História Uma história incerta... - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias 50 Tons de Cinza
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Palavras 4.746
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Um capítulo incompleto...


Remexo um pouco para a direita e me aconchego no travesseiro. Não dá. Abro os olhos. Não consigo mais dormir. Inclino a cabeça para trás, olhando por cima do ombro. Richard dorme profundamente com o peito à mostra para cima; subindo e descendo. Pego seu relógio de pulso em cima da mesinha ao lado da cama e olho a hora. 2h27.

Droga. Odeio perder o sono no meio da madrugada. Afasto os lençóis e jogo as pernas para fora. Sentada na beirada da cama, balanço levemente o pescoço para relaxar.

“Quem sabe uma bebida...”, penso olhando para a claridade fosca por trás das cortinas. Levanto-me devagar, apanho minha calcinha largada no chão e visto-a. Contorno a cama e pego a camisa de Richard pendurada na cadeira. Vou caminhando na ponta dos pés até porta e abro-a. Dou uma olhada rápida em Richard. Nu e adormecido. Ótimo. 

O ar do corredor é gelado e eu enrolo minhas mãos na barra da camisa. Desço as escadas apressadamente e ando até a cozinha. Está bastante escuro, mas as luzes da cidade permitem que eu enxergue com facilidade. Caminho até a geladeira enquanto prendo meu cabelo num coque alto. A luz da geladeira atinge meus olhos como raios e eu aperto-os para poder se acostumar com a claridade. Percorro o olhar pelas prateleiras em busca de algo relaxante. Parece que o sexo dessa noite me deixou mais tensa. Não consegui relaxar. Estava com a cabeça cheia demais. Ainda estou, para ser mais sincera. A encenação medíocre de Ronald me deixou perplexa. Como ele teve coragem de fazer aquilo? Me agarrar. No quarto do próprio irmão. Depois me atacar de maneira agressiva e após meus protestos, Richard aparece no quarto. O espanto e a tristeza era visível por todo o seu rosto.

“Ele ficou chateado, mesmo Ronald inventando uma desculpa esfarrapada. E mesmo tentando explicar e ele dizendo que acreditava em mim, senti uma pontada de desconfiança...”

Uma sensação estranha aperta meu coração e eu mordo os lábios para impedir que as lágrimas voltem. Estou com uma sede incontrolável para acalmar os nervos. Mas nos últimos dias isso está sendo algo impossível de alcançar. Vasculho as prateleiras com os olhos novamente. Há apenas uma quantidade obscena de comida — que até hoje não consigo entender quem come isso tudo, por ele, com certeza, não come. Após alguns, segundos percebo que a geladeira ainda está aberta, gastando energia à toa. “Foda-se. Ele pode pagar”, penso voltando à minha caça pela geladeira.  Na segunda prateleira de baixo há outra fileira de bebidas. Mas essas são mais saudáveis. Sucos. Vitaminas. “Encontra-se tudo nessa geladeira?” Torço a boca e solto um suspiro frustado. Não tem nada. Preciso de algo mais forte. Fecho a geladeira e caminho até a estante de bebidas quentes, ao lado de alguns bancos.

Abro o vidro da estante e acho que meus olhos quase saltaram das órbitas. Ele tem muita, muita bebida! E das marcas mais caras. E involuntariamente, a minha testa franze. “Céus, pra quê ele quer isso tudo? Richard mal bebe. É raro vê-lo com um copinho sequer.” Balanço a cabeça tentando afastar o nó que se formou em minha mente e volto a olhar para a estante absurdamente lotada. Há vários vinhos, vodka, whiskys...

 “Whiskys!”

Uma minúscula Daphne surge em minha mente fazendo sim com a cabeça, balançando-a freneticamente. Daphne a aprovaria. Sorrio com o pensamento. Volto a atenção para a estante de bebidas excepcionalmente deliciosas e caras. Claro. Tudo tem que ser caro. Lembro dos conselhos incertos de Daphne a respeito de um bom whisky. Ela já tem costume com bebidas mais fortes, mas sempre adora ultrapassar os limites. A lembrança da minha amiga caída no hall de seu apartamento me diverte. Estava carregando-a pelo corredor do prédio, porque ela mesma não se aguentava em pé. Tropeçava toda vez que acordava de seus curtos cochilos. Acho que é por isso que sou amiga de Daphne: para poder arrastá-la nos meus ombros até eles ficarem doloridos ou até ela vomitar em mim e levá-la para casa. Mas sempre exagera quando termina um relacionamento.  "Céus. Nem consigo imaginar o que lhe aconteceria se eu não a trouxesse das festas nesse estado."

Suspiro, piscando os olhos, focando novamente na minha busca. “Whisky?”, pergunto em silêncio, enquanto pego uma garrafa de Asyla.

“Você não quer que o Richard te encontre largada no tapete com a garrafa vazia ao lado, quer?”, meu subconsciente me repreende fazendo bico, lembrando-me de como sou fraca com bebidas alcoólicas.

— Merda de consciência. — resmungo, devolvendo a garrafa à estante.

Vasculho novamente as prateleiras com os olhos e os detenho sobre a coleção de vinhos. Todos enfileirados e organizados com precisão. Reviro os olhos e bufo.  “Que vontade de quebrar todas essas garrafas. É tudo tão entediante e desnecessário.” Pego duas garrafas e me curvo para o lado, na tentativa de enxergar os rótulos em meio à escuridão. Porto Dow Vintage, de Portugal e Beau Rivage, França. Minhas sobrancelhas arqueiam-se de repente. Caramba. Até esses vinhos viajaram mais do que eu.

— Sacal. — suspiro.

Acabo optando pelo vinho português. Uma ou duas taças não vão me derrubar. Empurro a porta da estante, que faz um barulho alto, fazendo-me dar um pulinho de susto. Com a garrafa na mão, eu ando na ponta dos pés até às escada e dou uma olhada para o andar de cima.

“Está tudo bem.”, relaxo o corpo, voltando a respirar.

Retorno para a cozinha e desabo em um dos banquinhos do balcão. Encho meia taça e beberico o vinho, enquanto viro minha cabeça para a vista da cidade.  “Nada mal”, opino à respeito do vinho e lambo os lábios. Após alguns segundos, levanto-me do banco e caminho até uma poltrona no centro da sala. Pouso a taça e a garrafa no vidro da mesa central e seguro os braços da poltrona, levantando-a do chão. Carrego a poltrona até a janela e pouso-a no chão a mais ou menos uns dois metros da janela. Retorno à mesa e apanho o vinho e a taça. Afundo na poltrona roxo escura e pouso a garrafa de vinho ao lado dos pés. Cruzando as pernas uma sobre a outra, eu dou um gole de vinho e suspiro profundamente.  É uma belíssima vista para apreciar. Um dos privilégios que o dinheiro oferece. Assim como essa poltrona super confortável. Assim como esse vinho caríssimo que desce pela minha garganta. Assim como esse apartamento enorme, que até hoje acho extremamente desnecessário para uma pessoa só. “Caberia minha família inteira aqui confortavelmente. Aqui tudo é tão... Monótono. Entediante. Clichê. Só quero ele. Pelo menos para mim, bastava apenas ele...” Não é o tipo de vida que imaginei para mim. É sufocante. O que estou fazendo? Amo ele, de verdade, mas temo que esse amor se desfaça com o tempo que passamos aqui, com essas merdas que nos cercam... Respiro fundo e bebo outro gole. 

— Você está bem? — a voz de Richard ecoa pela sala.

Viro a cabeça por cima do ombro e encontro-o em pé, encostado no hall. Está usando apenas sua calça frouxa de dormir, descalço. Um amontoado de sensualidade e desleixo. Odeio como esse homem consegue ser lindo mesmo quando está todo assanhado e com cara de sono. Deve ter virado para o lado na cama e não ter me encontrado. Teme que eu vá embora com o que anda acontecendo. Não posso negar que é uma possibilidade pequena. Pequena, mas uma possibilidade...

— Estou sim. — respondo, e viro a cabeça de volta.

Ouço-o suspirar forte e escuto um barulho de ferro sendo arrastado.  Torno a desviar o olhar da janela e viro a cabeça para trás. Richard carrega outra poltrona, azul escuro, e a pousa ao meu lado. Ele afunda na poltrona cruzando as pernas de modo tão elegante, que me faz remexer na minha. Sua postura tão sofisticada e treinada, em comparação com a minha, largada de pernas abertas para as janelas. 

— O que você tem? — pergunta, baixinho. 

Inclino-me para pegar a garrafa e encho a taça. Pelo canto do olho consigo perceber seu olhar fulminante que vaga entre mim e a garrafa de vinho no pé da poltrona. 

— Nada. — murmuro, bebericando o vinho.

Sei o que ele está pensando. Sinceramente, preferia que ele estivesse dormindo do que está ao meu lado preparando uma palestra de repreensão a respeito do meu comportamento. Não é uma boa hora para discutir. Não agora. 

— Porque está bebendo a essa hora da noite? — sua voz é “irritantemente” tranquila. 

Dou de ombros.

— Porque me deu vontade. Precisava relaxar. 

Ainda não olhei para ele. Mas não é necessário. Dá para sentir seu olhar me penetrando para ler meus pensamentos. Essa sua mania é intimidante, incômoda e irritante. Uma pequena parcela de raiva brota na minha mente e sinto vontade de jogar esse vinho em sua cara, só para ver se ele desmancha esse olhar ridículo.

— Pensei que o sexo a deixava relaxada. — ele indaga. 

Saboreio mais um generoso gole do vinho e sinto o gosto passear por toda minha boca. 

— De fato. Mas hoje não — viro o rosto, finalmente, para encará-lo. 

— Hoje não? — diz, irônico, e eu consigo captar uma pontada de surpresa em seus olhos.

“Touché!”

Contraio os lábios para dentro e engulo em seco.

— É. Hoje não relaxei.

Ele aperta os olhos. Desde o momento em que se sentou ao meu lado que ele não para de me encarar com seus olhos flamejantes. Parece duas adagas cravadas em mim. Realmente está me incomodando. Tenho que fazer algo que o faça parar com isso.

— Ainda está chateada?

Sua pergunta faz com que eu congele, fitando os meus pés. Merda, ele conseguiu. Seu joguinho idiota de adivinhação deu certo e a cobaia sou eu. Não adianta tentar bancar a indiferente. Ele sempre vai descobrir o que se passa dentro de mim. 

— Não. Já passou. — minto, tentando encerrar a conversa. 

Ele sabe que estou chateada. Sabe que não me esqueci da encenação ridícula de seu irmão. Foi demais para mim, e como instinto, as cenas voltam a aparecer em minha mente. Meu estômago revira em resposta. 

— Já disse que acredito em você...

A parcela de raiva cresce e deixo  escapar um suspiro frustado, claramente expondo minha impaciência.

— Não estou com cabeça para conversar agora! — esbravejo, batendo a mão no braço da poltrona.

Ele arqueia as sobrancelhas, espantado. Estou abusando de sua paciência, mas ele terá que se esforçar para me compreender.

Se ele tiver um pouco de juízo e respeito pela minha raiva, será inteligente o bastante para não prosseguir com essa conversa.

— Não acha que está sendo indelicada? — ele indaga, cauteloso.

Merda. Ele não vai parar mesmo. “O que esperava? É o Richard. Não admite falta de educação em sua presença.”, meu inconsciente revira os olhos para mim. 

Aperto os olhos e respiro profundamente.

— Não. Desconheço essa palavra. Mas, — levanto o indicador — como você sabe, a ignorância é meu sobrenome.

Viro o rosto para encará-lo.

— Saúde. — finalizo virando a taça.

Richard inspira bruscamente, passando uma mão por seus cabelos escuros. Eu sei o que ele está pensando. Está chocado com minha postura ridícula de bêbada mal amada. Sei que está bravo, mas, no momento, isso ocupa o último lugar da minha lista de preocupações. Ele desvia o olhar de mim — “finalmente!” — e encara a vista por trás da janela. Após alguns segundos de total silêncio, ele se levanta e dá alguns passos para trás de mim.

— Lauren... — ele murmura. 

Eu inclino a cabeça para a esquerda. 

— Sim? — a palavra sai lenta de meus lábios, tentando demonstrar desinteresse. 

Richard respira fundo e cerra os punhos. Está se controlando para não surtar. Mas ele não pode reclamar. Deixo que ele sofra um pouco. 

— Não demore muito. Não consigo dormir muito bem sem você — consigo captar a súplica escondida em suas palavras. 

A parcela de raiva cai quase pela metade e as batidas do meu coração aceleram um pouco. 

— Não se preocupe, não vou demorar. 

Richard permanece imóvel por alguns segundos, tentando adivinhar se as minhas palavras eram verdadeiras ou não. Seja lá qual foi a sua conclusão, ele caminha pela sala e retorna ao quarto. Eu volto a olhar para cidade. Sei o que acabei de fazer e as consequências disso. Sinto um peso no peito, querendo me fazer sentir culpada, mas não dá. Dessa vez, não dá mesmo. Foi longe demais. Foi além dos meus próprios limites. Não sei se posso continuar aqui, apesar de amá-lo muito.

“Mas não é isso que as pessoas fazem quando amam? Se sacrificam pelo o outro?”, indago para mim mesma, tentando acalmar as batidas incessantes dentro de mim.

“Sim. É o que fazem. Mas ele não deveria fazer o mesmo? Não deveria se sacrificar por mim também? Ou então...”

Um aperto forte envolve meu peito com a possibilidade que veio à minha mente.  Cubro a boca, piscando para deixar algumas lágrimas caírem. Respiro fundo na tentativa de abafar os soluços que escapam da minha boca. Não importa quantas vezes eu repasse o pensamento na cabeça, sempre será o mesmo.

“Ou então ele não me ama.”

Talvez tudo seja ideia da mente dele, talvez ele esteja comigo por consolo, por apenas companhia. O pensamento é deprimente e me levanto de uma vez. O movimento é brusco e acabo batendo o pé na garrafa, que desaba no chão fazendo um barulho seco. Meu corpo congela na tentativa de evitar mais barulho. Não quero que Richard acorde e me encontre nesse estado. Abaixo-me, apanho a garrafa já quase seca e a taça, e me dirijo até a cozinha. Estou ficando sem saída. Sinto-me sufocada. As lágrimas ameaçam voltar e respiro fundo, segurando-as.

“Não chore. Por favor, agora não. Você não é mais uma garotinha!”, meu insconsciente aperta os olhos feios para mim, me repreendendo, mas acabo soltando um soluço.

Enxugo as lágrimas com as palmas das mãos e ponho a garrafa e a taça em cima do balcão e saio da cozinha. Abro a porta do quarto lentamente, rezando para que Richard já esteja dormindo. Adentro no quarto e aperto os olhos para a figura enorme esticada na cama. Dormindo. Bom. Ainda bem que Richard não ronca. Na verdade, vê-lo dormindo me ajuda a dormir. Sua respiração tranquila me acalma, como uma canção de ninar. Na ponta dos pés, contorno a cama até o lado esquerdo e me deito cuidadosamente de costas para ele. Não posso encará-lo. Só iria doer mais ainda. Como um pressentimento, um braço forte envolve minha cintura e Richard pressiona seu peito contra minhas costas. Prendo a respiração. Seus lábios roçam na minha orelha e sinto o ar quente aquecendo-as. “Ele estava acordado? Droga!”

— Lauren... — ele murmura, mas tão baixinho, que só escuto porque sua boca está perto do meu ouvido.

Fico em silêncio na expectativa de que ele volte a dormir. Ele me aperta mais ainda.

— Eu sinto muito...

Respiro fundo, apertando os olhos. Não quero voltar a chorar. Ainda quero sentir raiva dele, mas a raiva já se transformou em tristeza. Meu coração está despedaçando.

— Eu amo você...

Acho que meu coração parou de bater. Ou ele se despedaçou de vez. Ou o meu cérebro parou de funcionar. Ou a terra parou de girar. As palavras caem em mim, como uma barragem rompida, como uma onda de emoção me engolido e esmagando. Richard nunca disse que me amava. Sempre demonstrou de várias formas, mas nunca disse de fato. Sentia raiva dele porque não compreendia a dificuldade de dizer apenas três palavras. Sempre foi muito fácil para mim; apenas sentir, apenas dizer. Simples. Mas Richard não é simples. Nunca foi. E se ele nunca me falou isso, é porque não tinha certeza.

“Ele já tinha explicado sobre isso”, meu insconsciente recém despertado me lembra, olhando por cima dos óculos de leitura.

Eu já tinha parado de criar esperança, de ficar na expectativa de quando ele finalmente diria, e eu explodiria de felicidade. Mas agora, aqui, ouvindo-as, sinto como se uma adaga tivesse sido cravada em meu peito. Há poucos minutos atrás, estava pensando em deixá-lo e agora ele revela que me ama. Acho que minhas lágrimas silenciosas e sorrateiras estão encharcando o travesseiro.

“Porquê, meu Deus? Porquê ele teve que dizer isso agora?”

Já estava preparando meu coração para o momento em que talvez eu partisse, mas agora ele revelou isso e volto a estaca zero. É como se estivéssemos nos beijando pela primeira vez. É como se nos amássemos de novo. Meu coração infla de emoção e já não sinto mais nenhuma vontade de partir. Porque meu coração sempre pertenceu à ele. E agora ele admite que o dele é meu. Acho que esse é o momento mais contraditório da minha vida. Estou explodindo de felicidade por fora, mas exausta por dentro.

Viro-me para acariciar seu rosto adormecido, mas quando inclino o rosto por cima do ombro, levo um susto. Seus olhos me encaram como duas bolas de fogo.

“Ele não estava dormindo. Ele confessou conscientemente.”

Sinto mais lágrimas vindo à tona.

— Oi. — ele sussurra.

— Oi.

Richard move o braço direito pela minha cintura e o leva até meu rosto, deslizando o dedo por minhas lágrimas.

— Porque você está chorando, amor? — as palavras saem tão baixas, que apenas consigo ler os seus lábios movendo-se.

“Amor! Ele acabou mesmo de me chamar de amor? É isso mesmo, Senhor, ou estou sonhando?”

Acho que enfartei pela terceira vez hoje. Suspiro e limpo a garganta, procurando as palavras certas.

— Porque estou confusa.

Sua testa franze, formando aquelas ruguinhas que sempre me fazem suspirar — e estou suspirando agora — denunciando a sua confusão.

— Porque você está confusa?

Ajeito a cabeça no travesseiro e ele me puxa para mais perto. Enlaço minhas pernas nuas nas suas, sentindo o tecido macio da sua calça por baixo dos lençóis. Sinto-me tão protegida e aquecida perto dele.

— Porque eu amo você e nunca neguei isso. Mas você nunca disse que me amava. E quando tudo vira um caos, você revela que me ama também.

Ele pisca pausadamente, mas depois franze a testa, transformando seu rosto em uma combinação de perdição e vulnerabilidade, e sua carranca aprofunda enquanto eu continuo:

— É confuso demais para mim.

Richard congela o olhar sobre o meu e, por uma fração de segundo, consigo ver o que está sentindo por dentro, através das chamas dos seus olhos. Ele não está com raiva. Pelo menos, não de mim. Isso é a culpa, o atingindo como um soco certeiro. Ele suspira e puxa o braço lentamente para si, como um animal machucado. Eu o sigo com os olhos, e uma parcela de medo e ansiedade brota em mim.

“Merda!”

— Não estou duvidando de você — acrescento rapidamente, e eu mesma posso ouvir o desespero na minha voz. — Só que... É complicado.

Richard engole em seco e fecha os olhos. Quando os abre, exibem um castanho escuro, sombrio, cansado...

— Eu é que sou complicado, Lauren. Sei que sou uma pessoa difícil, que muda de humor constantemente, sei o quanto isso é... — ele faz uma pausa, respirando fundo — desgastante. Até mesmo para mim, e imagine para você. Mas a verdade é que eu já te amava. Desde o instante em que mandei a razão se foder e me permiti envolver com você. Fui um covarde guardar isso só para mim, por medo, enquanto nem percebia que estava a magoando.

Seu olhar é intenso e cheio de expectativa, sua franqueza é totalmente desarmante, e sinto que acabo que infartar pela quarta vez. Sua confissão me pega de surpresa e a vontade incontrolável de beijá-lo inunda meu corpo. Não quero que ele pense que é um fardo para mim. Um fardo no qual eu não sou obrigada a carregar.

“Será que ele não consegue ver o quanto é incrível e fantástico? Depois de todo esse tempo, ele não consegue ver como mudamos desde o dia em que nos conhecemos?”

Pressiono os lábios para dentro, tentando ainda manter um pouco de controle sobre mim — e sobre as malditas lágrimas — enquanto assimilo as sinceridade de suas palavras. Preciso manter a calma para ver o rumo dessa conversa.

— Não quero perdê-la, não quero te machucar, mas também não quero ser uma prisão para você. Confessei isso porque também não aguentava mais guardar só para mim. É simples: eu amo você. — ele conclui.

Engulo em seco e um sinto um nó na garganta. Deve ser os mil soluços entalados, implorando para saírem enquanto eu luto para não explodir em lágrimas. Nunca imaginei que ouviria coisas tão sinceras e lindas assim. Ainda mais vindas desse homem. Do meu homem, que eu amo tanto.

Aproximo-me mais, e olho diretamente em seus olhos. 

— E eu amo você. — murmuro.

Richard aperta os olhos suavemente e pousa a mão em meu rosto. Seus olhos agora exibem um brilho diferente. Gratidão? Devoção? Amor? Talvez, ambos? É perturbador essas suas constantes mudanças de humor.

— Eu sei o que aconteceu. Não sou cego. No momento em que vi, fiquei com tanta raiva que tive vontade de socá-lo até a morte. Mas pensei em você. Lembrei do que você tinha me dito naquela noite; que eu não era igual a ele.

— E você não é.

— Eu sei. — ele suspira. — Mas na hora eu não pensei direito. Só pensava no que ele tinha feito.

Sua boca se aperta numa linha dura e agora seu rosto é uma pedra, fria e rígida.

— No que ele tinha feito durante a minha vida inteira.

Franzo a testa. “A vida inteira?”

Ele lambe os lábios e baixa o olhar.

— Ronald sempre quis me controlar. Até mesmo mais que nosso pai. — ele torce o nariz. — Nunca entendi. 

— E você deixava?

Ele balança a cabeça devagar de um lado para o outro.

— Eu ignorava. Acreditava ser apenas mania de irmão mais velho. Mas essa mania foi se tornando implicância e isso já não era mais aceitável. Nós não éramos mais crianças. 

— O que ele fazia? — sussurro, ajeitando-me sobre o braço.

Richard pisca algumas vezes, pensativo.

— Ele dava ordens de forma natural, parecendo como se fosse apenas um pedido. Mas não era. Depois, foi tornando-se em ordens diretas, como se ele fosse meu dono. Mas não era. Ele era meu irmão e não podia me tratar assim. Às vezes, ele apelava para o lado emocional. Fazia-me sentir culpado.

— Culpado pelo o que? — arrisco perguntar, temendo a resposta.

“Não podia ser...”

— Lizie. 

Inspiro bruscamente, controlando as emoções. As ações de Ronald me choca cada vez mais.

“Como ele pode culpar o próprio irmão pela morte da irmã? Lizie era uma menina, e Richard também. Ele não teve culpa. E Ronald sabe muito bem disso.”

Estou incrédula.

— Ele não pode fazer isso. Sabe disso. Você não teve culpa de nada. — digo, um pouco alto.

Richard suspira, apertando os olhos.

— Eu... sei. Antes não acreditava. Mas hoje acredito.

— Que a culpa não foi sua?

Ele faz que sim com a cabeça.

— Porquê?

— Porque você me fez acreditar. — ele olha nos meus olhos e eu perco o fôlego. “Eu?” — Você me fez ver os meus erros e aceitá-los. A consertá-los. Eu quero fechar aquela ferida.

Solto um suspiro, e estico minha mão até a sua. Ele a aperta.

— Ela vai. Você vai conseguir, você é forte. E mais importante: você é bom. — “diferente do irmão.”, acrescento mentalmente.

Richard aperta os lábios para dentro e vaga o olhar por todo o meu rosto.

— Quando você fala assim, acredito que sou mesmo.

— Já disse, você é. 

Ele leva minha mão até seus lábios e a beija delicadamente. 

— Não quero mais errar com você. Não quero mais ficar distante e ao mesmo tempo perto, sem poder ficar com você. Pode não acreditar... — ele suspira. — Mas eu sofri. Senti um vazio que não sentia há anos. Desde Lizie.

Pisco os olhos. “Chorar de novo não...”

— Eu amava Lizie. Eu amo você. 

— Você me ama mesmo? — murmuro.

Ele trava o olhar no meu, sério. “Céus, ele acha que estou duvidando? Não fique com raiva...”

— Vem cá. — ele diz, erguendo-se sobre o braço, sentando-se sobre as pernas e puxando-me com ele.

Ficamos sentados frente à frente. Um para o outro. Ele pega minhas mãos e as coloca sobre as suas. Ele não aperta. Apenas as deixa solta sobre as suas palmas. 

— Olhe para nossas mãos e lembre-se de nós quando começamos a ficar.

Faço o que ele pede. A primeira coisa que me veem a mente é a estufa. Estávamos na antiga estufa de sua mãe, e então começa a chover. Corremos para a casa e revelamos nossos sentimentos. A primeira vez que nos beijamos. Quando finalmente senti o sabor de seus lábios.

— Éramos assim. — ele move as palmas, chamando minha atenção. — Juntos, mas instáveis. Não agarrados, não unidos, não envolvidos, mas juntos. Atraídos. Você concorda?

Suspiro, recordando nossos primeiros encontros.

— Sim. 

— Tínhamos uma ligação, — ele continua. — mas a qualquer momento poderíamos mudar de ideia e seguir nossos próprios caminhos.

“Verdade.”

— Mas decidimos continuar juntos. — ele estica as mãos e começa a entrelaçar os dedos nos meus. — E fomos nos apegando, nos envolvendo, nos unindo... — ele aperta os dedos e eu aperto de volta. Não quero soltar. — Até estarmos apaixonados. Só não percebi isso.

Levanto o olhar para seu rosto e ele me encara. 

— Quer dizer, eu percebi. Eu senti. Só não queria ver. Estou agarrado à você, Lauren, de uma forma que nunca vou soltar. Eu amo você e tenho certeza. 

— Como você tem certeza? — arrisco perguntar, receosa de que ele se decepcione comigo. 

Ele abaixa o olhar para nossas mãos unidas e suspira. 

— Porque ficar sem você foi terrível. Eu não sabia o que fazer. De repente, me encontrei na mesma situação quando perdi minha irmã. Sinto a falta dela, mas de você... — ele trava a mandíbula. — Foi desesperador. Não quero isso de novo, nunca.

Aperto os lábios, suprimindo um suspiro. As malditas lágrimas ameaçam a voltar.

— Eu também sofri. — “com seu irmão.” — Apesar de eu ter uma parcela de culpa...

— Não. — ele balança a cabeça. — Não, não... Eu a tratei mal. A ignorei. Fiz você acreditar que não era importante para mim. Esse foi meu maior erro.

Aperto os dedos em volta dos seus e engulo em seco.

“Depois conto sobre Ronald.”

— Richard... Eu sei que errei também. Agi como se tivesse desistido de nós. Como se não existisse mais nada. Mas sabíamos que tinha algo vivo ainda, algo que nos mantinha ligados. — pisco os olhos, contento as lágrimas. — Eu amo você. Amo de verdade. E por mais que tenha parecido mentira, meu sentimento nunca mudou.

Ele levanta meu rosto e limpa minha lágrimas com o polegar. Seu toque é tão suave e tranquilizador.

— Lauren, nós erramos em não dar importância aos nossos sentimentos. Principalmente eu. Mas aqui estamos, um com o outro, nos permitindo viver isso. E é só o que me importa.

Enxugo as lágrimas com as palmas das mãos e sorrio.

“Como eu posso sentir tanta coisa por um homem só? É incrivelmente grande e fico surpresa de como é possível caber em meu peito sem explodir. Porque isso é o amor. E agora sei mais do que nunca, que ele não está contido só no peito. Ele se manifesta de diversas formas em vários momentos. Raiva, tristeza, alegria, amargura, ciúmes, cuidado, adoração... Ah, meu Deus!”

Olho no fundo dos olhos de Richard e me recordo das vezes em que o vi alterado. Quando ele me ligou chorando, quando ele explodiu sua raiva em mim depois da festa (de uma forma bem deliciosa), quando o vi tão preocupado em minha casa. Inúmeras vezes em que ele demonstrava o seu amor, mas o reprimia, o negava para mim. E isso era o que mais me irritava. Era.

Agarro seu rosto com ambas as mãos e grudo meus lábios no seu. Richard suspira, abrindo a boca mais ainda. Ergo meu corpo, sentando-me em seu colo, enrolando meus dedos em seu cabelo, puxando-o para mais perto.

— Lauren... — ele murmura, encarando meu rosto. — Meu Deus, você...

O beijo novamente, com mais intensidade. Não consigo mais esperar nenhum segundo sem saciar essa sede dele. Uma sede insaciável. Ele enlaça os dedos no cabelo da minha nuca e puxa para trás, afastando-me de sua boca.

 — Eu — ele rosna, mordendo de leve meu queixo. — amo — ele traça uma linha de beijos na minha mandíbula. — você. Amo... amo... amo... — ele beija meus lábios, encarando meus olhos. — Muito. Perdidamente. Só minha. Você é só minha.

— Oh... — gemo, quando ele morde meus lábios. — Eu sou... só sua.

Ele me beija novamente, com mais intensidade. Agarro seus ombros, unindo-me mais a ele, desejando mais e mais, e acabamos tombando para trás, eu ficando por cima dele. 


Notas Finais


A inspiração foi beber café, antes de continuar a escrita. :)


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