História Unseen - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Kuroko no Basuke
Personagens Akashi Seijuro, Aomine Daiki, Kise Ryouta, Kuroko Tetsuya, Midorima Shintarou, Murasakibara Atsushi
Tags Agressão Física, Automutilação, Bullying, Depressão, Kuroko Tetsuya, Kuroko X Kiseki, Suícidio
Exibições 69
Palavras 5.447
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Colegial, Drama (Tragédia), Escolar, Fluffy, Shonen-Ai, Violência
Avisos: Estupro, Homossexualidade, Mutilação, Nudez, Spoilers, Suicídio, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Olá meus queridos leitores, obrigada por todos os que se preocuparam em ler isso aqui e espero que gostem dessa história.

Capítulo 1 - Capítulo único - Unseen


Unseen

The basketball which Kuroko plays

 

“Você não quer saber a minha história.

Somos naturalmente inclinados à curiosidade, nós humanos. Somos apaixonados pela ideia de devorar conhecimento, é o nosso principal alimento. Mesmo assim, muitos escolhem viver pela ignorância, absorvendo apenas contextos parciais e nunca se preocupando com o que verdadeiramente está no fundo. Eu parei de me perguntar essas perguntas depois de um certo tempo e experiência de vida. A verdade é que, você quer saber minha história, mas não vai compreende-la, não vai senti-la, porque você não estava lá.

Você não viu o que eu vi, não ouviu o que eu ouvi, não passou pelo o que eu passei. Eu não era querido, não era desejado, não era ouvido e principalmente, eu nunca fui visto. Sempre tive uma presença extremamente fraca, sempre fui um fantasma em meio à multidão de pessoas. Mesmo assim, haviam aqueles que me percebiam uma vez ou outra e, por fim, começavam a me agredir moralmente e, outras vezes, fisicamente.

Meus pais nunca foram os melhores também, eu sempre seria agredido caso fizesse algo incorreto. Em pouco tempo da minha adolescência, já tinha perdido mais de 15 quilos e fui diagnosticado com anorexia. Resumindo, essa não é a história da minha vida.

Essa é a história do meu fim. ”

 

Olhos cerúleos encaravam a própria imagem no espelho, nenhuma emoção podia ser captada naquele rosto perfeitamente inexpressivo. Kuroko Tetsuya tinha dominado a arte de ser completamente estoico, as emoções podiam destruir seu coração e levar sua mente à loucura, mas seu rosto sempre continuaria com a mesma cor, com as mesmas feições, sem nenhuma mudança significativa o suficiente para que qualquer pessoa pudesse captar.

Ele sentia-se desgostoso de observar seu corpo nu, tão pálido e uniforme, parecia uma criança que jamais se desenvolveria. Os braços magros jogados ao lado do corpo, a cabeça tombada para o lado com os cabelos azuis bagunçados por ter acabado de se levantar da cama. Um hematoma escuro se formava em sua testa, assim como arranhões em seu pescoço, escoriações no canto de sua boca e cortes visíveis em seu lábio inferior. Ainda tinha muitos outros ferimentos em todo o seu corpo, nos braços, barriga, costas, pernas... Kuroko estava ferido por todo o seu corpo frágil e pálido.

Começou a vestir seu uniforme para a escola, não sentindo a mínima coragem para mentir para seus únicos amigos, mais conhecidos agora como a Geração de Milagres, sobre seus machucados. Sim, tinha sido espancado pelo seu pais mais uma vez na noite passada e, sim, os alunos da terceira divisão do time de basquete iriam com certeza incomoda-lo como todos os dias. Depois de se vestir, soltou um longo suspiro desesperado, seu rosto nunca entregando uma emoção sequer. Começou a caminhar para a escola Teiko Chuugakou, encontrando Kise Ryouta e Aomine Daiki no caminho.

- Tetsu!

- Kurokocchi! – Voltou-se para trás, dando um suave sorriso para o loiro e para o moreno de cabelos azul-escuro. Os dois o abraçaram com carinho, sorrindo para ele até que perceberam os machucados no rosto do rapaz. Aomine foi o primeiro a perder o controle, os olhos estreitos se tornando perigosos e nervosos, enquanto os dois imediatamente arrastavam o garoto em direção à escola, para que pudessem encontrar os outros.

- Akashi! Akashi! Midorima! – Gritava Aomine, não deixando que o mais novo fugisse enquanto este apenas se debatia, tentando se livrar dos dois. Avistou o ruivo de olhos vermelhos logo no final do corredor, andando ao lado de Murasakibara, Nijimura e Midorima. Quando aqueles olhos cor de sangue pousaram no azulado, eles se arregalaram por alguns segundos e, antes que Tetsuya fosse sequer capaz de perceber o que estava acontecendo, Seijuurou já estava diante de seus olhos, tocando seu rosto com a ponta dos dedos.

- Kuroko. Quem? – Kuroko apenas fez um sinal negativo com a cabeça, sem saber o que falar, enquanto o ruivo acariciava com suavidade o seu rosto ferido. O mais baixo sentia as lágrimas ameaçando cair do canto de seus olhos, mas se segurava em sua arte de manter aquela máscara perfeita em seu rosto. Novamente, dominou sua compostura, respirando fundo e deixando que todos os sentimentos se esvaíssem de seus dedos e seu rosto voltou a se tornar completamente inexpressivo. – Kuroko, nos diga o que houve! É a quinta vez que chega machucado dessa forma.

- Nada aconteceu, Akashi-kun. Fui descuidado e caí das escadas ontem, não se preocupe desnecessariamente.

- Não brinque com a minha cara, Tetsu! Seu pescoço está todo arranhado, seu rosto todo machucado e... Tetsu, fala logo o que está acontecendo! – Exclamou Aomine, o rosto perturbado enquanto notava os machucados no corpo de seu amigo. O capitão do time de basquete tinha se calado por alguns momentos, até que puxou o menor para o banheiro masculino ao lado, enquanto todos os outros seguiam, menos Nijimura, que não havia ficado em primeiro lugar.

- Murasakibara, segure ele. – Ordenou Seijuurou, os olhos demonstravam preocupação. Assim que o gigante de cabelos púrpuros segurou o mais novo, Akashi se precipitou e começou a retirar o uniforme do pequeno, logo que desabotoou três dos primeiros botões da camisa social azul de Teiko pôde ver hematomas escuros e mais arranhões.

 

Kuroko estava encolhido usando os pijamas que Akashi havia emprestado para ele naquela noite, depois de decidir de imediato que não permitiria que o azulado voltasse para casa naquela noite. Ele havia, no fundo, se sentido muito agradecido ao seu capitão e amigo. Sendo infelizmente desconhecido pelo ruivo, Kuroko tinha sido encurralado pelos jogadores da terceira divisão nos últimos horários de aula daquele dia. Mesmo assim, não haviam feito nada além de insulta-lo, seu corpo só estava ferido pelos machucados de seu pai.

Seijuurou voltou com duas canecas de chocolate quente em suas mãos, considerando o frio que estava fazendo com a neve que caía dos céus nublados e escuros. O ruivo se sentou ao lado do menor, estendendo a segunda caneca para ele e sorrindo com calma. Depois de despirem o mais novo por completo dentro do banheiro masculino e o bombardeado com perguntas, Akashi acabou por pedir que todos fossem para suas salas e que deixassem Kuroko se acalmar. Logo depois, ordenou que o jovem fosse com ele.

Mesmo que ainda amasse seus amigos, já havia percebido que eles haviam começado a mudar. Algumas vezes, o olho esquerdo do capitão do time começaria a ficar mais claro, alcançando um tom amarelo mesclado com laranja. Ainda assim, apreciava a companhia de Seijuurou, nada mudaria esse sentimento de Tetsuya.... Pelo menos não ainda.

- Está se sentindo melhor, Kuroko? – Indagou, verdadeira preocupação e consideração sendo transmitidas em sua voz rouca. O azulado concordou com um grunhido suave, tentando o seu melhor e mais convincente sorriso para o seu capitão. – Preciso mesmo que me conte. – Disse, em um tom de voz mais baixo, apesar de manter o tom firme e confiante. Tetsuya sabia que ele não mudaria de ideia naquele momento e, por um segundo, tentou se convencer de que podia se soltar, mesmo que um pouco.

- Desculpe, Akashi-kun. Não sei se me sentiria confortável com isso. – Admitiu o pequeno garoto, um sorriso amarelo e sofrido se formando em seu rosto. Ele sentia aquele líquido quente na borda de seus olhos, sentia que ele gritava para poder se livrar da prisão de suas pálpebras e escorrer por seu rosto. Mesmo assim, o mais novo apenas deu um longo e pesado suspiro, sentindo-se sufocado com tudo ao seu redor.

O mundo parecia estar se fechando, ele queria respirar, mas os músculos de seus pulmões não o obedeciam. Sentia-se como se água estivesse adentrando suas narinas e invadindo o seu corpo, congelando o seu interior e, mais uma vez, sentiu a necessidade de libertar aquelas lágrimas. Queria chorar, do fundo de seu coração, queria chorar, cair no colo de Akashi e soluçar até perder o ar, chorar até que sua mente estivesse tão exausta e seu corpo tão tenso que ele caísse no sono e acordasse renovado.

- Por que se contém tanto, Kuroko? O que te faz tão mal? – Questionou o mais alto, enquanto erguia a mão e a colocava nos ombros de Tetsuya. Os olhos vermelhos de Seijuurou se arregalaram, apertando um pouco aqueles ombros e se assustando com a magreza, sentia apenas ossos. – Kuroko.... Você emagreceu também. E não foi pouco. – Sussurrou, as sobrancelhas se contorcendo para cima de uma maneira preocupada.

- Não se preocupe, Akashi-kun.

“Não deixe eles verem”

- Essas coisas vão passar.

“Não deixe ele se esquivar” pensou Akashi, enquanto o pequeno se encolhia depois de terminar seu chocolate-quente, deitando no futon que seu anfitrião havia preparado momentos antes. “Você sabe que se ele se esquivar, não terá mais volta, ele vai fazer com que cada pequena pista vire apenas um vestígio fantasma. Um fantasma assim como ele” Akashi sabia que era tarde quando o azulado sussurrou boa-noite.

 

 

- Ah, o tão chamado sexto homem fantasma! – Kuroko sentiu todos os músculos do seu corpo ficarem tensos quando escutou a voz de um dos Senpai que havia sido colocado nas divisões abaixo quando ele e os outros membros da Geração de milagres subiram para a primeira. – Sabe o que eu andei pensando ultimamente, Kuroko-chan? – Antes que pudesse fugir do grupo de valentões, o garoto foi cercado por outros quatro estudantes. – Por que não mudarmos tudo isso e transformarmos você em um fantasma de verdade, hein? – Os olhos do mais novo se arregalaram.

- Kobayashi-san.... Eu realmente... – Foi interrompido com um chute em seu estômago, caindo para trás e pousando nos braços de um dos garotos que o jogou de volta para outro, só para ser chutado na parte de trás de seu joelho, caindo no chão e sendo agarrado por sua camisa, sendo levantado e recebendo um forte soco em seu rosto. Nessa hora, sua perfeita máscara inexpressiva já havia sido destruída e ele chorava, soluçando. Sangue escorrendo de seu nariz, uma dor insuportável em todo o seu corpo. Caiu no chão, só para ser pego pelos pulsos e pressionado ainda mais.

- Kobayashi, posso me divertir com ele um pouco?

- Takara, deixa um pouco para mim também! – Voltando os seus olhos para os outros, se assustou quando percebeu que eles retiravam suas calças, subindo um pouco sua blusa. Seu nariz ainda pingava sangue, sua visão turva. Começou a se debater, tentando gritar, demandando que o deixasse ir. Recebeu um pontapé em sua garganta, o fazendo tossir com força e cuspir um pouco de sangue. Chorava muito, soluçando, tossindo, engasgando com seu próprio sangue. Sentiu que jogavam algo gelado no meio de suas pernas, dedos frios começando a entrar e sair de dentro de seu corpo.

- Parem, por favor...! Parem com isso, por favor.... Não façam isso! – Uma dor insuportável assolou seu corpo, machucando seu quadril e sua cintura, sentia algo escorrendo por suas pernas. A dor era excruciante, queria implorar por ajuda, mas sua voz não saía sem que ele começasse a tossir e cuspir sangue. Ele queria chamar o nome de seus amigos...

“Aomine-kun, Kise-kun, Midorima-kun, Murasakibara-kun, Akashi-kun... Me salvem, socorro!” Moviam-se dentro de seu corpo, socavam suas costelas, agora, um terceiro agarrava seus cabelos, colocando algo quente dentro de sua boca, o que era aquilo? Tinha odor de...

Urina.

Estavam urinando em sua boca? Começou a tossir, tentando virar o rosto para impedir que continuassem a usar seu rosto de vaso sanitário. A força em seus cabelos era muita, acabou sendo obrigado a aguentar. As risadas eram altas em seus ouvidos. Naquele momento, sentiu um alívio quando aquela enorme coisa foi tirada de dentro de seu corpo e se surpreendeu ao ouvir a voz de seus amados amigos. Amigos que não falavam com ele há um tempo, depois de ganharem o campeonato nacional, todos haviam mudado.

- Kurokocchi! – Gritou Kise, pegando o rapaz pelos braços e o ajudando a se levantar, enquanto Akashi se encarregava de colocar as roupas do rapaz novamente, o cobrindo do frio da noite. Aomine e Murasakibara derrubavam os cinco ex-jogadores do time de basquete. Kuroko mal conseguiu reunir forças em suas pernas, tremendo como um recém-nascido, tentando correr de toda aquela confusão.

- TETSUYA! – Gritou Akashi, enquanto o pequeno azulado corria com todas as suas forças. – Shintarou, Ryouta, Daiki, temos que ir atrás dele. Atsushi, chame a polícia para essas escórias. – Assim, Akashi, Midorima, Kise e Aomine começaram a correr na velocidade mais alta que seus corpos jovens permitiam. Kuroko mancava, tentando fugir de seus amigos, só para ser abraçado pelos braços fortes de Midorima e, logo em seguida, de Akashi.

- Kuroko, temos que te levar para um médico, agora! – Afirmou o alto garoto de cabelos esverdeados.

- Não, eu não preciso.... Me deixe ir, Midorima-kun! – Kuroko se deparou com os olhos de Akashi, aqueles olhos que já não eram vermelhos e sim dicromáticos: um vermelho-sangue e outro amarelo-fogo. O ruivo ficou em silêncio por um longo tempo, até que se voltou para o esverdeado.

- Shintarou, o carregue até minha casa. – Tetsuya passou uma semana na residência dos Akashi, Midorima vindo todos os dias para cuidar de suas feridas até que, com o tempo, se esqueceram do que tinham presenciado e, mais uma vez, começaram a mudar novamente, voltando às pessoas que tinham se tornado depois de terem ganhado o campeonato nacional de basquete naquele ano. Com mais algumas semanas, já tinham voltado à ignorá-lo, Aomine já tinha começado com aquela frase de desesperança “O único que pode me derrotar sou eu mesmo”. E o jovem Kuroko escorregava para o fundo do poço novamente, a escuridão dominando seu corpo.

 

Kuroko estava encolhido no canto de seu quarto, duas semanas depois de tudo o que havia acontecido. Seus braços estavam marcados de hematomas, assim como suas pernas, seu tronco e suas costas.

“O único que pode me derrotar sou eu mesmo”

“Kuro-chin é fraco... Não é divertido jogador com você”

“Kobayashi, posso me divertir com ele? ”

“Parem com isso, por favor...! ”

“Tetsuya, o que são essas notas ridículas?! EU NÃO TE CRIEI PARA SER UM VAGABUNDO! ”

“Kuroko-san, eu gostaria de conversar sobre suas notas”

“Me desculpe, sensei. Estou tentando meu máximo”

“Não há nada mais importante do que vencer? ”

“Não”

Kuroko pegou a lâmina de barbear que havia pegado do lixo de seu pai, suas mãos tremiam com violência. Será que aquilo iria acabar com suas dores? Será que ele conseguiria ignorar a dor física dos espancamentos, a dor psicológica de suas próprias falhas, a dor emocional de perder seus amigos? Sem mais pensamentos, atravessou o metal em sua pele.

Dor, sangue, dormência e... Nada. O mundo tinha se tornado vazio, as dores se esvaíam e pareciam despejarem dentro de um ralo. Nada mais existia ao seu redor e, repentinamente, tudo havia voltado. Lágrimas escorriam de seus olhos e os soluços se prendiam em sua garganta. Ele precisava de mais, onde estava aquela dormência?

Atravessou o metal contra sua pele mais uma vez. Dor, sangue, dormência, paz, o ciclo se repetiu diversas vezes, até que seus braços sangrassem de maneira alarmante, sangue pingando no chão. Ele precisava de mais daquela sensação! Ele não podia parar agora...

Foi para o seu outro braço: corte, dor, sangue, dormência, paz. Corte, dor, sangue, dormência, paz. Kuroko sabia naquele momento que ele havia adquirido uma nova maneira de escapar da realidade.

 

 

- Aomine-kun, vamos voltar para o treino. – Chamou Kuroko, um mês depois, enquanto o alto jogador de basquete estava jogado contra a grama, faltando treino como estava fazendo nos últimos meses.

- Por que eu deveria? – O garoto mais alto se levantou lentamente, um sorriso amargo e doloroso em seu rosto. – Para que finalidade eu deveria treinar? – Questionou de forma rude, escondendo seus olhos com os fios azul-escuro de seus cabelos. - Você sabe que eu irei ganhar mesmo quando eu não quiser, certo? – Os olhos cerúleos perderam o tom de surpresa de antes, adquirindo um ar de tristeza e de desesperança. – Você quer que eu destrua meus oponentes mesmo quando eles já perderam a vontade de lutar?

- Eu entendo como você se sente, mas... – Antes que pudesse continuar, Tetsuya foi interrompido.

- Entende? Há! – O menor se assustou com o tom de voz rude e debochado de seu amigo. – Me diz que parte de você entende, hein Tetsu? Como alguém que não pode fazer nada sozinho poderia entender isso? – O jovem de pele pálida colocou a mão em seus pulsos machucados, os segurando de maneira protetora enquanto tentava manter-se calmo.

- Até eu algumas vezes.... Fico com inveja de todos vocês, incluindo você Aomine-kun. – Explicou, com olhos encarando o chão. – Mas é inútil me sentir triste sobre algo que é impossível de mudar! Então se eu puder passar a bola para todos vocês com toda a minha força...

- E para quem você vai passar a bola? – Imediatamente, o sexto homem fantasma se calou, arregalando seus olhos cerúleos. – Você percebe que eu posso vencer contra qualquer um sozinho, mesmo sem os seus passes?

“O único que pode me derrotar sou eu mesmo. ” Lembrou-se, enquanto a imagem de um perturbado Aomine recusando fazer o típico toque dos dois enquanto dizia essa frase.

- É tão recente, mas.... Parece como um passado distante já. Eu.... Já esqueci de como receber os seus passes. – Afirmou, fazendo com que os olhos de Kuroko se arregalassem ainda mais. As lágrimas queriam escorrer dos olhos do rapaz, mas mesmo assim, ele apenas fechou seus lábios e foi embora.

 

 

- Que raro te ver praticando lances, Tetsuya. – Kuroko deixou a bola de basquete cair aos seus pés quando escutou a voz de seu capitão. Voltou seus olhos para trás, deparando-se com a figura crescida de Seijuurou.

- Akashi-kun. – O jovem se aproximou, pegando a bola no chão e voltando seus olhos para o menor.

- Pelo o que parece, a conversa com Daiki não foi bem-sucedida? – Questionou, mesmo que já soubesse a resposta, pela maneira com que os olhos do rapaz estavam inchados e avermelhados.

- Hai. – Concordou, enquanto aceitava a toalha oferecida pelo mais alto, não deixando de encarar o chão.

- Então não há o que fazer, desista do Daiki. – Novamente, Kuroko ergueu seus olhos arregalados para o capitão do time de basquete de Teiko, não conseguindo absorver o que havia escutado. – Um prato nunca pode ser completamente restaurado depois de ter se quebrado, mas se ainda tem alguma utilidade, será o suficiente.

- Akashi... Kun? – Kuroko não conseguia processar as palavras que saíam da boca de uma das pessoas que mais confiava dentre todos os membros da geração de milagres. Sentia que toda a estabilidade de sua mente havia sido destruída, seu corpo parecia ter se deformado com a dor e a pressão que se formavam ao seu redor, com a presença insuportavelmente forte de seu capitão. – Do que você está falando? – Perguntou com a voz fraca e rouca. – Não... – Se interrompeu, os olhos ainda mais assustados. – Quem é você?

- Eu sou Akashi Seijuurou, é claro... Tetsuya.

“Dentro de Akashi tem uma outra pessoa”, os olhos do mais novo começaram a se encher de água, enquanto ele caía de joelhos, sozinho em seu quarto. “É claro que eles são fortes dessa maneira, mas.... Você realmente pode chamar isso de time? ”

 

 

- Kuroko-san, eu sei o quanto você tem dado duro até agora. Mas mesmo assim, a sua posição no time caiu. – Dizia o conselheiro do clube de basquete de Teiko. O pequeno garoto segurava com uma força violenta os seus machucados pulsos, tremendo. – Desistir do time não é uma ordem. Você que deve decidir. – O jovem saiu andando daquele lugar, não conseguindo processar todas as coisas que tinham acontecido nos últimos meses.

Enquanto andava em passos vagarosos e silenciosos através da saída, encostou sua cabeça contra um poste, a carta de resignação em sua mão para caso desistisse e tivesse de preenche-la. Seus olhos encheram-se de lágrimas e caiu de joelho no chão. Antes que pudesse impedir, estava soluçando, engasgando com sua própria saliva, o desespero era mais do que perceptível no seu tom rouco de choro.

- O que eu devo fazer? – O garoto se encolheu, lembrando-se da personalidade animada de Kise, da determinação de Aomine, da maneira gentil oculta de Midorima, da infantilidade de Murasakibara e do cavalheirismo de Akashi antes de que cada um deles mudassem. – Murasakibara-kun, Kise-kun, Aomine-kun, Midorima-kun, Akashi-kun... – Sussurrou, abraçando seus próprios joelhos enquanto chorava.

Lembrou-se dos momentos enquanto saía com todos eles, comprando picolés e guloseimas para se divertirem depois dos longos dias de aula e treino. Lembrou-se de seus jogos ganhos em que todos comemoravam animadamente, lembrou-se do amor que compartilhavam, da amizade que deveria durar para sempre e, repentinamente, Kuroko percebeu que ele, provavelmente, não precisava continuar naquele mundo.

 

 

Kuroko passou um mês inteiro pensando sobre sua carta de resignação e sobre sua relação com a sua própria vida. No meio tempo, havia se mutilado mais do que qualquer outra vez, havia sido espancado diversas vezes por seu bêbado pai, intimidado pelos jovens recém libertos da prisão para menores infratores. Teriam pego penas maiores se Kuroko tivesse permitido que seus amigos contassem sobre o estupro...

Ele não tinha mais medo daquela palavra que havia evitado tantas vezes: suicídio, morte. Ela era mais confortável do que assustadora, mesmo que causasse terríveis calafrios por toda a sua coluna vertebral. Naquele dia em especial, já tinha preparado sua carta e, junto com ela, havia colocado uma outra carta, feita especialmente para aquelas cinco pessoas, a Geração de Milagres: as pessoas que haviam salvado ele de si mesmo, mesmo que por pouco tempo. Eles tinham feito com que ele tivesse boas memórias.

Eles tinham sido as primeiras boas memórias de Kuroko Tetsuya.

O jovem adentrou seu banheiro, olhando sua imagem no espelho: tinha perdido quinze quilos, já havia passado dos limites do saudável há muito tempo. Retirou todas as suas roupas, ficando apenas em suas roupas íntimas. Pegou um pote de remédios para cirrose que seu pai tomava, ele sabia que não duraria mais de meia-hora depois de tomar tudo aquilo.

Jogou todas as pílulas em suas pequenas e trêmulas mãos, as encarando por longos segundos.

“Kurokocchi!!” Lembrou-se da voz de Kise enquanto o loiro corria acenando em sua direção, um sorrido extremamente divertido em seu rosto, os olhos apertados em pura alegria. “Vamos Kurokocchi! Akashicchi, Midorimacchi, Aominecchi e Murasakibarachhi estão nos esperando para irmos no Maji’s Burguer! ” Lembrou-se dele sendo puxado pelo mais alto, lembrou-se de todos os outros quatro acenando em sua direção quando o viram.

Lembrou-se do rosto feliz de Murasakibara, do sorriso contido de Midorima, da animação crua e pura de Aomine e da satisfação de Akashi. Lembrou-se de ser abraçado por cada um deles no seu aniversário no segundo ano do Ensino Fundamental. Lembrou-se de receber presentes de cada um deles, lembrou-se de festejar com eles.

Kuroko chorava alto, jogando todas as pílulas em sua boca e as engolindo com dificuldade. Os membros da geração de milagres tinham construído sua felicidade e tinham arruinado ela também. Eles tinham sido o início e... Agora eles seriam o fim do deprimido Kuroko.

Enquanto isso, no ginásio onde Aomine, Kise, Midorima, Murasakibara e Akashi estavam reunidos, todos estavam estupefatos em descobrir que o pequeno de cabelos azulados havia desistido do time.

- E o que é essa outra carta? – Questionou Midorima, enquanto o capitão pegava a dita carta extra e começava a ler em voz alta.

 

Kuroko rasgou seus braços verticalmente, o sangue jorrou com violência de suas veias e artérias rompidas. Suas lágrimas continuavam caindo de seu rosto sem serem paradas, a tristeza de seus lamentos e lamúrias eram dolorosos demais para os ouvidos de qualquer um. Sentia o ardor dos remédios que começavam a fazer efeito em seu corpo, sentia a dor que o invadia apenas de se lembrar das vozes de seus amigos, da voz de seu pai, da voz dos jogadores que o espancavam e o estupraram.

Kuroko sentia aquela dor como nunca havia sentido ao longo de toda a sua vida e, mesmo assim, fechou os olhos e sorriu. Por que ele finalmente ia fugir de tudo aquilo: ele não estava pronto para morrer, mas ele com certeza estava pronto para fugir da realidade definitivamente.

 

- “Querido leitor,

Eu dirijo essa carta para qualquer um que esteja interessado na maneira com que eu, de uma vez por todas, desisti de minha vida. Eu originalmente, espero que essa carta seja lida pelas cinco únicas pessoas que realmente me importaram em toda a minha vida: Murasakibara-kun, Midorima-kun, Aomine-kun, Kise-kun e Akashi-kun; sim, vocês.

Bem, eu deveria começar novamente, certo? Então, queridos Murasakibara-kun, Midorima-kun, Kise-kun, Aomine-kun e Akashi-kun. Quando vocês cinco lerem essa carta, eu estarei morto. ” – Akashi se calou, engasgando em suas próprias palavras, mas não parando de ler. – “Tudo começou quando minha mãe morreu, eu diria. Quando a única pessoa que me valorizava de verdade e verdadeiramente cuidava de mim partiu para outro mundo. Meu pai tornou-se extremamente violento depois disso, se embebedando todas as noites. Sim, os machucados que eu sempre tinha muitas vezes eram causados por ele, outras vezes, eram causados pelas pessoas que vocês encontraram uma vez.

De fato, a mudança drástica na personalidade do meu pai foi decisiva para que eu começasse a diminuir a minha alimentação e, principalmente, a minha presença. Eu já havia nascido dessa maneira, com uma presença fraca e quase imperceptível, mas, para evitar ser espancado repetidamente por meu pai, tive de aprender a esconde-la. Precisei aprender como me tornar um verdadeiro fantasma no mundo dos vivos.

Quando entrei para Teiko Chuugakou, não esperava que faria amizades lá e que encontraria alguém que verdadeiramente acreditasse em meu potencial. Não, na verdade, cinco alguéns que verdadeiramente acreditassem no meu, digamos, ‘talento’. Eu rapidamente me tornei emocionalmente dependente de cada um de vocês, mesmo que vocês nunca tivessem sequer sonhado algo como isso. Eu vivia da animação de Aomine-kun, da alegria contagiante de Kise-kun, da infantilidade divertida de Murasakibara-kun, da gentileza e cavalheirismo de Akashi-kun e da gentileza e maneira indiferente de agir de Midorima-kun.

Mesmo assim, meu pai continuava me espancando e, com minha ascensão para a primeira divisão do time de basquete, os outros que haviam sido colocados na segunda e terceira divisão começaram a me intimidar. Primeiramente, eram só palavras cruéis e em questão de semanas, todos eles se juntavam para me agredir fisicamente. Inicialmente, eu me esquecia rapidamente dessas coisas só de receber o sorriso e apoio de vocês cinco.

Mas depois que ganhamos o Campeonato Nacional, todos vocês começaram a mudar drasticamente.... Eu sequer sabia o que fazer com todas aquelas rápidas alterações nas personalidades de cada um de vocês. Kise-kun parecia mais e mais distante, Aomine-kun estava convencido de que ele não precisava de ninguém além de si mesmo, Midorima-kun tinha certeza de que ele sempre tinha os lances perfeitos, Murasakibara-kun não respeitaria ninguém mais fraco do que ele e Akashi-kun sucumbiu para o segundo Akashi dentro de sua mente. Todos vocês me abandonaram, um por um.

Mesmo assim, eu continuei lá. Até o dia em que eles me encurralaram e disseram que queriam me transformar em um fantasma. Depois de me espancarem e de me estuprarem, eu passei a pensar que, na verdade, me tornar um verdadeiro fantasma podia ser o mais perfeito desfecho para a minha vida. O sexto homem fantasma se torna um verdadeiro fantasma...

Perfeito, certo?

Depois de cuidarem de mim, vocês voltaram a se tornarem frios e distantes novamente. Não éramos mais um time, éramos apenas pessoas solitárias e quebradas que se juntavam por uma hora para jogarmos e, no fim, voltávamos para nossa solidão e nosso pequeno mundo egoísta. Eu tentei trazer cada um de vocês de volta, mas não sucedi em nenhum dos casos. Os últimos foram Aomine-kun e Akashi-kun, que me mostraram que, no final das contas, a esperança nunca havia estado lá.

Eu tinha me iludido desde sempre. Depois que comecei a me mutilar, isso tornou-se ainda mais claro aos meus olhos. A esperança não estava ali, ela nunca tinha existido por tempo o suficiente para ser considerada uma realidade. Sua existência efêmera e ínfima tinha se acabado em segundos, no momento em que todos vocês se entregaram para seus esmagadores talentos.

Quando o sensei me entregou a carta de resignação para que eu pudesse decidir se continuaria tentando ou se eu finalmente desistiria do time, eu pensei que já estivesse passando da hora que eu entregasse minha carta de resignação para mim mesmo. Eu queria resignar do trabalho insuportável de ter que aguentar minha própria vida, eu queria desistir de mim e foi quando eu percebi que eu não ia estar me matando.

Para me matar, eu tinha que estar vivo. E eu só fui vivo naqueles belos momentos em que vocês estiveram ao meu lado. Agora, tudo se acabou.

Essa é a história do meu fim, caro leitor. O fato é que eu nunca fui querido, nunca fui desejado, nunca fui ouvido e, principalmente:

Eu nunca fui visto.

 

Adeus, Akashi-kun, Midorima-kun, Kise-kun, Aomine-kun, Murasakibara-kun, eu amo vocês.

Adeus, papai. Eu sei que você deu o seu melhor.

 

- Kuroko Tetsuya” – Assim que terminou, Akashi caiu de joelhos no chão, os olhos heterocromáticos tinham voltado ao tom de vermelho normal. Lágrimas lentamente começaram a cair e, no momento em que Aomine e Kise começaram a correr em direção à casa de Kuroko, o capitão do time masculino de basquete de Teiko soltou um alto e desesperado grito de agonia. Midorima e Murasakibara forma logo em seguida, alcançando os outros dois para que pudessem chegar na casa do pequeno azulado.

“Tetsuya”

O ruivo se levantou, ligando para a emergência e dando o endereço da casa do mais novo, dizendo que ele achava que seu querido Kuroko tinha tentado cometer suicídio.

“Akashi-kun está tão cheio de si hoje” a repentina aparição da voz do azulado em sua cabeça o fez congelar no lugar.

“Akashi-kun, eu finalmente aperfeiçoei meus passes”

“Akashi-kun! ”

“Que livro está lendo hoje, Akashi-kun? ”

- Tetsuya... Nos perdoe...

 

 

Quando o ruivo de olhos dicromáticos finalmente alcançou os outros membros da geração de milagres na residência dos Kuroko, ele sabia que todas as suas preces haviam sido em vão. Kise chorava desesperadamente enquanto se segurava em roupas manchadas de sangue que, pelo tamanho, eram provavelmente do rapaz de cabelos azuis que morava naquela casa. Aomine gritava com os paramédicos, ordenando que eles tirassem ele de dentro daquele saco onde colocavam pessoas mortas, que Tetsu com certeza estava vivo. Murasakibara estava parado em choque, os olhos presos em suas mãos manchadas de sangue. Midorima abraçava o seu próprio corpo, chorando em silêncio.

Akashi sentiu que seus joelhos iriam ceder mais uma vez, entretanto, utilizou toda a sua força restante para passar pelos paramédicos e abriu o pequeno saco branco de polietileno.

Lá estava ele, o rosto delicado e quase feminino de Kuroko Tetsuya. Seus olhos fechados estavam emoldurados por olheiras fundas, o rosto mais magro do que jamais havia sido. Lágrimas secas manchavam seu rosto, seus lábios estavam machucados pelo o que pareciam ser marcas de mordidas. Seu corpo estava nu, os braços manchados de sangue seco com um corte vertical em cada um, feito em cima de outros vários cortes horizontais.

Akashi quase podia ver os ossos dos finos braços de Kuroko, tamanha era a profundidade da ferida. Seus joelhos ainda não haviam cedido, até que se aproximou, beijando delicadamente e com todo o carinho guardado em seu coração a testa do garoto.

- Me desculpe... Tetsuya... – O ruivo começou a chorar, enquanto os paramédicos apenas observavam, sem reação. – Me desculpe por não ter te salvado antes, Tetsuya! Nos desculpe, Tetsuya... – O geralmente calmo e composto Akashi se perdeu em lágrimas.

 

“Você não quer saber a minha história”

- Tetsu! – Gritava Aomine, os olhos encharcados em lágrimas sentidas e os lábios contorcidos em dor. – Acorde... ACORDE TETSU!

“Você não viu o que eu vi, não ouviu o que eu ouvi, não passou pelo o que eu passei”

- Kurokocchi, Kurokocchi... – Sussurrava, abraçando as roupas encharcadas em sangue de seu querido, pequeno Kuroko. A visão de encontra-lo sangrando no chão de seu quarto nunca iria deixar sua mente.

“Eu não era querido, não era desejado, não era ouvido e principalmente, eu nunca fui visto”

- Isso não está acontecendo, isso não está acontecendo... – Sussurrava Midorima, repetidas e repetidas vezes, se balançando para frente e para trás. Murasakibara caiu em seus joelhos, sem qualquer reação. Seu rosto demonstrava completo, cru e inegável choque.

“Essa não é a história da minha vida”

- Tetsuya... – Chamava Akashi, beijando a testa do pálido e gelado corpo do azulado diversas vezes. – Tetsuya...

“Essa é a história do meu fim. ” – Kuroko Tetsuya


Notas Finais


Espero que tenham gostado desse one-shot, queria colocar ele já faz um tempo. Obrigada por lerem!


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