irritada, tentando me empurrar e falhando.

—É claro que eu sei, seu imbecil real. Mova-se, ou lhe jogarei um feitiço.

Eu não me mexi nem um centímetro. Eu certamente não iria deixar Sophia se arriscar assim.

Seus olhos verdes encontraram os meus, o mais animados que eu havia visto em.muito tempo.

—Cas, sai logo, não é uma alcateia desconhecida. É Jordan, ele deve ter conseguido convencer o líder deles a finalmente vir nos ajudar.

Senti minhas sobrancelhas de erguerem. Eu havia esquecido da existência desse amigo dela. Olhei para Bella, uma pergunta em meus olhos.

—Rhys foi para lá tentar impedir os guardiões que Nicholas mandou de fazer algo estúpido.

Olhei para Sophia novamente, vendo a ira em seu olhar pela menção de Nicholas. Eles estavam brigando mais do que nunca nas reuniões.

—É melhor irmos então. — eu disse, recebendo um olhar surpreso dela. Eu sorri. —Não achou que eu iria ficar para trás, não é?

Ela me olhou, um tanto quanto aliviada, e deixou Carolinne a arrastar para fora comigo e Isabella em seu encalço. A nossa sorte era que o muro em que eles estavam eram na parte mais alta da cidade, próxima a floresta. Corremos até lá, os cabelos ruivos de Sophia voando atrás dela, como a calda de uma estrela cadente.

Chegamos ao portão noroeste, mantidos fechados por correntes enormes. Sophia subiu as escadas que levariam até os muros altos, onde os arqueiros estavam posocionados, seus arcos apontados para a comitiva de pessoas ao pé do muro.

Ela se dirigiu até o que estava gritando ordens.

—O quê está havendo aqui? —Exigiu, sua voz imponente como nunca antes. O guardião apenas a olhou. — Abaixem os arcos agora mesmo, eles não são inimigos.

Ele pareceu um tanto irritado pelas ordens dela, e sua voz não escondeu isso.

—São lobisomens, Vossa Majestade. Temos ordens de atirar em invasores. Ancião Nicholas nos ordenou a os afastar da cidade.

A aura de Sophia estava tão vermelha com sua fúria que decidi me intrometer antes que ela explodisse a cabeça dele.

—Devo lhe lembrar, guardião, que as ordens de Princesa Sophia devem ser acatadas sobre as de Ancião Nicholas. Então sugiro que as obedeça, se não quiser ser acusado de traição. — eu disse, deixando meu poder lhe toca, envolver sua menter o provocando, o lembrando do que eu sabia que diziam sobre mim

Ele engoliu em seco, seus olhos indo de Sophia até mim. Ela deu mais um passo a frente quando ele mesmo assim não obedeceu. Senti a mudança em sua aura quando ela alcançou seu poder. Coloquei minha mão num gesto que para os outros poderia parecer íntimo, mas que era para lhe lembrar de tomar cuidado.

Ela deu um sorriso sem humor para ele.

—Mande seus homens abaixarem as armas e abrirem os portões para mim, terei uma conversa com Nicholas mais tarde. — ele parecia ter ficado paralisado no lugar, a fazendo o olhar irritada, direcionando seu poder até ele. — Agora.

E como meu poder ainda estava o envolvendo eu pude sentir o que ele estava sentindo, o poder dela o acariciando tão gelado quanto as mãos da morte. E tão vazio, sugando a energia a seu redor. Apertei minha mão no braço dela, a lembrando do que poderia acontecer. Ela assentiu para mim, me deixando saber que ela havia entendido.

O guardião gritou comandos em romeno para seus homens, que abaixaram os arcos em uníssono.

Ninguém notou como ela suspirou sutilmente com isso, seus ombros ainda tensos. Deslizei minha mão até a sua sem perceber, a apertando suavemente antes de me afastar dela. Ela a apertou de volta, me olhando agradecida.

Me virei para o guardião, lhe olhando seriamente para lhe mostrar que seu desacatamento seria reportado.

Descemos novamente, encontrando Rhys e as meninas juntos, olhando os portões sendo levantados.

—Eles montaram acampamento ao redor do muro, o lider deles está esperando para falar com a princesa. —Rhys me informou, sua voz baixa.

Eu assenti para meu amigo, vendo Sophia endireitar seus ombros ao meu lado, assumindo seu papel de Princesa novamente. Ela me olhou de canto de olho.

—Você irá comigo?

Eu sabia que mesmo sendo dito casualmente, era um convite. E eu não iria recusar. Me juntei a ela novamente, andando ao seu lado.

—É claro que sim, não brinco com os cães há séculos.

Ela rolou os olhos novamente, tentando esconder seu alívio. Ela podia fazer um bom trabalho em fingir que isso tudo era fácil para ela, mas eu sabia que não era. Mesmo para mim, que nasci um principe e sempre soube do meu papel a vida inteira, falar com as pessoas assim e me portar como um futuro rei era cansativo.

Cruzamos os portões, os outros atrás de nós. Fomos recebidos por dezenas e dezenas de olhos dourados brilhando para nós, nos mostrando que os lobos estava alertas. Senti Sophia ficar tensa ao meu lado.

Um deles deu um passo a frente, seus dentes brancos brilhando para Sophia. Ele era um pouco mais baixo que eu, seu cabelo castanho curto. Sophia soltou algo parecido com um gritinho, indo correndo até ele. Ela se jogou contra ele, lhe abraçando. Ele retribuiu, sorrindo.

—Eu disse que iria vir, não disse? Apenas demorei um pouco, Soph. — ele a afastou dele, a olhando melhor. Seu olhar foi para Carolinne, que sorria de um jeito reservado para poucas pessoas. — A comida aqui está escassa, por acaso?

Ela bufou, indo até ele e lhe dando um abraço também.

—Ela se alimenta de sangue e não tem sua mãe para lhe enfiar comida o dia inteiro, o que você esperava?

Sophia se meteu no meio dos dois novamente, procurando algo para mudar de assunto e não ter que explicar o motivo de sua perda de peso.

—Jordan, eu tenho que te apresentar a alguém. — ela disse, vindo até meu lado. —Este é Caspian. Caspian, esse é Jordan.

Os olhos escuros de Jordan se viraram para mim, não hostis como eu esperava, mas amigáveis. Ele me analisou, seu olhar indo até a espada que eu havia colocado em minha cintura antes de vir para cá.

—Como o príncipe de Narnia?— ele perguntou, assim como Sophia na primeira vez que nos conhecemos. Eu continuei não entendendo a piada.

Bati continência, sorrindo para ele. Eu sabia que era importante eu conseguir ter uma relação amigável com ele, já que ele era amigo de Sophia. Então ignorei seu braço no ombro dela, a abraçando, e estendi minha mão.

—Vejo que conseguiu convencer seu alfa a se juntar a nossa causa. — eu disse, olhando em volta, procurando o alfa em questão. —Onde ele está? Tenho certeza que nossa Sophia quer conversar com ele.

Ela assentiu, se colocando ao meu lado novamente para meu alivio.

Não que eu ligasse para o jeito que ela estava abraçada com Jordan. Eu de fato, não dava a minima. Ou pelo menos tentei acreditar nisso.

Ele passou uma mão pela sua cabeça, parecendo um pouco encabulado.

—Bem, eu sou o Alfa agora. O antigo… Digamos que ele não aceitou, mesmo com a maioria esmagadora da alcateia querendo vir.

O olhei, surpreso com isso. Ele era novo para ser alfa, e o jeito que os lobos ganhavam a liderança…

Um lobo tinha que desafiar o alfa, e ganhar dele para tomar seu lugar. O que significava que ele havia lutado com alguém mais velho, apenas para conseguir vir para cá. E a luta apenas acabava quando um morria.

Sophia pareceu perceber isso também, o sacrifício que seu amigo havia feito para ajudá-la, pois ela respirou profundamente. Ela sabia agora, mais do que nunca, o peso que era tirar a vida de alguém. Ela olhou ao redor, todos os lobos a encarando.  

Deu um passo a frente, sua cabeça erguida. E mesmo com seu vestido casual, seu colar sendo sua única joia, ela pareceu mais uma princesa do que nunca.

—Vocês tem meu agradecimento eterno por concordarem em nos ajudar a lutar contra nosso inimigo em comum. Os Giovannis atacarão no solstício de verão, e a ajuda de vocês será extremamente valiosa. — sua voz soou, alta e clara. Ela inclinou sua cabeça para frente, seu cabelo cascateando em uma maré acobreada. —Obrigada, Munin não se esquecerá disso. Jordan, acho melhor eu lhe informar todos os detalhes. Vamos até o Castelo, seu povo está seguro agora. Qualquer um que ousar os machucar terá que se acertar comigo.

A última parte foi dirigida aos guardiões que ainda estavam postados na muralha. Eles assentiram. Eu sorri para ela, me sentindo um tanto quanto feliz em vê-la tão bem a ponto de ameaçar as pessoas.

Ela seguiu na frente, Jordan e Carolinne ao lado dela. Isabella se apresentou a ele, toda charmosa. O que ele retribuiu com mais charme ainda. Sophia lhe deu um olhar de aviso, ganhando um dar de ombros dele como resposta. Ela sorriu, olhando para Carolinne. Eu tinha certeza que as duas haviam sentido falta do amigo.

Rhys estava ao meu lado, seu olhar estreitado observando a conversa entre Bella e o lobisomem.

—Parece, Rhys, que você vai ter competição. — eu provoquei, ganhando uma cotovelada dele no lugar que ele ja havia machucado de manhã.

—Já contou a Sophia? — ele rebateu, a olhando direito agora, percebendo como ela não estava mais parecendo um zumbi. — Ela parece melhor.

—Ela está, mas não o suficiente para eu a perturbar com isso. — eu disse, e depois adicionei, baixo. — E James?

—Está nos vilarejos ainda. Conseguiram derrotar um ataque dos Giovannis antes de eles chegarem a vila. Não voltará para cá tão cedo, pelo que parece. Não sem ser convocado.

Assenti. Eu não achava que ele iria.

Observei Sophia, conversando com Bella agora, prestando atenção em algum conselho que ela estava dando sobre como tratar de NIcholas por passar por cimas das ordens dela..

Resisti a vontade absurda de ir ao seu lado e sentir o calor de sua mão na minha novamente. Ela não tinha tempo para isso agora, eu sabia, para o que eu precisava lhe dizer.

Entrando no castelo pelas portas traseiras, evitando os hospedes, ela nos enfiou numa sala de reuniões que ninguém usava. Todos nos sentamos, ela na cabeça da mesa, eu a sua direita.

Jordan olhou ao redor.

—James não deveria estar aqui? Achei que ele te seguia sempre.

Vendo a expressão de dor passar em seu rosto, sem pensar, peguei sua mão por baixo da mesa. Carolinne sacudiu a cabeça e escondeu seu rosto na sua mão para a falta de tato do amigo.

Sophia o olhou, a dor longe de seu rosto novamente.

—Aconteceu muita coisa desde a última vez que eu te vi, Jordan. — ela disse, e com sua mão ainda na minha, como se precisasse de minhas forças para falar, começou a contar tudo o que havia acontecido.



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