História The Outsider - Capítulo 2


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Alterego, Drama, Originais, Romance, Subversivo
Visualizações 4
Palavras 2.338
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Ana: sobre livros, pessoas e eu


Olá, prazer em conhecê-lo. Quem sou eu? Essa é bem fácil. Sou escritora de uma coletânea de best sellers. Tudo bem que hoje em dia isso não vale lá grande coisa, mas as pessoas ainda me param na rua. Aquele personagem Fulano existe mesmo? Claro que sim, só sei escrever sobre o que está imediatamente à minha frente. Depois floreio um pouco, e cabum, mais um degrau para o sucesso foi construído com êxito. Sou pública, todo dia saio no jornal matinal. Ela vai lançar um novo livro. Ela saiu para uma festa com os joelhos à mostra. Num dia: bebeu até cair tonta num passeio sujo qualquer. No seguinte: declamou poesias de Drummond junto com os mendigos à luz da lua. E depois: encontraram-na dizendo que não queria voltar para casa.

A verdade é que pequenas excentricidades rendem muito IBOPE atualmente. Sorte minha, porque usar a criatividade me dá câncer. O meu negócio mesmo é fazer com que mulheres se sinta feias e difamadas, que aceitem relacionamentos abusivos com homens ricos e bonitos porque não existe nenhum ideal de vida melhor do que esse. O meu negócio é pegar todas as suas fraquezas e transformar em alguma coisa louvável. Você é especial, quem te disse que você não era?  Eu quero fazer você se sentir menor e maior, ao mesmo tempo.

Tudo bem, tudo bem, chega de ironias. Você já deve ter notado que eu sou uma autora que gosta de um pouco de metalinguagem, certo?! Um livro sobre alguém que escreve livros parece até legal. É, pois é, eu sei que no fundo isso não é mais do que simplesmente bizarro. Eu já entendi que as pessoas gostam do que são hoje, o que não é justo porque elas não conhecem outra opção pela qual as coisas podem acontecer. Se você quer mesmo saber, eu gostaria que tudo fosse diferente. Sim, sou uma sonhadora. Eu quero ver as outras alternativas antes de ter que me encaixar numa rotina definitiva, quero saber qual é a melhor vida que já existiu. É a minha opção. Se isso aconteceu por causa daqueles livros que eu tenho lido naquele “recanto da imundice”, como as pessoas costumam falar? Você acertou em cheio. Lá você encontra de tudo, pode ir comigo, se quiser. O que eu mais gosto são os romances. Não aqueles sobre uma adolescente sonsa e frustrada emocionalmente que encontra o grande e único amor – e eu já li um bocado deles e, no fim do dia, eu não quero ser o capacho de alguém, não quero a porta do carro sendo aberta para mim. Por deus, eu tenho mãos.

A verdade é que uma garota pode sonhar debaixo dos lençóis com seu amor definitivo e perfeito, e com fazer sexo selvagem com ele durante três dias e quatro noites de forma ininterrupta. Não digo que eu não tenho sonhos. O problema realmente começa a existir quando acreditamos nos livros que dizem que o homem mais interessante do mundo vai te amar – e a mais ninguém – porque você tem um “calor interno” que te torna única e especial, diferente de todas as outras pessoas do mundo. E que, sério, você não precisa fazer nada, o mundo simplesmente virá cair aos seus pés. Por favor. Seja poderosa, boa em tudo o que faz.

Eu mesma sou uma adolescente sonsa e frustrada emocionalmente que sonha todas as noites em encontrar o amor verdadeiro. Tenho medo das coisas estúpidas que posso acabar fazendo por causa disso. Ou melhor, não fazendo. Tenho medo de ser machista a ponto de ficar esperando um homem tomar todas as iniciativas por mim. Tenho medo de achar meus problemas internos uma coisa tão poética e sexy a ponto de ficar esperando a solução musculosa cair do céu. Tenho, principalmente, medo de entrar em pane e descobrir que esta era a única coisa certa a se fazer. E todos fizeram, menos eu. Fiquei imensuravelmente sozinha na parte do “todos viveram felizes para sempre”.

Você, meu amigo leitor, a esta altura pode já ter tirado todo tipo de conclusões malucas sobre mim. Saiba que eu não me simpatizo muito com gente indiferente, porque eu muitas vezes sou assim, e sempre acabo irritada comigo mesma.  Mas não é uma grande preocupação porque as pessoas não têm gostado de ser indiferentes também. Quem não sabe nada sobre o assunto em questão procura no Google micro resumos de resumos para encontrar seu ponto de apoio, seu discurso definitivo. Ou pega uma opinião qualquer no vento errante, que pode guinar para qualquer lado.  O importante é que tenham alguma coisa para dizer, ou mesmo escrever nos incontáveis diários virtuais – nos quais eu também adoro escrever.

Então, bem, se você me odeia eu vou ficar só um pouquinho triste. Tudo bem, é, acontece, ok, pode torcer contra mim. Eu não me importo, mesmo que pareça que eu estou louca para conquistar sua amizade e tudo o mais. Mas se você teve uma centelha de empatia por sua humilde narradora, cara, torça para que as coisas deem certo pelo menos um pouquinho.

Confesso, eu queria mesmo ser a mulher do primeiro parágrafo, cheia de fama e sucesso. É uma pena que isso não exista de fato para pessoas como eu, porque eu penso que se existisse alguém assim, por que eu não poderia me tornar também? Porém, em muitas partes ter fama parece ser meio burocrático, e até grosseiro.  Como assim grosseiro? Não ligue, eu gosto de colocar palavras em lugares que muitas vezes podem parecer inapropriados para elas.  Despatriadas, como eu. Mas o que eu quis dizer com grosseiro é que, para ser famoso, alguém também deve estar preparado para ser imensuravelmente odiado. E aí esbarramos no meu problema. Sou uma sonhadora e uma narcisista. Eu gosto de agradar a todos, sinto que tenho algo importante a dizer e que todos deveriam me ouvir. O que é?  Não me faça perguntas difíceis logo no primeiro encontro.

Eu tenho essa forma de narcisismo engraçada. Sei que isso é pecado, mas é tão gostoso, ­mãe! Eu preferiria ser apenas bajulada, mas sem nunca saber.  Morreria incólume como uma deusa, inquebrável.  Todos choraram de saudades, todos se lembram dos meus feitos, todos me amarão para sempre em minhas palavras encantadas. Obrigada, obrigada, foi um prazer agradá-los! Mesmo que eu sonhe, isso nunca vai acontecer, esse tipo de coisa não existe, não da forma como eu sonhei. Saindo um pouco dos meus infrutíferos anseios, tenho a sacra obrigação de deixar aqui registrado que não sou, em nenhuma circunstância, de todo um fracasso. Leio bons livros – e ruins também, me tornei uma consumidora voraz de praticamente qualquer coisa –, faço o que acho que deveria fazer. Saiba que eu sou uma rebelde, lutando contra algo que eu não sei o que é, onde está ou como nos tortura, mas este é mesmo o desafio. Ainda não estabeleci contato com rebeldes aliados, mas sim, eu sei que um dia eles virão. E, enquanto eu espero, vou fazendo minhas pequenas balbúrdias por aqui. Quer saber quais? Não tão cedo, marujo.

Eu comecei a escrever um livro, uma vez. Era até bonitinho, mas eu tive a impressão de que se parecia com alguma coisa que eu já tinha lido no passado, no meio de toda aquela maré de coisas que eu encontrei. Possuo muito respeito por aqueles que vieram antes de mim, por isso desmanchei todas as folhas e tentei começar de novo. Procurei, então, coisas importantes da nossa era sobre as quais escrever. É claro que tem um monte de coisas acontecendo por aí. Não senti muito tesão por nenhuma delas. Tive umas ideias muito loucas tomando banho, mas assim que eu me via do lado de fora, tudo se esvaía magicamente, parece que eu tenho sérios problemas de memória.  Como se a poesia e as palavras bonitas fossem laváveis da alma.

Comecei três – com essa quatro – vezes. Escrevi um pouco sobre humanos comendo-se uns aos outros, também sobre a minha própria vida, como as coisas que eu fazia quando tinha 10 anos. Critiquei a falta de profundidade das pessoas e o consumismo, toda a alienação. A futilidade da nossa geração, até perceber quão hipócrita eu soava. No fundo, quem não é já sabe, quem é não quer saber. Um insucesso completo. Depois de alguns anos notei que eu mesma poderia até ser um tema interessante, ou ao menos algo sobre o qual eu gostaria de gastar algum tempo. Uma luz se acendeu, mas é claro! Sou uma especialista nisso, ninguém pode saber mais do que eu. Mas, bom, não sei, o que você gostaria de saber sobre mim? Vou dar um loop e retornar para o marco zero. E assim, aqui é onde estamos estacionados agora. O que faremos a respeito disso? Eu e você, duas pessoas completamente normais, com obrigações normais e rotinas totalmente iguais às das outras pessoas normais com suas vidas monótonas. Quem somos nós dois, aqui, parados no meio deste grande redemoinho de carne travessa e ambulante no mundo? A pergunta é, se você é tão igual a mim, por que estamos os dois aqui, nos encarando, nos provando, nos farejando como cães, nos conhecendo e nos reconhecendo um no outro? Estamos competindo ou nos ajudando? Nosso objetivo é sair da zona de conforto e nos tornar pessoas melhores? E, é claro, a maior pergunta de todas: se eu vou te dar este livro de presente, com o que você irá me recompensar? Apenas o seu silêncio ou o seu grito não são pagas suficientes. Eu quero o seu suor e o seu sangue, quero que você se alie a mim.

Talvez você não considere isto uma dádiva tão grande, ok, tudo bem, entendo seu ponto de vista, mesmo sem concordar com ele. Mas se quer mesmo saber, eu andei pesquisando e, olha cara, eu encontrei um montão de protagonistas parecidas comigo, imersas em seus mundinhos da adolescência com seus livros/músicas preferidos, totalmente descoladas na hora de falar com os leitores – o que não é exatamente o meu caso – e sim, são daquele tipo de garota que você teria certeza que seria sua melhor amiga.  Mesmo assim, eu ainda me sinto meio embriagada por estar adentrando na vida adulta. Quando foi que isso aconteceu? Nada em mim evoluiu e mesmo assim estou aqui.

De toda forma, podemos ir nessa então. Eu e você, você e eu. Juntos nessa estrada sem fim que representa blá, blá, blá. O negócio é que eu percebi que sempre fui empurrada pra vida. Eu faço as coisas porque são as coisas que as pessoas fazem. Eu fui empurrada para a escola, para o jeito de me relacionar com o universo. Fui empurrada e me tornei o que sou hoje. Não posso me gabar de nada mesmo. Até este livro que eu decidi escrever é mais ou menos uma coisa para a qual eu fui empurrada pelas circunstâncias constrangedoras da vida. Fui empurrada, como se a minha personalidade nunca pudesse mudar. Como se eu não pudesse gritar palavrão dentro de casa. E dizer para uma pessoa que me chateia: “caralho, como você é irritante”. Eu apenas cheguei até aqui. Encontrei você, e, bom, será que serei empurrada a ser sua nova grande amiga confidente?

O que eu quero mesmo fazer, agora que já estou aqui, é deixar de ser levada pela maré maldita da vida em que estou agora. Quero dizer as coisas que estão dentro da minha cabeça. Parecem boas, guardadas aqui. Então...por que não? Quero que a vida seja simplesmente o que ela promete nos anúncios nas calçadas, nos sorvetes derretendo na mão das crianças pequenas. Quero que ela cumpra a promessa de ser a melhor vida que alguém jamais teve. Eu quero me sentir bem todos os dias, porque todo dia é dia de se sentir bem. Sei que pareço meio babaca com esse papo todo otimista, mas, no fundo é isso que cada pessoa deseja para si profundamente, mesmo inconscientemente. Espero que você deseje isso pra você mesmo. Para terminar toda essa lenga-lenga, tenho o dever de dizer que nada de emocionante aconteceu de fato que mereça ser relatado em um livro. Na verdade, nada que possa ser notado pelas pessoas que não prestam muita atenção. Portanto, resolvi só escrever coisas que acontecem – dentro e fora – e depois ver no que dá, sem nenhuma precisão científica, sem nenhuma obrigação com a verdade ou com a mentira. Sabe aquele papo de que cada vida humana é única e insubstituível?  De que cada ser humano possui uma história fantástica que merece ser contada? É nisso que se baseia a vida das pessoas, é isso que está escrito nas propagandas virtuais. Elas escrevem pensando no que não vai ser o amanhã, elas escrevem só para saber que alguém, em algum lugar do mundo conhecido, vai ler aquilo e ser sua melhor amiga. Se cada vida humana é única e merece ser contada, bom, todos contam sua história e deixam-na fluir pelo rio interminável que criamos mesmo para este fim. Todos são únicos.  Pois é, torça para que seja verdade mesmo.

Foi assim que eu tomei coragem e roubei algumas folhas amarelas, isso foi tão importante, que elas ficaram meses guardadas embaixo da minha cama enquanto eu gastava meu tempo em alguma outra coisa. Foi desta maneira que eu, Ana P., resolvi me tornar uma história genuína para a minha espécie. Nunca mais ser esquecida.  Talvez eu quebre o ciclo e consiga publicar milhões de cópias de uma mentira. Talvez produza apenas uma cópia que será descoberta por alguém muito legal no futuro, e este será então seu tesouro secreto, sua joia mais preciosa. De qualquer jeito, estarei feliz, porque estarei viva na mente de alguém, mas de um modo verdadeiro, de um modo sublime, e não como uma farsa que é esquecida logo após o meu interessado leitor fecha as minhas páginas cinzentas. Foi assim que eu resolvi narrar como ele, aquele homem, apareceu e se tornou uma parte de mim. Foi assim que decidi criar as pessoas que eu queria conhecer.



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