História Um Sopro de Liberdade - Capítulo 1


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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Romance e Novela

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Primeiro Capitulo


PRIMEIRO CAPÍTULO

 

 A dois passos de comemorar o décimo ano desde a cirurgia, eu me sentia um trapo, ou qualquer coisa parecida. Sei lá, a alegria na época do natal devia ser contagiante, mas eu não estava com paciência para aturar um rodízio de canções de criança. Acredite, sou a pessoa com mais motivos para odiar o feriado, mas não, não chega a ser ódio. E mesmo se fosse, não iria adiantar nada mesmo.

 Às vezes eu odeio a maneira como a vida se aplica. Dane-se.

 Umas das tarefas mais complicadas da cegueira é a adaptação. Por esse motivo, mamãe achou legal a ideia de contratar um professor particular e me tirar da escola. Eu poderia ter raiva dela por isso, por ter tomado essa decisão extrema sem me consultar, mas por um lado foi até melhor. Não gostaria de ser tratada como uma mutante que não sabe andar com as próprias pernas, ou ate mesmo ouvir as piadinhas sem graça do Honor. Devido a essas e muitas outras razões, meu convívio com a sociedade se resume na padaria e, uma vez por mês, o hospital.

 Você deve estar pensando: “Nossa, que depre”, ou ate mesmo “Coitada, dela”, mas a verdade é que sou até mais feliz vivendo assim. Acordo todos os dias às 8h, tomo meu café e assim em diante. Como uma pessoa normal.

 Mas, obviamente, meu índice de normalidade é um pouco mais restrito que os dos outros. Ir sozinha num show de rock? Nem pensar. Descascar uma laranja? Sem essa. Atravessar a rua? Nunca estou desacompanhada pra tentar.

 A proposito, eu tenho amigos, sim. Não muitos, mas tenho.

 O Daniel me visita de tempos em tempos. Na quarta série, se minha memória não estiver falhando, ele era um garoto baixinho e rechonchudo, de cabelos negros e lábios grossos. Ele tem um cheiro cítrico, acho que é menta misturada com outra coisa (sim, me preocupo com o aroma dos outros. Como não enxergo, tenho que reconhecê-los de alguma forma. Idaí?).

 A Rachel, por outro lado, continua a mesma, acho. Ela me liga todos os dias, e quando digo todos os dias, é literalmente. 365 dias por ano, sete vezes por semana e blábláblá. Geralmente nosso diálogo se resume numa coisa: sexualidade feminina. Falamos de sapatos que nunca posso ver ou comprar, garotos, roupas de grife, garotos, sexo, garotos, bandas de garotos... Rachel, com sua voz fina e cheiro de chiclete, é a irmã que eu nunca tive.

 Também tenho amigos importantes, como o Dr. Paul, o padeiro, a Prof.ª Elisa e uma ou outra enfermeira do hospital municipal. Amigos normais para uma adolescente de dezessete anos cega e sem expectativas para a sociedade.

 Normais... Há-há.

 Minha história poderia ser contada de maneira clássica: era uma vez uma doce menina, que vivia numa pequena cidade, ambas esquecidas pelo mundo. Um dia, uma bruxa chamada Câncer levou o seu bem mais precioso: os olhos. Simples, não é? Aplausos crianças.

 Eu devia tentar o stand up!

 

 Minha rotina esta afundando no poço da chatice. Estou cansada de ouvir rádio; de ficar sentada tempo o suficiente para dar calos no traseiro; ate ouvir minha banda favorita esta me dado nos nervos.

 - Mãe, quero ir à padaria.

 - O que quer fazer por lá?

 - Coisas de adolescente.

 - Tipo o quê?

 - Tipo... Comprar balas?

 A risada dela é suave com um elefante pulando corda. É contagiante.

 - Temos balas aqui na cozinha. Já levo aí.

 Suspiro alto, meio que tentando demonstrar o tamanho da minha frustração.

 - Essas balas já me enjoaram. – digo – Quero outras.

 - Esta bem – o plash!plash!plash! do chinelo dela indica a sua aproximação, como se ela quisesse ser notada – Vamos então?

 - Gostaria de ir, é, sozinha?

 Minhas bochechas esquentam, porque já sei a resposta dela.

 - Anna, nós vamos juntas. Sem chilique dessa vez.

 Não estou a fim de iniciar essa discussão, até porque sei que já a perdi mesmo. Mas decido demonstrar meu aborrecimento.

 - Não posso fazer nada mesmo.

 

 Quarenta e cinco minutos mais tarde, ou o que valha esse tempo contando com meu relógio biológico, o carro para e o som rouco da descarga furada é interrompido pelo tilintar do molho de chaves.

 - Se não me falha a memória, temos uma padaria na nossa rua – digo – ou mudamos enquanto eu dormia?

 Ouço o clack do freio de mão antes de ouvir a resposta.

 - Estava fechada. Além disso, tenho que comprar umas coisas.

 - Umas coisas? A duas semanas do natal? Entendi.

 Ficamos em silêncio um tempo, o suficiente para me deixar desconfortável. Talvez seja culpa da minha condição ou NLP, como os médicos chamam, mas não fico a vontade em lugares... Quietos demais.  Sinto-me presa aos meus sentidos ainda mais do que já estou.

 - Esta bem – tateio o tecido áspero do banco, buscando a trava do cinto de segurança. O toque no revestimento faz os pelos do meu braço se eriçarem. Quando a encontro, aperto o botão e solto a tira. – Vamos então... Ao supermercado?

 Ouço a mamãe suspirar.

 - Estive pensando no que você disse, e – dava para sentir o quão estava sendo difícil para ela -, acho que você devia ir à padaria do outro lado da rua. Sozinha.

 Viro o rosto na direção de sua voz.

 - Sério?

 - Sim. Mas não conte nada para o seu pai... – ouço o clique de cinto dela sendo solto – de qualquer modo, vou estar aqui de olho em você. - Abro os braços e sorrio quando ela me abraça, o cheiro adocicado do seu cabelo invadindo o meu nariz no mesmo instante.

 Sempre imaginei o quanto ela deve ter mudado ao longo dos anos, como o tempo fora generoso ou não com ela. O cabelo esta mais curto do que me lembro, e a voz, mais grossa. Até o cheiro natural dela esta diferente. O que eram flores agora são uma mistura de ervas e gordura. Imagino se ela tem rugas.

 - Obrigada, mãe. – digo, soltando-a. Monto minha bengala dobrável, coloco a pulseira desta no pulso direito e abro a porta do carro. Com a outra extremidade, descubro o leve declínio da calçada. Coloco um pé para fora, depois o outro e saio do carro, abaixando a cabeça para não bater no teto. Fecho a porta.

 A princípio, noto que, não muito longe a minha direita, pessoas conversam animadamente, rindo de uma piada ou qualquer coisa engraçada. Ouço um cão latir, um ruído surdo de metal, buzinas de carros. Respiro fundo. Sinto uma infinidade de cheiros, desde grama cortada ao fedor de lixo. Ando alguns passos para frente, tomando como nota tudo o que minha bengala indicar. Descubro a faixa para cegos no meio da calçada, mas não a tomo como um indicador (às vezes ela mais atrapalha do que ajuda).

 Ai percebo que devia tela usado.

 Tropeço em alguma coisa e caio no chão. Já experimentou um dia, cair de frente num colchão de olhos vendados? Sem saber quando ou como vai acertá-lo? É assim que acontece. Ondas de dor sobem ao meu cérebro quando meus joelhos tocam o concreto.

 - Você esta bem? – a voz é rouca, porém jovem.

 - Mais ou menos – o dono da voz me agarra o cotovelo e me ajuda a ficar de pé. A dor é suportável, então sei que apenas arranhei a pele. – Obrigada. – me desvencilho do seu toque e começo a andar.

 Ele me segue.

 - Não posso deixar você sair por ai desse jeito. – o cheiro dele é forte, salgado. A respiração irregular indica certo cansaço, como se estivesse fazendo uma corrida.

 Seguro a bengala com mais força.

 - Realmente não precisa...

 - Pelo menos me deixe acompanha-la – diz ele, e como não respondo, continua – Aonde quer ir?

 - Na padaria do outro lado da rua – digo – Só me ajude a atravessar.

 - Claro – ele responde – Posso? - Seus dedos ásperos pegam minha mão livre. Afirmo com a cabeça e ele eleva-a até o seu ombro. Pela umidade que toma meus dedos, sei que ele esta suado e sem camisa! Minhas bochechas esquentam – Vamos então?

 Deixo-me conduzir. Eu sei que deveria estar sendo cuidadosa com esse cara, mas ele me transmitiu certa confiança, além disso, eu ia mesmo precisar pedir ajuda para atravessar, e eu tenho uma bengala. Posso usa-la se preciso. Depois de esperar o sinal se tornar favorável, marchamos junto a uma massa de pessoas, conversando e clicando seus sapatos no concreto numa música bizarra. O rapaz me avisa do degrau da calçada e eu largo o seu ombro.

 - Obrigada.

 - Disponha – diz ele – Posso acompanha-la até o seu destino?

 Ãhn?

 - Realmente não teria a necessidade...

 - Acho que deveria aceitar – ele tem um hálito fresco, acho que é hortelã -, se não sua tia vai ter um AVC.

 - Minha tia?

 - É. Tem uma mulher do outro lado da rua, num Gol preto, que não para de olhar pra cá. Ela parece assustada. – o sangue ferve nas minhas bochechas.

 Mesmo com o barulho dos carros, a dor na mão esquerda e joelhos, posso imaginar o que a mamãe deve estar sentindo agora. É de admirar ela não ter se intrometido e me arrastado para casa.

 Ela esta dando o espaço que você queria, diz minha mente.

 Suspiro e sorrio.

 - Esta bem. - Ele torna a pegar minha mão, mas desta vez, entrelaçando seus dedos nela. Uma pequena fisgada de dor me faz franzir as sobrancelhas. Quem nos olhar agora vai jurar que somos namorados. Minhas bochechas esquentam, e rezo para que o rapaz não perceba a reação estranha que meu corpo tem ao seu toque.

 Ele me avisa de uma escada e eu subo devagar cada degrau.

 - Chegamos! – anuncia, e eu sei que ele esta falando a verdade.

 O ar abafado borbulha num cheiro maravilhoso, que dança entre o doce e o salgado. A mistura desses me faz lembrar a casa da minha avó, nos períodos de inverno. Passamos por um jato de vento que julgo ser o ar condicionado da porta e nos encostamos (eu, pelo menos) numa superfície dura, acho que é o balcão.

 - O que vai pedir? – é a pergunta dele.

 - Balas.

 A risada dele é a única coisa que escuto, a não ser pelo barulho de talheres. Inspiro fundo.

 - Henri! – chama ele.

 - Gab, meu rapaz! – a voz me pega de surpresa, vinda da direita. É áspera, como se o dono tivesse ingerido cacos de vidro no lugar de batata frita. – e acompanhado! Qual o seu nome, minha jovem?

 - Anna – respondo.

 Um silêncio se prolonga por uns instantes.

 - Henri, ela é... – o rapaz, Gab, parece desconfortável, como se temesse me ofender. Gostei disso.

- Cega? – digo indiferente. Entenda, eu não me importo de ser chamada de cega, ceguinha, essas coisas. Não me ofende. Pense como é ser chamada de “Deficiente visual”, ou “Portadora de necessidades especiais”. É tão estranho quanto é difícil de falar.

 - Desculpe, não tinha visto a bengala – diz o atendente.

 - Sem problema – ergo minha mão no ar, e, como eu esperava, ele a aperta com a sua – É um prazer conhece-lo.

 - Digo o mesmo – deixo minha mão pender ao lado do corpo, ignorando a leve ardência na palma que se inicia. – O que vão querer?

 Enfio a mão dentro do bolso e tiro de lá uma nota de dinheiro e umas moedinhas que a mamãe me deu antes de sairmos. Coloco tudo sobre o balcão.

 - Balas de abacaxi – digo.

 Gab aperta a minha mão, que eu me esquecera de estar entrelaçada com a dele.

 - Um cupcake pra mim – diz ele.

 - É pra já! – ouço o atendente se afastar e solto a mão de Gab, debruçando pelo balcão, com a bengala esmagada sobre a perna.

 - E então? – Gab começa – O que faz uma garota bonita como você sair de casa para comprar balas?

 Poderia ser grosseira e despistá-lo, ou ate mesmo ficar quieta, mas ele já ulrapaçou o limite de ajudas para deficientes por hoje. Merece esse voto de confiança.

 - Necessidade.

 - De açúcar?

 - Não! – sorrio – De sair. Não faz ideia de como é chato ficar presa em casa por causa do medo que os outros têm por você. Quero mostrar que posso mais, entende? Expandir meus horizontes.

 - Boa essa sua filosofia – nem sei por que contei isso a ele, um completo estranho, mas estou me sentindo mais leve depois de confiar isso a alguém – Mas esse seu plano rebelde contava com tropeçar num hidrante?

 Um hidrante? Como não o toquei com a bengala?

 Ah, verdade. Êxtase de liberdade.

 Sorrio.

 - Não!

 Ele também ri.

 - Isso me lembra... Deixe-me ver sua mão – faço o que ele pede – Posso passar Mertiolate?

 - Você anda com um vidro de Mertiolate no bolso?

 - Não... Eu ando com um vidro de Mertiolate dentro da minha pochete. Nunca se sabe quando vai precisar. – ele passa o dedo sobre o arranhão, estremeço um pouco – Vai me deixar passar ou não? Prometo que não vai arder.

 - Há-há... Conheço essa história.

 Acabando concordo com a ideia. Não que meu machucado seja realmente grave, mas também não quero ser grossa. E, devo admitir, estou adorando toda essa atenção.

 O quê? Também tenho hormônios.

 - Pronto – diz ele, depois de, pelo que me parece, ter colado uma tira adesiva de plástico na palma da minha mão.

 - Vou sobreviver, doutor? – imito um sotaque francês bem meia boca.

 - Você tem grandes chances.

 Rimos juntos, como se fossemos velhos amigos.

 

 Voltar para o carro, com um pacote de balas amassado entre os dedos de uma mão e a bengala, e com a outra no ombro nu de Gab, foi o ponto alto do meu dia. Apesar de rápida, minha pequena aventura pelas ruas da cidade ascendeu em mim uma chama que julgo não ter recursos o suficiente para apagar. Posso senti-la se espalhar pelo meu corpo, inundando-o com seu calor e adrenalina. Mal posso esperar pela próxima.

  Espera aí, o quê?

 Gab tira a minha mão do seu ombro e me guia até onde ele diz estar o carro da mamãe.

 - Foi um prazer, LH. – despede-se ele.

 - LH?

 - Louca do Hidrante.

 Sorrio.

 - Também foi um prazer, Corredor do Mertiolate – rimos juntos e ele se afasta.

 Abro a porta do carro, dobro a bengala e entro. Nem engato o cinto e mamãe já começa a falar.

 - Você esta bem? Pelo amor de Deus, Anna, você quase me matou de susto! – ela para e toma fôlego – Quem era aquele?

 Abro o pacote de balas e jogo uma na boca antes de responder:

 - Ele me ajudou a atravessar a rua.

 - É bonito.

 - Mãe! – ela gargalha alto, o que me faz sorrir também, apesar de estar morrendo de vergonha. – Não se preocupe, não vai rolar nada.

 Ela pega a minha mão machucada e vira a palma para cima.

 - Eu não apostaria nisso se fosse você.

 - Ah, é? Por quê?

 - Por que o número dele esta anotado no Band aid na sua mão!


Notas Finais


Devo agradecer a muitas pessoas, mas principalmente a você, que tirou um tempinho para ler essa história. Origado, espero que tenham gostado!


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