História The voice - Capítulo 14


Escrita por: ~

Postado
Categorias Naruto
Tags Sasusaku
Exibições 120
Palavras 4.822
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Hoje é sábado,dia nacional de postar capitulos.

Boa leitura!

Capítulo 14 - Sakura


Capitulo 14

Sakura

Acordei e abri os olhos. Podia sentir que estavam inchados. A sala estava na penumbra,apenas uma única luminária acesa no canto perto de uma das estantes de livros. Eu estava deitada em um sofá de couro bastante usado e havia uma mesa de centro antiga, de madeira, à minha frente. Pelas cortinas abertas, vi que o sol já se pôs completamente.

Afastei para o lado a manta que me cobria. Sasuke provavelmente a colocou ali. Meu coração se apertou. Sasuke. Ele tomou conta de mim. Me salvou.

Eu me sentei e, apesar dos olhos inchados e do ponto na testa levemente dolorido ao toque, eu me sentia bem, descansada. O que era surpreendente, já que havia me transformado em um animal selvagem quando aquela rede caiu sobre mim. Eu percebi em algum ponto distante da mente o que estava acontecendo quando Sasuke removia as cordas do meu corpo.

Por que havia uma armadilha montada na propriedade, eu não sabia, mas desconfiei que fosse obra do tio dele.

Meu Deus, eu surtei. Estava me sentindo envergonhada agora. Mas, de algum modo,também me sentia aliviada... mais leve? Quando percebi que estava sendo carregada e vir os olhos preocupados de Sasuke, eu me senti segura e, por isso, as lágrimas finalmente haviam caído.

Meus pensamentos foram interrompidos com o som dos passos de Sasuke atrás de mim, voltando para a sala.

Virei-me para agradecer, com um sorriso constrangido nos lábios, mas, quando ele entrou em meu campo de visão, eu congelei. Minha Nossa Senhora! Ele prendeu os cabelos para trás e fez a barba.

E estava... lindo.

Eu arquejei.

Não, lindo não. Era másculo o bastante para não cair no que, de outra forma, seria uma beleza excessiva. O maxilar não era duro, era levemente anguloso, mas não de um modo exagerado. Os lábios eram mais largos do que cheios, de uma bela cor rosada.

Com os cabelos puxados para trás e sem barba, eu podia ver como os olhos e o nariz dele combinavam perfeitamente com o restante das feições. Por que Sasuke sempre escondeu isso?

Eu sabia que havia um rosto bonito por trás de tantos pelos desgrenhados, mas não assim.

Nunca imaginei aquilo.

Quando eu estava prestes a falar, Sasuke aproximou-se sob a luz, e foi então que vi a cicatriz na base de seu pescoço – rosada e brilhante, a pele em relevo em certos pontos e plana em outros, destoando drasticamente da beleza das feições dele.

– Sasuke – sussurrei, encarando-o.

Ele se deteve, mas não disse nada. Ficou ali parado, a insegurança clara em sua expressão e em sua postura, rígida e imóvel. E eu não conseguia fazer nada além de continuar a encará - lo, enfeitiçada por sua beleza. Senti um aperto forte no peito. Ele não tinha a menor ideia.

‘’Venha cá’’, pedi, indicando o sofá perto de mim.

Eu me virei quando ele deu a volta no sofá e se sentou ao meu lado. Meus olhos se moveram pelo rosto dele.

‘’Por que fez isso?’’, indaguei.

Sasuke ficou em silêncio por algum tempo, os olhos baixos, mordendo o lábio inferior antes de levantar as mãos e dizer:

‘’Não sei’’. Ele ficou pensativo, os olhos presos nos meus, então continuou: ‘’Quando você estava presa na armadilha, eu não conseguia falar para tranquilizá-la. Você não pode me ouvir... isso eu não posso mudar’’. Ele baixou os olhos por um instante, então voltou a me encarar.’’ Mas eu quero que me veja’’. Uma expressão de vulnerabilidade dominou seu rosto.

‘’Agora você pode me ver’’.

Senti um aperto no peito outra vez. Eu compreendia. Aquele era o modo de Sasuke fazer com que eu me sentisse mais confortável por ter exposto uma parte minha para ele... fazendo o mesmo por mim. Ergui as mãos e disse:

‘’Sim, agora posso te ver. Obrigada, Sasuke’’.

Tinha a sensação de que poderia ficar olhando-o para sempre. Depois de um instante, respirei fundo e voltei a falar:

‘’E obrigada... pelo que fez mais cedo’’. Balancei de leve a cabeça. ‘’Estou envergonhada.Você me salvou. Eu estava um trapo’’. Levantei os olhos para ele.’’ Me descul...’’

Sasuke segurou minhas mãos nas dele para deter minhas palavras. Então foi a sua vez de falar:

‘’Não, sou eu quem deveria pedir desculpas’’, disse ele, uma expressão muito intensa nos olhos.‘’Meu tio espalhou armadilhas por toda parte nestas terras. Tentei encontrar todas e desarmá-las, mas aquela escapou’’. Ele desviou os olhos.’’ A culpa foi minha’’.

Balancei a cabeça.

‘’Não, Sasuke. Não foi culpa sua’’. Voltei a balançar a cabeça.’’ Não. E, de qualquer forma,por mais que eu lamente ter surtado’’, ri, envergonhada, e Sasuke abriu um sorrisinho de canto, ‘’talvez... eu precisasse disso. Não sei’’.

Ele franziu a testa.

‘’Quer conversar sobre isso?’’

Recostei-me no sofá e suspirei. Eu não havia falado com ninguém sobre aquela noite. Com absolutamente ninguém, a não ser com os investigadores do caso. Nem mesmo com meus melhores amigos. Eles só sabiam que meu pai foi baleado por um ladrão e que eu fui testemunha. Mas não sabiam do resto, não sabiam de tudo. No entanto, por algum motivo, eu me sentia segura para falar a respeito daquele dia nesse momento. Me sentia segura com Sasuke. E havia algo de reconfortante no ato de contar aquela história através das minhas mãos.

‘’Estávamos quase fechando naquela noite’’, comecei.’’ O rapaz que costumava trabalhar no balcão da frente da nossa  delicatéssen já foi embora e meu pai estava cuidando do livro- caixa. Eu estava nos fundos, assando pão para o dia seguinte. Ouvi o sino da porta tilintar e só demorei um minuto para lavar as mãos e secá-las. Então, fui até a porta da cozinha e vi pela janelinha que um homem estava apontando um revólver para o meu pai’’.

Lágrimas encheram meus olhos, mas eu prossegui:

‘’Meu pai me viu pelo canto do olho e começou a sinalizar “Esconda-se”, sem parar. O homem gritava para que ele lhe desse dinheiro. Mas meu pai não podia ouvi-lo e, por isso, não respondia’’. Respirei fundo enquanto Sasuke me observava com aqueles olhos que pareciam não deixar escapar nada, ouvindo com atenção o que eu dizia, seu silêncio me dando a força de que eu precisava para continuar.

‘’Antes que eu sequer tivesse tempo de me dar conta do que estava acontecendo, o revólver disparou’’.

Fiz uma pausa, revivendo o momento em minha mente. Então, sacudi ligeiramente a cabeça, e voltei ao presente – voltei ao olhar de compaixão de Sasuke.

‘’Mais tarde eu soube que o tiro acertou  o coração do meu pai. Ele morreu na hora’’.

Lágrimas grossas caíam dos meus olhos. Como eu ainda tinha lágrimas? Respirei fundo mais uma vez para me acalmar.

‘’Tentei me esconder na cozinha, mas estava em choque, então tropecei e caí. O homem deve ter me ouvido. Ele veio atrás de mim e...’’ estremeci ao lembrar e prossegui,’’ os olhos dele estavam injetados, as pupilas dilatadas, ele estava tremendo... Era óbvio que estava drogado’’.

Fiz outra pausa, mordendo o lábio.’’ Mas ele olhou para mim de tal modo que eu soube o que ele ia fazer. Eu soube’’.

Levantei os olhos para Sasuke, que estava sentado muito quieto, os olhos mergulhados nos meus. Respirei fundo de novo.

‘’Ele me obrigou a tirar a roupa e... começou a contornar meu rosto com o revólver.Então passou aos meus seios. E disse que ia me.... estuprar com a arma. Eu estava  apavorada’’.

 Fechei os olhos por um momento e olhei para o lado, desviando-os de Sasuke.

Senti seus dedos em meu queixo e Sasuke puxou meu rosto de volta para ele, e havia tanto carinho naquele gesto que deixei escapar um soluço abafado. Era como se ele estivesse me dizendo que eu não precisava me sentir envergonhada, que não precisava desviar os olhos dos dele. Meus olhos fixaram-se nos dele outra vez.

‘’Ele quase me estuprou, mas, antes que conseguisse, ouvimos as sirenes se aproximando.Ele fugiu. Fugiu para a tempestade pela porta dos fundos’’. Fechei os olhos por um instante e em seguida voltei a abri-los.’’ Agora detesto tempestades – o trovão, os relâmpagos. Eles me levam de volta para àquele momento’’. Respirei fundo mais uma vez, trêmula. Acabei de contar tudo o que aconteceu  naquela noite e sobrevivi.

‘’Sakura’’, Sasuke  começou a dizer, parecendo não saber como continuar. Mas eu não precisava que ele me dissesse nada. Meu nome parecia tão adorável dito por aquelas mãos que meu coração ficou mais leve.

Os olhos de Sasuke percorreram meu rosto antes que ele perguntasse:

‘’Foi por isso que você partiu? Por isso veio para cá?’’

Balancei a cabeça.

‘’Depois que meu pai foi morto, descobri que ele deixou de pagar o seguro de vida. Na verdade, ele se descuidou de várias coisas enquanto eu estava na faculdade. Não fiquei tão surpresa. Meu pai... era o homem mais bondoso na face da Terra, mas era muito desorganizado’’. Deixei escapar uma risadinha.

Olhei para Sasuke os olhos dele me encorajaram a continuar. Havia algo no modo como ele me olhava – uma compreensão que me acalmava e me dava força.

‘’Quando descobri que teria que vender a delicatéssen para pagar as despesas do funeral e as outras contas da loja, eu... acho que fiquei entorpecida. Não demorou muito para que eu recebesse uma oferta pelo negócio, mas estava tão magoada quando fui assinar os documentos de venda que mal conseguia respirar’’. Balancei de novo a cabeça, porque não queria voltar àquele dia nem mesmo em pensamento.’’ Foi como perder outra parte do meu pai. Ele foi dono daquela delicatéssen a minha vida toda – eu praticamente cresci ali’’.

Sasuke pegou minha mão por um instante, então soltou-a e disse:

‘’Sinto muito’’.

Eu já ouvi aquelas palavras antes, mas, olhando para ele naquele momento, soube que elas nunca tiveram tanto peso como quando ditas por Sasuke.

‘’Prenderam o homem que matou seu pai?’’

Fiz que não com a cabeça.

‘’A polícia me disse que o homem que matou meu pai provavelmente era um drogado que nem se lembraria do crime no dia seguinte’’. Fiquei quieta por um minuto, pensando.‘’Alguma coisa sempre me pareceu estranha nessa história... mas era a polícia que entendia disso.Ainda assim, às vezes me pegava olhando por cima do ombro e só me dava conta do que estava fazendo um tempo depois.

Sasuke assentiu, o cenho franzido. Eu o olhava, encantada, sentindo-me mais calma perto dele, mais leve, como se me livrasse de um peso que só então percebi que carregava. Sorri para ele.

‘’Que jeito de estragar nossa aula de culinária, hein?’’

Após um instante, Sasuke também sorriu, os dentes cintilando. Percebi nesse momento que um de seus dentes inferiores era um pouquinho torto e isso me fez amar ainda mais o seu sorriso. Não sabia bem por quê – talvez fosse apenas uma dessas imperfeições que tornam as coisas mais perfeitas. Ele tinha uma marquinha em cada lado do rosto que não eram exatamente covinhas, era apenas a forma como os músculos se moviam quando ele sorria.

Fitei essas marquinhas como se fossem dois objetos mágicos que haviam se escondido de mim sob a barba cheia. Olhei fixamente para a boca de Sasuke por um segundo e, quando nossos olhares enfim voltaram a se encontrar, os olhos dele se arregalaram por um instante antes de se desviarem encabulados.

‘’Fui buscar sua bicicleta e as caixas térmicas enquanto você dormia’’, disse ele. ‘’Coloquei as caixas na geladeira. Acho que as coisas não estragaram’’.

‘’Obrigada’’, falei.’’ Então vamos remarcar nossa aula de culinária?’’ Levei a mão à testa e

gemi baixinho.’’Quero dizer, se você me deixar voltar às suas terras’’.

Sasuke sorriu para mim e não disse nada por um bom tempo. Por fim, ergueu as mãos e falou:

‘’Eu adoraria. E prometo não deixá-la pendurada em uma árvore na próxima vez’’.

Sorri para ele e falei:

‘’Está certo. Então estamos combinados?’’

Ele sorriu, a beleza de seu sorriso me tirando o fôlego, e então disse:

‘’Sim, estamos combinados’’.

Continuei sorrindo para ele como uma boba. Quem diria que eu ia terminar aquele dia rindo? Não a garota que foi pega em uma armadilha no bosque e que surtou na frente de um homem lindo e silencioso.

Fiquei séria quando reparei no movimento do pescoço dele ao engolir e meus olhos se moveram para a cicatriz em seu pescoço. Estiquei a mão para tocá-la com cautela e Sasuke instintivamente recuou, mas então ficou imóvel. Levantei os olhos para olhar para ele e deixei as pontas dos meus dedos roçarem com delicadeza a pele marcada.

– O que aconteceu com você? – sussurrei, a mão ainda no pescoço dele.

Sasuke tornou a engolir em seco, os olhos percorrendo meu rosto, como se estivesse tentando decidir se ia me responder ou não. Por fim, levantou as mãos e disse:

‘’Levei um tiro quando tinha 7 anos’’.

Arregalei os olhos, levantei uma das mãos e cobri a boca. Depois de um segundo, abaixei novamente a mão e perguntei com a voz abafada:

– Um tiro? Quem atirou em você?

‘’Meu tio’’.

Senti o sangue gelar nas veias.

‘’Seu tio?’’, perguntei, confusa. ‘’O que morava aqui com você?’’

‘’Não, meu outro tio. No dia em que perdi meus pais, meu tio atirou em mim’’.

‘’Eu não... não entendo. Por quê?’’, perguntei, sabendo que minha expressão deixava claro o horror que sentia.’’ De propósito? Por que ele iria...’’

Sasuke se levantou e soltou os cabelos, que até então estavam presos, afastados do rosto.

Ele foi até uma mesinha que ficava atrás do sofá e pegou um tubo de alguma coisa. Quando voltou ao sofá e se sentou novamente perto de mim, com o tubo no colo, disse:

‘’Vou passar uma pomada antisséptica nos seus arranhões para que não infeccionem’’.

Percebi que Sasuke não falaria mais sobre si. Eu queria saber mais, mas achei melhor não pressioná-lo. Sabia melhor que ninguém que, se não estamos preparados para falar sobre algo, ninguém deveria tentar nos forçar.

Abaixei os olhos para meus braços e minhas pernas. Havia vários arranhões espalhados,uns pequenos e outros maiores. Estavam ardendo um pouco, mas não era nada sério. Acenei para Sasuke, concordando.

Ele abriu a pomada e começou a esfregar o remédio com o dedo em cada machucado.

Quando Sasuke se inclinou para a frente, senti o aroma dele de limpeza, de sabonete, um cheiro masculino e totalmente Sasuke. A mão dele ficou imóvel, seus olhos encontraram os meus e ficamos nos encarando. O tempo pareceu parar e meu coração acelerou antes que Sasuke desviasse os olhos e pousasse novamente o frasco no colo.

‘’O remédio vai ajudar’’, disse ele, voltando a se levantar. Nesse momento olhei para os pés dele e arquejei. Havia cortes e arranhões por toda parte, grandes e pequenos, vermelhos e levemente inchados.

‘’Ah, meu Deus! O que aconteceu com os seus pés?’’, perguntei.

Ele baixou os olhos para os próprios pés, como se acabasse de perceber que estava machucado.

‘’Não consegui encontrar meus sapatos quando a ouvi gritando’’, disse ele. ‘’Mas isso não é nada’’.

‘’Ah, Sasuke’’, falei, olhando para baixo.’’ Sinto muito. Você deveria fazer um curativo neles.Se tiver atadura, posso enrolá-los...’’

‘’Não há necessidade. Vou passar um pouco da pomada neles. De manhã estarão melhores’’.

Suspirei. Com certeza a pomada ajudaria, mas não estariam curados de um dia para outro.Não aqueles ferimentos que pareciam tão doloridos. Os pés de Sasuke estavam todos cortados. Meu Deus, ele havia corrido por cima de pedras, galhos afiados e do terreno irregular para me salvar.

Levantei-me e perguntei:

‘’Posso usar o banheiro?’’

Sasuke assentiu e apontou para uma porta que ficava logo depois do cômodo principal.Passei por ele e entrei no pequeno banheiro. Tudo era limpo e arrumado ali também – a pia e o espelho brilhavam e havia um suave aroma de limão no ar. Eu com certeza não poderia criticar as habilidades domésticas dele.

Sobre a pia havia uma barra de sabonete de um dos lados e, do outro, todo tipo de produtos para limpeza bucal disponíveis – uma escova de dentes elétrica, fio dental, vários tipos de enxaguantes bucais, palitos e – ergui um frasco – pastilhas de flúor. Muito bem, o homem levava um pouco a sério demais sua saúde bucal. Mas acho que não se podia considerar isso um defeito grave.

Usei o banheiro e voltei para junto de Sasuke. Abri um sorriso para ele.

‘’Nossa, você leva seus dentes muito a sério’’, falei em tom de brincadeira.

Ele sorriu também, balançou a cabeça de leve e levou a mão ao pescoço. Os cabelos caíram na frente do rosto dele e senti vontade de afastá-los para poder enxergar melhor seu belo rosto outra vez.

‘’Meu tio não confiava em médicos ou dentistas. Ele dizia que implantariam rastreadores se tivessem acesso aos nossos corpos. Uma vez eu o vi arrancar um dente com um alicate’’.

Sasuke fez uma careta. ‘’Depois disso, a saúde dos meus dentes se tornou uma grande prioridade para mim’’.

Eu também fiz uma careta.

‘’Ah, meu Deus! Isso é terrível’’, comentei. ‘’Quero dizer, seu tio arrancar o próprio dente.Mas se empenhar em manter a saúde bucal é um bom hábito’’. Não pude evitar um risinho, e ele sorriu também, parecendo mais relaxado.

Depois de um instante, Sasuke perguntou:

‘’Está com fome?’’

‘’Morrendo’’, falei:

Ele assentiu.

‘’Não tenho uma ampla gama de opções, mas poderia fazer uma sopa’’.

‘’Parece ótimo’’, falei. ‘’Mas deixe isso comigo. Eu prometi que lhe prepararia uma grande refeição e, em vez disso, tive uma crise de nervos. Foi uma falta de educação’’. Mordi o lábio e então ri baixinho, dando de ombros, num pedido de desculpas.

Sasuke me encarou e riu também, o peito se movendo sob a camiseta, mas sem que nenhum som saísse de sua boca. Era a primeira vez que ele deixava escapar algo semelhante a uma risada na minha frente. Fiquei encantada, adorando ver as marquinhas no rosto dele.

Preparamos o jantar na cozinha pequena e, como eu já esperava, muito limpa. Fizemos sopa com frango e macarrão e pãozinho. Quando abri a geladeira, voltei-me para Sasuke:

‘’Manteiga de amendoim, gelatina, purê de maçã? Quantos anos você tem? Seis?’’,perguntei, sorrindo para ele.

Mas Sasuke não retribuiu o sorriso. Ele continuou a me encarar por mais alguns instantes, como se estivesse considerando a minha pergunta.

‘’Em alguns aspectos, sim,Sakura. Em outros, não’’.

O sorriso desapareceu do meu rosto.

‘’Ah, me desculpe Sasuke. Foi muita falta de consideração da minha parte...’’mas ele agarrou minhas mãos e me deteve. Ficamos parados daquele jeito por alguns segundos, os dois apenas olhando para os nossos dedos entrelaçados.

Por fim, ele me soltou e disse:

‘’Mas, como brinde para os meus amigos... tenho canudinhos naquele armário ali . Podemos fazer bolhas no nosso leite com achocolatado’’. Ele inclinou a cabeça, indicando um armário acima do meu ombro.

Virei-me devagar, então tornei a olhar para ele. Inclinei a cabeça também.

‘’Está tentando ser engraçado?’’, perguntei com uma sobrancelha arqueada.

Sasuke sorriu para mim.

‘’Bom trabalho’’, falei, piscando para ele.

Sasuke me mostrou onde estavam as panelas e me ocupei aquecendo a sopa. Os equipamentos da cozinha eram antigos, mas Sasuke tinha as mais lindas bancadas de cimento.

Eu vi algo semelhante em um programa de TV, mas não eram nem de longe tão bonitas quanto as que ele fez. Enquanto a sopa esquentava, passei a mão por elas, encantada com o talento de Sasuke.

Comemos na pequena mesa da cozinha, depois arrumamos tudo, na maior parte do tempo em um silêncio agradável. Mas eu estava consciente da presença de Sasuke, do corpo alto e esguio se movendo ao meu redor. Era possível ver cada músculo delineado sob a camiseta, e reparei nos músculos dos braços se destacando enquanto ele lavava e secava a louça que tínhamos usado. Enquanto o observava, eu fingia limpar as bancadas que, na verdade, já estavam muito limpas.

Quando terminou com a louça, Sasuke se virou para mim, ainda segurando o pano de prato.Ele secou as mãos enquanto nos olhávamos, sentindo uma certa eletricidade no ar. Engoli com certa dificuldade e o vi fazer mesmo, meus olhos se detendo por uma fração de segundos na cicatriz.

Levantei os olhos para ele e disse:

‘’Preciso ir’’.

Sasuke abaixou o pano de prato, balançou a cabeça e respondeu:

‘’Não posso permitir que você volte de bicicleta para casa no escuro, e ainda não consigo caminhar toda a distância até lá’’. Ele olhou para baixo, indicando os machucados nos pés.

‘’Estarei bem pela manhã e a acompanharei até a sua casa’’.

Assenti.

– Hum... – murmurei. Então voltei à linguagem de sinais:’’ Está certo. Posso dormir no sofá’’.

Sasuke balançou a cabeça.

‘’Não, você pode dormir na minha cama’’. Quando viu que arregalei os olhos, ele empalideceu e fechou os olhos por alguns instantes. ‘’Quero dizer que eu dormirei no sofá e você pode ficar com a cama’’, explicou ele. Seu rosto ficou ruborizado e eu poderia jurar que meu coração havia dado uma cambalhota no peito.

– Não posso aceitar – sussurrei.

‘’Sim, você pode’’, insistiu, passando por mim e saindo da cozinha.

Eu o segui até o quarto que ficava em frente ao banheiro e corri os olhos pelo cômodo pouco mobiliado: apenas uma cama, uma cômoda e uma cadeira em um canto. Não havia enfeites, fotografias, nada.

‘’Lavei os lençóis há dois dias. Eles estão... limpos’’, disse ele, afastando os olhos dos meus, ruborizando outra vez.

‘’Tudo bem’’, concordei. ‘’Obrigada, Sasuke. Por tudo’’.

Ele assentiu, nossos olhares se demorando no do outro. Nossos ombros se tocaram quando ele saía do quarto e senti que ele se sobressaltou ligeiramente. Ele fechou a porta ao passar.

Olhei mais uma vez ao redor do quarto e percebi que havia, sim, uma pequena foto sobre a cômoda. Fui até lá e a peguei com cuidado. Era de uma linda moça, os cabelos pretos caindo lisos pelos ombros, rindo para a pessoa atrás da câmera. Parecia despreocupada e feliz.Parecia apaixonada. Percebi por que o sorriso dela me parecia familiar – era o sorriso de Sasuke. A moça devia ser a mãe dele, Mikoto McRae, pensei. Virei a foto e vi escrito no verso: “Minha linda Miko, amor eterno, M.” M? De Madara, o tio de Sasuke. O homem que atirou nele. Mas o tal Madara era visto como um herói na cidade... as pessoas provavelmente não sabiam que ele havia atirado no sobrinho.

– Mas como isso é possível? – perguntei baixinho à garota da foto.

Os olhos grandes e negros permaneceram sorrindo, sem me dar uma única pista.

Coloquei a foto de volta onde estava antes.

Em seguida me despi rapidamente, ficando de calcinha e sutiã e me deitei sob as cobertas na cama de Sasuke. A cama tinha o cheiro dele: de homem limpo e sabonete.

Fiquei deitada, pensando em Sasuke na sala, o corpo comprido provavelmente ultrapassando as dimensões do sofá. Inspirei o cheiro dele nos lençóis e o imaginei sem camisa, a luz da lua cintilando sobre o peito nu. Estremeci ligeiramente. Ele estava a poucos metros de mim, do outro lado da parede.

Considerar Sasuke daquela forma parecia um tanto perigoso – eu não sabia se era uma boa ideia. Pensando bem, percebi que tinha uma química rolando entre nós desde o princípio. Só foi difícil identificar isso porque Sasuke era diferente dos outros de muitas formas. E eu ainda me sentia um pouco confusa. Mas, ao que parecia, meu corpo não estava nada confuso enquanto meus hormônios ateavam fogo nas minhas veias, o calor me invadindo, a mente incapaz de se livrar de imagens de Sasuke comigo entre aqueles lençóis, os olhos profundos, cor de uma pedra de  ônix, carregados de paixão.

Eu me virei, ajeitei o travesseiro, gemi baixinho e fechei os olhos com força, tentando dormir. Depois de algum tempo, embora eu já houvesse dormido várias horas um pouco mais cedo, caí em um sono tranquilo e só acordei quando o sol que nascia, sombreado pelas árvores ao redor da casa, iluminou o quarto.

#

Sentei-me na cama e me espreguicei, correndo os olhos pelo quarto de Sasuke sob o sol da manhã. Vesti o short, a blusa e pus a cabeça para fora da porta.Sasuke não estava à vista, por isso fui direto para o banheiro. Fiz o que precisava fazer, usei o dedo para escovar os dentes e bochechei com um dos enxaguantes bucais dele. Lavei o rosto e me olhei no espelho. Estava bem. Meus olhos ainda se mostravam levemente inchados, mas, fora isso, achei que o surto da véspera não havia me deixado com uma aparência tão terrível naquela manhã. Arrumei os cabelos com as mãos e me apoiei na pia.

Lembrar do meu surto me fez pensar no flashback que eu estava certa de que viria a qualquer instante. Seria melhor se estivesse sozinha, longe das vistas de Sasuke. Ele provavelmente já me achava meio maluca. Deixar que presenciasse um dos meus episódios de estresse pós-traumático com certeza o convenceria de que eu era completamente louca.

Permaneci encostada à pia por alguns minutos, os olhos fechados, desejando que o pior do flashback acontecesse enquanto eu estava trancada no banheiro. Mas nada aconteceu.

Abri a água e imaginei a chuva caindo ao meu redor, como naquela noite. Mas nada aconteceu.

Tentei abafar a esperança que começava a desabrochar no meu peito – em um passado recente, eu tivera esperança de que os flashbacks houvessem parado, só para em seguida ser atingida por um deles.

Fechei os olhos e pensei na noite anterior, no que Sasuke me disse quando eu contei a ele sobre a minha maior vergonha, o fato de que eu não fiz nada quando meu pai foi baleado nem quando eu quase fui estuprada. Ele não me olhara com desprezo... muito pelo contrário, com compreensão. O alívio voltou a invadir meu corpo com a lembrança.

E eu tinha chorado mais do que imaginei ser capaz. Chorei um rio de lágrimas... Pelo meu pai, pela sensação de perda que eu sentia todos os dias por causa da morte do meu melhor amigo, de mim mesma... por ter perdido a mim mesma em algum lugar ao longo do caminho,por ter fugido...

Abri os olhos, mordendo a unha, a testa franzida. Era disso que eu precisava? Era esse o propósito dos flashbacks o tempo todo? Me forçar a encarar as coisas de que eu estava fugindo? Parecia que sim. Mas isso não era tudo. Talvez eu precisasse me sentir segura e aceitar minha dor antes de me livrar de vez daquela tristeza diária. Eu precisava de alguém que entendesse e que me abraçasse enquanto eu chorava.

Precisava do Sasuke.

Abri a porta do banheiro e atravessei rapidamente a casa, chamando por ele. Sasuke não estava ali dentro. Corri para o lado de fora e tornei a chamar. Depois de alguns minutos, ele surgiu, vindo da direção do lago, em meio às árvores, e parou com uma expressão interrogativa nos olhos ao me ver.

‘’Não achei que você fosse acordar tão cedo’’, disse ele.

Desci correndo o declive e parei bem na frente dele, um sorriso amplo no rosto, a animação transbordando. Fitei o belo rosto de Sasuke. Ainda não estava acostumada a vê-lo por completo. Ou, pelo menos, a maior parte dele. Sasuke  ainda precisava desesperadamente de um corte de cabelo.

‘’Não tive um flashback esta manhã’’, falei rapidamente com as mãos.

Ele franziu o cenho e continuou a me encarar, sem compreender.Balancei a cabeça e dei uma risadinha.

‘’Acho que ainda não estou conseguindo acreditar... Eu sempre tenho um. Todos os dias.Tenho um flashback todos os dias há seis meses’’, falei, minhas mãos ainda se movendo rapidamente, meus olhos se enchendo de lágrimas.

Sasuke continuou a me olhar, agora começando a compreender, um lampejo de compaixão passando por sua expressão.

‘’Tenho que voltar para casa para soltar Phoebe e dar comida a ela’’, eu disse, secando as lágrimas com a mão. Voltei a encarar  Sasuke, sentindo a alegria invadir todo o meu corpo. Ele me deu um presente incrível, e eu estava eufórica. Queria passar o dia com ele e não me importei com o fato de  perguntar.

‘’Posso voltar mais tarde?’’, soltei em um impulso, olhando ansiosa para Sasuke.

Os olhos dele percorreram meu rosto por alguns instantes, então ele assentiu com a cabeça.

Sorri.

– Ok – suspirei, satisfeita.

Dei um passo à frente e os olhos de Sasuke  se arregalaram, mas ele não se moveu. Passei os braços ao redor dele e o abracei com força. Ele não me envolveu com os braços, mas me deixou abraçá-lo.

Depois de um minuto, me afastei e sorri para ele outra vez.

‘’Eu  vou voltar’’.

‘’Ok’’, disse  ele, com um sorriso surgindo no canto dos lábios.

Então me virei, subi correndo a ladeira arborizada até a casa dele e saí pela entrada de carros. Minha bicicleta estava apoiada na parte de dentro da cerca. Passei com ela pelo portão e comecei a pedalar na direção de casa. De vez em quando, deixava a bicicleta deslizar sozinha ao longo da estrada de terra, com a cabeça levantada para o céu, me sentindo feliz, viva, livre.


Notas Finais


-Finalmente o passado de Sakura foi revelado.

Gente,esse capitulo ficou realmente enorme,foi o maior que já escrevi.Estou cansada,confesso.

Deixem aquele comentário,nem que seja para dar um oi,um comentário de vocês é como se fosse um tapinha nas costas dizendo ''bom trabalho''. :D


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