História Único Motivo Para Viver - Capítulo 4


Escrita por: ~

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Categorias Katekyo Hitman Reborn!
Personagens Alaude Vongola, Byakuran, Chrome Dokurou, Dino Cavallone, Giotto Vongola, Gokudera Hayato, Kozato Enma, Kyoko Sasagawa, Kyoya Hibari, Lambo, Reborn, Rokudo Mukuro, Tsunayoshi "Tsuna" Sawada, Yamamoto Takeshi
Tags Giotto, Tsuna, Vingança
Exibições 47
Palavras 8.093
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Romance e Novela, Sobrenatural, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Oie, eu sei que demorei. É que estava numa correria danada, perdão ç.ç
Espero que gostem do cap :)

Capítulo 4 - A garota de Namimori e o Dragão que não voa


 Capítulo 4: A garota de Namimori e o Dragão que não voa

 

Antes de partir para o Leste Dino lhe garantiu Reborn chegaria em três dias. Só que antes que pudesse alçar voo Hibari Kyoya (um cara assustador) bloqueou o caminho desafiando Dino a lutar contra ele. Pelo o que sabia, sempre que se encontravam Hibari desafiava Dino ou qualquer outro que considerasse forte. O moreno era realmente um maníaco por lutas.

Achou a expressão do rapaz aterrorizante, mas Dino apenas sorriu e aceitou o desafio dizendo que iria ensinar coisas ao garoto.

Só que Hibari ficou furioso com as palavras e Tsuna preferiu sair de perto. Aquilo era realmente assustador! Horas depois Dino apareceu sujo e suado, com um sorriso gentil para se despedir.

Dino-san havia lhe dito que Reborn era uma pessoa difícil, mas Tsuna não deu muito importância. Havia convivido com G a sua vida inteira e G fora um dos seus muitos professores (o mais terrível, diga-se de passagem). Reborn não podia ser pior que o ruivo temperamental, certo?

Errado.

Três dias depois um grande Dragão do Sol pousava nas Terras do Oeste. Os empregados vieram avisar e Tsuna imediatamente correu para o portão para espera-lo, empolgado, nem conseguiu esperar por Giotto. Seu coração batia forte no peito, e o rapaz sentia que iria explodir de ansiedade.

Quando os guardas abriram os portões lá estava ele, o famoso Reborn.  Ele usava um terno e um fedora que lhe encobria os olhos. O homem andou com elegância ate o rapaz, mas não era como a elegância das pessoas muito poderosas como Giotto, era uma elegância estranha, perigosa. Era como o caminhar de um tigre: majestoso e ao mesmo tempo gracioso, algo bonito se ver de longe, mas não quando está vindo em sua direção.

Fuja enquanto pode! Corra como se não houvesse amanhã. Algo em sua mente gritou. Engoliu em seco quando o homem parou a sua frente, mas tentou ignorar aquela voz em sua cabeça. Sorriu para o homem.

 - Seja bem vindo as Terras do Oeste. Chamo-me Tsunayoshi di Vongola, mas o senhor pode me chamar de Tsuna – disse tentando parecer menos nervoso e mais educado. O homem permaneceu sério e não conseguir ver seus olhos foi o mais assustador.

- Sou Reborn.

- É uma satisfação conhece-lo.

Reborn finalmente sorriu.

 - Você vai mudar de ideia em relação a isso – ele disse e o sorriso sumiu de seu rosto.

- Co-como? – gaguejou Tsuna, achando ter ouvido errado. Reborn ignorou.

 - E então, quando começo a destruir sua vida? – Tsuna estremeceu, e antes que pudesse pensar em uma resposta Giotto apareceu ao seu lado. Ele deve ter percebido o nervosismo do rapaz, pois colocou a mão sobre seu ombro e Tsuna se sentiu mais tranquilo (não o bastante).

- Bem vindo Reborn, é um prazer revê-lo – o homem sorriu para Giotto, mas diferente do sorriso que deu  antes, era um sorriso mais simpático e respeitoso.

- O prazer é meu, Giotto-sama – ele se voltou para Tsuna e seu sorriso desapareceu – Vamos começar?

 Assentiu e Giotto disse que os deixaria a sós. Observou desoladamente o irmão se afastando enquanto se segurava para não gritar como um louco para que ele voltasse.  Por favor, não me deixe sozinho com esse cara, Gio.  

- Agora somos só você e eu, querido – disse Reborn com um requinte de crueldade, olhou para ele apavorado. No que havia se metido?

 

               

Em uma janela do segundo andar do castelo estava G. Ele não conseguia ouvir a conversa, mas observava tudo. Gokudera parou ao seu lado e viu que seu professor estava com o cenho franzido.

- Por que você tá com cara de limão amargo? - G ergueu a mão, sem desviar os olhos de Tsuna-sama e o cara de fedora, e lhe deu um tapa forte na cabeça. – Ai!

- Olha o respeito moleque.

- Que droga, G! – reclamou. O ruivo lhe lançou um olhar raivoso e Gokudera pigarreou tentando se corrigir (afinal ele gostava de seus dentes intactos) – Quer dizer... Qual o problema, mestre G?

- Assim é melhor – G voltou-se para a dupla, Giotto-sama havia se juntado aos dois – Não confio nesse cara.

- Isso não é novidade. Conquistar sua confiança é uma tarefa muito árdua – é claro que era verdade, G era conhecido por ser muito desconfiado com tudo e com todos. Mesmo assim Gokudera se encolheu esperando outro tapa, que para seu alívio acabou não vindo. Tudo o que o ruivo fez foi ficar em silêncio.

Giotto-sama voltou para dentro do castelo e o cara de fedora fez sinal para que Tsuna-sama o acompanhasse. G apontou para a dupla que se afastava.

- Fica de olho nele.

- Sim senhor – Gokudera imediatamente subiu no parapeito da janela e pulou em direção ao chão, caindo de pé como um gato e foi atrás dos dois.

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- Me mostre o que você sabe fazer, pirralho– disse Reborn. Ele o havia levado para um área aberta.

Gokudera-kun estava sentado em uma pedra, e Reborn o ignorava. Viu o rapaz franzir o cenho diante do termo que Reborn usara para se referir a ele, quase sorriu ao ver como a expressão era idêntica a de G. Os dois não tinham o mesmo sangue, mas era incrível a semelhança. Eles são uma família apesar de tudo. Uma família muito estranha, por sinal.

Como Gokudera-kun morava no castelo desde os quatro anos de idade, Tsuna e Giotto consideravam ele e G da família também. Era como Giotto costumava dizer: Família é muito mais do que sangue, família é aquela que o coração escolhe.

Perdido nesses pensamentos acabou esquecendo-se de responder ao que Reborn dissera. Sem nenhum aviso prévio algo lhe acertou a testa, piscou sentindo a pele do local arder e se dando conta que Reborn havia lhe dando um tapa.  

- Não fique no mundo da lua quando eu estiver falando com você.

Viu Gokudera-kun se levantar furioso, fez sinal para que ele se acalmasse, pois estava tudo bem. O rapaz se sentou novamente a contragosto.

- Desculpe Reborn-san – disse esfregando a testa. Maldita mania de ficar devaneando!  – Mas... Eu não sei o que mostrar.

Reborn franziu os lábios.

- Comece com suas chamas. Cuspa as mais intensas chamas que conseguir.

- Chamas? – perguntou tremendo.

- Sim idiota. Suas chamas fazem parte de quem você é e do que sente. Faça-as queimar dentro de você até que você não suporte mais e então deixe-as fluir para fora.

Essa parecia uma ideia dolorosa, embora Tsuna soubesse que suas próprias chamas não poderiam feri-lo. Tomou sua forma alada e tentou fazer como Reborn aconselhara, mas...

Uma pequena bola de fogo saiu de sua boca, ela rolou alguns centímetros pela grama apenas chamuscando levemente a vegetação e desfez em cinzas.

Tanto Reborn quanto Gokudera-kun ficaram observando a pequena bola de fogo se desfazer, ambos pareciam meio chocados. O silêncio foi constrangedor.

- É... Muito bem Tsuna-sama – disse Gokudera-kun com sorriso forçado.

Reborn colocou a mão sobre o fedora com um suspiro

- Você realmente vai dar trabalho. Seu rugido.  O rugido de um dragão define suas intenções. Ele será a sua ameaça, e mostrará quem é que manda. Quanto mais forte o rugido, mais você intimidará o adversário.

Novamente ele tentou. Se aprumou, inflou o peito, abriu a bocarra e deu o melhor de si.

Voltou a forma humana e viu que Gokudera o encarava com horror, dessa vez ele nem se atreveu a dizer nada. Reborn olhava para o céu procurando alguma coisa.

- Algum problema Reborn-san? – perguntou preocupado.

- Estou procurando os urubus.

- Por que?

- Porque você parecia um animal moribundo e agonizante.

Sentiu o rosto aquecer e começou a encarar o chão. Estava tudo acontecendo de novo, todos que tentavam lhe ensinar acabavam falhando, mas Reborn era o primeiro que fazia aquele tipo de piada infame enquanto tentava treiná-lo.

- Des-desculpe – gaguejou. Reborn fez um som irritado.

- Que patético – ele disse, e Tsuna se encolheu – Voe então.

- Como é? – encarou o homem novamente.

- Estou dizendo para voar, quero ver o quão débil é o seu voo.

- Mas...

- Você tem asas não é? – assentiu - Elas são defeituosas?

- Não, mas...

- Então voe logo! – Reborn lhe agarrou pelo braço e o jogou para cima, fazendo com que Tsuna ficasse há vários metros de distância do chão.

- Hiiiieee! – o  garoto gritou e agitou os braços, conseguiu tomar sua forma verdadeira, mas quando bateu as asas elas foram inúteis e ele foi em direção ao chão girando loucamente no ar.

Antes que atingisse o solo um Dragão prateado agarrou sua pata e o colocou no chão em segurança. Voltou a forma humana, as pernas bambas mal lhe sustentando.

- Está tudo bem, Tsuna –sama? – perguntou Gokudera-kun preocupado, com a mão em seu ombro.

- Sim – respondeu com a voz trêmula – Obrigado

Gokudera virou-se para Reborn furioso, os olhos brilhando vermelhos.

- Maldito! – o rapaz avançou em direção a Reborn, que se mantinha inabalável.

Antes que Gokudera se transformasse e atacasse o Dragão do Sol, Tsuna se agarrou ao seu braço.

- Pare Gokudera-kun, por favor.

Gokudera obedeceu, mas se olhares pudessem matar, não sobraria nem os ossos de Reborn.

- Qual é o seu problema? – gritou Gokudera para Reborn. Ainda segurava o braço dele só por precaução.

- Eu poderia perguntar a mesma coisa sobre ele – respondeu Reborn apontando para Tsuna com a cabeça.

- Ele não voa! – disse o prateado rangendo os dentes.

- Por quê?

- Ele não consegue. E ele tem medo de altura, não é culpa dele! – Tsuna se encolheu, sabia que Gokudera estava tentando lhe defender, mas ele só estava piorando as coisas.

- Rapaz você está se ouvindo? – perguntou Reborn com irritação, por um momento a expressão de fúria no rosto de Gokudera diminuiu, como se ele parasse para raciocinar – Até bebês sabem voar, para um dragão isso é tão natural quanto respirar. Não vê o quanto isso é patético?

Reborn deu as costas aos dois e voltou para o castelo.

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- Eu não irei treinar esse moleque – disse Reborn a Giotto. G estava ao lado de seu líder. Tsuna estava de cabeça baixa atrás de Reborn, envergonhado demais para encará-los. Giotto estava realmente chocado com aquilo.

- Por quê?

- Ele é um completo idiota.

- Meça suas palavras Reborn! – advertiu Giotto. Ofender seu irmão era algo que ele não permitia.

- Com todo o respeito que sinto por você Giotto, não posso continuar com isso. Ele não tem um pingo de determinação, não acredita em si mesmo.O grande problema é que todos vocês o mimam demais – disse Reborn apontando para todos, incluindo Gokudera e G. Gokudera ele até podia entender, mas G? O ruivo vivia lhe ameaçando de alguma coisa horrível, não fazia o menor sentido para Tsuna – Enquanto Tsuna estiver embaixo da sua asa Giotto, ele não irá crescer. Você o superprotege em excesso.

- Quem você pensa que é para criticar o modo como crio meu irmão? – Giotto falava entre dentes, ele estava ficando irritado com aquela discussão. Tirando G, jamais vira alguém falar com tanta ousadia com Giotto.

- Você não se orgulha tanto de ter transformado Dino em um grande Dragão? Cadê suas grandes habilidades como professor? – ironizou G apontando o dedo furiosamente para ele.

- Não posso treinar alguém que não quer ser treinado.

- É claro que ele quer ser treinado! – trovejou G agitando os braços.

- Não, não quer. Os outros querem que ele treine, ele não está fazendo isso por si mesmo – G parecia pronto para berrar mais coisas, mas Reborn o interrompeu – E quanto a Dino, ele era um estúpido, mas veio até mim, pois queria mudar. Tsuna é um covarde.

Tsuna abaixou a cabeça, cerrou os punhos trêmulos e se esforçou para não chorar. Cair em prantos só daria mais motivos para Reborn falar dele. Fechou os olhos com força, falhando ao evitar que as lágrimas viessem, então queria pelo menos evitar que elas escorressem, mas era muito difícil. Só uma coisa evitou que chorasse copiosamente.

Uma mão apertou seu ombro de modo terno. Olhou para o lado e viu Gokudera dando um de seus raros sorrisos. Nos olhos de seu amigo ele viu a força que precisava para não chorar, pois ele conseguia ouvir o que Gokudera estava lhe dizendo sem usar palavras: Está tudo bem Tsuna, eu estou ao seu lado.

- Dino... – começou G.

- Dino conseguia voar – ao ouvir isso tanto G quanto Giotto se calaram, não havia argumentos quanto a isso, nunca haviam visto um Dragão com asas saudáveis que não podia voar – Que tipo de criatura inútil tem asas e não consegue voar?– prosseguiu Reborn – Isso não é um Dragão, é uma galinha.

Estremeceu ao ouvir isso, Gokudera lhe apertou o ombro com mais força.

- Ora seu... – G avançou, mas Giotto colocou o braço a frente dele, detendo o ruivo.

- Saia do meu castelo, Reborn. Agora! – ordenou Giotto, os olhos brilhando raivosos.  Reborn obedeceu com uma leve mesura. Tsuna não conseguiu encara-lo quando o homem passou por ele em direção a saída.

Galinha. A palavra se repetia várias e várias vezes em sua cabeça, fazendo um doloroso sentido. Pequeno, fraco, covarde e que não consegue voar. Exatamente como uma galinha.

Depois que Reborn saiu, ele se desvencilhou da mão de Gokudera e correu em direção ao seu quarto.

-Tsuna... -  chamou Gokudera. Ouviu a voz do irmão lhe chamar, mas não parou até chegar ao quarto, trancar a porta e se esconder embaixo dos cobertores. Chorou por horas, e quanto mais chorava mais fraco e patético ele se sentia.

Mais tarde naquele dia, Giotto bateu na porta de seu quarto para ver como o garoto estava, ao ouvi-lo chamar afundou o rosto no travesseiro. Doeu seu coração ouvir Giotto lhe chamar por quase meia hora, pedindo para que, por favor, abrisse a porta. Mas ele não abriu. Não queria ver o irmão, havia decepcionado Giotto mais uma vez, e não conseguia olhá-lo nos olhos por enquanto. Por fim o mais velho desistiu.

- Quando estiver pronto, venha até mim. Não me importa o que aquele cara disse, eu estou aqui para você – foi o que ele disse antes de ir para seu próprio quarto.

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A vida inteira as pessoas debocharam dele, o chamavam secretamente de “bom-em-nada Tsuna”, se Giotto soubesse ficaria furioso, mas Tsuna nunca contara a ele. Ele já se escondia demais atrás do irmão para lhe dar mais uma preocupação. Então ele sempre sofreu calado, e se convenceu de que já estava acostumado com aquilo, mas naquele dia foi muito pior.

Ao caminhar pelas ruas ele percebeu que as pessoas apontavam para ele e riam, de alguma forma os boatos havia se espalhado e todos comentavam sobre como até Reborn, que havia transformado Dino de um imbecil inútil em um guerreiro magnífico, havia dito que ele era um caso perdido, e principalmente, sobre sua incapacidade em voar.

Estava pronto para voltar para casa e se trancar novamente no quarto quando viu Yamamoto Takeshi, o irmão mais novo do Conselheiro da Chuva, Ugestu. Por ser irmão do Conselheiro, Takeshi ia ao castelo com frequência, então Tsuna e ele eram grandes amigos. Gokudera sempre implicava com ele, mas sabia que os dois eram muito amigos também.

O moreno sorriu largamente ao vê-lo e acenou animadamente andando em sua direção. Sorriu aliviado por Yamamoto ainda querer sua amizade depois de tudo.

 - Oi Tsuna.

 - Oi.

As pessoas ainda olhavam para ele. Dessa vez elas se perguntavam como alguém forte como Yamamoto poderia andar com alguém como ele. Eles não falavam é claro, não se atreveriam na frente de Yamamoto, mas ele conseguia perceber. Incomodado com os olhares, se despediu de Yamamoto e se afastou dali dizendo que Giotto estava a sua espera. Mas acabou não voltando para o castelo, ele foi para outro lugar. Para fora da Terra dos Dragões. Ele foi para Namimori.

Por que ele fez isso? Muito simples, enquanto na Terra dos Dragões ele era apontado e ridicularizado, em Namimori ele era simplesmente ignorado, dada a atual situação ele ficou muito satisfeito com isso.

Estando na forma humana ele parecia um garoto como qualquer outro. As pessoas passavam por ele sem lhe apontar o dedo, algumas poucas sorriam em sua direção quando ele olhava para elas. Sentou-se na grama de um parque e observou as crianças correrem alegremente, felizes, sem nenhum problema, nenhuma responsabilidade ou pressão, nenhum um peso para carregar. E isso o deixou feliz também.

Foi por isso que ele fez isso por três dias seguidos. Saía cedo do castelo antes de Giotto se levantar e entrava pelas passagens subterrâneas, que ele conhecia muito bem, pois desde de criança corria para elas quando queria fugir sem ser visto, voltava tarde e se trancava no quarto. Ainda não se sentia pronto para ver Giotto.

Talvez fosse melhor ele viver logo ao lado dos humanos mesmo, ele não servia para Dragão. Poderia ter uma vida normal, ninguém nunca descobriria e seria melhor pra todo mundo: Gokudera não se meteria em problemas para defende-lo (já perdera as contas de quantas vezes ele fizera isso), G teria menos dores de cabeças, mas principalmente, Giotto não teria que ver as pessoas falando sobre como seu irmãozinho era inútil. Ele nunca mais precisaria ouvir que tinha uma galinha como irmão. Seria perfeito!

Mas aí sua parte racional lhe avisou que não seria bem assim: Ele não conseguia fazer nada, como conseguiria sobreviver sozinho? E mesmo que desse um jeito, os olhos dos Dragões brilhavam com a cor de suas chamas quando estavam sob fortes emoções, na maioria dos Dragões era raiva, no caso dele era medo. Era só ficar assustado e seus olhos brilhavam como lanternas alaranjadas, e ele ficava assustado com facilidade então... Fora o fato de que humanos não gostavam muito de dragões, eles tinham medo. É claro que isso se devia ao fato de que muitos dragões, como Byakuran, desprezavam completamente suas vidas.  Queria que as duas espécies vivessem em harmonia, mas as coisas não funcionam assim. Se o descobrissem vivendo entre eles, os humanos provavelmente se zangariam e ele não tinha força para se proteger caso muitos o atacassem.

E pensando em Giotto, a vida do irmão seria melhor sem ele, mas sabia que Giotto não concordaria. Podia imaginar o irmão desesperado a sua procura. Giotto moveria céus e terra até encontrá-lo, não queria fazê-lo passar por isso.

Suspirou desistindo da ideia. Olhou para os lados percebendo que o parque já estava vazio, e que a noite se aproximava.  Secou as lágrimas em seus olhos e se levantou a fim de voltar ao castelo.

Foi então que ele a encontrou.

Ela vinha correndo em sua direção, sem olhar por onde andava, quando se virou deu de encontro com a moça. Tudo bem que ele era um dragão fraco, mas ainda era mais forte que uma humana. Quando a moça bateu nele com força Tsuna apenas recuou um passo, mas a moça acabou caindo com tudo para trás, batendo a cabeça no chão.

- Ai – ela choramingou.

- Minha nossa! Desculpe-me! – pediu e lhe estendeu mãos ajudando a moça a se sentar – Você está bem? – perguntou muito preocupado, se ajoelhando ao seu lado.

Ela mantinha os olhos fechados e uma das mãos na parte de trás da cabeça. Ela abriu os olhos, tirou a mão da cabeça e olhou pra ver se havia sangue. Por sorte sua mão estava limpa.

- Estou, mas acho que vou ficar com um galo – disse colocando a mão na cabeça novamente.

- Me desculpe – gemeu Tsuna.

- Tudo bem, eu é quem devo me desculpar. Afinal eu que praticamente te ataquei – disse a moça, ela se voltou para Tsuna e sorriu com doçura e o garoto ficou completamente embasbacado.  Ela tinha o sorriso mais lindo que Tsuna já havia visto.

Reparando na garota Tsuna viu que não era só o sorriso, ela era totalmente linda. Grandes e meigos olhos castanhos claros em um lindo rosto delicado, emoldurado por curtos e maravilhosos cabelos loiro avermelhado,  uma cor que não era muito comum de se ver. Ela parecia ter sido pintada por anjos, tamanha era sua delicadeza e graciosidade. Uma encarnação da beleza puritana. Ela era tão linda, mais tão linda que Tsuna até ficou sem graça só de olhar para ela, e ele se viu obrigado a desviar o olhar, sentindo o próprio rosto em chamas.

- Não precisa se desculpar – disse ele, se esforçando para disfarçar a vergonha, sem coragem de encarar diretamente a bela moça - Mas por que estava correndo desse jeito?

A garota pareceu se lembrar de alguma coisa, olhou assustada para lados procurando por alguém, e ficou mais aliviada por não encontrar quem quer que fosse.

- Não é nada. Eu preciso ir – disse ela se levantando em um salto, o movimento brusco pareceu lhe causar dor. Tsuna também se levantou e segurou o braço da moça, a fim de lhe dar apoio.

- Não se mova tão rápido,  você... – o rapaz engoliu as palavras quando os olhos da moça se voltaram para ele. Corou violentamente sob aquele olhar afastando a mão dela com medo que a moça ficasse brava, mas apesar disso dessa vez ele não desviou os olhos. Ficaram se encarando por alguns instantes, até a moça também ficar envergonhada. Ela desviou o olhar levemente corada, colocou o cabelo atrás da orelha e Tsuna achou aquilo o gesto mais adorável do mundo.

- Eu estou bem, obrigada. Por favor, me desculpe por esbarrar em você desse jeito – ela inclinou o corpo para frente exageradamente permanecendo mais tempo do que o necessário naquela posição. Tsuna deu um passo para trás sem graça com a demonstração de extrema humildade da moça, mesmo ele sendo o irmão do Senhor dos Dragões mais poderoso do mundo, as pessoas não costumavam ter esse tipo de atitude com ele.

Um fato sobre os dragões: Eles não respeitam nada sem que lhe deem motivos para isso, e eles não fingem ter respeito por ninguém.  Se eles se curvam para alguém, essa pessoa realmente conquistou seu respeito e é digna dele. E quase ninguém considerava Tsuna digno de coisa alguma.

- Nã-não precisa se desculpar, por favor não se curve desse jeito  - gaguejou o rapaz nervoso. A moça ergueu o corpo, parecendo surpresa e então sorriu, abrindo a boca para dizer alguma coisa.

- Então é ai que você está – uma voz masculina interrompeu. Três homens andavam em sua direção. Pelo canto do olho o rapaz viu a moça estremecer e se encolher assustada – Está na hora de você pagar a dívida que tem com a gente, senão quiser sofrer.

Tsuna não precisou fazer muito esforço para entender que era deles que a moça estava fugindo quando esbarrou nele. Os homens se aproximaram, olharam para ele e ao verem-no tremendo deram um risinho de deboche e acabaram lhe ignorando completamente. Um deles agarrou o braço da moça que soltou um gritinho dolorido. Tsuna não sabia o que fazer, ficou paralisado. Queria que Giotto estivesse ali.

- Eu não tenho dinheiro, me dê mais tempo. Eu...

- Seu tempo acabou. Ou você nos paga ou vai se machucar. Mas se realmente não tem dinheiro... – o homem ergueu a mão e acariciou seus cabelos, um sorriso repulsivo se formando em seu rosto. A moça começou a chorar enquanto tentava em vão se livrar da mão do homem –  Pode nos pagar de outras formas.

- So-soltem ela! – gaguejou o rapaz, dividido entre a raiva e o medo. O homem nem se dignou a olhá-lo.

- Suma daqui senão quiser se machucar, mole...

- Chefe! – chamou um dos outros homens com urgência na voz. O tal “Chefe” o olhou com raiva pela interrupção – Os olhos dele... Laranja!

O Chefe pareceu confuso e olhou para Tsuna arregalando os próprios olhos ao ver que os do garoto brilhavam como estrelas alaranjadas.

- Um Dragão do Céu? – perguntou o homem com incerteza na voz.

Todos eles estagnaram em pânico. Tsuna viu que era a chance, o brilho alaranjado o envolveu e ele tomou sua forma alada.

Pequeno lembrete para o futuro: Não se transforme em uma criatura gigantesca em uma cidade humana. As cidades dos dragões eram muito grandes, com construções extremamente resistentes e de materiais não inflamáveis (isso é meio óbvio, eles cuspiam fogo, se as coisas queimassem com facilidade eles já teriam incendiado a própria cidade há muito tempo). Quando se transformou acabou destruindo por acidente alguns bancos e brinquedos da praça com seu corpo reptiliano. Os três homens olharam para ele em pânico e ao tentarem correr acabaram caindo uns sobre os outros, e novamente paralisaram.

- Por favor, não nos devore – implorou um deles. Piscou confuso. Devorar? Que maluquice era essa? Humanos tinham umas ideias estranhas. Isso o fez imaginar que tipo de histórias medonhas circulava entre os humanos em relação aos dragões.

Dragões não comiam humanos, afinal eles tinham uma forma parecida com a humana, isso fazia com que a ideia meio que soasse como canibalismo.

E fora que o gosto daqueles homens devia ser horrível.

Enquanto pensava nisso, acabou inconscientemente agitando a longa cauda (a culpa não era dele, ela praticamente se movia sozinha), a cauda bateu em um árvore e a derrubou, provocando um barulho estrondoso. O som deixou os homens ainda mais apavorados e eles pateticamente engatinharam o mais rápido que podiam para longe dele.  Inclinou a cabeça achando a cena surpreendentemente divertida.

Agitou a cauda mais uma vez, só que agora intencionalmente, derrubando outra árvore só pra ver como eles reagiriam. Eles se levantaram enquanto tentavam correr, resultando em uma desajeitada fuga, eles esbarravam uns nos outros, um deles tornou a cair enquanto os outros desataram a correr enquanto gritavam como loucos fugidos do hospício que um monstro queria lhes devorar.  Tsuna poderia ter se ofendido, mas a cena toda parecia um circo e ele caiu na risada.

Bom, os dragões chamavam aquilo de “risada”, os humanos não consideraram assim. Era um som rouco, que lembrava vagamente um gargarejo, só que mais forte, quando riu a fumaça escapou com intensidade pelas narinas.

- Socorro ele quer me transformar em churrasco! – gritou o homem antes de se levantar e correr em disparada. Okay, aquilo não era o que poderia se chamar de “salvar donzelas”, mas de alguma forma muito estranha funcionou.

E falando na donzela... ela estava caída sentada no chão enquanto tremia com os olhos arregalados em pânico. Quando ele se voltou para ela, a garota abraçou a si mesma.

- Não me coma – implorou a garota com a voz chorosa. De novo aquela história! Sério, de onde os humanos tiravam essas fantasias? Voltou à forma humana para não assustá-la mais.

- Por favor, se acalme. Eu não vou machucá-la – a moça não pareceu convencida, ela continuava abraçando a si mesma com os olhos arregalados e cheios de lágrimas. Tentou dar um de seus melhores sorrisos, tentando parecer o mais inofensivo possível   – Meu nome é Tsuna, qual é o seu?

Ela não respondeu, deu um passo à frente e estendeu a mão  fim de ajudá-la a ficar de pé e a moça se arrastou para trás em pânico. Tsuna não pôde deixar de ficar magoado com a atitude, não queria que ninguém tivesse medo dele, fez um bico triste e deixou a mão cair ao lado do corpo.

- Eu... só queria ajudar – disse com desolação. Ele era mesmo um tolo em achar que a humana acreditaria nele, aquela era a prova que era impossível viver entre os humanos. Deu as costas a moça e começou a andar de volta ao castelo.

- Kyoko – disse a voz feminina atrás de si. Interrompeu o passo e se virou para trás surpreso. A moça deu um sorriso trêmulo – Meu nome é Kyoko.

Kyoko estava mais calma agora, eles caminhavam em um silêncio constrangedor. Eles saíram da praça, pois Kyoko disse que não seria uma boa ideia continuar lá.

- É... Eles te machucaram? – perguntou Tsuna sem jeito, tentando quebrar o silêncio.

- Não, eu estou bem - ela se virou para ele e Tsuna desviou o olhar com um rubor na face. Kyoko riu da atitude – Devo agradecer por me salvar e pedir desculpas pela forma como agi – ela parou e começou a se curvar novamente.

- Você não precisa fazer isso – se apressou em dizer – Está tudo bem, não precisa me agradecer. Eu fiz o que deveria fazer, só isso.

Ela ficou confusa.

- Por que diz isso?

- Meu irmão diz que se você tem a chance de ajudar alguém então é seu dever fazê-lo.

Sua boca formou um adorável “O”, e ela encarou com surpresa por alguns momentos e então sorriu.

- Seu irmão deve ser uma boa pessoa – sentiu o peito encher de orgulho ao ouvir até uma humana que nem conhecia Giotto dizer isso.

- O melhor! – disse com um sorriso. Kyoko riu e deu alguns passos e se sentou próxima a uma árvore, Tsuna a seguiu se sentando frente a ela tentando manter uma distância respeitosa da moça.

- Você não é o que eu esperava de um dragão.

Agarrou o tecido da calça e olhou para o próprio colo.

- Também não sou o que os outros dragões esperam – murmurou mais para si mesmo do que para qualquer um.

- Como assim?

Sacudiu a cabeça, não deveria incomodar a moça com esse tipo de coisa.

 - Não se importe com isso. Posso te perguntar uma coisa? – ela assentiu sorrindo – Por que aqueles homens perseguiam você? – ela ficou séria e Tsuna imediatamente se arrependeu em ter perguntado – Me desculpe, eu não quis ser impertinente, eu só...

 Ela sorriu novamente e ergueu as mãos em um gesto tranquilizador.

- Está tudo bem, Tsuna-kun... Posso te chamar de “Tsuna-kun”? – Tsuna sentiu seu rosto mais uma vez corar e assentiu - Te conto se você me contar o que estava fazendo aqui em Namimori.

 -Tu-tudo bem – ele disse – Eu estava com problemas em casa, decepcionei pessoas e fracassei.

- Em que? – ela perguntou.

 - Em tudo. Sou um Dragão horrível – disse com um gemido.

- Pois eu acho que está enganado – a olhou com confusão.

- Mas você não me conhece.

- Não sei o que vocês consideram como “Dragão horrível”, mas o que eu considero como “horrível” não se encaixa a você. Mesmo que não nos conheçamos, vejo em seus olhos uma pureza que nunca vi igual, ninguém assim pode ser horrível. E seja como for, você é o meu herói e eu serei eternamente grata a você.

Ela sorriu e Tsuna sentiu seu coração mais leve só em vê-la sorrir para ele e sentindo que estava mais vermelho que um tomate pelas suas palavras.

 - Agora é sua vez, Kyoko-chan – o sorriso dela se alargou ao ouvir a forma como a chamou, mas quando começou a falar ela voltou a ficar séria.

 - Também estou com problemas em casa. Precisávamos de dinheiro e então pegamos emprestado com aqueles caras – ela deu um suspiro e sua expressão se suavizou – Mas graças a você agora temos mais tempo para pagar, duvido que ele vão nos incomodar novamente depois do que você fez.

- Fico feliz em ser útil – isso foi tudo o que conseguiu pensar para dizer, não sabia se era o certo.

- Você foi mais do que útil, você foi incrível Tsuna-kun! – disse Kyoko com empolgação e ele sorriu, pela primeira vez, orgulhoso de si mesmo.

Ele e Kyoko continuaram conversando. Falaram sobre como era a terra dos dragões/humanos, contaram histórias engraçadas um ao outro e quando Tsuna a ouviu rir ele teve certeza que aquela era a mais bela das canções.

 As horas pareceram voar, e logo a lua atingia o ponto mais alto no céu. Kyoko olhou para a lua com um sorriso, seguiu seu olhar. A lua tinha a forma de um sorriso, o que parecia combinar muito com o que sentia naquele momento. Com poucas palavras Kyoko fazia com que ele se sentisse bem, fazia com que ele se sentisse alguém.

 - A lua não é linda? – ela perguntou em êxtase, e ele se espantou em como ela parecia feliz, confirmou sorrindo – Eu a amo. Para mim ela é uma das coisas mais lindas que existem. Ela afasta toda escuridão, como uma protetora, parece um magnífico presente que foi dado para nós mortais.

- Essa parece uma história que meu irmão contava – Kyoko olhou para ele – Ele dizia que a lua é uma guardiã que nos protege do mal, e enquanto ela estiver como os olhos abertos, assim como está hoje, nada de ruim pode acontecer.

 - Isso faz sentido, é por isso que estou bem. A guardiã deve ter te colocado no meu caminho para me proteger – a moça sorriu largamente – E acho que ela também deve conceder graças.

- Graças? – perguntou confuso. A moça corou e desviou o olhar, colocando o cabelo atrás da orelha, Tsuna já havia percebido que ela fazia aquilo quando ficava envergonhada.

- Sim, como conhecer você – a moça mexeu nervosamente as mãos sobre o colo e tentou se corrigir, como se tivesse se arrependido de dizer aquilo – Quer dizer... foi bom, pois quebrou meus preconceitos em relação aos dragões, entende?

Não respondeu nada, não sabia o que dizer. Um silêncio embaraçoso caiu sobre eles. Kyoko voltou a encarar a lua, só agora notando o quão alta ela estava.

 - Minha nossa já está tarde! Acho que me distrai demais, meu irmão deve estar tão preocupado!

A moça se levantou e sacudiu a roupa, o rapaz fez o mesmo, mas ele não queria que ela fosse embora. Queria vê-la novamente.

- Podemos... – começou tímido – Se você quiser, é claro... Não sei... Encontrarmo-nos novamente? – pigarreou sentindo como se algo lhe apertasse a garganta – Algum dia, quem sabe.

 - Eu adoraria.  – ela disse, e ele suspirou aliviado – Que tal amanhã ao meio dia? No parque que você destruiu – ela riu e ele assentiu feliz - Tenho que ir – Kyoko saiu correndo, deu alguns passos apressados, parou como se lembrasse de algo e voltou, parando em frente a um Tsuna de cenho franzido.

 - Algum problema?

Ela deu um de seus adoráveis sorrisos.

- Esqueci uma coisa.

- O que?

- De agradecer – iria dizer que ela já havia feito isso, mas não teve a chance. Kyoko se inclinou e encostou os lábios em sua bochecha. Na mesma hora Tsuna teve vertigens sentindo o rosto arder em brasas, e quando voltou a si percebeu que estava com a mão no local onde ela havia beijado e Kyoko já estava longe, correndo de volta para casa.

Aquele era com certeza o melhor dia de sua vida!

 Ainda estava sorrindo bobamente quando chegou ao castelo. Encontrou Giotto no corredor que levava ao seu quarto, ele andava de um lado para o outro como se estivesse prestes a ter um ataque de pânico. O loiro praticamente se jogou em cima dele quando o viu.

 -Tsu! Céus, eu estava tão preocupado – disse o loiro com a voz embargada, lhe dando um abraço tão forte que o ar escapou de seus pulmões. Só que maior do que o aperto do loiro foi o aperto que sentiu no coração, se arrependendo amargamente da ideia que tivera mais cedo em relação a fugir de casa. Aquilo não era nada justo com Giotto – Que bom que você está bem.

 - Não vai ficar por muito tempo se você continuar apertando o pobre garoto desse jeito – ouviu a voz de G atrás de Giotto.  Giotto prontamente o soltou, deu um passo para trás e lhe examinou de cima a baixo.

 - Você está ferido?

 - Eu estou bem Gio, me desculpe por te preocupar.

 - Você está mesmo bem? – percebeu que o irmão não se referia ao corpo e sorriu para que ele soubesse que estava tudo bem agora.

 - Sim – Giotto sorriu, G por outro lado ainda estava com o rosto franzido de irritação.

- Mas afinal, onde diabos você estava, seu moleque?

- Por aí... – a resposta não pareceu satisfazer G, pelo contrário ele pareceu ficar mais nervoso.

- Por aí? Que merda de resposta é essa? – ele se voltou para o outro - Giotto dê um cascudo nesse garoto pra ver se entra algum juízo nessa cabeça oca. Se você não der eu quebro a cabeça dele e enfio o juízo a força – Giotto encarou o amigo com uma expressão completamente neutra. Não pôde evitar rir, sabia que G estava agindo daquele jeito, pois também estava muito preocupado com ele, ele percebia agora que fugir também não seria justo com G, e se sentiu péssimo só por ter pensado naquilo.

- Me desculpe também G – o ruivo bufou dando um resmungo incompreensível – Eu não queria que vocês ficassem assim, eu só precisava pensar um pouco. Sinto muito pelos problemas que causei.

Isso pareceu melhorar o humor do ruivo e tranquilizar Giotto.

- E o que fez enquanto pensava tanto? – perguntou G e Tsuna se lembrou da noite com Kyoko, o sorriso bobo voltou aos seus lábios e Giotto o encarou com confusão.

- Passeei.

- Onde? – perguntou Giotto. Tsuna mal lhe ouviu, em sua mente se repetia várias e várias vezes a cena em que Kyoko lhe beijava a bochecha.

- No paraíso.

Diante disso Giotto e G se entreolharam sem compreender, e voltaram a encarar Tsuna, ambos com a expressão confusa, que se intensificou ao ver o sorriso abobalhado de Tsuna.

- Acho que Tsuna está bêbado – disse G e Giotto caiu na gargalhada percebendo o que realmente estava acontecendo.

- Pois eu acho que ele está apaixonado.

Apaixonado? Sua mente voltou à realidade ao ouvir a palavra. Olhou de Giotto para G e depois de volta para Giotto, vendo que ambos tinham um sorriso malicioso no rosto. Corou violentamente. Ele mal conhecia Kyoko, como poderia já estar apaixonado? Isso não era possível!

               

Era possível sim! E bastou vê-la no dia seguinte para ter certeza disso.

Kyoko estava mais linda do que no dia anterior, e ele nem sabia que isso era possível também. Ela usava um vestido branco que ia até logo abaixo dos joelhos, o vestido era simples, mas destacava seu corpo gracioso. Ela carregava uma cesta em uma das mãos, que balançava alegremente ao seu lado.  

Quando ela sorriu, vindo saltitante em sua direção Tsuna sentiu tantas coisas juntas que ficou desorientado. O coração batia tão forte que era como se estivesse lutando para sair do peito, a boca ficou seca, o estômago parecia estar sendo torcido e era como se alguém tivesse colocado pedras de gelo em sua barriga, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, começou a suar.

Puxou o ar com força, com medo de que até seus pulmões falhassem. Então aquelas sensações malucas eram sintomas de paixão? Era assustador!

- Boa tarde, Tsuna-kun! – disse Kyoko parando sua alegre caminhada a um metro dele, fazendo com que seu vestido se agitasse ao seu redor. Ela era tão delicada em cada palavra, cada gesto, cada sorriso... Tão linda!

Ele puxou o ar mais uma vez, dessa vez tentando fazer com que a voz retornasse a sua garganta seca.

- Boa tarde, Kyoko-chan – a voz soara mais ofegante do que ele pretendia, mas se Kyoko percebeu alguma coisa, não disse nada.  Ela segurou a cesta com ambas as mãos e estendeu em sua direção lhe mostrando.

- Gosta de piqueniques? Trouxe alguns lanches que eu mesma fiz, espero que estejam saborosos.

Piquenique? Piscou com confusão por um momento tentando lembrar o que significava aquela palavra. Era aquela coisa que as pessoas fazem de sentar na grama em cima de uma toalha xadrez e comer bolos, frutas e várias coisas gostosas, certo? Ele nunca tinha participado de um piquenique, mas já ouvira falar. Se não estava enganado havia ouvido a palavra vinda de Ugetsu, o homem disse que em seu primeiro encontro com sua esposa (na época namorada) fora em um piquenique.  

Corou ao lembrar-se disso. Será que casais faziam piqueniques? Então aquilo era um encontro? Ficou tão nervoso que não soube o que responder (tudo bem, a resposta mais óbvia e simples seria “Sim, eu adoro piqueniques”, mas ele não pensou nisso na hora). E se era realmente um encontro como ele deveria agir? Sentiu-se um estúpido. Deveria ter pedido conselhos a Giotto antes de sair, o loiro sempre tivera jeito com garotas.

Diante da falta de resposta Kyoko pareceu ficar sem graça, abraçou a cesta e ficou encarando-a.

- Eu não sabia se vocês... – ela discretamente olhou ao redor, e ao ver o parque lotado (curiosos que haviam chegado para ver as árvores caídas e bancos esmagados), desistiu de dizer a palavra “Dragões” – Eu não sabia se você, gostava dessas coisas. Desculpe-me, eu deveria ter perguntado antes.

- Nã-não é isso... –gaguejou o rapaz.

- Eu só queria te deixar feliz.

Ela só queria lhe agradar e ele mal conseguia conter a felicidade por isso, sua vontade era tomar sua forma alada e sair rolando e agitando a cauda de alegria, e se ele soubesse voar, com certeza faria círculos pelo céu. Só que a consequência seria um monte de gente correndo em pânico, e isso não era um bom jeito de começar um encontro (Sim, ele já havia decidido que era um encontro).  

- Eu estou muito feliz! – disse com muita empolgação, Kyoko o olhou com surpresa por seu tom animado e ele se arrependeu por falar daquele jeito. Na certa ele devia parecer um doido eufórico – Quer dizer... hã...é...

A moça em vez de se afastar assustada, como ele esperava que ela fizesse, caiu na gargalhada. E que som maravilhoso era aquele!

- Você é muito engraçado Tsuna-kun – ela disse entre risos, sorriu sem graça. Tsuna viu a cesta na mão da moça e a quase conseguiu ouvir a voz do irmão em sua cabeça: Seja um cavalheiro Tsu.

- Eu carrego para você – e quando ela sorriu lhe entregando a cesta ele suspirou aliviado sabendo que havia feito pelo menos alguma coisa certa.

-... dragão – a palavra vinda de um desconhecido lhe tirara do mundo onde só existia ele e Kyoko e o arrastara para a realidade. Olhando ao redor viu que as pessoas apontavam para o chão com o rosto horrorizado e ele viu que elas apontavam para as gigantescas pegadas. Tsuna olhou na direção das pessoas, só agora prestando atenção no que falavam.

- Ouvi dizer que um atacou alguns pobres homens ontem a noite – dissera uma mulher.

- Que horror! E eles estão vivos? – perguntara outra.

- Parece que escaparam por milagre, o dragão quase os queimou vivos.

- Que criatura asquerosa! Dragões deveriam ser extintos desse mundo – respondeu um homem cheio de ódio.

Tsuna olhava para as pessoas sem entender. Como elas podiam dizer tantas coisas horríveis sobre ele? Não havia feito nada de errado.

- Tsuna- kun seus olhos – sussurrou a voz feminina ao seu lado. Seus olhos se voltaram em direção a moça e ela arregalou os próprios olhos – Tsuna-kun... – Kyoko fez uma expressão triste enquanto olhava para seu rosto. Preocupado, ele abriu a boca para perguntar o que havia acontecido para ela ficar assim, mas ela não deu chance. Agarrou seu braço e o puxou para longe daquele lugar.

Kyoko o levou para uma área alta de onde era possível ver boa parte da cidade. Era uma área isolada onde só havia árvores e arbustos. Estenderam a toalha, sentaram-se nele e ela lhe serviu em silêncio.

- Tsuna- kun – disse Kyoko olhando para o bolo que cortava – Não se importe com o que aquelas pessoas disseram.

- Está tudo bem – sorriu, e estava mesmo, afinal ele estava com ela, não importava mais o que aquelas pessoas diziam.

- Sabe, eu também pensava essas coisas em relação aos dragões – o jovem parou com uma fruta a meio caminho da boca, Kyoko ainda não olhava para ele – Dragões são tão poderosos, podem nos esmagar como baratas.... Acho que tendemos a desprezar aquilo que tememos.

-...

- Eu sempre tive muito medo de dragões, ainda tenho na verdade. Eu até evito ir a parte norte da cidade, pois ela é a área mais próxima da Terra do Dragões e onde eles são vistos com mais frequência. Pra mim dragões são malvados e assustadores.

Ela estava tentando lhe fazer sentir melhor? Pois ele estava ótimo, até ouvir aquilo. Kyoko finalmente o olhou, seu olhar era tão intenso que ele se empertigou.

- Mas quando vi seu olhar eu... – ela interrompeu a si mesma e pareceu pensativa por um momento, então sacudiu a cabeça, se arrependendo do que iria dizer.

-Você...? Pode dizer o que quiser, está tudo bem – estimulou ele e Kyoko sorriu.

-Eu percebi que as coisas não são como eu imaginava. Você é tão gentil Tsuna-kun, não é o que eu esperava de um dragão. Principalmente um Dragão do Céu.

Tsuna sentiu o próprio rosto aquecer e também sorriu para a moça. A moça lhe ofereceu um pedaço de bolo, ao colocar na boca sentiu seu doce sabor e até fechou os olhos maravilhado.

- Kyoko-chan você é incrível! É o bolo mais saboroso que já comi.

Kyoko corou levemente com o comentário, e ele novamente achou ela a coisa mais adorável do mundo.

- Está falando sério?

- Claro!

- Muito obrigada. Experimente os sanduíches também – disse e tirou da cesta um sanduíche que lhe entregou, experimentou.

- Kyoko-chan você é a melhor cozinheira do mundo! – Kyoko riu deliciada.

- Tsuna-kun não exagere.

- Juro que é verdade. Você é completamente maravilhosa – Kyoko paralisou ficando da cor de um tomate, e só então Tsuna se deu conta do que havia dito - Hiiiiee! – gritou atirando o sanduíche para cima e se arrastando alguns centímetros para trás, como se aumentar a distância entre os dois fosse diminuir o constrangimento do momento – ME DESCULPA!

Kyoko piscou confusa algumas vezes e caiu na gargalhada novamente, deixando o pobre rapaz ainda mais envergonhado.

- Quem é que elogia alguém e logo depois pede desculpas? – perguntou segurando a barriga de tanto rir – Você é realmente engraçado Tsuna-kun.

O rapaz soltou o ar lentamente aliviado por ela não ficar brava. Por que havia dito aquilo? Simplesmente escapou.

Ele a observou rir com um sorriso, viu ela secar as lágrimas dos olhos e sua risada incrível diminuir até se extinguir. O mais estranho é que ele conhecia Kyoko há tão pouco tempo, mas já sentia algo tão forte por ela que era como se a conhecesse a vida inteira.

Horas se passaram, e logo a noite começava a se insinuar no horizonte, mas eles continuaram conversando.

- Tsuna-kun tenho uma pergunta  - o rapaz inclinou a cabeça para o lado.

- Pode perguntar o que quiser.

- Os olhos dos dragões ficam da cor de suas chamas quando estão sob fortes emoções, certo? – assentiu e levou o copo de suco a boca – Por que os seus ficaram alaranjados a maior parte do dia? - Tsuna quase caiu para trás com a pergunta, engasgou-se com o suco que tomava e tossiu convulsivamente – Tsuna-kun!

Kyoko se levantou desesperada, correu até ele e se ajoelhou ao seu lado lhe dando tapinhas nas costas. Se recuperou  da tosse arfante e Kyoko lhe abanava com as mãos.

- Você está bem? – perguntou ela preocupada, pigarreou para tentar eliminar qualquer vestígio daquela situação embaraçosa. Muito bem Tsuna, ótimo jeito de terminar um encontro!

- Estou. Desculpe por assustá-la – Tsuna se virou para ela com um sorriso, só pra se dar conta de como seus rostos estavam próximos. Kyoko sorriu para ele.

Perto daquele jeito ele podia vê-la melhor do que nunca. A pele alva e lisa, os grandes olhos castanhos claros que, agora ele podia ver, possuíam um leve tom esverdeado ao redor da pupila e os bem-desenhados lábios rosados que sorriam para ele. Ela era tão perfeita que mais parecia uma miragem.

Sua mão se ergueu quase que por vontade própria, e tocou rosto de Kyoko. Era como se sua mão quisesse ter certeza de que a moça era real. Sentiu o toque macio e cálido da pele dela contra sua palma e amou a sensação. Kyoko abriu levemente os lábios surpresa com a atitude inesperada, isso despertou em Tsuna um desejo muito profundo. Sem pensar no que fazia, o rapaz puxou levemente o rosto da moça e encostou os lábios aos dela. Em nenhum momento Kyoko resistiu ou recuou, ela apenas se deixou levar.

Foi um beijo simples e inexperiente, afinal era a primeira vez que ele beijava alguém, apenas lábios contra lábios.

Mesmo assim era a coisa mais linda Tsuna já tinha vivido.


Notas Finais


Primeiramente quero agradecer a todos que estão lendo e acompanhando essa fic, serio, vocês me fazem muito feliz <3
O que acharam do cap?
Tsuna é como eu: acaba viajando em pensamento nos momentos em que não deve fazer isso kkkkk
Nada se compara ao primeiro amor né? rsrs Como acham que vai isso vai acabar?
Uma última pergunta: Alguém ai sabe escrever músicas? rsrs Preciso de ajuda para escrever uma :D
Beijinhos e até o próximo :*


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