História The Only Exception - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Wynonna Earp
Personagens Nicole Haught, Waverly Earp, Wynonna Earp
Tags Menções De Suicidio, Nicole Haught, Waverly Earp, Wynonna Earp
Visualizações 81
Palavras 3.739
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), FemmeSlash, Fluffy
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Suicídio
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Hey! Essa one-shot define-se após o 2x08, onde imagino que, como eu, vocês foram atingidos pelo ocorrido entre Nicole e Waverly. Essa história é uma versão do que poderia ter acontecido a seguir, uma visão suave e romântica, completamente diferente do 2x09. É difícil encaixar uma situação assim, porque não faz o estilo de Emily Andras. Mas eu particularmente aprecio muito as reflexões, os diálogos, a ternura. Eu me identifico muito mais com a emoção gentil de uma resolução sincera e verbal, mesmo quando dolorosa, do que qualquer gênero de emoção brusca de brigas ou mesmo impulsos terríveis. Em outras palavras, aqui está um fluffy com uma pitada de angst sobre Waverly Earp e Nicole Haught após o erro de Nicole.

Espero que apreciem-na.

Música-título: Paramore - The Only Exception. ♪

Boa leitura. :)

Capítulo 1 - I'm On My Way To Believing


 

Os olhares furtivos e preocupados de Wynonna a cercam em cada canto da herdade, como se pudessem penetrar até mesmo as paredes que as separam e encontrá-la. Os olhos de Wynonna suplicam-lhe respostas que ela sequer pode oferecer a si mesma.

Waverly tem o hábito de trancar-se dentro de si própria e não permitir que sua imensa dor seja vista, tocada, seja pela vulnerabilidade do consolo, seja pelo temor do que pode atingi-la enquanto vulnerável.

 O envelope guardião dos papéis que revelaram sua verdadeira identidade jaz abandonado no chão do quarto, longe de seu corpo encolhido sobre a cama. Varando uma noite de insônia, Waverly poderia pensar a respeito de não ter o sangue Earp e perguntar-se a razão de ter sido por esta família levada. Poderia relutar a reação de sua irmã. Poderia até mesmo aterrorizar-se na escuridão silenciosa do cômodo com a possibilidade de ser uma retornada, de ser parte de uma espécie de criatura que Wynonna está incumbida de enviar de volta ao inferno.

Emoções são, em sua memória, labirintos assustadores demais, pois, dentre todas as possibilidades, nada mais ocupa seus pensamentos conflitantes exceto por Nicole Haught.

Nicole e suas admiráveis benevolências e gentilezas desajeitadas, um tratamento irreconhecível por Waverly antes de se encontrarem. Nicole e a suavidade de cada um de seus atos, de cada uma de suas palavras em todas as suas tentativas surpreendentes de proteger-lhe e cuidar-lhe. Nicole, feita de sorrisos muito singelos, de gestos muito respeitosos, de silêncios muito confortáveis.

De muitas coisas muito boas ao mesmo tempo.

A verdade é que Nicole, pela primeira vez, a desapontou. E embora sua primeira atitude tenha sido fugir dela, fugir do peso de sua confissão, do significado de seus atos, Waverly não consegue alimentar sua fúria contra aqueles grandes olhos tão imediatamente arrependidos, tão cheios de compaixão e medo. Quer sentir-se afundar na raiva, pois a raiva é uma emoção muito mais simples do que a mágoa. Sentir-se furiosa aplacaria o sentir-se decepcionada, blindada por outro gênero de inverdade diante de todas as mentiras e segredos que já a perturbam.

Tudo ao seu redor continua mudando drasticamente tão depressa e Waverly Earp ainda não descobriu como lidar com todas as mudanças sobre si mesma e sobre aqueles que ama, sobre o mundo no qual vive, essa realidade estranha e intranquila de retornados, demônios e descobertas que fazem-na sentir como a criança vivente na fazenda Earp, mas invisível para todos eles, exceto para Wynonna. Como se todas as mudanças dentro dela viessem sem o seu consentimento, sem a sua compreensão.

De repente, Waverly detesta perceber que algo entre ela e Nicole também mudou. Num estalar de dedos é apavorante descobrir o óbvio: Que Nicole Haught não é perfeita, que está sujeita a cometer erros, desde os mais tolos aos mais catastróficos.

Ainda mais apavorante é não saber o que isso significa.

Precisa pensar nas consequências de tal descoberta. Precisa refletir e compreender a influência deste fato em seu relacionamento, refletir e compreender suas expectativas a respeito de Nicole e o limite entre um desvio devastador em prol de sua preservação e um desvio que possivelmente ocorreu pela preservação da própria Nicole. A possibilidade de Waverly ter o sangue de um retornado nas veias fragilizaria a perspectiva que Nicole tem dela?

A questão é que há tantas necessidades, tão pouco tempo para reflexões e Waverly está tão, tão exausta do caos, tão confusa com a intensidade irrefreável das mudanças. No mesmo compasso da exaustão, está tão farta de lutar contra o que e quem muda.

“Eu fiz isso porque eu amo você”.

A afirmação que deveria ecoar como cantoria em seus ouvidos, ressoa frágil em seus pensamentos. Esta urgência na declaração de Nicole a fere, como se o seu tom não viesse como a confissão de uma verdade guardada e saboreada, acariciada, mas sim uma tentativa de livrar-se de sua fúria, de justificar-se. Mas então, para o seu infortúnio, recorda-se de dizer à Wynonna que amava Nicole para evitar que Willa puxasse o gatilho sem ter certeza indubitável do que dizia e, novamente, neste ciclo imparável, outra pergunta a atormenta:

O limite daquilo se faz por amor é dimensionável?

Waverly sempre cultivou sonhos. Em uma infância de terror, uma juventude de solidão mascarada e uma vida adulta de rumos enevoados, seus anseios e ambições a mantiveram com os olhos à frente. Waverly sonhou em ser a herdeira Earp e tornar-se a heroína de Purgatory em nome de sua família. Sonhou-se em tempos de paz com Wynonna em casa, ambas transformando gradativamente a fazenda em um lar como nunca antes teria parecido. Imaginou-se descobrindo o mundo afora, estudando numa universidade presencialmente, perdendo-se nas horas dentro de uma biblioteca apropriada, dividindo teorias com colegas que compreenderiam seus raciocínios, professores que premiariam seu empenho.

Waverly Earp sonhou, de olhos abertos e fechados; lacrimejantes e ansiosos; em amar.

Contudo, a vida e suas mudanças drásticas manifestaram-se no caminho de seus sonhos. Wynonna descobriu-se a herdeira, a heroína com a pacificadora. Wynonna mal podia respirar diante de tantas batalhas perniciosas e exaustivas. Uma linha invisível, uma que foi incapaz de ultrapassar, não lhe permitiu a coragem de abandonar tudo e conhecer o mundo. Talvez a ausência de Wynonna, a única que havia, entre os Earp, lhe cuidado e protegido como pôde, e seus estudos foram feitos à distância, privando-lhe da sensação de pertencer a um lugar onde ao menos alguém não a consideraria uma paranoica perdendo tempo com o sobrenatural absurdo. A vida e suas mudanças guiaram-na ao lado de Champ Hardy, cuja companhia por vezes a fez sentir-se mais sozinha do que nunca.

Através de todos os pesadelos, Waverly sorriu, acenou e sonhou.

Encharcada em cerveja barata, no segundo em que deteve-se para esfregar o pano sobre os olhos, lá estava ela. Brilhante, composta e matreiramente altiva, o sorriso suavemente galante: Nicole Haught. Sim, foi uma mudança, diversas mudanças lhe ocorreram por causa dela, mas Waverly foi capaz de abraçá-las e aceitá-las até que a gentil policial, sem exigências, sem pressões, transformasse-se numa constante em sua vida.

Uma constante. A primeira constante. E Waverly não pode evitar cair para esta constante, amar esta constante, repetir surpresa e alegre que constante era e constante permaneceria, silenciosa e cúmplice, amável e corajosa. Genuinamente corajosa.

Waverly salta de sua cama, os lençóis embaraçados em suas pernas quase derrubando-a, quando a pergunta tão esperada, talvez a única que deseje responder nesse exato momento, resplandece dentro de si.

Ela pode amar a inconstância recém-descoberta de Nicole?

Wynonna é um furacão de inconstâncias e Waverly simplesmente a ama, sempre a amou de todo o seu coração, enquanto aprendeu a amar dolorosamente seus pais e a primogênita Earp. Gus é uma inconstância de doçura com rigidez e Curtis foi uma inconstância cheia de segredos aliada a uma inconstância cheia de fé e Waverly os amará para sempre. Dolls é uma inconstância misteriosa, Doc é uma inconstância complexa, mas Waverly aprendeu a amá-los.

Que razão haveria para não amar Nicole em sua inconstância?

Nicole agora está mais próxima de seu mundo do que jamais esteve. E está tudo bem. Apesar das dimensões de seu erro terrível, apesar do incômodo de sua proteção excessiva, além de todos os pesares de ainda estar magoada, está tudo bem. E Waverly sabe, através de sua ferocidade em sonhar, que o que não está bem, ainda há de ficar.

Num desespero intraduzível, atira-se escada abaixo e vasculha a casa cheia de bugigangas a procura de suas chaves, incapaz de respirar corretamente, inapta a formular qualquer pensamento coerente de paciência ou reflexão. Não mais reflexões. Não mais uma distância imposta que não faz bem, não conserta e não acalma.

– Ei. – Wynonna inclina-se com uma sobrancelha arqueada no batente da porta, erguendo o braço e atirando-lhe o molho de chaves. – Vá pegar a garota, Waves.

Embora a intenção de Wynonna tenha sido compreendida positivamente, Waverly não quer “pegar a garota”, não dessa vez. Não quer invadir a delegacia ou bater em sua porta para cair em seus braços ou beijá-la fervorosamente como já o fez. Waverly quer vê-la. Somente vê-la, somente contemplá-la. Quer encarar seus olhos e encontrar, através das camadas de culpa e tristeza, algum gênero de uma esperança que diga “tudo ficará bem”. Sua voz macia a sussurrar “isso será muito difícil e talvez ainda machuque muito, mas tudo ficará bem“.

Assim, o jipe vermelho destaca-se veloz na estrada coberta de neve. Enquanto o vento acerta impiedosamente seu rosto, disfarçando lágrimas fugitivas involuntárias, Waverly enche-se de sonhos acordados. Sonha que Nicole ainda cometerá muitos erros, que ambas cometerão. Que ficará furiosa, descabida. Que Nicole ficará incrédula, aborrecida.

Ao chegar na delegacia e Nedley informar vagamente que deu à oficial alguns dias de folga, Waverly sonha que ambas se reencontrarão depois de uma briga terrível com os olhos vermelhos e se abraçarão, como o primeiro passo para o perdão.

Ao estacionar na frente de sua casa e quase atropelar a caixa de correio, chamar e aguardar, recebendo apenas o miado agudo de Calamity Jane, tentando enxergar algum movimento pelas janelas embaçadas e deparar-se apenas com a escuridão, mesmo em sua decepção e o começo de uma preocupação inevitável sobre o paradeiro dela, Waverly sonha que, depois de uma discussão sobre uma tolice qualquer, estarão nuas sob os lençóis, observando-se e sentindo a eletricidade e aroma que na atmosfera do quarto permanecerão após uma das mais saborosas reconciliações.

As estradas de Purgatory, embora a cidade seja tão pequena, são longas o suficiente para Waverly Earp perder-se em seus sonhos até finalmente avistar, na brancura do inverno, seu destino ansiado.

O ronco do motor do jipe esmorece lentamente do outro lado da rodovia e Waverly sente-se mais assustada e ansiosa ao ver, enquanto caminha hesitante na direção da viatura desligada, Nicole Haught com as pernas cruzadas, sentada sobre o capô, o novo uniforme abarrotado, três botões abertos e os fios acobreados de seus cabelos, normalmente comportados, desordenados.

Mais pálida do que nunca. Olheiras mais fundas do que nunca. Olhos perdidos, seu par de olhos prediletos, fitando o céu vespertino a se apagar gradativamente acima dela.

– Gosto de vir até aqui. – Sua voz é um fino fio diminuto perdendo-se no rigoroso vento invernal, mas ainda tão suave quanto antes. – Me faz pensar em nós duas na viatura, quando você disse que poderíamos ser amigas. Não era o que eu queria, nunca foi, mas eu poderia aceitar qualquer coisa que você realmente me pedisse, qualquer coisa que você quisesse de mim, da maneira como pudesse realizar. O carro seguiu até o fim dessa estrada e o fraco Sol se pôs e permanecemos em silêncio.

– Nicole...

– Eu a levei de volta para a fazenda enquanto a noite caía e você beijou meu rosto, como uma amiga faria. Eu queria tão mais de você, Waverly Earp, desde que nos vimos pela primeira vez. Mas não podia pedir mais, não seria justo pedir mais. Eu nunca quis exigir nada de você. Eu nunca quis forçar alguma das minhas expectativas sobre as suas próprias decisões.

– Eu sei disso. – Afirma com um nó em sua garganta.

– Pode vir comigo até um lugar? Eu não quero ir sozinha e não queria chamá-la quando você precisa de espaço, mas não poderia chamar mais ninguém. – Endireita-se ruborizada.

Waverly nada diz porque, neste momento, nada deve ser dito. Porque Nicole a olha com estes olhos de névoa e lhe pede com voz de trégua que a acompanhe. E Waverly percebe que quer ir com ela para qualquer lugar, mesmo quando sua presença lembre-a do que fere.

Como quando Waverly decidiu que seriam somente amigas, o silêncio as abraça na viatura que transita lentamente. Apesar de tudo, o silêncio permanece confortável ao lado de Nicole Haught.

Quando deixam o veículo, Waverly não poderia estar mais surpresa.

O arranjo simplório de flores silvestres trepida nas mãos trêmulas de Nicole enquanto adentram o cemitério mudo e gelado. Waverly nota o túmulo de Ward e o simbólico de Willa, mas não atenta-se a eles. Tudo está direcionado para as expressões cansadas e entristecidas da jovem resignada que caminha ao seu lado.

As fileiras de túmulos floridos desaparecem e, subindo curta colina, as duas estão sob um grande carvalho. Nicole ajoelha-se, repousa as flores diante de si e, com as mãos enluvadas revela, sob a grossa neve acumulada, uma lápide sem nome.

– Aqui jaz Haught. Pai, companheiro de bares e honrado Tenente aposentado. – Sussurra com melancolia.

– Oh... O seu... – Waverly engole em seco.

– Quando completei quinze anos, meu pai se aposentou no exército por invalidez e viemos para a cidade alta, afastados dos grandes centros, onde ele pudesse descansar longe de tumultos e memórias ruins. Fazia sentido. Parecia bom.

Waverly ajoelha-se perto, mas não a toca.

– Toda a minha infância sonhei ser exatamente como ele, o bom Tenente. Talvez mais do que ele, talvez General. Então, o acidente na perna esquerda o impediu de continuar em seu ofício. Mesmo despedido com honras e medalhas, ele começou a beber excessivamente e tive que desistir do exército na capital do país para trabalhar e cuidar da minha irmã mais nova... E dele.

Waverly muito resiste em segurar suas mãos inocentemente.

– Não era tão ruim, ainda pretendia me formar na academia de polícia e atuar em alguma pequena cidade, ao menos enquanto tivesse que manter os olhos em minha irmã. Contas, manutenções, despesas, eu podia lidar com tudo isso. Eu podia cuidar da família e provei isso muitas vezes.

– Quem lida com os cidadãos loucos de Purgatory pode lidar tudo. – Waverly tenta amenizar com um riso fraco, obtendo um igualmente breve e baixo em resposta.

– Com o passar do tempo, ele ficou violento. Mais para si mesmo do que para nós. Um dia, quando voltei do trabalho, descobri que minha irmã havia se envolvido numa confusão e quebrou o braço. No mesmo dia meu pai descobriu que o exército cortaria o subsídio com ordens do próprio governo por questões econômicas e parte da nossa renda não existiria mais. A questão é que a carta chegou meses antes. Meses antes, Waves, e eu a abri e não deixei que ele visse, temi que isso piorasse sua condição e minha irmã e eu combinamos de conseguir trabalhos temporários para cobrir.

– Nicole... – Franze as sobrancelhas, sabendo o que virá.

– Eu já fiz isso antes, Waverly. Eu já abri uma correspondência que não era minha e a escondi, tentei esconder a verdade de alguém que a merecia, tentei esconder a verdade da única pessoa que tinha direito a ela. Ele estava bêbado e nós brigamos e... Com um hematoma no rosto, fui para um hotel na cidade mais próxima com minha irmã. Eu fugi. Ficaríamos apenas um dia para acalmar a situação, mas um transformou-se em vários. Quando voltamos, foi como se nada tivesse acontecido e nada tivesse mudado, mas...

– Mas...?

– Um ano depois, um ano sem conflitos e embriaguez, meu pai se suicidou. E eu e minha irmã o enterramos aqui sem um nome em sua lápide, sem um enterro formal, sem nada que deixasse rastros do que aconteceu e como aconteceu, sem uma marca no nome Haught, um recomeço.

– Oh, Nicole... – Waverly cobre os lábios trêmulos, atônita.

– Isso não é uma justificativa, eu juro. Não quero que sinta pena de mim e não queria que me visse com outros olhos. Assim como você, Waverly, eu não me sinto confortável com as grandes mudanças. Talvez ninguém se sinta. Isso não é pelo seu perdão. É porque eu escondi a verdade, ele descobriu, isso o corroeu por um ano, sentindo-se completamente inútil para nós, e ele se suicidou... E você iria descobrir que não tinha o sangue Earp e isso me deixou tão assustada e preocupada, isso devastaria você, eu entrei em pânico e cometi o mesmo erro que cometi com meu pai. Exatamente o mesmo erro, como se o suicídio dele não fosse aprendizado o suficiente. Como se perdê-lo por tudo isso não me tivesse feito ver a mim mesma como uma... Maldição, como uma aberração controladora!

– Ei. – As mãos de Waverly tocam seu rosto repleto de lágrimas. – Você não é uma aberração controladora, Nicole Haught. Você não é. E se você fosse, o que eu seria percebendo que tão pouco sei sobre você, que tudo entre nós sempre foi ao meu respeito?

– Eu decepcionei você. Eu nunca havia desapontado você.

– Sim, você me decepcionou. Mas isso não faz de você um monstro. – Inspira uma lufada de ar, como se o dissesse mais para si mesma do que para a jovem em prantos. – Você tentou esconder o que eu mais queria descobrir no mundo e não pretendia me contar. Você tocou no que dizia respeito somente a mim. Mas de onde eu vim não muda o que sinto por você, Nicole. E por essa razão você não pode tomar partido e posse disso, por essa razão não pode me impedir. Isso é sobre mim, não sobre nós. Agora também sobre você, mas ainda assim, não sobre nós.

– Eu sei... – Comprime os olhos, cabisbaixa. – Eu sei.

– Estou magoada e tão brava com você, Nicole Haught. Eu quis tanto reverter o que você fez, só para não ter que lidar com o que houve, só para evitar que corrêssemos o risco de destruir o que temos. Mas nós temos, querida... Nós temos que lidar com isso.

– Eu sei. E estou pronta para fazer o que for necessário, Waverly. O que você decidir, o que quiser, no seu tempo e...

– Nicole. – Interrompe-a. – Por que não o que nós duas decidirmos? Por que não o que nós duas quisermos, no tempo em que quisermos?

– ...

– Eu vou dizer o que quero e o que preciso. Você vai me dizer o que quer e o que precisa. Se concordarmos, tudo bem. Se discordarmos, tudo bem. Nós vamos conversar e vamos encontrar, cedo ou tarde, o que funciona. Para nós duas. E eu quero ouvir tudo sobre você, Nicole Haught, como você faz por mim.

– Eu vou. – Assente como uma garotinha ansiosa. – Nós vamos, Waves.

Waverly a observa enquanto retornam à viatura e em silêncio durante todo o caminho até a estrada onde se encontraram. Neste novo silêncio, ela novamente vê. Nicole é como Wynonna, como Dolls, como Doc. Nicole é como Waverly e como todas as pessoas que Waverly ama. Uma aprendiza inconstante de bom coração tentando, em suas lembranças dolorosas, suas qualidades extraordinárias, seu amor e sua coragem, sobretudo seus erros, viver.

Quando o motor emudece e encaram-se involuntariamente, Waverly encontra o que mais procurava quando desenfreadamente dirigiu pelas ruas de Purgatory. Os olhos de Nicole dizem e concordam: “Isso será muito difícil e talvez ainda machuque muito, mas tudo ficará bem“.

– Eu quero que vá para casa alimentar a pobre Calamity Jane. – Waverly sorri. – E que tenha uma boa noite de sono. Por quanto, é isso. O que você quer?

– Honestamente? Passar todo o tempo possível olhando para você dentro desse carro, Waverly Earp. Mas você está certa e Calamity Jane deve estar faminta. – Espelha seu sorriso e o coração de Waverly, errático, destoa.

Nenhum adeus é proferido quando Waverly caminha trêmula até o jipe. Quando o motor da viatura soa, porém, um suspiro dela escapa e suas emoções à flor da pele fazem-na virar-se bruscamente antes de deixá-la ir.

Emoções são, em sua memória, labirintos assustadores demais.

– Nicole, espere! – Exclama rouca.

– Sim? O que é? – A ruiva salta do veículo depressa, alarmada ao vê-la quase sem fôlego.

– Honestamente. Certo? – Murmura hesitante.

– Honestamente. – Sorri. – Sempre honestamente, agora.

Waverly atravessa aos tropeços a estrada e cai em seus braços. É como um sopro de vida, acalentador e morno. Suas lágrimas ensopando o uniforme escuro, seus olhos transbordando escondidos no peito de Nicole, o ritmo alegre de seus batimentos cardíacos melodiando em seus ouvidos. Familiar e aconchegante, com mil resoluções à espera, com a derradeira conversa pendente sobre o infeliz ocorrido, mas necessário porque aplaca, porque conforta.

Porque há equilíbrio no caos e vice-versa, coexistindo. E tudo o que Waverly e Nicole precisam neste instante mudo é de um abraço extremamente apertado e acolhedor.

Por enquanto, é isso.

– Não mais, Nicole. Não desse jeito. Nunca mais. – Se Waverly ordena ou suplica, Nicole não se importa.

– Nunca mais. – Segue-a num sussurro, contendo as próprias lágrimas que ameaçam escorrer outra vez.

– Pode me levar para casa?

– Qualquer coisa.

Nicole, tentando não ultrapassar seus limites, inclina-se para tomá-la e carregá-la até o jipe, aliviada em não ouvir protestos. Procura as chaves nos bolsos de seu grande casaco e acomoda-se no assento do motorista.

– Vai deixar sua viatura desprotegida no meio da estrada, Oficial Haught? – Waverly ri suavemente, embora ainda chorosa.

– Deixarei as chaves na delegacia, Champ pode vir buscar para mim.

– Champ...? Champ Hardy? – Arqueia uma sobrancelha.

–  Convenci Nedley de que ele poderia tentar novamente. Não conte ao xerife, mas até agora ele está fazendo tudo certo sob minha supervisão. Todos merecem uma chance depois de tudo, não é?

– É... – Recosta-se, observando-a dirigir desajeitadamente carro desconhecido. – Acho que todos merecemos.

Quando chegam à fazenda, Nicole sorri genuinamente ao vê-la adormecida. Uma vez mais, realizada como uma heroína ao resgate, a carrega em seus braços. Wynonna abre a porta e a segue até o quarto, onde Nicole a aconchega e cobre, um breve beijo em sua fronte como uma assinatura, uma despedida que, ela espera, durará pouco.

– Haught. – Wynonna exige. – Se magoá-la assim novamente...

– Vai me acertar com tanta força que verei a curvatura da terra, isso está implícita e perfeitamente claro. – A ruiva não evita o adorável sorriso para a cunhada de sobrancelhas franzidas e postura ameaçadora.

– Se magoá-la assim novamente... – Revira os olhos. – Vou cuidar dela e depois vou buscá-la onde quer que esteja e te arrastar até o bar mais próximo onde vamos, digo, você vai beber – Aponta para o próprio ventre protuberante. – E vamos pensar numa solução para deixar Waverly feliz novamente, nem que eu tenha que caçar uma maldita bruxa que saiba retroceder o tempo para que você evite fazer besteiras. Fui clara?

– Muito clara e muito específica. – Contém sua gargalhada para não despertar Waverly.

Wynonna senta-se ao lado da irmã adormecida e segura cuidadosamente uma de suas mãos.

– E Nicole... – Sibila antes que a policial as deixe sozinhas.

– Sim, Wynonna?

– Se Waverly for ou não uma Earp, ela ainda é minha irmã. Isso nunca vai mudar.

– Ela sabe disso, Wynonna. Tenho certeza de que ela sabe.

– Você é boa, Haught. – Sussurra para si mesma, quase imperceptivelmente, acariciando os cabelos de Waverly, retirando os resquícios dos flocos de neve. – Vocês duas são. 


Notas Finais


Além da desorientação imediatada, do pânico imediato, perguntei-me o que exatamente levaria Nicole a abrir uma correspondência de Waverly e dela esconder. Um crime e um erro, simplesmente fizeram-me pensar se não haveria algo mais.

Talvez alguns de vocês considerem incompleto, inconclusivo. É um hábito meu que não agrada a muitos leitores, mas eu gosto disto, gosto de fragmentar instantes que muito têm a contar para o passado e para o futuro. Gosto de instantes do presente, onde a expectativa e a possibilidade mantêm-se no ar. Ainda assim, espero que tenham apreciado essa perspectiva terna. Acreditem no perdão ainda acima da crença no amor: Perdoar é um ato que diz muito mais respeito àquele que dá do que àquele que recebe.

Obs.: Nicole ter se considerando diante de Waverly uma "aberração controladora" foi uma menção ao episódio 2x09 onde Waverly a chama assim e acho que foi o que mais me atingiu sobre ele, perguntar-me como Nicole sentiu-se ao ler aquilo.

Críticas, sugestões, observações que não desejam fazer aqui? Bater um papo sobre os dois últimos episódios? Beber cerveja e sofrer por essas duas? Basta chamar, estarei aberta à tudo: @dokkstormur

Nos vemos por aí. :)


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