História The Most Beautiful Love Story - Camren - Capítulo 36


Escrita por: ~

Postado
Categorias Fifth Harmony
Personagens Ally Brooke, Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Normani Hamilton
Tags Camila Cabello, Camren, Fifth Harmony, Lauren Jauregui
Exibições 274
Palavras 5.185
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Festa, Orange, Romance e Novela, Shoujo-Ai, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


oi oi
voltei em MENOS DE UM MÊS
dá pra acreditar? vou tentar ser mais presente nessas férias
amo vocês, boa leitura

Capítulo 36 - This Must Be My Dream


Lauren

A próxima coisa que fazemos, ao chegar em casa, é ligar para todas as meninas ao mesmo tempo. Todas gritam, Camila ainda está chorando. Voltaremos para os Estados Unidos daqui a 15 dias, para começar os preparamentos.

No caminho, passamos no Mc Donalds e pedimos em espanhol. O atendente consegue se virar surpreendentemente bem. Temos que colocar mais coisas na lista. Então conversamos sobre isso no carro, enquanto comemos esse veneno.

— Hum... Nós vamos ter uma casa só pra nós? — Camila pergunta, lambendo os dedos.

Pego uma batatinha e coloco na boca.

— Vamos sim, já tem ideias?

— Já. Vamos transar em todos os cômodos.

Quase engasgo. Começo a rir.

— Você é terrivelmente safada, senhora Cabello. E o nosso animal de estimação?

— Vamos deixar ele pra depois, não quero traumatizar nenhum animalzinho.

Limpo minhas mãos no guardanapo. Vejo a lua minguante pela janela do carro, está uma noite fresca. No caminho pra casa, paramos no cemitério pra pular o muro. É rápido, um entra e sai, nenhuma de nós tem muita coragem.

— Parece que não tivemos adolescência, meu Deus, qual o nosso problema? — pergunto, enquanto voltamos para o carro com o coração na mão.

Camila começa a cantar, com as mãos gesticulando rápido demais.

— Foreeeeeever Young.

E eu continuo. Mais alto.

— I WAAANNA BEEE FOREEEEEVER YOUNG.

Então rimos e nos beijamos, e eu a amo. Olho para o anel em nossos dedos. Quando chegamos no hotel, já são quase três da manhã. Dormimos abraçadas, eu encaixando nela. Nunca me senti mais completa em toda a minha vida. Estou transbordando.

 

Camila

Vou te contar o que aconteceu na próxima semana.

Eu e Lauren riscamos mais algumas coisas da lista, falamos com as meninas todos os dias no Skype, e namoramos muito. Ela me comprou flores e chocolates, e fizemos amor tanto de dia como de noite. O serviço de quarto era sempre dispensado com uma placa de ocupado. Era nossa pré lua de mel, como Lauren gostava de chamar.

Pegamos um ônibus pra lugar nenhum, Lauren comprou uma câmera analógica e eu virei sua musa novamente. Vamos ter que comprar os produtos químicos pra revelarmos elas quando estivermos em casa, já que eu estava sem roupa na maior parte das fotos e manda-las para revelar em algum lugar seria no mínimo constrangedor.

Então aproveitamos tudo que a Itália poderia nos proporcionais. Tomamos bons vinhos, comemos boas massas, rimos e nos beijamos. Nunca pensei que a vida pudesse ser tão boa. Parte de mim temia pela próxima queda. Eu já tinha aprendido que o gráfico não sobe muito senão para despencar. Não queria que minhas inseguranças afetasse a nós, mas certo dia não consegui esconder.

— Você tem que compartilhar comigo o que está acontecendo — ela disse, passando as mãos pelos meus cabelos despenteados.

— Eu só estou com medo, está tudo tão bom que eu....

— Acha que tudo vai piorar, como sempre aconteceu. — Ela completou minhas palavras.

— É — foi tudo que eu disse.

Lauren segurou meu rosto com as duas mãos, olhando-me nos olhos.

— Não querendo citar o período helenístico, mas os estoicos mesmo disseram que não temos controle sobre os acontecimentos. É a razão universal, devemos aceitar serenamente.

— Eu quero poder controlar, Lo. Quero que tudo seja perfeito.

Ela estava limpando as lágrimas de meus olhos, me puxou para um abraço forte. Eu ouvia sua voz através de sua cabeça.

— Eu amo nossa imperfeição perfeita. Precisamos reconhecer a dor para que os momentos bons não caiam na mesmice. Pelo menos temos uma a outra, pra sempre. Essa é toda a certeza que precisamos.

— O resto é burburinho — sussurro em seu ouvido.

Ela concorda. E então me beija, um beijo salgado pelas minhas lágrimas.

— O resto é burburinho.

 

Todo o resto passa rápido demais, e logo estamos embarcando no avião, de volta aos EUA. Já faz tanto tempo. Mas a que cidade pertencíamos agora? Eu precisava ver minha irmã, abraçar meu pai, encarar minha mãe. Eles precisavam fazer, e depois de tanto tempo sem contato nenhum... Eu mantinha minha irmã atualizada por e-mails. Ela já tinha 15 anos. Eu não a vi crescer. Esse vazio crescia dentro de mim como um câncer. Eu não a vi crescer.

Paramos no aeroporto de Miami. Um dos carros de seu padrasto estava estacionado no aeroporto, a nossa espera. Já era noite quando chegamos, eu estava bem cansada pelo voo. Mesmo assim, ela sabia o peso que estava sobre meus ombros nesse momento, tentando me fazer sorrir. Lauren acelerou pela rua, colocando a cabeça para fora da janela e gritando:

— EU AMO MINHA NOIVA.

Por longos momentos, fiquei em silêncio. Apreciando o gosto de suas palavras, deixando marinar. Apenas uma faísca seria capaz de explodir tudo isso aqui. O ruído do motor e o atrito do pneu contra o asfalto eram tudo que podíamos ouvir, além meus pesadelos latentes. Antes que nos perdêssemos no ar, eu gritei também:

 

— EU TAMBÉM AMO MINHA NOIVA.

O que fez com que o canto de meu lábio sorrisse um pouco. Ela segurou minha mão, quando paramos no semáforo. O trânsito estava um pouco cheio, muitas luzes para meus olhos cansados. Ela sugeriu que deixássemos isso para amanhã, mas eu precisava resolver isso agora. Não conseguiria dormir. As palavras não ditas se enrolariam em minha garganta e me tirariam o ar. Não, eu precisava resolver isso agora.

— Você sabe que eu estou aqui pra você — ela me diz.

— Sim, eu sei. Desculpa.

Acariciei sua mão com os nossos dedos cruzados.

— Não precisa se desculpar.

E o sinal abriu. Estávamos de volta em movimento. Tomei um remédio pra dor de cabeça, que começava a aparecer. Eu sabia que iria ficar muito pior depois de nosso encontro. Olhei em meu celular, mesmo sabendo que isso também me causaria náuseas.

 

Enviada há sete meses.

Assunto: would be easier with you here

De: [email protected]

Para: [email protected]

Kaki, sinto tanta sua falta. Não quero que se sinta culpada, mas eu choro a noite por você. Queria que você não se afastasse de mim por causa de mamãe. Está sendo um inferno aqui também. Meu deus, você está doente e precisa da sua família. Eu e o papai estamos aqui por você, mas você precisa deixar que nós entremos. Não ligamos para a bagunça que pode estar sua mente, só ligamos para como você está. Eu amo você. E eles brigam todo dia. Acho que papai vai pedir divórcio. Eu quero que ele peça. Não consigo mais olhar pra mamãe e sentir carinho. Ela se perdeu em suas construções pecaminosas. Não sei como ajuda-la, ela também não deixa. Se tranca e fica sem comer e sem tomar banho, tirou férias do trabalho mas logo volta e ela tem que se recompor.

Pelo menos seria mais fácil se você estivesse aqui. Por favor, volta pra gente.

 

Re: would be easier with you here

De: [email protected]

Para: [email protected]

Eu sinto muito, pequena. Eu sinto muito mesmo. Também me perdi dentro de mim. Os tratamentos foram muito intensos. De repente tanta coisa estava acontecendo e eu não sabia onde focar. E encarar o passado que deixei pra trás é muito trabalhoso, mas sinto tanta falta de você. Nunca vou me perdoar por ter te abandonado, foi extremamente egoísta, você merece uma irmã muito melhor. E é isso que eu estou tentando. Estou me recuperando pra poder voltar pra você e o papai.

Você sabe que nada disso é culpa sua, certo? Não ouse pensar nisso nem por um minuto. Também perdoe a mamãe, ela cresceu de uma forma diferente da nossa, uma hora ela vai aceitar. Se o papai se separar dela, fique com quem se sente confortável, mas não se sinta culpada ou obrigada a nada. Eu só quero seu bem.

Eu voltarei pra casa. Em breve. Preciso resolver algumas coisas antes. Por favor, fique bem.

 

Enviada há cinco meses.

Assunto: como você está?

De: [email protected]

Para: [email protected]

As coisas estão melhorando? Penso nisso toda noite. Eu queria limpar as feridas que o mundo lhe causou. Tenho medo de elas se abrirem novamente e você estiver longe de mim. Tem alguém pra cuidar de você? Porque eu tenho o papai, nunca estivemos tão juntos. Ele está me ensinando a dirigir, fiz quinze semana passada, você sabe. Fiquei esperando que você ligasse, ou pelo menos mandasse um email.

Tudo bem, eu não estou zangada contigo. Só sinto sua falta. Sei que você tem seus motivos. Mas você poderia compartilhar um pouco comigo? Por favor, cansei de me sentir tão impotente. Sobre o papai e a mamãe... eles vão se separar. Já não dormem mais na mesma cama faz um tempo. Por favor, só quero saber se você está bem. Amo você, Kaki.

 

Há quatro meses.

Assunto: Lolo?

De: [email protected]

Para: [email protected]

Eles brigaram feio hoje. Mamãe jogou copos na parede e eu chorei com as mãos nos ouvidos. Não sei se aguento muito mais disso. Sei que eu aguentaria melhor se pudesse ouvir a sua voz. Posso falar a verdade? Tenho medo de você morrer e me deixar mais sozinha ainda. Você se matar, ou a doença te levar. Não sei em que cidade você está, se está trabalhando ou estudando, se está com alguém que te trata bem. Vejo notícias de tragédias e prédios pegando fogo e acidentes na rua e eu penso “meu deus, e se isso acontecer com ela e eu nunca saber?”

Não quero ficar te enchendo com e-mails, mas eu dormiria mais segura a noite se pudesse me segurar a ideia de que você está bem, ou ao menos melhorando, seja onde você estiver. Quero olhar para o céu e saber que você está olhando para as mesmas estrelas e assim estaremos juntas de algum modo.

Me dá um sinal de vida, por favor.

 

 

Há dois meses.

Re: Lolo:

De: [email protected]

Para: [email protected]

Me perdoa. Mas sim, meu amor. Eu estou melhorando. Me curando lentamente, mas me curando. Não queria que se preocupasse comigo. Tenho alguém que cuida muito bem de mim. Realmente muita coisa acontecendo na minha vida nesse momento. E um tratamento novo. Vou ficar bem, não se preocupe com isso. Mas eu me preocupo com você. Papai e mamãe são só burburinho. Preciso ser breve, desculpa. Fique bem.

 

Há dois meses.

Assunto: Acabou.

De: [email protected]

Para: [email protected]

Acabou. Eles se separaram. Papai alugou um apartamento, e estou morando com ele. Acho que ela ficou ainda mais puta com isso. Está totalmente irada. Ouvi dizer que ela começou a fazer terapia. Mas não nos vemos mais. Ela não liga, eu não ligo. Papai disse que mamãe precisa de um tempo sozinha pra olhar pra si mesma e se encontrar novamente. Lembro exatamente da última briga deles.

“Eu não me casei com essa mulher que você é agora. Não é ela que eu amo.”

“E a aberração que é sua filha? A que você ainda defende? Eu não dei a luz a ela para se tornar isso.”

“Espero que perceba as palavras horríveis que está dizendo e caia em si, Sinu. Vou embora daqui, e a Sofia vem comigo.”

E então ela caiu e começar a chorar e papai a abraçou e disse que tudo ia ficar bem, mas ele não podia mais ficar. Eu não entendo.

Espero que o seu tratamento esteja dando certo. Espero profundamente que as coisas estejam dando certo pra você. Está bem difícil do lado de cá, mas estou segurando as pontas. Estou me dando muito bem com o papai, ele não deixou de ser incrível nem por um momento, o que está segurando meus pés no chão. Mamãe, por outro lado, sumiu.

Quero que ela fique bem também. Quero minha mãe de volta. E quero você de volta. Não sei se é pedir demais... Eu amo você.

 

Há uma semana.

Assunto: Estou de volta

De: [email protected]

Para: [email protected]

Ah, meu amor. O tratamento ocorreu tudo bem, mas passei tempo demais no mundo dos mortos. Você ainda era muito pequena quando tudo deu errado, nunca gostei de falar no assunto, porque vivi tanto tempo uma mentira, sendo outra pessoa. Hoje estou aqui pra te contar a verdade. Sobre tudo. Sobre eu ser gay, sim, acho que sabe disso. Sobre o que isso significa. Sobre Lauren, você se lembra dela? Nós assistíamos Frozen com você. Ela era ótima com você. E então ela teve que ir embora da nossa vida, tudo por causa da mamãe. E eu fiquei sem chão. Fui egoísta, porque eu estava em desespero. Foi quando eu tentei me matar.

E isso é tão pesado. Não queria que você carregasse esse fardo. Mas você cresceu em uma casa muito complicada, grande parte por culpa minha. E eu namorei o Shawn por muito tempo, disso você se lembra. Eu só queria que mamãe ficasse tranquila, e que você não sofresse com suas iras. E isso me deixou doente de tantas formas. Eu não me importava mais comigo, só com você. Mas eu tive que partir.

E eu comecei a me tornar uma pessoa novamente. Foi ai que a bomba explodiu. Eu estava doente. Uma doença sem cura. Sem cura. Pensei que fosse morrer. Me odiei pela possibilidade de te deixar sozinha, e olha onde estamos. Eu te deixei. Nunca vou me perdoar por isso, espero que você consiga.

O fato é que Lauren voltou. E nossos problemas foram se resolvendo. Eu sei que parece estranho, mas eu sempre fui dela. Nós sempre fomos a coisa mais certa que eu já conheci. Ela que me levou ao tratamento, que pagou e cuidou de mim. Eu não estaria viva sem ela. Pelo menos não realmente viva. Não somente respirando.

E agora eu me recuperei, e posso voltar pra você e recompensa-la por todo o tempo perdido. Preciso te abraçar bem forte, e o papai, e encarar a mamãe. Você disse que ela estava fazendo terapia. Espero que ela melhore. Que ela perceba que perdeu você e o papai por uma coisa ridícula. Eu ainda a amo, e dói tanto o modo que ela me vê pelo simples fato de eu amar uma garota.

E por falar em garota... Lauren e eu vamos nos casar. Estaremos de volta à Miami, com todas nossas antigas amigos, e com você, é claro. Vamos nos ver, Sofi. Estou com tanta saudade. Chego em breve, meu amor. Até lá.

 

Esses foram nossos e-mails. Eu permaneci tão distante porque sabia que eles mereciam coisa melhor do que eu, mas ao mesmo não queria deixar que Sofi sofresse sozinha. Me lembrava das noites em que passei sozinha, chorando e me cortando, e eu me aterrorizava com a ideia de ela passar pela mesma coisa. Minha irmãzinha não. Mesmo que ela já esteja tão grande agora.

A semana tinha passado, e aqui estávamos nós, em Miami, onde as meninas e nós nos encontraríamos. De volta aos velhos tempos. Passamos deixar as coisas na casa da mãe de Lauren, eu tinha tantas lembranças de lá. Tomei um banho rápido, e respirei fundo. Era agora. Liguei para meu pai.

— Papai? — chamei.

— Camila? Olá, filha. Filha?

— Oi, pai — lágrimas cresceram em meus olhos, como cristais de gelo. — Nós chegamos, pode mandar sua localização?

— Claro, claro. Vou mandar. Até logo.

— Até.

E desligamos.

Recebi a localização por mensagem, e logos estávamos a caminho de lá. Cheguei ao prédio, disse meu nome na portaria. Quinto andar. Eu não gostava muito do número cinco, mas tudo bem. Lauren quis vir comigo, mas eu beijei sua testa e disse que precisava fazer aquilo sozinha. Às vezes ela esquecia que eu gostava da minha individualidade, mesmo que ela não fizesse por mal. Só queria acompanhar todos os meus passos.

Logo em estava batendo na porta. E quando ela abriu, senti o cheiro de casa novamente, mesmo que eu nunca estivesse estado no lugar. Sofia, já da minha altura, me olhou nos olhos. Como ela cresceu! E então eu abri os braços, e ela pulou em mim como um coala, como fazia quando era pequena. Mas ela estava pesada, então não aguentei muito tempo.

Nos distanciamos apenas para nos olharmos nos olhos, seus olhos brilhando como os meus, na mesma intensidade do castanho, e mergulhamos em um abraço apertado mais uma vez. Ela segurou minhas mãos frias e me puxou pra dentro, ainda não havíamos dito nenhuma palavra.

Ao chegar na cozinha, papai estava de avental fazendo panquecas. Quando ele me viu, deixou a espátula cair no chão.

— Camila! — e correu para me abraçar, me levantando do ar. — Você está tão magra, meu amor.

A esse ponto da noite, eu já estava me derretendo em lágrimas. Puxei Sofia para um sanduíche, eu e meu pai e ela no meio. Apertando tão forte que perdi o ar. Saudade é a pior dor de todas.

— Não consigo acreditar que está aqui — Sofia disse, abraçando-me pela cintura. — Finalmente, você está aqui.

Fechei os olhos e a abracei de volta.

— Eu também não acredito.

E foi aí que eu olhei para mais um corpo, entrando na cozinha pela parte da sala. Lá estava ela, a mulher que me deu a luz, eu podia a chamar de mãe? Depois de tudo que passamos? Depois de tudo que ela fez? Eu podia?

Sinu estava parada diante de nós, os dois braços estendidos ao lado do corpo. Ela sorriu de forma um pouco dura, como se não estivesse mais acostumada a fazer esse movimento. Eu não duvidava disso.

— Kaki... eu e sua... sua mãe queríamos conversar com você. Passou muito tempo longe de nós.

Ela não disse nada.

— Sim... sim, tudo bem.

Me sentei a mesa, me sentindo estranha. Sofia sentou ao meu lado, segurando minha mão, mexendo em meus dedos, e então no anel que estava em meus dedos.

— Meu Deus, você vai se casar né?

Foi quando o silêncio pairou sobre nós. Papai desligou o fogão.

— É, precisamos conversar.

 

Lauren

Fui para um bar encontrar as meninas, olhando o celular o tempo todo, esperando alguma mensagem ou ligação de Camila. Ela estaria bem? E se sua mãe também estivesse lá? Como ela ia reagir? Ainda mais com a notícia do casamento, o anel em seu dedo. Eu vou pirar se continuar pensando por mais um minuto.

Pedi uma cerveja, esperando as meninas chegarem. Enfim, elas vieram. Nos abraçamos muito forte, Dinah, Normani, Ally. Estavam todas tão crescidas, ao mesmo tempo que seus sorrisos eram os mesmos.

— Tenho tanto pra contar — eu disse com lágrimas nos olhos, quando nos sentamos.

— E nós temos tanto a ouvir.

Então eu contei. Contei sobre o tratamento de Camila, e como foram meses horríveis. Mas como nós viajamos e curtimos. E, por fim, o que todas queriam saber. Quando nos casaríamos. Mostrei o anel em meu dedo, Ally gritou.

— Passe ele pra cá!

E eu o tirei do dedo, todas elas examinando-o de perto.

— Meu Deus, é tão lindo. Bom gosto, Jauregui — Dinah disse, dando um soquinho em meu ombro.

Eu estava tão feliz em tê-las por perto novamente. Parte de mim nem achava que eu merecia isso. Estava tudo tão bom, que era difícil não desconfiar, como Camila o fazia. Mas eu precisava manter as pontas juntas, sem afogar.

Ficamos jogando conversa fora, atualizando uma a outra sobre nossas vidas. Tomamos muitas cervejas, eu até perdi a conta. Quando vi já tinha passado da meia noite, e Camila me mandou uma mensagem.

Amor: eu vou dormir aqui, está tudo bem. amo você, até amanhã, meu amor.

— Normani, responde pra mim, já que você não bebeu.

Entreguei o celular. Ela digitou e me devolveu.

— Como ela está? — Ally perguntou.

— Segundo ela está tudo bem... — digo, tomando mais um pouco da minha cerveja. — Não sei se foi só o pai dela e a Sofia, ou se a mãe dela estava lá. Pelo jeito Sinu andou se tratando, espero que seja verdade.

— Nós também. É uma pena o lugar onde Sofia teve que crescer — Dinah disse, mexendo no celular. — Não que alguém seja culpado, as coisas só aconteceram. E não podemos mudar o passado, mas podemos recompensar daqui pra frente.

— Somos maior do que toda essa merda — eu digo, porque amizade significa isso. — Como os continentes se separando com a deriva continental. Ainda estamos unidas.

— Por oceanos de lágrimas? Não entendi sua metáfora. — Ally quem diz, já está bêbada. — Hump, nunca entendi suas metáforas.

Todas nós rimos.

— Nem eu entendi, mas enfim, um brinde a nós. — Levanto meu copo. — Unidas contra a deriva.

— Contra a deriva! — Elas gritam, e nos trazem mais bebida, o que continua até Normani nos levar para casa.

— Fica bem, Laur — Dinah beija minha testa, e Ally aperta minha mão. — Quando o sol nascer a gente se fala.

— Quando o sol nasceu — eu repito. Estou bem bêbada. — Amo vocês.

Normani buzina de leve e elas vão embora. Tento encontrar a chave certa e abro a porta da casa de minha mãe. É tão grande, não me lembrava. Vou para meu quarto, que ainda é meu quarto. Sinto saudade da minha adolescência, e de ansiar para encontrar Camila no intervalo. E de beija-la no banheiro, e de correr de tudo e todos.

Pelo menos agora tenho a certeza de que ela será minha. Pra sempre. Não vou deixar nosso casamento acabar como meu pai fez. Ou como a mãe de Camila fez. Deito-me na cama, tirando os sapatos. Meu celular vibra. Nova mensagem.

Taytay: Lauren?

Já havia passado das três da manhã.

Eu: li

Eu:ou

Eu: Oi

Taytay: tá bêbada?

Eu: yo

Taytay: posso te ligar?

Eu: ode?

Eu: pode

E ela me liga. Deito na cama, olhando para o teto.

— Ei, você já chegou? — ela diz, estava com saudade de sua voz.

— Já, quando você vem?

Taylor estava quase terminando a faculdade de moda. Logo ela voltaria para Miami. Chris já tinha voltado, namorava uma garota, que não lembro o nome, desculpa Chris, há bastante tempo. Nos encontraríamos amanhã.

— Eu e papai vamos chegar depois do almoço, depois da amanhã.

— Beleza.

— Beleza — ela repete, e ri. — Como você está, noivinha?

Mamãe já tinha contado para eles. Ah, aquela mulher... não consegue conter a língua.

— Vai se foder. Preciso dormir.

— Ok, ok. Nos veremos em breve, Lolo. Beijão.

— Beijos.

E ela desliga. Meus olhos estão mais pesados do que duas bigornas, então simplesmente os fecho e me permito dormir. É um pouco estranho dormir sem sentir o calor de Camila, então demoro um pouco. Mas estou bêbada demais, o que acho que ajuda. Logo, durmo. E sonho com ela.

Acordo com minha mãe abrindo as janelas, o sol entrando.

— Mãe!! Fecha isso.

— Já é meio dia, Lauren! Chris e a namorada já estão aqui.

— Ah — bocejo. — Ok, vou me arrumar.

Quando ela sai do quarto, vou até o banheiro. Tomo um banho, deixo os cabelos molhados mesmo. Coloco um vestido leve, o clima está fresquinho, mas o verão chegando. Meu aniversário está bem perto também. Checo o celular, mas não tem nenhuma mensagem dela. Preciso dar espaço, então não ligo, mas o mantenho perto, para o caso que ela o faça.

Em seguida vou até a sala, onde Chris e a namorada, Angela, estão sentados. Mamãe e meu padrasto também. Abraço todos e nos sentamos na mesa. Clara fez camarão, o que me fez lembrar imediatamente de que Camila é alérgica. E do dia em que fomos parar no hospital. Tudo me fazia lembrar dela.

A conversa estava boa, e o clima legal. Papai e Taylor chegariam no dia seguinte. Mas quando meu celular tocou, deixei todos na mesa e fui para o meu quarto. Atendi o celular.

— Camila?

 

Camila

— Mãe? — eu disse, meio sem palavras. — Já faz tanto tempo.

Eu não sabia como reagir. Lembrava de vê-la gritando, me maltratando. Lembro dos emails de Sofia. Eles se separaram. O que ela veio fazer aqui? Gritar comigo de novo? Mas, não, ela me surpreende. Caminha até mim e me abraça. Por um momento deixo minhas mãos ao lado de meu corpo, mas quando ela me puxa mais forte eu a abraço de volta. Então ela chora, sem me soltar. E eu acabo chorando também.

— Eu não acredito a pessoa que eu me tornei, a mãe que eu me tornei... levei todo esse tempo pra perceber. Eu estava doente, Kaki. Tão doente.

Eu a aperto mais forte, molhando sua camisa.

— Tudo bem, mãe — sinto a palavra em minha língua. — Mãe, tá tudo bem.

— Não tá, não tá — ela me solta. — Mas eu vou fazer ficar, eu prometo.

Ela alisa meu rosto, limpando minhas lágrimas, colocando meu cabelo atrás da orelha. Isso está mesmo acontecendo? Ou estou apenas sonhando, ainda na Itália?

— Mamãe foi diagnosticada com bipolaridade — Sofia diz.

— O quê?

— Por isso as reações extremas aos acontecimentos, e a irritabilidade. E as brigas com o papai, mas depois de tudo isso ela ficava muito mal, não saia do quarto por dias, e não sabíamos como lidar com ela — Sofia diz tudo isso muito rápido. Ela é tão nova, isso é peso demais pra carregar. — Mas quando eles finalmente terminaram ela escolheu se tratar, e melhorou incrivelmente bem. Não é, mãe?

Ela está olhando diretamente pra mim, limpando o nariz na manga da blusa.

— Eu não quero culpar a doença, eu sei que o que eu fiz foi errado. Eu deixei que meus preconceitos atingissem um nível totalmente extremo, eu sinto muito. Já trabalhei muito isso com a psicóloga. Eu só quero que saiba que eu amo você e estou aqui pra te apoiar.

Eu não acredito que isso está acontecendo. Todos os filmes e livros distópicos de apocalipses e coisas do gênero  me pareciam muito  mais prováveis do que isso aqui. Minha mãe me aceitando. Depois de tudo que tivemos passar. Depois de todos esses anos. Se ela tivesse se tratado antes... Meu Deus. Uma doença.

— Eu só quero fazer certo dessa vez — ela me diz, e segura minhas mãos. — Podemos tentar de novo?

E eu faço que sim com a cabeça e a abraço novamente. Então ela me solta e posso abraçar meu pai e Sofia mais algumas várias vezes. Enrolamos várias panquecas, com carne moída e palmito. Estamos juntos novamente, e isso é tão novo. Estamos criando novas memórias.

As coisas estavam indo bem demais, e eu sempre como pé atrás. Não queria estragar o momento, mas por quê? De repente as coisas... ficam bem. Talvez Deus tivesse cansado de brincar com a minha vida como se fosse uma novela mexicana. Ou uma fanfic de uma adolescente depressiva de merda. [HÁ! OLÁ LEITORES] Talvez dessa vez as coisas pudessem continuar boas, sem toda essa melancolia que eu estava acostumada.

Na verdade, eu me acostumei tanto com a falta de luz do fundo do poço, que toda essa luz ainda me causava certo estranhamento. Seu corpo se acostuma a queda. Passa a ser uma têndencia natural. Não é mais somente a gravidade que te puxa pra baixo, é tudo em você. É a voz em sua cabeça. Se machuque, se machuque, se machuque. Você merece. Você merece as coisas ruins.

— Claro que podemos, mãe — eu a abraço de novo, tentando tirar todos os pensamentos pessimistas da minha cabeça, tentando simplesmente aproveitar o momento.

Carpe Diem, porra.

Comemos muito, rimos muito, e quando todos já estávamos ficando cansados, eu tomei coragem para dizer, em alto e bom som:

— Eu estou noiva.

Sofia foi a primeira a reagir, batendo palminhas e me abraçando calorosamente. “Eu sabia eu sabia eu sabia”. Olhei para meu pai, que estava com lágrimas nos olhos, me abraçando forte.

— Eu lembro quando seu pézinho cabia na palma da minha mão. E eu fazia cosquinha, e você ria, seus dentinhos começando a nascer. Você mordia tudo que via pela frente, uma devoradora. E agora, olhe só pra você. — Ele parou, me olhando de cima a baixo. Eu estava muito emotiva. — Olhe só pra você, minha filinha vai se casar.

Minha mãe ainda não sabia o que dizer, o que sentir. Eu sabia que aquilo ainda era um processo pra ela, não posso esperar que ela aprove tudo de cara. Vou até ela e beijo seu rosto.

— Você não precisa dizer nada agora, eu respeito o seu tempo, não vou empurrar esse assunto pra você.

Saiu como um sussurro.

— Eu só quero te ver feliz. — Ela beija minha testa. — É tudo que eu quero.

— Eu também.

Mamãe vai embora, porque trabalha cedo no dia seguinte, no banco. Meu pai estava  levando a academia sozinho agora, é bom porque é mais uma entrada de dinheiro. Vou para o quarto com Sofia, e durmo na cama de solteiro dela. Ela está deitada em meu peito, enquanto olhamos para as estrelas que brilham no teto. Mando uma mensagem pra Lauren dizendo que está tudo bem.

— Você não está muito velha pra essas estrelas?

— Cale a boca, Camila.

— E muito nova pra essa boca suja.

Ela levanta o rosto para me mostrar a língua.

— Na minha idade você já tava dando, então relaxa aí.

Engasgo. Meu deus.

— Você cresceu muito rápido, Sofi.

Ficamos em silêncio, acaricio o seu cabelo, e logo ela se vira pro outro lado e cai no sono. Eu também o faço, mas não sem antes olhar pela janela e imaginar se Lauren está vendo o mesmo céu que eu. Com esse pensamento, apago.

Quando acordo no dia seguinte, Sofia já não está mais na cama. A encontro na sala, sentada com uma coberta, comendo cereal e assistindo desenho.

— Tá me olhando por quê? Vai me dizer que tô muito velha pra isso?

— Não, Sofi. Continua assim.

Vou até ela e a abraço forte, tirando o cereal de suas mãos.

— Qual é, Camila. Para de ser gay. E devolve o cereal.

Não acredito que essa é minha irmãzinha.

— Só quero que saiba que amo você.

— Eu também te amo.

E assistimos a desenhos juntas.

Lá pela hora do almoço nos arrumamos, para voltar para a casa onde eu cresci. Mamãe fez macarrão, e está maravilhoso só pelo cheiro. Antes de sentar-me a mesa, vou até o quintal e ligo pra Lauren. Espero não atrapalhar.

— Camila? — ela atende.

— Oi, amor. Dormiu bem?

— Acabei de acordar, na verdade. Fazer uma social com a namorada do Chris.

Eu rio um pouco, me sentando nas escadas da frente. Onde tanta vezes já esperei pela moto de Lauren.

— Hum, muito interessante. Ei, minha mãe estava aqui ontem.

Ela espera certo tempo pra falar.

— E então? Como foi?

Decido dizer tudo de uma vez.

— Ela tá se tratando pra bipolaridade. Pediu desculpas por tudo e disse que me ama. Parece que tudo que aconteceu era uma crise de mania, e ela extrapolou todos os limites por estar eufórica e quase alucinando? Não sei, tentei pesquisar sobre isso, mas dormi com Sofia.

— Aaah, e como ela tá?

Por que ela havia mudado de assunto? Não queria falar sobre a minha mãe? Ou será que eu estava atrapalhando. Ela tinha que dar atenção pra família dela, eu devia ligar depois. Já as tirei deles por tanto tempo.

— Muito grande. Ei, a gente se fala depois, tá?

— Hum, ok. Amo você.

— Também te amo.

E desliga. Volto para dentro e almoçamos juntos como não fazíamos há tanto tempo. Estou feliz, apesar de sempre ter aquela coceira no fundo do céu da boca de “não está tudo muito bom?”. Preciso deixar pra lá.

 


Notas Finais


vocês tão sacando né? BUAHAHAHAHA


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