História Um time de doze - Capítulo 1


Escrita por: ~ e ~Metamorfose_

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Palavras 5.105
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Esporte, Famí­lia

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Saudações!

Voltei com mais uma história para alegrar seu dia! rs

Esta é mais uma história escrita para o Projeto Metamorfose, que tem como objetivo trabalhar temas relacionados à muitas das dificuldades que vivemos no nosso dia a dia, a fim de nos ajudar a ter mais confiança em nós mesmos. Vou deixar o link do projeto nas notas finais, então corre lá que tem um montão de histórias legais pra você ler!!!

Eu entendo muito pouco de futebol, mas juro que estudei sobre o tema para escrever esta história, então peço desculpas de antemão por qualquer absurdo que eu possa ter escrito aqui.

Capa encantadora feita pela @Karoshi
Betagem cuidadosa feita pela @babz

Espero de verdade que vocês gostem!

Capítulo 1 - Capítulo Único


Eu estava sentada em um dos bancos próximo à área destinada a equipe técnica, pensando em toda aquela situação enquanto observava pacientemente alguns jovens adentrarem o campo e iniciarem os primeiros aquecimentos. Eu estava nervosa, ansiosa, temerosa, e qualquer outro adjetivo que representasse o quão desconfortável aquela situação estava sendo para mim, ou melhor, o quão desconfortável eu imaginava que ela seria, já que os jogadores ainda não haviam sido informados das “novidades”.

Por enquanto eu estava sendo, literalmente, ignorada por todos aqueles adolescentes cheios de energia que se agarravam ou empurravam em meios aos exercícios. No máximo um olhar ou outro era direcionado a mim com certa curiosidade, mas logo se perdia em meios aos berros do preparador físico que os instruía em seus movimentos. E lá estava eu, sentada no meu cantinho, quietinha, aguardando a chegada do presidente do clube que me apresentaria a todos.

Não somos um grande time, isso é verdade, apenas mais uma equipe de habilidosos sonhadores que faziam de seu prazer um trabalho, na esperança de que um dia este pudesse ser reconhecido e efetivamente recompensado. Somos todos jovens e inexperientes, outra verdade, eu mais ainda, mas tínhamos esperanças e vontade de fazer dar certo, o que já era um bom começo. O clube em si era jovem também, criado há apenas alguns anos por um grupo de torcedores locais que possuíam melhores condições financeiras.

A estrutura, como local de treino, equipamentos, uniformes e etc., era mantida por esse grupo de amigos, já o material humano, como a equipe técnica e os próprios atletas, era possível graças ao trabalho voluntário dos interessados no esporte local. Com exceção dos atletas, a equipe é composta, em sua maioria, por profissionais aposentados que encontraram na vida no interior uma recompensa por anos de trabalho e stress nas grandes cidades.

O som das risadas que vinham do campo, onde os jogadores ainda treinavam, e a brisa fresca que batia em meu rosto me faziam lembrar da minha infância, e das inúmeras vezes que eu já havia visitado esse mesmo campo, acompanhada de meu pai, para assistir e torcer pelo time da cidade nos jogos do campeonato local. Uma paixão que começou como uma simples tentativa de chamar atenção de meu pai, que também era apaixonado pelo esporte, porém não tinha nenhum filho homem para acompanhá-lo nessas aventuras, mas que depois cresceu por si mesmo inundando todo o meu ser e tornando-se também o meu sonho.

Meu pai sempre foi meu exemplo, meu herói, meu pilar, e por isso reivindiquei esse papel desde pequena, a fim de poder estar mais próxima a ele, de poder fazê-lo feliz como uma forma de retribuir todo o amor e esforço que ele sempre teve na minha criação e na de minhas irmãs. Somos em cinco e todas, de certa forma, alimentam a mesma paixão pelo esporte, mas apenas eu tinha a disposição necessária para acompanhá-lo, e isso fazia com que eu me sentisse especial. Erámos uma dupla, dois torcedores apaixonados.

Fui tirada de meus pensamentos com alguns gritos apreensivos direcionados a mim, em virtude de uma bola, que aparentemente havia sido chutada com mais força que o necessário, que vinha em minha direção. Consegui parar o objeto a tempo, antes que este acertasse o meu rosto em cheio, como um dardo no alvo, então a devolvi aos rapazes que se desculparam envergonhados, mas que logo voltaram a suas atividades.

Voltei a assumir a posição de outrora, mas agora me mantive mais atenta aos adolescentes e nos seus respectivos desempenhos, afinal de contas, logo este passará a ser o meu trabalho, ainda que por poucos meses, e eu deveria me habituar a tal atividade. A equipe em questão era composta por 18 jovens, muito energéticos e, aparentemente, todos dentro da forma física necessária para as longas partidas.

Pude observar, no entanto, que alguns dos atletas não possuíam a resistência física que seus corpos aparentavam ter, o que é um problema relativamente grave, já que estes gastavam uma grande quantidade de energia em um curto período de tempo, ficando sem fôlego para acompanhar jogadas mais “elaboradas”. Já entre os dois goleiros, pude notar um pequeno atraso no tempo de resposta aos chutes diretos ao gol, em compensação ambos possuíam chute forte e boa mira, o que fazia com que a bola atravessasse o campo com facilidade.

Eu fazia minhas anotações mentais sobre cada um dos pontos que eu deveria trabalhar, quando o presidente do clube se aproximou e sentou ao meu lado, uma aparência cansada, mas com um sorriso gentil nos lábios.

— Bom dia, Alice! Preparada? — falou num tom calmo enquanto observava o treino.

— Acho que sim... estou um pouco nervosa ainda, mas as palavras do professor me deixaram mais confiante, então acho que consigo segurar as pontas até ele voltar.

— Fica tranquila, o Roberto falou muito bem de você. Disse que era a pessoa mais capacitada para substituí-lo durante sua ausência — falou me confortando. — Ele foi seu professor, certo?

—Sim, ele me deu aula durante todo o ensino médio, e, como eu sempre gostei de futebol, ele sempre me deu dicas ou ficava conversando comigo sobre o assunto. Ele tentou me incentivar a virar jogadora, mas eu nunca levei muito jeito para isso. Meu negócio é mais os bastidores — falei em meio a um sorriso, enquanto lembrava de minha adolescência.

— Por isso escolheu ser treinadora?

— Na verdade, escolhi ser educadora. O futebol é minha paixão, mas eu gosto muito de esportes em geral... e também gosto de lidar com a molecada, de ensiná-los a trabalhar em equipe e tudo mais.

— Acho que você vai ter bastante trabalho então — disse rindo. — Roberto sempre reclamou bastante sobre o entrosamento dos meninos. A rapaziada aqui é bem jovem ainda, mas a maior parte já se sente jogador de seleção... — Não terminou, deixou as palavras serem carregadas pela brisa um pouco mais forte que nos envolveu, enquanto encarava fixamente as atividades em campo. Um olhar carinhoso que eu conhecia bem, como se estes fossem seus filhos ou netos. 

Ainda que ele não tenha terminado a frase, eu já sabia mais ou menos o que ele queria dizer pela conversa que tive com o professor alguns dias atrás. Na ocasião de minha visita ao hospital em que este se encontrava, em virtude de um infarto, o homem de idade avançada e alma de criança fez um pedido ao qual eu não pude recusar. Na verdade, eu até tentei, pois não me sentia assim tão preparada para isso, mas fui completamente ignorada por este que já tinha até comunicado o clube sobre a minha chegada na próxima semana. Disse que confiava em mim e que este era um teste, já que eu havia terminado a faculdade de Educação Física há poucos meses; lembrou de meus tempos de infância e de como eu havia lutado para quebrar esse preconceito idiota, que muitos ainda têm, que diz que mulheres não entendem de futebol. Resumindo, fez uma chantagem emocional pesada, tornando impossível para eu negar algo àquele senhor fofíssimo deitado em uma cama de hospital.

— Bom, tenho certeza que você conseguirá fazer um bom trabalho — disse o homem ao meu lado enquanto se levantava. — Vamos?

Acenei positivamente ao que me levantava e o seguia em direção ao campo, onde, agora, os jogadores, divididos em dois times, disputavam uma partida treino. Não demorou muito para a atenção desses voltarem-se a nós dois e para que, em poucos minutos, já estivessem amontoados em nosso entorno. Os garotos pareciam apreensivos, buscavam informações não só sobre a saúde do treinador como também sobre como ficariam os treinos agora que este encontrava-se hospitalizado.    

— Bom dia meninos! Como todos vocês já devem saber, o treinador teve um infarto na última semana. Agora ele já está bem, mas ficará um tempo afastado das atividades para se recuperar completamente — fez uma pausa ao que me olhava confiante. — Alice foi uma aluna do professor e foi indicada por este para substitui-lo nesses três meses em que ele ficará fora — balancei o braço direito cumprimentando-os. — Ela é formada em Educação Física e sempre foi apaixonada por futebol e por esse estádio. Não duvidem da capacidade dela e acho que nem preciso pedir que a respeitem, certo? — Todos concordaram. — Então, quer dizer alguma coisa? — disse olhando diretamente para mim.

— Bom, não estou feliz pela situação em que está a saúde do professor, mas fico contente pela oportunidade de poder trabalhar com vocês. — Todos riram. — Ele me pediu para cuidar bem de vocês, e é isso que pretendo fazer. Então se todos trabalharmos juntos, esses meses passaram rápido, e ao final vocês não vão querer o professor de volta — brinquei e todos riram. — Bom, o campeonato está no começo, mas não podemos relaxar, então vamos trabalhar?

Todos concordaram e os atletas retornaram ao campo para treinar, ficando apenas eu, o presidente e os demais membros da equipe técnica para fazer uns ajustes finais. Não demoramos muito, já que boa parte foi discutida em reunião realizada no dia anterior. Como eu disse, somos uma equipe pequena, composta principalmente por amigos, mas muito bem organizada. O futebol ali era a paixão de todos, e por isso trabalhavam com muito empenho para que tudo desse certo. Eu sabia que apesar de nova, eu não era uma intrusa entre eles, já que cresci em torno de muitos deles.

Retornei ao campo e fiquei observando o jogo-treino, ao mesmo tempo em que conversava com algumas pessoas sobre o desempenho de cada um dos competidores. Novamente me foi posto que alguns jogadores tinham “dificuldades” em trabalhar em conjunto, o que era facilmente comprovado na partida em desenvolvimento. Se essa não é uma característica boa para a vida, imagina em um jogo com 11 pessoas em campo?

Eu teria que fazer algo sobre o assunto, mas em um primeiro momento optei por apenas observá-los, ver como se comportavam ao longo da semana, passada essa fase inicial da “novidade”. Ao mesmo tempo, eu já pensava no que poderia ser feito para fortalecer o grupo.

Essa minha fase de “observação” durou cerca de uma semana. Durante esse período eu não dava muitos palpites sobre a posição de cada jogador em campo, apenas deixava-os trabalhar naturalmente. Percebi que no começo eles acharam meio estranho, mas logo se “acostumaram”. Pude ouvir algumas “piadas” por parte dos jogadores e até mesmo de alguns membros da equipe técnica, com os quais eu não tinha muito contato, alegando que minha falta de ação se dava por eu não entender de futebol e estar perdida sobre o que fazer. Até parece que esses infelizes não estavam presentes na reunião em que eu expliquei meus métodos de trabalho...

Mas não adiantava esquentar a cabeça com isso. A única forma de fazê-los entender (vulgo engolir as próprias palavras), era mostrá-los minha capacidade, e era isso que eu estava disposta a fazer. Eles não eram os primeiros, nem seriam os últimos a manifestar esse tipo de preconceito, ainda que não fizessem isso claramente (porque para essas coisas a maior parte prefere agir pelas costas), e eu certamente não seria a última a lutar contra isso.

Em algum momento da segunda semana, eu entrei em ação. Fiz uma série de alterações nos treinos individuais de cada jogador a fim de deixá-los mais preparados para o desempenho das próprias funções. Também procurei conversar com cada um sobre seus papéis em campo e a dos colegas, e sabe o que foi mais engraçado? A maior parte deles apontou a ausência do “trabalho em equipe”, como sendo o principal problema do time em campo.

Perguntei-me se estes tinham consciência de como agiam dentro de campo, já que observei diversos momentos em que esses pegavam a bola e saiam correndo desesperados como se estivessem fugindo de um exército zumbi. E às vezes nem era porque eles se achavam mais competentes que os outros, ou duvidavam das habilidades dos companheiros. Eles simplesmente não viam.

Imaginei que já que estes estavam cientes do problema, trabalhá-lo seria mais simples, então reuni a todos para uma conversa.

— Então galera, como sabem, andei conversando com cada um de vocês e pude notar que todos reconhecem que o trabalho em equipe, ou a ausência dele, é o nosso ponto fraco. Então, o que sugerem que façamos em relação a isso? — falei olhando para todos.

— Bom, não é o seu trabalho dizer o que temos que fazer? — Um dos rapazes se manifestou arrancando risadas dos demais.  

— Em parte sim, mas se eu disser vocês vão fazer? — responderam positivamente. — Porque não adianta nada eu fazer um discurso aqui sobre o que é trabalhar em equipe, se quando chega no campo vocês resolvem agir por conta.

— Nós não fazemos isso — retrucaram.

— Ah, não? Então por que o “trabalho em equipe” é nossa fraqueza mesmo? — Não obtive resposta. — Me digam uma coisa, vocês confiam nas habilidades de seus companheiros? — A maior parte concordou meio hesitante. — Então por que não elaboram mais as jogadas? Por que tem momentos em que parecem estar perdidos em campo quando na verdade existe outros 10 integrantes ali, prontos para te dar algum suporte? — Mais silêncio. — Entendam que, em campo, vocês são um time de 11 pessoas. Eu não estou pedindo para vocês correrem de mãos dadas, e sim para que conversem mais entre vocês durante os jogos. Posso esperar que façam isso? — Todos concordaram. — Ótimo, então vamos voltar ao trabalho.

 Essa primeira conversa pareceu surtir mais efeito, já que muitos dos atletas passaram a conversar mais e com uma visão maior do campo passaram a elaborar mais as jogadas. Havia um ou outro que ainda se “empolgava” durante as partidas, e que precisaram ser advertidos por mim, mas não era nada muito frequente.

Foi assim que chegamos ao nosso primeiro jogo oficial, contra o time de uma cidade vizinha. A partida seria feita em nosso estádio, e para esta compareceu um grande número de torcedores dos dois lados. De início tudo corria bem, os jogadores estavam relativamente bem posicionados e se comunicando, mas tudo começou a piorar quando eles levaram o primeiro gol.

Ter o adversário na frente no placar pareceu desestabilizar o time, que passou a conversar menos e se atropelar mais. Percebia-se o esforço destes em manter a articulação do grupo, mas este vinha cedendo à medida que o adversário, muito habilidoso por sinal, aumentava a pressão sob nossa defesa.  Foi neste momento que as nossas estrelas começaram a aparecer, não de um jeito bom, chamando a atenção por suas jogadas individuais, às vezes até individuais demais.

Fiz modificações na formação do time, conversei com este, ressaltei a necessidade de controlarem o nervosismo, mas nada pareceu adiantar quando o adversário fez o seu segundo gol. A partir daí o grupo se descontrolou, perderam a conexão que deveriam ter e, apesar de ainda manterem suas posições e suas respectivas funções, via-se que as coisas não estavam fluindo bem. O time não estava em sintonia, as jogadas não encaixavam e outras eram perdidas por pura distração. Cada um parecia estar disposto a dar apenas o seu mínimo e sob este cenário foi impossível evitar a derrota iminente.

Cumpridas as formalidades, saímos de campo em silêncio. O som de uma torcida nada feliz, porém até que muito educada, importante ressaltar, era a única onda que ecoava em nossas cabeça. Tentei conversar com os jogadores sobre os problemas que havia nos levado à derrota, mas ao invés de reconhecerem que a falta de confiança e sintonia no grupo foi a nossa ruína, assim como alguns fizeram, outros optaram apenas por encontrar justificativas que isentassem a própria responsabilidade. Em outras palavras, eles preferiram apontar culpados.

Pode uma coisa dessas? Num time de 11 jogadores, 2 ou 3 defendiam arduamente a ideia de que alguns destes “atrapalharam” o jogo causando a situação agora em discussão! E é claro que os sentenciados não aceitaram bem a ideia e começaram a se defender fazendo novas acusações, ainda que há poucos minutos estivessem cientes de que o problema era de todos. Em poucos minutos, aquilo já tinha virado um bate-boca sem sentido algum.

Ah, mas aquilo me irritou profundamente. Em uma equipe não se apontam culpados,  identificam-se problemas que deverão ser corrigidos a fim de que se alcance o objetivo. A responsabilidade de uma derrota é do time inteiro, inclusive minha, seja porque fomos incompetentes na execução das nossas atividades, seja porque o adversário se mostrou superior a nós. A responsabilidade é nossa, dos 12.     

 Com a ajuda dos membros do clube, conseguimos apartar a discussão, já que somente os meus apelos não foram suficientes. Essa movimentação limitou-se a troca de ofensas e via-se claramente que isso não traria grandes prejuízos ao relacionamento dos envolvidos. Eram apenas crianças tentando defender o seu lado e mostrar que este era melhor do que o do coleguinha. Em poucos dias estariam ali de novo, compartilhando brincadeiras.

Após o ocorrido, todos foram dispensados. O dia seguinte, um domingo, seria de folga para todos nós e eu dediquei esse período para pensar em estratégias que pudessem ajudar o grupo a perceber a importância de cada um de seus integrantes. Nós somos, basicamente, voluntários. Ninguém ali, nem mesmo os jogadores, recebiam salário ou qualquer tipo de compensação financeira. Nós estávamos juntos pelo amor ao futebol e pela esperança de, quem sabe no futuro, receber um reconhecimento pelos nossos esforços. Nossa ideia era trabalhar nossos atletas, que ainda eram apenas adolescentes correndo atrás de seus sonhos.

A equipe técnica, mais velha e experiente, tinha mais noção de tudo isso, mas um time não se faz só com esta e de nada adiantaria nossos esforços se o grupo não trabalhasse em conjunto. Os sonhos de pelo menos 25 pessoas estavam em jogo, então essas mesmas 25 pessoas precisavam trabalhar juntas para que seus sonhos fossem realizados.

No dia seguinte, logo pela manhã, encontramo-nos no local de treinamento. Finalizado o aquecimento, iniciamos uma partida treino, de dois tempos de 20 minutos, com os 18 atletas. O primeiro tempo ocorreu normalmente, mas no segundo eu pedi que os atletas trocassem sua posição em campo. Eu troquei tudo: coloquei o atacante como zagueiro, o ponta como meia, o volante como ponta. Coloquei até o goleiro no campo e subi um atacante para o gol. Eles ficaram perdidos de início, apesar de serem treinados para assumir qualquer posição, mas conseguiram se virar, com exceção do goleiro que parecia perdido.

Fiz isso a semana toda, o que começou a gerar reclamação por parte de alguns jogadores que pareciam não se adaptar a posições que não fossem a suas usuais, principalmente, quando estes eram postos no gol. Apesar de alguns terem compreendido o propósito dos exercícios, outros seguiram sem entender e passaram a “abandonar” suas posições em campo para retornar às suas posições usuais, o que nem preciso dizer que foi desastroso, já que deixava buracos em campo.

Como teríamos um jogo na próxima semana, tive que parar um pouco com minha “brincadeira”, retornando-os a suas posições, mas não sem antes fazer uma reunião com estes, para entender o que haviam apreendido daquela nova experiência. Eu reuni a todos no centro do campo e disse:

— Pessoas, na última semana vocês tiveram a oportunidade de jogar em posições que não são a sua especialidade. Quem aqui gostou da experiência? — Poucos levantaram as mãos. — Então, querem trocar?

— Não! — responderam em um quase uníssono.

— E por que não? — fingi curiosidade, tentando instiga-los a falar.

— Olha, eu até sei jogar em outras posições... Mas eu sou melhor como zagueiro, e eu gosto mais de jogar nessa posição. — Um dos garotos começou. — Sinto que posso ajudar mais se eu continuar ali.

— O mesmo para mim como volante. — Outro se manifestou.

— Eu sou meia, mas gostei de jogar como volante. Acho que eu poderia me desenvolver nessa área — disse um terceiro em um tom mais acanhado.

— Certo, então, pelo que entendi, vocês perceberam que vocês não são tão bons em outras posições como alguns de seus colegas? — Assentiram. — Então devo presumir que vocês irão aproveitar mais o talento do amiguinho em campo? Que vão se escutar mais e trabalhar efetivamente em equipe? — Dessa vez a resposta foi um sonoro sim. — Em relação ao nosso colega que descobriu ter potencial em outra posição, creio que podemos ir trabalhando isso aos poucos até que ele esteja apto a trocar, o que acha? —Este concordou. — O mesmo vale para aqueles que têm a mesma ideia, mas que preferiram não se manifestar aqui. Agora, vamos ao treino.

Encerrei aí nossa breve conversa e seguimos o treino. Tudo parecia correr bem melhor, já que agora que os jogadores conheciam as dificuldades de cada posição, pareciam valorizar mais a presença do coleguinha e com isso articularam melhor as jogadas. Eles estavam conversando mais, se ouvindo mais, o que era muito bom, porém não o suficiente.

Havia um ou dois jogadores que insistiam em sua teimosia. Sentiam-se os atletas mais capacitados em campo e vez ou outra “não ouviam” o chamado de um colega, ou se distraiam durante as orientações do capitão ou das minhas.  Tive-lhes que chamar atenção diversas vezes, o que gerou certa tensão entre nós.

Eles escolheram transformar essa tensão em raiva contra mim e, sempre que podiam, agiam de forma “rebelde”. Diversas foram as vezes que os peguei falando mal de mim. Veja bem, eu até entendo quando a pessoa faz críticas ao meu trabalho, mas não era o caso. Via-se claramente que a ausência de argumentos os levava a resumir suas queixas em xingamentos direcionados à minha pessoa, e isso eu não aceitava.

Como o campeonato envolvia apenas cidades pequenas, os jogos não ocorriam semanalmente como nas grandes áreas urbanas, e por isso tínhamos, em média, um espaço de 15 dias entre uma partida e outra. Eu perdi uma semana fazendo um semi tratamento de choque com os jovens, mas na segunda semana nós treinamos sério e pesado. Eu sentia que estávamos mais preparados.

Dessa vez o jogo seria em uma cidade vizinha, e para isso, toda a área administrativa do clube, também voluntária, trabalhara duro para organizar nossa viagem ao local. A ideia era fazer uma viagem de um único dia, com partida pela manhã e retorno à tarde, logo após realização do jogo, e assim o fizemos.

Não posso dizer que assisti a essa partida com prazer, porque não foi o que aconteceu. Jogamos melhor? Sim, mas ainda não estava do jeito que eu queria. Os jogadores estavam entrosados e até conseguiram abrir o placar, mas não mantê-lo por muito tempo e logo o adversário havia conseguido o empate. Foi aí que percebi que as minhas crianças não conseguiam lidar com pressão, já que mesmo com um resultado parcial neutro, eles pareceram se “dispersar” um pouco.

“Vocês são uma equipe, precisam trabalhar juntos, entrar em sintonia. ” Foi a última coisa que disse ao time no vestiário, minutos antes de sofrermos o nosso segundo gol, no segundo tempo. Naquele momento, eu só conseguia pensar em como eu queria que aquilo fosse voleibol e não futebol, assim eu poderia pedir uma pausa adicional. Eu precisava tentar acalmá-los, pois, a julgar pelo histórico destes, logo começariam a agir por impulso.

Aproveitei uma breve pausa feita para o atendimento de um dos meus atletas, que havia sofrido uma falta (nada muito sério, apenas aquelas trombadas que doem muito na hora mais depois a dor some milagrosamente) e chamei o capitão para dar-lhe algumas orientações. Ele as escutou com atenção e depois saiu transmitindo-as aos demais.   

Como nossos principais jogadores estavam sendo muito bem marcados, eu pedi que os demais, na medida do possível, ousassem mais em campo a fim de criar mais jogadas que pudessem ser convertidas em gol. A ideia não era usar nossos atacantes como forma de distração do adversário, e sim criar um maior número de jogadas que estes não pudessem previr ou interceptar.

A estratégia até que deu certo por um tempo, o que fez com que conseguíssemos um empate, mas logo alguns jogadores (sim, aqueles mesmos dois que já vinham me dando dor de cabeça a alguns dias), não contentes por não estar mais tão presentes nas jogadas, passaram a ser mais violentos com os adversários que os marcavam ou insistiam em manter a bola mesmo quando “encurralados”, levando-nos a perder boas oportunidades de gol. Além disso, como estavam bem marcados e insistiam em não passar a bola, diversos contra-ataques do time adversário surgiam das jogadas em que estes estavam envolvidos.  

Cansei-me dessa situação e utilizei minhas substituições para tirar esses dois rapazes do campo, o que, é claro, não os deixou nada felizes. Eles eram bons, mas estavam agindo como crianças e colocando o time todo em risco, então não pensei duas vezes em tirá-los do campo, ignorando completamente os protestos destes ao cruzarmos na saída do campo.

Com muito custo, conseguimos equilibrar o jogo e garantir um resultado final neutro. Saímos de campo, fomos ao vestiário e depois partimos para casa. Na primeira oportunidade que tive, chamei os dois “garotos problema” para conversar.

— Vocês entendem por que eu tirei vocês do campo?

— Porque você é uma péssima treinadora e não sabe o que está fazendo? — Um destes rebate com sarcasmo.

— Não, é exatamente por saber o que estou fazendo que solicitei as substituições — falei com uma calma surpreendente até mesmo para mim. — Se continuassem em campo, no estado em que estavam, prejudicariam a equipe, e eu não podia deixar isso acontecer.

— Nós nunca prejudicaríamos o time, somos os melhores dele. — O outro falou firme, como se aquilo fosse realmente verdade. — Sozinhos valemos por metade dele.

— Vocês realmente acreditam no que está falando? — perguntei incrédula, ao que ambos confirmaram com a cabeça, não tão seguros quanto no início da conversa. — Ok, então veremos isso.

— O que você quer dizer com isso? — O primeiro perguntou ao que o segundo me direcionava um olhar desconfiado.

— Verão no próximo treino — falei seca, já me distanciando dos dois.  

Novamente, tivemos um dia de descanso após o jogo, mas no dia seguinte eu tratei de botar em ação o meu plano de vingança, quer dizer, estratégia de aprendizado. Eu estava empenhada em colocar na cabeça daquelas crianças que em um time não existe um melhor jogador. Cada atleta era uma peça importante dentro da equipe, e a ausência de nenhuma delas passaria despercebida. Não importa quem faz o gol, já que se não houvesse outras pessoas em campo para iniciar e desenvolver a jogada, este nunca existiria.

Essa semana nós manteríamos as partidas-treinos, só que dessa vez eu preparei uma coisa um pouco diferente. Criei um time com 11 integrantes, do qual participava a maior parte dos atletas da equipe principal, com exceção dos “reis da bola”, é claro. No outro time eu deixei os dois, mais seis pessoas. Logo que perceberam a desproporcionalidade, um deles falou de modo sarcástico.

— Olha, não sei se você sabe, mas uma partida de futebol é feita entre equipes de números iguais — falou com sarcasmo. — Essa é a regra básica do esporte.

— Sei muito bem disso, mas alguns de vocês parecem não saber, já que afirmaram há poucos dias que sozinhos valiam pela metade do time — falei num tom debochado, ao passo que os dois jovens arregalaram os olhos. — Agora quero que me provem!

É óbvio que eles não gostaram da ideia, era nítido na expressão deles, mas não se sentiram à vontade para contestar, principalmente porque alguns de seus colegas passaram a encará-los com certa raiva no olhar, enquanto outros riam discretamente já cientes do propósito daquilo tudo.

A partida teve início e, como esperado, o time em desvantagem numérica foi massacrado. Via-se como os setes corriam, mas não era suficiente, o campo era grande demais para um grupo tão pequeno. Além disso, os integrantes da equipe contrária pareciam ter entrado no espirito da “dinâmica”, dedicando-se a dificultar ainda mais a vida do adversário.

Nenhuma das estratégias empregadas pelo grupo dos “rebeldes” surtiram efeitos. E pasmem, eles realmente tentaram, agiram como uma equipe a maior parte do tempo. Mesmos sabendo-se injustiçados os seis escolhidos a acompanhá-los jogaram com garra e deram o melhor de si na partida. Preciso lembrar-me de pedir-lhes desculpas, já que estou “usando-os” para ensinar uma lição aqueles dois. 

Finalizada a partida, reuni a todos no centro do campo para termos a conversa que eu esperava ser a última. Os dois garotos que motivaram toda essa “brincadeira” estavam ofegantes ainda, mas me encaravam com um olhar envergonhado, enquanto seus colegas riam e faziam piada com a situação dos dois.

— Bom, acredito que todos tenham entendido o propósito do treino de hoje — falei, olhando para todos. — Vocês são uma equipe, precisam trabalhar juntos, entrar em sintonia. Nenhum é mais importante que o outro. Não importa quem fará o gol, e sim o resultado que vai estar no placar ao final do jogo — falei com um tom de irritação. — Então parem de pensar sozinhos e comecem a pensar em conjunto. Ouçam seu capitão e também se façam ouvidos por ele. Busquem soluções alternativas, vejam as situações a partir de outros pontos de vista. Vocês são 11 caras! São 11 pares de olhos se movimentando o tempo todo pelo campo, não é possível que todos estejam vendo a mesma coisa! Espero que essa seja a última vez que eu tenha que falar com vocês sobre isso. Estamos entendidos? — Todos concordaram. — Ótimo, então até amanhã!

Antes de saírem, os dois jogadores vieram se desculpar pessoalmente pelo comportamento que tiveram na última partida e prometeram que isso não voltaria a acontecer. Eu estava satisfeita, não por ter me “vingado” e sim por ter visto que a equipe como um todo tinha realmente entendido a ideia que tentei passar. Eu sabia que eles não melhorariam de um dia para outro, mas o fato de estarem cientes do problema e do próprio comportamento frente a eles já era um grande passo. Eles estavam dispostos a mudar e isso era um bom sinal. Eu não ficaria com estes por muito mais tempo, mas queria poder devolve-los ao professor melhores do que chegaram a mim. Eu queria não só poder retribuir a confiança depositada em mim pelo meu amigo, como também ajudar aqueles jovens a ficarem mais próximos dos seus sonhos.

Ainda tínhamos pouco mais de um mês juntos antes do retorno do treinador, e nossa posição no campeonato também não andava nada bem. Eu precisaria trabalhar duro, junto a todos, para podermos melhorar nossa posição, e eu estava disposta a fazer isso. Eu vou mostrar que um time não é composto só dos 11 jogadores em campo, mas também da equipe técnica, que lhe dá suporte, e da torcida que a incentiva a continuar.

Somos um time de 12, 13, 20, 50, 100, 500 e quantos mais quisessem compartilhar conosco a paixão pelo futebol.  


Notas Finais




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