História Toda Sua - Capítulo 19


Escrita por: ~

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Categorias Série Crossfire (Livros), The 100
Personagens Anya, Clarke Griffin, Costia, Dra. Abigail "Abby" Griffin, Lexa, Marcus Kane, Octavia Blake, Raven Reyes, Roan
Tags Alycia Debnam-carey, Clexa, Eliza Taylor, Elycia, Griffin, Woods
Visualizações 271
Palavras 4.138
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), FemmeSlash, Ficção, Orange, Romance e Novela, Yuri
Avisos: Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Boa noite, minha gente querida.
Já vimos a loirinha abrir o jogo, depois vimos a morena não conseguir fazer o mesmo e afugentar a loirinha.
Prontas pra descobrir o que aconteceu na sequência?
Bora ler então!

Capítulo 19 - Novas inseguranças


 

A manhã seguinte foi permeada por acontecimentos surreais. Cheguei ao trabalho e passei o tempo todo com frio. Não conseguia me aquecer de jeito nenhum, apesar de estar vestindo um cardigã por cima da blusa e um cachecol que não combinava com nenhuma das duas peças. Estava demorando mais do que deveria para entender as coisas, e não conseguia espantar um sentimento irracional de medo. 

Lexa não tentou entrar em contato de forma nenhuma.  Não recebi nada no celular depois da minha mensagem na noite anterior. No e-mail também não. Nem um bilhete. 

Esse silêncio era desesperador. Principalmente depois do novo alerta diário do Google, com fotos e vídeos de nós duas no Bryant Park feitos por celular. A visão de nós como um casal - a paixão e o desejo, a intensidade estampada em nosso rosto, a felicidade da reconciliação - era ao mesmo tempo doce e amarga. 

Uma dor cresceu no meu peito. Lexa. Se nossa relação não desse certo, eu conseguiria parar de pensar nela?

Tive que me esforçar para me recompor. Octavia e eu teríamos uma reunião com o pessoal da rede de restaurantes naquele dia, e eu nem ao menos sabia se Lexa estaria presente ou não. Talvez por isso ela não tivesse entrado em contato. Ou talvez estivesse realmente muito ocupada. É claro que devia estar, considerando seu cronograma de negócios. Até onde eu sabia, ela pretendia ir à academia comigo depois do trabalho. Soltei um suspiro e disse a mim mesma que de alguma forma as coisas se resolveriam. Por bem ou por mal.

Faltavam quinze para o meio-dia quando o telefone da minha mesa tocou. Pelo mostrador, vi que a chamada vinha da recepção. Não consegui esconder minha decepção ao atender.

- Oi, Clarke - Harumi me cumprimentou toda simpática. - Uma moça chamada Anya Lachman está aqui pra falar com você.

- Comigo? - Olhei para o monitor do computador, confusa e irritada. As fotos do Bryant Park teriam sido motivo suficiente para fazer Anya sair do seu covil?

Qualquer que fosse a razão, eu não tinha o menor interesse em falar com ela. - Você pode pedir pra ela esperar? Preciso resolver uma coisinha primeiro.

- Claro. Vou pedir pra ela se sentar um pouquinho.

Desliguei o telefone, peguei o celular e encontrei o número do escritório de Lexa na agenda. Para meu alívio, foi Indra quem atendeu.

- Oi, Indra. É Clarke Griffin.

- Oi, Clarke. Quer falar com a senhorita Woods? Ela está numa reunião, mas posso passar a ligação.

- Não, não precisa incomodar.

- Tenho ordens para isso. Ela não vai se incomodar.

Fiquei muito contente ao ouvir isso. - Acho meio chato jogar esse tipo de coisa no seu colo, mas tenho um pedido a fazer.

- O que for preciso. Tenho ordens pra isso também.

A solicitude de sua voz me deixou ainda mais tranquila.

- Anya Lachman está aqui no décimo oitavo. Pra ser sincera, a única coisa sobre a qual poderíamos conversar seria Alexandra, e essa ideia não me agrada nem um pouco. Se ela tem alguma coisa para falar, deveria se dirigir diretamente à sua chefe. Você pode mandar alguém pra levá-la aí pra cima?

- Claro. Vou cuidar disso agora mesmo.

- Obrigada, Indra. Agradeço.

- É um prazer poder ajudar, Clarke.

Desliguei o telefone e me recostei na cadeira, sentindo-me um pouco melhor e orgulhosa de mim mesma por não ter me deixado levar pelo ciúme. Apesar de detestar a ideia de que ela ainda tivesse contato com Lexa, eu não havia mentido quando disse que confiava nela. Acreditava de verdade que tinha sentimentos profundos por mim. Só não sabia se isso seria suficiente para que ela contrariasse seu instinto natural.

Harumi me ligou de novo.  - Ai, meu Deus - ela disse, aos risos. - Você precisava ver a cara dela quando apareceram aqui pra buscá-la.

- Ótimo. Abri um sorriso. - Bem-intencionada ela não devia estar. Ela já foi, então?

- Já.

- Obrigada.

Desliguei o telefone e me virei para Octavia, que tinha uma expressão de interrogação.

- Problemas no paraíso? – Ela perguntou arqueando as sobrancelhas.

- Intrusos no paraíso... – balbuciei. Rapidamente tentei mudar de assunto. – Acho que já está tudo certo aqui. Quer sair para almoçar?

Ela pensou um pouco a respeito. – Acho que só vou conseguir comer depois da apresentação da campanha. A Woods vai estar presente? – Ela fez a pergunta naturalmente, provavelmente considerando que eu sabia de todos os passos de Lexa.

- Não sei. Mas de qualquer forma não dá pra ficar sem comer. Que tal uma vitamina, então? Só pra tapear o estômago?

- Seria ótimo. Seus olhos se acenderam e ela abriu um sorriso. - De algum sabor que eu possa colocar umas gotinhas de vodca, para controlar a ansiedade.

Eu sorri com seu bom humor. – Eu vou buscar. A vitamina, não a vodca - me apressei a responder. - Tem alguma coisa de que você não goste? Alguma alergia?

- Nada.

- Certo. Volto daqui a pouco.

Eu sabia exatamente aonde ir. A delicatessen que tinha em mente ficava a uns dois quarteirões dali, e tinha vitaminas, saladas e uma enorme variedade de paninis feitos na hora.

Desci até o térreo e procurei esquecer o silêncio de Lexa. Eu esperava algum tipo de manifestação depois do incidente com Anya. O silêncio me deixou novamente preocupada. Saí para a rua e só prestei atenção no homem que desceu do banco de trás de um carro com chofer quando ele me chamou pelo nome. 

Eu me virei e me vi diante de Roan McGowan. - Ah... oi - cumprimentei. - Tudo bem?

- Melhor agora. Você está linda.

- Obrigada. E eu digo o mesmo.

Obviamente ele era bem diferente de Lexa, mas eu não podia negar que era um homem muito bonito. Seus traços fortes contrastavam com seus cabelos compridos, e seu sorriso charmoso o deixava bastante atraente. Estava vestido com um jeans folgado e um suéter creme com gola V que o deixavam muito sexy.

- Você veio ver sua irmã? - perguntei.

- Sim, ela e você.

- Eu?

- Está indo almoçar? Posso ir com você e explicar tudo.

Até me lembrei do aviso de Lexa para que eu ficasse longe de Roan, mas a essa altura achava que ela já tinha mais confiança em mim. Principalmente em relação a seu irmão.

- Estou indo a uma delicatessen aqui na rua - eu disse. - Se você estiver a fim...

- Com certeza. Começamos a caminhada.

- Por que você queria me ver? - perguntei, curiosa demais para esperar. 

Ele tirou do bolso um convite em estilo formal num envelope de veludo. - Vim convidar você para uma festa ao ar livre na propriedade dos meus pais no domingo. Uma mistura de negócios e diversão. Vários artistas contratados pela McGowan Records estarão lá. Acho que seria uma ótima ocasião para sua colega de apartamento fazer bons contatos.

Fiquei toda animada. - Seria maravilhoso!

Roan sorriu e me entregou o convite. - Vocês duas vão se divertir bastante. As festas da minha mãe são imbatíveis.

Olhei de relance para o envelope na minha mão. Por que Lexa não tinha falado nada sobre o evento?

- Se você está se perguntando por que Alexandra não disse nada a respeito - ele começou, como se estivesse lendo minha mente - é porque ela não vai. Ela nunca aparece. Apesar de ser sócia majoritária da empresa, Lexa acha que a indústria fonográfica e os músicos são imprevisíveis demais. A esta altura, você já deve saber como ela é.

Morena e intensa. Absurdamente atraente e sensual. Sim, eu sabia como ela era. Lexa sempre fazia questão de saber no que estava se metendo. 

Apontei para a delicatessen quando chegamos, nós entramos e pegamos a fila.

- O cheiro aqui está ótimo - disse Roan, olhando para o celular enquanto digitava uma mensagem. 

- E o sabor é tão bom quanto o cheiro, pode acreditar.

Ele abriu um agradável sorriso jovial, que com certeza deixava a maior parte das mulheres de joelhos. - Meus pais estão ansiosos para conhecer você, Clarke.

- Ah, é?

- Foi uma surpresa ver fotos suas com Lexa durante toda a semana. Uma surpresa boa - ele fez questão de ressaltar diante da minha expressão. - É a primeira vez que a vemos realmente interessada em alguém com quem ela sai.

Suspirei ao lembrar que, naquele momento, o interesse já não parecia ser tão grande. Teria sido um grande erro deixá-la falando sozinha na noite anterior?

Quando chegamos ao balcão, pedi um panini grelhado de queijo com vegetais e duas vitaminas de romã, e expliquei que a segunda era para viagem e eu só pegaria depois de comer. Roan pediu a mesma coisa, e tivemos a sorte de encontrar uma mesa naquele lugar lotado. 

Conversamos sobre trabalho, rimos ao falar a respeito de um vídeo engraçado que era a febre da internet no momento e de algumas piadas de bastidores sobre os artistas com que Roan havia trabalhado. O tempo passou rápido, e quando nos separamos na entrada do Woods Building eu me despedi dele com um sentimento de afeto genuíno.

Subi para o 18º andar e encontrei Octavia ainda na mesa. Apesar de parecer muito concentrada, ela sorriu ao me ver.

- Desculpe a demora – falei entregando a ela a vitamina de Romã.

- Tudo bem, eu só estava repassando mentalmente algumas coisas. Mudaram o local da reunião para o escritório da Woods.

- Octavia, sobre isso... – eu comecei, um pouco hesitante. – Você acha que seria ruim demais ir sozinha para essa reunião?

Ela me olhou um pouco desconfiada mas eu continuei, escolhendo as palavras. – Alexandra vai estar na reunião, e... não sei, algo me diz que seria melhor eu não dar as caras nessa apresentação. Quando terminei de falar eu estava apreensiva.

Apesar de ela tentar esconder, pude perceber que ela sentia que havia algo errado. Vi até um certo alívio estampado em seu rosto, mas não fiquei ofendida com isso. A situação era estressante por si só, e minha relação volátil com Lexa era a última coisa com que Octavia deveria se preocupar quando trabalhávamos em uma conta tão importante.

- Não tem problema, Clarke, eu dou conta. Mas por favor, não deixe que isso interfira no trabalho, ok?

- Eu prometo, é só dessa vez. Sorri e apontei para a bebida que havia trazido. - Beba sua vitamina. Está uma delícia, e vai deixar você saciada por um tempo. Se precisar de mim, estarei bem aqui na minha mesa.

Antes de guardar a bolsa na gaveta, mandei uma mensagem para Raven perguntando se tinha planos para o domingo e se gostaria de ir a uma festa da McGowan Records. Depois voltei ao trabalho.

Quando Octavia subiu para a reunião com Lexa, meu coração acelerou e a ansiedade apertou meu estômago. Não conseguia acreditar que estava toda empolgada só porque sabia o que Lexa estava fazendo naquele exato momento, e que ela necessariamente pensaria em mim quando visse Octavia. Esperava receber notícias suas depois disso. Fiquei de bom humor só de pensar.

Durante a hora seguinte, eu mal podia esperar para saber como as coisas tinham ido. Quando Octavia apareceu com um sorriso no rosto e um andar confiante, eu me levantei e a aplaudi. 

Ela fez uma mesura galante e teatral. - Obrigada, senhorita Griffin.

- Estou feliz que deu tudo certo.

- A Woods me pediu para entregar isto. Ela me deu um envelope pardo lacrado. – Venha, eu vou te contar os detalhes.

O envelope era pesado e tilintante. Eu sabia o que era antes mesmo de abrir, mas ainda assim a visão das chaves caindo na minha mão foi uma bela porrada. Com a dor no peito mais intensa que já havia sentido na vida, li o cartão que as acompanhava:

 

OBRIGADA, CLARKE. POR TUDO.

A

 

Uma sutil e educada dispensa. Só podia ser. Caso contrário, ela me devolveria as chaves depois do trabalho, quando fôssemos à academia. 

Um zumbido invadiu meus ouvidos. Fiquei tonta. Desorientada. Estava com medo. Sofrendo. Furiosa.  Mas também estava trabalhando. 

Fechando os olhos e cerrando os pulsos, tentei me recompor e lutar contra a vontade de subir e dizer para Lexa que ela era uma covarde. Ela provavelmente me via como uma ameaça, uma invasora de seu mundinho em perfeita ordem. Alguém que queria mais do que seu corpo sensual e sua conta bancária recheada. 

Escondi meus sentimentos no fundo da mente, de forma a ainda ter consciência deles, mas sem deixar que me atrapalhassem mais durante o expediente. Quando saí do escritório e desci, ainda não tinha recebido sinal de vida dela. Estava emocionalmente em frangalhos, e senti uma enorme pontada de desespero quando saí do edifício.

Consegui ir até a academia. Desliguei meu cérebro e corri para valer na esteira, adiando a angústia que mais cedo ou mais tarde me atingiria. Corri até sentir o suor escorrer em bicas pelo rosto e pelo corpo, e até minhas pernas não aguentarem mais. 

Sentindo-me arrebentada e exausta, fui para o chuveiro. Depois liguei para minha mãe e pedi que ela mandasse James me pegar na academia e me levar para nossa consulta com o Dr. Petersen. Quando me vesti, precisei me esforçar para reunir energia para cumprir minha última tarefa antes de ir para casa e me afogar em lágrimas na cama. 

Esperei pelo carro no meio-fio, sentindo-me alheia e distante da cidade que zunia ao meu redor. Quando James estacionou e desceu para abrir a porta para mim, tomei um susto ao ver que minha mãe já estava lá.

Ainda era cedo. Eu achava que seria levada ao hotel onde minha mãe e Kane sempre ficavam quando vinham a Nova York e precisaria esperar uns bons vinte minutos. Era assim que as coisas funcionavam com ela. 

- Oi, mãe - eu disse, cansada, acomodando-me no assento ao lado dela.

- Como você pôde, Clarke?  Ela estava chorando atrás de um lenço bordado com suas iniciais, o que não perturbava a beleza de seu rosto. - Por quê?

Retirada subitamente de meu sofrimento solitário, franzi a testa e perguntei: - O que foi que eu fiz agora?

O fato de eu ter um celular novo, independentemente de como ela pudesse ter descoberto, não seria um gatilho para tamanho drama.

- Você contou para a Woods sobre... sobre o que aconteceu. Seu lábio inferior começou a tremer.

Aquilo foi um tremendo choque para mim. Como é que ela sabia? Meu Deus... Será que ela tinha grampeado minha casa? Minha bolsa...?

- Quê?

- Não se faça de boba!

- Como é que você sabe? Minha voz saiu em um sussurro. - Conversamos sobre isso ontem à noite.

- Ela foi falar a respeito com Marcus.

Tentei imaginar a cara de Kane durante uma conversa como essa. Era impossível acreditar que meu padrasto tenha digerido bem a informação. - Por que ela faria isso?

- Ela queria saber o que foi feito para evitar que a história vazasse. E queria saber por onde anda Wick... - Ela soluçou. - Queria saber de tudo.

Bufei por entre os dentes. Não estava certa de quais eram as motivações de Lexa, mas a possibilidade de ela ter terminado comigo por causa de Wick e agora estar fazendo de tudo para se poupar de um escândalo me magoava mais do que qualquer outra coisa. Contorci-me de dor, dobrando a coluna para longe do encosto do assento. Pensei que o passado dela tinha criado um atrito entre nós, mas fazia mais sentido imaginar que tudo aquilo havia sido causado pelo meu. 

Pela primeira vez na vida agradeci o fato de minha mãe ser tão egocêntrica. Foi isso que a impediu de ver que eu estava arrasada. 

- Ela tinha o direito de saber - consegui dizer com uma voz tão rouca que nem parecia a minha. - E ela tem o direito de tentar se proteger de eventuais respingos em sua imagem.

- Você nunca contou nada para nenhum outro namorado. Eu ainda nem compreendo direito porque você está namorando uma moça, e você conta logo pra ela.

- Eu nunca tinha namorado ninguém que por qualquer motivo banal já aparece em todas as manchetes de jornal. Ignorei completamente a parte de estar namorando “uma moça”. Olhei pela janela do carro, para o engarrafamento em que estávamos presas. - Lexa e as Empresas Woods são conhecidas mundialmente, mãe. Ela está a anos-luz dos caras que namorei na faculdade.

Ela ainda disse mais algumas coisas, mas não escutei. Fechei-me em mim mesma para me proteger, para me desligar de uma realidade que de uma hora para outra se tornara difícil demais de suportar.

***

O consultório do Dr. Petersen em Nova York era muito parecido com aquele que eu me lembrava da Filadelfia. Decorado com cores neutras, era ao mesmo tempo profissional e aconchegante. Ele era assim também, um homem bonito com cabelos grisalhos e olhos azuis inteligentes e compreensivos. 

O Dr. Petersen era o terapeuta da minha mãe e também foi o meu, antes de eu ir para a terapia de grupo. Ainda assim, mesmo quando eu me tratava com o Dr. Louis, visitava frequentemente o Dr. Petersen em sessões conjuntas com a minha mãe. Ele dizia que era importante que entendêssemos uma a outra para conseguirmos superar as dificuldades juntas. Depois que fui para San Diego, nunca mais havia encontrado com ele.

O Dr. Petersen nos deu as boas-vindas com um sorriso no rosto, comentando sobre a beleza de minha mãe e sobre como éramos parecidas. Disse que estava feliz em me ver de novo e que eu parecia estar muito bem, mas deu para perceber que só falou isso para agradar a minha mãe. Ele era um observador experiente demais para deixar de notar os sentimentos que eu estava reprimindo. 

- Então - o Dr. Petersen começou, acomodando-se na poltrona diante do sofá em que eu e minha mãe tínhamos nos sentado. - O que traz vocês aqui hoje?

Eu contei a ele que minha mãe vinha rastreando meus movimentos através do sinal do celular, e que isso fez com que eu me sentisse violada. Minha mãe falou do meu interesse por lutas, e expressou que isso era um sinal de que eu não estava me sentindo segura. Contei que ela e Kane haviam praticamente comprado a academia de Bellamy, o que fazia com que eu me sentisse sufocada e claustrofóbica. Ela falou que eu tinha traído sua confiança ao confiar assuntos personalíssimos a estranhos, o que a fez se sentir sem defesas e dolorosamente exposta. 

Durante esse tempo todo, Petersen ouviu com atenção, tomou notas e falou bem pouco até que tivéssemos desabafado. Quando ficamos em silêncio, ele perguntou:

- Abby, por que não me falou nada sobre ter rastreado o telefone de Clarke?

O ângulo de seu queixo se alterou, uma postura de defesa que eu conhecia muito bem. - Não vejo nada de errado nisso. Muitos outros pais rastreiam os filhos através do celular.

- Filhos menores de idade - rebati. - Sou adulta. A minha vida pessoal só diz respeito a mim.

- Caso você se pusesse no lugar dela, Abby - questionou o Dr. Petersen - é possível que se sentisse da mesma forma? E se você descobrisse que alguém anda monitorando seus passos sem seu conhecimento e sua permissão?

- Se esse alguém fosse minha mãe e isso garantisse sua paz de espírito, eu não me importaria - ela argumentou.

- E você já parou para pensar nos efeitos de suas atitudes sobre a paz de espírito da Clarke? -  ele perguntou educadamente. - Sua vontade de proteger sua filha é compreensível, mas você deveria discutir abertamente com ela as medidas que vai tomar para isso. É importante ouvir o ponto de vista de Clarke - e esperar cooperação apenas quando for vontade dela. É preciso respeitar sua prerrogativa de estabelecer limites que não são tão amplos como você gostaria.

Minha mãe bufou, indignada.

- Clarke precisa ter o espaço dela, Abby - ele continuou - e sentir que é ela quem controla sua própria vida. Tudo isso foi tirado dela por um bom tempo, e precisamos respeitar seu direito de se restabelecer da maneira como achar melhor.

- Ah. Minha mãe torceu o lenço entre os dedos. - Não tinha pensado nisso sob esse ponto de vista.

Segurei a mão dela quando seu lábio inferior começou a tremer violentamente. - Nada seria capaz de me convencer a não falar com Lexa sobre meu passado. Mas eu poderia ter avisado você antes. Desculpe por não ter pensado nisso.

- Você é muito mais forte do que eu - ela disse - mas não consigo deixar de me preocupar.

- Minha sugestão - aconselhou o Dr. Petersen - é que você reflita sobre quais tipos de eventos e situações mais lhe causam ansiedade, Abby. Depois disso, registre tudo por escrito. Minha mãe concordou com a cabeça. - Quando tiver uma lista mais ou menos definida, não precisa ser nada muito detalhado, vocês podem sentar para conversar e encontrar soluções para essas preocupações, atitudes com as quais ambas concordem. Por exemplo, se ficar sem notícias da Clarke por mais de um dia incomoda você, talvez uma mensagem de texto no celular ou um e-mail seja uma forma menos invasiva de lidar com isso.

- Certo.

- Se vocês quiserem, podemos discutir a lista juntos.

Essa interação entre os dois quase me fez surtar. Era praticamente um insulto. Eu não esperava que o Dr. Petersen pusesse juízo à força na cabeça da minha mãe, mas esperava que ele fosse um pouquinho mais duro. Alguém precisava fazer isso, alguém cuja autoridade ela respeitasse. 

Quando a sessão terminou e estávamos de saída, pedi para minha mãe esperar um pouco para que eu pudesse fazer uma última pergunta ao Dr. Petersen em particular.

- Sim, Clarke? Ele estava de pé na minha frente, aparentando sabedoria e paciência infinitas.

- Eu andei pensando sobre uma coisa... - Fiz uma pausa, engolindo em seco. - É possível alguém que tenha passado por algo como o que eu passei procurar uma relação homossexual... por... medo... ou insegurança perto dos homens?

Ele refletiu por um segundo. – Acho altamente improvável. A sexualidade de uma pessoa é definida por outros fatores, não por traumas ou medo. Mas o medo pode, sim, fazer com que essa pessoa fique mais retraída, se arrisque menos. A insegurança pode fazer com que a pessoa tenha medo de experimentar coisas novas, ou que possam expô-la de alguma forma. Nesses casos, é bastante possível que a pessoa demore mais a entender sua própria sexualidade e descubra tardiamente o que a faz feliz.

Suas palavras me trouxeram um certo alívio. Ainda hesitante, arrisquei mais uma pergunta. - É possível que duas vítimas de abuso tenham uma relação romântica saudável?

- Perfeitamente.

Sua resposta imediata e convicta permitiu que eu voltasse a respirar. Apertei sua mão. - Obrigada.

***

Quando cheguei em casa, abri a porta com as chaves que Lexa tinha devolvido e fui direto para o quarto, cumprimentando Raven, que estava praticando ioga seguindo as instruções de um DVD, apenas com um breve aceno. 

Tirei a roupa enquanto caminhava para a cama e entrei debaixo das cobertas frias só de lingerie. Abracei um travesseiro e fechei os olhos, tão exaurida que não conseguia pensar em mais nada.  A porta se abriu e um instante depois Raven estava sentada ao meu lado.  Ela afastou os cabelos do meu rosto lavado de lágrimas.

- O que aconteceu, loira?

- Levei um pé na bunda hoje. E por uma porra de um bilhetinho.

Ela suspirou. - Você sabe como as coisas funcionam, Clarke. Ela vai querer manter você à distância, porque acha que vai ser mais uma decepção na vida dela.

- E estou fazendo de tudo pra mostrar que ela está certa. Consegui me enxergar perfeitamente na descrição de Raven. - Corri quando as coisas ficaram feias, porque tinha certeza de que tudo ia terminar mal. E a única atitude que tomei a respeito foi ir embora em vez de ser deixada pra trás.

- Porque você precisa lutar pra manter sua própria reabilitação. Ela deitou junto às minhas costas, passando um dos braços sobre mim e me apertando contra ela. 

Eu me aninhei naquele abraço de que nem sabia que precisava. - Ela deve ter me chutado por causa do meu passado, não do dela.

- Se isso for verdade, ainda bem que terminou. Mas acho que no fim vocês vão acabar se entendendo. Pelo menos é o que eu queria que acontecesse.

Sua respiração roçava de leve meu pescoço. - Quero finais felizes pra todo mundo que já sofreu o diabo na vida. Mostre que é possível, minha amiga. Me faça acreditar.

 


Notas Finais


Até o próximo capítulo.
Bjuuus


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