História Um é melhor que dois - Capítulo 3


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amor, Drama, Luto, Morte, Romance
Exibições 4
Palavras 1.559
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 10 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Obrigada por existir


Caro Mike

Minhas cartas são curtas porque sou uma pessoa direta e não há razão para rodeios. Você está melhorando e sei que é capaz de sentir o calor do meu corpo próximo à sua cama, embora não o reconheça. Também pode sentir minha mão na sua e talvez até mesmo ouvir meus sussurros, que pedem em orações desajeitadas que você acorde logo. Sinto que já somos grandes amigos e por isso você será o primeiro a saber: decidi estudar geografia. Eu sequer sei as capitais de cada um dos estados do nosso país, mas posso aprender. Quem sabe você, depois de recuperado, seja um dos meus professores?

As aulas começam semana que vem e eu já consegui uma vaga no dormitório da faculdade. Em breve farei a mudança e poderei estar mais perto de você. Já ensaiei minha apresentação, mas descobri que também estou preparada caso você não queira minha amizade. Porque o que eu realmente quero é que você seja feliz, com ou sem mim.

Obrigada por existir.

Tess.

 

Um dia depois de enviar a última carta, recebi uma ligação. Meu pai pareceu preocupado, pois eu estava recebendo a ligação de um hospital. O tranquilizei dizendo que devia ter havido algum problema administrativo e, enquanto corria na direção do telefone, imaginava que desculpa o daria em seguida. Odiava mentir para eles assim, mas sentia que aquela era uma história que só pertencia a mim e a Mike. Era nosso segredo e a única coisa que nos conectava, e por isso era tão preciosa para mim.

Algumas palavras denunciam todo o discurso que está por vir. É preciso ouvir uma ou duas para saber exatamente o que será dito, e a maior parte desses clichês se encontra no mundo médico. Provavelmente porque falar sobre a vida das pessoas e o seu estado é algo extremamente delicado, até mesmo para quem dá a notícia, e é mais confortável se apoiar em mensagens prontas. Naquele momento, eu odiei aquelas palavras. Odiei a forma com que foram ditas, e até mesmo a compaixão nelas. Eu queria sinceridade. Qualquer resquício de humanidade, que me fizesse acreditar que a vida dele não era só mais um número, ou mais um nome no relatório de óbito. Que ele existia fora de mim.

- Sinto muito dar essa notícia, senhorita... Mas o paciente Mike... – eu ouvia as frases cortadas. Parecia ser capaz de escutar apenas os clichês. – Ele infelizmente não resistiu...

Eu nunca entendi exatamente o que aconteceu. Ele parecia estar melhorando. Escutar aquela notícia a princípio não seria nenhuma surpresa para mim, considerando seu estado gravíssimo. Nunca tive coragem de perguntar a causa da morte, nem me interessava saber. Achei ter ouvido a secretária explicar que o mesmo tio que cuidava de sua internação estava tomando as medidas, e que o corpo logo seria liberado para o velório. Mas não tive certeza, pois notei que havia tirado o telefone da orelha, e que ele agora pendia da minha mão, quase caindo no chão.

Também notei que havia andado um quarteirão. A realidade me atingiu e eu me recompus, desligando o telefone e respirando fundo, dizendo a mim mesma que devia voltar para casa. Pensar em todos os planos que vinha construindo, em toda a esperança que eu sentia sempre que segurava sua mão, preparando-me para o momento em que ele a apertaria de volta... Não passavam de ilusão. Esses momentos nunca chegaram. E talvez fosse isso que me devastasse mais.

Quando voltei para casa, meu pai estava alarmado. Perguntou onde eu tinha ido, e eu disse que à padaria. Ele perguntou por que eu havia levado o telefone e eu ri. Ri tanto e tão alto que consegui convencer até a mim mesma de que estava bem. Ele fez piadas com a minha falta de atenção e, distraído, esqueceu-se de perguntar sobre o telefonema. Quando cheguei ao meu quarto, meu rosto inteiro parecia tremer. Mas disse a mim mesma de que aquele não era o fim. Era só o começo.

Naquele dia, não disse nada a ninguém. Mas depois não pude mais esconder o que tinha acontecido, dadas as complicações legais, já que o homem que eu atropelei tinha falecido. Minha mãe foi a única a saber e me ajudou a evitar que o restante da família ficasse sabendo também; eu não queria preocupá-los. Ela nunca me questionou nem pediu por motivos, ou nunca sequer tocou no nome de Mike desde que soube. Foi então que me dei conta de que havia confiado na pessoa certa: a única que respeitaria nossa história.

No jantar daquele mesmo dia, contei aos meus pais sobre a mudança de curso. Eles pareceram chocados, e minha mãe chegou a me dar uma bronca, dizendo que eu devia ter perdido o juízo. Mas eu os convenci de que era o que eu queria, e de que era o certo para mim. Durante meus últimos dias em casa, passei cada segundo acompanhada de alguém. Não só porque sabia que sentiria falta da minha família cada segundo do dia de agora em diante, mas porque eu precisava de amor. Uma pessoa rodeada de amor é incapaz de ficar deprimida.

Não fui ao velório de Mike, nem ao enterro. Não porque estivesse triste, mas porque tive medo. Medo de que alguém soubesse quem eu era e me julgasse, e eu não poderia suportar receber a culpa daquela morte. Essa foi uma decisão da qual me arrependi amargamente mais tarde, quando imaginei o cemitério completamente vazio, assim como o quarto de hospital. Nenhum cartão, nenhum presente, nenhum telefone... Nenhuma sombra de preto, nenhum choro, nenhuma flor jogada ao caixão... Apenas solidão. Eu não estive lá por ele naquele momento, mas prometi que estaria em todos os outros. Eu compensaria toda e qualquer solidão que ele um dia já sentiu. Não deixaria de pensar nele por um só minuto. Faria com que ele continuasse para sempre vivo dentro de mim.

E então, num piscar de olhos, o dia da mudança chegou. E eu parei de andar em direção a um caminho que não tinha volta. Comecei a correr.

 

Olhei uma última vez para a minha parte do quarto. A cama com lençóis da cor lilás, minha mochila de bolinhas dependurada na cabeceira, a escrivaninha branca com alguns dos meus cadernos, o computador, um porta-retratos com a foto da minha família e, na parede, uma pequena estante com meia dúzia de livros que meu pai fez questão de tirar de sua biblioteca especial e dar a mim. Clara, bonita e organizada, o completo oposto da outra parte do quarto, que tinha a cama com lençóis amassados, mochila e cadernos no chão e alguns CDs empilhados. De qualquer forma, minha companheira de quarto quase não ficava ali, e por isso, quando eu organizava suas coisas, elas permaneciam em seu lugar, quase como se aquela parte do quarto fosse inabitada.

Mila era como ela se apresentou. Notei que tínhamos personalidades completamente diferentes assim que a vi. Ela tinha os cabelos tingidos de loiro nas pontas, era gordinha e adorava roupas bastante urbanas, como calças rasgadas e camisetas com estampas divertidas. Cheirava fortemente a cigarro. Disse que nos daríamos bem e eu tinha certeza disso. Eu era uma pessoa de fácil convivência e, apesar de nossas diferenças, ela parecia ser uma menina legal. Conversamos por alguns minutos, nos conhecendo melhor e estabelecendo regras. Ela deixou que eu ficasse completamente com a escrivaninha, alegando que não gostava de estudar, tampouco no quarto. Combinamos de que ela não fumaria ali dentro e também de que cada uma ficaria responsável pela limpeza de suas próprias coisas. Assim como eu, ela também era uma caloura, do curso de fisioterapia. Ao desempacotar suas coisas, ela apenas as jogou no guarda-roupa, dizendo que preferia passar o dia passeando pelo campus e conhecendo gente. Eu passei a tarde inteira organizando meus pertences, que não eram tantos assim.

Antes de sair, ela parou para observar outras fotos minhas que estava em cima da escrivaninha. Segurando uma delas, apontou para as duas crianças ruivas e sorridentes no meu colo. Havíamos tirado aquela foto no ano passado.

- Quem são? – ela perguntou com um sorriso no rosto.

- Meus irmãos mais novos.

- Ah é?

Ela sequer tentou disfarçar a cara de surpresa. Poderia explicá-la que eu havia sido adotada aos dez anos pela minha família, e por isso não me parecia fisicamente com nenhum deles. Mas não precisava. Além disso, me incomodava vê-la tão surpresa que uma garota negra tenha irmãos ruivos. Deixei que ela fosse fazer seu passeio.

Dormi cedo naquela noite, exausta com a mudança. Pela primeira vez na vida tive um celular, para que pudesse me comunicar com a minha família, e estava me acostumando a ele. Nunca fui uma amiga próxima das tecnologias. Conversar o tempo todo com meus pais e irmãos, mandando fotos, vídeos e mensagens e recebendo-os também me fazia me sentir menos sozinha. A verdade era que, para mim, suportar a saudade era extremamente difícil, não só porque nunca havia antes saído de casa ou porque era uma figura materna para meus irmãos, mas principalmente porque, até então, a minha família era o que guiava toda a minha vida e minhas escolhas. Eu vivia para eles, para fazê-los felizes.

E, pela primeira vez, havia decidido viver por outra pessoa. Por alguém que já não poderia viver mais, exceto através de mim.



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