História The Ascent. - Capítulo 29


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Bruxas, Fadas, Guardioes, Lobisomens, Princesa, Principe, Vampiros
Exibições 2
Palavras 7.840
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Fantasia, Magia, Romance e Novela, Shoujo-Ai, Sobrenatural, Terror e Horror
Avisos: Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 29 - Capítulo 28


—Você, Sophia Dragomir, pegou o Suriel na primeira tentativa? E matou Giovannis logo após? — Jordan olhou para Caspian, que assim que terminei de falar tirou sua mão da minha e as colocou em cima da mesa. — Você sabe que ela vai te dar muito trabalho, certo?

Caspian suspirou dramaticamente, fazendo uma careta de sofrimento.

—Nem me fale.

Eu dei uma olhada feia para os dois. Eu não era trabalhosa. Descansei minha cabeça em minha mão, me sentindo cansada apesar do meu breve cochilo.

—Pelo menos consegui descobrir o dia do ataque. Temos quase dois meses até ele, espero que isso seja o suficiente para nos organizarmos. Eles estão atacando vilarejos cada vez mais próximos, mas seus números não são muito altos.

Rhys se inclinou um pouco para frente, entrelaçando seus dedos em cima da mesa. Seus olhos avelãs focaram em mim, parecendo pensativos.

—Ele provavelmente não está mostrando a extensão de suas forças. Não seria sábio, já que estragaria o elemento surpresa dele para o ataque. Não que seja realmente uma surpresa, agora que sabemos a data.

Senti minha cabeça começando a latejar, mas empurrei a sensação para o lado. Olhei Jordan novamente.

—Como sua alcatéia está reagindo a participar da guerra?

Ele deu de ombros.

—A maioria está apenas animada com poder matar algo, mas todos entendem a gravidade da situação. — respondeu, então seus olhos se moveram para Carolinne, que estava sentada parecendo entediada. —E você, está ajudando Sophia também ou está aqui apenas para arrumar um príncipe para você?

Ela lhe olhou com escarnio, jogando seu cabelo sobre o ombro.

—Não se esqueça, lobinho, que eu sou uma bruxa apesar de tudo. É claro que estou ajudando. Estou pesquisando sobre como eu posso rastrear onde o irmão dela está.

Me encolhi com a menção de Noah ser meu irmão. Isabella, ao meu lado, se debruçou sobre a mesa, dando uma olhada direta para seu irmão mais novo à minha direita.

—Deveria mandar uma mensagem para nosso pai, requisitando que ele mande reforços adiantados.

Ele fez uma careta, claramente preferindo fazer qualquer outra coisa ao invés disso.

—Tem que ser eu? Peça você, todos sabem que ele gosta mais de você. — ela esticou seu braço, sua mão indo para os dedos dele, os apertando com força. Ele deu um tapa na mão dela para fazê-la parar, e disse miseravelmente, —Tudo bem, sua valentona. Mandarei a mensagem.

Senti vontade de rir com eles sendo irmãos normais. Com Caspian, com todo seu poder, sendo coagido pela sua irmã mais velha.

Mas de algum modo, não consegui. Lutei contra a sensação no meu estômago ao lembrar o que meu próprio irmão havia feito, o que iria fazer de pior.

Caspian deve ter percebido alguma mudança em meus olhos, já que me deu uma olhada preocupada. Eu podia quase ouvir suas palavras, “Está tudo bem?” Sacudi a cabeça para ele, lhe indicando que não era nada.

Isabella deu um sorrisinho, parecendo achar nossa troca silenciosa muito divertida. Caspian lhe deu uma olhada assassina.

Carolinne pareceu notar que eu estava ficando com uma enxaqueca, já que se levantou.

—Acho melhor continuarmos amanhã, Sophia ainda tem uma bronca para dar em um velhote. Venha, Jordan, eu e Caspian lhe acompanharemos de volta.

Caspian levantou as sobrancelhas com isso, mas se levantou também, ele sabia melhor do que desobedecer Linne. Se curvou para mim, me dando uma olhada afiada.

—Treino amanhã, não pense que vai escapar. Vou achar alguma flor particularmente feia para você matar.

Rolei os olhos para ele.

Como se matar flores fosse muito difícil.

Seus olhos brilharam para mim, sua boca se curvando.

Sempre posso te trazer algum bicho fofo para matar no lugar, Sophie querida.

Pesquei, confusa. Ele pareceu um tanto quanto alarmado também pela nossa conversa silenciosa, mas apenas sacudiu a cabeça, dando de ombros para mim.

Me virei para Jordan, lhe abraçando novamente. Eu havia sentido falta dele, ele me lembrava tanto de casa. Da minha vida antiga.

—Amanhã nos falaremos mais. Quero saber sobre sua mãe.

Ele bagunçou meu cabelo, sorrindo. Se despediu de mim e saiu com Caspian e Linne atrás dele.

Isabella entrelaçou seu braço no meu, sorrindo abertamente.

—Eu não quero que perca o horário de Nicholas ser colocado no lugar dele. — disse, me guiando até a porta. —Rhys, nos guie.

Ele rolou os olhos, que um segundo depois ficaram desfocados como se estivesse vendo algo em outro lugar. Me lembrei de Cas me contando como ele conseguia conversar com as sombras, ver através delas.

Quando seus olhos se focaram novamente, ele piscou com força.

—Ele está em seu escritório.

Nós fomos andando, os corredores cheio de nobres que não fizeram nenhum esforço para disfarçar que estavam nos encarando. Me encarando.

Me encolhi, desejando ficar invisível. Isabella deu um sorriso leonino para um deles, como um verdadeiro predador para sua presa.

Todos desviaram o olhar rapidamente.

—Você precisa me ensinar a fazer isso, seria útil para quando os fofoqueiros estiverem me rondando.

Ela riu.

—Eu apenas brinco com a percepção que eles tem de mim, tenho certeza que já deve ter visto meu irmão fazendo a mesma coisa.

Assenti. Eu já havia visto mesmo, apenas uma olhada de Caspian para as pessoas as faziam desviar o olhar. Eu nunca entendi muito bem o motivo.

—Eles o temem por conta do poder dele, não é?

Ela admirou seus anéis por um momento antes de me responder.

—Sim, todos sabem que ele é o vampiro mais poderoso. — sorriu para minha expressão de espanto. —Você e ele são, aliás. Ele pode entrar na mente de qualquer pessoa, ver todos os segredos mais obscuros… E você, bem, pode matá-los apenas com sua vontade. Um par e tanto, não acha?

Desviei o olhar, me lembrando das mesmas palavras sendo ditas pela Rainha Seelie.

—Mas e você, qual o motivo de a temerem?

Rhys sorriu, mas seus olhos permaneceram nela.

—Bella tem a reputação de ser cruel com os homens que tentam se aproximar dela. — disse afetuosamente. Sem duvida se lembrando de como ela havia matado seu marido.

O sorriso dela apenas cresceu.

—Sim, é verdade. E também há o fato de que as pessoas nos temem apenas por sermos da corte de nosso pai, que também não é conhecida por ser muito benevolente.

Me lembrei de ter escutado alguém falando sobre isso comigo. O pai deles havia, afinal de contas, conquistado quase todos os reinos que não nos pertenciam com seu enorme exército, o mais forte de todos. E o pai deles, o rei, também não era conhecido por sua bondade, mas sim por sua fome de poder que não conhecia escrúpulos.

O que o havia feito forçar Caspian a aceitar o noivado comigo, eu sabia. Andolovina queria colocar as mãos em Munin desde sempre.

Permaneci em silêncio o resto do caminho, ouvindo Bella conversar com Rhys do jeito fácil de quem se conheciam a muito tempo. Quando chegamos ao meu destino, Bella seguiu com o mestre espião, me deixando para meu papel de Princesa.

Bati na porta, esperando. Assim como eu via Caspian fazendo, vesti minha máscara de princesa, puxando toda confiança e a colocando no meu olhar, como se eu fosse dona do mundo.

Nicholas abriu a porta, me olhando um pouco irritado.

—Princesa, o que a traz aqui? Sente-se, por favor.

Eu me sentei na cadeira, tendo vontade de o enforcar quando ele se sentou na outra cadeira, atrás da mesa. Esse escritório era do meu pai, do rei de Munin, e ele o usava como se lhe pertencesse.

Examinei minhas unhas despretensiosamente. Notei a pilha de papéis em sua mesa, sem dúvida papéis que Robert também estava me passando sem ele saber.

—Achei que gostaria de saber que os lobisomens vieram nos ajudar. — eu sorri para sua cara de desgosto. —Mas é claro que você já sabia disso, não é? Afinal de contas, mandou os guardiões os afastarem da cidade, apesar de minhas ordens diretas.

Ele me olhou, impassível. O olhar de um homem que havia tido o poder em suas mãos por tempo demais e havia esquecido o que era ficar sem ele.

—Devo ter me confundido. — ele disse, sorrindo daquele jeito falso dele. — Amigos interessantes os seus, não são? Primeiro as fadas, e agora trouxe os cães tão facilmente. Tenho certeza que o seu charme os convenceu rapidamente.

O jeito que ele disse charme me fez querer cuspir nele. Ele havia dito como se fosse uma palavra suja, o duplo sentido explícito. Me levantei. Argumentar com ele, eu sabia, não adiantaria em nada além de me enfuriar.

—Meus argumentos os convenceram. Apenas vim lhe informar sobre essas coisas, e que eu, e não você, tenho mais poder. Como você vem se esquecendo, acho melhor refrescar sua memória. Eu, Nicholas, e não você, sou a herdeira desse reino. Vou entrar com meu pedido formal para ser coroada e posta na primeira cadeira.

Ele pareceu muito calmo na mesa do meu pai.

—Entendo. — disse, se encostando na cadeira completamente. — Veremos qual vai ser a decisão então, não é?

Minha visão começou a ficar vermelha. Antes de sair, olhei por cima do meu ombro.

—Dá próxima vez que passar pro cima de um comando meu, vou lhe acusar de traição. Veremos então se vai manter seu ego com a cabeça cortada.

Bati a porta atrás de mim, indo até meu quarto.

Apenas quando cheguei nele e me enfiei na banheira foi que percebi que eu estava sentindo raiva.

Eu estava sentindo.

Deixei essa chama de esperança aquecer meu peito vazio. Suspirei, sentindo a água quente em meus músculos. Fechei os olhos, e vi os olhos violáceos de Caspian me olhando quando eu havia dito que ele podia me contar suas dores.

Ele pareceu querer aceitar, mas… algo o impediu. Eu vi a dor ali, vi também o jeito que ele parecia ter ficado aliviado quando havia me achado tocando piano. O alívio em seu rosto por me ver sentindo.

Sai do banho, me lembrando do desenho que ele havia feito. O jeito que ele pintou minhas sardas, fez cada imperfeição minha parecer… certa.

Peguei o último livro que faltava dos que ele havia deixado comigo, começando a lê-lo. Eu estava falando sério quando eu havia dito que queria conhecê-lo melhor.

Não demorei muito para cair no sono, o cheiro dele de algum jeito ainda no meu nariz. Mudado. Antes o que eu achava ser o cheiro de chuva, cigarros e algo cítrico havia virado algo a mais. Ele cheirava como uma tempestade cheirava, eletricidade, chuva, e terra molhada. A cravos, e limão siciliano, assim como a alguma flor que eu tinha certeza ser de seu sabonete.
 

Eu estava sendo perseguida. Lutei para conseguir respirar em meio a minha corrida. Eu estava correndo tão, tão rápido. Mas eles eram mais rápidos ainda. Eu disparei uma flecha, e depois outra. E quando elas haviam acabado, recorri ao meu poder, o mandando para o que ainda estava me perseguindo, puxando sua vida até mim, roubando sua força.

E o último, que eu não havia visto me ultrapassar, se jogou contra mim, sua lamina perfurando minha perna.

Seus olhos prateados brilharam para mim, um sorriso nos lábios. Tentei me soltar de seu aperto, me contorcendo para sair de perto dele, pois eu já sabia o que eu iria fazer em seguida.

Levantei minha adaga, e com um golpe, a enterrei em seu peito.

—Tess… —James sussurrou, sangue saindo de sua boca. Se juntando com o sangue que saia do seu peito e me cobrindo, me deixando toda vermelha...
 

Corri para o banheiro, a tempo de alcançar a privada e depositar o pouco que eu havia comido nela. Trêmula, fechei a tampa, me afastando depois de apertar a descarga.

As janelas do banheiro estavam abertas, então fui até elas. Toda noite, toda santa noite era o mesmo pesadelo. Enxuguei o suor da minha testa com a costa da minha mão, a outra indo segurar a esmeralda, meu toque absorvendo a sensação de conforto vindo dela.

Hoje eu havia conseguido dormir mais que o normal, sem tomar a poção que Linne havia me feito. O céu estava clareando, pronto para amanhecer.

Eu sabia que não iria conseguir dormir novamente, então fui até o chuveiro, o ligando no mais quente possível para tirar o frio em meu peito, o suor que grudava minha camisola em meu corpo.

Sentada debaixo da cachoeira de água quente, encostei minha cabeça em meus joelhos. Eu não precisava de um psicólogo para saber que esse sonho era sobre James ter me traído com meu inimigo.

Sai do banho, um pouco mais aquecida do que antes. Me enfiei em minhas roupas de treino, a regata e as leggings de sempre. Eu precisava de algo para fazer, uma distração. Olhei o livro jogado em minha cama, faltava apenas algumas páginas para o final, então o peguei. Não haveria ninguém agora para lutar comigo no centro de treinamento, de qualquer jeito.

Algum tempo depois fechei o livro, o abraçando em meu peito. O final havia sido tão… lindamente triste. Uma melodia começou a surgir, não tanto em minha mente, mas sim em meu peito. Era sempre assim, cada livro sempre fazia isso comigo. Me fazia ter vontade de expressar o que ei estava sentindo por eles, junto com os personagens. E eu não era boa em escrever, e nem em desenhar, então eu ia na única coisa que eu sabia fazer. No piano.

Rapidamente, antes que a melodia saísse  de minha mente, fui até a parte antiga do castelo que antes eu evitava por saber que meus pais costumavam viver aqui. Eu me sentia estranha em invadir um espaço que nunca fez parte da minha vida.

Entrei na sala de música, me sentando no piano de calda. Nas paredes, quadros provavelmente pintados para os meus antepassados me assistiam. Minha mão deslizou para a primeira nota, logo indo para as próximas, formando o início melancólico para combinar com o começo de dor do livro.

E a cada nota, percebi, meu peito parecia um pouco mais quente. Mas não por muito tempo, eu sabia.

Parei a música, me sentindo sem energia ao pensar nisso. Eu queria ter um botão para poder ficar melhor instantaneamente. Ou conhecer algum dos homens de preto, para eles poderem usar aquele aparelho que apagava as memórias em mim.

Sacudi a cabeça para mim mesma, sabendo que desejar por tais coisas não me levaria a nada. Assim como Bella havia me dito, eu tinha que viver um dia de cada vez.

Fechei a cobertura do piano, encostando minha cabeça nela e fechando os olhos. Eu tinha tarefas hoje, já que teríamos uma reunião do conselho e eu planejava pedir formalmente para ser coroada e feita a primeira cadeira de uma vez. Assim eu poderia ter mais poder, e não me questionariam tanto.

—Você não está dormindo, não é?

Pulei, olhando para os três andolovinos na porta. Me levantei, passando as mãos pelo meu cabelo bagunçado. Caspian estava encostado no batente da porta, sorrindo daquele jeito que ele sorria sempre quando estava tentando não rir diretamente da minha cara. Bella e Rhys estavam atrás, ela me olhou, analisando a mim e ao piano. Rhys, como sempre, olhava tudo calmamente, seu olhar vasculhando a sala em procura de alguma ameaça provavelmente.

—Eu estava descansando os olhos. — retruquei, lhe olhando feio. Essa mania de me assustar está se tornando tão inconveniente.

Seu sorriso cresceu. Novamente, quase pude ouvir o que ele estava pensando.

Você é um alvo muito fácil. Devia me agradecer por te ensinar a estar sempre alerta.

Virei minha cabeça, me peguntando mais uma vez como diabos estávamos fazendo isso.  Ele deu de ombros, me deixando saber que ele também não tinha idéia.

Isabella pigarreou, nos avisando que estávamos nos encarando demais. Afastei meu olhar do dele rapidamente.

—O que estão fazendo aqui?

Isabella me deu uma olhada de puro sofrimento. Ser dramático, aparentemente, era de família.

—Caspian acordou algumas horas atrás e veio me acordar também, com Rhys. Aparentemente, ele quer que eu pratique minha luta.

Caspian rolou os olhos para o tom de reclamação de sua irmã. —Você está enferrujada.  Como quer conseguir matar todos os homens do mundo se não treina?

Ela disse algo em italiano que não me pareceu muito gentil, fazendo Cas gargalhar. Girou em seus calcanhares, conversando com Rhys em voz baixa, seguindo pelo corredor.

Sacudi a cabeça para ela e seu tom de flerte. Fui para porta, onde Caspian estendeu a mão, bloqueando meu caminho.

—Não pense que se livrou de treinar comigo hoje. Até te deixarei dormir no meu sofá de novo.

Passei por baixo de seu braço facilmente.

—Eu tenho que ir treinar a minha luta também, primeiro. — Retruquei, agora no corredor. — Eu acordei cedo demais, não havia nenhum guardião para me instruir, então vim para cá.

Ele deu um passo a minha frente, bloqueando meu caminho. Levantei minha cabeça para encará-lo, sua expressão terrivelmente entretida.

— Pode treinar isso comigo, também. Eu fui treinado em Ilíria, sou melhor que os guardiões daqui. — um sorriso arrogante curvou seus lábios então. — Também sou muito mais bonito que eles.

Rolei os olhos mas mesmo assim assenti com a cabeça. Seguimos até a sala que Bella e Rhys haviam entrado, que era um salão, na verdade. O veludo das cortinas estava desbotado com os anos de descaso, as paredes azuis um pouco descascadas. Me peguei imaginando o que eles faziam aqui antigamente, meu pai e minha mãe. Davam bailes para seus amigos? Faziam reuniões pessoais?

Seja lá o que fosse que eles fizessem, tenho certeza que não envolvia as espadas e adagas que agora estavam no chão, enfileiradas perto da lareira. Sem duvida coisa de Caspian ou de Rhys.

Bella, no meio do salão, estava com uma adaga em sua mão, sendo corrigida por Rhys atrás dela sobre como ela devia posicionar seus braços e pernas. Ela parecia irritada com a interrupção da demonstração dele. Rhys levantou uma sobrancelha para mim.

—Vai treinar conosco hoje? — indagou, saindo de perto de Bella e vindo em nossa direção.

Apontei com meu dedão para Caspian.

—Esse ai me convenceu com seu charme de que ele é melhor que um guardião. — andei até as armas, e quando me virei novamente para os dois os peguei no meio de Rhys apontando para mim e mexendo a boca para Caspian, que lhe deu uma uma olhada furiosa. Vendo que foi pego, sorriu inocentemente, fazendo sua covinha aparecer. O ignorei. — Coisa que eu duvido.

Isabella veio até meu lado, colocando suas adagas no chão. Ela se jogou no sofá velho, sem ligar para a poeira que subiu com o movimento.

—Caspian provavelmente é melhor que qualquer guardião daqui, mas só porque Azriel não veio junto.

Caspian a olhou indignado.

—Sua traidora, sabe que eu sou melhor que Az.— ele estalou a língua para ela. — Eu quero duzentos polichinelos como pagamento por essa sua mentira.

Ela lhe disse algo que sem sombras de duvida era um palavrão em italiano, já que Rhys levantou as sobrancelhas em espanto, soltando um assobio baixo.

—Azriel é seu amigo?

Os dois pareceram lembrar da minha existência, já que me olharam ao mesmo tempo. Bella pelo menos teve a decência de parecer envergonhada. O jeito que eles interagiam um com o outro era tão íntimo, tão confortável, que me senti deslocada por um momento. Considerei encontrar alguma desculpa para ir embora e os deixar em paz.

—Sim, — Caspian respondeu, — ele é o comandante dos meus exércitos, também. Ele é o único que geralmente consegue fazer esse bicho preguiça que eu chamo de irmã treinar.

Ela fez um gesto indecente para Caspian do sofá, seu outro braço em cima de seus olhos. Sem duvida pronta para dormir.

Caspian lhe deu uma olhada carinhosa de desgosto. Rhys se juntou a ela, colocando os pés dela em seu colo e jogando a cabeça contra o encosto do sofá, fechando seus olhos também.

—Parece que apenas eu e você temos alguma energia, Sophia querida. — seu olhar se demorou em mim enquanto eu erguia meus braços para prender meu cabelo em um rabo de cavalo. —Devemos começar?

Separei meus pés, minhas mãos subindo em punhos, esperando ele dar o primeiro passo. Rapidamente, ele tentou me socar no estômago, meu braço o impedindo por pouco. Tentei chutar seu quadril, mas ele segurou meu pé, me puxando para ele.

—Boa tentativa. — ele riu, me soltando finalmente e me fazendo quase cair para trás.

Lhe mostrei minhas presas, ganhando outra gargalhada.

Observei seus movimentos enquanto lutávamos, o jeito certeiro que ele previa os meus, como ele desviava com precisão. Eu sentia meu colar vibrar levemente com nossa proximidade, como se reconhecesse Caspian na minha frente. Me lembrei da mesma sensação na floresta, enquanto eu lutava com os Giovannis. Lutava de um jeito que eu sabia ser muito mais avançado do que os meus conhecimentos básicos. Lutava como ele.

Desviei de uma cotovelada dele, absorvendo a vibração do colar, o convidando a me ajudar. Testando se o que eu suspeitava era mesmo verdade.

E então eu sabia os próximos movimentos dele, sabia exatamente como e quando desviar, onde o atingir para derrubá-lo. Ele tentou golpear minha cabeça e no mesmo instante eu me abaixei, rápida, e dei um chute no meio da canela dele. Ele caiu no chão, seus olhos violáceos brilhando para mim, me fazendo perder a concentração por um segundo.

E nesse segundo ele me atacou tão rápido quanto uma ave capturando sua presa, me prendendo de baixo dele. Me fazendo perceber com a proximidade de seu corpo me prendendo no chão o quão maior ele era que eu. Caspian sempre me pareceu esguio, mas eu pude sentir que seu corpo era feito de poderosos músculos como qualquer guardião.

Ele me encarava, seu rosto a centímetros do meu, seu cabelo que havia se soltado de sua amarração fazendo cócegas em minhas bochechas. Os olhos que eu sempre achei que fossem de um azul violáceo na verdade tinham pequenos pontos pratas, como estrelas num céu.

Tentei acertar sua cabeça com meu punho fechado mas ele, prevendo isso, apenas segurou minha mão contra o chão.

—Parece que o colar tem mais utilidades do que sabemos. — disse, um meio sorriso em seu rosto, tão perto do meu que eu podia sentir o calor emanando dele.— Parece que não vai precisar de treinamento, afinal de contas.

Engoli em seco, o empurrando de cima mim sem sucesso.

—Já sabe que eu posso te derrubar, Cas. Eu tenho mais coisas a fazer.

Ele piscou com meu tom duro. Me senti culpada por ter falado de maneira tão grossa com ele, mas… eu não podia ficar tão perto assim. Me fazia sentir estranha, a eletricidade passando dele para mim.

Ele se afastou, se levantando e estendendo uma mão para me ajudar. Eu ignorei, me pondo de pé sozinha. A descarga de poder me fazia lembrar de outra época, de quando eu havia sentido isso pela primeira vez, quando tudo era novo e eu estava assustada, procurando respostas sobre o que havia acontecido comigo.

Parecia ter sido a anos, não meses que isso havia acontecido. Senti o peso de tudo que havia acontecido em tão pouco tempo nos meus ombros então, me fazendo querer deitar. E não levantar mais por um bom tempo.

Caspian me olhou preocupado. Foi até a porta, com um gesto para me indicar que eu devia segui-lo. Praticamente arrastei meus pés para onde ele estava me levando, pelos corredores. Eu queria descansar, tanto. E eu sabia que eu provavelmente não descansaria tão cedo.

Ele parou em frente a uma porta, a abrindo para um quarto empoeirado também. Fiz uma nota mental para dizer a alguém para vir limpar melhor essa área.

O quarto era quase igual o meu, mas maior ainda. Parecia antigo, sua cama enorme tinha cortinas de seda em volta. Havia um.candelabro ainda com velas no criado mudo, que Caspian acendeu com seu isqueiro.

Me sentei na cama, desejando poder deitar. Ele se encostou na porta, me observando. Evitei seus olhos que pareciam sempre saber o que eu estava sentindo.

—Você anda tendo pesadelos, não é? É por isso que está tão cansada. Por isso que acordou tão cedo. — franzi meu cenho para ele. Como ele sabia? Ele me deu um.meio sorriso então. —O colar… eu senti você em pânico, quase como no dia que pegou o Suriel. Eu achei que estava sendo atacada novamente, mas depois de algum tempo passou.

Eu segurei o colar em questão, sentindo meu estômago dar um nó ao lembrar da sensação do sangue de James em minhas mãos. Olhei o chão.

—Não foi nada, apenas um sonho bobo. Me desculpe por te acordar.

Ele deu passadas longas até se colocar na.minha frente, sua mão calejada segurando meu queixo, levantando sua cabeça. Um flash de raiva e dor passaram por seus olhos, mas com uma piscada havia sumido.

—Não foi nada, Sophia. Não faça pouco caso, não comigo. Não se desculpe para mim, nunca.

Puxei minha cabeça do seu toque, fugindo do olhar penoso dele.

—Eu não vou sair correndo até você cada vez que tiver um sonho ruim, Cas. Não sou mais esse tipo de garota.

Ele demorou um momento para responder. Ele me analisou, procurando algo que não pareceu achar.

—Eu sei que não é. — respondeu quietamente. —Talvez nunca tenha sido, realmente. Apenas queria lhe lembrar que não precisa encarar os monstros sozinha, Sophia querida. Mesmo que não precise, gostaria que soubesse que você sempre pode me procurar.

Eu já sabia disso, eu sentia isso. Entendi então que seu olhar não era de pena, mas de recognição. Reconhecimento com o que ele mesmo devia ter passado, devia passar. “Eu fui me perdendo pouco a pouco também, quando saí de lá demorei um tempo para me lembrar quem eu era.”, ele havia me dito sobre quando voltou de seelie. Me perguntei se ele gostaria de ter alguém para falar sobre isso e por isso queria que eu falasse com ele.

—Eu sei disso, Cas. —respondi. Me levantei, dando um passo para perto dele, nossos olhares ainda grudados. Sem meu comando, minha mão direita se apoiou eu seu peito, em cima do seu colar. Eu podia sentir as batidas de seu coração. —Eu te contei o meu motivo de ter acordado. Sua vez de me contar algo. Um pensamento por um pensamento. Me parece justo, não acha?

Ele suspirou, o fantasma de um sorriso curvando seus lábios. Não respondeu de imediato, sua expressão perdida em alguma memória. Vendo a expressão no seu rosto, queria poder fazer para ele o que ele fazia por mim, consolá-lo.

—Nos anos que fiquei em Seelie, a rainha me fez vasculhar a mente de quem ela quisesse. Me fazia torturar as pessoas, por menor que fosse a infração dela. E eu tinha que fazer, mesmo odiando invadir assim a cabeça dos outros, ou ela iria me punir. Ameaçava punir minhas irmãs e meus amigos, que estavam sempre procurando por mim. Então eu fazia, e os gritos das pessoas me assolam até hoje.

Ele desviou os olhos, dor, vergonha e ódio brilhando neles. E eu sabia, sabia apenas pelo respiração profunda que ele havia dado, que ele nunca havia contado sobre isso para ninguém. Sabia também que isso não devia ser tudo que a rainha o havia feito passar. 10 anos, naquele lugar, sendo submetido a atrocidades…

Eu peguei sua mão que estava levemente trêmula, a apertando. O fazendo olhar para mim.

—Pelo que ele fez comigo, eu não o mataria Cas. Mas por ter te feito ficar lá, apenas uma morte não seria o suficiente para puni-lo.

Ele sabia de quem eu estava falando. Ele levantou sua mão, tirando uma mecha solta do meu rosto e a colocando atrás da minha orelha.

—Essa é a Sophia que eu adoro, planejando a morte dos outros com fogo em seus olhos. — Se inclinou, beijando suavemente minha testa em agradecimento. Prendi meu fôlego com o jeito que esse contato mandou raios até meu sangue. —Devemos voltar antes que me acusem de ter te sequestrado.

Eu o segui até a porta, a luz do corredor parecendo clara demais depois da escuridão do quarto. O observei, seu cabelo escuro contra sua pele clara, a camiseta branca e a calça jeans tão casuais para um príncipe. O que tirava o efeito de normalidade era o jeito que ele andava tão auto confiante, me lembrando um leão andando pela floresta, sabendo que era o mais forte.

Ele era o mais forte, me lembrei. Bella havia dito que ele era o vampiro mais poderoso de toda a história. E mesmo assim, havia sido preso em outra dimensão. Me perguntei quantas noites ele não passada acordado pensando nessas coisas que não podia dizer para seus amigos, pois os magoaria por não terem conseguido o ajudar.

Ele se virou para mim, seu rosto não mais vulnerável que nem antes. Ao invés, seu sorriso preguiçoso estava no lugar.

—Eu esqueci de perguntar. Você falou com nosso querido amigo Nicholas ontem?

Enrolei meu dedo na ponta do meu rabo de cavalo, torcendo meu cabelo.

—Eu posso ter ameaçado cortar a cabeça dele, e mencionado pedir formalmente para me colocarem na primeira cadeira e me coroarem logo. —Eu fiz uma careta. —Mas não acho que ele vá deixar isso passar tão fácil.

Ele riu baixo, o som tão rico que me senti inclinar para frente, querendo absorve-lo.

—Me chame da próxima vez, por favor. Queria ter visto a cara de ódio dele. — ele pausou, me olhando completamente agora. —Mas sabe que eles provavelmente irão dizer não, não é? Pelo menos para a questão da primeira cadeira.

Suspirei. Sim, eu sabia. Eles inventariam qualqjer desculpa para não me colocar no meu lugar por direito.

—Nicholas não vai desistir do pouco poder que ele tem assim tão fácil. — passei a mão pelo meu rosto. —Ele pode me negar isso? Sem um bom motivo?

Caspian pareceu pensar sobre isso, seu cenho franzindo. Assentiu com a cabeça uma vez.

—Ele pode. Mas poderemos usar os seus feitos de agora como argumento. Trazer os lobos e as fadas para o nosso lado… ele não conseguiria fazer isso. E mais da metade do conselho te aprova como monarca.

Mordi meu lábio. Eu precisava de mais do que “mais da metade”, eu sabia. E Nicholas, sendo o mais velho entre eles, mesmo sem ter nenhum Poder ainda era o mais respeitado. Mais do que eu seria, eu sabia. Mesmo sendo a herdeira do trono, eu tinha apenas dezoito anos e não era testada ainda. Não me dariam facilmente.

Caspian me observava, e eu sabia que ele provavelmente conseguia ver em meus olhos tudo que eu estava pensando. Sacudi a cabeça para ele, o dizendo para não se preocupar comigo. Entramos no cômodo antigo novamente, Rhys e Bella no mesmo lugar em que os havíamos deixado. Olhei os dois.

—Eles ficam bonitos juntos. — eu disse, me virando para ele.

Caspian os olhou, e eu pude ver o afeto em seu rosto. Afeto pelos dois brilhando tão forte que tive que desviar o olhar.

—Ela é minha irmã, ela é tão bonita que faz todos ficarem bonitos por associação.

De fato, Isabella era mesmo muito bonita. Senti minha cabeça pender para o lado, a analisando.

—O nariz de vocês é idêntico. — concluí. Assumi minha posição, os punhos levantados novamente. —A sua outra irmã parece com vocês também?

Ele tentou me atingir, mas eu desviei, invertendo nossas posições.

—Não tanto. Chiara tem o cabelo mais claro, e os olhos castanhos de nossa mãe. Bella parece uma adaga, linda e letal. Chiara é suave onde nós somos afiados, sempre foi. Não há uma pessoa que não goste dela, mesmo no nosso reino, onde ser doce como ela é considerado uma fraqueza.

Fizemos nosso jogo de pés novamente, dessa vez ele bloqueando um golpe meu.

—Se sua mãe tinha olhos castanhos e os de seu pai são prateados, de onde esses seus olhos vieram?

Ele me atingiu no braço e eu lhe concedi o ponto. Ele sorriu vitorioso antes de responder.

—Ninguém sabe. Quer dizer, um dos primeiros reis tinha os olhos dessa cor bizarra, mas não era tão bonito como eu para podermos falar que eu herdei dele.

Rolei meus olhos. —Seu ego não conhece limites, não é?

Ele sorriu amplamente.

—Não.

Continuamos pelo resto da manhã, apenas pausando quando Bella e Rhys acordaram, sendo logo ordenados por Cas a irem buscar comida e flores para meu outro treinamento.

Comemos todos juntos, nós quatro. Eu comi avidamente a comida que os empregados trouxeram, sem lembrar da última vez que eu havia comido direito. Eu evitava ir para o salão de jantar, já que a quantidade absurda de nobres tomando refugio no castelo  me enchiam de perguntas demais, todos querendo entrar nas minhas boas graças.

Não que eu tivesse muito apetite, também. Mas hoje, no meio dessas pessoas que eu sabia que me entendiam, até Rhys que também era gentil comigo, eu me senti… bem. Não completamente, não como antes. Mas era um começo. Assim como com os livros, senti mais um pedacinho ser preenchido no meu peito vazio. Isabella sorriu para mim de onde estávamos esticadas no sofá, parecendo entender o que eu estava sentindo. Tentativamente, eu sorri de volta.

Ela olhou para Caspian, que estava lutando com Rhys agora.

—Era verdade, não é, irmãozinho? — Ele lhe deu um olhar de advertência, a fazendo jogar a cabeça para trás ao gargalhar.

Eu nem me preocupei em tentar entender os dois irmãos. Devia ser algum tipo de piada interna.

Me concentrei no vaso a minha frente, puxando a energia da planta até mim em segundos. E colocando de volta, na medida certa, sem dar mais. Caspian fez um barulho de aprovação do outro lado da sala.

Algumas horas depois eu estava em meu quarto, sendo arrumada para a reunião. Eu já estava vestida, o vestido vermelho escuro contrastando com minha pele, o decote deixando o colar a mostra . A maquiagem suave como sempre, destacando os meus olhos verdes, os olhos dos Dragomir. Meu cabelo estava preso elegantemente, um diadema de esmeraldas no topo da minha cabeça. Hoje era para os lembrar, tanto verbalmente quanto visualmente, que eu era a última Dragomir. E para lembrar Nicholas que eu era o último dragão. E que eu não tinha medo de fogo.

 

((Caspian))

 

Sophia parecia fogo vivo com o vestido vermelho e seu cabelo ruivo. A observei na mesa, rebatendo para Nicholas sobre como a matilha não precisava de guardiões a supervisionando, já que eram nossos aliados. O olhar que ela deu para Nicholas o lembrando de sua ameaça de o acusar de traição por ter passado por cima da ordem dela o desafiando a lhe contrariar.

—Princesa, não deve saber disso, mas eles não são confiáveis. São criaturas traiçoeiras que atacam primeiro e pensam depois. Temos que pensar no nosso povo, também.  Não nos laços que você tem com o alfa deles.

—Eu confio em meu amigo, Ancião Nicholas. Isso é uma ordem, deixe-os em paz.

Ele estreitou os olhos para ela.

—Uma ordem?

Me inclinei para frente, deixando todos sentirem o tamanho do meu poder, vendo alguns deles estremeceram. Eu odiava fazer isso, deixar as pessoas acharam que eu realmente era uma arma do meu pai. Mas por Sophia, para ajudá-la… eu faria.

—Uma ordem, Nicholas. — eu disse, sem me importar com títulos. —Tenho certeza que se lembra do que é isso. Também tenho certeza que se lembra que Sophia já deveria ter assumido o seu lugar de direito no conselho, assim como ter sido coroada. Acho que nossa conversa não fez efeito, não é?

O músculo em sua mandíbula saltou com ele cerrando os dentes.

—A princesa será coroada depois do casamento, Príncipe Caspian. Já discutimos isso antes. E ela ainda precisa ser testada para ser a Primeira Cadeira.

Ela se levantou, encarando cada um nos olhos. Sua expressão uma mascara de arrogância, de poder. A encenação dela quase enganou até mesmo a mim.

—Já não dei provas o suficiente? Consegui ajuda da corte Seelie, da maior matilha, das bruxas. Nenhum de vocês conseguiram isso. Já não mostrei que eu sou capaz?

Sophia se encostou na cadeira, sua aura preta. Eu sabia que ela estava o tocando com seu poder, o lembrando de quem tinha o poder verdadeiro aqui, primeira cadeira ou não.

Varias vozes concordando falaram ao mesmo tempo. A maioria, como eu havia dito para ela antes, concordava.

Pyotr olhou Nicholas, se inclinando sobre a mesa. Um sorriso sombrio se formou em seu rosto.

—Desista, Ancião. Sabe que nessa guerra ela deve liderar o reino. É isso que o povo deseja.

Nicholas pareceu muito calmo.

—Ela não foi feita para a guerra, não saberia lidar com as responsabilidades de tomar decisões.

Senti um rosnado escapar da minha boca, tão primitivo que não o reconheci. A mão de Sophia encontrou a minha, a apertando, me pedindo para me acalmar.


        —Ninguém  foi feito para a guerra. Não seja condescendente com ela, ela já provou o suficiente que pode governar, fez mais para ajudar do que você, Nicholas. Ela só poderá assumir o trono depois do casamento? Ótimo. Nos casaremos depois do Calanmai então, mais cedo que o planejado. E nesse meio tempo, a dê tarefas como deveriam estar fazendo há anos. Não a deixem trancada aqui sendo a boneca de vocês, como estão fazendo agora.

Sophia ficou imóvel ao meu lado, e pude jurar que ela estava prendendo a respiração, tensa.

—Ótimo. — Nicholas disse a contragosto. —Acharei algo para nossa princesa provar que consegue tomar as decisões certas. Se é só isso, a reunião está encerrada.

Ela se levantou, e eu a segui saindo da sala. Quando estávamos a uma distância boa de onde a sala ficava, ela se virou para mim.

—Nicholas não vai sair da posição dele nunca. Mesmo com todos achando que eu deveria a ocupar, mesmo com o nosso casamento… Ele não desistirá.— ela puxou uma respiração. —Queria que uma coisa pelo menos fosse fácil para mim.

Me encostei na parede.

—Nós os faremos desistir. Nem que eu tenha que invadir a sua mente e o forçar.— a olhei, o diadema em sua cabeça a fazendo parecer como uma rainha de verdade. — Nada que valha a pena é fácil, Sophie querida.

Ela suspirou, seus ombros pendendo ainda. Resisti a vontade de ir consolá-la, de tocar seu rosto para lhe confortar. Coloquei minhas mãos traiçoeiras nos meus bolsos.

Ela tocou seu colar, seus olhos indo até onde o meu estava descansando em minha camisa. Ele vibrou em reconhecimento. Ela sacudiu a cabeça brevemente, como se estivesse afastando alguma ideia.

—Quero ir checar a matilha, ter certeza que eles estão recebendo tudo que precisam. — ela disse, começando a andar novamente. — Você mandou a mensagem para seu pai? A que Isabella o coagiu a mandar.

Assenti.

—Eu enviei hoje de manhã. Teremos que esperar a resposta dele, mas ele provavelmente vai mandar. Ele sabe o que está em risco.

Sua cabeça se inclinou, me analisando com aquele seu olhar curioso. Sacudiu a cabeça novamente, desviando o olhar.

Estávamos, como sempre, no corredor dos criados. Que estavam passando, ocupados com a hora do jantar. Sophia avistou Lizbete, e a puxou dando instruções baixas de mandar levarem o jantar para a tenda de Jordan, o suficiente para 7 pessoas.

Levantei as sobrancelhas para ela.

—O quê? — perguntou, defensiva. — Não aja como se você não fosse ir de qualquer jeito, e se você for não posso deixar Bella e Rhys de fora. Muito menos Linne, que também irá querer que Klaus vá conhecer Jordan.

Ri baixo, ela certamente já havia percebido como funcionávamos. A segui enquanto ela mandava uma mensagem para Carolinne do meu celular, o pegando logo em seguida e enviando uma para Bella, a informando que Sophia havia nos recrutado para jantar.

E eu sabia que ela não ligaria, a minha irmã. Ela e Sophia se davam bem, pelo que eu pude ver hoje. Havia uma certa harmonia entre as duas, até mesmo com Rhys. O que havia me deixado feliz, já que eles fariam parte da vida dela também.

Não tive coragem de perguntar para ela o que ela achava de nos casamos tão mais cedo do que eles haviam planejado, com tinha medo da resposta dela. De ela admitir que estava infeliz com isso.

Quando chegamos na tenda de Jordan me espantei com o quanto ela era espaçosa, havia até uma divisão para o quarto. Uma mesa baixa estava montada no centro, grande o suficiente para todos nós. Realmente me lembrava acampamentos de ciganos.

—Isso é coisa sua, eu assumo. — Ele disse, surgindo de trás da cortina que separava o quarto da “sala”. Nos olhou, notando nossas roupas formais.— Vieram de um baile? Onde está a sua carruagem de abobora, em Nárnia?

Ela rolou os olhos, se sentando na almofada no chão, abrindo as tampas das panelas e se servindo com a comida.

—Viemos de uma reunião. — explicou, mastigando.

Ele se sentou e eu segui, também me servindo do assado e da torta. Jordan me olhou, me analisando.

—Acho que chegou a hora de eu assumir meu papel de irmão mais velho da Sophia e lhe ameaçar caso você a magoe.

Abri minha boca para responder, mas uma voz feminina vindo da porta me venceu.

—Você não é o irmão dela, seu vira lata. — Carolinne disse, vindo se sentar ao lado de Sophia junto com Klaus. Um sorriso começou a se formar em sua boca e Sophia arregalou os olhos. —Além do mais, irmãos não se beijam.

—Linne! — Sophia reclamou, suas mãos cobrindo seu rosto. — Achei que estava explícito que era para fingirmos que isso nunca aconteceu.

Jordan gargalhou, achando graça no embaraço de Sophia, que agora não estava olhando em minha direção.

— O que nunca aconteceu?

Me virei para Bella, a indicando para sentar com Rhys ao meu lado.

—Você chegou bem a tempo, irmã. Com sorte veremos Sophia mostrando as garras para Carolinne.

Carolinne me olhou com desgosto, seus lábios se enrolando.

—Ela não vai me mostrar garras nenhuma, ela sabe mais do que ninguém que a culpa é dela por ter essa mania de beijar todo mundo. Você também sabe muito bem disso, Caspian. Já foi vitima dela.

Eu me engasguei com a comida, fazendo Bella ter que me dar tapas nas costas. Rhys segurou uma risada.

Klaus limpou a garganta.

—Carolinne está de mau humor hoje desde que falou com a mãe dela de manhã, não liguem para ela. Eu já fui vítima dela três vezes.

A carranca dela foi transferida de mim para ele, mas o desgosto virou afeto, sua expressão se suavizando. Ela bufou, mas deixou o assunto dos beijos da Sophia passar.

—Como foi a reunião? — Isabella perguntou quando o silêncio de todos comendo preencheu a tenda.

Olhei para Sophia, vendo se ela queria falar ou se iria deixar comigo essa tarefa. Seus olhos me encararam, praticamente dizendo: Você fala, foi você que começou.

Apenas para te ajudar, Sophia.  Respondi do mesmo jeito.

Ela deu de ombros para isso. Ainda sim, é sua responsabilidade.

Bufei. Certo, ela estava com razão. Havia mesmo sido eu que havia dito para adiantarem o casamento.

—Nicholas decidiu ser um pé no saco monumental que não queria concordar com nada, disse que nossa querida Sophia só poderia ser coroada depois do casamento. — Tomei um gole do meu vinho — Então eu sugeri que nos casássemos pouco depois do Calanmai.

Sophia não olhou para ninguém em particular, e definitivamente não para mim ao dizer: —Também disse que eu não sou uma boa escolha de primeira cadeira. Provavelmente vai achar um jeito horrível de me fazer falhar em provar que eu sou capaz.

Enquanto ela bebia um longo gole do seu vinho eu pude ver que ela talvez não acreditasse que fosse realmente capaz também, apesar de seu bravado na reunião.

Resisti a urgência de a assegurar que ela era capaz, muito mais que capaz. Que ela era forte, mais forte que todos, e não apenas se tratando do seu poder. Mas eu sabia que eu dizer isso para ela não a faria se sentir melhor, ela tinha que descobrir isso por conta própria.

Carolinne esfregou suas têmporas.

—Espero que aquele velho queime no inferno. — Olhou Sophia novamente, um sorriso em seus lábios, e levantou sua taça. — Um brinde aos noivos. Que o dragão de Sophia queime Nicholas vivo.

Algum tempo depois, quando Bella e Jordan estavam discutindo tipos de metamorfos que já haviam encontrado e Klaus, Rhys e Carolinne estavam entretidos contando histórias sobre suas vidas, Sophia se levantou dizendo que precisava de ar fresco.

Talvez eu realmente a conhecesse bem agora ou talvez ela apenas fosse muito fácil de ler, mas eu sabia que ela não havia saído por precisar de ar fresco. Ela havia bebido duas taças de vinho, menos que os outros. Me levantei e sai também.

Ela estava parada, olhando as luzes da cidade ao final da colina que o acampamento estava montado.

—Pais geralmente deixam dinheiro como herança, uma casa. —ela disse quando me coloquei ao seu lado, soando um tanto quanto exausta.— Os meus me deixaram um reino prestes a ser quebrado e um poder que não me serve de muita coisa além de me fazer de alvo para Noah.

Ela se abraçou, estremecendo com a brisa gelada noturna. Tirei meu casaco e o coloquei em seus ombros.

—Não esqueça que te deixaram esse belo par de olhos também. — brinquei, mas sua expressão não se suavizou. Engoli em seco. —Me desculpe, sobre o casamento. Depois que você estiver no trono acharemos um jeito de o anular.

Ela me olhou então, uma gentileza que me era conhecida em seus olhos. Ela sempre me olhava assim, como se estivesse enxergando através de mim.

—Seu pai não ficaria muito feliz com isso, não é? — Desviei os olhos, sabendo que era verdade. Meu pai, com sua ganância, não me permitiria perder o reino que ele sempre quis. Mas por ela… por ela eu enfrentaria a fúria do meu pai mil vezes, se isso significasse que ela não ficaria triste por conta desse casamento. — Não é me casar com você que me preocupa, Cas. É o resto. As “tarefas” que Nicholas irá me dar não serão muito agradáveis, tenho a impressão.

Paguei sua mão, notando o quão gelada ela estava. A olhei bem nos olhos.

—Você se sairá bem, Sophia. Não deixe seus medos te impedirem de atingir a grandeza. — eu lhe dei um meio sorriso. —E você tem o que deve ser o melhor grupo de pessoas para te ajudar. Sem falar de mim, que caso você falhe os ganharei com a minha beleza e charme.

—Tão humilde. — ela murmurou, sua voz muito mais suave. Seu olhar voltou para a cidade então. As luzes brilhando, iluminando as casas e lojas coloridas. — É linda, não é?

A olhei, seu perfil iluminado pelas fogueiras que os lobos haviam feito, fazendo seu cabelo e seu vestido acenderem e lhe darem mais aparência de chama ainda. Eu podia ver o quadro se formando em minha mente, as texturas e cores que eu iria usar.

—Sim, — eu disse finalmente, ainda a olhando. — É linda.



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