História Um pequeno apartamento no Brooklyn - Capítulo 1


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Antigo, Homofobia, Solidão
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Palavras 1.722
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Heeey, meu primeiro post -solo- no spirit, espero que esteja bom hehe :3
Eu escrevi esse conto pra escola, aproveitei para corrigir uns errinhos de continuidade pra postar aqui, a proposta era falar de solidão e basear a história no quadro "Quarto no Brooklyn" de Edward Hopper (a capa ~.~)
Ah, como precisava ser um conto pequeno... Bem, ficou um conto pequeno.
Bom, leiam aí :)

Capítulo 1 - Solidão - Capítulo único


 Me lembro dos acontecimentos antecedentes da minha solidão incrivelmente reconfortante. Já era noite e eu colocava na quinta premiação do Oscar, enquanto o cheiro de chocolate quente que minha mãe fazia infestava todo o nosso pequeno apartamento do Brooklyn, já que tal evento aconteceu no 18 de novembro mais frio que eu já havia vivido. Meu irmão chegaria logo.

 - Mãe, o prêmio de melhor atriz vai ser entregue agora, rápido, é o que a senhora mais gosta! – Pouco tempo depois minha mãe vinha com duas xícaras nas mãos: a minha, azul ciano, e a dela, vermelha.

 - Helen Hayes ganhou? Marie Dressler se saiu melhor em “Emma”. – Dei um pequeno sorriso, escondido pela porcelana em minhas mãos, que fazia questão de manter perto de meu rosto para que a fumaça esquentasse ao menos meu nariz, só assistia a premiação para saber o vencedor de “melhor curta”, apenas conhecia Marie Dressler por ser a atriz favorita de minha mãe.

 - Sabe que horas Jonas chega hoje? Não me disse se iria se encontrar com Bill. – Minha mãe negou saber a resposta, no momento em que o citado entrou, fazendo-me desviar o olhar em sua direção.

 - Desculpem, me atrasei. O que perdi? – Ele perguntou, tirando os sapatos e sentando-se ao meu lado.

 - Marie perdeu o prêmio de melhor atriz. – Assim que acabei de falar, Walt Disney foi anunciado ganhador de “melhor curta” com “Flores e árvores”, desviei meu olhar de volta para o televisor. Esperamos a premiação acabar e fomos dormir.

 Amanheceu e como de costume eu acordei mais cedo que todos para preparar o café da manhã e o almoço de Jonas, alguns segundos depois de terminar tudo, ele entrou na cozinha, vestido para o trabalho.

 - Bom dia. – dissemos juntos e rimos pela coincidência. Passamos o resto do café em silêncio, até ele se levantar, se despedir com um beijo em minha testa e ir para fábrica. Jonas era dois anos mais novo que eu, mas era mais responsável. Foi procurar emprego assim que teve idade suficiente, sustentava a família, minha mãe, debilitada demais para muito trabalho, ficava em casa comigo, me ajudando nas tarefas. Assim que fiquei satisfeita, levantei-me, deixando a comida sobre a mesa para minha mãe tomar café quando acordasse.

 Já passava do meio dia, minha mãe lia uma revista, no sofá, e eu limpava a mesinha de centro.

 - Sarah, aqui diz que há uma garota revolucionando a moda, não usa espartilhos, Gabrielle Chanel, o que acha disso?

 - Maravilhoso! Esses espartilhos me deixam sem ar. – Ela não estendeu o diálogo e continuou sua leitura rotineira. Depois de alguns minutos em silêncio, ouvi algumas batidas na porta, ainda era cedo para ser Jonas e ele tinha as chaves, afinal. Andei até a porta e a abri, deixando o pano no balcão da cozinha pouco antes.

 - Mary mora aqui? – Um homem, pouco mais alto que eu, perguntou, olhos verdes tão claros como os de meu irmão e pele pouco rosada, como a minha. Pedi que esperasse, chamei minha mãe enquanto pegava o pano novamente, ia voltar a limpar a casa até que vi minha mãe travar, empalideceu, não ousava nem mesmo piscar.

 - Mark...? – Ela sussurrou, prendi a respiração por um momento. Mark era o nome do meu pai, aquele que nos abandonara quando eu tinha cinco anos, foram tempos difíceis até que meu irmão arranjasse um emprego, uma vez que o salário da costuraria que minha mãe trabalhava não podia pagar ao menos três pães, tirando o dinheiro do aluguel, claro. Passar fome foi um dos sacrifícios acometidos por minha mãe para cuidar de mim e do Jonas.

 - Vejo que conseguiu se virar sem mim, é uma bela moradia.

 Realmente, nosso pequeno apartamento era belo, a primeira grande compra com o salário razoável que meu irmão recebia no primeiro emprego, sala e cozinha separados por um balcão, uma parede com uma grande janela e um pequeno corredor ao lado, ligando tudo aos quartos.

 Minha mãe saiu do transe com tais palavras, virou-se e voltou ao sofá, com um convite mudo, um pequeno acenar de cabeça, para que ele a seguisse. Estava escorada no balcão, observando-os.

 - Vinte anos é muito tempo não acha Mark?

 - Claro que é, por isso, não vou adicionar mais anos. Não se preocupe, ajudarei com as despesas.

 - Não precisamos de ajuda, Mark. – Respondi, enfatizando seu nome, como se o estivesse insultando, ele não deveria ficar na nossa casa. – Jonathan já cuida disso, creio que tenha uma vaga lembrança de quem ele é. Com sua licença.

 Fui ao meu quarto, sairia para avisar Jonas sobre nosso pai, ele poderia insistir na estadia e tardar em nossa casa. Vesti um espartilho, uma saia longa, uma camiseta e calcei as sapatilhas, voltei a sala e peguei minha bolsa. Minha mãe parecia tensa com a conversa que, possivelmente, minha chegada teria encerrado.

 - Seu pai virá morar conosco, Sarah. – Previsível, conhecia bem o medo que ela sentia dele, ainda hoje não tenho a certeza concreta de seus motivos, além de que sempre cedia em momentos de tensão. Então apenas assenti com a cabeça e saí. Não é como se eu pudesse ir contra minha mãe, detinha muito respeito por ela e com certeza seus motivos eram plausíveis.

 Cheguei à fábrica que meu irmão trabalhava e, com um pouco de insistência aos seus superiores, consegui que lhe dessem uma pausa.

 - Sarah? O que foi?

 - O que foi não, o que há. Não pode levar o Bill em casa hoje. – Ele fez uma cara confusa e antes que pudesse questionar, de maneira afoita pela pausa extremamente curta que cederam, completei – Papai voltou para casa há uns minutos, não sei porque, mas ele vai morar conosco. Sabe que mamãe é muito tolerante, mas ele não. Vocês dois juntos lá me parece ruim.

 Ele pareceu surpreso e irritado com a notícia, com certeza, a volta de Mark nunca seria sinônimo de alegria.

 Depois da surpresa indesejada, nas semanas seguintes, muita coisa mudou. De fato tínhamos mais dinheiro o que permitiu à minha mãe uma permanente no cabelo; Jonas passou a ficar mais na casa de Bill, o que não foi de todo mal pois ele morava sozinho e teria companhia. Mas as consequências das bebedeiras rotineiras de Mark com certeza eram um empecilho impossível de se ignorar. Toda noite chegava em casa, mal conseguia ficar de pé e era agressivo, sempre gritando e distribuindo empurrões, lembro-me da primeira vez que tentou que tentou bater em minha mãe, seguidas de diversas outras tentativas, agradecia aos céus que nunca haviam passado disto, tentativas.

 - Será que ele finalmente desistiu de morar aqui? Quero que conheçam Bill logo, quero que ele experimente sua comida maravilhosa. – Eu e Jonas conversávamos na sala, ele repousava a cabeça em meu colo enquanto esperávamos por Mark, se dormíssemos ele poderia ferir alguém quando chegasse.

 - Acho que ele não vem mais, - Minha mãe, que estava assistindo televisão, pronunciou – daquela vez ele sumiu de madrugada também.

 - Ótimo! – tentei arrancar alguma emoção de minha mãe, foi falho – Jantaremos com Bill hoje à noite, vamos dormir.

 Eu e Jonas nos levantamos, minha mãe demorou um pouco mais, parecia imersa em pensamentos, foi a cômoda da sala, abrindo a primeira gaveta, tirou algo de lá e foi para seu quarto, pensava ser uma vela ou algo assim, não saberia, afinal eu apenas limpava a cômoda e não a mapeava.

 Acordei a tarde, por ter ido dormir de madrugada, meu irmão já estava no trabalho e mamãe ainda dormia. Decidi comer algo e começar a preparar o jantar. Mark não deu sinal de vida há mais de 24 horas, tudo correria bem.

 O horário do tão esperado jantar chegou, tudo estava pronto, estávamos a espera de Bill.

 - Deve ser ele – Jonas se dirigiu à porta assim que ouviu baterem, estava perceptivelmente nervoso com esse jantar. Após estarmos todos sentados à mesa, minha mãe advertiu:

 - Apenas cuidem com as palavras garotos, nossos vizinhos são fofoqueiros.

 Todo jantar correu bem, Bill era educado e culto, sonhava em ser escritor. Minha mãe lavava a louça, enquanto eu, Jonas e seu namorado estávamos no sofá, conversando. Ouvi batidas violentas na porta, me assustando, fui atende-la, esperando me deparar com algum vizinho irritado por motivos desconhecidos ou com o sindico. Ao abri-la, paraliso, vendo Mark encostado no portal, completamente bêbado, querendo entrar. Bill estava em casa, ele não poderia entrar!

 Depois da quinta vez que neguei sua entrada, ele me empurrou ao chão. Jonas levantou bruscamente do sofá, iam começar a discutir. Mas Mark notou Bill ali. Mandou que ele fosse embora, eram assuntos de família. Jonathan puxou nosso pai pra fora, aproveitando sua proximidade com a porta, encostada na parede.

 Assim que Mark foi expulso, recebi um abraço do meu irmão, ambos precisávamos desse abraço, que por mais curto que tivesse sido, transmitiu todo o cuidado e carinho que tínhamos um pelo outro. Voltamos ao sofá, Bill deu um abraço longo e carinhoso em Jonas, que lhe retribuiu com um selar, este que foi interrompido por um puxão. Mark estava dentro do apartamento, como ele entrara sem fazer barulho, não saberia dizer.

 - Era só o que faltava! Não admitirei essa pouca vergonha em minha casa! – Gritou, furioso. Desferiu um soco em meu irmão. Logo depois se dirigiu a cômoda da sala, primeira gaveta.

- Estava procurando por isso, Mark? – Perguntou minha mãe saindo da cozinha, com uma arma em mãos – Não vou deixá-lo destruir minha família.

 A tensão era palpável, o som das sirenes era estridente, algum vizinho deveria ter chamado a polícia. Antes que Mark pudesse ter qualquer reação, minha mãe atirou.

 Minha mãe foi presa, e meu irmão mal falado. Depois de alguns dias, ele decidiu ir à Europa com Bill, uma vez que não podiam correr o risco de serem descobertos. Acostumei-me a receber todo mês uma quantia razoável de dinheiro, enviada por Jonathan para sobreviver, afinal o único jeito de conseguir dinheiro em Nova York de 1932 seria com um marido, e casamento não me parecia algo muito atrativo, além das cartas trocadas em que lia, ou escrevia, páginas e mais páginas tentando detalhar ao máximo nossas vidas e sentimentos. Bill era, de fato, um exímio escritor. Por mais sozinha que pudesse parecer, estava feliz, no pequeno apartamento do Brooklyn.


Notas Finais


Bem, foi isso. Se você se deu o trabalho de ler aqui poderia aproveitar e comentar alguma coisa né? Ou não...
De qualquer forma espero que tenham gostado.
Beijos de luz porque de escuro já basta a falta de energia né?
Byyye


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