História Therese - Capítulo 2


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Edgar Allan Poe, Gotico, Morte, Premonição, Sensitivos
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Palavras 1.106
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Música do capítulo: Blood on my name - The Brothers Bright

Boa leitura!

Capítulo 2 - Condenada


Therese bateu a porta com violência atrás de si e caiu sentada no chão. O rosto enterrado entre as mãos geladas e trêmulas escondia as lágrimas que escorriam de seus olhos. Chorava baixinho em estado de choque, tentando controlar os soluços que pareciam arrancar-lhe o fôlego, não queria fazer barulho, não queria incomodar sua avó, não queria compartilhar aquele fardo pesado com ninguém.

Ainda era possível ouvir as sirenes, o som das pessoas falando todas juntas ao mesmo tempo, o lamento daqueles que ouviram os tiros... Os tiros. Therese cobriu os ouvidos, encolhendo-se, pressionando com força suas costas contra a porta. Quis gritar e pedir socorro, mas já sabia o rumo da história caso decidisse contar a alguém sobre aquilo.

Ninguém normal consegue ver as sombras da Morte caminhando sobre a Terra. Ninguém normal consegue ver a Morte vir buscar pessoalmente alguma pobre alma. Ninguém em sã consciência aceitaria uma vida baseada em assistir o show das sombras errantes, sugando inocentes para o limbo. Mas era esse o ponto, Therese não era uma pessoa normal.

• • •

A casa estava sempre silenciosa, Tess não era uma garota de muitas palavras e sua avó não era do tipo insistente. Os jantares eram sempre iguais. A mesa pequena de carvalho, composta por quatro cadeiras estofadas, estava coberta por uma toalha azul bebê bordada pela própria Sra. Ziegler. Os pratos, talheres e copos estavam dispostos com o cuidado de alguém que realmente gostava daquilo e a comida era de encher os olhos.

— Ouvi sobre o assalto – A Sra. Ziegler comentou ao servir-se do vistoso purê de batatas e discretamente ergueu os olhos sobre os óculos para sondar a neta. – Alguém morreu?

Tess suspirou e assentiu devagar, remexendo o purê e as ervilhas em seu prato, sem muita pressa para começar a comer. Estava abatida, as olheiras aparentes e os lábios sem cor. Só permaneceu sentada à mesa em respeito a sua avó, caso contrário não teria deixado seu quarto desde que chegara do colégio.

— Acho que precisa descansar, meu anjo. Por que não deixa a comida aí e se deita um pouco? Levo alguns biscoitos e leite morno para você depois.

— Não, vovó. Está tudo bem. – Abriu um sorriso fraco, levando o garfo cheio à boca. Mastigou sem sentir o gosto da comida e engoliu com dificuldade. – Acho que a aproximação da semana de provas está me deixando muito ansiosa e estressada, não tenho dormido muito bem.

— Eu entendo sua preocupação, Tess. Não é fácil manter-se sempre acima da média sob a pressão de perder a bolsa de estudos.

Therese assentiu e não disse mais nada. Terminou de comer as ervilhas, o purê e a salsicha frita que tanto gostava. Ajudou a avó a retirar a mesa e lavar as louças, como sempre fazia, depois subiu as escadas e trancou-se no banheiro.

Retirou o uniforme do St. Isabel e aguardou que a banheira enchesse de água quente. Enquanto aguardava, permitiu encarar seu reflexo no espelho por longos minutos. Analisou seus traços magros, porém delicados, e sentiu que carregava um aspecto mais maduro do que deveria. O cabelo cor-de-rosa – que ainda tinha resquícios de azul e lilás, resultado dos últimos tingimentos – estava ressecado e embaraçado, sem brilho e sem movimento. Desceu os olhos para seu corpo nu, ossudo e pálido, e para as inúmeras cicatrizes que marcavam diversos pontos de sua pele.

Seus dedos tocaram as últimas, próximas ao umbigo. Três cortes profundos que agora não passavam de queloides feias e protuberantes. Seus olhos automaticamente fitaram a camisa branca do uniforme pendurada atrás da porta do banheiro. A marca do sangue manchara o tecido.

Tess fechou a torneira e entrou na água, afundando o corpo todo, inclusive a cabeça, e permaneceu submersa até que a necessidade por oxigênio a empurrou para cima. Arfou e puxou o ar pela boca, descansando a nuca na banheira de olhos fechados, aproveitando a sensação de aconchego que a água quente trazia para seu corpo.

Assim em como todos os seus banhos, Therese pensava em suicídio. Afogar-se na banheira ou tomar todos os calmantes de sua avó ou então cortar os pulsos e sangrar até a morte.

Uma vez chegou a tentar. No entanto, a tentativa de livrar-se de si mesma falhara devido a uma visitante inesperada dentro daquele mesmo banheiro, numa noite chuvosa há alguns meses. A Morte entrara na banheira com Therese e murmurara em seu ouvido: “Esse ainda não é o seu momento, criança. Por mais que você tente nada acontecerá sem o meu consentimento, aquela que é responsável por levar as almas.”

• • •

A mesma cena de todos os dias se repetia. Neil caminhava pelo corredor, mas dessa vez havia algo diferente nos olhos do garoto, vinha na direção de Therese com a confiança de um homem que sabe o que está fazendo. Ele quase sorriu ao notar que Tess o observava pelo canto dos olhos e apressou os passos, aproximando-se da garota. Tess desencostou da parede e encarou o livro que Neil estendeu em sua direção. Era um belíssimo exemplar em capa dura de Contos de Imaginação e Mistério, de Edgar Allan Poe.

— Uau – apanhou o livro e deslizou os dedos pela magnífica arte da capa, deslumbrada – é uma belíssima edição! Você precisa de ajuda com algum conto específico ou quer trabalhar o livro todo?

— Não, esse é um presente para você.

Tess ergueu os olhos surpresa e encarou Neil. Ela quase sorriu.  

— Nossa, eu... Eu nem sei como agradecer, Neil. É lindo!

— Me agradeça hoje, as oito, aqui nos portões do St. Isabel. Vamos para um lugar bem legal para você me ajudar com O Corvo.

O garoto abriu um sorriso radiante que durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para deixar Therese desconcertada. Neil era sério, discreto e reservado, vê-lo sorrir daquela maneira fez algo no peito de Therese se aquecer. Uma sensação tão boa quanto a de rasgar o embrulho de seu presente de natal e descobrir que era exatamente aquilo que se queria ganhar.

Ela assentiu séria e despediu-se com um discreto aceno, mas não conseguiu deixar de olhar Neil caminhar pelo corredor até que ele sumisse de vista. Apertou o livro contra o peito e suspirou ainda confusa com a quantidade de coisas que estava sentindo naquele momento. E para a surpresa de Tess, pelo menos no instante em que assistiu o sorriso de Neil se formar, ela sentiu-se completa e perfeitamente normal.

 

“(...) Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal. O mistério que envolve, ainda e sempre, por todos os lados, o meu cruel destino...” 

Edgar Allan Poe


Notas Finais


O ritmo tá um pouco lento porque não dá pra desenrolar esse tipo de enredo muito rápido, é uma construção vagarosa, tipo um quebra-cabeça. Espero que estejam gostando da experiência tanto quanto eu!
E não esqueçam de comentar!

xoxo ♥


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