História Túnel do tempo, Lucíola - Capítulo 13


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 13 - Capítulo 13


Fanfic / Fanfiction Túnel do tempo, Lucíola - Capítulo 13 - Capítulo 13

À noite, quando dei por mim, subia as escadas de Lúcia. Se alguém me perguntasse o que ia fazer, ficaria bem embaraçado para responder e bem admirado da pergunta. 

Tinha passado o resto do dia a atordoar-me, a fazer esforços inúteis para expelir da idéia uma lembrança que me afligia; à noite não pude resistir:  senti uma necessidade invencível de ver aquela mulher, que eu já aborrecia. 

Tinha-a eu amado para ter o direito de odiá-la. Lúcia estava no toucador, acabando de vestir-se. A minha entrada lhe causou alguma surpresa. O acolhimento que me fez foi triste, mas doce e afável. 

— Cometi uma indiscrição talvez, usando da liberdade que me deu outrora. 

— Quem fez do presente um passado já tão remoto? Não fui eu! Mas  fique certo que esta casa, hoje, como ontem, como amanhã, não tem para o senhor nem portas, nem paredes. 

— Renuncio de bom grado a tanta honra; prefiro esperar no topo da escada, a correr o risco de uma surpresa ridícula para ambos. Lúcia fitou-me por muito tempo, e chegou-se ao espelho para dar os últimos toques ao seu traje, que se compunha de um vestido escarlate com largos folhos de renda preta, bastante decotado para deixar ver as suas belas espáduas, de um filó alvo e transparente que flutuava-lhe pelo seio cingindo o colo, e de uma profusão de brilhantes magníficos capaz de tentar Eva, se ela tivesse resistido ao fruto proibido. 

Uma grinalda de espigas de trigo cingia-lhe a fronte e caía sobre os ombros com a basta madeixa de cabelos, misturando os louros cachos aos negros anéis que brincavam. 

Estava excessivamente pálida, e a cor escarlate do vestido ainda lhe aumentava o desmaio; os olhos luziam com ardor febril que incomodava, e os lábios se contraíam num movimento que não era riso nem ânsia, mas uma e outra coisa. Entretanto nunca essa mulher me pareceu tão bela; a idéia de que ela se enfeitava para outro homem irritava-me a ponto que estive para precipitar-me e espedaçar, arrancando-lhe do corpo, as galas que a cobriam. 

— Ainda não a felicitei pelo seu novo amante! 

— Quem não tem o direito de escolher, aceita o primeiro que lhe chega; e o mais ridículo é sempre o melhor. 

— É naturalmente para ele que está se pondo tão bonita! 

— Acha que estou bonita? perguntou com o sorriso que deve ter o condenado para o Sol nascente que vem alumiar o seu suplício. 

— Nunca a vi tão fascinadora, nem  vestida com tanto primor. Ele merece. 

— Dizem que outrora ornavam-se as vítimas para o sacrifício. 

— Isso foi outrora; mas hoje que os sacrifícios são incruentos, a vítima orna-se para o sacrificador; também em vez do sangue daquela, é o ouro deste que corre nas aras consagradas ao prazer. 

Lúcia quis responder-me, mas reprimiu-se a tempo de sorver a palavra que já lhe espontava no lábio. Foi uma coisa que notei desde que começaram as nossas relações: esse espírito mordaz e cintilante, esse verbo rápido que não deixava sem resposta nem um motejo, se ofuscava sempre e emudecia diante de mim. 

— Pode-se saber onde vai, se não é segredo? Dirige-se talvez ao templo do sacrifício. 

— Vou ao Paraíso. Tão alheio andava eu deste mundo fluminense! Nem sabia que naquela noite havia um baile público. 

— Ah! vais ao baile! Então não se demore; são horas. 

— Estou à espera de alguém. 

— Diga do Sr. Couto; já não é segredo. E agora me lembro, a minha presença aqui pode comprometê-la; eu me retiro. 

— O senhor está na minha casa; não a chamo sua para não ofendê-lo. 

— Ou para que não me venham tentações de ficar. 

— Quem lhe impede? 

— Deveras!... Seria agradável para a senhora deixar um paciente em casa contando as horas, enquanto vai ao baile exibir a sua nova conquista, e arrular pombinhos nalgum hotel de Botafogo. 

Na volta esse paciente pode servir para apagar o fogo que as brumas do inverno apenas sopraram. Infelizmente, por mais inocente que seja esse pequeno manejo, não estou disposto a prestar-me a ele. 

— Que gosto tem em me estar assim torturando! O senhor sabe que por mais cruel que seja a sua zombaria, não sei retorquir-lhe! Não quer que eu saia de casa? Basta-lhe dizer uma palavra! 

— E a senhora ficaria? 

— Duvida! Com um movimento rápido, Lúcia correu a mão pelos cabelos, e o penteado desfez-se como por milagre, deixando cair a grinalda aos pés e rolar as tranças pelas espáduas. Ouviu-se rumor de passos na sala. 

— Não faça isto!... Aí está o Couto; ele vai ficar furioso e com razão! Pode dar algum escândalo! disse escarnecendo. A um sinal de sua senhora, a escrava de Lúcia abriu a porta ao Couto, que entrou sem me ver.

— Ainda neste estado!... Se eu adivinhasse, tinha trazido o cabeleireiro para penteá-la.  

— Não se precisa aqui desta gente! murmurou Joaquina 

— Pois faz a tua obrigação, penteia tua senhora; e se andares depressa, terás uma boa molhadura. 

— Não vou ao Paraíso! disse Lúcia friamente. 

— Como, minha amiga! Que capricho é este! O baile deve estar brilhante. O que há de mais chibante na corte lá se achará esta noite. Faze idéia! Venderam-se todos os bilhetes! Tão cedo não teremos outro baile como este! Bem sabes que são raros no Rio de Janeiro. 

— Prefiro ficar em minha casa. 

 O Sr. Silva toma chá comigo; estaremos sós e conversaremos mais à vontade! Foi então que o Sr. Couto me viu sentado no sofá; desta vez não me cumprimentou. Era demais. 

— Então é esse o motivo por que não vai ao baile! E foi para isso que me mandou chamar e me fez acompanhá-la esta manhã pela Rua do Ouvidor? O meio é engenhoso! Finge-se um arrufo, e põe-se o amor em leilão a quem mais der. 

— Uma infâmia de mais ou de menos para quem já perdeu a conta, vale a pena que se ocupem com ela? Não vou ao teatro, repito; e peço-lhe que me deixe tranqüila. 

O Couto fez um gesto soberbo, e uma saída teatral. Tinha assistido mudo e com aparente indiferença a esse incidente; mas que rápida sucessão de sentimentos houve no meu coração! À vaidade de ver Lúcia ceder pronta e espontaneamente a um desejo meu apenas suspeitado, sucedeu o prazer da humilhação do Couto em minha presença. 

Depois, quando o velho libertino revelou o procedimento vil da cortesã, e esta com toda a desvergonhez apanhou a lama em que patinhava para lançá-la ao seu parceiro, senti, com o asco e o vexame de achar-me ligado a tanta miséria, um consolo imenso das torturas que sofrera naquele dia. Esses dois entes são dignos em do outro, murmurou minha alma ao coração ainda magoado. 

Mas restava uma última emoção. Reatar as relações quebradas dessas duas criaturas; entregá-las uma à outra como presas destinadas a saciar a cupidez e a lascívia uma da outra; jungir  o vício ardente e moço ao vício enregelado e decrépito; fazê-los arrastar na mesma canga a crápula ignóbil, ferroando-os com o aguilhão do meu sarcasmo: seria a minha vingança. 

Vingança de quê? Tinha-me essa moça ofendido para assanhar em mim o ódio e os instintos perversos do coração humano? Não era eu a causa única de tudo o que se passava? A razão dormia naquele momento. Ordenei à escrava que chamasse o Couto em nome da senhora; e o fiz com tanto império que ela obedeceu-me apesar do gesto de Lúcia. Então voltei-me para esta: 

— Agradeço-lhe muito a fineza; mas é um sacrifício que não tem o direito de fazer, e que eu não terei decerto o desfaçamento de aceitar. Esta noite a senhora não se pertence: é um objeto, um bem do homem que a vestiu, que a enfeitou e cobriu de jóias, para mostrar ao público a sua riqueza e generosidade. 

— A mim?... exclamou Lúcia indignada, e continuou com sorriso amargo: Pois sim, roubei-o! E ele deve agradecer-me; porque assim leva a honra intata! 

— A senhora vai ao baile! 

— Morta podem levar-me; viva não. 

— Então expulsa-me da sua casa. Sabe o que esse velho palhaço, que é hoje seu amante, pensava esta manhã, sem ter a coragem de o dizer? Que eu a havia desfrutado corpo e bens durante as nossas relações, e por isso era tempo da senhora indenizar-se do prejuízo! Não basta! É preciso que ele pense ainda que este pretendido arrufo foi um expediente engenhoso da minha parte para encher o cofre que esgotei! Lúcia não me respondeu uma palavra; com a mesma vivacidade que pusera em desfazer o seu penteado, arranjou-o de novo sem alinho; e voltou-se para mim de olhos baixos e submissa, como uma escrava que esperasse a última ordem do senhor. 

Que miserável animalidade havia em mim naquela noite! Quando essa pobre mulher atingia o sublime do heroísmo e da abnegação, eu descia até à estupidez e à brutalidade! 

— Pois realmente capacitou-se de que eu podia ter ciúmes de um Couto! Que extravagância! Nem dele, nem de qualquer outro! Era preciso que tivesse um ciúme bem elástico para poder abarcar todos os que a senhora distinguiu e há de distinguir com os seus favores! Fique sossegada: virei alguma vez colher a minha flor; mas em  ocasião que não perturbe os seus bucólicos amores. 

Então me contará os ridículos de seu velho amante, e afianço-lhe que passaremos uma hora divertida, rindo-nos à custa do próximo: salvo bem entendido, a cada um de nós o direito de rir-se interiormente do outro. 

— Duas vezes no mesmo dia! É muito, meu Deus! exclamou Lúcia tragando um soluço. O Couto entrava morno e carrancudo. 

— A senhora arrependeu-se; e está  pronta a acompanhá-lo ao baile. — E ao senhor é que devo agradecer esta resolução repentina? 

— O senhor... O senhor só tem que  me agradecer uma coisa: é a minha paciência. Quanto ao baile, a senhora é livre, e eu não tive parte nem na sua recusa de há pouco, nem na sua aceitação de agora. 

— Se assim não fosse, rejeitaria o favor. 

— Pois saiba que vou a esse baile, disse Lúcia, unicamente porque o Sr. Silva me ordenou; e devo obedecer-lhe. O Sr. Couto procurou o lenço e não acertou com o bolso da casaca. 

— Não se esqueça de deitar um pouco de carmim! disse eu a Lúcia despedindo-me. Está horrivelmente pálida. Ela sorriu. 

— Não faz mal! Julgarão que passei a noite de ontem nalguma orgia! Faz seu efeito!  Nesse momento a mucama lhe apresentava as luvas e o leque, o mesmo do nosso primeiro encontro, e que ela costumava trazer sempre. Lúcia recuou como se uma áspide a quisesse morder.

 — Esse não! Cuida que a minha raiva brutal ficou satisfeita? Entrei no baile aspirando no ar um faro de sangue. É verdade, tinha frenesi de matar essa mulher; porém matá-la devorando-lhe as carnes, sufocando-a nos meus braços, gozando-a uma última vez, deixando-a já cadáver e mutilada para que depois de mim ninguém mais a possuísse. Ela lá estava sempre bela, sempre radiante. Júbilo satânico dava a essa estranha criatura ares fantásticos e sobrenaturais entre as roupas de negro e escarlate. 

Junto dela descobri a Nina, que, apesar da sua graça, desaparecia completamente naquela zona que Lúcia deslumbrava com a sua reverberação. Mas eu que via com os olhos do despeito, percebi-a imediatamente. Nina sabia das nossas relações, e ignorava ainda o desenlace muito recente. As minhas pretensões deviam pois ter para ela o encanto que acha toda a mulher em afligir outra que lhe é superior pela graça e formosura: assim explicam-se os avanços de amabilidade que me fez à custa de algum crédulo e paciente admirador; deu-me uma entrevista em sua casa depois do baile. Mas esse favor, discretamente concedido, não me  servia; era preciso que mais alguém o soubesse.

 — Então, uma hora depois do baile? disse eu alçando a voz. 

— Sim; mas segredo! respondeu Nina levando o dedo à boca. 

— Estará só? perguntei para mais fazer ainda ouvir a minha fala. Nina fez um momo gracioso; os ombros de Lúcia agitaram-se com um tremor nervoso. Não conheço mais estúpido animal do que seja o bípede implume e social, que chamam homem civilizado. 

Na véspera era feliz. Estava numa brilhante reunião, onde se achavam talvez as mais bonitas senhoras do Rio de Janeiro.

 Observando-as com o culto do belo e a religião da mulher, que é inata em mim, conhecia que em graça e atrativos não tinha que invejar ao mortal ditoso a quem elas abandonassem um dia os primores de sua mocidade. 

 Mais linda que todas, uma mulher me esperava, que em troca da pureza que não tinha, me guardava seus imensos tesouros de voluptuosidade; ela me esperava cheia de mim; e para não deixar-me um instante, me acompanhara de longe com os olhos através do mundo que fechara-lhe as suas portas. Bastou uma palavra, um sentimento de convenção, para que o meu orgulho destruísse a felicidade que as suas mãos delicadas tinham tecido com tanta paciência e esmero.

 E como remate da minha demência, depois de haver torturado aquela pobre mulher, depois de a ter insultado covardemente, acabava de entregá-la a um velho histrião, para agarrar-me à fralda da primeira saia que passava pelo meu caminho. E eu considerava isto a minha vingança! Como tinha razão o poeta que chamou o homem um menino corpulento

— puer robustus! 



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