História Túnel do tempo, Lucíola - Capítulo 12


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
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Palavras 1.957
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 12 - Capítulo 12


Fanfic / Fanfiction Túnel do tempo, Lucíola - Capítulo 12 - Capítulo 12

Meio-dia a dar no sino das torres, e eu entrando em casa de Lúcia. Tinha refletido: essa amizade não podia continuar; se havia de desatar mais tarde, depois de me ter feito curtir mil dissabores, bom era que cessasse desde logo. Não julgue porém que estava resolvido a separar-me por uma vez de Lúcia; minha coragem não chegava a tanto. 

O que eu desejava era demitir de mim um título que me esmagava na minha pobreza, o título de amante exclusivo da mais elegante e mais bonita cortesã do Rio de Janeiro. Ela recebeu-me com brandura. 

Tinha os olhos rubros e pisados de lágrimas; apertando minha mão, beijou-a. Que pretendia ela exprimir com esse movimento! Seria a imagem viva da humilde fidelidade do cão, afagando a mão que o acaba de castigar? Estivemos muito tempo sem trocar palavra. 

Enfim Lúcia fez um esforço, sorriu como se nada houvesse passado, e veio sentar-se nos meus joelhos, acariciando-me com a ternura e a graciosa volubilidade que ela tinha quando o júbilo lhe transbordava d'alma. Aproveitei o momento para alijar o peso que desde a véspera me acabrunhava. 

— Sabes que eu não sou rico, Lúcia! Seu olhar luminoso penetrou-me até os seios d’alma para arrancar o pensamento que inspirava essas palavras; respondeu com um pálido sorriso: 

— Pensava ao contrário que era muito rico! Ela mentia! 

— Pois pensaste mal. Sou pobre, e não posso sustentar o luxo de uma mulher como tu. 

— Acha pouco o que me tem dado! 

— O que dei não vale a pena de ser lembrado. Falemos do que te devia dar, e não pude, porque não tinha. Neste mês que se passou, a tua vida não foi tão brilhante como era antes. 

— Porque eu não quis, e não porque me faltasse coisa alguma. Nunca me achei  tão rica como agora. 

— Não tens sido vista nos teatros e passeios; já não tens um carro; não és enfim a mulher do tom que eu ainda conheci! 

— Aborreci-me de tudo isto! 

— Não te podes aborrecer sem que o mundo repare! 

— Como! Não sou senhora de viver a meu modo, desde que com isso não faço mal a ninguém? Se apareço, é um escândalo; se fico no meu canto, ainda se ocupam  comigo. 

— Que queres! Há certas vidas que não se pertencem, mas à sociedade onde existem. Tu és uma celebridade pela beleza, como outras o são pelo talento e pela posição. O público, em troca do favor e admiração de que cerca os seus ídolos, pede-lhes conta de todas as suas ações. Quer saber por que agora andas tão retirada; e não acha senão um motivo. 

— Qual? perguntou Lúcia com ansiedade. 

— Supõe que eu te sacrifico aos meus ciúmes; e não me perdoa, porque não sou bastante rico para ter semelhantes caprichos. 

— É isso que o incomoda! Meu Deus! Fique descansado: terei carro, aparecerei como dantes! Hoje mesmo!... Verá! Não sabe quanto me custa esse sacrifício; mas um só beijo me paga com usura! Estalou o lábio entre os meus. 

— Precisava dele para me dar coragem; agora sinto me forte. 

— Aonde vais? perguntei retendo-a. 

— Vou mandar a cocheira ver o meu carro; escrever à Gudin que me faça uma dúzia de vestidos os mais ricos; dizer ao caixeiro do Wallerstein que me traga para escolher o que ele tem de melhor em modas chegadas ultimamente! É verdade, esquecia-me de mandar tomar uma assinatura no teatro lírico, e encomendar uma nova parelha de cavalos. 

A minha caleça já está usada; preciso trocá-la por uma vitória, e renovar o fardamento dos criados. Até à noite tenho tempo para tudo. O Jacinto se incumbirá de uma parte das comissões. Olhei para Lúcia; ou está louca, ou zomba de mim, foi a minha primeira idéia, ouvindo a sem-cerimônia e o desplante com que ela decretava um orçamento de despesa que faria estremecer o mais pródigo financeiro. 

— Espera, Lúcia! 

— Ainda não é bastante? Que hei de fazer mais? disse com um gesto de cômico desespero. Ah! Mandarei arranjar de novo a minha casa, e darei um baile! Que diz! 

— Farás o que for do teu gosto! 

— Do meu!... 

— Goza da tua mocidade, é justo: tu podes e deves fazer; mas como só eu venho à tua casa e todo o mundo sabe que não sou milionário, compreendes que, se isto continuasse, suspeitariam, diriam mesmo, se já não disseram, que vivo à tua custa! Lúcia ficou lívida; tinha compreendido. 

— Então não posso dar-me a quem for de minha vontade? 

 — Quem diz isso? Eu é que não te posso aceitar por semelhante preço. À custa da honra... é muito caro, Lúcia!

 — Ah! esquecia que uma mulher como eu não se pertence; é uma coisa pública, um carro da praça, que não pode recusar quem chega. Estes objetos, este luxo, que comprei muito caro também, porque me custaram vergonha e humilhação, nada disto é meu. Se quisesse dá-los, roubaria aos meus amantes presentes e futuros; aquele que os aceitasse seria meu cúmplice. 

Esqueci, que, para ter o direito de vender o meu corpo, perdi a liberdade de dá-lo a quem me aprouver! O mundo é lógico! Aplaudia-me se eu reduzisse à miséria a família de algum libertino; era justo que pateasse se eu tivesse a loucura de arruinar-me, e por um homem pobre! Enquanto abrir a mão para receber o salário, contando os meus beijos pelo número das notas do banco, ou medindo o fogo das minhas carícias pelo peso do ouro; enquanto ostentar a impudência da cortesã e fizer timbre da minha infâmia, um homem honesto pode rolar-se nos meus braços sem que a mais leve nódoa manche a sua honra; mas se pedir-lhe que me aceite, se lhe suplicar a esmola de um pouco de afeição, oh! então o meu contato será como a lepra para a sua dignidade e a sua reputação. 

Todo o homem honesto deve repelir-me! Impetuosas como a torrente que borbota em cachões, ardentes como as bolhas d'água em plena ebulição, essas palavras se precipitavam dos lábios de Lúcia, em tropel e quase sem nexo. 

Às vezes de tão rápidas que vinham lhe tomavam a respiração, e parecia que a estrangulavam. Até que por fim um soluço cortou-lhe a voz; o seio ofegou como se o coração lhe quisesse saltar com o último grito de indignação de sua alma ofendida. Que responder àquela lógica inflexível da paixão fazendo justiça aos prejuízos sociais? Nada. 

Calei-me, irritado contra os estímulos nobres que recebemos na infância e não nos permitem praticar cientemente um ato de que devamos corar.

— Tu me fazes arrepender da minha franqueza, Lúcia! disse passado um momento. Preferias que deixasse de ver-te? 

— Não! Antes assim! O senhor quer!... Será feita a sua vontade! Terei amantes! Saiu arrebatadamente e fechou-se no toucador. 

Voltei, refletindo se o que tinha feito era realmente uma ação digna, ou uma refinada covardia; servilismo à inveja e malevolência social, que se decora tantas vezes com o pomposo nome de opinião pública.

 Às três horas da tarde passando pela Rua do Ouvidor vi Lúcia na casa do Desmarais, cercada por uma grande roda, na qual eu distingui logo o Sr. Couto e o Cunha. Lúcia estava rutilante de beleza; a sua formosura tinha nesse momento uma ardentia fosforescente que eu atribuí à irritação nervosa da manhã. 

O orgulho e o desprezo vertiam-Ihe de todos os poros, nos olhos, nos lábios, nas faces e no porte desenvolto. Ela flutuava numa atmosfera maléfica para o coração, que, entrando naquela zona abrasada, sentia-se asfixiar. A roda elegante festejava o astro que surgia, depois do seu eclipse passageiro, mais que nunca brilhante. 

Atirando a réplica viva e incisiva a todos os adoradores que a cortejavam; escarnecendo da fineza, e fazendo ressaltar a zombaria contra o que a lançara, Lúcia, com a mesma liberdade que teria em sua casa, continuava a escolher na grande exposição de objetos de fantasia que cobria os balcões. Que sentimento me obrigava a parar na loja para seguir com os olhos essa mulher, à posse exclusiva da qual eu acabava de renunciar? Que motivo estranho, vendo-a agora cercada de apaixonados, me fazia sofrer, a mim que não havia duas horas tinha assistido friamente à explosão violenta da sua cólera?

Lúcia me viu, porém não me deu atenção. Dirigiu-se ao Couto; trocando com ele algumas palavras em segredo, voltou para o caixeiro e declarou que comprava os objetos apartados, cujo preço lhe seria enviado no dia seguinte. 

Vendo gesto significativo do Couto ao dono da loja, como eu, todas as pessoas presentes ficaram persuadidas que da bolsa do velho saía o dinheiro que ela acabava de atirar a mancheias de uma a outra ponta da Rua do Ouvidor. Felizmente para mim, que já não me podia conter, o suplício terminou. Ela retirava-se. Passando junto de mim cortejou-me, e disse em vez baixa: 

— Está satisfeito? O sorriso em que ela envolveu estas palavras, caiu, se me posso assim exprimir, como a dobra de uma mortalha; tal foi a súbita lividez que lhe cobriu o rosto, e o desanimo que abateu o seu corpo. O Couto apressou-se a oferecer-lhe a mão para ajudá-la a entrar no carro.

 — Até logo! disse-lhe ela bem alto. Podia-me restar a menor dúvida? Lúcia era amante do Couto. 

Enquanto acompanhava com os olhos a cortesã desprezível que se balançava lubricitante no seu novo carro, insultando com o luxo desmedido as senhoras honestas que passavam a pé, sabe de que me lembrei? Não foi da ceia em casa de Sá, nem do mês que acabava de passar; foi unicamente da suave aparição da Rua das Mangueiras no dia da minha chegada. São extravagâncias da memória. 

Quem conhece o fio misterioso que leva o pensamento através do labirinto do passado a uma lembrança remota? 

— Rei morto, rei posto! disse-me o Cunha, que chegara à porta para ver Lúcia entrar no carro. 

— Não sei a que se refere! 

— Referia-me, Sr. Silva, continuou apontando para o carro que ainda aparecia, àquele trono de sedas e veludos que vagou esta manhã, e que uma hora depois já estava preenchido. 

— Enganou-se, Sr. Cunha, respondi no mesmo tom de gracejo, fui apenas regente durante uma curta vacância. 

— Pois não é isso o que se dizia. 

— O que se dizia então? repliquei tornando-me sério, porque as palavras de Sá me acudiram ao pensamento. 

— Dizia-se que o senhor mudara o sistema de governo daquele estado, e sucedera na qualidade de autocrata aos reis constitucionais, como eu tive a honra de sê-lo em certo tempo. 

— O que entende por autocrata, Sr. Cunha? 

— Perdão: vejo que toma ao sério um gracejo. Mudemos de assunto; não desejo ofendê-lo.

O Couto, que nos ouvia de princípio, interveio na conversa.  

— A significação da palavra é bem clara, Sr. Silva, disse com o seu fátuo sorriso. 

— Se o Sr. Couto quisesse fazer-me o favor de explicá-la Tenho a inteligência embotada. O velho calou-se com visível embaraço. Continuei pesando as minhas palavras: 

— O senhor quer talvez lembrar-me que os autocratas têm o costume de tiranizar os povos e vexá-los de imposições; razão por que os povos, quando os expulsam, se tornam excessivamente exigentes para com os truões que lhes sucedem. 

 Não é isto? Diga-me por obséquio: não faz idéia da ansiedade com que procuro desde ontem um homem que tenha a coragem de repetir-mo em face! 

— Ora, o senhor está brincando! E o Sr. Couto fez-me uma profunda cortesia, e saiu empertigando-se mais que de costume. Voltei-me para o Cunha. 

— Bem dada lição! disse estendendo-me a mão. 

— Decididamente não havia meio de brigar; o homem que eu procurava fugia-me como uma sombra.



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