História Uma quarta-feira em detalhes - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias Divina Comédia
Exibições 3
Palavras 2.970
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Ação, Comédia, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 2 - Capítulo 1 - Manhã


Estou caminhando numa praça cheia de árvores. Nas cidades, as praças são uma maneira de termos algum contato com a natureza. De repente o sistema de som começa uma música suave, tranquila. Poxa, que legal essa música! Sinceramente, nem sabia que essa praça tinha um sistema de som. De repente percebo que quero ir ao banheiro, mas não sei onde ele fica, nem se tem algum por perto. Mas numa praça que tem até sistema de som, com certeza haverá um banheiro. Começo a procurar o banheiro, e aquela música legal começa a aumentar o volume e me atrapalhar. Mas preciso ir ao banheiro. Encontro o banheiro, mas não consigo entrar, não consigo abrir a porta. Enfim consigo abrir a porta, mas não consigo achar o vaso sanitário. Acho o vaso, e quando vou mijar, aparece uma faxineira. Ponho rapidamente a calça de volta, peço para ela se retirar pois preciso usar o banheiro com urgência. Ela sai. Quando enfim vou mijar, olho para baixo e o vaso está com a tampa baixa. Porra, eu tinha levantado essa tampa, como ela está baixa? Parece que alguma coisa está me impedindo de mijar. Vou acabar me mijando, caralho! O som se torna bem alto e insuportável. Tento encontrar uma explicação mais ou menos lógica para não conseguiria mijar. Faço isso todos os dias com tanta facilidade. E agora não consigo de jeito nenhum! A música atrapalha num nível tão intenso que eu tento sacudir a cabeça para me livrar dela.

Acordo. Percebo que estava sonhando e o celular está tocando aquela música que escolhi para ser o meu despertador. No momento em que a escolhi, ela parecia tão boa, pensei que isso iria me dar uma paz na hora de acordar, e agora tenho ódio desse celular desgraçado tocando, não são nem sete horas e já estou com ódio de alguma coisa! E o que fazer? A solução é tão fácil mas demoro para me dar conta, basta tocar na tela do celular que aquele modo soneca entra em ação, a música para de tocar e a paz volta a reinar. Com exceção da vontade de mijar. Mas de dois problemas, consegui resolver um deles no curto prazo.

Fecho os olhos e pego no sono instantaneamente.

Meu despertador tem a função soneca configurada para dez minutos. Não sei se existe uma teoria a respeito, mas esse tempo em minutos é sentido por nós como se fosse em segundos. Dez segundos depois de pegar no sono, então, o celular desperta novamente.

Cacete! Tenho que acordar, mas está muito difícil. Aperto no soneca novamente. Eu acho que conseguiria ficar nessa situação até o meio dia apertando a função soneca de dez em dez minutos. Isso, por pior que seja, me parece uma escolha melhor do que levantar para trabalhar.

Mas não dá. Lembro que é apenas quarta-feira, tem muita coisa pela frente e que levantar não será tão ruim assim, inclusive porque continuo com vontade de mijar. Um dia de trabalho é muito melhor do que um dia sem trabalho. Mesmo numa quarta-feira, em que é muito cedo para pensar no final de semana. Mas também não é tão ruim quanto uma segunda, por exemplo.

Vou ao banheiro em modo automático. Primeiro preciso mijar. Levanto a tampa, e parece que aquela água do vaso está a um quilômetro de distância. Miro com todas minhas forças, mas não sai perfeito. É um pingo que cai na lateral do vaso, outro que cai fora do vaso, além daquelas gotas que batem na água e voltam na minha canela. Não sei o motivo de nunca instalarem um mictório nos banheiros das casas. Tenho certeza de que seria uma boa, tanto para os homens que conseguiriam mijar melhor, quanto para as mulheres, que teriam maior exclusividade sobre o vaso. A seguir, paro em frente ao espelho. Fico me olhando. Na verdade fico olhando para o nada, e por acaso tem um espelho na frente e ali está o meu reflexo. Abro a torneira para molhar as mãos e o rosto. Existem momentos, principalmente no inverno, em que molharia apenas os dois dedos indicadores para esfregar os olhos. No início de um dia de inverno, isso é mais que suficiente para me considerar de rosto lavado. Quando estamos com sono, na verdade, o mínimo a fazer sempre parece um esforço sobrenatural.

Molho as duas mãos e passo água na cara. Vou escovar os dentes. Tudo ainda está meio automático, e nem percebo que enfrento um dilema diariamente: devo passar o creme dental na escova da mesma maneira que nas propagandas de creme dental? A quantidade na propaganda parece ideal, ocupa todas as cerdas da escova. Na vida real é um exagero tão grande que uma bisnaga duraria uma semana se agente sempre fizesse daquele jeito. Ponho uma quantidade bem menor, que também nunca sai do tubo de maneira tão bonita quanto nas propagandas, com aquela pontinha para cima. Escovo os dentes. O hálito melhorando já me dá uma sensação de que o dia está começando de verdade. Olho para os dentes, foco nos meus caninos. Por que se chamam caninos? Todos os dentes dos cães são chamados de caninos? Então como deveriam se chamar os dentes caninos dos próprios cães? Dentes humanos?

Hora de tirar o pijama e colocar uma roupa para o trabalho. Camisa ou camiseta? Calça escura ou clara? Puta merda, quantas decisões nessa hora da manhã! E se eu fizesse um aplicativo para celular, que o usuário tirasse uma foto de todas as roupas e ele sugerisse diariamente, com base na agenda de compromissos, e também na temperatura, a melhor combinação de roupas a usar? Mas será que já existe algum aplicativo assim? Quando agente tem uma ideia que acha mirabolante, provavelmente alguém já pensou nisso, já realizou esta ideia e já deve até estar ganhando dinheiro com isso. E como o aplicativo iria saber se a roupa está para lavar? Seria muita coisa para considerar, seria tão complexo que talvez ninguém fosse usar esse aplicativo. Deixa para lá. Também hoje em dia tem aplicativo para tudo, inclusive para coisas que seriam bem mais fáceis de fazer sem o aplicativo. Mas voltando às roupas, pondero se hoje terá alguma reunião no trabalho, ou se não teria problema em ir trabalhar de calça, tênis e camiseta. Á, vou com essa aqui mesmo, que está mais fácil de pegar e vamos ver no que dá.

Hora de tomar café. Eu sempre ouvi falar uma frase mais ou menos assim: tome um café da manhã de rei, almoce como um de operário, e jante como um mendigo. Não é exatamente assim a frase, mas a ideia é favorecer o café da manhã e comer bem. Na hora do almoço não lembrarei desta frase, e na janta, eu negarei por mais de três vezes que falei essa frase alguma vez na vida. Então vamos ao café. É praticamente um ritual que fazermos diariamente, quase sempre do mesmo jeito. Abro a geladeira, pego a caixa de leite e também alguma coisa para passar no pão. Existe uma dúvida entre escolher manteiga e margarina. Involuntariamente agente pensa em pão com manteiga, mas a grande maioria das propagandas na TV é sobre margarina, certo? Agente não admite que come margarina na maioria das vezes, pois manteiga custa mais caro no supermercado e acaba aceitando comer a margarina nossa de cada dia. Ponho o leite no microondas, e já vou preparando o pão e pegando o café em pó para misturar.

Sinceramente não sei o motivo de tantos botões em um microondas. Para mim só precisaria aquele botão de ligar por mais 30 segundos. É botão para esquentar pizza, fazer pipoca, até doce. Chega na hora de usar o microondas para esquentar qualquer coisa, e as pessoas colocam um tempo arbitrário e vão testando se já está pronto. Pego alguns talheres e depois o leite, que deve ter terminado de esquentar. Sento à mesa. Sentar à mesa é uma atitude que considero importante, pois ao sentar eu assumo que peguei tudo o que preciso para tomar café, e dali não sairei nos próximos minutos. Assim, é uma grande frustração quando esqueço de alguma coisa e tenho que levantar para buscar.

Terminado o café, recolho os farelos que caíram na mesa, ponho os talheres na caneca, e levo tudo para a pia. Se não houver nenhuma louça suja da noite anterior, eu me sinto no compromisso de lavar essa louça do café. Se houver louça, aí relaxo e lembro daquele velho ditado "o que é um peido para quem já está cagado?" e deixo a louça acumular para resolver depois.

Hora de ir pro trabalho. Pego carteira, chaves e celular. Para um homem isso deve ser mais do que o suficiente para passar o dia inteiro fora de casa. Chamo o elevador. Ao entrar encontro algum vizinho. Nessa hora da manhã é difícil ter algum assunto, e principalmente disposição para conversar. Então são aqueles cumprimentos trocados sem muita vontade. Um dá um bom dia, o outro rosna, por exemplo, e considera aquele som como um bom dia. Com esse clima de silêncio que se instala no elevador, os dez segundos que levam para ir do meu andar até o térreo parecem durar uns dez minutos. É meio o contrário daquela teoria dos dez segundos do despertador. Aí para quebrar o silêncio eu mexo nas minhas chaves que estão no bolso. Acho que involuntariamente, mas a outra pessoa faz o mesmo barulho, mexe as chaves. Não sei o motivo, mas é uma espécie de comunicação em outro nível talvez. Algo como até as chaves de casa gostam de se comunicar com as chaves dos vizinhos, e nós estamos ali quietos naquele cubículo, sem ter muito para onde olhar.

Entro no carro, ligo o rádio para ouvir as notícias, esperando ouvir alguma coisa nova. Não. A programação de uma rádio de notícias é sempre igual. Sempre tem trânsito pesado naquela mesma avenida, sempre está parado na outra avenida, sempre vai chover no final de semana com alguma probabilidade. A programação do rádio não muda, fora uma ou outra notícia diferente do padrão, o resto é bem previsível. Inclusive as propagandas. Já conheço todas as propagandas que passam no rádio naquela hora em que escuto. Sei as músicas da propaganda, a sequência das propagandas, e nunca fui em nenhuma das lojas anunciadas nessas propagandas.

Sigo dirigindo. Paro no sinal. Antigamente a única distração que os motoristas tinham no sinal vermelho era mexer no nariz. Olhando para o carro da frente, tá lá a mão do cara no nariz. Pelo retrovisor também. Hoje existe o celular, que além de competir com a limpeza do nariz, atrapalha o trânsito. Pois quando abre o sinal, o motorista ainda não terminou a mensagem, ou nem percebeu que o sinal abriu. Filosofando um pouco, se é que dá para chamar de filosofia esse tipo de coisa, mas há perdas e ganhos nessa situação. O uso de celular no volante é comprovadamente causa de muitos acidentes e atrasos no trânsito, mas reduziu e muito a limpeza dos narizes dos motoristas. É meio nojento ver os outros, mas todos sabem que isso ainda acontece. Se ao dirigir percebo que o cara da frente põe a mão para fora do vidro e esfrega o polegar com o indicador, semelhante ao que fazemos quando nos referimos a dinheiro, significa que ele está limpando o dedo depois de limpar o nariz.

Outro comportamento comum nos sinais vermelhos é uma mini competição que se instala, principalmente entre os primeiros da fila. Os carros estão parados, mas aí se um deles avança um centímetro que seja, logo em seguida o outro avança também. Os motoristas ficam de prontidão para acelerarem como se fosse uma corrida de Fórmula 1. Então o sinal abre, mas o efeito é contrário. Um deles sai disparado, e o outro deixa o carro apagar.

Troco a estação de rádio e está tocando uma música mais agitada. Escuto um pouco. Se trata de sertanejo universitário. Se formos investigar, praticamente nenhum cantor deste estilo já frequentou uma universidade. Não quero desmerecer os cantores, que para ter esse sucesso com certeza tem mérito e talento. Nada contra o sertanejo universitário. Nada a favor também. Só acho que é um pouco incoerente este nome. Não sei de nenhuma letra de sertanejo universitário que mencione a dura rotina de estudos de um universitário. As poucas letras que já tive oportunidade de escutar geralmente falam de festas e promiscuidade. Outra coisa interessante, é que em muitas letras o cantor se porta como se fosse pobre. Existem mesmo cantores de origem humilde, mas no momento em que suas músicas estão tocando no rádio, me perdoe, mas a última coisa que se pode pensar é em pobreza. É um tal de carro velho, casa caindo aos pedaços e falta de dinheiro. Fico pensando que isso é uma grande mentira. Imagino até os cantores compondo essas letras num quarto de hotel cinco estrelas, ou numa banheira de hidromassagem da sua casa na praia. Esse é o único ponto que consigo colocar a favor do funk ostentação. Ao menos as letras são sinceras, quando a pessoa diz que tem, e se orgulha de ter, muitos bens materiais.

Chego no trabalho.

Nas instituições existe um senso comum em termos de práticas no trabalho. Sempre tem aquele cara que chega mais cedo que os outros, que olha no relógio quando agente passa por ele, mesmo não estando muito atrasado. Tem aquele outro que parece que fica mais tempo tomando café do que trabalhando efetivamente. Tem também as pessoas que agente tem certeza de que não fazem nada, mas estão lá por alguma razão, e convivemos com isso. Tem de tudo. Não sei como eram os empregos antigamente, mas hoje as empresas têm o mesmo jeitão: um monte de salas em que as pessoas passam o dia inteiro na frente dum computador. Nessa estrutura, não faz muita diferença se a pessoa trabalha efetivamente ou não faz nada, pois todas estão na mesma posição, em frente ao computador. Claro, um está mexendo numa planilha ou fazendo um texto, ou gerando algum resultado importante. Outro está nas redes sociais, e fica alternando as janelas com alguma outra tela que pareça trabalho, para quando algum supervisor ou colega passar por perto.

Ligo meu computador, assim como todos os outros devem fazer. Abro algumas páginas na internet, como jornais, para ver alguma novidade ou notícia, e os e-mails. Sigo o trabalho, até que em algum momento dá aquela vontade de ir ao banheiro.

O que vou fazer no banheiro não interessa, mas sim o que acontece num banheiro com circulação de mais pessoas. Se estou dentro do banheiro, e entra algum colega e não me cumprimenta, já sei: ele vai cagar. Não queria saber disso, mas a pessoa faz questão de me comunicar somente pelas atitudes. Tem aqueles também que vão escovar os dentes, e escovam por mais de cinco minutos. Não sei como certas pessoas escovam os dentes por tanto tempo, nem temos tantos dentes assim. Eu escovei os dentes assim que acordei, e esse cara vem escovar os dentes agora no meio da manhã? Será que ele não escovou até agora? Puta merda, imagina se tiver comido um bifão acebolado com alho ontem a noite, deve estar com um bafo gigantesco. É melhor sair do banheiro o quanto antes. Higiene é uma coisa engraçada, pois na hora de sair do banheiro, já vi muita gente pegar um papel, fazer a maior cerimônia para não tocar na maçaneta. O motivo é que muitas mãos passam naquela maçaneta do banheiro, e teoricamente agente quer sair do banheiro e continuar com as mãos limpas. Até aí tudo bem, mas dois minutos depois, aquela mesma pessoa está coçando a orelha, ou com a mão no saco. É muito relativa essa questão de não tocar na maçaneta.

O trabalho continua, é um tal de manda uma mensagem daqui, resolve uma coisa dali, atente o telefone, isso e aquilo. Incrível também como tem pessoas que resumiram suas tarefas no trabalho em apenas responder e enviar e-mails. Só isso. Tem uma demanda, dispara um e-mail. Quer lembrar de uma coisa, verifica o e-mail. Esse e-mail chegou para ficar, e está roubando muitas atividades verdadeiras. Uma vez respondi uns quinze e-mails. Fiquei cansado e ainda com a sensação de que tinha resolvido trabalhado um monte. Na ponta desses e-mails é que estão acontecendo atividades de verdade e é muito mais legal fazer as atividades do que só ficar falando nelas.

Claro, todos têm o direito de descansar um pouco, então vou abrir minhas redes sociais para me distrair. Nessas redes sociais existem aquelas questões de aniversário. Eu não gosto daquilo. Agente vê que o cara está de aniversário, escreve uma frase ali sem muita emoção, inclusive a mesma frase para todos os aniversariantes, tipo aquela famosa "tudo de melhor para você". A palavra melhor serve para comparar uma coisa com outra (como em "a grama do vizinho é melhor do que a minha"), então não cabe muito para mostrar um desejo de coisas boas para um aniversariante. Aí, no outro dia, aquele que recebeu aquela enxurrada de mensagens iguais responde com todo o cuidado as diversas lembranças que recebeu ontem, que seu dia foi melhor por causa disso. Vamos colocar essa questão em pratos limpos. Ninguém se lembrou do seu aniversário, existe um cadastro com as datas dos aniversários e um algoritmo está programado para avisar os amigos sobre. Não há emoção neste algoritmo. É provável também que não houve emoção na maioria das pessoas que escreveram os parabéns. Mas tudo bem, são as hipocrisias da vida, quase todo mundo faz isso. Não sei se tenho mais de 365 amigos nas redes sociais, mas a impressão é de que todos os dias tem alguém de aniversário.

É incrível, mas fazendo isso e aquilo a quarta-feira já está chegando na metade. Hora de almoçar.



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