História Todas As Noites Desse Verão - Capítulo 9


Escrita por: ~

Postado
Categorias One Direction
Personagens Liam Payne
Exibições 45
Palavras 4.536
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 9 - Só o começo


Acordo com o som do meu celular tocando e meu primeiro pensamento é que Roberta está me ligando pra dar mais um dos seus sermões sobre o meu trabalho e meus planos de viajar para Nova Iorque. Ela faz isso pelo menos umas três vezes por semana e por enquanto eu só passei por duas sessões de sermão.

Por achar que é minha mãe eu demoro a pegar o aparelho, mas desperto rápido quando finalmente crio coragem e vejo que na verdade é Lana solicitando uma chamada de vídeo.

— Meu Deus, você conseguiu uma internet! — É o que eu digo assim que vejo o rosto da minha melhor amiga na tela do meu celular.

Tenho outros amigos. Não muitos, mas eles existem. Só que o elo entre Lana e eu é único e eu nunca tive com nenhuma outra pessoa. Sempre fui muito tímida então fazer amizades nunca foi uma tarefa fácil. Com Lana as coisas aconteceram naturalmente, graças à ela.

— Eu disse que ia conseguir! — Lana diz. O barulho do vento se mistura com a voz dela e eu noto que ela está em um local aberto. — Não foi nada fácil.

— Você teve que socializar com o filho do vizinho?

— Tive. — Ela faz uma careta. — Passei horas ouvindo sobre plantas medicinais e música country. Mas tudo bem, foi por uma boa causa.

— Ele não pode ser tão ruim assim! — Não me importo se eu estou com o rosto inchado ou com o cabelo do tamanho de um capacete. Agora eu estou feliz e tranquila, coisas que eu não sinto já faz algum tempo.

— Ele é legal na maior parte do tempo. — Ela dá de ombros e seu cabelo preto balança com o vento. — Mas eu não te liguei pra falar do meu vizinho. Eu quero saber tudo do seu trabalho.

— Você já sabe tudo, Lana.

Mesmo com as dificuldades de comunicação, eu tentei deixá-la a par de toda a minha saga em Maratona até aqui por mensagens e e-mails.

— Você não me contou os detalhes importantes, por exemplo se tem algum garoto interessante.

Ela sorri, ansiosa.

—  Claro que tem garotos interessantes, mas isso não faz diferença nenhuma pra mim.

— Você se descobriu homossexual?

— Não... Eu sou gosto de evitar frustrações amorosas. Não olho pra ninguém já que ninguém vai olhar pra mim.

Lana bufa.

— Para de se menosprezar! Você é linda, inteligente e tem um humor ácido! Olha esse cabelo maravilhoso, eu queria ter um assim!

— Não estou me menosprezando. Só estou dizendo que eu tenho outras coisas pra me preocupar. Você sabia que eu não tenho talento nenhum?

Lana solta um palavrão.

— Tá de brincadeira? E todos aqueles poemas e crônicas que você coloca no seu blog?

— Aquilo não é meu talento. Eu não sei escrever de verdade. Eu só coloco no papel o que eu estou pensando. Só.

Lana franze a testa.

— E isso não é escrever? Não é isso que J.K Rowling fez? Pensou em um mundo onde as pessoas voam em vassouras e tem aulas em castelos e escreveu?

— Claro que não! — resmungo.

— Tá bom. Então o seu talento não é escrever. E daí? Eu também não sei qual é o meu. Você não é obrigada a saber no que você é boa com 17 anos. Acho que isso é uma daquelas coisas que a gente descobre com o tempo.

  Eu quero perguntar o que acontece se eu nunca descobrir? E se eu for um desses casos de pessoas que morrem sem saber o objetivo da vida delas? Várias perguntas surgem na minha mente, trazidas pela minha insegurança, mas Lana não me deixa fazê-las.

 — Eu quero detalhes sobre esse acampamento que você me falou! — Ela se anima e eu reviro os olhos.

   — Tudo o que eu sei é que vai ser em uma praia em uma cidade vizinha nesse final de semana. E que eu não vou, claro.

— Pérola... — Lana começa ameaçadoramente como ela sempre faz quando eu sou tudo o que ela não é: insegura e medrosa. — Não faz isso com você mesma. Eu sei que ninguém aí é tão legal quanto eu, mas essa é a sua oportunidade de ter uma experiência diferente.

  — Em uma praia. Com pessoas que são completamente diferentes de mim — murmuro. — Todo mundo aqui é como as pessoas do colégio. Todo mundo é protagonista, não coadjuvante. E você sabe que eu odeio praias!

  — Bom, você está passando o verão trabalhando na beira de uma, então pode superar isso daí. — Lana dá uma risadinha irônica, mas se acalma ao ver minha expressão que não deve estar das melhores. — E, Pérola, eu já te falei mil vezes. Por mais que você tente se esconder, uma hora você vai estar lá no centro do palco, como uma protagonista. Ninguém pode viver a sua história por você.

Em silêncio, eu tento me ver sendo como Lana. Livre. Eu estou presa dentro de mim mesma e de todos os medos que eu tenho. Olho para as outras pessoas e só vejo como elas são melhores do que eu em vários níveis. Elas são mais bonitas, mais felizes, mais inteligentes. Eu sou apenas um grão de areia perdido em meio a milhares.

 Sempre disse a mim mesma que eu não escolhi ser assim, invisível, mas talvez eu tenha escolhido sim. Talvez eu esteja me sabotando.

   — Onde você aprendeu a falar bonito assim? — pergunto para disfarçar o silêncio constrangedor.

        Lana abre um sorriso.

        — Só pode ter sido com você, né?

 

###

 

Pensei que Vicente ia rir da minha cara quando eu citasse essa coisa de acampamento em outra cidade, mas ele achou a melhor ideia do planeta. A verdade é que meu pai aceita ter uma filha introvertida e tudo mais, mas acho que ele está cansando de me ver mofar em casa. De vez em quando eu penso que ele sente pena de mim.

— Quem vai com você? — Foi a única coisa que ele perguntou.

— O pessoal do Chave do Farol — eu disse para resumir. — E eu não disse que eu vou. Só comentei o que vai acontecer.

— Claro que você vai. — Vicente disse sem me dar atenção enquanto jogava alguns papeis para dentro da pasta que usa como bolsa. — Dá uma olhada na garagem. Tu mamá me obrigou a trazer pra cá todas as coisas que eu guardava em casa. Acho que tem uma tienda ahí.

Eu não respondi, mas agora eu já tenho 98% de certeza de que sim, vou ter que me aventurar pela garagem atrás de uma barraca empoeirada, pois a primeira coisa que Eleanor fez quando me viu entrar no terreno do hotel foi perguntar se eu já tinha arrumado minhas coisas. Tive que lembrá-la que eu não faço parte do concurso de artes (nome que eu mesma dei para o evento) então minha presença não é essencial. Isso quase a fez ter um troço.

— Sua presença é essencial sim! Você vai! Já tem até um lugar no carro reservado especialmente pra você. E tem mais, você é a minha companheira de barraca

— Eu?

— É! — Claro que ela estava explodindo felicidade. Estávamos no nosso intervalo entre atividades, olhando a movimentação da piscina lotada. — Ruth não vai poder ir. Ela está fazendo trabalhos extras na faculdade e só vai aparecer no domingo. Eu preciso de amigas!

Eu gosto de Eleanor. Gosto mesmo. A maioria das pessoas muito felizes sempre me irritou um pouco. Parecia que elas viviam em um mundo diferente do resto da raça humana – e talvez realmente vivessem. Mas Eleanor não desperta esse sentimento ruim em mim. Ela é genuinamente feliz, e isso é estranho, mas fofo.

— Sua namorada está na faculdade?

— Ela cursa veterinária — ela diz com orgulho. — Já está no segundo ano.

— Vocês se conheceram aqui?

Eleanor assente.

— Graças a esse lugar magnifico. Foi no verão passado. Ela veio falar com Geoff e eu estava regando as plantas da sala dele. — Ela dá uma risadinha. — A coisa desenrolou e agora estamos aqui.

— Você esqueceu da parte em que eu tive que ouvir Ruth falando de você por meses depois que o verão acabou e você foi embora.

Liam se aproxima do quiosque onde estávamos sentadas. Dessa vez ele está com uma camiseta e isso é bom.

— É pra isso que servem os irmãos — Eleanor ri.

— Você diz isso por que é filha única.

O rosto dele não está tão liso quanto estava na primeira vez que eu o vi. Posso enxergar o início de uma barba nascendo em volta dos lábios dele. Estou analisando exatamente o caminho dos pelos pelo queixo e maxilar quando Liam olha para mim.

— Eu estava dizendo agora para a Pérola que ela vai com a gente amanhã — Els diz.

Liam se vira para ela sem dizer nada. Pelo menos não com palavras, mas eu tenho certeza que ele está tentando pensar em alguma forma de matar Eleanor e esconder o fato da própria irmã.

Encaro o copo de suco que eu havia pedido para Bobbi me servir. Ela está trabalhando no quiosque agora e eu fico com vontade de me juntar a ela.

—  Nós vamos sair ás 17h. — Liam fala pra mim sem esboçar muita reação. 

E ele vai embora.

Minha boca seca e eu bebo metade do suco de uma vez só. Meu coração está acelerado de um jeito ruim e eu cruz os dedos sobre as minhas coxas.

— Vai ser legal! — Eleanor me dá um sorriso, mas ele não está tão firme como todos os outros que ela me deu nessas duas semanas em que eu estou em Maratona.

Ela olha por cima de mim para onde Liam está. Eu também olho mas só por um segundo. Ele está falando com Harry, próximo à cerca que separa o hotel e a praia.

— Acho que ele não quer que eu vá com vocês.

Tento pensar no que aconteceu nas últimas 24 horas. Não me lembro de ter feito nada de horrível quando bati na porta do quarto dele ontem. Eu até emprestei meu iPod pra ele!

— Que? Não! — Eleanor se levanta do banquinho, parecendo desesperada. A ideia de ter alguém infeliz dentro do Chave do Farol deve a apavorar. — Ele está de mau humor. Não nada a ver com você! Todo mundo te quer lá.

Tenho minhas duvidas sobre isso, mas não digo nada. Eu prometi que iria me esforçar pra fazer esse verão ser uma oportunidade para dar os meus voos mais altos. Então eu volto pra casa no fim do turno e vou direto para a garagem de Vicente procurar tudo o que ele tem que me pode ser útil durante um acampamento.

 

###

                              

Não faço ideia de como todos os funcionários do programa de verão do resort podem passar um final de semana sem trabalhar de uma vez e é isso que pergunto para Eleanor assim que eu a encontro no horário combinado.

— Liam — ela responde e eu fico obviamente sem entender. — É coisa dele. Ser filho do dono tem suas vantagens e Geoff basicamente faz tudo o que o Liam quer.

Fico imaginando se Liam é do tipo filho mimado e que ele estar morando no hotel do pai é só mais uma prova disso. Me repreendo assim que me vejo pensando nisso. Não posso sair julgando as pessoas assim mesmo que elas ajam normalmente em um dia e praticamente te ignorem no outro.

Não que ele esteja me ignorando. Ele disse oi quando apareceu em frente ao resort no horário marcado. Acho que isso era o máximo que ele iria fazer já que Liam nem perdeu tempo me olhando. Não que eu esperasse que ele olhasse pra mim, mas era de se esperar algum tipo de interação dele com alguém durante os 40 minutos de viagem entre Maratona e Key West.

Não aconteceu. Eleanor até tentou fazer Liam participar da conversa interminável que Niall e Harry desataram no banco de trás, mas nada foi suficiente para fazê-lo esboçar mais que cinco palavras de uma vez. E o máximo que eu fiz foi me esconder ao lado dos dois garotos e me forcei a não pensar que o silêncio de Liam não tinha nada a ver comigo, afinal eu não fiz nada.

— Como vocês podem morar em Miami e nunca ter se encontrado? — Niall pergunta em algum momento.

— Miami é a segunda maior cidade do estado, Horan. Tem milhares de pessoas.

— É por isso que eu odeio cidades grandes. — Niall é de longe a pessoa mais animada com toda a ideia de passar um final de semana torrando no sol e dormindo em colchões de ar. Nem Eleanor está tão feliz assim. — Você não tem uma irmã, Styles? Talvez ela conheça alguém que conheça a Pérola.

Harry é o meio termo. Ele não está tão desanimado quanto eu ou o nosso motorista sem língua, mas também está bem longe de estar na nuvem de excitação que Niall está.

— Ela tem seis anos. Acho que as chances são pequenas — ele murmura desdenhoso.

— Seis anos? — Eleanor vira para ele com os olhos brilhando. — Aposto que ela é uma fofa!

— Ela é uma peste.

— Ela veio morar aqui também? — Ela ignora o comentário de Harry.

— Não — ele responde, olhando para toda a água absurdamente azul que cerca a ponte que estamos atravessando. — Ela ficou em Miami com a minha mãe. Mas ela está aqui pra visitar o meu pai, então...

Consigo sentir o desconforto de Harry vazando pelos poros dele. A essa altura todo mundo já notou que ele não gosta muito de falar dos detalhes da vida dele. Sempre que alguém tenta saber o motivo de ele ter se mudado para a casa do pai em Maratona ou como era a vida dele em Miami ele desconversa.

— Harry! — Eleanor solta um gritinho. — Traz ela um dia para o trabalho! Eu amo criancinhas fofas.

— Ela não é fofa — O garoto responde, mas dá um sorriso. — E eu não posso levar ela pro Chave do Farol, garota. — Harry olha para Liam. — Posso?

Liam olha para ele pelo retrovisor e fala pela primeira vez nos últimos 15 minutos.

— Você tá perguntando pra mim? — Ele dá uma risada meio sarcástica, mas todo mundo acaba vendo Liam como porta-voz oficial do pai.— É melhor você levar porque Eleanor nunca mais vai te deixar em paz sobre isso.

— Não mesmo! — Ela confirma.

Passo o resto do tempo olhando a paisagem que não é uma distração ruim. Key West é ainda mais bonita que Maratona e isso é um detalhe e tanto. Apesar de ser a maior das ilhas de Florida Keys, a impressão de estar em um lugar paradisíaco é muito mais forte aqui, entre as praias de areia branca e o comércio antigo.

Liam para o carro em uma praia que parece ser no extremo da cidade já que de onde estamos eu não vejo mais nada além de água e céu. A praia está vazia, o que é estranho pra uma tarde de sexta-feira. Todas as pessoas que eu vejo são de Maratona. Eu sei por que os reconheço daquela noite do quiosque e por a maioria está montando barracas.

Niall, Harry e Liam descarregam o carro enquanto Eleanor vem saltitando em minha direção com seu cabelo castanho esvoaçando e seu vestido balançando como asas.

— Aqui não é lindo?

É, é muito lindo, mas eu ainda estou com a sensação de que eu deveria estar lavando as roupas sujas dos hóspedes no Chave do Farol.

— A gente não deveria arrumar as nossas coisas? — pergunto.

— Liam vai cuidar disso. — Minha expressão de choque a faz rir. — Relaxa. Eu sei que nós somos muito capazes de montar uma barraca e fazer todas essas coisas, mas Liam... Ele nunca vai deixar a gente fazer nada disso. Ele é irritante, mas age como se eu fosse a nova irmã dele.

— Tecnicamente você é quase isso.

Olho para Liam que está carregando a barraca que eu encontrei na garagem de Vicente para junto das outras pessoas do grupo com Harry e Niall. Ele está com uma camiseta branca que não é muito eficiente na tarefa de esconder as tatuagens espalhadas pelo corpo dele.

— Liam é um garoto legal. Muito mesmo.  — Eleanor diz do nada e quando eu a olho, vejo aquele olhar esquisito de novo. — Ele só está em um momento complicado.

Não sei por que Eleanor está dizendo isso. Ela me puxa pelo braço e eu não tenho muita reação além de ir com ela até o resto das pessoas. É estranho pensar que dessas 20 pessoas eu mal sei o nome de metade. De algumas eu lembro, por exemplo o do garoto que se aproxima de nós quando chegamos perto da nossa barraca que está sendo montada por Liam e Harry.

— Não sabia que você vinha, Els — Zayn diz para a garota do meu lado com um sorriso que diz muita coisa. Foi ele quem apresentou os concorrentes aquela noite.

— Claro que sabia, Malik.

— Sua namorada veio também? — Ele espreita os olhos e eu vejo Liam virar a cabeça na direção dele, de repente atento a tudo.

— Não. E sim, eu continuo gostando de garotas, Zayn. É isso que significa ser gay.

Zayn ergue as sobrancelhas e ri.

— O.k., calma. Que bom pra você! Eu só estou procurando alguém pra dividir a barraca comigo.

Eleanor bufa do meu lado e é a minha vez de fazer uma careta.

— Meio complicado mesmo você encontrar alguém que queira fazer esse sacrifício. — Els resmunga.

— Talvez a sua amiga — Zayn vira para mim e eu paraliso.

— Cai fora daqui, Zayn. — Ouço a voz de Liam, mas isso não me faz voltar a respirar. Tenho certeza que estou apertando o braço de Eleanor, mas ela não reclama. — Ou você quer dividir comigo? Estou disponível.

Liam espera a resposta com um sorriso frio e sínico no rosto. Zayn o observa.

— Você vai dormir sozinho? Isso sim é novidade. Não encontrou nenhuma garota pra te aturar durante o verão dessa vez? — Até Harry olha para Liam agora que com certeza está pensando se deve jogar todos os ferros que está segurando no chão e apenas arrebentar a cara de Zayn. — Vou ter que recusar  o convite. Quem sabe da próxima?

Zayn sai andando e Liam olha para Eleanor e fica óbvio que ele está aqui por que ela deve ter feito com ele a mesma coisa que ela fez comigo: chantagem emocional.

Liam e Harry terminam o trabalho e eu digo um obrigada para os dois. Harry responde, mas Liam apenas dá um aceno com a cabeça.

Eleanor vai socializar com o resto do mundo e eu me enfio no nosso esconderijo com a desculpa de desempacotar a minha mochila. A verdade é que eu quero ficar sozinha e me imaginar em um local seguro, sem garotos tatuados misteriosos ou garotos tatuados idiotas.

 

###

 

Sei que a programação de hoje tem alguma coisa a ver com uma fogueira em que os participantes do concurso vão descobrir os temas da próxima apresentação, e sei que eu provavelmente deveria sair e ajudar as pessoas e fazer amigos, mas tenho dificuldades para sair do meu cubículo. Estou perdida entre todas as coisas inúteis que eu trouxe para um acampamento. Livros, cadernos, moletons e outras coisas.

O sol já está se pondo e o céu já está ficando arroxeado quando ouço um barulho no lado de fora da barraca. Penso que é Eleanor, pronta para me puxar para o mundo, mas não é.

— Novata?

Não gosto da minha reação quando reconheço a voz de Liam. É ridícula. Pior do que a que eu tive quando o vi pela primeira vez.  Ignoro toda a bagunça que está do lado de dentro e abro o zíper da barraca.

Ele está em pé, então tudo o que eu vejo primeiro são as pernas dele. Ele está de bermuda, o que é muito sensato já que em Key West faz tanto calor quanto Maratona.

— Você está se sentindo segura aí dentro? — Liam pergunta quando eu olho para cima pra ver o rosto dele. A barba dele está crescendo mesmo e eu queria parar de reparar nisso. — Não quero que a coisa desmorone em cima de você durante a noite e a culpa seja minha.

— Está tudo certo. Obrigada... De novo.

Liam assente da mesma forma que ele fez da primeira vez que eu agradeci. Ele me encara um pouco e eu só espero que ele vá embora, mas ele se senta na areia bem na minha frente.

Ele enfia a mão do bolso da bermuda e meu iPod aparece, são e salvo.

— Ah. — Solto um somo estranho que fica entre surpresa e decepção quando ele me entrega o aparelho. — Você conseguiu ouvir alguma coisa?

Tenho que perguntar por cima dos gritos e risadas das pessoas que estão carregando pedaços de madeira e caixas que provavelmente estão cheia de latas de cerveja.

— Eu ouvi tudo.

Liam dobra os joelhos e apoia os braços nele.

Eu demoro um tempo pra responder. Sim, estou meio chocada.

— Você ouviu toda a minha playlist de Missing Pearl?!

— É. E umas outras músicas também. — Ele sorri para a areia. — Você vai de Backstreet Boys pra AC/DC, garota.

Coloco os dedos no meu cabelo e puxo alguns cachos, ciente de que eles devem estar cheio de areia e tudo mais.

— Eu sou eclética. E esse negócio tem 128 gigas.

— Tem muita coisa dos anos 80 também.

— Melhor época da música mundial.

— E eu nem consegui identificar a língua de algumas músicas.

— Tem músicas em português graças a minha mãe.

Liam para de falar, mas não de me olhar. Eu ligo meu iPod só para não ter que encarar o garoto e vejo em que música ele parou. “Stayin’ Alive”, Bee Gees. Acho que foi demais pra ele.

— Eu perguntei porque essa banda é tão especial assim pra você ao ponto de te fazer estar aqui agora e você me disse pra ouvir a sua playlist. — Eu concordo e ele continua. — As primeiras músicas são mais animadas e felizes que o DNA da Eleanor. É quase irritante. — Solto um resmungo e ele sorri pra mim. Eu pigarreio, desconcertada. — Mas depois, a coisa muda bruscamente. As letras começam a ser sobre perda, solidão. Todas. Até os instrumentos mudam. Não tem guitarra elétrica ou sintetizadores... — Liam fala, olhando para mim com muita atenção então eu tenho que esconder o fato de eu estar maravilhada nesse instante. — Aonde foi parar toda aquela felicidade?

— Bom... A banda tem dois vocalistas. Veronica e Michel. O primeiro álbum foi lançado assim que eles casaram. Eles namoraram por muito tempo e foi esquisito. Os pais dele não aceitavam a Veronica por ela ser negra e os pais dela não aceitavam o Michel por ele ter pais racistas. Mesmo assim eles ficaram juntos, contra tudo e todos. Então os primeiros dois CDs são sobre amor, plenitude, lutar pelos sonhos, liberdade, tolerância. Felicidade.

Guardo o iPod no bolso da minha mochila antes que eu destrua o fone de ouvido de tanto mexer nele. Estou nervosa por estar falando tanto e por estar sendo observada com tanta vontade agora.

— Veronica sempre teve problemas de autoimagem. Ela queria ser cantora, mas naquela época não existia muitas cantoras negras. E mesmo as que existiam, ela achava que nenhuma se parecia com ela. Achava que ela não tinha o que precisava pra ser como elas. Fisicamente.

Eu enchi os dois colchões de ar e os travesseiros. Deixei as coisas de Eleanor em um lado da barraca e espalhei as minhas pelo o meu colchão, mas agora queria jogar tudo pra fora e me deitar nele.

— Uns cinco anos de banda se passaram e Veronica engravidou. Eles estavam gravando o terceiro CD e acho que ele seguiria o mesmo estilo dos outros, mas ela perdeu o bebê. A partir daí tudo começou a dar errado. Ela entrou em depressão e voltou a questionar a si mesma e a aparência dela ao ponto de não querer mais aparecer em público. Eles gravaram mais dois CDs e pararam. Veronica não tinha mais condições de fazer nada.

Liam está me analisando com a expressão séria.

  — Mas agora eles vão voltar — ele diz.

  — É. É uma coisa grande se você pensar. Não consigo imaginar o esforço que ela está fazendo pra aparecer assim depois de tanto tempo.

  — Quanto você precisa pra ir nesse show?

  — Três mil dólares.

A expressão dele não muda.

  — Você não vai ganhar isso no hotel.

  Bufo.

— Eu sei.

— E o que você vai fazer pra conseguir o resto?

— Vou dar um jeito — digo firme, apesar de não fazer ideia de como eu vou conseguir o dinheiro que faltar.

Liam finalmente para de me olhar e começa analisar o espaço em que eu estou e toda a bagunça que me cerca. O cheiro de galhos queimados me atinge e eu imagino que a história da fogueira vai dar certo muito mais rápido do que pensávamos.

— Essa parte da fogueira sempre dá briga — Liam fala olhando para o fogo que começa aparecer no meio dos galhos. — Ninguém aceita muito bem o tema que recebe e o sorteio tem que ser feito mil vezes.

— Parece emocionante. — Sorrio.

Estou feliz por ele não estar mais agindo como se eu fosse uma planta. Só que também estou sem graça.

— Acho que eu deveria ter dito antes, mas Ruth está vindo. — Liam tem olhos castanhos claros e pequenos que combinam totalmente com o rosto dele. Na verdade, parece que tudo nele foi feito em um laboratório. — É uma surpresa, eu acho. Sei lá. Coisa de casal.

— Está? Ah... — Olho para os lados, para toda a bagunça que eu fiz. — Melhor eu sair...

— Não. Elas vão dormir na minha barraca. — Os lábios dele estremecem e não deve ser de raiva. Liam fica um pouco vermelho e é muito gracioso. Ele está com vergonha.

— E você vai dormir aonde?! — pergunto e no mesmo instante eu me arrependo.

— Com o Malik. — Ele dá uma risada. — Eu posso dormir no carro sem nenhum problema.

Bom, é claro que tem alguma coisa errada comigo e só isso explica o que eu falo no minuto seguinte.

— Você pode dormir aqui.

Se Lana estivesse aqui essa seria a hora que ela sairia correndo fazendo a dança da vitória por me ver sendo nada sutil com um garoto. Eu só estou tentando ser gentil com uma pessoa que me trouxe até aqui e ainda passou dez minutos montando o lugar onde eu dormiria. Não posso deixar ele dormir em um carro! É tudo questão de educação. Mas não sei se Liam entende da mesma forma. Ele ergue uma sobrancelha pra mim e eu tenho certeza que fico roxa.

— Com você? — ele pergunta com um sorriso malicioso.

— Não! — Eu choro. Choro mesmo. Só que por dentro. — Eu só estou tentando...

— Eu vou ficar bem no carro. — Ele me interrompe antes que eu desmaie ou algo assim. Liam faz menção de se levantar, mas para ao ver o meu pânico. — Você vai ficar bem sozinha?

— Sim.

Não.

Liam escuta a insegurança na minha voz, tenho certeza, mas não comenta. Ele se levanta de vez e tira a areia da bermuda.

— Eu gostei das músicas.

— Não tem como não gostar.

— Na verdade tem. — Ele responde. — Eu gostei agora por sua causa.

O.k., meu coração dá um pequeno salto.

— Então a minha missão nesse lugar está cumprida.

— Você tem mais algumas semanas aqui, novata. Tudo pode acontecer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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