História Toda Sua - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Flavia Pavanelli, Jack & Jack, Magcon
Exibições 19
Palavras 4.429
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Festa, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 1 - 1


Fanfic / Fanfiction Toda Sua - Capítulo 1 - 1


“A gente devia ir até um bar comemorar.”
 A declaração enfática de meu amigo Cary Taylor, com quem eu dividia um
apartamento, não foi nada surpreendente. Ele estava sempre disposto a comemorar, mesmo
as coisas mais insignificantes. Sempre considerei isso parte de seu charme.
 “Sair pra beber um dia antes de começar num emprego novo com certeza não é uma
boa ideia.”
 “Vamos lá, Flavia.”
 Cary sentou no chão da sala do nosso novo apartamento, em meio à bagunça da
mudança, e abriu seu sorriso irresistível. Fazia dias que só cuidávamos da arrumação, e
ainda assim ele estava lindo. Com seu corpo esguio, cabelos escuros e olhos verdes, Cary
era o tipo de homem cuja aparência, quaisquer que fossem as circunstâncias, raramente era
algo menos do que incrível. Isso me deixaria com raiva, se ele não fosse a pessoa que eu
mais adorava no mundo.
 “Não estou dizendo pra gente encher a cara”, ele insistiu. “Só uma ou duas tacinhas
de vinho. A gente pega o happy hour e volta pra casa lá pelas oito.”
 “Não sei se vou ter tempo.” Apontei para minha calça de ioga e meu top de
ginástica. “Depois que eu cronometrar a caminhada até o trabalho, vou pra academia.”
 “É só andar depressa e malhar mais depressa.” A expressão de Cary, com as
sobrancelhas cuidadosamente curvadas em um arco perfeito, me fez rir. Nunca perdi a
esperança de que seu rosto incrível aparecesse um dia em outdoors e revistas de moda do
mundo inteiro. Qualquer que fosse sua expressão, ele era um arraso.
 “Que tal amanhã, depois do trabalho?”, ofereci em troca. “Se eu conseguir
sobreviver ao primeiro dia, aí sim vamos ter o que comemorar.”
 “Combinado. Hoje vou estrear a cozinha nova fazendo o jantar.”
 “Hã...” Cozinhar era um dos prazeres de Cary, mas não um de seus talentos.
“Legal.”
 Afastando uma mecha de cabelo que caíra sobre seu rosto, ele me olhou com um
sorriso.
 “A gente tem uma cozinha de fazer inveja à maioria dos restaurantes. Não tem erro
ali.”
 Não muito convencida, eu me despedi com um aceno, decidida a me esquivar da
conversa sobre a cozinha. Desci para o térreo de elFlaviador e sorri para o porteiro quando ele
abriu a porta pra mim.
 Assim que pus o pé para fora, fui envolvida pelos aromas e ruídos de Manhattan,
que me convidavam a sair e explorar. Eu não estava apenas do outro lado do país em
relação à minha antiga casa em San Diego — parecia estar em outro mundo. Duas
metrópoles importantes — uma infinitamente amena e sensualmente preguiçosa, a outra
pulsando como um organismo vivo carregado de uma energia frenética. Nos meus sonhos,
eu me imaginava em um pequeno e charmoso prédio no Brooklyn, mas, por ser uma boa
menina, acabei no Upper West Side. Se não fosse o Cary, eu estaria completamente sozinha
em um apartamento enorme que custa por mês mais do que a maioria das pessoas ganha em
um ano.
 Paul, o outro porteiro, me cumprimentou tirando o quepe.
 “Boa noite, senhorita Pavanelli. Vai precisar de um táxi esta noite?”
 “Não, obrigada, Paul.” Bati no chão com os amortecedores do meu tênis de 
ginástica. “Vou sair pra caminhar.”
 Ele sorriu. “Esfriou um pouquinho agora no fim da tarde. O tempo está gostoso.”
 “Me disseram pra aproveitar o mês de junho, antes que comece o calor de verdade.”
 “Um ótimo conselho, senhorita Pavanelli.”
 Ao me afastar da fachada envidraçada e moderna que de alguma forma não
destoava da idade do edifício e da vizinhança, desfrutei da relativa tranquilidade da rua
arborizada antes de chegar à agitação e ao trânsito intenso da Broadway. Eu ainda tinha
esperanças de me adaptar rapidamente, mas por enquanto me sentia uma falsa novaiorquina.
Eu tinha um apartamento e um emprego, mas ainda não me sentia segura o
bastante para me aventurar no metrô, e não tinha me acostumado a acenar ostensivamente
para os táxis. Enquanto caminhava, eu tentava não parecer impressionada e atônita, mas era
difícil. Havia tanta coisa para ver e experimentar.
 O estímulo sensorial era atordoante — o cheiro da fumaça dos escapamentos
misturado com o da comida dos carrinhos dos ambulantes; os gritos dos camelôs se
infiltrando na música dos artistas de rua; a impressionante variedade de rostos, estilos e
sotaques; as maravilhas arquitetônicas... E os carros. Minha nossa. O fluxo frenético de
carros, sempre grudados uns nos outros, era algo que eu nunca tinha visto na vida.
 Havia sempre uma ambulância, uma viatura ou um caminhão de bombeiros
tentando romper a torrente de táxis amarelos com o uivo eletrônico de sirenes
ensurdecedoras. Fiquei impressionada com os ruidosos caminhões de lixo que se
arremessavam em ruas estreitas de mão única e com os entregadores que encaravam a
massa compacta de veículos, com prazos rigorosos a cumprir.
 Os verdadeiros nova-iorquinos nem reparavam em tudo isso — a cidade para eles
era familiar e confortável como um velho par de sapatos. Eles não viam as ondas de vapor
escapando dos bueiros e saídas de ar com um encanto carregado de romantismo, nem
pareciam notar quando o chão tremia sob seus pés com a passagem do metrô — ao
contrário de mim, que sorria como uma idiota e encolhia os dedos dos pés. Nova York era
um caso de amor totalmente novo para mim. Eu estava embasbacada e não conseguia
esconder.
 Tive que me esforçar bastante para manter uma atitude indiferente enquanto me
dirigia ao local em que ia trabalhar. Pelo menos em termos profissionais, as coisas estavam
acontecendo da maneira como eu queria. Meu desejo era ganhar a vida com base em meus
próprios méritos, o que significava começar por baixo. A partir da manhã seguinte, eu seria
a assistente de Mark Garrity na Waters Field & Leaman, uma das maiores agências de
propaganda dos Estados Unidos. Meu padrasto, o magnata do setor financeiro Richard
Stanton, não gostou nada da ideia — na opinião dele, se eu fosse menos orgulhosa, poderia
trabalhar para algum amigo dele e colher os benefícios inerentes a esse tipo de
proximidade.
 “Você é teimosa como seu pai”, ele falou. “Ele vai demorar a vida inteira para
conseguir pagar seu financiamento estudantil com o que ganha como policial.”
 Esse foi outro motivo de disputa, e meu pai se recusou terminantemente a ceder.
“De jeito nenhum outro homem vai pagar pela educação da minha filha”, respondeu Victor
Reyes quando Stanton fez sua proposta. Ele ganhou meu respeito com essa atitude. E acho
que o de Stanton também, embora ele nunca vá admitir isso. Eu entendia o lado dos dois,
porque queria pagar eu mesma pelos meus estudos... mas não teve jeito. Para meu pai, era
uma questão de honra. Minha mãe não quis se casar com ele, mas isso não diminuiu sua
determinação em agir como pai em toda e qualquer situação. 
 Como remoer frustrações do passado nunca lFlavia a nada, concentrei-me na tarefa de
chegar ao trabalho o mais rápido possível. Decidi cronometrar o trajeto em um horário de
pico de uma segunda-feira, e fiquei satisfeita por conseguir chegar ao Johnsonfire Building,
sede da Waters Field & Leaman, em menos de meia hora.
 Inclinei a cabeça e segui o contorno do edifício até encontrar o azul do céu. O
Johnsonfire era absolutamente fenomenal — uma torre imponente com um brilho safírico que
parecia chegar até as nuvens. Nas entrevistas que fiz ali, vi que o outro lado das portas
giratórias ornadas com cobre era tão suntuoso quanto seu exterior, com piso e paredes
revestidos de mármore dourado e mesas e catracas de alumínio polido.
 Tirei meu novíssimo crachá do bolso da calça e mostrei para os dois seguranças de
terno escuro sentados à mesa. Eles me barraram assim mesmo, sem dúvida por eu estar
muito malvestida para aquele ambiente, mas depois me deixaram entrar. Após subir os
vinte andares de elFlaviador, pude fazer uma estimativa do tempo de viagem de casa até o
trabalho. Nada mau.
 Eu estava saindo do elFlaviador quando vi uma morena bonita e muito bem arrumada
passar pela catraca sem lFlaviantar devidamente a bolsa, que ficou enroscada e se abriu,
provocando um dilúvio de dinheiro sobre o chão. As moedas caíram e saíram rolando
alegremente — e as pessoas que passavam se esquivavam do caos e seguiam em frente
como se nada estivesse acontecendo. Em um gesto de compaixão, eu me curvei para ajudá-
la a recolher o dinheiro, junto com um segurança que havia tido o mesmo impulso.
 “Obrigada”, ela disse, abrindo um breve sorriso no rosto quase coberto pelos
cabelos.
 Retribuí o sorriso. “Imagina. Essas coisas acontecem.”
 Eu tinha acabado de me agachar para alcançar uma moedinha que fora parar perto
da entrada quando dei de cara com um luxuoso par de sapatos oxford, encimado por uma
elegante calça preta. Esperei um pouco para que aquele homem saísse do caminho, mas,
como ele não se mexia, lFlaviantei a cabeça para ampliar meu campo de visão. O terno feito
sob medida já era suficiente para deixar meus sinais de alerta ligados, mas era o corpo alto
e esguio por baixo dele que o tornava sensacional. Ainda assim, apesar de toda aquela
demonstração impressionante de masculinidade, foi só quando vi seu rosto que percebi o
que havia de fato diante de mim.
Uau. Simplesmente... uau.
 Em um gesto cheio de elegância, ele se agachou bem de frente para mim. Com toda
aquela beleza masculina ao alcance dos meus olhos, tudo o que eu podia fazer era encarar.
Admirada.
 Foi então que o espaço que havia entre nós desapareceu.
 Ao olhar para mim, ele mudou... como se um escudo tivesse sido removido de seus
olhos, revelando uma força vital esmagadora que me fez perder o fôlego. O magnetismo
poderoso que ele exalava se intensificou, transformando-se em uma impressão quase
tangível de uma energia vigorosa e inesgotável.
 Reagindo puramente por instinto, eu me inclinei para trás. E caí de bunda no chão.
 Meus cotovelos latejavam violentamente pelo baque contra o piso de mármore, mas
a dor passou quase despercebida. Eu estava mais preocupada em olhar, hipnotizada por
aquele homem na minha frente. Seus cabelos de um preto bem vivo emolduravam um rosto
de tirar o fôlego. Sua estrutura óssea faria um escultor chorar de alegria, e sua boca de
contornos firmes, seu nariz retilíneo e seus olhos azuis intensos lhe conferiam uma beleza
selvagem. A não ser pelos olhos ligeiramente estreitados, sua fisionomia denotava uma 
impassibilidade total.
 Tanto sua camisa como seu terno eram pretos, mas a gravata combinava
perfeitamente com o brilho da íris. Seus olhos eram penetrantes e inquisidores, e estavam
pregados em mim. Meu coração começou a bater mais forte; meus lábios se abriram
parcialmente com a aceleração da respiração. Seu cheiro era tentador. Não era colônia.
Loção corporal, talvez. Ou xampu. O que quer que fosse, era inebriante, assim como ele.
 Ele estendeu a mão para mim, mostrando suas abotoaduras de ônix e um relógio que
aparentava ser caro.
 Inspirando tremulamente, pus a mão sobre a dele. Minha pulsação disparou quando
ele a apertou. Seu toque era como uma onda de eletricidade, que subiu pelo meu braço e
arrepiou os pelos da minha nuca. Por um momento ele permaneceu imóvel, com uma ruga
preenchendo o espaço entre suas sobrancelhas absurdamente bem desenhadas.
 “Está tudo bem?”
 Sua voz era suave e refinada, com um toque de rouquidão que fez meu estômago
gelar. Era uma evocação ao sexo. Ao que o sexo tinha de melhor. Por um momento cheguei
a pensar que poderia ter um orgasmo só de ouvi-lo falar.
 Meus lábios estavam ressecados, então passei a língua por eles antes de responder:
“Sim”.
 Ele se lFlaviantou com uma notável economia de gestos, puxando-me junto para cima.
Continuamos nos encarando, porque eu não conseguia olhar para outra coisa. Ele era mais
jovem do que imaginei a princípio. Meu palpite seria menos de trinta, mas seus olhos
pareciam muito mais experientes. Implacavelmente inteligentes e afiados.
 Era como se eu estivesse sendo atraída para ele, como se houvesse uma corda em
torno da minha cintura me arrastando de forma lenta mas inexorável em sua direção.
 Piscando para despertar dessa espécie de delírio, eu o soltei. Ele não era apenas
lindo, era... fascinante. O tipo de cara que faz uma mulher querer abrir sua camisa com um
único puxão e ver os botões irem abaixo junto com as inibições. Olhei para seu terno
civilizado, requintado e absurdamente caro e só consegui pensar em uma trepada violenta,
de rasgar os lençóis.
 Ele se abaixou para apanhar o crachá que eu nem percebi que havia derrubado,
libertando-me de seu olhar irresistível. Meu cérebro lutava para voltar a funcionar
normalmente.
 Fiquei irritada por me sentir tão desconcertada enquanto ele parecia tranquilo e
controlado. E por quê? Porque eu estava deslumbrada, ora essa.
 Ele me olhou lá de baixo, e essa posição — ele praticamente ajoelhado na minha
frente — fez com que eu quase perdesse o equilíbrio novamente. Enquanto se lFlaviantava,
seus olhos permaneciam fixos nos meus.
 “Tem certeza de que está tudo bem? É melhor você sentar um pouco.”
 Senti meu rosto ficar vermelho. Que maravilha parecer insegura e estabanada diante
do homem mais confiante e elegante que já conheci.
 “Eu só perdi o equilíbrio. Está tudo bem.”
 Ao desviar os olhos, vi a mulher que havia derrubado no chão o dinheiro. Ela
agradeceu ao segurança que a ajudou e então se virou para falar comigo, desculpando-se
enfaticamente. Virei para ela e estendi a mão com o punhado de moedas que havia pego,
mas seu olhar tinha se voltado para o deus de terno, e ela imediatamente se esqueceu de
mim. Depois de um tempo, simplesmente fui até ela e despejei as moedas dentro da bolsa.
Então arrisquei outra olhada e o encontrei voltado na minha direção, ignorando a moça e 
seus agradecimentos. Para ele. Não para mim, a pessoa que de fato havia ajudado.
 LFlaviantei minha voz acima da dela. “Você poderia devolver meu crachá, por favor?”
 Ele estendeu a mão para me devolver. Apesar de eu ter me esforçado para pegá-lo
de volta sem nenhum contato físico, seus dedos resvalaram nos meus, fazendo com que
aquela sensação de eletricidade voltasse a circular pelo meu corpo.
 “Obrigada”, murmurei antes de passar por ele e tomar o caminho da rua pela porta
giratória. Parei um pouco na calçada, inspirando profundamente o ar de Nova York, que
recendia a um milhão de coisas, algumas boas, outras tóxicas.
 Havia um Bentley estacionado na frente do prédio, e eu observei meu reflexo nas
janelas escuras e impecavelmente limpas daquele carrão. Eu estava vermelha, e meus olhos
verdes pareciam especialmente radiantes. Aquele rosto era familiar para mim — era o que
eu via no espelho do banheiro antes de ir para a cama com um homem. Era o meu olhar de
estou-pronta-pra-foder, e não deveria estar estampado na minha cara naquele momento, de
jeito nenhum.
Meu Deus. Controle-se.
 Cinco minutos com o sr. Moreno Perigoso e eu já estava me sentindo dominada por
um impulso impaciente e inquietante. Era capaz de sentir seu toque, e um desejo
inexplicável de voltar para o lugar onde ele estava. Eu poderia argumentar que ainda não
havia terminado o que tinha ido fazer no Johnsonfire, mas sabia que ia me arrepender depois.
Quantas vezes eu ainda precisaria fazer papel de idiota em um único dia?
 “Já chega”, disse baixinho para mim mesma. “Hora de ir.”
 As buzinas ressoavam em meio à disputa milimétrica dos táxis por espaço,
interrompidas pelo guinchar dos freios diante de pedestres corajosos o bastante para pisar
no cruzamento segundos antes de o sinal fechar. Então começava a gritaria, uma explosão
de insultos e gestos que na verdade não era motivada por nenhum ódio real. Em poucos
segundos, ambas as partes se esqueceriam de tais diálogos, que eram apenas mais uma
forma de expressão do modo de vida da cidade.
 Quando voltei a me misturar ao intenso tráfego de pedestres para ir à academia,
minha boca se sentiu tentada a abrir um sorriso. Ah, Nova York, pensei, sentindo-me à
vontade novamente, você é demais.

 Minha ideia era fazer o aquecimento na esteira e matar o restante do tempo me
exercitando em alguns aparelhos, mas, quando vi que a aula de kickboxing para iniciantes
estava para começar, decidi me juntar aos alunos que aguardavam. Quando a aula terminou,
senti que havia retomado o controle sobre mim. Meus músculos tremiam, e eu me sentia
cansada na medida certa, com a certeza de que dormiria como uma pedra quando me
deitasse.
 “Você foi muito bem.”
 Limpei o suor do rosto com uma toalha e olhei para o jovem que havia falado
comigo. Magro, embora com uma musculatura bem definida, ele tinha olhos castanhos bem
vivos e uma pele morena impecável, café com leite. Seus cílios eram grossos e longos, de
fazer inveja, mas os cabelos eram raspados bem rentes.
 “Obrigada.” Minha boca se contorceu num lamento. “Está na cara que é a minha
primeira vez, né?”
 Ele sorriu e estendeu a mão. “Parker Smith.”
 “Flavia Pavanelli.” 
 “Você lFlavia jeito, Flavia. Com um pouco mais de treino ninguém vai ter coragem de
encarar você. Em uma cidade como Nova York, saber se defender é fundamental.” Ele
apontou para o quadro de cortiça pendurado na parede. Estava coberto de folhetos e cartões
de visita. Apanhou uma folha de um bloco de papel fluorescente e ofereceu para mim. “Já
ouviu falar em krav maga?”
 “Vi em um filme da Jennifer Lopez.”
 “Sou professor e adoraria ensinar você. Aí tem meu site e o telefone da minha
academia.”
 Gostei da abordagem dele. Foi bem direta, assim como seu olhar, e o sorriso era
autêntico. Imaginei que estivesse querendo me paquerar, mas, se era essa a intenção, ele
disfarçou bem o suficiente para me deixar em dúvida.
 Parker cruzou os braços, exibindo seus bíceps bem delineados. Ele vestia uma
camiseta preta sem mangas e uma bermuda comprida. Seu tênis tinha a aparência surrada
dos calçados realmente confortáveis, e era possível ver as tatuagens tribais que se
estendiam até pouco abaixo de seu pescoço. “No site tem todos os horários. Você pode
assistir a uma aula, só pra ver se gosta.”
 “Vou pensar a respeito, pode deixar.”
 “Muito bem.” Ele estendeu a mão e me cumprimentou com firmeza e confiança.
“Espero ver você de novo.”

 Um cheiro maravilhoso se espalhava pelo apartamento quando cheguei, e a voz de
Adele saía cheia de emoção das caixas de som, cantando “Chasing Pavements”. Olhei para
o outro lado da sala integrada com a cozinha e vi Cary balançando ao som da música
enquanto mexia alguma coisa perto dele. No balcão, havia uma garrafa de vinho tinto e
duas taças, uma delas pela metade.
 “Ei”, eu chamei ao me aproximar. “O que você está fazendo aí? Dá tempo de tomar
banho primeiro?”
 Ele serviu o vinho na outra taça e a arrastou pelo balcão até mim com movimentos
seguros e elegantes. Olhando para Cary, ninguém seria capaz de dizer que ele passou a
infância entre temporadas com a mãe viciada em drogas e lares adotivos, e a adolescência
em reformatórios juvenis e centros de reabilitação estatais. “Macarrão à bolonhesa. E deixe
o banho para mais tarde, já está pronto. Se divertiu bastante?”
 “Lá na academia, sim.” Puxei um dos banquinhos de madeira do balcão e me sentei.
Contei a ele sobre a aula de kickboxing e sobre Parker Smith. “Quer ir comigo?”
 “Krav maga?”, Cary balançou a cabeça. “Isso não é moleza, não. Eu ficaria cheio de
hematomas e acabaria perdendo alguns trabalhos. Mas posso ir com você até lá, pro caso do
sujeito ser um maníaco.”
 Fiquei calada enquanto ele despejava o macarrão no escorredor. “Um maníaco?”
 Meu pai havia me ensinado muito sobre os homens — por isso eu sabia que o deus
de terno era encrenca certa. As pessoas costumam sorrir quando ajudam alguém, como uma
forma de criar uma ligação momentânea para quebrar o gelo.
 Por outro lado, eu também não tinha sorrido para ele.
 “Gata”, disse Cary, tirando as tigelas da prateleira, “você é uma mulher sexy e
deslumbrante. Duvido da masculinidade de qualquer homem que resista à tentação de
chamar você pra sair assim que tem a chance.”
 Agradeci franzindo o nariz para ele. 
 Ele me serviu uma tigela contendo pequenos tubos de macarrão cobertos com um
molho ralo de tomate com pedaços de carne moída empelotada e ervilha.
 “Você não para de pensar em alguma coisa. O que é?”
 Hum... Peguei o cabo do garfo enfiado na tigela e decidi não fazer nenhum
comentário sobre a comida. “Acho que hoje vi o homem mais lindo do planeta. Talvez o
mais lindo da história do planeta.”
 “Ah, é? Pensei que fosse eu. Conte mais.”
 Cary preferiu ficar do outro lado do balcão e comer em pé.
 Esperei que ele desse algumas garfadas na gororoba antes de criar coragem e
experimentar. “Não tem muito mais pra contar, na verdade. Caí de bunda no saguão do
Johnsonfire e ele me deu uma mão.”
 “Alto ou baixo? Loiro ou moreno? Forte ou magro? E a cor dos olhos?”
 Empurrei minha segunda garfada goela abaixo com um gole de vinho. “Alto.
Moreno. Magro e forte. Olhos azuis. Podre de rico, a julgar pelas roupas e pelos acessórios.
E incrivelmente sexy. Você sabe como é: alguns caras bonitos não mexem com os
hormônios da gente, enquanto outros não tão bonitos têm um sex appeal absurdo. Esse cara
tinha as duas coisas.”
 Senti um frio na barriga como quando o Moreno Perigoso tocou em mim. Lembrei
do seu rosto com uma clareza cristalina. Deveria ser proibido um homem ser tão
estonteante. Eu ainda estava me recuperando dos danos que ele havia provocado nos meus
neurônios.
 Cary apoiou o cotovelo no balcão e se inclinou para mim, com sua franja comprida
cobrindo um de seus olhos verdes e faiscantes. “E o que aconteceu depois que ele ajudou
você a lFlaviantar?”
 Encolhi os ombros. “Nada.”
 “Nada?”
 “Fui embora.”
 “Quê? Não rolou nem uma paquera?”
 Comi mais uma garfada. Na verdade, a comida não estava ruim. Ou então era eu
que estava morrendo de fome. “Ele não era do tipo que dá pra paquerar, Cary.”
 “Não existe essa história de gente que não dá pra paquerar. Até as pessoas casadas e
felizes gostam de uma paquera inofensiva de vez em quando.”
 “Esse cara não tinha nada de inofensivo”, eu disse num tom seco.
 “Ah, sei.” Cary balançou a cabeça, mostrando que tinha entendido. “Esses são
divertidos, mas é melhor não se envolver com eles.”
 Cary obviamente sabia do que estava falando; homens e mulheres de todas as idades
se atiravam a seus pés. Ainda assim, de alguma forma ele conseguia fazer sempre a escolha
errada. Já tinha sido traído, perseguido obsessivamente, aturado ameaças de suicídio... O
que quer que pudesse acontecer, já tinha acontecido com ele.
 “Não vejo como eu poderia me divertir com esse cara”, continuei. “Ele era intenso
demais. Mesmo assim, aposto que ele deve ser incrível na cama, com toda aquela
intensidade.”
 “É assim que se fala. Esqueça o cara real. Use o rosto dele nas suas fantasias e faça
com que nelas ele seja perfeito.”
 Preferia mantê-lo longe dos meus pensamentos de toda e qualquer maneira, então
mudei de assunto. “Você tem algum trabalho amanhã?”
 “Claro.” Cary me passou os detalhes de sua programação para o dia seguinte, 
mencionando anúncios para uma marca de jeans, produtos de bronzeamento, cuecas e
colônias.
 Esqueci de todo o resto e me concentrei nele e no seu sucesso cada vez maior. A
demanda por Cary Taylor crescia diariamente, e ele estava ganhando entre fotógrafos e
clientes uma reputação de profissionalismo e dedicação. Eu estava felicíssima por ele, e
muito orgulhosa. Cary havia conquistado muito, depois de ter sofrido um bocado.
 Apenas depois do jantar percebi duas enormes caixas de presente encostadas no
sofá.
 “O que é isso aí?”
 “Isso aí”, Cary respondeu, acompanhando-me até a sala, “é o máximo.”
 Percebi imediatamente que aquilo era coisa de Stanton e minha mãe. O dinheiro era
algo de que minha mãe precisava para ser feliz, e para minha sorte Stanton, o marido
número três, era capaz de suprir essa necessidade e muitas outras também. Diversas vezes
desejei que isso a fizesse sossegar, mas minha mãe nunca aceitou bem o fato de eu ter outro
tipo de relação com o dinheiro.
 “O que foi agora?”
 Cary jogou seu braço por cima dos meus ombros — algo facílimo para ele, que era
pelo menos dez centímetros mais alto que eu. “Não seja ingrata. O cara ama sua mãe.
Adora mimá-la, e ela adora mimar você. Não importa o que você pense, ele não faz essas
coisas por você. Stanton faz tudo isso por ela.”
 Concordei soltando um suspiro. “O que temos aí?”
 “Roupas chiques para o jantar beneficente de sábado. Um vestido arrasador para
você e um smoking Brioni pra mim, porque comprar presentes pra mim é o que ele faz por
você. O fato de eu estar aqui pra ouvir você reclamar da vida melhora um pouco esse seu
mau humor.”
 “Isso é verdade. Ainda bem que ele sabe disso.”
 “Claro que sabe. Stanton não seria um zilionário se não soubesse de tudo.” Cary me
pegou pela mão e me arrastou até lá. “Então. Dá só uma olhada.”

 Na manhã seguinte, às dez para as nove, atravessei a porta giratória do saguão do
Johnsonfire. Para causar uma boa impressão no meu primeiro dia, tinha ido vestida com um
tubinho básico e sapatos pretos de salto alto para combinar, que substituíram meus tênis de
caminhada durante a subida do elFlaviador. Meus cabelos loiros estavam presos em um coque
muito bem-feito, que parecia um número oito estilizado, uma cortesia de Cary. Eu não tinha
o menor jeito para penteados, mas ele era capaz de criar obras-primas glamorosas. Estava
usando também o colar de pérolas miúdas que meu pai havia me dado como presente de
formatura e um Rolex, oferecimento de Stanton e minha mãe.
 Até cheguei a pensar que estava me preocupando demais com a aparência, mas
assim que pisei no saguão lembrei que tinha me esborrachado naquele chão usando roupa
de ginástica e fiquei agradecida por não me parecer em nada com aquela garota estabanada.
Os dois seguranças não pareceram ter me reconhecido quando mostrei o crachá a caminho
das catracas.
 Vinte andares acima, lá estava eu no hall de entrada da Waters Field & Leaman.
Diante de mim havia uma parede de vidro à prova de balas, emoldurando a porta dupla que
levava à recepção. A recepcionista, sentada a uma mesa em formato de lua crescente, viu
meu crachá através do vidro. Ela acionou o botão para destravar a porta, e eu o guardei. 
 


Notas Finais


Segura que é tiro


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