História Um Sopro de Liberdade - Capítulo 3


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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Romance e Novela

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Terceiro Capítulo


  TERCEIRO CAPÍTULO

 

 Uma semana. Meu arranhão completa o aniversário de uma semana e eu ainda não tive coragem de ligar para ele. Se bem que coragem não é bem a palavra. Mamãe, por outro lado, fez questão de encontrar o Band Aid e guarda-lo, para o caso de eu precisar. Não sei como ela faz isso: migrar entre a emoção do meu primeiro namorado (se é que posso chama-lo assim) e o medo de eu sair sozinha com um estranho. Mas não posso culpa-la. Eu mesma estou numa pilha de nervos.

 - Temos que comprar umas roupas novas pra você – diz ela, depois de sentar a minha frente na mesa da cozinha. – Uma saia, ou uma legue o que acha?

 Suspiro.

 - Acho que não precisa. Estou bem com as roupas que tenho.

 - Você não vai com essas jeans e uma camiseta no seu primeiro encontro.

 Afundo na cadeira e esfrego os olhos.

 - Não tenho um encontro. Nem liguei pra ele, aliás.

 - Mas eu sim!

 Espera aí, o que?

 - Ãhn?

 - Ele vem jantar aqui em casa hoje de noite – conclui ela e sai assoviando Set Fire To The Rain. Na versão dela, claro.

 

 - Ai! – reclamo, quando Rachel puxa meu cabelo com sua escova. – Você consegue ter menos cuidado?

 - Você não para quieta. O que quer que eu faça?

 Me belisque e diga que não estou me aprontando para conhecer um garoto.

 - Nada, apenas não deixe meu cabelo parecer com aquelas jubas que os leões têm na savana.

 Estou sentada nessa cadeira ao que me parecem horas. Assim que soube do inusitado jantar, Rachel fez questão de vir me aprontar, dizendo que... Como ela disse mesmo? Ah... Que eu precisava de um tour de beleza (como se minha autoestima precisasse de mais essa). Sofri um pouco quando ela pronunciou a palavra depilação. Não que eu não sege uma espécie de porca que tem os sovacos e pernas cabeludas... Mas pra que depilar as coxas? Desenhar as sobrancelhas?

 O que uma mulher não faz por um homem...

 - Nervosa? – Pergunta Rachel, depois de se contentar com um rabo de cavalo no alto da cabeça.

 - Se com nervosa você quer dizer ter uma vontade de sair correndo, sem rumo, mesmo que eu não passo da calçada: sim, estou apavorada!

 Com a mão no meu ombro direito, ela contorna meu corpo e se senta na minha frente, onde julgo estar a penteadeira com espelho do quarto da mamãe. Tem uma brisa vinda da direita, que faz um arrepio passar pelo meu corpo. Ótima hora para se estar apenas com roupas intimas numa cadeira de madeira no segundo andar.

 - Esta com frio? – confirmo com um aceno e ouço ela se dirigir a janela – Só mais alguns minutinhos para sua mãe chegar com o vestido.

 Vestido? Sacanagem.

 - Como assim, vestido? Pensei que fosse usar...

 - Você esperava o que? É um encontro. – Ela da ênfase a palavra. Posso imagina-la revirando os olhos. - Jeans manchados e uma camiseta dos The Beatles não faz muito o estilo romântico. Você tem que causar uma boa primeira impressão.

 - Acho que tropeçar no hidrante já foi o suficiente – sussurro.

 - O quê? –pergunta ela.

 - Nada – respondo. – E não é um encontro, meus pais vão estar lá.

 Ouço os passos dela se aproximarem, abafados pelo carpete mais não inaudíveis. O cheiro dela também esta diferente, mais rustico que o habitual. Ela deve estar saindo com alguém.

 - Isso é bom sabia? Ter alguém para apresenta-lo antes de qualquer coisa. – Rachel põe as mãos nos meus ombros. Ela esta com uma respiração forte, de ansiedade ou tristeza. Não sei dizer. Como perdeu os pais cedo, acredito que sege triste pra ela ver uma cena como essa: a melhor amiga ter um jantar com um garoto na presença da família. Todos sabem que a avó dela só ficou com a guarda pela pensão.

 Coloco minha mão sobre a dela.

 - Obrigada – digo, e imagino-a sorrir, abrindo aquelas covinhas fofas que tinha quando criança.

 - De nada – ela funga, o que me faz pensar se ela conteve o choro. – Mas cadê esse vestido? – Rachel se dirige a porta, à esquerda, passos curtos e firmes. Ouço o estalo da maçaneta. – Ah, oi, Dr. Ruan.

 - Boa noite, Rachel. – papai cumprimenta de uma maneira brusca, quase como se não gostasse de ser chamado pelo nome do trabalho em casa, o que sei que não é verdade. – Rita me pediu para trazer esse, ãhn... Vestido! Isso, esse vestido para Anna. Posso entrar?

 Antes que ela responda, grito:

 - Nem pensar!

 - Ela esta seminua – justifica Rachel.

 - Eu cansei de vê-la pelada quando criança, uns aninhos a mais não vão fazer diferença.

 A porta bate contra alguma coisa, pelo som abafado, deve ser o ombro do papai forçando a entrada.

 - Desculpe, mas esse é um momento de mulheres – Rachel me fez lembrar aquelas atrizes da TV. Imagino-a de pescoço erguido e ereto, com o peito estufado – O vestido?

 - Aqui – mesmo parecendo desapontado, ouço uma espécie de plástico gritar, como se estivesse sendo prensado contra uma pequena fresta da porta – Vou ajudar, é, Rita com a comida? – Diz ele.

 A porta se fecha com um estralo e Rachel coloca o plástico sobe a cama, as minhas costas.

 - É bonito? – pergunto.

 - O quê?

 - O vestido é bonito?

 - Ah, sim, sim. É lindo.

 Apoio o braço no encosto da cadeira e viro o rosto na direção da voz dela, um meio sorriso formado.

 - Qual a cor?

 - É lilás.

 - Minha cor preferida – murmuro.

 - Eu sei, por isso escolhi. – diz ela, abrindo um zíper e mexendo no plástico que, deduzo, protege o vestido. – Quando vi ele na loja esses dias, achei perfeito pra você, e como você é gostosa como eu, só precisei provar para saber que serviria. Ele estava na tinturaria, daí a demora...

 - Rachel... – ela se aproxima e pega minha mão, me guiando ate o tapete felpudo que fica do lado da cama (desde criança ele continua no mesmo lugar, aliás). Fico de pé ali, os braços pendurados do lado do corpo. – Não precisava. Se quiser, peço a mamãe um adiantamento e cubro o valor...

 Sinto a agitação dos seus movimentos perto dos meus joelhos, seguidos de uma batidinha na coxa direita, e sei que devo erguer a perna.

 - Considere isso um presente. – Coloco o outro pé dentro do vestido – Tranque a respiração. - Faço o que ela pede e sinto o tecido subir pelo meu corpo, acentuando minhas formas. É folgado para respirar, mas não tanto para parecer gorda. Rachel me ajuda com os braços e fecha o zíper nas costas, que por sinal ficam um tanto expostas. – Pode soltar agora.

 O vestido cai em uma renda sob os joelhos, o mesmo se aplica aos ombros. Passo as mãos pelo busto e seios e sinto o volume de pequenas pedrinhas e contas, que devem fechar o acabamento. Ele não tem aquele cheiro de roupas novas comuns em lojas, tem um cheiro de flores... Doce, que lembra o campo. Gostei dele.

 - Obrigada

 - Que nada.

 Os minutos que se seguem servem para cuidarmos da minha maquiagem. Não que eu realmente goste de pintar a cara e tudo mais, mas todos estão empolgados com a visita do Corredor, o mínimo que posso fazer é colaborar para não estragar a festa, além do mais, ser paparicada por um dia inteiro é um mimo que não posso reclamar.

 Rachel começa a cantar Sim ou Não enquanto desenha meus olhos com a ponta do lápis, me dizendo hora para abri-los, hora fecha-los, e riscando pequenas linhas nos cantos exteriores. Em seguida, ouço um clack e começo a ser golpeada nas bochechas por aquele espanador pequeno que as mulheres usam para deixar as bochechas rosadas (desculpe, mas a ultima vez que vi um desse eu era criança e o assimilei assim. Okay?). No começo minha pele formiga, reagindo às cerdas e ao pó que, eu espero, darão cor as minhas bochechas.

 - Não quero parecer um palhaço!

 Rachel tem uma risada esganiçada, como um tucano engasgado.

 - Não exagere – diz ela, deixando a base de lado e passando alguma coisa nos meus lábios, com gosto e cheiro de morango – Isso não seria necessário. Além disso, você é bonita, não precisa de tanta maquiagem.

 Vou fingir que acredito.

 A porta se abre com um rangido, e pelo barulho de saltos, sei que é a mamãe, em toda sua glória, ou o que quer que isso signifique estando a um passo da TPM.

 - Nossa princesa esta pronta? – seus passos param, assim como as mãos de Rachel agitando o ar que envolve meu rosto. Viro-me na direção da primeira, forçando um sorriso amarelo.

 - Oi, mãe. – Digo, cruzando as mãos sobre as pernas.

 Ela se aproxima, pegando meu pulso e me forçando a levantar.

 - Anna, você esta... Linda – mamãe ergue minha palma e eu giro, saboreando o cheiro dela. Aquele aroma forte, de trabalhar meio período numa lanchonete, esta com um toque de sofisticação, beirando o perfume que ela usa em ocasiões especiais. – Linda demais. – Trocamos um abraço rápido – E não é que esse vestido lhe caiu como uma luva?

  - Agradeça a Rachel.

  - Já disse que não foi nada – diz Rachel que, pelo que posso ouvir, trata de guardar todo o seu kit de maquiagem, fechando alguma coisa com dois estalos.

 Mamãe deixa escapar um risinho, como se a cena a divertisse.

  - Obrigada, Rachel. – diz ela – por tentar deixa-la bonita.

  - Tentar?

  - Me desculpe não poder fazer mais que isso – Rachel quase cantarola, evitando a risada – Mas não se pode tratar como ouro o que é uma mera pedra.

 - Ei!

 - Concordo – ri mamãe, me abraçando os ombros e enterrando a bochecha contra a minha. Não demora muito para Rachel gargalhar também, enchendo o ar com uma musica sinistra. O elefante e o tucano engasgado.

 A campainha toca, dando fim aquele show de horrores.

 - Ele chegou! – gritam ambas em uníssono.

 - Meu Deus! – sinto minhas bochechas corarem.

 Ouço o estalo de algo caindo no chão, e se meus ouvidos não me enganarem, foi o kit de maquiagem da Rachel.

 - Vamos, vamos, vamos – mamãe larga meus ombros e apoia a mão nas minhas costas, me guiando para fora do quarto.

 Pela primeira vez em anos, não ouço nada. Cheiro nada. Penso em nada. Minha mente fica um vácuo negro, sem noção de dimensões ou espaço. Encapsulado no fundo de meu crânio.

 E se eu estiver com bafo?

 E se Rachel colocou tanta maquiagem na minha cara que eu pareço uma palhaça de circo?

 E se o vestido rasgar?

 São muitos “e se”.

  Estamos andando rápido. Não me lembro de esse corredor ser tão longo.

 Paramos bruscamente. Posso sentir as duas mulheres, uma de cada lado, como se me protegessem com um escudo invisível.

 - Estamos no final do corredor – diz mamãe. – Mais um passo e poderemos ser vistas lá de baixo.

 Uma alongada nos dedos do pé e eu sei que ela esta certa: posso sentir onde termina o carpete e se inicia a madeira fria.

 Espera aí, eu não deveria estar...

 - Sapatos! – digo baixinho o suficiente para ninguém ouvir no andar debaixo, mas alto o bastante para minhas companheiras ouvirem – Estou sem sapatos!

 Espero a fixa delas cair.

 - Mas que merda! – diz mamãe.

 - Sapato, sapato, sapato – a voz de Rachel vai sumindo conforme ela volta para o quarto, os passos estalando rapidamente no carpete.

 Não demora muito pra ela voltar.

 - Levante o pé, Anna – a voz dela esta na altura dos meus joelhos. Seguro a mão da mamãe e ergo o pé direito.

 - Não tinha um sapato mais discreto? – pergunta mamãe.

 - Esse foi o único que achei – Rachel bate na minha canela esquerda e eu ergo o pé, sentindo os dedos se ajustarem no salto de bico fino.

 - Mas verde? – Mamãe parece transtornada.

 - Verde? – pergunto.

 Rachel se ergue abruptamente, ajeitando as rendas do meu vestido.

 - Melhor que descalça, não?

 - Tudo bem – mamãe respira fundo, como se fizesse um daqueles métodos de terapia, contando de 1 a 10. – Vamos lá?

 - Espera, ESPERA! – tento dizer, mas já estamos no sopé da escada.

Eu? Apenas rezo para não tropeçar com os saltos.



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