História Um Sopro de Liberdade - Capítulo 2


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Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Romance e Novela

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Segundo Capitulo


SEGUNDO CAPÍTULO

 

 - Anna! – a voz de Rachel esta fantasmagórica com o chiado do telefone, como um zumbi adolescente ou qualquer coisa parecida. Ela esta tão empolgada com o caso de Corredor do Mertiolate (eu não consigo chama-lo pelo nome, tá legal? Não tenho culpa se o sal do suor dele afetou meu cérebro) quanto à mamãe, e isso não é uma coisa boa – Você já ligou?

 - Claro que não – digo, tentando parecer casual. Meu contato com aquele garoto, embora rápido e prematuro, deixou certa instabilidade no meu estômago. Se estou sentindo borboletas revirarem as minhas tripas? Acho que são abelhas – Ele só me ajudou a atravessar a rua, nada demais.

 Nem eu acreditei nessa frase.

 - Mas ele te deu o número do telefone dele – Rachel esta obsessiva, como se, pela primeira vez, lhe caísse à ficha de que o mundo dos homens não gira em torno dela – Me parece óbvio que pintou um clima.

 Aquilo me fez refletir. Será mesmo que aquele garoto estava interessado em mim? Será que sou atraente a ponto de chamar-lhe a atenção?

 - Esquece isso, Rachel.

 - Ah, agora vai bancar a difícil? – às vezes me esqueço de que ela é tão teimosa quanto um leão atrás de um pedaço de carne – Não precisa fingir, pra mim pelo menos não. Dá pra ver que o interesse é recíproco.

 - Primeiro: o que é recíproco? – digo – e segundo: não dá, não!

 Ela ri.

 - Viu? – outra gargalhada – Esta amarradona.

 Começo a sentir fisgadas de dor tomar minhas têmporas. Estresse ou toda essa situação, não sei. Mas se vou tomar partido sobre esse assunto, vou fazê-lo em outra hora, com calma. Agora só gostaria de tirar um cochilo.

 - Tchau, Rachel – digo, esfregando a nuca com a mão livre.

 - Tchau, Julieta – ela ri e eu desligo o telefone. Deixo-o em qualquer lugar no sofá, apoio os cotovelos nos joelhos e massageio os lados da cabeça. O que esta acontecendo comigo? Encontro a bengala do lado da coxa e sigo para o quarto, o que não é difícil já que me acostumei com o trajeto. Uma vez lá, tateio o ar e encontro a mesinha do computador. Sento-me na cadeira de rodinhas e o ligo.

 O quê foi? Cegos não podem acessar a internet? Eles não enxergam o Google?

 Só que não.

 Meu computador é igual ao de todo mundo (você, ele, ela; todo mundo), tirando o cheiro de água sanitária e uns programas chamados de Leitores de Tela. Esses, autoexplicativos pelo nome, rascunham tudo o que aparece na tela e, através de uma voz artificial e em tempo real, me indicam tudo o que é visível no monitor. Claro que a voz não é tão robótica e sem graça como a do GPS (vire a direita, vire a esquerda... Há-há), ela até que é simpática, Sadie, como a chamo. Isso tudo é tão louco, que posso ser sua amiga no Facebook e você nem saber disso.

 Tenho dois novos e-mails na caixa de entrada, fora isso, mais nada. Desligo o computador e me jogo na cama. Sinto algo ser prensado contra as minhas costas e pego meu iPhone. Não lembro de telo deixado ali, mas fico feliz ao sentir com os dedos que os fones de ouvido ainda estão conectados. Coloco-os nas orelhas e presto atenção na voz rouca que dá vida ao meu livro preferido: A Voz do Coração.

 Desde que meu retinoblastoma deu as caras, eu não tenho muitas coisas que possam ocupar o meu tempo, então, passo grande parte dele ouvindo audiobooks de livros populares. Tecnicamente nunca pensei que desenvolveria esse gosto por histórias fictícias (nem que teria um câncer, aliás), mas me pareceu a coisa mais certa a se fazer. Ficando na segurança de casa, meus pais ficavam tranquilos e eu não corria nenhum tipo de risco. Simples assim. Mas agora, ouvindo o trágico acidente de Bruno, imagino o quanto fui tola. Tola em impor limites que não existem, em me privar de uma vida normal, de viver.

 Bocejo alto e me espreguiço. Como de costume, a calorosa voz do narrador desperta o meu sono. Deve ajudar o fato de a minha cabeça ter parado de doer.

 

                                                   ***

Quando acordo, o silencio me envolve como a uma coberta de lã: pesado e desconfortável. Ainda estou com os fones de ouvido, porém, a voz desaparecera, provavelmente porque dormi mais que os dez minutos pelo qual programei um trecho de narração e outro. Apoio-me nos cotovelos, retiro os fios das orelhas e me espreguiço. Meu iPhone escorrega pelo abdômen e sinto uma dor na bochecha direita. Esfrego os olhos.

 Um aroma de café toma conta do ar, familiar e seguido de um CLACK!

 - Entre, pai.

 A porta se abre com um rangido, à minha direita. Pelos passos pesados, sei que acertei o meu chute.

 - Eu gostaria de saber como você faz isso. – A extremidade do colchão perto dos meus pés se inclina sob seu peso – Sua audição põe o Demolidor no chinelo.

 Caio de costas contra o travesseiro e me viro de bruços.

 - Eu ouço a mesma coisa que todo mundo – digo –, só...

 - Eu sei, eu sei. – ele me interrompe – Você só presta mais atenção aos sons que nós e essa coisa toda – ele começa a brincar com os dedos do meu pé.

 - Esta me fazendo cócegas!

 - Então esse é o seu ponto fraco? – prevendo outro ataque de seus dedos, puxo meu travesseiro de debaixo do corpo e jogo onde considero que ele esta sentado.

 Não ouço nenhum tipo de som que indique que o acertei, até ele dizer:

 - Esse é o melhor que consegue fazer?

 Sorrio, me sentando e apoiando o corpo sobre os joelhos.

 - Nem comecei.

 - Claro que não.

 Acabando foi uma má ideia iniciar a guerra de travesseiros, porque (a) eu não sou boa de mira nem nada – os motivos parecem óbvios; (b) embora meu pai não me acerte com força, ele possui uma clara vantagem; e (c) não tenho outro travesseiro. Ele esta golpeando e rindo, como se estivesse num parque de diversões ou assistindo um daqueles programas country que ele tanto gosta. Entre um golpe e outro, sorrio, apenas para ser acertada de novo e engolir mechas do meu próprio cabelo.

 - Derrotada? – pergunta ele.

- Eu gos...

 - Posso saber o que esta havendo aqui? – a voz da mamãe vem da porta, e, apesar do ar de autoridade, ela não parece estar brava, muito pelo contrário.

 Sinto o travesseiro bater nos meus pés e papai pular da cama. Sento-me, cruzo as pernas e o abraço, enterrando o rosto na fronha e sentido o cheiro de amaciante.

  - A culpa é da Anna – às vezes, meu pai, o renomado Dr. Ruan, não se encaixa nesse perfil de... Bem, pai. Ele parece mesclar entre um tio maluco e um irmão mais velho. – Ela que começou.

 Jogo o travesseiro na direção da voz dele. Novamente, nada que denuncie o sucesso.

 - Anna, pare. – a mamãe diminui o tom de voz, como sempre faz quando esta tentando parecer zangada. Mas nunca cai nessa. – Você tem visita.

 Tiro os cabelos do rosto e os enrolo, deixando os fios caírem atrás das costas. Devo admitir que existe uma certa curiosidade... E se for o Corredor do Mertiolate? E se ele veio aqui me ver?

 Não, ele não tem meu endereço, diz o lado racional do meu cérebro.

 Mas a mamãe viu o número dele no Band aid, pode ter sido ela, diz o outro.

 CALEM A BOCA!

 - Quem é? – me ouço perguntar.

 - É o Daniel, filha – responde meu pai.

 Ah.

 

 

 - E aí esta ela – Daniel me aperta num abraço, e o seu cheiro invade minhas narinas numa torrente de lã e do conhecido cheiro de menta. Retribuo o afeto enlaçando meus braços na sua cintura. Ele suspira. – Como vai? - pergunta, me guiando ate o sofá.

 - Da ultima vez que me lembro, com as pernas – digo, sorrindo.

 - Sempre sarcástica – a napa do sofá reage com o seu peso. Sento-me ao seu lado e cruzo as pernas – Já pensou em ser humorista?

 - Tanto quanto já quis conhecer um E.T. – rimos juntos. – E aí, a que devo a honra da sua visita?

 O suspiro dele é alto, assim como a movimentação no sofá, parecendo desconfortável.

 - Conversar, acho.

 - Você acha?

 - É – diz ele – Falar com uma amiga.

 Não estou gostando do tom de voz dele.

 - O que foi?

 - Não sei se devo contar. É um pouco estranho falar sobre isso em voz alta.

 - Se não quiser me contar, tudo bem. – Digo – Mas saiba que quando me atiça a curiosidade...

 - Eu bem sei – diz ele – Aquele episodio da boneca foi inesquecível.

 Inesquecível... É, pode se dizer isso.

 - Nem me lembre – Desculpe se eu não contar em detalhes, é estranho demais. Apenas saiba que envolve Natal, uma boneca e queda de energia. Da pra imaginar né? Papo pra outra hora – Mas vamos lá, me conte.

 Meu pé direito começa a formigar, mas ignoro.

 - Eu conheci uma pessoa – diz ele – Da nossa idade. Acho que estou gostando dela.

 Não consigo disfarçar minha empolgação/surpresa. Daniel foi o protagonista do meu primeiro beijo, aos 13 anos. Apesar de o nome dele não ocupar o topo da minha lista de relacionamentos desejáveis (este obviamente reservado para o Cauã Reymond. Vá saber) considerei por muito tempo que, caso houvesse iniciativa de um dos lados, algo fosse rolar. Agora, percebo que nossos amaços desajeitados no quintal de casa não passaram disso, amaços.

 Devo rever a minha lista.

 - Fico, ãhn, feliz por você – digo – Já falou com ela?

 - Esse é o problema – Daniel admite – A parte do falar. Preciso de concelhos.

 Vichi.

 - Se você quer conselhos, vá falar com a Rachel – digo – Porque, se não percebeu ainda, meus relacionamentos tendem a não existir.

 - A Rachel é muito... Espalhafatosa. – um som rouco escapa da garganta dele, como um gato ronronando. Tirando a parte de que eu nunca vi um gato conter um arroto – É bem provável que ela fale para a escola toda por mim. Não preciso ser mais tímido.

 Sorrio. A timidez dele mais atrapalha do que o ajuda nesses tipos de situação.

 - Então lá vai o meu conselho: Fale com ela. Um não você já tem.

 Daniel se meche no sofá mais uma vez.

 - E como eu faço isso? Sem esquecer a parte da timidez e tudo mais.

 - Sabe aquele negócio de andar ate a pessoa e dizer “Oi”?

 Ele parece pensar por um minuto, ponderar. Quando um longo tempo se passa, vem a resposta.

 - Vou ver o que posso fazer – Daniel pega a minha mão, cobrindo-a com as dele.  Franzo as sobrancelhas com a ardência que se segue. O curativo deve ter caído durante meu cochilo, ou na guerra de travesseiros, sei lá. – O que foi?

 - O que foi o quê? – pergunto.

 - Você fez a careta de quem tivesse chupado um limão. Não gostou do meu afeto?

 O desapontamento na voz dele é mais falso que nota de três. Sorrio.

 - Não é isso. É que eu tenho um arranhão na palma da mão. O curativo deve ter caído, por isso ardeu um pouco.

 Daniel vira a minha palma para cima, sinto a respiração dele nos meus dedos, como se estivesse analisando o arranhão.

 - Como isso aconteceu?

 - Você tem tempo? É uma longa história.

 - Contando que sua mãe faça aqueles bolinhos de arroz, tenho sim.

 - Vou ver o que posso fazer.



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