História Twice - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias South Park
Personagens Kenny McCormick, Kyle Broflovski, Phillip "Pip" Pirrup, Stan Marsh
Tags Dip, Style, Tophlovski
Exibições 20
Palavras 4.351
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Lemon, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - Mercy


Fanfic / Fanfiction Twice - Capítulo 3 - Mercy

Craig fez uma pausa na caminhada e acendeu um cigarro, usando o isqueiro de cor escura. Nele tinha as iniciais “T.C” desenhadas de forma desajeitada pelo próprio.  Soltou a fumaça próximo a Stan, que torceu o nariz, incomodado com o gesto.  Craig sabia que o irritaria, mas agiu com indiferença.  Cartman fungou de maneira barulhenta enquanto caminhava. Ele vinha por último. A máscara de gás abafava qualquer som que ele emitia. Wendy o olhou de canto, ajeitando o casaco de couro. A noite era ridiculamente fria, como a maioria era. Ao passar pela área fantasma, o frio era mais intenso.  

     A área era composta apenas por destroços de prédios e casas na zona sul da cidade. Consequência de uma das guerras civis que aconteceram anos atrás. Não havia iluminação ou qualquer coisa que garantisse sair vivo dali. Pessoas nada gentis viviam nos arredores. Apenas um único prédio ainda estava erguido sobre o solo, mesmo que caindo aos pedaços, ainda abrigava um grupo perigoso. 

      Kenny seguia na frente, usando a máscara que representava seu codinome, Golden God. Caminhava sobre os destroços envoltos de um terreno extenso, despreocupado. Kyle vinha logo atrás, antes de Cartman, Wendy, Stan, Craig e Pip. Arrastava o bastão no solo de terra.  Token e Clyde preferiram ficar, não estavam no clima para sair naquela noite. Damien, em corvo, acompanhava o grupo. 

     Não deveriam estar ali, mas o caminho fazia parte da rota. 

— Ok. Você pode ou não estar certo. Mas pensa comigo. — Cartman parou ao lado de Craig, gesticulando com as mãos dramaticamente. Craig bufou, acreditando já ter concluído essa conversa minutos atrás. – Se a cidade fosse tomada por zumbis... Amanhã, hipoteticamente, você jamais poderia levar apenas uma arma. Quer dizer, ninguém sobrevive com a porra de uma arma. 

— Puta merda, Eric. É uma questão de tempo. — Craig balançava a cabeça tirando o cigarro da boca, deixando a fumaça escapar. — Você pode estar sentado no sofá fumando um baseado e de repente zumbis invadem a casa. Você corre até o quarto, pega a arma, mata os zumbis que aparecerem na sua frente e depois abandona a casa. É simples. — Cartman se calou, pensativo. E logo continuou: 

— Sim, mas por que só uma arma? Não faz sentido. — Craig revirou os olhos, visivelmente cansado da conversa. Kyle soltou uma risada baixa. 

— Porque é assim que a porra da brincadeira funciona. Não precisa ter lógica, é só pra te fazer tomar uma decisão difícil. 

— Certo. — Murmurou. Passou mais alguns poucos segundos em silêncio. — Eu escolho um fuzil. — Craig assentiu, grato por finalmente ele ter entendido o verdadeiro objetivo da pergunta. — Mas se eu posso correr até o quarto e pegar uma arma, por que eu não posso pegar duas? Se a mesma estiver junto com outra. 

— Porque não tem tempo o suficiente. – Stan respondeu dessa vez, indiferente.  

— Sim, sim. Craig disse isso.  Mas ainda não faz sentido.  

— Por Deus, Eric! É só uma brincadeira idiota. — Wendy resmungou, incomodada com a confusão desnecessária de Eric. — Só esqueça. 

    Eric iria protestar algo, mas ele preferiu manter a boca fechada. As perguntas estúpidas não eram nada além das consequências do baseado de maconha que fumou minutos atrás. O efeito em Cartman era estressante para quem estivesse por perto, visto que agia de maneira infantil e dramática. Craig e Kenny que também haviam se juntado a Cartman para um baseado, porém, tanto Kenny quanto Craig aparentavam estar mais sóbrios. 

— De qualquer forma, — Kenny entrou na conversa, levemente ofegante por escalar alguns destroços. — Você sobreviveria apenas duas horas com um fuzil. Ou menos. — Cartman se voltou para ele e emitiu um som de deboche com os lábios, algo semelhante a um “puf!”.  

— Isso é muita merda. — Deu de ombros. — Vocês têm umas regras estranhas.   

— Regras? — Kenny se virou para Cartman, prosseguiu andando de costas. — É fisicamente impossível. 

— É mesmo? E quem disse? — Cruzou os braços.  Kenny piscou lentamente, convencido, apontando para a sua própria pessoa.  — Idiota. — Resmungou, finalmente decidindo deixar o assunto de lado. 

– É, idiota! – Uma outra e distante voz gritou, familiar aos ouvidos do grupo. Acompanhado da fala, ouviu-se também uma certa quantidade de armas sendo destravadas ao mesmo tempo. Kenny congelou o movimento e levantou as mãos em rendição, virando-se novamente de frente para encarar os velhos conhecidos. Os outros repetiram o ato.

— Que merda vocês acham que estão fazendo aqui? – A voz pertencia a uma criança que não tinha mais que quatorze anos, trajava trapos que um dia já serviu para diminuir o frio.  Com o rosto preto de lama e um sorriso que mostrava claramente os dentes amarelados. Usava um tapa olho que Kenny achava particularmente ridículo. A criança estava atrás de uma mureta pichada, cuja grande parte dela estava quebrada, apoiando uma AK-47 em cima dela, mirando para eles.  De ambos os lados, mais duas crianças de idade semelhante surgiram em meio aos destroços, apontando armas para eles.  

— Faz parte da rota. Você sabe. — Kyle levou a mão à cabeça, desinteressado. A criança ergue-se, revelando seus braços que apenas parentavam ser frágeis. 

— Que seja.  O chefe quer conversar com vocês. — Apontava a arma e gesticulava com ela para que seguissem. — Conhecem as regras. 

        Um prédio que se localizava a poucos metros mais a frente era para onde caminhavam.  Um prédio de sete andares, completamente destruído ao redor das ruínas. Por todo ele, havia pichações feitas pela gangue, marcando aquele território com assinaturas e desenhos de um estilo que pertencia a eles, facilmente reconhecível.  

    Ninguém em sã consciência ousaria pisar naquele lado. Há quinze anos atrás o lugar não passava de uma construção abandonada, quando um trio conhecido como Piratas passaram a habitar nos prédios que ficavam nas áreas tomadas pela ruína. Deixavam claro para quem passasse por lá que o espaço era deles, assustando os outros habitantes. Assim, aquele lado passou a se chamar de área fantasma; não havia movimento algum e ninguém atravessaria aquele lado, sabendo do perigo que havia ali. O medo que os Piratas causavam não era apenas pelo jeito bruto deles ou da arrogância, mas eles tinham o maior porte de armas da região. Todas em nível militar. Aos poucos o trio passou a ser um grupo que crescia cada vez mais. Atualmente, a maioria era formada por crianças que viviam pelas ruas. Eram levadas e ensinadas a conviver e sobreviver no mundo deles. 

  — Sério? Temos um acordo. — Kyle insistiu, caminhando para dentro do prédio contra a própria vontade. 

— Continua caminhando se não quiser que eu enfie uma bala na sua cabeça. —Um garoto ainda menor que o anterior cutucou Kyle com o cano da arma que carregava. Kyle murmurou um xingamento. 

— Isso é realmente necessário? — Tornou a falar, mas logo se arrependeu ao levar outro cutucão, dessa vez mais agressivo. — Puta merda. 

— Dá pra calar a porra da boca? — O garoto pediu, aborrecido. 

     Já estavam na metade do caminho.  Haviam adentrado o prédio e já podiam sentir o odor natural que aquele lugar emanava. Era escuro e tão frio quanto o lado de fora. A entrada era de um corredor que levava até uma porta de onde, há muito tempo atrás, teria sido a recepção. Kyle iria reclamar outra vez, mas pensou duas vezes e desistiu da ideia. Trocou um breve olhar com Wendy, que estava mais próxima dele. Ao atravessarem a porta no fim do corredor chegaram em uma sala pequena e abafada, com tanta fumaça empregada no ar que mal se podia respirar. Diferente do corredor, ali fazia calor. Muito calor. Era iluminada por uma luz azul que não alcançava os cantos da sala. A sala era espaçosa, porém, aproveitada na ocupação de estantes de metal que serviam de apoio para caixas e mais caixas; algumas com drogas fortes e outras com armas pesadas. Servia como uma espécie de deposito para armazenar a mercadoria que chegava para o tráfico.

                 No centro da sala havia uma mesa de madeira que ocupava um bom espaço, sobre a qual se encontrava não apenas armas de variados tamanhos, mas também drogas e cartas de baralho. A mesa era velha e desgastada como todos os outros móveis que existiam naquele prédio. Atrás da mesa, sentado sob a luz azulada que realçavam os pequenos detalhes do seu no seu rosto, fumando seu terceiro cigarro da noite, estava um homem de pelo menos 39 anos. Ele liberava a fumaça como uma chaminé, afastando o cigarro dos lábios e apoiando as duas mãos sobre a mesa. Os cabelos castanho e sujos, cortados de tal forma que parecia ter sido com uma navalha – e provavelmente foi. Usava um tapa olho, o que fazia Kenny sentir vontade de revirar os olhos sempre que o via. 

         Ele pigarreou e levantou-se. Kyle e Kenny se aproximaram mais da mesa. O homem se moveu com uma pequena dificuldade, mas deu a volta para ficar frente a frente com os dois. Uma garota que ficava de guarda de um lado da mesa se moveu cuidadosamente, provocando um barulho metálico graças as correntes que carregava envolta da calça, acionando o gatilho do fuzil. Tinha o cabelo de cor rosa raspado e usava uns óculos escuro. Ela parecia extremamente atenta ao que acontecia ao redor. O homem, que era claramente o líder do grupo, largou o cigarro em um pires de metal que apenas servia como cinzeiro. Estreitou os olhos e os mirou primeiramente em Kenny, indo para Kyle e Stan, segundos depois. Surpreendendo Kenny, pôs o braço envolta do pescoço do loiro, deixando-o em uma posição completamente desconfortável.

— Kenneth! — Exclamou, rindo uma risada rouca. — Engraçado ver vocês por aqui, eu queria tanto bater um papo rápido. - Se afastou um pouco do resto do grupo, olhando brevemente para outros antes de voltar a conversa apenas para Kenny. Este parecia genuinamente curioso. 

— O que você quer? — Se pôs de frente para o homem. - Achei que deixaria o caminho livre pra gente, não foi esse o acordo? — O homem concordou com a cabeça imediatamente. O loiro notou que o gesto aparentava estar relativamente zangado e forçando um otimismo que não existia. 

— Você tá certo. Mas não é disso que se trata. — Ele passou os dedos, que eram cheios de anéis chamativos de diversos tipos e tamanhos, na barba rala.  

              Standish era um homem com uma personalidade peculiar que deixava qualquer um a temê-lo, o que não era o caso de Kenny ou qualquer um do grupo. Já as pessoas que conviviam com ele tinham muito o que temer. Extremamente controlador e adorava intimidar quem sentisse que fosse uma ameaça. Mas a verdade é que, quem o conhecia numa proximidade tão íntima como os Saqueadores conheciam, ele poderia ser uma companhia agradável quando se tinha uma garrafa de vodka na mesa.  

— Meus garotos têm visto vocês com bastante frequência por essas bandas ultimamente. —Usou um tom casual. 

     Kyle resolveu se sentar em uma cadeira que tinha grandes chances de desabar que chegou a ranger quando ele se sentou, assistindo à cena com um olhar curioso. Kenny, desconfiado, soltou um suspiro baixo. 

— Aonde você quer chegar? — Cruzou os braços, confuso.  O homem deu alguns passos para trás, tirando um cigarro do bolso do casaco verde, abarrotado e surrado. Pôs o cigarro na boca. 

—As coisas têm ficado um pouco esquisitas por aqui, sabe? — Tirou um isqueiro do bolso e o levou até o cigarro, conseguindo acendê-lo apenas depois de quatro demoradas tentativas. — Semana passada, eu recebi um presente misterioso. Ele apareceu na minha porta do dia pra noite. — O cigarro complicava sua fala, embora não houvesse dificuldade em compreender o que ele dizia. Ele o tirou da boca e manteve entre os dedos, soltando a fumaça e a observando se dissipar no ar. Voltou a falar, gesticulando as mãos. — Um presentinho tóxico.  

       Ele estalou os dedos e, com certa precisão, um garoto coberto de sujeira e talvez até merda de algum animal, com trapos cobrindo o corpo - como todas as crianças ali pareciam ter -, de cabelos igualmente imundos, chegou mais perto. O garoto sempre estava pelos arredores, encolhido num canto qualquer como um bicho do mato; por diversas vezes Kenny já ouviu o chamarem de DogPoo, e não era do jeito apelido amigável. Ele entregou para Standish um frasco de vidro. Estava vazio, mas ainda exista resíduos do líquido que já chegou a ocupar o pequeno frasco. Standish o tomou em mãos e o balançou. 

—O que é? — Craig chegou mais perto, pela primeira vez interessado no que acontecia ao redor.  Deixou o cigarro de lado por um instante. Standish jogou o frasco nas mãos dele, que se espantou, mas segurou firme no objeto frágil. 

— Não reconhecem? — O homem caminhou de volta para a mesa e sentou na quina, fumando seu cigarro.  — Têm certeza? 

— É a primeira vez que vejo um desses. — Kyle tomou o frasco das mãos de Craig antes que ele terminasse de analisar. Removeu a rolha e aproximou o vidro no nariz, inalando o cheiro químico e doce do líquido. Ao mesmo tempo em parecia cheirar a algum produto químico, ele era mesclado a um aroma doce e suave, como uma fruta. Ao sentir o cheiro, ele torceu o nariz e afastou o objeto do rosto, tossindo três vezes antes de tornar a falar. – Merda. O que tinha aqui? – Jogou o frasco para Kenny.

– Baahir. – Standish se curvou para trás, chamando pelo nome em voz alta. Um homem alto, de pele parda e cabelos crespos e pretos cuja eram raspados na lateral, que estava de guarda na porta que levava a um corredor. Tanto a expressão séria que esboçava quanto o tamanho dele era intimidador. Baahir assentiu com a cabeça e atravessou uma porta que ficava em um canto da sala onde era desprovido de iluminação decente. 

        Kenny aproximou o vidro do rosto e o balançou, assistindo ao resíduo se mover por dentro. E Baahir voltou quase um minuto depois; dessa vez, era visível uma silhueta de um outro ser humano em seus ombros. Estava inconsciente e seu corpo se movia como um boneco a cada passo de Baahir.  Ao chegar no centro da sala, onde todos estavam, ele o tirou do ombro e o lançou no chão frio. O corpo se moveu com o impacto.  Estava vivo? Kyle não sabia o que estava acontecendo, mas se levantou da cadeira para ver o corpo mais de perto. Até mesmo Stan desgrudou dos armários de estrutura metálica para ver o corpo. Logo, todos formavam um círculo mal construído em volta no garoto que se contorcia no chão.

      Ele não era muito alto, parecia mais uma criança. Os cabelos loiros tinham uma franja que cobria boa parte do rosto na posição em que se encontrava.  Seus olhos estavam abertos, a pele pálida (quase roxa), a boca e aberta e ressecada. Dos olhos, ouvidos do nariz e da boca, sangue jorrava sobre o que já estava seco.  Estava de bruços com a bochecha sendo pressionada contra o chão sujo. Todos o reconheceram. O garoto se chamava Bradley e tinha apenas 16. Sempre usando uma camisa por cima de outra com manga cumprida e a calça marrom, tinha os lábios finos como a pele frágil, e uma energia animadora que era incomum de se encontrar naquele ambiente. 

   O olhando assim, naquele estado completamente imóvel, todos teriam certeza de não se tratava de nada além de um cadáver. 

            Kyle separou os lábios, pronto para dizer algo. Iria questionar sobre o porquê do cadáver de Bradley estar ali e como isso havia acontecido, porém repentinamente, ele se mexeu. Bradley moveu seus dedos de maneira, fazendo todos recuarem discretamente. O que tornava a cena perturbadora era o fato de que ele não respirava, nem mesmo piscava. Poderia ser claramente declarado morto. Todos continuaram a observá-lo com atenção, exceto Standish, que parecia não se importar com aquilo. Agora sem mais movimentos, sangue começou a escorrer da sua boca e das narinas.

— Ele tá morrendo? — Stan questionou o que todos queriam saber. 

— Talvez. Ele passa algumas horas como um cadáver, e uma vez ou outra mexe os dedos. Mas não passa disso. — Standish respondeu. Nesse momento, Bradley moveu o dedo indicador apenas, seguido de um suspiro alto e desesperador, o único até agora, voltando para o estado vegetativo anterior. — Ou disso.

— Isso deixou ele assim?! — Kenny ergueu o frasco. 

— Por que ele bebeu? — Wendy soou intrigada, sentindo um desconforto no estômago ao ver Bradley naquele estado. 

— Eu não sei. — Foi a frase mais sincera que disse até então. — Esse frasco é usado na distribuição de uma droga nova, popular. — Que ele consumia diariamente. Para Standish, ela tinha um efeito medicinal que diminuía o cansaço e acabava com a enxaqueca crônica em uma velocidade surpreendente. Embora o real objetivo dela fosse criar falsa autoconfiança, isto é, após consumir a droga, você poderia saltar de um prédio acreditando que iria sobreviver por mais alto que o prédio fosse, porque confia em si mesmo o suficiente a ponto de praticar qualquer ato de estupidez. Mas isso não vem ao caso. — Essa era minha dose. Bradley trouxe. Mas tinha algo diferente na textura, na cor... Me lembrei de um veneno que estavam criando, que te atrai pelo cheiro ou algo assim. — Contava, olhando para um canto qualquer sala. —Tentaram me matar, porra! — Alterado, ele se virou para o corpo de Bradley no chão, estava sangrando.  Isso causou uma ardência dentro de Kyle. — Eu devolvi o frasco pra ele e disse pra se livrar, depois sumiu da minha frente. Quando o encontramos, já era tarde. 

Kenny moveu a cabeça para encarar o homem em uma expressão séria.  

— Se o veneno atraía pelo cheiro, sabia que não era seguro.— Standish mostrou não se importar com tais palavras. Caminhou de volta para perto de Kenny, olhando-o nos olhos. Kenny lançou um olhar desafiador, erguendo ainda mais a cabeça. 

— Eu não dou a mínima. — Sim, ele dava. — Eu tô aqui pra ensinar essas crianças a se defenderem, e não a como não cometer suicídio. Se quer culpar alguém, — A distância entre ambos rostos era curta. Kenny podia enxergar a mancha amarelada em seu olho e um sinal que tinha próximo à sobrancelha. — Culpa o filho da puta que trocou a droga por veneno. —Kenny, sabendo que aquele era seu limite e não poderia fazer nada sobre isso, apenas aceitou as palavras, porém não tirou os olhos da figura de Standish. Cartman ainda não estava sóbrio o suficiente para digerir o que acontecia em volta, ele abaixou a cabeça, franzindo a testa e murmurando palavras inaudíveis para si mesmo. Fechou os olhos e balançou a cabeça.

— Tá dizendo que a gente fez essa merda? — Perguntou, alterado. Estava claro que era exatamente o que Standish insinuava. Afinal, era o motivo de estarem ali. Standish não respondeu, apenas esperou Cartman prosseguir. — Isso não faz sentido, cara. 

— Eu só tô checando. Fica frio. — Levantou as mãos em rendição, abrindo um sorriso petulante gradativamente no canto dos lábios.  Cartman adotou a seriedade no seu semblante, como todos ali. — Vocês passam bastante por nesse lado, só pensei que talvez houvesse algo que quisessem me contar. Antes de tudo, por que não uma conversa pacifica? Todos merecem uma chance. 

— Standish, você pode desconfiar o quanto quiser, mas sabe melhor que ninguém que isso não é o tipo de coisa que a gente faria. — Kyle defendeu. 

     A acusação era ridícula perante a relação dos Saqueadores com os malditos Piratas; a gangue eram sim uma grande ameaça a qualquer ser vivo desse país, mas havia um tratado de paz selado com companheirismo entre os dois lados – até onde poderia se considerar companheirismo uma vez que se conhece como os Piratas atuam.  Estaria Standish paranoico a ponto de duvidar da fidelidade entre eles? A tentativa de assassinato ao líder dos Piratas havia atingido determinado ponto da reputação dele, de quem eles eram, mesmo que o assunto não tivesse deixado aquelas quatro paredes. Atingiu o orgulho de Standish e a ideia que ele mesmo criou de que ninguém jamais tentaria passar por cima deles. 

          Ele pôs a mão no obro de Kenny, dando um leve aperto, direcionando um sorriso mais leve, diferente dos que se formaram em seus lábios durante todo o momento. 

— Eu entendo, Kyle. Eu não só posso, como espero estar errado. — Disse cautelosamente. —Kenny é um dos garotos mais honestos que eu já pude conhecer nesse sanatório de crianças sanguinárias que é esse país.  Eu confio nele. — Kenny engoliu seco ao sentir o tamanho da desconfiança do outro em suas palavras. — Apesar de que... Bem, haja certos psicopatas genocidas entre vocês. - O olhar foi certeiro em Stan. Marsh correspondeu com um olhar frio sobre as palavras de Standish, que gradativamente se tornou um sorriso de canto debochado. — Eu só quero garantir que o meu território permaneça seguro, sem nenhum engraçadinho de merda tentando atrapalhar meus negócios.  

— Escuta. — Kenny chamou em direção a ele, ganhando, novamente, a atenção do homem. — Você tá procurando no lugar errado.   

               Bradley reagiu mais uma vez, sugando o ar frio pela boca, emitindo um ruído que fez com que todos voltassem a atenção para o seu corpo convulsionando no chão. Foi a primeira vez que isso aconteceu. Seus olhos se reviravam e a cabeça batia constantemente no concreto, a quantidade de sangue que escorria da boca e do nariz havia dobrado e as mãos tremiam como todo o resto do corpo. Ele estava sofrendo. Estava sendo corroído em uma morte vagarosa por algo que eles desconheciam. De todas as formas de envenenamento que conheciam, essa fora a mais agressiva e sangrenta. Como se seus órgãos estivessem entrando em colapso. O peito de Kenny se apertou ao vê-lo deteriorar daquela forma.

                     Standish não assistiu aquela cena por muito tempo: levou a mão as costas, trazendo com ela uma arma de fogo e destravou o gatilho num movimento tão repentino que fez Kenny recuar com três passos para trás, logo fazendo com que os outros erguerem seus corpos, deixando os músculos tensos. Antes que pudessem raciocinar o que ocorria na frente deles, Standish atirou. Um tiro certeiro na testa do garoto que sofria no chão, dando fim a isto. Mesmo que parecendo um ato agressivo e repugnante, havia uma boa intenção ali: misericórdia. 

     Não se sabe por quanto tempo ele permaneceria naquele estado lastimável. Semanas, talvez anos até que chegasse à morte. Pela primeira vez, Standish se mostrou fragilizado diante da situação, quando encarou o corpo completamente sem vida de Bradley no chão frio, com uma bala entranhada na cabeça. Ele piscou várias vezes e deixou escapar um suspiro pesado. Embora ainda persistisse a rigidez em seu traço, os olhos mostravam-se completamente incomodados com a cena. Guardou a arma de volta na cintura.

— Se isso acontecer mais uma vez, ele pode não ser o último. — Concluiu, com um tom morto. Voltou para seu cigarro, andando em direção a mesa e se sentando novamente na cadeira em que estava antes de tudo. — E vocês não são os únicos descontentes aqui.

        

              A atmosfera tensa instalada naquele lugar começou a se dissipar quando Kenny, em passos ágeis e furiosos, deixou a sala sem qualquer palavra, batendo a porta eventualmente. Logo Cartman se moveu de maneira arrastada para fora, com uma expressão desanimadora e genuinamente confusa. Wendy o seguiu, dando uma última olhada no corpo de Bradley antes de atravessar a porta.  Pip e Craig fizeram o mesmo, todos em silêncio, pois não haviam mais palavras a serem ditas a esse ponto. Kyle foi por último, com semblante sério, chegou a atravessar a porta.  Standish o chamou em um tom não muito baixo, mas que dali não escutou muito bem. Kyle parou e se virou, esperando que ele prosseguisse. 

— Você conseguiu, não conseguiu? — O ruivo, sabendo do que se tratava, fixou os olhos na mochila atravessada que carregava naquela noite, abrindo-a em seguida. 

      Caminhou de volta para a mesa de Standish enquanto revirava a bagunça que havia lá dentro. Ao encontrar a pedra, o objeto que tomou para si no banco no dia anterior, encarou-a por breves cinco segundos. Passou o polegar sobre o material valioso que a compunha, vendo seu brilho refletir a iluminação acima da mesa. Mordiscou o lábio com uma expressão incerta, mas o acordo era aquele. Kyle entregou em sua mão. Em outras circunstâncias, ele sorriria e dispensaria a presença de Kyle em seguida, mas apenas pegou o objeto e assentiu com a cabeça. 

     Caminhando de costas, o ruivo segurava a alça da mochila e deixava o espaço, evitando olhar para o cadáver no chão. Agora, que estava no corredor, acompanhava os amigos que continuavam a sua rota para o bar, sob os olhares de membros armados da gangue. 

              No lado de fora do prédio, Damien ainda aguardava em sua forma de corvo, sentado inocentemente em um galho de uma árvore morta que um dia crescera aos arredores da estrutura de concreto. O olhar do pássaro explorador agora se fixava em apenas uma direção, em um alguém específico.  O homem sentado na mureta que se erguia entre as ruínas, ao lado do prédio. Curiosamente, também encarava o corvo na mesma desconfiança que era encarado, como se o animal estivesse prestes a fazer algo que requeria sua atenção.  Inclinou a cabeça graciosamente, tirando o cigarro dos lábios. Era um animal curioso para Christophe, diferente que qualquer outro corvo que ele já vira. Era esperto, não havia nada de animalesco em seu jeito, principalmente em como prestava atenção em na sua figura. Corvos não passam tanto tempo encarando uma pessoa desconhecida como esse fazia.

         Em um movimento brusco, o corvo se moveu, soltando-se do galho naturalmente. Christophe seguiu o seu voo com o olhar, vendo até aonde iria. Não estava indo para longe, o voou era baixo e descia gradativamente, chegando em seu objetivo. Para surpresa do Toupeira, esse objetivo era o ombro direito de Kyle, e só então percebeu que o jovem de cabelo alaranjado e armado, o encarava na mesma intensidade que ele encarara o pássaro momentos atrás.  Levou alguns segundos para reconhecer Kyle, e quando isso ocorreu, um sorriso pequeno e quase imperceptível, brotou ali. Ele desceu da mureta e lançou o cigarro contra o chão, o apagando com a sola do sapato. Ainda com os olhos fincados em Kyle, ele seguiu caminhando para a rua, despreocupado. 



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