História Túnel do tempo, Lucíola - Capítulo 14


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 14 - Capítulo 14


Fanfic / Fanfiction Túnel do tempo, Lucíola - Capítulo 14 - Capítulo 14

Foi uma noite horrível. O baile terminara às duas horas. Lúcia assistira até o fim, o que ainda mais me irritou, porque eu desejava triunfar com a sua saída precipitada, depois do desprezo que lhe mostrara.

Se ela se retirasse, pensava eu, correria à sua casa para pedir-lhe perdã.  Mas não acredite que o fizesse: procederia com o mesmo orgulho estúpido que me dominou no momento em que ela despediu o Couto e renunciou ao baile para ficar comigo. Na retirada o velho esperava-a na porta, e partiram ambos de carro. 

— Está acabado! disse comigo. Não pensemos mais nisto. Porém não era coisa fácil apagar no meu espírito a profunda impressão que aí deixara gravada a imagem de Lúcia. Tomei o braço do Rochinha, que encontrei ao sair, e fomos cear no primeiro hotel que encontramos aberto. 

Em qualquer outra ocasião esse moço me enjoaria com a sua afetada decrepitude moral; nesse momento era um homem que podia falar-me de Lúcia e dizer mal dela. Com efeito o Rochinha contou-me diversas anedotas escandalosas da vida de Lúcia; e concluiu dizendo:

— Não acredito ainda que esse Diógenes do Couto seja seu amante. 

— Ouvi-a confessar esta noite mesmo. Saíram juntos do baile. 

— Pois admira-me; porque há muito tempo que ele a persegue debalde. Lúcia tinha-lhe tal birra, que no dia em que o via, ficava de um humor insuportável. 

— São coisas que passam. O velho abriu os cordões da bolsa; e o motivo da antipatia desapareceu. 

— Pode ser que ela esteja agora em crise financeira; mas asseguro-lhe que a questão não era de dinheiro, não. O Couto, como todos os velhos gamenhos que compram o amor, à hora certa, é mais que generoso, é pródigo; vi-o oferecer a Lúcia somas fabulosas que ela rejeitava sempre e com desprezo. 

Essas palavras me consolaram. Uma débil esperança espontou-me no coração; corri à casa de Lúcia. A porta ainda estava aberta; Lúcia não tinha voltado! eram perto de três horas e meia, naturalmente estava em casa do Couto. Pus-me a passear na calçada; ao  surdo rodar de um carro que passava longe, aplicava o ouvido para conhecer se ele se aproximava; o rumor se desvanecia e com ele minha esperança,  para ressurgir de novo, e de novo extinguir-se. Nestas alternativas sem repouso vi os primeiros clarões do dia. Dirigi-me tristemente para o hotel e dormi, porque a fadiga me vencia. 

Eis qual tinha sido a minha noite; o acordar não foi menos cruel. Sucede com as feridas d'alma o mesmo que às feridas do corpo: é quando elas esfriam, que a dor se torna aguda e lancinante. 

Lembrei-me do que sucedera; repassei uma a uma as circunstâncias do dia anterior; reconheci a minha grosseira imbecilidade; e a consciência de que eu tinha sido o mais culpado, devia dizer o único, exacerbava o meu sofrimento. E essa pobre moça, a Nina, inocente da minha loucura, que talvez por meu respeito perdera o seu amante? Era a primeira vez, desde que a  deixara, que me recordava dela. Devia-lhe uma desculpa; e como não tinha outra coisa que fazer, aproveitei esse pretexto para sair. Pensava, chegando à casa de Nina, encontrar um rosto fechado, um momo despeitado, e um bom-dia atirado da ponta de um beiço desdenhoso. 

Qual não foi portanto a minha surpresa vendo-a precipitar-se para mim, abraçar-me com ímpeto, e atirar-me de repente pela testa e pelo rosto uma chuva de carícias que me azoou. Afinal consegui desprender-me dos braços que me enlaçavam; ia pedir uma explicação, quando Nina atalhou-me: 

— Estou muito zangada com o senhor! disse com um ar que exprimia inteiramente o contrário. Fazer-me esperar até não sei que horas! 

— Confesso que cometi uma falta; mas há de me desculpar. 

— Ah! Cuida que a pulseira que me  mandou paga o prazer de sua companhia! Enganou-se!... 

— A pulseira! balbuciei sem compreender. 

— É linda que faz gosto. Não há segunda: a Lúcia não tem melhor. Também o senhor nem sabe como lhe agradeço. E um novo granizo de beijos ia cair sobre mim; mas desta vez desviei-me a tempo. 

— Está gracejando! Que quer dizer isto? 

— Ora, faça-se desentendido! Já não se lembra de que me mandou pelo seu criado esta manhã? Julguei que a moça tinha perdido a cabeça, ou que eu sofria uma mistificação. 

— Ah! percebo! exclamou Nina que de seu lado também me considerava com surpresa. Queria achar-me com. ela! Tem razão. Saiu e logo voltou trazendo um cartão meu e uma caixa de jóia que eu abri precipitadamente. Tinha reconhecido a pulseira de brilhantes que dera a Lúcia no dia seguinte à ceia do Sá. Entrei no primeiro tílburi que passou, e atravessei as ruas a galope. 

Lúcia estava atirada a um sofá de bruços nas almofadas que escondiam-lhe o rosto. Tinha o mesmo vestido de seda escarlate que levara ao teatro, porém amarrotado, com as rendas despedaçadas e os colchetes arrancados da ourela, onde se viam os traços evidentes das unhas. Os cabelos em desordem flutuavam sobre as espáduas nuas; a grinalda despedaçada, o leque e as luvas jaziam por terra; numa cadeira ao lado estavam amontoadas todas as suas jóias. 

Vendo-me, ergueu-se de um salto e quis precipitar-se para mim; porém decerto o meu olhar cru a conteve, porque deixou-se cair sentada sobre o sofá em que estava. Sentei-me também,  e incomodado; viera com uma cólera violenta; mas começava a sentir-me mau e pequeno diante dessa mulher sublime nas suas paixões. O seu rosto pisado, os olhos injetados de sangue e febricitantes ainda aumentaram o meu vexame.

 Peguei maquinalmente nas jóias que estavam sobre a cadeira.

— Estas jóias são de muito valor!...  Mas falta aqui uma, a mais insignificante! Não era digna por certo de brilhar no seu braço; atirou-a de esmola a alguma mendiga, e deu uma lição ao bobo que teve a ousadia de oferecer-lhe semelhante miséria. Aquilo quando muito, é o preço de uma noite de qualquer mulher à-toa, da Nina por exemplo. Ela tinha-se erguido trêmula; e foi-se a pouco e pouco retraindo até cair de joelhos. 

— Foi uma loucura, e eu mereço toda a sua cólera. Mas para que me fazer penar assim, meu Deus! Que prazer lhe podia dar essa mulher?... Não me tinha a mim? Uma escrava humilde, pronta para lhe obedecer, e que em paga de tanta submissão só lhe pedia que a não expulsasse! 

— E a senhora não chamou um velho desprezível para sua casa? 

— É tão diferente! Eu! Não fui atirada contra minha vontade à lama de que desejava erguer-me? Recuando ainda, não fui à noite repelida cruelmente e lançada nos braços desse homem, que no meu desespero eu procurei, por ser mesmo o ente mais vil e ignóbil que eu conheço; pois era preciso que o suplício fosse bastante violento para matar-me logo, e sem lenta agonia! No baile, apesar de tudo, não esperei uma palavra, um sinal para correr a seus pés, e suplicar-lhe como agora o meu perdão! Lúcia pousou a cabeça sobre os meus joelhos, sufocada pelo pranto; e eu não a ergui logo e não a apertei ao meu seio, porque achei-me tão infame a par dessa mulher, que sentia um vexame insuperável. Por fim levantei-a nos meus braços, e confesso que foi corando de vergonha. 

— Quem deve pedir perdão desta como de todas as vezes, Lúcia, sou eu: mas não o mereço, não. 

— Basta! Já me falou como outrora! Disse o meu nome! Que mais quero eu saber? Esqueci tudo. 

— Deixa-me falar; não me interrompas. Sou um miserável, indigno de ti. Eu só com o meu orgulho estúpido fui causa do que temos sofrido; mas é justo que a punição recaia sobre mim unicamente. Se a idéia de que tive um instante aquela mulher, te aflige, expele a lembrança desse mau sonho; pisei em  sua casa pela primeira vez hoje, há meia hora. 

Vi a pulseira, compreendi tudo, e corri até aqui! Que êxtase de bem-aventurança foi o de Lúcia quando ouviu a confissão que eu lhe fazia! A mulher quebrada de fadiga, prostrada por uma noite de vigília e de violentas emoções, transfigurou-se de repente: o anjo de suave beleza surgiu na sua auréola luminosa, ao bafejo de uma felicidade celeste. 

— Passei esta noite, continuei, cheio de teu pensamento e de tua imagem. Às duas horas estive aqui, não te disseram? Esperei-te passeando na calçada até quase ao amanhecer; e as torturas que eu sofri é impossível dizer. Mas eu a procurei; não me posso queixar de ti, não tenho que pedir-te contas! Fui eu que te arrastei à força, louco que eu estava. 

— Não fale mais nisso! Acabou; foi um pesadelo que tivemos. Esqueça tudo! Eis o que vai apagar para sempre essa lembrança importuna. Dizendo isto Lúcia estendeu-me o lábio risonho; eu recuei como se visse por entre o carmim brilhar o dente de uma víbora. Ela empalideceu. 

— Nunca mais, eu juro, Lúcia, tu me ouvirás as palavras que ontem te disse; nunca mais também me verás rejeitar por causa das calúnias de alguns miseráveis as provas de tua afeição. Mas esse beijo, agora!… Não! não o posso aceitar, e não me perguntes a razão! Lúcia cobriu-me com  um olhar límpido, raio de luz de sua alma; o seu sorriso era sublime de candura. 

— Aquele homem não tocou no meu corpo, porque até a mão que roçou na sua, estava calçada com esta luva, que eu já despedacei, disse estendendo a ponta do pé. Mas tem razão, bastava o seu hálito para manchar. Olhe para mim. Quando eu despir esta roupa, despirei trapos que para nada servem! Foi então que reparei na desordem de seu traje. 

— Não me enganas, Lúcia? 

— Que juramento quer que lhe dê? O mais sagrado!...Se não fosse assim, teria ânimo de falar-lhe, de vê-lo ainda! Também eu, não sabe? Estive na rua até quase ao amanhecer, olhando a casa onde supunha que o senhor apertava nos braços outra mulher! Não se morre de dor, porque eu não morri esta noite! 

— Não me devias dizer semelhante coisa para me punir! Fui eu que procurei então o lábio que ela há pouco me oferecera. 

— Espere!... Lúcia demorou-se algum tempo. Quando apareceu, saía do banho fresca e viçosa. Trazia os cabelos ainda úmidos; e a pele rorejada de gotas d'água. Rica e inexaurível era a organização dessa moça, que depois de tão violento abalo parecia criar nova seiva e florescer com o primeiro raio de felicidade! Fora o acaso ou uma doce inspiração, que arranjara o traje puro e simples que ela trazia? Tudo era branco  e resplandecente como a sua fronte serena: por vestes cassas e rendas; por jóias somente pérolas. Nem uma fita, nem um aro dourado, manchava essa nítida e cândida imagem. Creio antes na inspiração. 

Lúcia tinha no coração o germe da poesia ingênua e delicada das naturezas primitivas, que se revela por um emblema e por uma alegoria. Ela me  dizia no seu traje, o que nunca se animaria a dizer-me em palavras, que estava tão pura como eu a tinha deixado, do contato de outro homem. 

Lúcia expandia-se com tal efusão de contentamento, que, se há felicidade neste mundo, devia ser a que ela sentia. Entretanto, passada essa primeira e fugace irradiação, achei-a fria, quase gelada; apenas respondia às minhas carícias ardentes e impetuosas. Naquele momento atribuí à prostração natural depois de tão fortes emoções; porém me enganava. A frieza continuou aumentando de dia em dia, até que uma vez não me pude conter: 

— Parece-me que já te aborreceste  de mim, Lúcia! 

— Creio que estou doente! sofro tanto! 

— De quê? Dessa moléstia do coração de que já me falaste ? Fugiu-lhe pelos lábios um sorriso sinistro. 

— Sim; dessa moléstia do coração que me há de matar! E então, como para desvanecer a impressão que me deixara a sua frieza, atirava-se aos meus braços com uma espécie de frenesi; mas a sua ternura tinha um desabrimento e rispidez que me lembravam as palavras de Sá, e as impressões acres da primeira vez que possuíra esta mulher. 

A minha Lúcia dos bons dias, que aveludava-se no estreito enlace com que me cerrava ao seio, que diluía-se de gozo engolfando-me num mar de voluptuosidades, que aspirava-me a vida num beijo para vazá-la de novo e gota a gota: essa, eu só revia nas minhas doces recordações; porque a realidade fugia-me, quando a buscava com desespero. 

Esqueci-me de lhe contar um incidente que se passou na mesma manhã da nossa reconciliação. Quis sair um momento para ir pagar as dívidas que Lúcia fizera na véspera. 

— Já estão pagas! me respondeu sorrindo e mostrando os recibos. 

— Por quem? perguntei com severidade. 

— Por mim! Quem, senão eu, tinha o direito de pagá-las? 

— Mas ontem o Couto te acompanhava... 

— O senhor queria que eu tivesse amantes! disse Lúcia entristecendo. Mandei chamar esse velho. Não sabe por quê?... Antes quereria dar-me a um escravo, do que vender-me a ele por todo o ouro deste mundo! 

— E a tua pulseira? Ficarás sem ela? 

— Psiu! fez Lúcia levando o dedo à boca e baixando a voz. Não fale mais nisso! Deixa-a ir; queimava! Ficou-me a sua lembrança! Tirou então o adereço de azeviche que eu lhe tinha dado. 

— Apareceu enfim! 

 — Ainda não se passou um só dia sem que o trouxesse uma hora pelo menos.

 — Nunca te vi com ele. 

— Não se lembra do motivo?... Agora já não preciso escondê-lo! Vale os brilhantes que perdi. Desde então realmente a sua predileção por aquelas jóias tornou-se uma espécie de fetichismo para esse coração, que por muito tempo ermo e vazio, sentia ardente sede de afeição. 



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