História Utopias - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias Originais
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - (Dis)Topia


(DIS)TOPIA 

 

- Vamos sair daqui, Aidan. – a voz de Victoria era baixa e fraca. – Eu não gosto daqui. 

Ela agarrou a minha mão e puxou-me em direção a porta, mas meus sapatos estavam grudados no chão como as garras de uma águia. A loira me puxou mais uma vez. Desta vez a segui, sem entender o que acontecia. O garoto fantasma continuou parado, no meio do galpão, enquanto Victoria trancava silenciosamente a porta. 

O ar do lado de fora agora parecia como gelo. Victoria ainda segurava minha mão, seus olhos fechados com força. Livrei-me de seu braço e me afastei daquela construção. Minha cabeça voltara a doer, o cansaço atingiu-me rapidamente. 

Sentei na areia e olhei para o mar. A loira se aproximou. 

- Quem é ele? – perguntei. Victoria parou. 

- Eu não sei. – sua voz era seca. – Vamos para casa, por favor. Eu estou cansada. 

Virei-me e encarei seu rosto. A loira parecia perturbada com o que acabara de ver. 

- Tudo bem. Esse cara pode ser um psicopata mesmo. 

O caminho foi quieto. Victoria não falou uma palavra, apenas caminhou. Logo chegamos na praça e a loira se despediu sem falar uma palavra sequer. Me arrastei até minha casa e tranquei a porta. Respirei profundamente. O que estava acontecendo? 

Me atirei no tapete felpudo da sala e encarei o teto. Como aquele menino sabia o nome da minha melhor amiga? Por que estava escondido num galpão? Será que era um psicopata? Ele iria atrás de Victoria? Ele iria atrás de mim? Eu não soube responder nenhuma das perguntas. 

O tempo passou como uma rajada de vento. Rápido, frio, e você nunca se dá conta dele até o primeiro sintoma do resfriado aparecer. A noite chegou e foi embora. A manhã apareceu e o sol também. Olhei pela janela. A praia estava vazia. 

Minha mente escureceu por um momento. Peguei a jaqueta e um pé-de-cabra. Abri a porta. O vento me atingiu em cheio. 

 

O galpão continuava do mesmo jeito, caindo aos pedaços. Tranquei a respiração e bati com o pé-de-cabra nas correntes. Elas caíram com um som distorcido. Empurrei a porta e entrei. O garoto ainda estava ali. 

Empunhei o instrumento de ferro acima do meu ombro e apontei para aquela figura fantasmagórica. Ele não prestava atenção em mim. Estava no meio do galpão, na mesma posição de antes, encarando um buraco no teto. Me aproximei. 

- O que está fazendo? – perguntei, atuando uma falsa coragem. 

O garoto me encarou, seus olhos eram um oceano sem vida. 

- Cale a boca. 

Minha expressão se desfez em segundos. Recuperei minha postura rapidamente. 

- Quem é você? Responda-me de uma vez. 

- Cale a boca. 

Senti minhas veias esquentarem de raiva. 

- Como você conhece Victoria? Você é um psicopata? 

Os ouvidos do garoto pareceram se atiçar. Ele se aproximou. Agarrei com força o pé-de-cabra. 

- Victoria? – ele engoliu em seco. Apontou o dedo magro para meu rosto. – Não confie nela. 

- E quem é você para me falar isto, cara? – meus olhos arderam como fogo. 

O garoto pareceu refletir sobre a pergunta que lhe fizera. Seu rosto era fechado e escuro. Ele me encarou, seus olhos escondiam um medo profundo. Piscou algumas vezes. 

- Eu sou o irmão dela. – ele esbugalhou os olhos de gelo. – Não confie nela. 

O som do pé-de-cabra caindo aos meus pés me fez acordar. Demorei para assimilar o que o garoto fantasma queria dizer. Peguei bruscamente o ferro aos meus pés e apontei para a figura doente à minha frente. 

- Você não passa de um mentiroso! – levantei o pé-de-cabra e ameacei bater no garoto. – Eu vou te matar! 

As palavras se perderam na minha garganta. Senti o peso do ferro sobre meus ombros. O garoto continuava parado, os olhos apertados sem qualquer medo. Seus braços estavam largados ao lado do corpo magro, como se esperasse pacientemente a agressão. 

Abaixei o pé-de-cabra por um momento. Ele não se moveu. Os olhos se abriram, tristes e surpresos.  

- Quem é você? – fez a mesma pergunta que lhe fizera. – William te enviou para me matar, certo? – ele se ajoelhou à minha frente e encarou-me. – Por favor. Por favor, faça isso. 

Estava um tanto confuso naquele momento. Aquele nome... William. Mas existiam várias pessoas com o nome William neste mundo, não? É claro que existiam, mas era tão confuso... 

- Qual é o seu nome? – minha voz continuava fria. – É sua última chance. 

O garoto respirou fundo, pude ver suas costelas sob a camisola. 

- Seth. 

- Sobrenome... 

- Eu não sei. Eu não tenho. 

- Então... – me aproximei de seu rosto branco. – Você realmente é um mentiroso, Seth. Você não irmão de Victoria. Por que ela tem um nome. E dignidade. E uma família. 

Um par de olhos de gelo se cravaram nos meus. Pareciam um barril de pólvora prestes a estourar, e era eu quem segurava o fósforo. 

- O que você entende de família? – o garoto me encarava. – Só por que tenho um pai não significa que sou filho dele. Eu odeio William Klek. Ele é mau, como os vilões das histórias. Ele não ama ninguém. 

William Klek. Não. 

- Se ele é seu pai, por que você está aqui? 

- Eu sei lá. – o garoto desviou o olhar. – Eu não lembro o por quê. 

Por alguns minutos parei e pensei. O que é que eu estava fazendo ali? Seth, se é que era esse seu nome, era provavelmente um psicopata que estava atrás de Victoria, da sua família. Mas por que eu sentia uma fraqueza tão repentina naquele lugar? Era como se fosse... 

Um estrondo fez meus ouvidos doerem. A porta se abriu abruptamente e uma sombra negra se ergueu sobre mim. Seth fechou os olhos quando o sol atingiu sua face. Não ousei me mexer. O barulho de um revólver gelou meus nervos. 

- E é assim que as coisas realmente funcionam, filho. 

 

William Klek sempre fora amado por todos em Chellbeur. Era um homem de família. Tinha uma esposa amorosa e dedicada, duas filhas lindas e inteligentes e um carisma invejável. Possuía grande riqueza, mas nunca negava dividir seus bens com quem precisasse. 

Desde pequeno, quando conheci Victoria, via o prefeito como um exemplo, um pai. Eu o amava, assim como toda sua família.  

E agora o velho tinha um revólver direcionado a mim. 

- Sabe, pequeno Aidan. – sua sombra se aproximou. – Você foi bem rápido, descobrindo como a política funciona por aqui, apesar de não saber sobre essa história. Talvez devesse te contar... Aliás, você é meu garoto, não? 

Um calafrio percorreu minha espinha. Senti o cano da arma em minha nuca. Meus olhos lacrimejaram de medo. 

- Vejo que conheceu meu outro garoto... Não devia ter feito isto, Aidan. – ouvi o cão do revólver sendo puxado. Gelei. O homem suspirou. – Eu mataria o primeiro que entrasse aqui, mesmo um dos meus homens, sabia? Mas, até que você tem sorte, menino. Eu não posso te matar desta vez. Você me substituirá, certo? – o cano gelado foi desencostado da minha pele. O homem andou até mim. – Talvez suas aulas devessem começar agora. Que tal aprendermos como ficar no poder por aqui? 

O prefeito me encarava com um sorriso. Um sorriso cínico e frio. Pegou o pé-de-cabra de minhas mãos e me entregou a arma. Não me mexi em nenhum momento. Ele examinou o pé-de-cabra cuidadosamente. 

- Seu pai tem um bom gosto, Aidan. – entregou-me novamente e guardou o revólver consigo. – Vamos usá-lo então. 

O velho agarrou Seth e levantou-o pela gola da camisola. O garoto encarou o pai, seus olhos continuaram secos e sem vida. Uma onda de culpa e medo invadiu-me tão rápido quanto se fora. Ele falara a verdade. 

- Preste atenção, Aidan! Está vendo este garoto? Ele não é nada. – ele apontou para meu pé-de-cabra. – Machuque ele, usando isso. Saiba que vai fazer todos os dias a mesma coisa, então é melhor treinar. – minha boca se abriu em espanto e horror. Ele percebeu e sacou a arma do bolso. – Faça isto, agora. 

Meus olhos se encheram de lágrimas, mas não deixei-as cair. O velho havia voltado a ficar atrás de nós, observando cada movimento que fazia. Me aproximei de Seth e agarrei o pé-de-cabra. O prefeito pigarreou. 

- Não vai me perguntar onde bater?  

Uma lágrima caiu. Eu estava apavorado. 

- Por favor, Sr. Klek, não... – minha voz era um fio. 

Ouvi a arma sendo destravada novamente. Olhei para o garoto ajoelhado a minha frente, seus olhos eram vazios. “Por favor. Por favor, faça isto.” 

Minha boca se abriu. 

- O-onde? – engoli em seco. 

- Bom menino... – ele riu. – Nos joelhos. E o resto... deixa que eu faço. 

Suspirei e fechei os olhos. As lágrimas caíram. Impulsionei o pé-de-cabra e dei o primeiro golpe. Pude ouvir o osso se partindo. 

 

A semana passou como o vento, frio e cortante. As imagens daquele dia ainda rondavam minha mente, mas agora tinha a certeza de que o Sr. Klek era um monstro. Não abri a porta de casa nem para pegar o leite morno das manhãs. Era como se tivesse vivido dentro de uma lente, onde apenas as maravilhas do mundo poderiam ser vistas. Bom, a lente havia se espatifado no chão. E agora os cacos cortavam os meus pés até sangrar. 

Chellbeur não havia mudado nada; festas, comida, turistas, mais turistas e mais festas. Não participava mais. Victoria batia todos os dias à minha porta, depois de esperar horas e horas na praça. Não havia aberto nenhuma vez, até agora. 

A loira se atirou nos meus braços quando finalmente atendi as suas batidas na madeira. Disse que estava morrendo de preocupação. 

Quando Victoria terminou suas reclamações, arrastei-a até a porta e peguei minha jaqueta sem dizer uma palavra. 

As ruas eram movimentadas, mas nada daquilo me importava mais. Ao longe, no horizonte, meu alvo se erguia acima das casas.  

Caminhei depressa entre as pessoas até chegar além de qualquer construção. As colinas desertas se erguiam sob nossos pés. No topo, a cidade parecia uma maquete. Me virei para a loira. 

- Precisamos conversar. 

Victoria sorriu. 

- Claro. – ela enroscou seu braço no meu. Soltei-o depressa. 

- Você tem um irmão, Victoria. 

Seu sorriso desapareceu. 

- Isso é uma pergunta? Pois já digo que... 

- Não minta. – interrompi. Ela se calou. 

A loira sentou na grama e enrolou os joelhos entre os braços. Sentei ao seu lado. Seu rosto adquiriu uma expressão fria. 

- Você voltou ao galpão, não é? – ela suspirou. – Eu sei. 

- Como sabe? – encarei o sol além daquela muralha. Esquentou meus cabelos. 

- Fui eu, Aidan. – ela baixou a cabeça. – Eu que contei para o meu pai sobre o que você viu. Ninguém podia saber. 

- Bom... – encarei-a surpreso. – Não me importa o motivo. – a raiva parecia me possuir. – Só espero que saiba de uma coisa, Victoria: seu pai vai matar seu irmão daqui a pouco. Ele não ama ninguém! 

- Não fale assim do meu pai, Aidan! – ela se levantou raivosa. – Ele te trata como um verdadeiro filho. Então retribua e não se intrometa! 

Parei por um instante. William Klek não era mais meu pai. Nunca mais seria. 

- Acha isso certo, Victoria? – minhas veias ardiam de raiva. – Matar pessoas? 

- Não pode falar assim de mim, Aidan... 

- VOCÊ ACHA CERTO, VICTORIA? 

Ela encarou a cidade. 

- Pessoas morrem o tempo todo, Aidan. 

Fechei os olhos e respirei fundo. Minha cabeça iria explodir, eu tinha certeza. Meu peito doía com o nojo e desprezo que sentia no momento. Ela encarava o chão, finalmente sua máscara havia caído. 

Recuperei minha postura e voltei as ruas de Chellbeur. Corri até o galpão e pulei a janelinha. Seth ainda chorava pelas marcas que seu pai fizera uma semana atrás. 

 

O garoto fantasma estava encolhido entre as pilhas de roupa suja. Sua respiração era entrecortada, provavelmente sentia uma dor massacrante. O joelho direito estava inchado e torto como uma batata, não conseguia caminhar. Os furos feitos pelas garras do pé-de-cabra ainda sangravam em suas costas. Fechei os olhos. 

- O que está fazendo aqui? – sua voz machucada doeu em meus ouvidos. – Se William aparecer de novo... 

- Ele não vai. – me aproximei. – Você vai sair daqui. Eu vou ajudar. 

- Cale a boca. Isso não é uma história, é a vida real. É impossível. – ele tossiu sangue. 

- Não é verdade, Seth. – tentava manter minha voz dura. Fechei os olhos. – Olhe o que eu fiz com você... Por favor. 

- Você vai morrer se fizer isto. E eu também. Eu não quero. 

Pensei. Era uma verdade óbvia. É claro que morreríamos, ou quase. Mas era a coisa certa, não? Ajudar todos. Estendi o braço para o loiro. 

- É sua última chance. – menti. – Devia apertá-la, Seth. 

O garoto vidrou os olhos no teto do galpão. 

- Por acaso já viu uma estrela, Aidan? – o garoto apontou para um pequenino buraco no teto. Seth vivia encarando aquilo. – Eu já. 

- Mas aquilo é um buraco.  

- O que você vê por ele? 

- Nada. É só o céu. 

- No céu existem estrelas, Aidan. 

Franzi o cenho, ele estava louco? 

- Só podem ser vistas à noite, Seth... 

- Mas ainda estão lá. – concluiu. – William disse-me uma coisa certa vez. Era uma criança, e perguntei por que tinha que ficar escondido no galpão. Ele respondeu: “Aprendi uma coisa com o tempo, Seth. Algo muito importante para viver plenamente. Se você comete erros, livre-se deles depois. Se você comete maldades, esconda-as em um galpão.” Sabe o que significa? – neguei com a cabeça. Ele sorriu tristonho. – Talvez um dia descubra. Agora vamos, me ajude a levantar. 

 

A manhã seguinte havia sido um caos. O prefeito havia cancelado todas as atividades na prefeitura, e eu sabia exatamente o motivo. À tarde, o homem veio a minha casa procurar por Seth, não encontrou nada. Ele não estava lá. Victoria não ousou bater à minha porta novamente. 

Os dias seguiram assim, sem ninguém saber o paradeiro de Seth. A não ser eu. Foi assim que, na madrugada de terça-feira, saí a caminhar pelas ruas vazias até a pequena casinha de um médico aposentado. 

O Dr. Miles era um velho viúvo que passava os dias em sua cadeira na varanda. Morava em uma das casas mais afastadas da prefeitura, onde a natureza verde escalava as paredes. Trabalhara por cinquenta anos em tantos lugares do planeta que já nem contava mais. Era um velho simpático e esperto, deixou-me entrar animadamente. 

Sua casa era aconchegante e quentinha. O homem levou-me até a última porta do corredor e parou. 

- Como os ferimentos estão? – perguntei ao velho. 

- O garoto melhorou muito nos últimos dias. – sorriu. – Consegui evitar uma infecção nos ferimentos das costas, e o joelho já está voltando para o lugar. Seu amigo se recupera rápido! 

O velho piscou e se retirou. Abri a porta e me deparei com Seth de pé, sobre um par de muletas, encarando uma pequena prateleira de livros. Ele pegou um e me mostrou. Era um pequeno e velho livrinho de contos. 

- Este parece ótimo, a capa é bonita. 

- Você gosta de ler? – sentei na ponta da cama. – Eu adoro. 

- Eu não sei ler. – ele largou o livro. – Nunca fui a escola. 

Ele virou-se para mim, seus olhos eram tristonhos e sem brilho. Seth largou as muletas e sentou-se ao meu lado. 

- Meu pai não ensinou nada mais do que ser um tremendo monstro. – suspirou. – Talvez eu pudesse aprender com o Dr. Miles... – ele sorriu. – Quanto tempo vou ficar aqui, Aidan? 

- Não muito. Até você ficar forte. – sorri. – O que anda comendo? 

O garoto fantasma riu. 

- Tudo. O Dr. Miles cozinha muito bem, principalmente as sobremesas! – ele lambeu os lábios. – Pirulitos são gostosos... 

Fiquei o resto da madrugada ali, conversando com Seth. Era um jovem interessante, podia dizer. Não sabia muitas coisas sobre matemática, história ou qualquer outra coisa desse tipo. Mas ele sabia pensar de verdade, por ele mesmo, ao contrário da maioria das pessoas que conhecia. 

Quando o sol nasceu, despedi-me do Dr. Miles e voltei para casa. Dormi o resto do dia. À noite voltei ao casebre do velho e tomei um chá com os dois. O resto da semana foi a mesma coisa, e a outra também.  

O mês passou voando como os passarinhos em dias de calor. Ia à casa de Miles todos os dias, sem exceção. Pude ver Seth crescer o que não conseguiu quando criança. Sua pele pálida e doente agora estava bronzeada e saudável. Os machucados em suas costas haviam se curado completamente e já podia andar sem muletas.  

O Dr. Miles parecia constantemente alegre com a companhia do garoto. Seth não estava mais magro como antes, suas bochechas de osso agora podiam ser esmagadas entre as mãos. O loiro também estava aprendendo a ler e escrever com o velho médico. Passava horas e horas lendo na varanda, sempre o mesmo livro. O livro da capa bonita. 

Logo ele poderia zarpar de Chelllbeur para sempre. 

 

Por todo o mês, não houve notícias do prefeito e sua família sobre a situação delicada que havia me envolvido. 

Quando não estava com Seth, tentava agir naturalmente perto das outras pessoas. Sem levantar suspeitas. O prefeito não havia vindo atrás de mim até agora, achava difícil conseguir me encurralar em um beco e apontar sua arma na minha cabeça sem chamar atenção. 

Fazia planos de viagem para sair daquela cidade infernal. Agora era como se visse o mundo de uma forma diferente, não só as coisas boas. Comprei crédito na estação de trem para usar quando necessário. Era só sair daqui. 

Cinco dias depois Seth teve alta da casa do Dr. Miles. Escondi-o na minha. Dei algumas roupas minhas para ele manter em estoque. Seu joelho ainda não havia sarado completamente, mas tinha condições de viajar. Tomara. 

- Então é isso que você vai fazer? – ele perguntou. – Viajar? Eles ainda podem nos encontrar, sabia? E você nem tem idade suficiente para embarcar no trem sozinho. 

- Você vai comigo, Seth. Eu não vou sozinho e você já tem idade. 

Depois de muita discussão, ele aceitou bancar a babá para sairmos de Chellbeur. Os planos eram viajar logo na manhã seguinte, se não fosse um bilhete pregado em minha porta ao amanhecer. 

O Dr. Carter Miles estava morto. 

 

Foi impossível impedir Seth. Mesmo depois de explicar mil vezes que ele não podia sair daquela casa, em um piscar de olhos o loiro corria pelas ruas até a casa do médico. A única coisa que pude fazer foi correr atrás dele. 

A frente da casa estava intacta, era como se fosse apenas um outro dia de visitas àquele velho homem. A porta da frente estava delicadamente encostada, mas escondia algo brutal. No meio do corredor, o corpo do homem era coberto por poças de sangue provenientes de cinco furos em seu tronco. 

Seth caiu de joelhos, ignorando a dor no local. Seu rosto já estava completamente encharcado pelas lágrimas salgadas. Ele chorava desesperadamente. 

O bilhete não havia mentido. 

- Aidan, ele está morto. – se arrastou até o homem e abraçou seu peito vermelho. – Para sempre. Sempre... 

Andei até o garoto e o abracei em silêncio. Não havia nada a se falar. 

- É possível que, em apenas um mês... Eu achei um pai. – ele apertou o abraço. – Um pai carinhoso que não pude encontrar no meu próprio, durante dezoito anos. Está morto... 

Meu coração se apertou. Seth amou intensamente aquele homem. Um homem que cuidou dele muito mais que o próprio pai. E agora estava morto por minha causa. 

Um barulho nos separou. Vinha da cozinha. Sons de passos ecoaram pela sala, havia mais alguém ali. Puxei o loiro ensanguentado comigo até chegarmos na varanda. Um rosto conhecido nos esperava. William Klek, acompanhado de seus homens, encarava-nos com um sorriso amarelo. 

- Achou que não descobriria, Aidan? – ele subiu os degraus e parou em frente a nós. – É muito tolo, garoto. – ele tirou o revólver do bolso. – Disse que não haveria outra chance. Que pena... 

O homem apontou a arma em minha direção e posicionou o dedo no gatilho. Fechei os olhos e respirei fundo. Era meu fim. Afastei-me de Seth, ele chorava. Um, dois, três... 

- PARE! – um grito irrompeu meus ouvidos. Os cabelos loiros à minha frente se moviam com o vento. – Não pode fazer isso com Aidan! Não vou deixar, papai. 

Meus lábios se abriram. Era Victoria. 

- Saia da minha frente, Victoria! – ele puxou a garota pelo pulso. – SAIA! 

A loira não se moveu. Virou-se para o irmão. 

- Seth, acabe logo com isso! – ela apontou para meu rosto. – Você quer ver Aidan morto? 

- Não. – o garoto olhou para mim. Sua voz machucada pela dor. – Não. 

Victoria estendeu a mão. O Sr. Klek a agarrou novamente. 

- Então acabe com isso! – ela berrou. Sua voz era furiosa. – Você não é nada sem nós! Somos seu sangue! 

O garoto olhou para os lados. Seu olhar passou por suas roupas, sapatos, serpenteou pelo chão até o corpo do Dr. Miles, seguiram as pegadas de sangue das minhas botas e finalmente chegou em meu rosto. Seu olhar era vazio. 

- Eu sou tudo sem vocês. – ele virou-se para o prefeito. – Então faça o que quiser, você pode puxar o gatilho, pai. 

O velho não hesitou. O gatilho foi puxado. Os fios loiros se esparramaram no chão. 

 

Os dias passaram. Passaram lenta e dolorosamente. As malas estavam prontas para a viagem. Faltavam apenas algumas horas para a saída do trem. Visitei pela última vez o túmulo de Miles e sua esposa, deixei um ramo de violetas. 

Caminhei pela praia e voltei ao galpão. Resgatei minha lanterna de bolso. Tranquei a janelinha e a porta de madeira. Joguei as chaves no mar. O sol encostava o mar na manhã como os quadros de um museu. 

Arrumei a casa. Deixei um bilhete para meus pais, se é que eles voltariam depois de tantos anos. Parei na porta e me despedi daquela casinha. Adeus. 

Peguei as malas e fui à estação de trem. Uma cabeleira loira se escondia atrás de um pilar. Me aproximei. 

- Chegou cedo. – falei. A figura apareceu com um sorriso. 

- Não podia perder o trem, certo? É você que está atrasado. 

- Não exagere, Seth. – larguei as malas no chão. – Tinha que me despedir do Dr. Miles. 

Um sorriso triste brotou em seus lábios. Segurei sua mão. 

- Descanse em paz, meu velho. 

O trem chegou meia hora mais tarde. Era uma manhã ótima para se mudar para sempre. Largamos as malas e sentamos nas poltronas de couro. Seth tirou dois pirulitos do bolso. Me entregou um. Sorri. 

- Um brinde ao futuro. – ele levantou o pirulito. Fiz o mesmo. 

- Um brinde. 

- Sabe... – ele me olhou. – Acho que William gostava de histórias e lendas. Descobri o porquê de ter me mantido preso durante minha vida inteira. – franzi o cenho. Ele lambeu o pirulito. – É tudo uma história. “Mantenha alguém infeliz pela vida inteira e o resto do mundo será feliz.” Não sei se existe algum sentido, mas para ele funcionava... Chega a ser loucura. 

- É. – lambi o pirulito. – Onde encontrou isso? – o garoto tirou do bolso o livro de contos do Dr. Miles. 

- Aqui. – ele folheou o livro. – Sabia que ia ser ótimo.  – ele sorriu. – Aidan, ainda quer ser prefeito? 

- Eu não sei, talvez em algum dia. 

O loiro pegou minha mão. 

- Então seja melhor. Melhor que William. – sorri. 

Olhei pela janela, e meu sorriso desapareceu. Seth também parou de rir. A família Klek nos observava. O rosto da Sra. Klek se contorcia em desprezo e tristeza ao olhar para o filho. A pequena Maia corria entre os pilares, insistindo que Victoria brincasse com ela. O Sr. Klek não permitia, Victoria era a nova vítima. Meus olhos correram seu corpo. 

Em menos de cinco dias tinha emagrecido horrores. Seus cabelos e olhos não brilhavam mais e seu rosto era seco e ossudo. A mancha vermelha do tiro ainda cobria a alça de seu vestido. Olhei em seus olhos. Nada. 

Senti a locomotiva se mexer. Estávamos partindo. Seth apertou minha mão com força. Vi os olhos de Victoria se encherem de medo e horror. Desviei o olhar. Não importava mais. 

Agora o único destino era as estrelas. As guias da noite e do dia, em qualquer lugar do mundo. Olhei pela janela. Chellbeur já estava longe. Lembrei do que Seth havia me dito certa vez: 

 

“Lembra-se do que meu pai havia me contado quando pequeno? Bom, deixe-me explicar de uma vez. Erros, eles não são nada. Apague-os, negue-os, esconda-os e eles sumirão em segundos. Você se livrou deles. Mas o mal não é assim. Se esconder o mal, ele vai aflorar; se matá-lo, ele ressuscitará; se o negar, ele vai te induzir. Não se pode destruir o mal, por que então o bem não existiria, assim como as estrelas. E você não teria me salvado.” 

 

Sorri. 



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